sebenta algarve

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ESPAA, 2012/13 — Área de Integração, Tema 4.1: A identidade regional — Professor Paulo Sousa p. 1 Neste tema estudaremos a região. A primeira parte será teórica, a segunda será prática. Sugere-se ao alunos que alunos observem bem o que se passa à sua volta e aproveitem para dar alguns passeios, falar com os mais velhos e prestar atenção às pessoas ao lado de quem viajam nos autocarros. I Factores físicos ou naturais 1. Geologia e morfologia 1.1. História geológica do Algarve A geologia é a ciência que estuda a constituição, a formação e a evolução das rochas e o movimento das placas tectónicas. O estudo geológico de uma região permite-nos compreender algumas das condições e potencialidades que ela tem, por exemplo, para as actividades económicas, os recursos hídricos, o planeamento urbano ou as normas a ter em conta na construção de edifícios e obras públicas, por exemplo. O Algarve é uma zona sensível aos riscos sísmicos, devido: 1) à proximidade do banco de Gorringe (E-SW de Sagres) e de outras importantes falhas tectónicas ativas. A actividade sísmica pode ser observada e em http://www.meteo.pt/pt/sismologia/actividade/. Ao longo da serra algarvia, em especial na Serra de Monchique, ocorrem semanalmente vários pequenos sismos que não são sentidos pelas pessoas (círculos brancos na imagem). Os sismos registados ao longo da costa acompanham a falha que separa as placas europeia e africana, que se deslocam a velocidades e em direcções diferentes, criando linhas de tensão. As regras de construção e os planos da Protecção Civil, por exemplo, têm de ter em conta a possibilidade de ocorrência de um grande sismo. Tendo em conta a regularidade de, aprox., 200 anos entre grandes sismos e o facto de o último ter ocorrido há 260 anos, há cerca de 50 anos que se espera o próximo. Rochas do Algarve Existem na região três grandes tipos de rochas: plutónicas, sedimentares e metamórficas. Correspondem a diferentes períodos da história geológica da região. Os processos através dos quais se formaram essas rochas e os solos da região são igualmente diferentes. Rochas plutónicas:Algumas das rochas do Algarve testemunham os movimentos das placas e alguma atividade vulcância ocorrida no passado: na Serra de Monchique encontramos uma grande massa de rocha plutónica (sienito) que se formou a grande profundidade, arrefecendo lentamente, caracterizada por grandes critais (quanto mais rápido é o arrefecimento, menores são os cristais). O sienito é uma rocha de aspecto (e origem) semelhante ao granito, mas de diferente composição química. Junto à localidade da Nave existe uma pedreira, da qual se extrai sienito para a produção de rochas ornamentais e outros fins. As fontes termais (fontes de água quente) das Caldas de Monchique indicam a presença de falhas geológicas activas: são zonas onde o calor do interior do planeta chega mais perto da superfície. 15/10/2012

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Sebenta Algarve

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  • ESPAA, 2012/13 rea de Integrao, Tema 4.1: A identidade regional Professor Paulo Sousa p. 1

    Neste tema estudaremos a regio. A primeira parte ser terica, a segunda ser prtica. Sugere-se ao alunos que alunos observem bem o que se passa sua volta e aproveitem para dar alguns passeios, falar com os mais velhos e prestar ateno s pessoas ao lado de quem viajam nos autocarros.

    I Factores fsicos ou naturais 1. Geologia e morfologia

    1.1. Histria geolgica do Algarve

    A geologia a cincia que estuda a constituio, a formao e a evoluo das rochas e o movimento das

    placas tectnicas. O estudo geolgico de uma regio permite-nos compreender algumas das condies e

    potencialidades que ela tem, por exemplo, para as actividades econmicas, os recursos hdricos, o

    planeamento urbano ou as normas a ter em

    conta na construo de edifcios e obras

    pblicas, por exemplo.

    O Algarve uma zona sensvel aos riscos

    ssmicos, devido: 1) proximidade do banco de

    Gorringe (E-SW de Sagres) e de outras

    importantes falhas tectnicas ativas. A

    actividade ssmica pode ser observada e em

    http://www.meteo.pt/pt/sismologia/actividade/. Ao longo

    da serra algarvia, em especial na Serra de

    Monchique, ocorrem semanalmente vrios

    pequenos sismos que no so sentidos pelas

    pessoas (crculos brancos na imagem). Os

    sismos registados ao longo da costa

    acompanham a falha que separa as placas

    europeia e africana, que se deslocam a velocidades e em direces diferentes, criando linhas de tenso. As

    regras de construo e os planos da Proteco Civil, por exemplo, tm de ter em conta a possibilidade de

    ocorrncia de um grande sismo. Tendo em conta a regularidade de, aprox., 200 anos entre grandes sismos e

    o facto de o ltimo ter ocorrido h 260 anos, h cerca de 50 anos que se espera o prximo.

    Rochas do Algarve

    Existem na regio trs grandes tipos de rochas: plutnicas, sedimentares e metamrficas. Correspondem a

    diferentes perodos da histria geolgica da regio. Os processos atravs dos quais se formaram essas

    rochas e os solos da regio so igualmente diferentes.

    Rochas plutnicas:Algumas das rochas do Algarve testemunham os movimentos das placas e alguma

    atividade vulcncia ocorrida no passado: na Serra de Monchique encontramos uma grande massa de rocha

    plutnica (sienito) que se formou a grande profundidade, arrefecendo lentamente, caracterizada por grandes

    critais (quanto mais rpido o arrefecimento, menores so os cristais). O sienito uma rocha de aspecto (e

    origem) semelhante ao granito, mas de diferente composio qumica. Junto localidade da Nave existe uma

    pedreira, da qual se extrai sienito para a produo de rochas ornamentais e outros fins. As fontes termais

    (fontes de gua quente) das Caldas de Monchique indicam a presena de falhas geolgicas activas: so

    zonas onde o calor do interior do planeta chega mais perto da superfcie.

    15/10/2012

  • ESPAA, 2012/13 rea de Integrao, Tema 4.1: A identidade regional Professor Paulo Sousa p. 2

    Na praia da Luz existe um conjunto de chamins vulcnicas, uma das quais se pode visitar durante a mar

    vazia.

    No talude da estrada IC4, imediatamente abaixo do hospital do Barlavento, visvel um tufo de basalto, uma

    rocha vulcnica: uma bolha de rocha lquida subiu quase at superfcie e a se solidificou. O calor da rocha

    lquida cozeu e alterou as rochas sedimentares que j a existiam, alterando a sua cor e a sua composio

    qumica. Isto significa que antes de se formar o referido tufo basltico j se tinham formado as rochas

    sedimentares que o rodeiam.

    O vulcanismo da regio muito antigo e j no h vulces propriamente ditos. No entanto, de notar que

    actividade tectnica da regio muito intensa, havendo diversas falhas activas. A superfcie do planeta Terra,

    em particular a dos continentes, est dividida em grandes placas que se deslocam constantemente, mais ou

    menos velocidade a que crescem as unhas das mos (se imaginarmos que as unhas crescem trs cm por

    ano, em duzentos anos teremos um crescimento de 6m). As falhas geolgicas so fracturas nas placas

    continentais ou entre as placas continentais. Quando as placas se empurram umas s outras, a tenso

    acumula-se at atingir um ponto de ruptura. Nesses momentos, como aconteceu nos terramotos de 1755 ou

    de 1969, as placas ou os dois lados de uma falha podem deslocar-se vrios metros. Estima-se que em 1755,

    ano em que o Algarve foi arrasado pelo grande terramoto de 1 de Novembro, as placas se tenham deslocado

    ca. 4m.

    Rochas sedimentares: estas rochas formam-se atravs da deposio de materiais arrastados de outros

    locais, por aco do vento ou de guas correntes (rios, enxurradas), ou precipitados em ambientes de guas

    calmas, como lagos e lagunas. Podem consistir em brechas (conglomerados de seixos, areias e lama que

    depois se petrificam), arenitos (areias cimentadas coladas com calcrio), margas, argilas, grs ou calcrio.

    De entre estas, o grs de Silves uma rocha que sobressai, devido sua invulgar cor vermelha.

    Na fotografia acima (http://www.dct.uminho.pt/pogp/telheiro/telheiro_p.html), de uma excepcional formao rochosa da em

    Ponta do Telheiro, Vila do Bispo, observamos vrias camadas de pocas geolgicas diferentes: a) cascalhos

    de uma antiga praia do quaternrio (at 2 MA = 2 milhes de anos), que entretanto se elevou 30 m acima no

    nvel do mar devido a movimentos tectnicos; b) arenito do Trisico (grs de Silves 250 a 205 MA) sobre d)

    camadas pregueadas do Carbnico marinho (360-268 MA). O ponto c) corrsponde a um movimento tectnico

    ocorrido h ca. 55 MA, na sequncia do qual tero sido arrastados para o mar entre 3 e 5 Km da faixa

    costeira. e) Superfcie actual da plataforma de abraso marinha, predominantemente rochosa devido forte

    aco erosiva do mar.

    As rochas calcrias formam-se em ambientes aquticos. Algumas podem resultar de antigos recifes de coral

    fossilizados, formando um tipo de pedra de alto valor decorativo chamada lioz (a pedra usada para decorao

    nesta escola, sendo que em algumas delas so bem visveis os cortes dos braos de antigos corais ou a

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    forma de esponjas e de bivalves). Todavia, as rochas calcrias mais frequentes, formaram-se por deposio

    dos esqueletos calcrios de organismos microscpicos, ao longo de milhes de anos.

    As rochas sedimentares so tpicas do barrocal e do litoral,

    ocorrendo tambm em algumas zonas de serra, como pode Tm

    outros aproveitamentos, conforme as suas caractersticas:

    construo, produo de cal e cimento (Loul), gravilha, blocos

    para caladas, cantarias, etc.

    A oxidao/transformao das rochas calcrias produz terra

    rossa, que est na origem de solos de boa aptido agrcola. Por

    outro lado, tanto as rochas calcrias como os grandes depsitos

    subterrneos de areias e arenitos funcionam como grandes

    esponjas que retm as guas e permitem a formao de lenis

    de gua subterrneos. So elas que permitem a existncia dos

    grandes aquferos (depsitos subterrneos de gua doce) da

    regio.

    (Fotografias: em cima, ponta Joo dArens, Portimo, por P.

    Sousa; em baixo, Algar Seco, Lagoa fonte: alovelyworld.com)

    As cavidades onde a gua se armazena formam-se por

    alterao qumica: so rochas alcalinas que a gua da chuva,

    ligeiramente mais cida, vai dissolvendo lentamente. Alis, de

    notar que geralmente as rochas sedimentares so muito susceptveis de eroso. As arribas da costa sul da

    regio, formadas por rochas pouco duras, sofrem um constante e rpido processo de eroso, formando-se

    algares que abatem sucessivamente. Apesar de ser muito apetecvel construir habitaes ou hotis na orla

    das arribas, devido vista, isso muito perigoso, devido constante eroso, podendo at acelerar esse

    processo. (em baixo: Mapa geolgico do Algarve (simplificado), retirado de http://rochadapena.no.sapo.pt/pages/enquadr_geolog.htm)

  • ESPAA, 2012/13 rea de Integrao, Tema 4.1: A identidade regional Professor Paulo Sousa p. 4

    Areias, cascalheiras e outros aluvies: correspondem a antigos depsitos fluviais ou marinhos. Reagra geral,

    so do quaternrio, ou seja, formaram-se nos ltimos 2 MA.

    (Uma curiosidade: Na imagem acima, Mapa morfolgico, repare- e que a falha que percorre o Algarve no sentido W-E foi

    cortada, perto de Portimo, por uma outra falha mais recente cujos lados deslizaram ca. 3 Km.)

    Rochas metamrficas: metamorfose significa transformao. As rochas metamrficas formam-se por

    transformao de rochas mais antigas, atravs do calor, da presso e ou de alteraes qumicas. Surgem no

    interior e na costa vicentina, sobretudo sob a forma de xistos e argilas. So geralmente rochas muito antigas.

    Regra geral, os xistos esto associadas a solos pobres e sem aptido agrcola. Por serem antigas, perderam

    muitos dos minerais que poderiam ter interesse para o crescimento das plantas. Quando apodrecem, por

    degradao qumica, do origem a cascalhos e barros estreis, densos e pouco permeveis: as razes das

    plantas no os penetram facilmente; absorvem pouca gua das chuvas e facilitam a formao de enxurradas,

    que arrastam a camada superficial do solo e so agravadas pela escassa cobertura vegetal, em parte

    resultante da intensa desflorestao a que algumas reas foram sujeitas.

    1.2. Relevo e sua formao

    O relevo da regio divide-se em trs grandes sectores: serra, barrocal e litoral. A serra , em geral, formada

    pelos relevos e rochas mais antigos, encontrando-se muito erodidos e suavizados. O litoral caracteriza-se

    pelas camadas geolgicas mais recentes. As caractersticas de cada um destes sectores condicionam a

    ocupao humana e as actividades que podem ser desenvolvidas:

    1.2.1. Litoral: consiste na faixa costeira e caracteriza-se por terras mais ou menos planas, com poucos

    relevos, quer a costa costa seja alta (arribas) ou baixa (praias e esturios), exceptuando-se a costa ocidental.

    O facto de a faixa litoral ser constituda por terras mais ou menos planas torna-a propcia para a agricultura,

    quando os solos e a disponibilidade de gua o permitem, e para a construo. A existncia de praias extensas

    e acessveis levou, nas ltimas dcadas, a uma urbanizao intensiva (e, muitas das vezes, descuidada e

    sem planos de ordenamento).

    O litoral tem reas bastante diferentes, conforme os tipos de costas e com o ambiente envolvente. Algumas

    dessas reas foram desde cedo muito atractivas, ao passo que outras s h pouco tempo deixaram de ser

    repulsivas. As reas mais atractivas so aquelas em que foi possvel a construo de portos (quase todos

    piscatrios), sobretudo se na orla costeira existissem terras arveis e mais ou menos frteis. Onde os solos

    tm pouca aptido agrcola, ou nos locais mais remotos, as comunidades cresceram menos e mais

    tardiamente.

    Neste momento esto atribudas concesses para prospeco e explorao de petrleo e gs natural ao largo

    da costa, podendo haver novas oportunidades econmicas.

    Devido proximidade do mar, as temperaturas so amenas ao longo do ano, por comparao com o interior e

    com o resto de Portugal Continental.

    1.2.2. O barrocal caracteriza-se por relevos suaves e pouco elevados, predominando as margas e os

    calcrios (jurssico e cretcico). Foi razoavelmente povoada at meados do Sc. XX, por ter algum potencial

    agrcola. Predominam os solos alcalinos (Ph >6), associados a rochas sedimentares carbonatadas do

    Jurssico e do Cretcico (calcrios e margas). Porm, o relevo, mais acentuado que no litoral, dificulta

    algumas culturas. O seu povoamento mais ou menos disperso, marcado por alguns centros urbanos.

    Coincide com grande parte dos aquferos subterrneos da regio. Permite a explorao agrcola, sobretudo

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    se houver disponibilidade de gua. nesta faixa que se encontra a maior parte dos vestgios arquolgicos de

    povos antigos (como em Alcalr) e as antigas cidades importantes do Algarve, como Silves ou Loul.

    Em cima: Principais caractersticas geomorfolgicas do Algarve, com a localizao da Serra, Barrocal e Litoral (Litoral Ocidental e Litoral

    Meridional: Barlavento e Sotavento) e as pricipais falhas geolgicas (adaptado de Feio, 1952 e Dias, 2001 pelo site

    http://rochadapena.no.sapo.pt/pages/enquad_geog_geomorf_rp.htm).

    Em baixo: relevo do Algarve. A castanho, as reas mais elevadas; a verde, as de menor altitude

    1.2.3. A serra ocupa 50% do territrio do Algarve. Divide-se em trs conjuntos distintos: Espinhao de

    Co, Monchique e Caldeiro. Sendo verdade que as elevaes no atingem grandes altitudes, com a

    excepo da Fia e da Picota, a verdade que so relevos ngremes e de solos pobres e que no permitem o

    cultivo de grandes reas e dificultam a mecanizao. Os solos so, em regra, magros (muito pouco

    profundos) e cidos. Da, neste sector so poucas e ms as condies para a prtica da agricultura, estando

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    esta limitada a pequenas vrzeas (terrenos planos, de aluvio, junto aos leitos dos rios e ribeiros) e a

    socalcos/terraos.

    O principal recurso disponvel nas serras a floresta, a qual permite algumas actividades: apicultura,

    pastorcia e indstrias madeireiras.

    A serra a parte do territrio que se situa mais para o interior e ocupa uma grande parte do territrio.

    composta por grandes elevaes e por inclinaes acentuadas. Tem pouco potencial agrcola e no facilita a

    fixao de pessoas ou de actividades econmicas. A zona da serra est dividida em trs grandes sistemas:

    Monchique, Espinhao de Co e Caldeiro. Estes dois no atingem altitudes muito elevadas, mas os seus

    relevos acentuados fazem deles reas repulsivas.

    A flora das serras foi muito alterada devido aco humana ao longo de sculos. As antigas florestas

    mediterrneas, supostamente semelhantes quela que encontramos na Mata do Solitrio, na Serra da

    Arrbida (Setbal-Sesimbra), desapareceram h muito. Os antigos sobreiros e azinheiras tambm

    desapareceram de muitas reas. Na sua maior parte as encostas encontram-se cobertas por plantas de

    pequeno porte, de espcies adaptadas secura: medronheiro, aroeira, rosmaninho, carrasco, urze, alecrim,

    rosmaninho e esteva. Nas encostas mais degradadas, subsiste apenas a esteva, o que representa um sinal

    de risco de eroso e de desertificao iminente.

    As serras do Algarve influenciam o clima da regio (embora no sejam os nicos factores), funcionando como

    barreiras circulao das massas de ar e acumulando ar quente nas encostas viradas para Sul. A norte das

    serras e na costa ocidental predominam os ventos de NW; no sul do territrio, os ventos de NW do lugar

    muitas vezes a ventos de SE (Levante), de E e de SW (geralmente associado a mau tempo). As serras

    protegem a costa sul dos ventos fortes do quadrante Norte

    Para alm de tenderem a dificultar a passagem de algumas massas de ar, as serras obrigam outras a passar-

    lhes por cima. Iso faz com que o ar arrefea e facilite a precipitao. Quanto maior for a altitude que as

    massas de ar tm de superar, maior ser a tendncia para ocorrer precipitao.

    O povoamento destas reas muito diferenciado, devido s caractersticas fsicas e ao potencial econmico

    de cada uma delas.

    1.3. Tipos de solos

    Na sua maior parte, os solos da regio so pobres e pouco aptos agricultura. A faixa mais frtil a do

    barrocal, com solos que por vezes so ricos, que permitem culturas mais ou menos produtivas. Os solos mais

    ricos esto localizados junto s localidades mais antigas. Estas foram a fundadas exactamente devido sua

    aptido para a agricultura.

    No Sotavento, os solos da orla costeira so formados essencialmente por areias e o teor de sal muito

    elevado, dificultando o crescimento das plantas cultivveis. Quando estes solos arenosos e salgados

    terminam comeam os solos esquelticos (muito finos, sem hmus e sem nutrientes), barrentos e pedregosos

    da serra. Estes solos deterioraram-se em grande parte por aco humana, nomeadamente devido

    desflorestao. Em muitos deles j s crescem estevas, plantas que correspondem ltima etapa antes do

    incio da desertificao.

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    2. Recursos hdricos

    A importncia de se falar das bacias hidrogrficas a de conhecer quais so os recursos hdricos da regio e

    a forma como as guas circulam. Deste conhecimento depende o ordenamento do territrio, com destaque

    para o planeamento urbano e para o licenciamento de actividades econmicas:

    Quais so os recursos hdricos existentes?

    Como se pode captar gua para uso domstico e industrial/agrcola?

    Quais sos as reservas necessrias para fazer frente a eventuais situaes de crise?

    quais so as culturas mais rentveis e quais so as suas necessidades de gua?

    quanta gua consome um campo de golf?

    como se devem tratar e reaproveitar, ou no, as guas residuais produzidas pelas actividades

    econmicas (incluindo a agricultura e os campos de golf) ou pela populao?

    ...etc.

    Fig.3: Principais aquferos do Algarve.

    Os principais aquferos da regio situam-se nas zonas de rochas calcrias e aluvies quaternrios (barrocal e

    litoral). Dos vrios sistemas apresentados na figura acima, o mais importante o de Querena-Silves. Estes

    diferentes lenis de gua subterrneos tm sido explorados ao longo das ltimas dcadas. No entanto, a

    reposio das suas guas muito demorada, podendo eles esgotar-se se no se obtiver gua por outras vias.

    Por outro lado, a extraco de guas subterrneas e a consequente descida dos nveis dos lenis de gua

    faz com que haja intruso de gua salgada no subsolo, contaminando os depsitos naturais de gua doce.

    Da a necessidade de construo de barragens.

    Esta necessidade torna-se mais urgente devido irregularidade e escassez das chuvas que caiem na

    regio, sendo muitas as partes do territrio onde no caem mais de 500 mm de chuva por ano (o que

    considerado um valor baixo). Assim, a chuva que cai durante o semestre hmido pode ser guardada para ser

    utilizada durante o semestre seco; e aquela que cai durante os anos em que chove pode ser usada nos anos

    em que h seca. O ideal haver reservas que garantam pelo menso dois anos de consumo.

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    As principais albufeiras so, de W para E, as das barragens da Bravura, de Odelouca (em construo), do

    Arade, do Funcho e do Beliche. Elas encontram-se interligadas para que em caso de necessidade se possa

    transferir guas de umas para outras. Essa possibilidade fundamental em caso de seca.

    A necessidade de garantir gua no s para abastecimento domstico como para garantir e requalificar a

    actividade turstica (em especial com a aposta na abertura de novos campos de golf destinados aos turistas

    mais endinheirados do N da Europa que se deslocam para passar o Inverno na regio) levou deciso de se

    construir a barragem de Odelouca, entre Portimo e Silves. Leva tambm a pensar em recuperar e

    reaproveitar guas residuais, de maneira a no desperdiar um recurso precioso.

    A agricultura outro sector para o qual a disponibilidade de gua vital, sendo de aproveitar o potencial da

    regio para a produo de primores ou de culturas que amadurecem muito antes das de outros pases da

    Europa.

    Fig. 4: Pricipais cursos de gua e albufeiras do Algarve. Nesta imagem ainda no est representada a

    abarragem de Odelouca.

    (http://www.cvrm.ualg.pt/projectos/malgar/publ_archive/10_LNEC-2007-jpm_ok.pdf

    http://www.ccdr-alg.pt/ccdr/parameters/ccdr-alg/files/File/upload//Ambiente/RecHid_Rel/Recursos_Hidricos_200805.pd)

    3. Clima

    O Algarve apresenta um clima do tipo mediterrneo, caracterizado pela existncia de um semestre chuvoso

    que coincide com a estao fria e um semestre seco na poca quente.

    Precipitao: As zonas com maiores valores da precipitao anual so as montanhosas: a serra do Caldeiro,

    com um mximo de 1 621 mm, em Barranco do Velho, a 475 m de altitude, e a serra de Monchique com um

    mximo de 2 081 mm, em Monchique, a 465 m de altitude. A zona com valores mais baixos da precipitao

    anual o litoral, com o mnimo de 230 mm, em Vila Real de Santo Antnio, a 7 m de altitude.

    Em termos mdios, a precipitao anual varia entre 1 277 mm e 406 mm, com o valor mdio ponderado de

    653 mm para todo o Algarve. No que respeita variao mensal, cerca de 80% da precipitao ocorre no

    semestre hmido e 20% no semestre seco. Em termos mdios o ms mais chuvoso o de Dezembro, com

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    cerca de 17% da precipitao anual, seguido dos meses de Novembro e de Janeiro, com cerca de 15%

    daquela precipitao. Os meses menos chuvosos so os de Julho e Agosto, com menos de 1% da

    precipitao anual mdia, seguindo-se Junho e Setembro com, respectivamente, 2 e 3% daquela

    precipitao.

    Temperatura: No Algarve, a temperatura mdia anual situa-se entre 17 C, em Faro, e 15 C, em

    Monchique,apresentando uma variao regular ao longo do ano, atingindo os valores menores em Janeiro e

    os mximos em Agosto. A amplitude trmica anual, que no muito importante na regio comparativamente a

    outras regies do pas, varia desde um mnimo de 6,3 C, no Cabo de S. Vicente, at um mximo de 16,5 C,

    em Ameixial.

    Fonte: http://www.meteopt.com/forum/climatologia/clima-no-algarve-1405.html

    O Algarve desfruta, ao longo de todo o ano, das melhores condies climatricas da Europa. O seu clima

    ameno, com temperaturas menos extremas do que as do resto de Portugal Continental: invernos menos frios

    e veres menos quentes. Estas caractersticas devem-se influncia do mar e ao facto de as massas de ar

    que afectam o Algarve serem muitas vezes diferentes daquelas que afectam o resto do continente.

    A precipitao concentra-se sobretudo entre Novembro e Maro e no , em geral, abundante. No entanto,

    frequente ocorrerem chuvas torrenciais, podendo em poucas horas cair um quinto da precipitao de um ano

    inteiro. Estas chuvas torrenciais so destrutivas e no chegam a ser absorvidas pelo solo.

    O nmero de horas de sol por ano muito elevado.

    No conjunto, a regio apresenta ptimas condies meteorolgicas para o desenvolvimento da actividade

    turstica.

    A distribuio irregular da precipitao condicionou desde sempre a agricultura. Este obstculo foi desde cedo

    ultrapassado pelas tcnicas introduzidas pelos povos rabes, os quais introduziram plantas e tcnicas de

    irrigao e de cultivo que lhes permitiam optimizar o rendimento das terras.

    Os veres secos e quentes propiciam a ocorrncia de fogos florestais. A escassez de precipitao torna a

    regio muito sensvel a secas.

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    I Factores fsicos (continuao) As caractersticas fsicas da regio so importantes para podermos compreender a forma como se

    desenvolveram e se desenvolvem ainda as actividades e a ocupao humanas: o relevo, os solos, o clima e a

    localizao do territrio dependem directamente desses factores, os quais condicionam, por outro lado, muitas

    das oportunidades de desenvolvimento da regio.

    2. Recursos naturais

    A regio no rica em recursos que possibilitem actividades econmicas muito lucrativas nos dias de hoje.

    No entanto, os recursos existentes na regio tinham, no passado, alguma importncia, uma vez que a base

    da economia (da produo de bens e riqueza) era o sector primrio: agricultura e pescas.

    As condies para a agricultura no so/eram muito favorveis, excepto em algumas reas relativamente

    pequenas. As terras arveis situam-se sobretudo nos vales dos rios e em alguma reas do barrocal. O regime

    de chuvas limitou o tipo de culturas praticveis at ao perodo rabe, durante o qual se

    desenvolveram/introduziram tcnicas de irrigao e de cultivo, bem como novas plantas, que possibilitaram

    um aproveitamento mais intensivo e diversificado dos solos. A ocupao dos solos e o desenvolvimento de

    povoaes desde a proto-histria (neoltico e idade do cobre a poca em que foram construdos os

    monumentos de Alcalar) fez-se quase sempre junto daquelas terras arveis. Durante o sculo XX e j no

    sculo XXI, o crescimento urbano tem sido feito custa da destruio de algumas das melhores terras de

    cultivo, beira das quais se situavam os povoamentos mais antigos. No final do Sc. XX tentou-se atenuar

    este problema atravs da criao da Reserva Agrcola Nacional (REN) e dos planos directores municipais

    (PDMs)...

    Fig 1: rea artificializada por Unidade de Paisagem, entre 1985 e 2000

    As pescas tm tido grande

    importncia desde pelo menos o

    perodo romano. Nesta poca era

    muito procurado o atum, o qual era

    exportado (os rabes tambm o

    procuravam foram eles que

    introduziam o termo almadrava, que

    designa uma armao de pesca do

    atum que remonta poca romana.

    A almadrava /era uma gigantesca

    armadilha para a qual os atuns

    eram/so conduzidos para depois

    serem chacinados). Outra das

    exportaes de pescado eram as

    conservas (salgadas) de peixe e o

    garum, um molho que se obtinha por fermentao do pescado em tanques prprios. Alguns destes tanques,

    chamados cetrias, ainda so visveis no stio arqueolgico de Cerro da Vila, em Vilamoura.

    Fig. 2: Praia do Barril: ncoras utilizadas nas armaes de pesca do atum (almadrava)

  • ESPAA, 2012/13 rea de Integrao, Tema 4.1: A identidade regional Professor Paulo Sousa p. 11

    Os recursos minerais no so abundantes, se exceptuarmos a

    pedra. Desde a antiguidade foram sendo explorados alguns files

    de minrio de cobre, como o do Parque da Mina (Monchique?) e

    o da Cova dos Mouros (Alcoutim), mas trata-se de exploraes

    pouco importantes para os padres actuais. Em Loul existem

    minas de sal-gema, cuja utilizao sobretudo industrial: o sal-

    gema, ou halite, cloreto de sdio, ou seja, o mesmo que o sal

    de cozinha, mas extrado em minas, no a partir da gua do

    mar. Destacam-se ainda, em Monchique, a explorao de gua

    termal e de rochas ornamentais (sienito).

    As florestas da regio so escassas e pobres. A intensa explorao ao longo dos sculos empobreceu-a e

    levou a que em algumas reas ela no se renovasse. Das principais rvores nativas destacam-se o sobreiro e

    a azinheira, o medronheiro (que pode ter o porte de rvore se o solo e a humidade disponvel o permitirem), o

    zambujeiro (oliveira selvagem). Essas rvores cobriam praticamente toda a serra, mas o seu abate e a

    consequente perda de solo (arrastado pela chuva e no renovado pelos restos de folhas e ramos cados e

    apodrecidos) fizeram com que algumas reas da serra se transformassem em desertos onde apenas crescem

    estevas (as ltimas plantas a resistir desertificao).

    Fig 3: ndice de susceptibilidade desertificao

    Mais tarde foram introduzidas espcies cultivadas, como o pinheiro manso e o eucalipto. No entanto, estas

    espcies, em especial o eucalipto, quando so cultivadas de forma extensiva e exclusiva, so pouco

    favorveis fixao de outras espcies vegetais e, consequentemente, vida animal; alm disso, consomem

    grandes quantidades de guas subterrneas e empobrecem os solos. Por outro lado, constituem um dos

    poucos recursos econmicos disponveis na serra.

  • ESPAA, 2012/13 rea de Integrao, Tema 4.1: A identidade regional Professor Paulo Sousa p. 12

    Recentemente foi lanado um projecto de produo de energia elctrica a partir de biomassa, ou melhor, de

    restos florestais. Esta forma de produo de energia incentiva a limpeza das florestas, diminuindo os riscos de

    fogos florestais. Nas zonas de serra, especialmente em Vila do Bispo e em Monchique, foram recentemente

    instalados parques elicos que ajudam a regularizar o abastecimento de energia elctrica regio.

    Fig 4: reas ardidas,

    por anos (2003-2005) em cima

    Fig. 5: Uso do solo em 2000 em baixo

  • ESPAA, 2012/13 rea de Integrao, Tema 4.1: A identidade regional Professor Paulo Sousa p. 13

    3. Ambiente: zonas de especial interesse, zonas protegidas, rede natura 2000

    Segue-se um texto retirado de: http://www.ccdr-alg.pt/ccdr/index.php?module=ContentExpress&func=display&ceid=382

    Fig. 6: Localizao das reas protegias do Algarve

    A Rede Nacional de reas Protegidas constituda pelas reas protegidas especificadas ao abrigo do Decreto-Lei

    n.19/93, de 23 de Janeiro, classificadas nas seguintes categorias: Parque

    Nacional, Reserva Natural, Parque Natural e Monumento Natural.

    No Algarve esta Rede constituda pelo(a):

    Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina

    (PNSACV): O Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa

    Vicentina, criado pelo Decreto Regulamentar n.26/95, de 21 de

    Setembro, uma zona costeira que se estende desde a Ribeira da

    Junqueira, a norte de Porto Covo (concelho de Sines Alentejo, at

    ao Burgau (concelho de Vila do Bispo - Algarve).

    Parque Natural da Ria Formosa (PNRF): O Parque Natural da

    Ria Formosa, criado pelo Decreto-Lei n.373/87, de 9 de

    Dezembro, abrange uma rea de cerca de 18 400 h, distribudos

    ao longo de 60 km de costa, compreendida entre o Anco

    (concelho de Loul) e a Manta Rota (concelho de Vila Real de Santo

    Antnio).

    Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de

    Santo Antnio (RNSCMVRSA): A Reserva Natural do Sapal de

    Castro Marim e Vila Real de Santo Antnio, criada pelo Decreto-Lei

    n.162/75, de 27 de Maro, est situada junto foz do Rio

    Guadiana e ocupa uma rea de 2 153 hectares ao longo dos

    concelhos de Castro Marim e Vila Real de Santo Antnio.

  • ESPAA, 2012/13 rea de Integrao, Tema 4.1: A identidade regional Professor Paulo Sousa p. 14

    Outras reas com estatuto de proteco:

    4. Rocha da Pena: O Stio Classificado da Rocha da Pena, criado pelo Decreto-Lei n.392/91 de 10 de

    Outubro, localiza-se nas freguesias de Salir e Benafim (concelho de Loul), numa zona de transio entre

    o Barrocal e a Serra Algarvia, ocupando uma rea de 637 ha.

    5. Fonte Benmola: O Stio Classificado da Fonte Benmola, criado pelo Decreto-Lei n. 392/91 de 10 de

    Outubro, localiza-se nas freguesias de Querena e Tr (concelho de Loul), ocupando uma rea de 392

    ha. [Fim de citao]

    A delimitao de reas protegidas feita para preservar sistemas ecolgicos e habitats onde existem

    espcies animais e vegetais ameaadas, ou para preservar reas de grande interesse econmico. So de

    especial importncia os ambientes hmidos, ou seja, os esturios e sapais, bem como a orla costeira. Os

    sapais so de extrema importncia por serem zonas de desova de muitas espcies de peixes com interesse

    econmico. Por outro lado, so reas sensveis, devido proximidade de cidades e grandes aglomeraes

    urbanas e a, por isso, estarem sujeitos a serem espezinhados, aterrados ou contaminados com esgotos e lixo.

    Em algumas reas podem existir ambientes muito bem preservados (como algumas reas de floresta na

    Serra de Monchique) ou ambientes em que as actividades humanas atingiram um ponto de equilbrio com a

    natureza. Esses ambientes so reservas genticas para um futuro incerto, no qual podemos necessitar das

    plantas selvagens para melhorar o nosso conhecimento acerca da resistncia a pragas ou a secas, por

    exemplo. Por outro lado, trata-se de ambientes/paisagens de grande valor turstico, com especial importncia

    num momento, como este, em que se procura diversificar, melhorar e reformar a oferta turstica, de maneira a

    compensar a perda de alguns dos turistas mais tradicionais e a atrair os mais ricos.

    Imagem: Pego do Inferno, Tavira

  • ESPAA, 2012/13 rea de Integrao, Tema 4.1: A identidade regional Professor Paulo Sousa p. 15

    II Factores humanos

    1. Histria da ocupao do Algarve: principais momentos da ocupao humana

    Fig. 7: Monumento funerrio (mamoa) de Alcalar (~5000 anos). Fonte:

    ahistorianacidade.wordpress.com

    1.1. Pr-histria e proto-histria

    A regio do Algarve habitada por povos sedentrios h alguns

    milhares de anos. Na zona de Alcalar, perto de Portimo,

    encontram-se diversos vestgios de povoamentos pr-histricos,

    das pocas neoltica e calcoltica (idade do cobre). No caso de

    Alcalar, temos um povoamento situado num monte, para defesa, e junto a terras frteis, propcias cultura de

    cereais. Este povoamento foi suficientemente importante para permitir a construo das necrpoles que ainda

    podem ser visitadas: significa que que havia pessoas suficientes para mobilizar para a construo dos

    edifcios e monumentos, uma economia que permitia sustent-las, a existncia de uma elite (porque apenas

    os indivduos mais importantes eram sepultados nos edifcios importantes) e uma povoao que era o centro

    de uma grande rea e fazia trocas comerciais com o exterior.

    Estes povos antigos forma sendo contactados pelos povos mercantis do Mediterrneo e forma por ele

    influenciados pelos fencios/cartagineses, os gregos e os romanos. Pouco se sabe dos povos nativos dessa

    poca, mas essa influncia dos povos mediterrneos visvel nos bens importados (cermicas, joalharia) e

    nas primeiras formas de escrita peninsular, escritas em caracteres j decifrados, mas numa lngua entretanto

    perdida (no Museu de Silves pode ser observada um exemplar desta escrita).

    1.2. Idade do Ferro: Fencios, gregos e romanos

    Os fencios/cartagineses instalaram feitorias ao longo da

    costa sul da Pennsula, sendo-lhes atribuda a fundao do

    povoado que viria a ser Portimo. (As feitorias so centros de

    importao e exportao de bens instalados no territrio de

    outros povos.)

    Imagens: mosaico romano e banheira de Milreu, Faro -

    pt.wikipedia.org; algarvivo.com

    Os romanos instalaram-se no sul da Pennsula, incluindo o

    Algarve, a partir do Sc. III a.C., e a permaneceram at

    aproximadamente ao sc. V d.C. No caso deste povo, tratou-

    se de uma verdadeira conquista e ocupao do territrio, que

    pouco tempo depois passou a ser um conjunto de provncias

    romanas (Btica, Lusitnia e Terragonensis). O Algarve

    pertencia provncia da Lusitnia, que ocupava ento partes

    dos actuais territrios de Portugal e Espanha. A economia

    romana baseava-se na explorao directa dos produtos da

    terra: a agricultura e a extraco de metais (a pesca tambm

  • ESPAA, 2012/13 rea de Integrao, Tema 4.1: A identidade regional Professor Paulo Sousa p. 16

    tinha alguma importncia, sobretudo para o mercado de exportao). Por isso, instalaram-se em quintas e

    estabeleceram cidades ao longo de todo o territrio. No Algarve existem vestgios importantes da ocupao

    romana em Milreu (Esti), no Cerro da Vila (Vila Moura) e na Abicada (Mexilhoeira Grande).

    A importncia da ocupao romana enorme, tanto pelo desenvolvimento de alguns povoados e pelo

    arroteamento de terras para a agricultura, como pela integrao do territrio no mundo cosmopolita do

    mediterrneo, como ainda pela introduo da lngua, das leis e de outros costumes.

    1.3. Perodo rabe e integrao na coroa de Portugal.

    A fase seguinte da histria do Algarve a da cultura rabe, que

    decorreu entre os sculos VIII e XIII um longussimo perodo

    que deixou marcas profundas na paisagem, na ocupao do

    territrio e na cultura da regio. Os povos rabes continuaram a

    desenvolver uma economia baseada na agricultura, mas foram

    responsveis pela introduo de novas culturas (como as dos

    citrinos, originrios da sia) e, sobretudo, pela introduo de

    novas tcnicas agrcolas.

    Imagens desta pgina: Nora e picota, engenhos de rega introduzido pelos

    rabes; aoteias (terraos) de Olho; castelo de Paderne (em taipa)

    De entre estas destacam-se as tcnicas de irrigao, que

    permitiram aumentar a produtividades das hortas e uma

    intensificao da explorao das parcelas de terra onde havia

    gua disponvel para a irrigao. Alm disso, introduziram a co-

    plantao, ou seja, a existncia de culturas diferentes, em

    simultneo, nos mesmos terrenos (como a combinao de

    culturas arbreas, como a do olival, com produtos hortcolas,

    cereais de sequeiro ou leguminosas). Estas inovaes foram to

    importantes que ainda hoje caracterizam a agricultura de

    subsistncia de grande parte do pas. Graas a uma agricultura

    mais produtiva, a populao da regio cresceu durante este

    perodo.

    Durante o perodo rabe, a cidade mais importante do Algarve

    veio a ser Silves, dada a sua importncia econmica e

    estratgica: permitia a construo de uma cidade fortificada junto

    ao limite das mars, no curso do Rio Arade, permitindo o

    embarque e a descarga de mercadorias do comrcio martimo e

    um porto abrigado e seguro para as embarcaes (os ataques de

    piratas ao longo da costa foram frequentes at ao sc. XVIII).

  • ESPAA, 2012/13 rea de Integrao, Tema 4.1: A identidade regional Professor Paulo Sousa p. 17

    H na lngua portuguesa cerca de 600 palavras de origem rabe. Algumas delas so fceis de identificar porque comeam por al. O nome de muitas terras portuguesas tambm de origem rabe, como por exemplo: Silves, Loul, Tavira, vora, etc.

    ALGUMAS PALAVRAS PORTUGUESAS DE ORIGEM RABE

    Algarve azeite alambique algarismo limo aude almotolia

    azenha alcatifa alguidar almotolia arsenal alcachofra tapete

    alface alfama laranja picota almirante abbora albarda

    oxal almocreve algodo gato alcaide aorda nora

    http://www.prof2000.pt/users/forma.tic/constinternet/cfpvnp/2003/grupo07/mu%C3%A7ulmanos.htm

    O perodo rabe terminou durante o Sec. XIII, passando a integrar o Reino de Portugal e dos Algarves.

    Durante a primeira fase desse perodo, a regio continuou a ter uma forte presena muulmana, se bem que

    os muulmanos, ou ladinos, fossem cidados de terceira categoria (depois dos aristocratas e de outros

    cristos), formando uma identidade muito peculiar. Alis, essa identidade peculiar, que misturava as culturas

    rabe e crist (e um pouco de judasmo), designada como cultura morabe, vinha-se formando desde h

    sculos e continuou a desenvolver-se sob o domnio dos reis cristos.

    Imagem: Pesca de cerco a bordo de uma traineira

    Fonte: http://fototecalagos.blogspot.pt/

    1.4. Da revoluo industrial ao turismo de massas

    A grande mudana seguinte que ocorreu na regio aconteceu durante o final

    do Sc. XIX e incio do sculo XX, com a criao das indstrias do pescado e

    com a chegada do caminho de ferro. Este foi um momento decisivo porque

    trouxe dinheiro para a regio e dinamizou a economia local, graas a

    exportao dos enlatados de peixe e ao envio de mercadorias para

    outros pontos do pas, por via frrea;

    aproximou a regio do resto do pas, na medida em que as

    deslocaes passaram a ser mais fceis, baratas, rpidas e fiveis;

    fez crescer e desenvolver as cidades do litoral;

    fez surgir uma nova classe social: o operariado que trabalhava nas

    fbricas e, em geral, para os grandes patres;

    levou formao de uma classe capitalista-burguesa, que passou a

    competir com a aristocracia e a concorrer aos cargos pblicos;

    gerou na mente das pessoas novos objectivos de vida e novas expectativas relativas qualidade que

    deveriam ter as suas vidas;

    facilitou/estimulou o xodo rural e a migrao de famlias de trabalhadores para outras regies, em

    particular para Lisboa e para o Barreiro (onde havia procura crescente de mo-de-obra para a

    indstria pesada).

    Por outras palavras, a par do tradicional Algarve rural, rstico e pouco desenvolvido, comeou a emergir um

    Algarve urbano, cosmopolita e semi-industrializado; mas tambm de um Algarve cujo povoamento era mais

    ou menos equilibrado e centrado no interior para um Algarve progressivamente desequilibrado.

  • ESPAA, 2012/13 rea de Integrao, Tema 4.1: A identidade regional Professor Paulo Sousa p. 18

    Esse desequilbrio demogrfico e econmico acentuou-se a partir da segunda metade do sc. XX, com o

    crescimento da importncia do turismo. O turismo levou criao de inmeros empregos directos e indirectos

    (por exemplo, na construo civil e na distribuio de mercadorias). Da resultaram:

    o crescente abandono das povoaes rurais e da serra;

    o envelhecimento das populaes que permaneceram nesses locais;

    o quase abandono dos campos e a queda acentuada da produo agrcola, especialmente de

    produtos hortcolas ou de outros que exijam cuidados mais frequentes;

    crescimento e rejuvenescimento da populao do litoral;

    chegada de trabalhadores de outros pontos do pas e de outros pases, muitos dos quais so

    residentes permanentes, e outros que so trabalhadores sazonais;

    estabelecimento de cidados estrangeiros na regio, atrados por um custo de vida menor, por

    habitaes a preos atractivos ou simplesmente pelo clima ameno e formao de comunidades de

    cidados estrangeiros, por nacionalidades, que por vezes funcionam como comunidades semi-

    fechadas.

    O turismo tem sido o grande motor de desenvolvimento e o sustento do Algarve.

    No entanto, o seu peso na economia (66%) to grande que torna a

    sobrevivncia da regio muito sensvel a qualquer variao da procura por parte

    dos turistas. As indstrias e outras actividades econmicas da regio so

    relativamente poucas e muitas delas existem em funo da actividade turstica:

    a construo civil, as serralharias de alumnio, a distribuio de produtos

    alimentares, o comrcio a retalho

    Esta dependncia poder, porventura, ser excessiva e seria conveniente

    a) diversificar e melhorar a oferta turstica, de maneira a atrair mais turistas endinheirados ao longo de

    todo o ano;

    b) qualificar a mo-de-obra;

    c) diversificar as actividades econmicas e encontrar mercados fora da regio para as mercadorias

    que esta produz.

    Um dos problemas para pensar em outras actividades econmicas a escassez de recursos.

    A agricultura continua a ser um sector promissor, apesar de no permitir absorver grandes quantidades de

    mo-de-obra. No entanto, podem ser cultivadas espcies de elevado valor, aproveitando o facto de

    amadurecerem mais cedo do que no resto da Europa.

    Os produtos da serra podem atingir valores elevados, mas a capacidade de os produzir limitada.

    Os recursos pisccolas tm de ser explorados cuidadosamente, para se evitar a pesca excessiva e assegurar

    a manuteno de stocks; no entanto pode ser desenvolvida a aquicultura.

    Outras indstrias podem ser implantadas no Algarve como em qualquer outra parte. Para isso, preciso

    estudar os mercados e apostar na formao profissional e no conhecimento, usando a Universidade como

    foco de dinamizao e a proximidade do aeroporto de Faro e do porto de Sines (ou talvez de outros) como

    vias de escoamento de produtos e de comunicao com o exterior.