o caso da pomba-gira religiao e violenci

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“O Caso da Pomba-Gira” “O Caso da Pomba-Gira: Religião e Violência. Uma Análise do Jogo Discursivo Entre Umbanda e Sociedade” Religião e Sociedade 11 (1): 103-132 (abr. 1984) Márcia Contins e Marcio Goldman I. APRESENTAÇÃO 1 Este trabalho teve início durante as reuniões mantidas pelo grupo de estudos de religiões afro-brasileiras do Instituto Superior de Estudos da Religião (ISER) nos anos de 1980 e 1981. Aí foram organizados vários subgrupos cujo trabalho deveria concentrar-se em casos que evocassem, de algum modo, o tema geral das relações entre “Umbanda e Violência”. Tendo como ponto de partida e inspiração o trabalho de Yvonne Maggie, Patrícia Monte-Mór e Márcia Contins, que trata das perseguições policiais aos terreiros nas décadas de 30, 40 e 50 2 , o subgrupo formado pelos autores deste texto decidiu, num primeiro momento, alargar esse espectro temporal analisando as relações entre Umbanda e Estado a partir da década de 60 quando não mais, certamente, tais relações podem ser pensadas em termos de “perseguição” exclusivamente, tornando-se muito mais fluidas, multifacetadas e contraditórias. Problemas técnicos de verba e tempo obrigaram-nos a reduzir o alcance empírico da pesquisa, concentrando-a sobre um determinado caso e tentando extrair daí não apenas todo o material concreto possível como também as implicações analíticas nele contidas, o que, evidentemente, não significa – longe disso – que uma abordagem exaustiva tenha sido atingida: o caso permanece aberto e diversos retornos poderiam a ele ser efetuados. Decidimos, após escolher como foco o chamado “caso da Pomba-Gira” 3 – não apenas por sua repercussão popular, como principalmente pela multiplicidade de discursos que levantou em torno de si e da Umbanda em geral – adotar um método misto de trabalho, que conjugasse o acesso 1 A pesquisa foi feita com uma verba concedida pela Fundação Ford. 2 MAGGIE, Yvonne, CONTINS, Marcia, MONTE-MÓR, Patrícia. Arte ou magia negra: Uma análise das relações entre a arte nos cultos afro-brasileiros e o Estado. Rio de Janeiro, FUNARTE, 1979. 3 Esse caso foi posteriormente analisado na dissertação de mestrado de Marcia Contins. O objetivo dessa pesquisa foi o de analisar o problema da possessão nos cultos afro-brasileiros e as diversas concepções de pessoa aí atualizadas bem como a relação Umbanda e crime (acusação) e o tipo de imagem feminina que se relaciona ao transe. Ver CONTINS, M. O caso da Pomba-Gira; reflexões sobre crime, possessão e imagem feminina. Rio, Museu Nacional, 1983, mimeo.

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  • O Caso da Pomba-Gira

    O Caso da Pomba-Gira: Religio e Violncia. Uma Anlise do Jogo Discursivo Entre

    Umbanda e Sociedade

    Religio e Sociedade 11 (1): 103-132 (abr. 1984)

    Mrcia Contins e Marcio Goldman

    I. APRESENTAO1

    Este trabalho teve incio durante as reunies mantidas pelo grupo de estudos de religies

    afro-brasileiras do Instituto Superior de Estudos da Religio (ISER) nos anos de 1980 e 1981. A

    foram organizados vrios subgrupos cujo trabalho deveria concentrar-se em casos que evocassem,

    de algum modo, o tema geral das relaes entre Umbanda e Violncia. Tendo como ponto de

    partida e inspirao o trabalho de Yvonne Maggie, Patrcia Monte-Mr e Mrcia Contins, que trata

    das perseguies policiais aos terreiros nas dcadas de 30, 40 e 502, o subgrupo formado pelos

    autores deste texto decidiu, num primeiro momento, alargar esse espectro temporal analisando as

    relaes entre Umbanda e Estado a partir da dcada de 60 quando no mais, certamente, tais

    relaes podem ser pensadas em termos de perseguio exclusivamente, tornando-se muito mais

    fluidas, multifacetadas e contraditrias. Problemas tcnicos de verba e tempo obrigaram-nos a

    reduzir o alcance emprico da pesquisa, concentrando-a sobre um determinado caso e tentando

    extrair da no apenas todo o material concreto possvel como tambm as implicaes analticas

    nele contidas, o que, evidentemente, no significa longe disso que uma abordagem exaustiva

    tenha sido atingida: o caso permanece aberto e diversos retornos poderiam a ele ser efetuados.

    Decidimos, aps escolher como foco o chamado caso da Pomba-Gira3 no apenas por

    sua repercusso popular, como principalmente pela multiplicidade de discursos que levantou em

    torno de si e da Umbanda em geral adotar um mtodo misto de trabalho, que conjugasse o acesso

    1 A pesquisa foi feita com uma verba concedida pela Fundao Ford. 2 MAGGIE, Yvonne, CONTINS, Marcia, MONTE-MR, Patrcia. Arte ou magia negra: Uma

    anlise das relaes entre a arte nos cultos afro-brasileiros e o Estado. Rio de Janeiro, FUNARTE,

    1979. 3 Esse caso foi posteriormente analisado na dissertao de mestrado de Marcia Contins. O objetivo

    dessa pesquisa foi o de analisar o problema da possesso nos cultos afro-brasileiros e as diversas

    concepes de pessoa a atualizadas bem como a relao Umbanda e crime (acusao) e o tipo de

    imagem feminina que se relaciona ao transe. Ver CONTINS, M. O caso da Pomba-Gira; reflexes

    sobre crime, possesso e imagem feminina. Rio, Museu Nacional, 1983, mimeo.

  • O Caso da Pomba-Gira

    a documentos, tendo em vista o aspecto histrico do acontecimento, e os procedimentos mais

    tradicionais da pesquisa antropolgica, entrevistas etc... Assim, obtivemos e analisamos m primeiro

    lugar o noticirio relativo ao caso de dois diferentes jornais cariocas O Dia e O Globo, cobrindo

    assim dois rgos inequivocamente destinados a camadas sociais diferentes. Em seguida

    trabalhamos sobre a totalidade dos autos do processo, que envolvem o inqurito policial, laudos

    mdico-psiquitricos, o julgamento propriamente dito, as sentenas e as apelaes. Nossa inteno

    subseqente era entrevistar diretamente alguns dos envolvidos no caso, mas a mencionada

    exigidade de tempo tornou impossvel a localizao de alguns dos protagonistas como o juiz, o

    delegado e os advogados ou o estabelecimento de contato como outros os acusados que se

    encontram numa priso qual no pudemos ter acesso. Restringimos, portanto, nossa entrevista ao

    Pai-de-Santo que participou do caso como apoio da defesa e posteriormente como protetor de uma

    das acusadas. Certamente tratava-se do depoimento mais imprescindvel medida que o discurso

    oficial da Umbanda ocupa pouco espao, seja no noticirio jornalstico, seja nos autos do processo.

    Finalmente, optamos por uma apresentao no muito convencional do material e de sua

    anlise. Ao invs de reproduzir, etnograficamente, um acontecimento passado que ns no

    presenciamos, preciso frisar conclumos ser mais honesto e til colocar frente do trabalho de

    anlise propriamente dito alguns documentos que podem fornecer aos leitores uma idia mais direta

    e mais viva dos fatos analisados. Devido absoluta impossibilidade de apresentar todos os

    documentos (que montam a, pelo menos, mil pginas), selecionamos alguns poucos, mais

    significativos, que possam efetivamente servir como introduo para a anlise efetuada4.

    Apesar das limitaes acima confessadas, esperamos que este trabalho possa ao menos abrir

    para os estudiosos dos chamados cultos afro-brasileiros um campo fundamental, mas que tem

    permanecido inexplorado, a saber, a anlise dos discursos mantidos em torno das relaes entre tais

    cultos e a sociedade abrangente (e no apenas com o Estado como acreditvamos no incio),

    discursos que, no possvel esquecer, fazem parte constituinte dessa relao mesma.

    4 A apresentao dos documentos levanta de imediato a questo do anonimato dos protagonistas

    do caso. Muito embora se trate de um acontecimento pblico e de fcil acesso a quem quer que se

    interesse, decidimos revelar apenas as iniciais dos nomes dos envolvidos, visando com isso

    principalmente preservar uma certa impessoalidade necessria ao trabalho analtico. Mesmo nos

    documentos esse padro foi mantido. Isso porque, talvez nem fosse preciso acrescentar, nosso

    objetivo no a simples discusso do caso em si, procurando eventuais culpados e vtimas: trata-se,

    claro, de extrais a partir do caso e de maneira impessoal as implicaes das relaes mais gerais

    entre Umbanda e Sociedade abrangente.

  • O Caso da Pomba-Gira

    II. DOCUMENTOS

    a) Jornais:

    O Globo 11/09/79

    A MULHER MATA COMERCIANTE

    A MANDO DA ESPOSA DELE

    M. L., de 25 anos, confessou ontem, na 22 DP (Penha), ter assassinado com um tiro, na

    madrugada do dia 20 de agosto, o comerciante A., a mando da mulher deste, S., que lhe prometeu

    Cr$ 50 mil pelo crime, mas nada lhe pagou. S., depois de insistir em negar ter contratado M. L. para

    matar o marido, acabou confessando a autoria intelectual do assassnio. As duas esto presas na

    delegacia .

    S uma mulher que esteja passando o que eu passei, durante 16 anos de casada, pode

    avaliar o meu drama: ter marido s no nome porque, como homem, ele era um completo fracasso.

    At para termos dois filhos foi um trabalho paciente e sacrificado. Ele tentava, e sei que se

    esforava, mas no fim terminava chorando feito uma criana, diante da sua impotncia. No comeo

    eu suportava. Mas, com o tempo, ele foi piorando o seu humor, me maltratava, me espancava, me

    fazia sofrer o inferno, como se eu fosse a culpada.

    Foi assim que S. explicou por que decidiu mandar matar o marido. Ela, que negara o crime

    por mais de oito horas, contou a O Globo que a idia de assassinar o marido foi surgindo aos

    poucos.

    Minha irm V., conhecendo meu drama, dizia que um homem como esse merecia

    morrer. E depois tinha o W., um rapaz que eu praticamente criei desde os 11 anos. Ele, um

    pretinho bom, era meu confidente. Ele assistia s maldades do A. E foi W. quem meteu na minha

    cabea a idia de matar meu marido. Ele dizia: D. S., deixe comigo. Eu acabo com esse canalha.

    Mas W. era realmente frouxo. Tentou trs vezes e no teve coragem. At que no fim arranjou

    aquela moa, a M. L. Ela, sim, teve peito. Tomou alguns usques em casa, esperou meu marido

    dormir e, de madrugada, o liquidou com um tiro s.

    PRIMEIRO PLANO

    O faxineiro W., de 25 anos, por trs vezes tentou matar A., com uma barra de ferro, mas

    acabou desistindo da empreitada por falta de coragem.

  • O Caso da Pomba-Gira

    Os primeiros contatos de S. com W. para a prtica do crime ocorreram em junho. Alm de

    no viver bem com o marido, S. queria herdar dele pelo menos Cr$ 10 milhes, em imveis.

    W. conhecia h mais dez anos o casal, para o qual executava faxinas. Combinado o crime,

    partiu para a primeira tentativa na tarde de um dia de junho. S. abriu-lhe a porta e escondeu-o num

    dos trs quartos da casa. Pouco depois chegava A., trazendo os dois filhos da escola. O comerciante

    foi deitar-se em seu quarto, no qual dormia sozinho, por volta de 23 horas. meia-noite, W. entrou

    no quarto, com a barra de ferro, mas ficou com medo e fugiu.

    No fim do ms S. convenceu W. a fazer nova tentativa. Ao entrar no quarto de A. pela

    segunda vez, W. fez barulho e acordou-o correu e escondeu-se no banheiro. A., porm, foi l, e

    ento W. lhe aplicou um golpe com a barra de ferro, pelas costas, e fugiu. A. comentou com a

    mulher que fora vtima de uma tentativa de assalto.

    [FIGURA 1]

    Na ltima tentativa, na primeira semana de agosto, W. tomou umas doses de cachaa, para

    criar coragem, e chegou casa do casal por volta de 19h30m. S s 23 horas, depois de jantar e ver

    televiso, que o comerciante foi dormir. W. disse que j estava quase dormindo atrs do sof. S.

    combinara pigarrear trs vezes, dando-lhe sinal para entrar no quarto de A. e mat-lo. Ela pigarreou

    vrias vezes e continuou tossindo, mas W. no sentiu coragem de executar o crime. J eram 40e

    meia da madrugada quando S. lhe disse que no dava mais: da a pouco o marido se levantaria para

    sair com os filhos. W. no queria sair quela hora para Caxias, foi para a garagem e esperou o dia

    amanhecer. Depois que A. saiu com os filhos, ele foi embora.

    NOVO PLANO

    Ela me deu a maior espinafrao, contou W., na 22 DP. Me chamou de covarde e de tudo

    que palavro. E pediu que eu encontrasse uma pessoa com coragem para fazer o servio.

    Depois de muitas tentativas, W. entrou em contato com M. L., nora de C., sua amante:

    A Perguntei a M. L. se ela tinha coragem de matar um homem por Cr$ 50 mil. Ela disse

    que topava, e ns acertamos tudo.

    Na delegacia, ontem, M. L. explicou que deu a resposta afirmativa, na ocasio, mais por

    brincadeira; no acreditava que fosse capaz de matar algum por dinheiro.

    W. levou M. L. a um bar de A., em Caxias, para que ela o conhecesse. Depois lhe deu um

    revlver calibre 32, que comprara do vigilante de um supermercado. Ela aprendeu rapidamente a

    manejar a arma.

  • O Caso da Pomba-Gira

    Tudo acertado, M. L. apareceu na casa de S. no dia 20 de agosto, por volta de 14h30m:

    Quando cheguei, o marido da dona estava saindo e ela me fez sinal para no falar nada.

    Me escondeu num quarto e disse para eu no ter medo.

    noite, como das outras vezes, A. chegou cedo, jantou, viu televiso e foi se deitar s 23

    horas.

    Quando ele entrou no quarto recordou M. L. d. S. chegou onde eu estava escondida e

    me deu um copo de usque para eu tomar coragem.

    Ela diz que o tempo passava e ela se sentia angustiada. Quando no havia mais nenhum

    barulho na casa, foi sacada e de l, por gestos, perguntou as horas a W., que estava l embaixo.

    Era meia-noite e meia.

    Ento, entrei no quarto do homem, e ele estava dormindo. Apontei o revlver para o peito

    dele mas no tive coragem de disparar. D. S. me deu outro copo de usque e fiquei mais de uma

    hora para me decidir. Depois, fui ficando com raiva: entrei no quarto, apontei para o peito do

    homem e disparei. Fez um barulho.

    Depois do crime, S. pediu a M. L. que fugisse pela sacada:

    Eu disse que no, porque tinha que dar um pulo de mais de trs metros. Peguei minha

    bolsa e meus tamancos e sa pela porta da frente, que estava fechada com chave por dentro.

    M. L. disse que s aceitou matar por dinheiro porque o salrio do marido no d para as

    despesas da casa. Tem uma filha de 4 anos, e sempre falta dinheiro para lhe comprar remdios.

    PERSEGUIO

    M. L. e W. contaram polcia que aps sua participao no crime passaram a ser

    perseguidos por dois homens negros e altos.

    M. L. disse que poucos dias depois do assassinato, um negro alto e forte puxou-a pelo brao

    no Shopping Center de Caxias. Insistia em conversar, mas ela se desvencilhou dele, fugiu rpido e

    entrou num nibus. Depois, viu-o outras vezes, mas tinha o cuidado de se aproximar logo de outras

    pessoas.

    A polcia j desconfiava, h alguns dias, do envolvimento da viva de A. no crime e estava

    fazendo diligncias. Um dia esteve na casa de W., mas no o encontrou. No dia seguinte (segunda-

    feira da semana passada) ele se apresentou espontaneamente polcia mas negou o crime. Depois

    de quatro dias, contou finalmente o que ocorreu.

    M. L. ao chegar polcia, confessou o assassnio mas contou outra verso: disse que matara

    A., numa cena de cime. Depois, entretanto, contou a verso verdadeira.

    S. tambm negou, a princpio, a autoria intelectual do crime:

  • O Caso da Pomba-Gira

    Como eu poderia mandar matar meu marido, se ns vivamos em lua-de-mel? Ele me dava

    tudo o que eu queria, e ns no tnhamos motivo para brigar.

    Ela no teve como sustentar essa verso por muito tempo. A polcia j sabia que ela e A.

    brigavam com freqncia e dormiam em quartos separados.

    O Globo 15/09/79

    MULHER QUE MANDOU MATAR O MARIDO:

    CRIME FOI TRAMADO EM TERREIRO

    A morte do comerciante A. foi tramada pela sua mulher, S., entre adeptos do culto de magia

    negra num terreiro de Candombl de Caxias. Na trama esto envolvidos tambm a irmo de S., V.,

    o faxineiro W., que era o cambono, sua mulher e me-de-santo C. e a domstica M. L., nora de C. e

    assassina do comerciante, ao qual matou com um tiro no peito quando ele dormia, no dia 20 de

    agosto.

    Antes de se decidir pelo assassinato, S. tentou eliminar o marido pela via espiritual o

    ritual de Candombl: a pedido da Pomba-Gira Maria Padilha, entidade que C. diz encarnar, levou

    sete retratos do marido, uma sunga, uma camisa e um par de meias suadas. Maria Padilha garantia

    que, sem pressa, faria com que A. ficasse, primeiro impotente sexual; depois f-lo-ia sofrer um

    enfarte, como o que sofreu o pai dele. O pai de A. realmente morreu de enfarte h trs anos, e S.

    acredita que foi graas a sua magia.

    Mas S., que h anos vinha freqentando diversos terreiros de Candombl, sem sucesso,

    quando passou a se consultar no terreiro de C. exigiu pressa na soluo do problema. Quando C.

    disse que as dificuldades de provocar um enfarte em A. ocorriam porque ele tinha o corpo fechado

    proteo do alm S. decidiu que a morte teria que ser violenta, sob pena de afastar do terreiro e

    procurar outro.

    Maria Padilha determinou ento que seu cambono W. assassinasse o comerciante. W. tentou

    trs vezes duas com uma barra de ferro e a ltima com um revlver mas desistiu porque estava

    com medo. A cada tentativa frustada era marcada nova sesso no terreiro, com S. participando cada

    vez mais danada. Maria Padilha transferiu ento a responsabilidade de W. para M. L.

    Morto A. de madrugada, ao clarear o dia a preocupao de S., enquanto o corpo permanecia

    no IAP, era completar o ritual de magia negra: enterrar no mesmo caixo os objetos e fotos do

    comerciante assassinado. Foi M. L. que, a pedido de V., levou para S. os pertences de A. que

    ficaram no terreiro de Caxias. A pista para revelar toda a trama foi levantada pela reportagem de O

  • O Caso da Pomba-Gira

    Globo: a polcia confirmou-a, e trs pessoas j confessaram, em novos depoimentos na 22 DP.

    Segunda-feira sero pedidas as prises preventivas de todos os envolvidos, e o delegado D. pretende

    requerer a exumao do corpo, para saber se S. chegou a colocar os pertences de A. no caixo.

    A PISTA

    Quinta-feira, O Globo soube que V. visitara W., em Caxias, pelo menos trs vezes antes da

    morte de A., fato posteriormente confirmado em cartrio por C. e M. L. Em seu depoimento,

    porm, ao referir-se a W., V. afirmara que mal o conhecia: no tinha qualquer afinidade com ele,

    muito menos um relacionamento formal. Imaginava-se ento que V. tivesse ido a Caxias instigar W.

    a matar A., a pedido da irm que a acusou de t-la induzido a matar o marido.

    Quando V. chegou ontem delegacia, para uma acareao com a irm ( o que no ocorreu

    porque S. continua desaparecida), um reprter de O Globo perguntou-lhe sobre suas visitas casa

    de W., antes do crime, o que no seria normal em quem afirmara mal conhecer o rapaz. V. deixou

    escapar que ia pedir proteo a Maria Padilha e contou at que uma ocasio levou S.

    Uma reprter foi conversar com M. L. citando o nome de Maria Padilha e dizendo que j

    sabia de tudo. M. L. contou ento em todos os detalhes. Enquanto ela era ouvida em cartrio, o

    reprter de O Globo esteve com W., a quem disse: Sobre Maria Padilha, a M. L. j contou tudo.

    W. teve uma crise de nervos e em seguida contou toda a histria, em tudo igual a de M. L. Depois,

    C. tambm confirmou (nenhum dos trs se viu antes das confisses em separado) e, at agora,

    apenas V. reluta em entrar em detalhes.

    MAGIA NEGRA

    W., que mora com C. h sete anos, disse que S. vinha tentando matar A. h muitos anos:

    Ela freqentou de tudo, at quimbanda, e em todo lugar era muito explorada. Gastou muito

    dinheiro e deu muitas jias. At que um dia, h uns trs anos, eu lhe disse que minha mulher recebia

    uma entidade forte, a Maria Padilha. Ela ento pediu que eu a levasse ao terreiro. A partir da, d. S.

    passou a freqentar o terreiro de C., pelo menos duas vezes por ms, acompanhada de d. V.

    W., sempre procurando proteger a companheira e dizendo que ela uma pessoa totalmente

    diferente de Maria Padilha, disse ao delegado F. que a coisa no deu certo porque S. tinha muita

    pressa:

    Ela chegou a gritar com a entidade, e isto no se faz. At que Maria Padilha disse que teria

    que ser eu a matar o A. ele tinha o corpo muito fechado, e os despachos no estavam dando certo.

  • O Caso da Pomba-Gira

    Maria Padilha me deu uma barra de ferro de 20 centmetros de comprimento por uma polegada e

    meia de grossura que estava na caixa de ferramentas, e me mandou fazer o servio.

    Mas W. conta que no teve coragem, e quando j estava dentro do quarto, em frente a A.,

    desistiu e fugiu. Dias depois foi convocada nova sesso no terreiro de Caxias:

    A d. S. estava brava, e a Maria Padilha tambm. Foi escolhido outro dia e, pouco antes,

    houve nova sesso. A, fui com uma barra de ferro de meio metro, que encontrei na rua. Embrulhei-

    a num jornal e entrei na casa com a ajuda de d. S., que me escondeu num quarto ate A. dormir.

    Nesse dia ele acordou e eu me escondi no banheiro. Quando ele foi atrs, eu tive que dar um golpe

    na cabea dele, para fugir.

    Consumado outro fracasso, S. convocou uma nova sesso. W. explicou que com ferro e

    com as mos no dava; tinha que ser com arma de fogo:

    Mas Maria Padilha no queria as duas coisas, e por isso deu tudo errado: no queria que eu

    matasse A. na rua, como pedia S., mas sim dentro de casa, porque era mais seguro; no queria

    armas de fogo. Mas S. insistiu, me deu Cr$ 3 mil e eu comprei de um vigilante um revlver calibre

    32. Outra sesso, e eu j estava pronto para fazer o servio. Entrei meia-noite, porque tinha que

    ser sempre meia-noite, e apontei o revlver para A. mas no tive coragem e me escondi outra vez

    atrs do sof. D. S., como tnhamos combinado, meia-noite deu trs pigarros, e ficou dando

    pigarros at quase s 5 da manh, quando se levantou, me deu a maior bronca e me mandou

    embora, dizendo que A. j estava na hora de levantar para se preparar e levar as crianas ao colgio.

    HORA DO MEDO

    A essa altura, S. j estava tentando desistir do terreiro e ameaou ir procurar outro. Mais

    uma sesso, e Maria Padilha determinou que o crime teria que ser praticado por M. L.

    - Ela me disse que no concordava com arma de fogo, mas que mesmo assim me guiaria

    contra M. L. Ento, a S. me fez entrar e me escondeu cedo atrs do sof. meia-noite eu entrei no

    quarto do A. mas pensei em desistir. A, uma fora estranha me empurrou novamente para dentro

    do quarto. Quando dei por mim, tinha apertado o gatilho. Ento s pensei em sair correndo,

    deixando no quarto todas as coisas que a C. mandou que eu roubasse.

    Segundo M. L. ela tambm no seu relato, procura minimizar a participao de C., e esta

    afirma que agia tomada pela entidade S. no era explorada no terreiro:

    - Pagava apenas consultas de CR$ 100 e levava s cigarros, cachaa, velas e algumas

    pinturas, que Maria Padilha muito vaidosa. Depois do crime, Maria Padilha ordenou que no se

    tocasse nunca nesse assunto. No sei o que vai ser de mim agora. De cadeia, no tenho medo. Estou

    apavorada com a Maria Padilha.

  • O Caso da Pomba-Gira

    O Dia 22/09/79

    EXORCISTA NA DELEGACIA

    A 22 Delegacia Policial, em Brs de Pina, viveu, ontem, um dia de muita egitao e indito

    nos anais da criminalidade. Como foi divulgado, estava marcado a tomada de depoimento de C.,

    implicada no assassinato do comerciante A., morto com um tiro em sua casa, a mando da prpria

    esposa, segundo sua confisso e o depoimento dos demais implicados.

    C., a criatura que se incorpora na entidade espiritual Maria Padilha e, segundo todas as

    verses, ela teria orientado e induzido ao assassinato. No entanto, surgiram muitas dvidas, pois ela

    afirmava que, em seu estado normal, nada sabia e que apenas a entidade conhecia os detalhes do

    crime. Na primeira tomada de depoimento, o delegado D., nada pde fazer, pois a Pomba-Gira

    desceu e nesse estado se manteve todo o tempo. No foi possvel, ento, o registro oficial de suas

    declaraes para a juntada nos autos.

    EXPECTATIVA

    Diante de todos os antecedentes, foram tomadas inmeras providncias para garantir o

    depoimento oficial, evitando-se o transe da testemunha. O advogado de C., por ofcio, convocou o

    Pai-de-Santo J., presidente da Federao Nacional das Sociedades Religiosas de Umbanda, para

    atestar a autenticidade de sua mediunidade. O delegado, por sua vez, solicitou o comparecimento do

    mdico psiquiatra P. Alm dos dois, compareceu o pastor da Igreja Pentecostal, J., que se propunha

    a realizar uma cerimnia de exorcismo, destinada a expulsar o demnio que se apossasse do corpo

    de C.

    Pai J., se fazia acompanhar de dois advogados e tambm de sua filha, advogada M. O clima

    de expectativa era imenso, sendo grande o nmero de curiosos que superlotavam todas as

    dependncias da delegacia.

    Segundo que estava determinado, o primeiro ato oficial deveria ser a acareao entre C., W.,

    seu amante e que chegou a fazer trs tentativas para matar o comerciante, M. L., que foi quem fez o

    disparo fatal, S., esposa do morto e acusada de ser a mandante do crime, alm de V., irm de S.

    Essa acareao estava marcada para s 14 horas, mas S. e V. no compareceram. s 15 horas o

    delegado resolveu, ento, transferir o ato.

  • O Caso da Pomba-Gira

    PRIMEIRA INCORPORAO

    Foi nesse perodo que se deu a primeira incorporao de C., na Pomba-Gira Maria

    Padilha. O delegado perdeu o controle da situao e a multido de curiosos invadiu o gabinete. A

    Pomba-Gira dava gargalhadas e o ambiente era de completo tumulto. O pastor J., comeou a

    entoar cantos religiosos e tudo parecia que ia degenerar.

    Os policiais, entretanto, conseguira, restabelecer a ordem e s foi admitida a presena do Pai

    J., de sua filha, do psiquiatra P. e dos advogados.

    Foi nesse momento que se iniciaram os testes, e as concluses do psiquiatra e do dirigente

    umbandista so as mais conflitantes. Um atesta a espiritualidade de C., e o outro afirma que tudo se

    trata de uma grande farsa mal representada.

    CONFLITO DE OPINIES

    Pai J. um dos mais experimentados homens da religio umbandista, possuidor de vasta

    cultura religiosa e que ainda h pouco tempo viajou por todo o mundo para manter contatos com

    lderes espirituais. Ele citava fatos para atestar sua concluso de que o transe de C. era autntico.

    Entre outros exemplos, disse que, quando uma entidade est na Terra, para provar se autntica os

    especialistas comprimem os olhos e o tero. Se a entidade no verdadeira, ela imediatamente volta

    ao normal. Maria Padilha resistiu a todos esses testes e, para terminar, sem que ningum lhe

    dissesse, identificou sua filha, a advogada M., como a guardi da sua entidade, funo que ela

    cumpre em seu terreiro original.

    O psiquiatra P., por sua vez, asseverou que a incorporao era inautntica, pois a paciente

    respondeu positivamente aos testes de sensibilidade e estava com seus sentidos normais. Ela sentiu

    ccegas na planta dos ps e respondia positivamente aos sinais que fazia. O Dr. P. afirmou que

    acredita em uma farsa mal encenada, embora na psicopatia dela admita que C. possa acreditar que

    realmente recebe uma entidade espiritual. Porm, sua expresso corporal e seus sentido so

    absolutamente normais.

    O psiquiatra ainda disse que, sob o ponto de vista psiquitrico, as pessoas que lidam com

    esse tipo de misticismo geralmente so dotadas de desequilbrio e ele arriscaria um diagnstico

    baseado numa estatstica de 90% de possibilidades de que C. possui esse desequilbrio.

    O EXORCISTA

  • O Caso da Pomba-Gira

    Maria Padilha ainda estava em transe, quando entrou em cena o Pastor J. A entidade

    saudou-o com uma gargalhada e logo em seguida expulsou-o da sala. Pai J., teve de voltar sala e

    novamente teve de atuar junto me-de-santo, conseguindo tranqiliz-la e manter uma

    conversao mais calma. Foi nesse momento que Maria Padilha reconheceu a advogada M., e a

    saudou como guardi das Pombas-Giras.

    DEPOIMENTO

    Logo depois C., voltou ao normal e foi iniciada a tomada de depoimento, ainda assistido

    pelo psiquiatra e por Pai J. O depoimento constitui-se numa difcil tarefa para a polcia. C.

    sistematicamente dizia que desconhecia qualquer detalhe do fato e que somente sua Pomba-Gira

    conhecia os episdios. W. e M. L., que estavam presentes, confirmavam essas afirmaes e diziam

    que, realmente, em seu estado normal, jamais C. tinha conversado sobre o assunto e que

    desconhecia tudo o que se relacionava com o destino do comerciante assassinado.

    O Delegado D. decidiu registrar tudo e tomar a termo todas as declaraes. Ele deixar ao

    encargo do juiz a deciso de mandar indiciar ou no C. como mentora do crime. Para ele, a figura a

    ser autuada seria a de C., que, em ltima anlise, a responsvel pela personalidade da Pomba-

    Gira. Entretanto, no sabe se essa incorporao lhe traz o estado de inconscincia e, nesse caso,

    no haveria forma de indici-la, mas, ao contrrio, envi-la a tratamento especializado.

    PRISES DECRETADAS

    Sem que ningum soubesse, o delegado guardou para o final do depoimento de C. um trunfo

    que trazia no bolso. Era a decretao da priso preventiva de W., M. L. e S., concedida pelo juiz

    sumariamente do I Tribunal do Jri. O magistrado negou, apenas, a decretao da priso de V.

    Nessa altura, C., ao tomar conhecimento de que seu amante W. ficaria preso, comeou

    novamente a passar mal e foi levada s pressas para o 1 andar da delegacia. O psiquiatra e Pai J. j

    tinham se retirado e s se encontrava presente o Pasto J. que, durante todo o tempo, continuava

    entoando suas canes religiosas.

    BATALHA

    Foi, ento, que se assistiu a uma batalha dramtica, que chegou a provocar a interveno

    enrgica de um policial. O pastor aproximou-se e comeou a ser repelido. Maria Padilha no

    cessava de gargalhar. Quando ele fez meno de passar sobre ela o leo sagrado, que disse que

  • O Caso da Pomba-Gira

    expulsava qualquer demnio, ela ofereceu seu corpo, deixou que o untasse vontade, para, depois,

    voltar a se manifestar, agressivamente, proferindo palavras de baixo calo e quase agredindo o

    pastor. Travou-se ento uma batalha, que, pela brutalidade, chocava aos que assistiam. O Pastor J.

    segurava a Pomba-Gira pelos braos, a sacudia violentamente e ela, sem para de rir, reagia, e

    voltava aos xingamentos, cada vez mais violentos.

    Foi necessrio, nessa altura, que um detetive interviesse e pedisse ao pastor que se retirasse,

    pois antevia-se cenas de grande violncia.

    EXPLICAES

    O Pastor J., depois, procurava explicar o fracasso de sua tentativa. Ele confessou que o

    demnio que atacava C. era violento demais e ele necessitava de ajuda de outros irmos e um local

    mais apropriado. Ele disse que conhecia casos iguais e citou um fato, ocorrido com um doente,

    numa mesa de cirurgia, que foi morto porque um demnio invadiu o corpo do mdico que o

    operava.

    Para o Pastor J., C. vtima de um demnio de grande fora que pode at mat-la, caso ela

    no possa encontrar uma forma de se libertar de seu demnio.

    O advogado L., que defende C., W. e M. L., assistiu a todos os fatos e afirmou que solicitar

    uma certido das declaraes do Pai J., atestando a mediunidade de sua cliente, para anex-lo aos

    autos do processo e basear nesse atestado a defesa de sua constituinte, que considera inocente em

    seu estado normal.

    O Globo 06/10/79

    DELEGADO DO CASO DA MAGIA NEGRA

    VAI SER SUBSTITUDO

    O Delegado D., que permitiu a realizao de sesses de umbanda em seu gabinete, durante

    as investigaes do assassinato do comerciante A., chegando a ouvir uma me-de-santo

    supostamente em transe, ser substitudo no cargo de titular da 22 D.P. nesta segunda-feira. Outro

    delegado que tambm dever perder o cargo de titular C., que deve deixar a Delegacia de

    Entorpecentes.

  • O Caso da Pomba-Gira

    D. esteve com o diretor do DPM, A.R., e do DGPC, O., seguindo depois para uma audincia

    com o Secretrio de Segurana, General E. M., a quem deu explicaes sobre a realizao de

    sesses espritas na delegacia.

    O comerciante A. foi assassinado por M. L., a mando da mulher da vtima, S., que tambm

    contratara para o homicdio W.

    O Globo 20/10/79

    JUIZ IMPEDE ME-DE-SANTO DE REPETIR

    NO TRIBUNAL O SHOW QUE DEU NA POLCIA

    Vestida de branco e com colar da mesma cor, segundo recomendao do pai-de-santo J., C.

    no incorporou a Pomba-Gira, ontem, no I Tribunal do Jri, como fez, h um ms, na 22 D.P. No

    depoimento sobre a morte do comerciante A., foi advertida pelo Juiz R.: Sabe muito bem o que vai

    acontecer, se repetir o show.

    C., ento, ficou quieta e controlada, ao lado dos quatro acusados do homicdio. A. foi morto

    quando dormia em seu quarto, com um tiro no peito, na madrugada de 21 de agosto, e sua mulher,

    S., acusada de ser a mandante do crime.

    DOUTRINA

    Antes das 14 horas, C. e V. as nicas denunciadas em liberdade estavam no corredor do

    tribunal, com seus advogados. C. tinha no colo dois maos de cigarro sem filtro e quase no quis

    falar. O advogado E. informou que sua cliente nunca tinha visto A. e no tem nada com o crime.

    Segundo ele, C. incorporou a Pomba-Gira na polcia para evitar maus-tratos, mas, agora, o pai-de-

    santo J. est desenvolvendo uma doutrina para que ela se controle.

    s 14h30min., o Juiz R. chegou e disse que no permitiria fotografias, para que essa moa

    no tenha platia e no repita o show. Seria desmoralizar a Justia.

    Logo depois, chegaram, escoltados, os outros dois acusados: W. e M. L., os quais, segundo

    os advogados, contraram sarna e devero ser removidos para local onde tenham assistncia mdica,

    seguidos de S., chorando.

    Todos os quatro esto denunciados por homicdio duplamente qualificado, com motivo

    torpe, porque houve promessa de pagamento, e surpresa, porque a vtima dormia. Segundo o

    Promotor J. A., M. L, deu um tiro no peito de A. a mando de W., que lhe oferecera CR$ 50 mil.

  • O Caso da Pomba-Gira

    O dinheiro seria dado pela mulher do comerciante, S., que j havia tentado mat-lo por trs

    vezes. V., irm de S., foi includa na acusao como solidria no planejamento do crime. E C.

    porque fez trabalhos em sesses espritas, abusando da crendice dos outros denunciados.

    O Delegado C. foi a primeira testemunha interrogada, porque presidiu o inqurito na 22

    D.P. ele disse que o apartamento do comerciante estava em ordem, o que afastou a hiptese de

    assalto.

    A primeira pista para descobrir os autores do crime foi dada pelo comerciante F., que

    compareceu delegacia e contou que ouviu, por uma extenso telefnica, uma conversa de W.

    W. criado por S. e A., negou no primeiro depoimento, mas, depois, confessou que foi

    induzido pela mulher do comerciante, por duas vezes, a mat-lo. Como no teve coragem, disse ter

    contratado M. L.

    O delegado contou, ainda, que antes da deciso de matar o marido, S. foi casa de C., em

    Duque de Caxias, e ela receitou um p preto, feito com ossos modos de defuntos, formicida, terra

    de sepultura e pimenta, que foi colocado na comida de A.

    O Globo 25/10/79

    MORTE DE COMERCIANTE: DEPOIMENTOS

    Com os depoimentos de cinco testemunhas, foi feito ontem, no I Tribunal do Jri, o sumrio

    do processo em que S. acusada de mandar matar o marido, A., comerciante. A. foi morto com um

    tiro dia 28 de agosto, disparado por M. L., a quem S. prometera pagar CR$ 50 mil.

    O Globo 01/08/81

    JUIZ CONDENA QUATRO NO CRIME DA POMBA-GIRA

    S., acusada de planejar a morte do marido, o comerciante A., assassinado com um tiro em

    agosto de 1979, em episdio que envolveu a pomba-gira C. e mais dois outros cmplices, foi

    condenada ontem a 18 anos de priso e mais dois por medida de segurana.

    No total das penas, os quatro soma 72 anos de recluso. Na sentena, o Juiz E. diz ter o jri

    reconhecido que a r praticou homicdio duplamente qualificado pela motivao torpe e ataque

    sorrateiro, recurso que impossibilitou a defesa da vtima.

  • O Caso da Pomba-Gira

    C., que aconselho a mulher a matar o marido, foi condenada a 12 anos. M. L., que matou o

    comerciante aps ser contratado por S., cumpre pena de 18 anos. O faxineiro W., confidente da

    mulher do comerciante e que comprou a arma para o crime, foi condenado a 16 anos. Os trs, assim

    como S., receberam mais dois anos de pena por medida de segurana.

    Ainda este ms dever ser julgada sua irm, V. ela est denunciada por concorrer para o

    crime solidarizando-se com a conduta da criminosa, a quem acompanhou nos momentos em que foi

    tramado o plano criminoso, sempre incentivando-a a providenciar a eliminao do ofendido.

    ESPIRITUALIDADE

    Embora anteriormente tenha confessado sua participao no episdio, S., ao ser interrogada

    no julgamento, negou ter mandado matar o marido, e disse que sua vida com o comerciante era

    insuportvel, devido a problemas de relacionamento sexual. Explicou ter concordado com a

    proposta de C., para que seu marido fosse eliminado espiritualmente, tendo desautorizado o

    homicdio.

    No libelo, o Promotor J. M. sustentou a denncia de que, no dia 21 de agosto de 1979, por

    volta de 00h30min., no interior de um dos quartos do atirou contra A. O crime foi cometido por

    motivo torpe, mediante promessa de recompensa feita por S..

    S. foi casada 16 anos com o comerciante, com quem teve dois filhos. Seus advogados

    recorreram da sentena.

    b) Autos do Processo

    CARTA DO PAI J., PRESIDENTE DA FEDERAO NACIONAL

    DAS SOCIEDADES RELIGIOSAS DE UMBANDA:

    Rio de Janeiro, 2-feira, 08 de outubro de 1979

    Ilmo. Sr. Dr. L. da R. B.,

    Saudaes.

    Passo a dar resposta carta de V. Sa., assinada em 19-09-79, solicitando a nossa presena,

    s 14 horas de sexta-feira, dia 21, na 22 Delegacia Policial, na Rua Logo Jnior, Bairro da

    Penha, a fim de tratar e certificar da incorporao da mdium C., incorporando a entidade Maria

    Padilha.

  • O Caso da Pomba-Gira

    A incorporao efetuada torna a mdium inconsciente, isto , a mdium no tem

    conscincia das perguntas dos consulentes e das respostas da entidade.

    A mdium C. no tem conhecimento do ritual e nem da doutrina religiosa umbandista, pois

    freqentou outra religio, da qual se afastou quando das suas primeiras manifestaes medinicas.

    A mdium C. analfabeta, nunca freqentou Terreiro, Centro ou Roa, no sendo

    doutrinada para o controle de seu transe medinico total, com as caractersticas de Pomba-Gira e

    de Maria Padilha.

    tipo de mediunidade procurada por consulentes, que por motivos bvios, desejam segredo

    de suas consultas.

    Quando em Terreiro, os mdiuns so assistidos por auxiliares (cambonos), para proteo

    dos mdiuns, o que no ocorria com a mdium C.

    Recolhemos na segunda-feira, dia 24-09-79, em recinto religioso, a mdium C., a pedido da

    mesma, aps o transe na delegacia, mantendo-a para sua orientao religiosa at o dia 20-10-79.

    Durante esse perodo teve comportamento normal.

    Certos de termos cumprido com nosso dever religioso e de cidado, continuamos ao inteiro

    dispor do nobre causdico.

    Cordialmente,

    J.

    LAUDO DE EXAME DE SANIDADE MENTAL

    Os abaixo assinados, perito encarregados do exame de sanidade mental em C., do a seguir

    o laudo respectivo.

    HISTRIA CRIMINAL

    Denncia: No dia 21 de agosto de 1979, por volta das 00:30 horas, no interior de um dos

    quartos do apartamento 202, do edifcio situado na Avenida Antenor Navarro n. 100, nesta cidade,

    a PRIMEIRA DENUNCIADA M. L. efetuou disparo de arma de fogo contra A., atingindo-o e

    causando-lhe as leses descritas no auto de exame cadavrico de fls. 124, as quais, por sua natureza

    e sede, foram a causa da morte da vtima.

    O crime foi cometido por motivo torpe, ou seja, mediante promessa de recompensa feita

    pela terceira denunciada, agindo o segundo acusado como intermedirio da empreitada criminosa.

    Na prtica do crime, usou a primeira denunciada de recurso que impossibilitou a defesa do

    ofendido, pois agiu mediante ataque sorrateiro, aps aguardar que a vtima dormisse, eis que ficara,

  • O Caso da Pomba-Gira

    por algum tempo, escondida em um dos quartos do apartamento, contando, para tanto, com o

    auxlio da terceira acusada.

    Os demais denunciados segundo, terceiro, quarto e quinto concorreram eficazmente,

    com conscincia e vontade, para a prtica do crime descrito no item anterior, uma vez que se

    encontravam unidos pelo mesmo propsito homicida.

    O segundo acusado W. aderiu ao plano criminoso da terceira acusada, dela aceitando

    promessa de recompensa a fim de providenciar a eliminao da vtima, tendo, inclusive,

    subempreitado a atividade delituosa primeira acusada, a quem, por sinal, acompanhou at as

    proximidades do edifcio em que se deu o crime, a fim de lhe facilitar a fuga, como de fato ocorreu.

    A terceira denunciada S., esposa da vtima participou, por seu turno como mandante do

    crime, empreitando a atividade criminosa aos dois primeiros denunciados e dando cobertura

    executante do delito, chegando, mesmo, a escond-la no apartamento, com o propsito de aguardar

    que a vtima dormisse, a fim de que o plano sinistro fosse executado.

    A quarta denunciada V. , por sua vez, concorreu para o crime solidarizando-se com a

    conduta criminosa da terceira denunciada, sua irm, a quem acompanhou em momentos em que foi

    tramado o plano criminoso, sempre incentivando-a a providenciar a eliminao do ofendido.

    A quinta denunciada C. , com sua conduta solidarizante e acorooadora, concorreu

    eficazmente para a prtica do homicdio, pois, ante o fanatismo e a crendice dos demais

    denunciados, realizou, mediante remunerao, algumas sesses, nas quais se tramou a morte da

    vtima, animando, assim, os acusados prtica do crime e prometendo a eles a sua proteo.

    ESTO, assim, incursos nos artigos 121, 2, I e IV (a primeira denunciada), 121, 2, I e

    IV c/c 25 (os segundo, quarto e quinto denunciados) e 121, 2, I e IV, c/c 25 e 44, II, do Cdigo

    Penal (a terceira denunciada).

    Elementos Colhidos nos Autos: De fls. 111, o discurso da examinada, ainda que se possa

    fazer algumas ressalvas quanto ao contedo, nada se pode dizer da inteno: busca, de maneira

    clara, defender a sua inocncia no caso e o faz sob uma argumentao lgica, nada indicando a

    perturbao mental quele tempo. Idem de fls. 190 at 191 verso, Interrogatrio em Juzo. De fls.

    200, uma declarao da Federao nacional das Sociedades Religiosas de Umbanda, que ser

    melhor estudada adiante.

    Verso da Acusada aos Peritos: Eu estou presa por esse sentido: porque esse casal morava

    na minha casa que era a menina (M. L.) e o rapaz (W.) que fizeram isso do crime; eu no sabia de

    nada do que se tratava, eles foram presos sendo que eu ia levar comida para eles; ficou um tempo

    sem eu nada saber do que se tratava, sendo que o Detetive N. j tinha me avisado que eles iam me

    complicar; um dia o detetive foi l e disse que o delegado tinha mandado me buscar; a quando

    cheguei l tinha uma televiso e disseram que eu fiz uma poro de coisas mas no nada disto

  • O Caso da Pomba-Gira

    porque eu no acredito em macumba; com isto tudo que est a eu no tenho nada com isto porque

    eu nem conhecia o moo que morreu.

    ANAMNESE

    Antecedentes Psicossociais: Vem de famlia humilde, filha de lavrador do interior do Estado

    do Esprito Santo. Jamais freqentou escola; casou-se aos 12 anos, quatro filhos, todos saudveis.

    Veio para o Rio em companhia do marido, aos 21 anos. De sua fala: assim que chegamos no Rio,

    meu marido comeou logo na farra, arrumando mulher de tudo quanto lado, acabou me largando e

    indo morar com outra; eu fui trabalhar em casa de famlia para sustentar os filhos; sempre trabalhei

    como domstica, sendo que h 2 anos arrumei um emprego na Funerria Duque de Caxias; dava

    para ir vivendo porque eu fazia horas extras; eu conheci a M. L., desde quando ela tinha 17 anos, 3

    anos depois foi morar l em casa com uma filhinha porque ela tambm trabalhava e depois comeou

    a gostar do meu filho R., que tem 23 anos e passaram a dormir juntos; eu quase no parava em casa

    porque trabalhava noite e quando chegava em casa para descansar j estava na hora de voltar para

    o trabalho; este negcio de macumba que andam dizendo por a de mim tudo mentira porque eu

    no acredito em nada disto; eu tive uma coisa qualquer quando estava dentro da delegacia e a

    televiso filmou tudo e depois um senhor religioso me levou para a casa dele e fiquei l uns 15 dias

    e me dei bem porque fui bem tratada; l eu fiquei num quarto em repouso e eles me tiravam para

    fora e me jogavam pipoca em cima e sacudimento de comida seca, tudo que fosse de comer, eles me

    botavam de vestido branco no centro de uma roda com um pano forrando o cho, eu ficava no meio

    de p, eles davam passes em mim, eu no entendo nada disso, mas me sentia bem. Perguntada

    sobre o que consta do processo, no referente ao fato que exercia regularmente as prticas de dar

    passes, fala: Eu no acredito nisso mas recebia dinheiro quando as pessoas deixavam 100 cruzeiros

    para eu comprar cigarros; eu dava passes porque um negcio que me pega mas no acredito em

    nada disso; eu no sei nada disso de centros de macumba, mas eu no pedia dinheiro a ningum;

    quando eu dava cor de mim j estava o dinheiro l que as pessoas tinham deixado em cima da mesa,

    sem mesmo eu pedir, mas eu digo ao senhor que eu no acreditava em nada disto porque eu sou

    catlica e quando tenho tempo eu vou at missa na Igreja de Santo Antnio l em Caxias; isso que

    esto dizendo a que fui eu que mandei a mulher matar o homem eu continuo dizendo que no tenho

    nada a ver com isso, que eu no ia mandar matar ningum.

    EXAME PSQUICO

  • O Caso da Pomba-Gira

    Paciente calma. Normalmente orientada no tempo e no espao. Ateno de tenacidade e

    vigilncia normais. Memria conservada para os fatos atuais e antigos. Refere episdios de perda da

    conscincia com atividade motora e amnsia lacunar. Estado de humor sintnico. No h distrbios

    da senso-percepo nem atividade delirante atual. Inteligncia dentro da mdia. Ausncia de sinais

    da srie psictica. Acentuada labilidade emocional e afrouxamento da autocrtica.

    CONCLUSES

    Consideraes Psiquitrico-Forenses: A paciente apresentando comportamento tpico dos

    portadores de estruturao anormal da personalidade. Seria a personalidade psicoptica clssica, de

    feitio predominantemente histrico. De plano avulta a mendicidade sistemtica como a

    possivelmente nica maneira de se relacionar com os outros. Exemplo: diz que nasceu em 1941,

    havia dito na delegacia (fls. 72) que nascera em 1933, no meio do exame revela que tem 35 anos

    (1945) adiante modifica, afirmando que no sabe ao certo a idade nem o ano do nascimento, e,

    assim, em uma linha de tentativa de manipular o examinador, vai dizendo o que lhe ocorre, para

    depois desdizer e, em alguns momentos, at se surpreender com o que houvera dito minutos atrs. A

    falncia da autocrtica notvel. Exemplo: comea chamando o examinador de meu querido;

    depois de meu filho; adiante: meu santo e vai por a pretendendo a intimidade, sem qualquer

    forma de conteno indicativa de uma percepo adequada da realidade que est vivendo.

    Prossegue a mitmana: no sou macumbeira; no sei de nada disso; verdade que dou uns passes

    e ajudo as pessoas mas no recebo dinheiro, s quando querem me dar; a, sim, recebo e pronto,

    mas no recebo porque quero, recebo dinheiro porque querem me dar; no me lembro de nada do

    que acontece comigo, no sei de nada que acontece comigo e dizem que sou mdium.

    Todo este funcionamento se cumprindo dentro de uma atitude que discrepa, em muito,

    daquela que seria de se esperar de quem estivesse sob processo e expectativa de condenao; parece

    que nada lhe ameaa nem lhe diminui a altura do pedestal em que se julga estar; olmpica,

    confiante, intrusiva, falastrona, mentindo a cada frase, sobressai neste painel de anormalidade do

    carter, a onipotncia infantil do pensamento que , por, certo, a raiz da conduta anmala. Em

    outros termos: acredita em si mesma o suficiente e o total para no precisar acreditar em mais

    ningum; mantm um conluio com a divindade da qual ningum mais participa e as foras

    csmicas, ou espritos ou o que l que seja, so seus perenes convidados e parceiros de engodo que

    est pronta a empurrar para cima dos crdulos, sem qualquer forma de respeito pelo outro: dispe-se

    a prometer a cura de doenas que nem sabe quais sejam e cicatrizar feridas em pernas que nunca

    viu. A falncia da autocrtica, ainda uma vez, to exuberante que atinge ao ridculo: a paciente no

    consegue estabelecer a diferena entre o mdico psiquiatra e os crdulos que constituem a sua

  • O Caso da Pomba-Gira

    clientela: deixa comigo que tudo vai correr bem para o senhor. A mistificao e as atitudes

    histricas, a onipotncia levada ao extremo e a falncia conseqente da autocrtica, o

    comportamento anormal, enfim, tem a sua origem no radical psicoptico. Trata-se de personalidade

    anormal, que mesmo entendendo do que seja punvel no tem condies de reflexo suficiente para

    se conduzir adequadamente

    III. Anlise

    O carter extremamente ambguo que reveste a posio da Umbanda (e dos chamados cultos

    afro-brasileiros em geral) no contexto da sociedade brasileira no constitui, j h algum tempo,

    novidade para os antroplogos e cientistas sociais que se tm dedicado ao assunto. Incorporada

    como elemento de autodefinio de uma certa identidade nacional a Umbanda encontra a contra-

    partida dessa funo nas constantes acusaes a que submetida, encarada como manifestao de

    certos problemas sociais (primitivismo, selvageria, atraso etc) ou mesmo individuais

    (perturbaes mentais, desajustes psico-sociolgicos).

    Parece contudo que as verdadeira razes para essa ambigidade fundamental no

    constituram objeto de pesquisa especfica5. Em outros termos, a posio ambgua ocupada pela

    Umbanda na sociedade nacional tem sido tomada como um dado e no problematizada enquanto

    questo. Em ltima anlise esse o objetivo deste trabalho. Partimos de uma constatao

    geralmente aceita, implcita ou explicitamente, por todos os analistas: os cultos afro-brasileiros em

    geral, e a Umbanda em particular, esto marcados, desde sua introduo ou gnese no Brasil, por

    um duplo sistema de foras que comanda seus movimentos. De um lado, temos um sistema de

    ordem centrfuga que tende a pluralizar as variantes do culto, a acentuar as diferenas, a proliferar

    discursos paralelos; de outro, um conjunto de foras centrpetas que busca incessantemente

    conduzir o sistema para um possvel centro, orden-lo, normatiz-lo.

    5 A exceo parece-nos ser o artigo de Peter Fry (FRY, Peter. Feijoada e soul food: notas sobre a

    manipulao de smbolos tnicos e nacionais. In: Ensaio de Opinio. So Paulo, Inbia, 2(2):44-

    47, 1977) onde, ao mencionar rapidamente o Candombl, o autor sustenta que a utilizao desses

    cultos como elementos definidores da identidade nacional uma espcie de neutralizao dos

    perigos simblicos representados por esses cultos marginais. Em outros termos, a ambigidade da

    Umbanda estaria situada sobre um eixo diacrnico onde o processo de neutralizao avanaria

    continuamente. Sem negar a justeza dessas observaes, acreditamos que o trao fundamental desse

    carter ambguo a sua manifestao sincrnica, ou seja, que os pontos de vista positivo e negativo

    a respeito da Umbanda formam um todo indissocivel.

  • O Caso da Pomba-Gira

    Ambos os sistemas de foras ultrapassam amplamente o que se convencionou chamar de

    campo religioso. Assim, certos discursos difundidos pela sociedade associam Umbanda toda e

    qualquer manifestao sobrenatural, contribuindo assim para expandir o sistema em vrias

    direes; por outro lado, discursos codificadores entre os quais se coloca na linha de frente o

    prprio discurso dos antroplogos tendem a produzir, e conseqentemente encontrar, uma unidade

    atravs de definies restritivas e cortes marcantes. Alm disso, preciso notar que esses feixes de

    discursos so em grande parte annimos no sentido de que seus possveis autores representam

    apenas a cristalizao momentnea de um processo muito mais abrangente.

    A hiptese bsica aqui em jogo que essa ambigidade radical da Umbanda no sentido de

    que ela coextensiva com o prprio culto enquanto sistema responde pelo carter incerto e

    tambm ambguo de sua classificao socialmente atribuda no Brasil.

    Como atingir contudo esse nvel, e verificar essa hiptese, testando-a, ampliando-a e

    complexificando-a? bvio que s o recurso observao concreta pode permitir esse passo

    generalizante. Na ordem cronolgica da pesquisa que a ordem lgica da exposio transforma

    inevitavelmente foi a ateno empresta a um caso especfico que levantou essas questes,

    permitindo ento a anlise desse caso mesmo. Trata-se de um assassinato que ocupou as pginas do

    noticirio policial dos jornais do Rio de Janeiro (e, algumas vezes, suas primeiras pginas) entre os

    dias 11 e 30 de setembro de 1979. Tingido de elementos msticos e associado a prticas tidas

    como umbandistas, ele pode fornecer o foco a partir do qual alguns elementos essenciais da posio

    dos cultos afro-brasileiros na sociedade brasileira puderam ser examinados.

    Cumpre preliminarmente, contudo, afastar um possvel equvoco. De fato um estudo de

    caso poderia ser considerado como uma perspectiva excessivamente parcial e limitada, incapaz

    portanto de dar conta de fatos de nvel muito mais abrangente, e que constituem o alvo desse

    trabalho. Tudo depende entretanto de como encarar o prprio conceito do que vem a ser um caso.

    Longe de constituir esse fato isolado e cerrado sobre si mesmo um caso antes um

    acontecimento em torno do qual e a propsito do qual vieram se cruzar discursos de

    origem, forma, organizao e funo diferentes... Todos falam ou parecem falar da mesma

    coisa... Mas todos eles, e em sua heterogeneidade, no formam nem uma obra nem um texto,

    mas uma luta singular, um confronto, uma relao de poder, uma batalha de discursos e

    atravs de discursos. E ainda dizer uma batalha no dizer o bastante; vrios combates

    desenrolaram-se ao mesmo tempo e entrecruzando-se...6

    6 FOUCAULT, Michel, org. Eu, Pierre Riviere, que degolei minha me, minha irm e meu irmo.

    Rio de Janeiro, Graal, 1977.

  • O Caso da Pomba-Gira

    Em outros termos, um caso o lugar a partir de onde possvel visualizar e confrontar

    uma multiplicidade de discursos que, mais ou menos casualmente, ali encontraram seu ponto de

    cruzamento. Estamos, assim, diante da indeterminao do que poderamos chamar de uma

    tragdia. Tratar um caso como uma tragdia estar atento a seus detalhes mais imprevistos, a

    suas reviravoltas, a seus combates: em uma palavra, a seu poder transformador e produtor.

    Nossa trama razoavelmente banal, igual a muitas outras que ocorrem na periferia das

    grandes cidades brasileiras e que alguns jornais noticiam com certo destaque e, s vezes, com

    grande estardalhao. Uma mulher de trinta e cinco anos S., classe mdia, suburbana do Rio de

    Janeiro, planeja e ordena o assassinato do marido A., comerciante e herdeiro de uma boa fortuna

    paterna. S. teria contratado por cem mil cruzeiros um rapaz chamado W. (faxineiro e conhecido da

    famlia de A. e S. desde os doze anos de idade) para executar o crime; este, por sua vez, teria

    aceitado o encargo por gostar de S., sendo mesmo seu amante (o que S. nega veementemente). W.

    descobre-se porm incapaz para o crime aps trs tentativas frustradas, contratando ento a nora de

    sua mulher (M., empregada domstica), a quem promete metade do dinheiro que receberia de S. M.,

    que mais tarde afirma ter aceitado o acordo por estar precisando de dinheiro para comprar uma casa

    para sua famlia, assassina realmente. A., na noite ( meia noite, sustentam algumas verses) do ida

    20 de agosto de 1979.

    apenas no dia 10 de setembro que o crime se torna conhecido atravs da confisso de S.,

    numa delegacia da zona norte; no dia seguinte os jornais tratam do fato, se bem que com a discrio

    merecida pela vulgaridade da estria. A partir do dia 16 tudo muda de direo: S. denuncia o fato de

    que o crime teria sido tramado num terreiro de Umbanda e executado a mando de uma me-de-

    santo, C., supostamente a mulher de W. S. teria ido algumas vezes casa de C., juntamente com

    sua irm V., atravs de W., que lhes teria dito que sua mulher recebia uma Pomba-Gira muito

    forte, para se consultarem. As duas possuam motivaes deferentes para as consultas: enquanto S.,

    desejava a cura de seu marido que estaria sofrendo de impotncia sexual, V. estava procura de

    emprego. De acordo com S., a Pomba-Gira Maria Padilha de C. lhe teria entregando um p que

    deveria ser colocado na comida de A. S. imaginava que o p servia como tratamento contra a

    impotncia de A., sabendo apenas mais tarde que se tratava de um p da morte, produzido atravs

    da mistura de veneno e terra de cemitrio. Tendo percebido que o p no produzia os resultados

    esperados, C., ou antes, sua Pomba-Gira, teria dito tudo ainda de acordo com S., - que A. deveria

    morrer por outro meio, encarregando de faz-lo com um revlver.

    No dia 18 o caso ocupou as primeiras pginas do noticirio dos jornais, mas com destaque

    em acrscimo: a incorporao de C., por uma Pomba-Gira durante seus depoimentos na

    delegacia. O delegado, assustado, convoca pais-de-santo, pastores, psiquiatras para ajud-lo a cuidar

  • O Caso da Pomba-Gira

    da possuda. O caso prossegue atravs de um jogo de acusaes mtuas em que S. continua a

    atribuir a C. a ordem de ,matar seu marido, enquanto esta incorporada, j que alega que apenas

    sua Pomba- Gira sabe de algo nega que Maria Padilha trabalhe para o mal, acusando S. pela

    trama do assassinato. W. e M., por sua vez, sustentam que C. e sua Pomba-Gira no esto

    envolvidas no crime, tendo sido procuradas pelas duas irms por causa da boa entidade que

    poderia resolver espiritualmente os problemas de ambas.

    Atravs desta sumria descrio pode-se perceber imediatamente quais as instncias em jogo

    no caso: o sistema da Umbanda, o aparelho do Estado e algumas manifestaes que, por falta de

    melhor denominao, classificaremos como provenientes da sociedade abrangente. No que esses

    campos se apresentem de modo homogneo ou uniforme; muito ao contrrio, a pluralidade interna

    de cada um, bem como suas relaes entre si que produziro essa multiplicidade de discursos que se

    entrecruzam num plano de lutas que tentaremos reconstituir.

    Primeiramente o Estado. Seu papel no caso essencial, pois em seus aparelhos que ele

    encontra seu ponto terminal. No entanto alguns nveis diferentes so acionados e seus discursos no

    so, de modo algum, idnticos. O delegado de polcia o primeiro representante dessa instncia a

    entrar em cena. Sua posio ambgua. Sem dvida ele cr firmemente na culpa de todos os

    envolvidos; mas cr tambm, de alguma forma, na participao da Pomba-Gira: permite sua

    incorporao na presena de testemunhas, convoca especialistas, registra seus depoimentos

    mesmo sem saber se podero ser utilizados durante o julgamento. Em suma, ele parece acreditar

    que apesar de seu carter legal duvidoso a Umbanda pode possuir, de algum modo, uma eficcia

    real.

    Em seguida, os mdicos. Todos os envolvidos so submetidos percia psiquitrica; os

    laudos so incertos. Constata-se a sade mental de todos exceto um, embora aparas de dvida

    sejam, como sempre, deixadas como aviso, numa espcie de preveno contra eventuais enganos.

    Apenas C., a possuda, sumariamente diagnosticada: personalidade psicoptica clssica,

    mitmana, histrica, com falncia de autocrtica... Para a medicina legal parece no haver

    dvidas: o transe de C., no passa da realizao de certos desajustes psquicos que revelam tratar-se

    tudo de uma fraude, ainda que essa fraude escape ao controle da doente, j que seus motivos

    estariam alojados nas profundezas de seu inconsciente. No entanto, como em todo discurso, e talvez

    no psiquitrico em especial, no parece haver certezas definitivas, e contradies se instalam sob a

    capa de uma linguagem segura de si mesma. pergunta do Tribunal do Jri acerca do estado

    mental de C. na poca do crime, os mesmos psiquiatras encarregados do laudo mdico sustentam

    paradoxalmente, sua plena sade mental, concluindo ento estar C. consciente de tudo o que estava

    acontecendo. Em outros termos, parece que a psiquiatria conclui que a loucura de C. no estava

    suficientemente forte para livr-la de uma condenao...

  • O Caso da Pomba-Gira

    Por fim, o juiz. Seu veredito direto: trata-se de um show, de uma mistificao consciente

    visando encobrir um crime hediondo. O delegado severamente advertido: como permitir esse

    teatro composto pelas possesses de C. num assunto to srio quanto um assassinato e num lugar

    to importante quanto uma delegacia? A medicina legal no levada em considerao, no se presta

    ateno a suas hesitaes, a doente condenada: nada de patologia, mas simples criminalidade.

    Todas as declaraes que, durante os depoimentos no julgamento ameaam falar da Umbanda so

    imediatamente proibidas e excludas dos autos. O juiz declara legalmente a inexistncia da

    Umbanda, o que no significa em hiptese alguma que essa inexistncia se concretize.

    Indiretamente a Umbanda surge em todos os depoimentos, desde os de C. at o do delegado,

    passando por W. e M. e por S. e V.; ela alvo e objeto de disputas, ora acusada, ora aprovada,

    dependendo de quem fala e contra quem se fala. Em outros termos, mesmo ao ser condenada e

    negada formalmente, a Umbanda afirma sua existncia. Como num modelo reduzido da prpria

    sociedade brasileira, a Umbanda e a possesso aparecem no julgamento como fantasmas que ao

    verem sua materialidade recusada assombram, paradoxalmente, os que em torno delas se debatem,

    com tanto mais fora quanto mais so negadas.

    Em segundo lugar esto os discursos que agrupamos mais ou menos arbitrariamente sob o

    rtulo de sociais, no sentido de que as duas vises aqui encontradas refletem de modo bastante

    direto certas posies facilmente encontrveis em todo a sociedade brasileira. De um lado, S e V.:

    classe mdia, desconfiam sem dvida dessas estranhas prticas inferiores, mas em um caso de

    necessidade V. perde o emprego; S. deseja a cura de seu marido recorrem a elas: a Umbanda

    uma possibilidade aberta, no Brasil, mesmo queles que no a praticam, que no crem nela, ou at

    mesmo que a condenam. So em parte recompensadas, mas o mal est feito pois permanecem

    presas ao que desejam abandonar; no as deixam mais em paz, terminando por envolv-las num

    crime de morte. Defendendo-se do crime, acusam outros de serem bruxos, de trabalharem pro

    mal.

    De outro lado, W. e M., pobres, acostumados a conviver com prticas umbandistas, morando

    num quase terreiro (a casa de C., utilizada tambm para as consultas). Pensam as prticas de que

    participam direta ou indiretamente de um ponto de vista de dentro, ou seja, enquanto participantes

    dos rituais, ou mesmo, no caso de W., como cambono (auxiliar mstico) de C. Recorrer

    Umbanda faz parte, para eles, de seu cotidiano. Seu discurso de defesa da acusao de trabalhar

    pro mal e no de defesa do crime praticado. Defendem a Umbanda.

    Por fim, encontra-se um conjunto de discursos mais ou menos internos ao prprio campo da

    Umbanda. C. sustenta sua completa ignorncia no apenas a respeito do crime como de tudo o que

    ocorre quando est incorporada. Recebe uma coisa, uma mulher, algo que ela no sabe bem o

    que . Nunca freqentou centros organizados de culto; no se recorda do que acontece durante as

  • O Caso da Pomba-Gira

    consultas. Sua Pomba-Gira, esta sim, sabe de tudo. No discurso da Pomba-Gira, esta diz que

    sabia que S. queria ver o marido morto, alegando sua impotncia sexual. Mas essa entidade

    enganou a consulente, dinheiro, tomou seu dinheiro, ludibriou-a com poes mgicas falsas para

    mostrar a S. que no trabalha para o mal.

    Mas a perspectiva umbandista tem outra faceta: a do especialista. Pai J. toma conhecimento

    do que ocorre atravs dos jornais, teme as repercusses negativas do caso para a Umbanda,

    apresenta-se ao delegado oferecendo-se para cuidar de C. Atesta sua mediunidade, mas nega por

    completo sua religiosidade. Despreparada, no-iniciada, ningum pode saber ao certo a que as

    desgovernadas prticas de C. podem conduzir. Pai J.. leva-a para seu terreiro, controla sua

    mediunidade, impede a incorporao de sua Pomba-Gira no tribunal mas ser mesmo uma

    Pomba-Gira, ou tratar-se- de uma energia psquica e/ou csmica que C. no sabe controlar?

    em uma palavra: silencia C.

    preciso deixar bem claro, contudo, que tampouco aqui existe univocidade no discurso. A

    posio de Pai J. para fora do culto para jornais, juzes, tribunais e, mesmo, pesquisadores no

    corresponde exatamente sua posio para dentro do culto que comanda. Em nossas entrevistas

    diretas com Pai J. e seus auxiliares essa viso para dentro era por vezes colocada ao lado

    daquelas para fora como duas interpretaes igualmente vlidas para os mesmos fenmenos.

    Assim, disseram-nos, C. poderia ser uma mdium possuidora de Pomba-Gira que poderia ser

    Maria Padilha e que estaria sendo castigada por essa entidade por no ter seguido a iniciao na

    Umbanda e por no ter montado um terreiro para a prtica umbandista, embora tivesse condies

    para tanto. Assim, o discurso umbandista sobre a possesso de C. tem duas facetas que no so para

    os membros do culto necessariamente contraditrios. De um lado, uma explicao para fora que

    tenta defender a Umbanda ao isol-la de outras manifestaes de transe onde ela no estaria

    presente, o transe se manifestando de maneira selvagem, incontrolada e inconsciente (a Umbanda

    daria ento ordem e significado para a possesso); de outro lado uma explicao pra dentro,

    interna aos participantes do culto, na qual se afirma a existncia de um espao independente da

    vontade dos homens e no qual apenas os deuses tm voz. Espao que serve para as explicaes

    no-cientficas dos fatos, ou seja, aquelas que invocam santos, entidades, explicaes

    derivadas de uma lgica mgica, enfim.

    Travam-se pois mltiplos combates que cruzam o acontecimento em todas as direes e que

    constituem alguns planos especficos de luta. Combate entre C. e S. que se acusam mutuamente pelo

    crime; entre C. e S. de um lado e o aparelho estatal de outro, que em mltiplas instncias busca a

    condenao de ambas. Combates internos, tambm, ao prprio aparelho de Estado: o juiz que

    desqualifica o parecer mdico ao condenar C. que havia sido diagnosticada como doente mental;

    que repreende o delegado que ousou dar voz ao comportamento mistificador de C. durante seus

  • O Caso da Pomba-Gira

    depoimentos, repreenso que termina mesmo com sua transferncia. Combate entre o Estado e o

    discurso oficial da Umbanda. Pai J. busca afirmar a inocncia de C. convicto de que sua

    condenao acarretar danos para a imagem pblica do culto que comanda mas previne-se:

    apregoa seu despreparo religioso e usa em seu confronto com a instncia judiciria armas escolhidas

    por esta ltima um parecer autenticando a mediunidade de C. (que, bvio, desconsiderado pelo

    juiz) e a presena de sua prpria filha carnal, advogada. Combate ento que cruza o prprio campo

    da Umbanda, representado pelo confronto, mas tambm pela aliana, entre C. e Pai J. O ltimo

    nega decididamente o carter umbandista das prticas de C.: a Umbanda definida como uma

    religio, organizada e voltada para a prtica do bem e da caridade; j o que executado por C. no

    passa de um feixe de potencialidades (sua mediunidade) mal-organizadas e mal-direcionadas, e

    que para serem convertidas em Umbanda devem obrigatoriamente passar por certos rituais

    controladores e normalizadores. Pai J.. chefe de uma dessas inmeras federaes que buscam

    codificar a Umbanda, homem com contatos polticos manipula um discurso cientificizante. Os

    deuses no so, na verdade, deuses: trata-se de foras csmicas e psicolgicas; rituais, cnticos,

    toques, sacrifcios, so verdadeiras experincias que conjugam tais foras e que seu poder pessoal

    direciona no sentido por ele planejado e eis o que C. incapaz de executar, seu preparo nulo,

    sua vontade fraca. Nada de magia portanto: a Umbanda racional ao mesmo ttulo que as prticas

    cientficas. Todo o cuidado com os mistificadores pouco.

    Ora, C. o oposto de tudo isso, e no seio mesmo da Umbanda ameaa negar na prtica todas

    as construes ideolgicas de Pai J. Sua prtica fluxo no-codificado e dificilmente codificvel;

    praticamente analfabeta, no pode sequer sonhar com o vocabulrio cientfico de Pai J. Sua fora

    mgica, no sentido radical da palavra: no sentido da lgica do concreto, situada para alm da

    racionalidade cientfica. Para C., o mdium no controlaria a entidade mais forte, ao contrrio de

    Pai J., que entende o mdium como controlador dessas foras. Mas C. combate ainda consigo

    mesma, com sua Pomba-Gira7 no gosta dela mas obrigada a receb-la; d consulta s contra sua

    vontade, mas extrai algumas vantagens materiais dessas prticas. Enfim, e paradoxalmente, jamais

    foi a um centro ou terreiro de Umbanda, no tem a menor idia das razes que fazem com que

    aquilo acontea com ela - e eis aqui, sem dvida, o dilema fundamental de Pai J. ao tratar de C.:

    C. atesta que as foras que ele pretende controlar se manifestam conferindo assim legitimidade

    sua ao controladora.

    7 Pai J. nega, evidentemente, que essa fora de C. seja uma pomba-gira, pois essa entidade seria

    uma energia dotada de forma, enquanto que com C. nada est absolutamente definido.

  • O Caso da Pomba-Gira

    Temos a ento a trama, os personagens, os discursos e os combates neles e e atravs deles

    travados. Resta, contudo, indagar o essencial. O que dizem na verdade em sua complexa

    heterogeneidade, todos esses discursos em seus combates? De que falam eles enfim?

    Dizamos, no incio, que a Umbanda est marcada por um jogo entre um duplo sistema de

    foras, um de ordem centrfuga e outro de ordem centrpeta. Procuremos agora o significado

    profundo dessas noes. Se h um trao essencial s prticas umbandistas no Brasil este , sem

    dvida, a absoluta impossibilidade de sua codificao e uniformizao globais. Desde os primeiros

    estudos acerca dos cultos afro-brasileiros os autores tm se impressionado com a diversidade de

    prticas e doutrinas, com a variao cerimonial quase que de terreiro a terreiro. Sem dvida,

    existem alguns elementos estruturais ao culto e que no cumpre analisar nos limites deste trabalho

    responsveis por esse processo. Seu resultado concreto, contudo, uma disperso fragmentada do

    discurso umbandista em todas as direes da sociedade, sendo que em cada ponto um

    reagrupamento especfico pode ser efetuado, dependendo de certos constrangimentos e

    configuraes locais. Como os universos mitolgicos, tambm o discurso umbandista est

    condenado a se desfazer e refazer a cada instante, num devir puro e num fluxo constante.

    Consubstancial a essa tendncia existe outra, centralizadora abstenhamo-nos de dizer que

    se trata de uma represso a posteriori: os dois mecanismos so coextensivos e interdependentes.

    Busca-se ento uma ordem definida, imutvel; condena-se as prticas (como aquelas de C.) que

    escapam aos limites demarcados pelas federaes e pelos grandes iniciados; codificam-se as

    prticas e as crenas: a Umbanda deve ter tambm seu Conclio de Nicia. A essa rede de foras

    centrpetas os discursos mltiplos heterogneos tendem a escapar, como que por entre as suas

    malhas. Quando esses discursos se manifestam, como no caso de C. (ou em Cantagalo, ou em

    inmeros casos mais obscuros que se repetem constantemente e que, sem dvida, podem servir de

    ponto de apoio para todo um discurso preconceituoso e racista contra a Umbanda), devem ser

    rapidamente silenciados, desqualificados, ou ainda, preferencialmente, normatizados, ao serem

    incorporados ao culto codificado.

    Teramos aqui ento, aparentemente, um processo j captado e analisado por vrios

    antroplogos:8 um processo de burocratizao da autoridade mgico-carismtica, cuja raiz estaria

    8 LAPASSADE, Georges; LUZ, Marco Aurlio. O segredo da macumba. Rio de Janeiro, Paz e

    Terra, 1972.

    MAGGIE,Yvone. Guerra de Orix. Rio de Janeiro, Zahar, 1975.

    BROWN,Diana. Umbanda e classes sociais

    ORTIZ, Renato. A morte branca do feiticeiro negro. In: Religio e Sociedade n. 1, So Paulo,

    Hucitec, 1977

  • O Caso da Pomba-Gira

    numa tentativa de legitimao da Umbanda frente sociedade mais ampla. claro que esses

    processos burocratizao e legitimao esto, sem dvida, em marcha. Mas, talvez, no se trate

    aqui de processos primeiros e sim de efeitos mais ou menos superficiais de certos agenciamentos de

    nvel mais microscpico e que habitualmente passam despercebidos. Esses processos mais

    fundamentais parecem constituir, cremos, um sistema de controle do discurso da Umbanda, no

    sentido dado ao conceito por Michel Foucault:

    procdures qui ont pour rle den conjurer les pouvoirs et les dangers, den matriser

    lvnement alatoire, den esquiver la lourde, la redoutable matrialit.9

    Seguindo ainda Foucault, poderamos tambm isolar alguns desses procedimentos que

    atuam no caso da Umbanda em relao com a sociedade abrangente. Primeiramente constatando

    que tambm aqui os procedimentos de controle podem ser exteriores ao prprio discurso.10

    Os primeiros exteriores seriam da ordem da excluso e consistiriam basicamente no

    interdito, na rejeio e na vontade de verdade. Interdio do juiz s manifestaes da Umbanda no

    tribunal, declarao legal de sua existncia, negao de sua presena material; mas interdio

    tambm por Pai J. da incorporao da Pomba-Gira no julgamento; interdio do discurso

    desqualificado; limitao de sua manifestao a espaos apropriados. A Umbanda, isso no

    existe, sustenta o aparelho judicirio; isso no Umbanda responde o especialista codificador.

    Em seguida, a rejeio, efetuada atravs de uma partio dos domnios em aceitos e no-

    aceitos, admitidos e no-admitidos, e que, na sociedade ocidental ao menos, toma quase

    invariavelmente, a partir de um certo momento da histria, a forma do confronto e da oposio entre

    o normal e o patolgico. Fronteira estabelecida pela medicina legal entre C. (a possuda, a nica

    umbandista) e os demais acusados; deslocada pelo juiz ao inclu-los todos como culpados e ao

    desqualificar a Umbanda como manifestao verossmil. Fronteira contestada enfim por Pai J.: sua

    localizao no estaria entre Umbanda e Sociedade, mas entre Umbanda e Sociedade de um lado, C.

    de outro.

    A vontade de verdade, finalmente. Lembremos que com esse conceito Foucault deseja

    designar basicamente a submisso do discurso a uma lgica tida como racional e independente do

    sujeito que fala ou do lugar por ele ocupado, opondo-se assim aos discursos rituais da

    Antigidade e da Idade Mdia que valem aquilo que vale o emissor ou a posio por ele ocupada.

    FRY, Peter. Feijoada e sould food: notas sobre a manipulao de smbolos tnicos e nacionais. In:

    Ensaios de Opinio. So Paulo, Inbia,, 2(2):44-7, 1977.

    9 FOUCAULT, Michel. LOrdre du discours. Paris, Gallimard, 1971. p. 11. 10 Idem, p. 11.

  • O Caso da Pomba-Gira

    Esse procedimento responde diretamente pelo processo de formao dos saberes cientficos

    ocidentais, mas permeia tambm, sem dvida, outros domnios, e essa vontade de verdade que

    Pai J. apela ao traduzir o discurso da Umbanda em termos pretensamente fsicos, biolgicos e

    psicolgicos. A racionalidade vagamente entrevista atrs de alguns nomes teria, imagina-se, o poder

    de embeber de lgica e de razo todo o domnio para o qual so transportados. Note-se que tambm

    aqui, como nos outros procedimentos, o ponto fundamental em jogo o controle do imprevisto e da

    materialidade de um discurso aleatrio: as tentativas de legitimao e/ou burocratizao so efeitos

    desses processos mais fundamentais.

    Existiriam por outro lado ainda segundo Michel Foucault11 alguns procedimentos

    internos de controle dos discursos: o comentrio e o autor. Ora, o discurso mgico da Umbanda

    caracteriza-se justamente, fluxo que por no possuir nem autor nem autores,12 e por ser

    absolutamente impenetrvel ao comentrio,13 j que este, cuja condio de existncia a presena

    de uma defasagem entre a palavra e a coisa, perde inteiramente seu sentido num tipo de discurso

    (mgico) onde entre palavra e ao nenhum espao se abre. Ora, um esforo de codificao da

    Umbanda significa justamente territoriz-la14 dar-lhe uma pretensa unidade atravs de um autor

    (ou de autores) e abrir, portanto, a possibilidade do comentrio atravs da discordncia doutrinria.

    O que o caso da Pomba-Gira representa , sem dvida, um certo momento desse jogo de

    controle do discurso umbandista (em sentido lato). No se trata, contudo, conforme tentamos

    mostrar, de fenmenos simples. Parece impossvel reduzi-lo a qualquer forma de dualidade (do tipo

    Estado X Umbanda; Umbanda X Quimbanda; Opressores Oprimidos etc. ...) pois os elementos se

    multiplicam em cada ponto do acontecimento e as posies rodam umas sobre as outras dependendo

    do confronto especfico em questo e do ponto de vista adotado. O que parece certo que o

    combate entre foras centrfugas e centrpetas, entre o acaso e a materialidade difusa de um

    discurso fluido, desterritorializado, em perptuo devir, e seu controle normalizador e estruturador,

    toma tambm o aspecto de um fluxo ininterrupto, combate de resultado sempre indefinido e

    imprevisvel e no qual s h vencidos e vencedores de um ponto de vista estritamente conjuntural.

    11 Idem, p. 23 12 non pas entendu, bien sr, comme lindidu parlant qui a prononc ou crit un texte, mais lauteur

    comme principe de groupement du discours, comme unit et origine de leurs sginifications, comme

    foyer de leur cohrence (idem, p. 28) ... Le principe de lauteur limite (le hasrad du discours) par

    le jeu dune identit qui a la forme de lindividualit et du moi (idem: 31). 13 Que limitant le hasard du discours par le jeu dune identit qui aurait la forme de la rptition et

    du mme (Idem, p. 31). 14 Cf. DELEUZE, Giles, PARNET, Claire. Dialogues. Paris, Flammarion, 1977.

  • O Caso da Pomba-Gira

    Para concluir, duas observaes a respeito de possveis crticas. Primeiro, a relativa pouca

    ateno prestada ao caso em si, a verdadeira no-explicao, no sentido positivista, dos fatos.

    Ora, parece-nos impossvel falar de um acontecimento, encar-lo diretamente, sem estrutur-lo, sem

    criar o fantasma de sua unidade intrnseca. Em outros termos, falar sobre o caso da Pomba-Gira

    colocar-se inevitavelmente no mesmo plano em que se situam os discursos legais, mdicos,

    religiosos: domin-lo e controlar seu poder explosivo; esquivar sua temvel materialidade.

    Optamos portanto em falar a partir dele, em contorn-lo sistematicamente como objeto e em adot-

    lo decididamente como ponto de vista.

    Finalmente, queles que ainda crem que a ateno dedicada a discursos representa um

    sinal inequvoco de idealismo (incitam-nos ento a olhar mais para a organizao social, para as

    infra-estruturas) cumpre dizer que justamente a falta de reconhecimento da materialidade

    terrvel desses discursos que , hoje em dia, apesar das aparncias, o melhor signo para detectar a

    verdadeira posio idealista.15

    15 Apenas de uma posio desse tipo possvel imaginar que os discursos no so eficazes no nvel

    mesmo da organizao social.