religiao pessoal

of 228/228
RELIGIÃO PESSOAL ADENÁUER NOVAES Religião Pessoal (A).pmd 23/10/2007, 10:28 1

Post on 18-Dec-2014

4.132 views

Category:

Documents

6 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

 

TRANSCRIPT

  • 1. RELIGIO PESSOAL ADENUER NOVAESReligio Pessoal (A).pmd 1 23/10/2007, 10:28
  • 2. 1 Edio Do 1 ao 5 milheiro Criao da capa: Objectiva Comunicao Direo de arte: Gabriela Diaz Reviso: Maria Anglica de Mattos Reviso de contedo: Silzen Furtado Editor: Gustavo Metidieri Diagramao: Joseh Caldas Copyright 2007 by Fundao Lar Harmonia Rua Dep. Paulo Jackson, 560 Piat 41650-020 Salvador Bahia Brasil [email protected] (71) 3375-1570 e 3286-7796 Impresso no Brasil ISBN 978-85-86492-24-2 Todo o produto da venda desta obra destinado s obras sociais da Fundao Lar HarmoniaReligio Pessoal (A).pmd 2 23/10/2007, 10:28
  • 3. Adenuer Novaes RELIGIO PESSOAL CNPJ (MF) 00.405.171/0001-09 Rua Dep. Paulo Jackson, 560 Piat 41650-020 Salvador Bahia Brasil 2007Religio Pessoal (A).pmd 3 23/10/2007, 10:28
  • 4. CIP Brasil. Catalogao na Publicao Cmara Brasileira do Livro, SP. Novaes, Adenuer Religio Pessoal Salvador. Fundao Lar Harmonia, 11/2007. 240 p. 1. Espiritismo. I. Novaes, Adenuer, 1955. II. Ttulo CDD 139.9 ndice para catlogo sistemtico: 1. Espiritismo 139.9 2. Psicologia 154.6 3. Psicologia da religio 200.1Religio Pessoal (A).pmd 4 23/10/2007, 10:28
  • 5. A Jesus, ser humano e mestre.Religio Pessoal (A).pmd 5 23/10/2007, 10:28
  • 6. Religio Pessoal (A).pmd 6 23/10/2007, 10:28
  • 7. Religio pessoal Upanishades Quando o homem sbio reconhece o Atman, o Eu, a vida interior e, como uma abelha, goza a doura das flores dos senti- dos, e reconhece o Senhor do que foi e do que h de ser, ento esse homem ultrapassou o medo. Budismo Por mais que, na batalha, se vena um ou mais inimigos, a vitria sobre si mesmo a maior de todas as vitrias. Sakyamuni. Islamismo Eis aqui um aviso inteligvel contra aqueles que fazem da sua religio um mero assunto de convenincia terrena. A verda- deira religio muitssimo mais profunda. Ela transforma a na- tureza intrnseca do homem. Depois dessa transformao, ser to impossvel, para ele, mudar, como o , para a luz, transfor- mar-se em tenebrosidade. Alcoro, 114 Surata, Versculo 306. Cristianismo Tambm o reino dos cus semelhante a um tesouro es- condido num campo, que um homem achou e escondeu; e, pelo gozo dele, vai, vende tudo quanto tem e compra aquele campo. Mateus, 13:44. Allan Kardec (...) o Espiritismo repousa sobre as bases fundamentais da religio e respeita todas as crenas; um de seus efeitos incu- tir sentimentos religiosos nos que os no possuem e fortalec- los nos que os tenham vacilantes. O Livro dos Mdiuns, Item 24. C. G. Jung No se pode mudar aquilo que interiormente no se acei- tou. A condenao moral no liberta; ela oprime e sufoca. A par- tir do momento em que condeno algum, no sou seu amigo e no compartilho de seus sofrimentos; sou o seu opressor. Obras Completas, Vol. XI, par. 519. 7Religio Pessoal (A).pmd 7 23/10/2007, 10:28
  • 8. Religio Pessoal (A).pmd 8 23/10/2007, 10:28
  • 9. Religio pessoal Sumrio Prefcio ...................................................................... 11 Iniciao religiosa ..................................................... 15 Consideraes sobre o religioso ............................... 21 O real problema religioso do ser humano................. 27 Religio e religiosidade ............................................. 34 A palavra religio ...................................................... 39 O que religio ......................................................... 49 O que h de comum nas religies ............................. 54 Religies .................................................................... 67 Sntese dos fundamentos das religies formais ........ 73 Religies em pequenas sociedades ........................... 98 Horizonte espiritual ................................................... 103 Religio busca pelo Si-Mesmo ............................... 107 Eros e Religio Pessoal ............................................. 111 O que Religio Pessoal ........................................... 116 Religio formal e Religio Pessoal ........................... 126 Princpios provisrios de uma Religio Pessoal....... 130 Caractersticas de quem adotou uma Religio Pessoal 137 Como construir uma Religio Pessoal ...................... 142 Jung e a Religio Pessoal .......................................... 146 Religio Pessoal e morte ........................................... 160 Religio Pessoal e multirreligiosidade ...................... 163 Alquimia e religio .................................................... 166 Manifestao da funo religiosa na Psiqu ............ 170 9Religio Pessoal (A).pmd 9 23/10/2007, 10:28
  • 10. Adenuer Novaes Deus ........................................................................... 178 Representaes do Inconsciente ............................... 185 Religio como norma coletiva .................................. 190 Espiritismo e religio ................................................ 196 Arqutipo paterno ..................................................... 203 Ando a procura de uma religio ................................ 208 Ego e Esprito ............................................................ 210 Religio e poltica ..................................................... 213 Orao da Religio Pessoal ....................................... 216 Glossrio.................................................................... 221 10Religio Pessoal (A).pmd 10 23/10/2007, 10:28
  • 11. Religio pessoal Prefcio C ontemplando a mente do homem primitivo, quan- do nada elaborado ali havia, sem uma conscincia madura de seu prprio ego1, mesmo assim, possvel constatar a existncia de um elemento que o impulsionava, alm da necessidade de sobrevivncia. Naquela mente, detentora de pouqussimos e rudimentares elementos conscientes, com um escasso repertrio de habilidades intelectivas para a compreenso de si mesmo, tambm se encontra uma marca indelvel seu, at ento, inconsciente desejo de buscar-se, de entender-se e sua prpria nsia de viver. No sabe ele que, um dia, essa busca se tornar consciente e contar com a conduo da religio formal. Sua mente, apta a captar a realidade, inicialmente atender aquele im- pulso primal construindo to somente imagens, para de- pois, quando possuir novos implementos intelectivos, elabor-las no formato de conceitos. Encerrado num cor- po, limitado por condies inerentes sua evoluo, ali se encontra o esprito no incio de mais um ciclo existencial. Mesmo enclausurado, no est deriva, pois conta com estruturas psquicas (arqutipos) que o conduziro natu- ralmente ao encontro mgico e especial consigo mesmo. 1 Alguns termos de origem psicolgica podem ter seu significado melhor compreendido ao final do livro, no Glossrio. 11Religio Pessoal (A).pmd 11 23/10/2007, 10:28
  • 12. Adenuer Novaes Ser longa, laboriosa e proveitosa a jornada, permeada por incontveis desafios e imprevisveis expe- rincias, as quais, aqueles que lem estas pginas j en- tenderam a importncia de t-las vivido. O esprito far sua jornada como um heri que se lana ao objetivo sem que tenha a conscincia plena de tudo que enfrentar. Do incio da jornada, desde que adquiriu a conscincia hu- mana, at os dias de hoje, por conta de inmeras e incontveis experincias, reforou sua estrutura psqui- ca, tornando-a apta a novos desafios. Sua organizao mental j o permite escolher, renunciar, ousar e compre- ender melhor os desgnios divinos. J no se encontra mais na infncia, muito embora ainda se perceba em ati- tudes imaturas e inconseqentes. Nessa jornada, que vivida dia aps dia, ainda se descobrir projetado no que acreditava ser Deus, para, s depois que amadurecer no sacrifcio do trabalho huma- no, perceber-se como sendo a prpria natureza divina se realizando. As experincias religiosas ligadas ao sagrado se tornam, ao longo da jornada, forjadoras de importantes paradigmas para a compreenso de sua natureza como esprito e tambm para o entendimento do que supe ser Deus. Sero aquelas experincias que lhe fornecero os dispositivos psquicos capazes de lhe fazer assumir quem o esprito em si mesmo. Nesse sentido, as crenas reli- giosas e seus cultos, nos quais vivenciou a f e o contato com o sagrado, deram-lhe as bases para a construo de uma psiqu saudvel. Enquanto no corpo, vive experin- cias de contato com as foras divinas consideradas ins- tintivas; fora dele, realiza sua dimenso espiritual trans- cendente. Em ambas apreende os princpios das leis de Deus, fundamentais para novos cometimentos. 12Religio Pessoal (A).pmd 12 23/10/2007, 10:28
  • 13. Religio pessoal No percurso, apega-se a valores que acredita supe- riores, negocia favores considerados divinos, cria siste- mas internos de proteo que, em sua maioria, ao invs de libert-lo, aprisiona-o. Consolida uma f que ter de rever mais tarde. Enrijece sua mente com dogmas oriun- dos de crenas pueris, tendo depois que flexibiliz-la para prosseguir em seu processo de iluminao pessoal. O ser humano de hoje, mesmo depois de milnios de evoluo, ainda se assemelha ao primitivo, pois cam- baleia na direo de Deus, tateando no escuro de suas prprias fantasias religiosas. Ainda reza para Deus e ajo- elha-se diante da matria. No entende que a divindade no se ope matria, pois a grande dialtica ele mes- mo e Deus, Deus e Esprito, aparentes opostos que neces- sitam de conciliao na psiqu consciente. O ser humano o mesmo esprito que vem, h mi- lnios, buscando se encontrar. Seu olhar ainda no com- pleto. Seu instrumento para isso, o ego, ainda no est totalmente maduro. Muitos fatores interferem em sua per- cepo. Ele ainda no aprendeu que no precisa ver tudo, mas apenas o essencial. Deve entender que, para conhe- cer as coisas, preciso dar a volta sobre si mesmo, olhan- do para seu prprio mundo interior. No percebe, em sua momentnea cegueira, que Deus se escondeu em seu in- consciente. Acumula muita coisa no seu egosmo e orgu- lho em excesso. Chegar um tempo em que estar pronto para encontrar e perceber a divindade. Um dia, quando liberto de seus prprios medos e preconceitos, tecidos pela ignorncia em relao ao divi- no e a si mesmo, alcanar a liberdade de pensar uma Religio Pessoal. O caminho ser longo, mas extrema- mente valioso para si mesmo. Quando ento iniciar seu processo de vivncia da Religio Pessoal, sofrer reveses 13Religio Pessoal (A).pmd 13 23/10/2007, 10:28
  • 14. Adenuer Novaes por conta das prprias armadilhas que criou, medroso de se perder nos labirintos complexos de sua psiqu religio- sa. E os reveses acontecero por conta, principalmente, do desejo infantil de salvar-se de algo que idealizou como sendo uma tragdia. Inconscientemente acredita que um grande perigo o ameaa e que o levar a ser banido eter- namente. Teme o que ele prprio construiu. Sua mente ainda est estruturada na dialtica bem x mal. Teme o abandono divino, qual criana apegada me, temendo perder-se dela. Uma vez iniciada a jornada, no haver retorno. O caminho inexorvel, ao encontro de si mesmo e da m- xima possibilidade de comunho com Deus. Descobrir que a atitude religiosa o ntimo e mais profundo encon- tro com os limites da essncia humana, percebendo que o sentimento religioso lhe permitir superar as fronteiras do humano, tocando o divino. Convido o leitor a fazer a jornada da religio for- mal Religio Pessoal, sem receio de se perder de si mesmo. Ao contrrio, ao encontro de sua verdadeira es- sncia a espiritual. No preconizo uma nova religio, nem seita moderna, nem culto diferente, mas simples co- nexo, no sentido de ntima ligao, do humano com o divino, sem as regras inconscientemente estabelecidas desde a infncia da humanidade. Este livro apresenta algumas reflexes para a cons- truo de uma Religio Pessoal. O seu ttulo no sugere a constituio de uma religio egosta nem tampouco o des- respeito s existentes. apenas uma proposta pessoal para a internalizao daquilo que o sagrado tem a revelar. A Religio Pessoal aquela adotada por cada pessoa, na vivncia do arqutipo do sagrado, visando sua conexo mais profunda com o princpio Criador da existncia humana. 14Religio Pessoal (A).pmd 14 23/10/2007, 10:28
  • 15. Religio pessoal Iniciao Religiosa M inha educao religiosa se deve a mltiplas experincias, no provindo de uma nica escola ou de rgida formao domstica. Vim de uma famlia de razes catlicas, porm sem que ningum se aprofundasse nos estudos religiosos, como comum aos seus adeptos. No se fazia grandes investimentos na consolidao da f, pois a cidade em que vivia era pequena e sem instituies e pessoas que se dedicassem aos estudos aprofundados. Naturalmente segui por um caminho pessoal e pela prti- ca dos fundamentos da f incipiente que possua. Meu pai era militar, mas no era duro com os filhos nem lhes aplicava qualquer disciplina exagerada. Era um homem bom e preocupado com os estudos dos filhos. O que mais o aproximava dos preceitos religiosos era a dis- ciplina. Fora isso, no me lembro de ter ouvido dele qual- quer referncia a religio. Minha me era catlica. Vrias vezes a vi rezando o tero ou falando de sua f em Deus. Cuidava para que os filhos fossem batizados; nada alm disso. S nos levava missa em ocasies especiais. Era uma mulher envolvida com o desenvolvimento de seus filhos, preocupada em que eles se tornassem pessoas bem sucedidas. Posso dizer que cresci sem formao religiosa con- sistente. Religio no era assunto tratado nas reunies de 15Religio Pessoal (A).pmd 15 23/10/2007, 10:28
  • 16. Adenuer Novaes famlia, nem se recorria f para a soluo de problemas domsticos. A principal preocupao de meus pais era com a educao intelectual formal. No me lembro de dilogos especficos sobre religio. A cidade onde nasci era um pequeno povoado ao norte da Bahia, cuja cultura religiosa preponderante era a catlica. O que devo ter aprendido a respeito veio das experincias na escola e no meio social. No havia dro- gas ou violncia. O mal era o sexo e o bem era a prospe- ridade material. Palavras religiosas no me faziam efeito. Nunca tive medo de diabo, demnio ou de espritos ma- lignos. A palavra Deus me levava a pensar num homem velho e bonacho. No cresci com condicionantes religi- osos que pudessem nortear minha busca espiritual. Os que possua eram inconscientes, pr-existentes ou assi- milados da conscincia coletiva. Na adolescncia, ingressei em escolas militares, onde aprendi novamente a disciplina. Nelas no tive nenhuma educao religiosa formal. Meus medos no me levavam necessidade de proteo religiosa, mas de ajuda paterna. Como bom militar, meu pai me ensinava a encontrar em mim mesmo a fortaleza para as adversidades. Achava a religio algo pueril e portador de fragilidade. Comecei a me interessar pelo Espiritismo e simul- taneamente pelo Cristianismo no final da adolescncia. Isso no se deveu a uma doena ou a uma necessidade consciente de uma religio. Fui levado religio por um impulso inconsciente de querer transcender e por uma imperiosa necessidade de realizar meu prprio destino preconcebido espiritualmente. Isso aconteceu quando ti- nha dezessete anos e estudava numa escola militar em So Paulo. Fora uma simples passagem por um grupo de estudos espritas, sem me aprofundar nos ensinamentos. 16Religio Pessoal (A).pmd 16 23/10/2007, 10:28
  • 17. Religio pessoal Isso s veio a acontecer de fato aos vinte e um anos, quan- do ingressei num Centro Esprita a convite de um amigo, levando a srio e de forma disciplinada os estudos das coisas do esprito. Retornando da escola militar, decidi por uma pro- fisso que exigisse de mim os conhecimentos das cinci- as exatas, pois me saa muito bem nas disciplinas perti- nentes. Minha graduao em Engenharia Civil possibili- tou-me um olhar espacial, concreto, topolgico e ordena- do das experincias da vida. Sentia-me conectado reali- dade e bem sucedido profissionalmente. Gostava do re- conhecimento de minha competncia e seriedade tcni- ca. A engenharia me ps em condies de neutralidade para absorver melhor o conhecimento religioso, permi- tindo-me estruturar matrizes psquicas diferentes das pro- movidas pelas religies. No teria necessidade de mudar de religio, mas de construir uma pessoal. Em paralelo, fazia minha formao esprita sem seguir nenhum mode- lo ou lder existente no movimento. Isso me blindou con- tra a imitao caricatural reinante de um esteretipo reli- gioso, distanciado do bom senso e da capacidade crtica necessrios construo do saber. Minha graduao em Filosofia, poucos anos depois de me iniciar de fato no Espiritismo, permitiu-me uma ampla viso crtica no s das escolas filosficas como tambm de minhas prprias crenas. Cotejava o que apren- dia no Espiritismo com os conhecimentos das escolas fi- losficas gregas. Bebia as idias como quem saciava uma intensa sede. A dialtica Plato x Aristteles me encanta- va, ao lado dos escritos de Allan Kardec e do esprito Emmanuel, este ltimo pela psicografia de Chico Xavier. Meus conhecimentos de engenharia se associavam aos de filosofia para uma compreenso melhor da realidade 17Religio Pessoal (A).pmd 17 23/10/2007, 10:28
  • 18. Adenuer Novaes espiritual. No me contentava com o simples saber, pois j participava de reunies medinicas de contato com o espiritual, alm de me dedicar ao trabalho de promoo social numa comunidade de extrema pobreza material e espiritual. Construa minha religiosidade no trip consti- tudo pelas cincias exatas, pela Filosofia e pelo Espiri- tismo. Dentro de mim se forjava uma conscincia do va- lor do saber, do respeito ao outro e da amplitude da vida espiritual. Vivia com um sentimento ntimo de felicidade e de conexo profunda com algo maior do que tudo que me diziam a respeito de Deus. Meu universo interior era maior do que o externo, incluindo-o. Posteriormente, j entrando na meia-idade, decidi por me graduar em Psicologia, pois ansiava por uma pro- fisso intimista, voltada para o estudo da mente. O Espi- ritismo me fez ir em busca de algo mais do que a afirma- o de que somos todos espritos imortais. Queria saber como funcionava a mente humana. Queria saber o que era o pensamento, a memria, o inconsciente, a vontade, o instinto, a razo, o eu, entre outros elementos que com- pem a alma humana. Ingressei na universidade e com- pletei meus estudos de psicologia, dedicando-me profis- sionalmente atividade clnica, ps-graduando-me em Psicologia Analtica. Meus estudos da Psicologia de C. G. Jung2 deram-me o filtro necessrio para uma maior compreenso do que se passava comigo mesmo. Minha formao acadmica e religiosa se ampliava, ganhando o quarto componente que faltava a psicologia junguiana. Por outro lado, queria uma religio que tivesse a serenidade e profundidade do Taosmo, as mltiplas pos- sibilidades de expresso do Hindusmo, a amorosidade e 2 Psiquiatra, suo, que viveu de 1875 a 1961. 18Religio Pessoal (A).pmd 18 23/10/2007, 10:28
  • 19. Religio pessoal solidariedade do Cristianismo, a espiritualidade e harmo- nia do Espiritismo, mas que tambm me permitisse se- guir minha prpria essncia consciente. A essa forma pr- pria de viver a religiosidade, chamei de Religio Pessoal. No se trata de uma mistura de religies, muito menos de uma nova religio. Tampouco uma crena artificial, construda do melhor das religies. , de fato, uma Reli- gio Pessoal, portanto nica para cada indivduo. Restava agora a construo de minha Religio Pes- soal. Isso veio se dar aps alguns anos de exerccio pro- fissional, culminando com a implantao de uma organi- zao no-governamental dedicada educao de crian- as em risco social. No me via mais como um terico nem como um fomentador de idias para os outros. Tinha que viver uma vida que contivesse o que acreditava e o que pregava. Desenvolvi um senso de respeito religio do ou- tro, oriundo da idia de que construa minha prpria for- ma de viver o Espiritismo. Percebia que praticava uma religio diferente do que chamavam de religio esprita. Agrada-me bastante a possibilidade de manifestao do sagrado atravs de vrios cultos e formas diferentes de sentir o numinoso. O Espiritismo no era uma simples religio de culto semanal, mas uma forma de entender a vida e os mistrios do universo. No desvendava tudo, mas retirava os vus das pseudo-verdades para a compre- enso de algo ainda maior que viria. Ao estudar as religies, senti-me na obrigao de desmistificar minha idia de Deus e de desconstruir o que tinha constitudo como fundamentos de minha concep- o de Deus. A compreenso do Taosmo foi importante para isso. No me distanciei dos ensinamentos de Allan Kardec nem me coloco acima dos que viviam o Espiritis- 19Religio Pessoal (A).pmd 19 23/10/2007, 10:28
  • 20. Adenuer Novaes mo como uma religio formal. Entendo que, para cada conscincia, um culto; para cada indivduo, um sistema; para cada pessoa, uma verdade. 20Religio Pessoal (A).pmd 20 23/10/2007, 10:28
  • 21. Religio pessoal Consideraes sobre o religioso Convido o leitor a um estado de conscincia es- pecfico para uma melhor compreenso deste livro. Tal estado exige que se isente momentaneamente da influn- cia de sua religio formal, tornando-se um livre pensa- dor. Como tratarei de religio, espero que o leitor acom- panhe o raciocnio de um ponto de vista no exclusiva- mente lgico-racional, mas principalmente utilizando sua intuio. Sem defender especificamente qualquer delas, ana- lisarei religio como um fato psquico com conseqnci- as na vida prtica do ser humano e na sociedade. As religies so dinmicas, obedecem ao movimen- to da psiqu, sob o influxo de contingncias supra- arquetpicas. So acontecimentos que primeiro ocorrem no inconsciente, para depois se manifestarem na consci- ncia. A atitude religiosa posterior a ambos. Na consci- ncia se manifesta como um smbolo. As contingncias supra-arquetpicas so aquelas a que o ser humano est obrigatoriamente submetido e que no sabe como mud- las. Submete-se a elas porque est inserido num Univer- so gerado supra-arquetipicamente. Escrever sobre religio sem estar abrigado em prin- cpios e regras de qualquer delas muito difcil. como acreditar, quando se est envolvido sentimentalmente com 21Religio Pessoal (A).pmd 21 23/10/2007, 10:28
  • 22. Adenuer Novaes algum, que se pode atingir a iseno emocional ao se referir pessoa. Mas como analisarei as manifestaes religiosas do ponto de vista psicolgico, correrei menos risco de faz-lo de forma passional. Ademais, como esp- rita, inclino-me a uma adoo universalista em termos de religio coletiva. Refletir e teorizar sobre religio bus- cando no se guiar pela prpria experincia religiosa to difcil quanto navegar sem uma carta nutica. Deve- se faz-lo margeando a costa para no se perder no mar aberto. No fcil abordar temas relacionados religio, no apenas em face da transcendncia inerente ao tema como tambm pelo fato de se estar lidando com algo que se origina na psiqu coletiva, raiz profunda do psiquismo humano. Corre-se o risco de se perder em subjetividades muito distantes da compreenso comum. Tome-se como ponto de partida a construo dos mitos na mente humana. A no compreenso de sua natu- reza, a ignorncia a respeito de tudo que cercava o ser humano primitivo, a falta de experincias significativas que forjassem protees no mgicas e a ignorncia rela- tiva aos perigos sua volta colocaram o ser humano sus- cetvel construo do mito. O mito simboliza aspectos psquicos coletivos. No so construes individuais, mas fruto da dimenso coletiva da alma humana. O mito uma construo psquica favorvel ma- nuteno do equilbrio da conscincia. Sem ele, o ser hu- mano estaria merc dos perigos de seu prprio incons- ciente. Ele forjado automaticamente para a manuteno da relao entre a conscincia e o inconsciente. Os pri- meiros mitos que apareceram na conscincia foram pala- vras ou expresses verbais, que depois foram transfor- madas em sinais. Posteriormente surgiram os mitos 22Religio Pessoal (A).pmd 22 23/10/2007, 10:28
  • 23. Religio pessoal cosmognicos e os que tentavam explicar o comporta- mento humano. Entre todos os mitos, os que representa- vam aspectos religiosos da psiqu humana so de fato os forjadores das religies coletivas. Muitos ainda perma- necem vivos, e outros foram dissolvidos pela compreen- so adequada de seus significados. Mitos nascem e mor- rem cotidianamente. Suas razes se encontram no mist- rio, na complexidade e nas profundezas do psiquismo humano. Alguns dogmas religiosos apontam diretamente para eles. So indecifrveis como o a natureza de Deus. O principal mito humano o do encontro com Deus. Antes de se resolver essa questo interna, ter-se- de se entender o problema da idia que se faz a respeito de Deus. Como a idia de Deus se apresenta de mltiplas formas, e de acordo com cada religio, Deus, em si, o grande mis- trio. Todos os mitos criados coletivamente decorrem da ignorncia humana a respeito do Universo, portanto, em ltima anlise, de Deus. A psiqu humana constri in- conscientemente os mitos, liberando a energia psquica dirigida para a busca do divino. O desejo, condenado por algumas religies como aquilo que impede a iluminao por fortalecer o egosmo, se confunde com a prpria ener- gia psquica. Lutar contra o desejo humano, egico, re- mar contra a prpria vida e todas as possibilidades de experincia. um equvoco de lesa existncia. bvio assinalar que tudo que ocorre no Universo vem de Deus. Essa afirmao, porm, um limite ao ra- ciocnio humano. preciso pensar mais alm, ou melhor, antes disso, levantem-se questionamentos: A religio algo que vem de Deus, considerado como vindo de fora, portanto, algo externo, ou, ao contrrio, uma criao humana, portanto, que vem de dentro? A religio um fenmeno humano ou divino? As respostas devem consi- 23Religio Pessoal (A).pmd 23 23/10/2007, 10:28
  • 24. Adenuer Novaes derar a religio tambm como um fenmeno psicolgico inconsciente. Isso quer dizer que o fenmeno tem prop- sitos divinos, mas tem seu desenvolvimento e continui- dade atravs da conscincia humana. Importa assinalar que o fenmeno religioso tende a se tornar consciente, logo, sujeito a modificaes significativas no decorrer da evoluo do esprito. Esse fenmeno proporcionar a as- censo da Religio Pessoal. O processo psquico que torna a experincia um fenmeno religioso ocorre de forma sutil e imperceptvel conscincia. Quando o ser humano se conecta a algo religioso, em seu ntimo, seja por um pensamento ou por um sentimento, ocorre a aproximao do que existe de mais sensvel e vulnervel em sua psiqu. Naquele mo- mento que se d a conexo com a fronteira entre o co- nhecido e o desconhecido. Ali h um abismo que neces- sita ser ultrapassado. Chamo esse momento de conexo experincia essencial. ela que favorece o contato com o numinoso e o transcendente. ela que proporciona os estados alterados de conscincia na ascese mstica. A conscincia desse processo tem sido cada vez maior no mundo moderno, porm ainda imperceptvel s religies formais, que vo lentamente se modificando, mas no o suficiente para alcanar a individualidade de cada um. Seus dogmas demoram muito para se dissolverem, mantendo alguns mistrios. Os princpios ou dogmas que compem as grandes religies apontam para um conjunto de arqutipos. Pres- tam-se materializao, pela via numinosa, de determi- nantes do pensamento e comportamento humanos. As dissidncias existentes no seio das grandes religies (O Budismo nasceu do Hindusmo, o Cristianismo e o Islamismo nasceram do Judasmo, o Protestantismo e o 24Religio Pessoal (A).pmd 24 23/10/2007, 10:28
  • 25. Religio pessoal Catolicismo, do Cristianismo, entre outros) atestam que o conjunto de arqutipos se alternam lentamente, dando lugar a determinantes psquicos mais adequados a cada fase da evoluo humana. O dogma aponta para o desco- nhecido, para o arquetpico e o supra-arquetpico. Sua preservao uma forma de fuga do significado; a busca transcendente pelo seu significado proporciona crescimen- to espiritual. A forma de exteriorizao do arqutipo religioso da psiqu mais predominante na atual fase da humanida- de a que estimula a vivncia da espiritualidade. Isso significa que o indivduo tende a viver a dimenso espiri- tual na vida social, principalmente nas dimenses tica e ecolgica, alm de tender a estar inserido em atividades que contribuam para a gerao de prosperidade pessoal e coletiva. A distino entre espiritualidade e religio tem se tornado mais evidente, principalmente em sua prtica. Agir com espiritualidade no requer a adoo de uma atitude religiosa formal, mas de um compromisso pessoal com o seu prprio processo de evoluo e com a responsabili- dade social. Quando a atitude religiosa de um indivduo se apresenta a servio do processo de encontro consigo mesmo e do significado da existncia, levando-o a se tor- nar uma pessoa autnoma, comprometida com o coleti- vo, torna-se espiritualidade. A prtica religiosa contribui para o estabelecimento do equilbrio psquico. A vivncia da espiritualidade flexibiliza o religioso, reduzindo os ris- cos da dogmatizao. A religio tem sido considerada uma tentativa de por ordem ao caos interior, povoado pelos demnios inconscientes. Por fora do aparecimento de filosofias e conhecimentos novos, ela convidada a resolver anteci- 25Religio Pessoal (A).pmd 25 23/10/2007, 10:28
  • 26. Adenuer Novaes padamente o mistrio do desconhecido aps a morte. Os demnios esto dando lugar necessidade de funda- mentar a prpria existncia humana e isso requer muito mais do que manter dogmas. H necessidade de se mate- rializar a unidade interior na crena em um Deus diferen- te do apresentado pelas religies formais. O novo Deus deve conseguir harmonizar o prprio ser humano e a so- ciedade. Um novo ser humano nasce com mais compai- xo e amor. A religio deve ser capaz de conciliar o bem e o mal internos, criados pela convivncia. 26Religio Pessoal (A).pmd 26 23/10/2007, 10:28
  • 27. Religio pessoal O real problema religioso do ser humano As tradies religiosas representam tendncias coletivas humanas de busca e manifestao do aspecto ps- quico relacionado ao sagrado. Os dogmas religiosos apon- tam para o obscuro que a conscincia no conseguiu ainda decifrar. As religies no so criaes individuais, mas a via pela qual o esprito procura entender-se e explicar-se. A busca pelo encontro com Deus to somente o formato do convite que a prpria divindade faz ao ser humano para que ele se encontre consigo mesmo. Nessa busca por Deus, ele conseguir responder dvida sobre quem ele , para que foi criado e como realizar-se a si mesmo. As religies tm sido teis como balizadoras dessa busca, mas no so os nicos meios nem tampouco so suficientes. Seus adeptos, aps algum tempo, esgotam as possibilidades de conexo com o sagrado pelas mesmas vias preconizadas por sua religio. O que um dia foi impulsionador, tornou-se limitante. A cristalizao de pr- ticas religiosas ao longo da vida deixa de alcanar os ob- jetivos numinosos a que se propunham inicialmente. O ritual, com o tempo, j no atender mais necessria conexo transcendente que impulsiona a psiqu, conse- qentemente o esprito, para vos maiores. 27Religio Pessoal (A).pmd 27 23/10/2007, 10:28
  • 28. Adenuer Novaes Para alguns, a mudana de religio poder se con- figurar como alternativa vivel para a continuidade da busca, porm nem sempre isso surte efeito. Outros prefe- rem abandonar suas tradies religiosas, seja por desilu- so, seja porque j integraram seus contedos. O problema religioso, o encontro do esprito com sua mxima essncia, se desdobra em outros, como se fossem degraus de uma escada para um patamar superior. Durante a caminhada para o encontro rgio, o esprito conseguir resolver o sentido da prpria existncia, o sig- nificado da vida e da morte, o conceito de Deus, quem de fato ele , alm de atender manifestao da funo reli- giosa da psiqu, para o que a religio deve contribuir a todo momento, oferecendo possibilidades de compreen- so do sentido da existncia humana. Afirmar que a exis- tncia, a qualquer tempo, extempornea, isto , no real nem deve ser creditada ao momento presente, o mesmo que negar a conscincia. Transferir a explicao da existncia humana na matria para o Alm obrigar a que se encontre um significado a posteriori para a exis- tncia no mundo espiritual. A existncia a que me refiro a do esprito, tanto no corpo quanto fora dele. A existn- cia humana, na matria ou fora dela, um dado a priori, condio de partida para o pensar. No um problema, mas uma condio. No possvel o no viver. No h a no existncia. A existncia humana a revelao da pr- pria divindade. Enquanto experincia, deve ser vivida exaustiva e intensamente. A existncia humana a condi- o para a aquisio de tudo que possvel ao humano. Cabe a discusso a respeito do para qu a existn- cia, ou seja, o que fazer dela, tanto no momento presente quanto em relao ao futuro. Essa deve ser a constante interrogao do esprito. Questionar-se sobre o que fazer 28Religio Pessoal (A).pmd 28 23/10/2007, 10:28
  • 29. Religio pessoal na vida ou como viv-la, de acordo com o que dispe de habilidades e capacidades para tal. Deve ter uma preocu- pao sobre a funo da vida e no necessariamente so- bre sua causa geradora, pois essa inacessvel. Ento, qual a funo da vida? Ser vivida em busca de competncias adquiridas nas diversas experincias, capacitando-se para a compreenso a respeito de si mes- mo. Nesse sentido, toda experincia humana, mesmo aquelas moralmente condenveis, deve ser compreendi- da como eliciadora de conhecimentos e competncias. Isso no significa a pregao do imoral e do vicioso, mas ape- nas a compreenso de sua ocorrncia como pertencente ao humano. A explicao da existncia humana mediante a afir- mao de sua origem divina e de uma destinao que a ela retorne parece evasiva, pouco compreensiva, portan- to, incompleta. As religies deveriam oferecer mais sub- sdios e profundidade questo. A afirmao bsica de que a existncia humana um fenmeno inerente ao ab- soluto. No existe seu contrrio. Isso no significa que no se possa teorizar sobre a existncia humana. Mas sua explicao no se deduz pela lgica convencional, razo pela qual o pensar no suficiente para justificar sua re- alidade, mas apenas a do prprio pensar. Cabe ao ser hu- mano realizar sua existncia, atualizando-se a cada expe- rincia, visando sempre uma maior compreenso a res- peito de si mesmo. A religio deve oferecer menos res- postas e mais incentivos vida no corpo. Em consonncia com o significado da existncia est o da vida e da morte, portanto, do ciclo em que o ser se encontra inserido. A vida e a morte so dois fenme- nos que delimitam um campo de concepo psicolgica para a percepo e compreenso das experincias do es- 29Religio Pessoal (A).pmd 29 23/10/2007, 10:28
  • 30. Adenuer Novaes prito. So ritos de entrada e sada para a constituio de bases estruturais do esprito. No devem ser encarados como marcos absolutos para o esprito, mas momentos identificadores de etapas de um processo maior perten- cente ao ciclo da sua fase reencarnatria. Nascer e morrer so processos repetitivos do existir. Nascer e morrer como o acordar e o dormir a cada ciclo dirio. Deve-se encarar a morte de algum, sobretudo a sua prpria, como um processo natural, necessrio e a ser aguardado como se espera o nascer de uma criana. No lidar com a morte dessa forma encarar a vida de forma pueril. O esprito, ao se perceber identificado nas caracte- rsticas de sua personalidade, deve viver a vida de forma intensa, sem medos, correndo riscos e confiantes na sua imortalidade. A morte no deve ser apontada como vil, contrria vida, mas como passagem para o incio de um novo ego. A religio deve ensinar aos adeptos a encarar a morte dessa forma, no deixando de valorizar a prpria vida. A transcendncia, o xtase religioso, os estados al- terados de conscincia devem ser considerados como eventos que sinalizam a transitoriedade da conexo cor- po-mente. A vida no corpo a conexo do esprito com as entranhas de Deus. A vida no corpo deve ser encarada como ponto de inflexo com a materialidade divina. A morte deve ser considerada como ponto de inflexo com a espiritualidade divina. Sua proximidade, seja por aci- dente, doena grave ou velhice, deve ser vivida em meio a certo planejamento de conformidade do eu. O medo, a lamentao e o estresse devem ser substitudos pela tran- qilidade da conscincia imortal. Tal estado no decorre de crena, mas de internalizao de paradigmas univer- sais adquiridos nas experincias adredemente buscadas 30Religio Pessoal (A).pmd 30 23/10/2007, 10:28
  • 31. Religio pessoal na segunda metade da vida no corpo. Essas so as experi- ncias de contato medinico, que devem ser buscadas por todos. Elas favorecem o estado de tranqilidade da alma em relao morte. A vida espiritual apresentada pela religio deve ser considerada, como de fato , como algo futuro a ser vivi- do, mas tambm como um presente que simultaneamente acontece para outros. uma vida dinmica, que se modi- fica constantemente como a prpria vida no corpo. Ela acontecer da forma como melhor aprouver evoluo do esprito. As vises ou concepes estticas a respeito do depois da morte estreitam as possibilidades de aprendi- zado diante da vida no corpo. A atualizao das concep- es a respeito da vida espiritual deve se tornar preocu- pao da religio. Se assim no for, a religio se cristaliza nas formas iniciais de manifestao do arqutipo que a gerou. O conceito de Deus o fator decisivo para a exis- tncia, ou no, do real problema da vida humana. Da con- cepo que se faa de Deus derivam os demais proble- mas da religio. Lida-se com Deus como se o concebe, isto , a idia de Deus a questo. inconcebvel que se tenha a mesma idia a respeito de Deus em todas as po- cas e nas diferentes culturas. Numa mesma cultura, por fora da evoluo material e moral, pressupem-se mo- dificaes nas concepes a respeito de tudo, principal- mente dos assuntos cosmolgicos. Toda concepo hu- mana provisria, tambm a de Deus. As religies devem incorporar novas cosmologias, apresentando-as aos seus adeptos, favorecendo, assim, o livre pensar. Ao afirmar que Deus algo, deve-se ter em mente que se est fazendo uma inferncia conceitual, isto 31Religio Pessoal (A).pmd 31 23/10/2007, 10:28
  • 32. Adenuer Novaes , emite-se uma idia, mas no uma realidade concreta. Por exemplo, ao afirmar que Deus imutvel, no se est falando de uma propriedade de Deus, mas de uma carac- terstica de idia que dele se faz. Tudo que se diz a respei- to de Deus humano porque se afirma sobre a idia que dele feita. As religies devem oferecer concepes me- nos escravizantes, alienantes e que no favoream um certo enrijecimento psquico. A resposta pergunta Quem sou? est diretamente relacionada ao conceito que tenho de Deus. Sou uma sin- gularidade divina, sombra da idia que fao a respeito de Deus. Sou a parte que concebe o todo, individualidade que inclui a totalidade. Sou a conscincia da essncia que me permite a visibilidade das entranhas de Deus. Vivo para a conscincia suprema realizar-se na minha mani- festao. Sou, pelo exclusivo interesse da Divindade, para que me torne agindo para o que fui gerado. Sou para aquele que me criou, nele me percebo. No lhe perteno nem dele me desgarrei, pois sou o que nele se realiza. O outro, meu prximo, meu espelho, cujo polimento e integrida- de constituem tarefa pessoal que contribui para encon- trar-me comigo mesmo. Sou esprito imortal, farol de Deus nas mltiplas dimenses do Universo. Sou mais do que imagino que sou e menos do que minha vaidade e meu orgulho me situam. Sou o poder estruturante da matria, que me cabe quintessenciar. Nela me movo como quem manipula as ferramentas de Deus. Meu poder meu de- sejo, que me lana aos propsitos divinos. Minhas cren- as, valores e concepes so as balizas que construo para o Universo dentro de mim mesmo. Minha mente meu principal instrumento de consecuo dos objetivos a que me proponho. O conhecimento de seu funcionamento uma chave para a evoluo de mim mesmo. Sou um ser 32Religio Pessoal (A).pmd 32 23/10/2007, 10:28
  • 33. Religio pessoal sem fim, portanto, no necessito de salvao, mas de cons- tante aperfeioamento e crescimento espiritual. Nada me destruir ou me far retroceder na destinao para a qual fui gerado. Minha religio a conexo profunda, misteriosa e inquebrantvel com aquele que me gerou. Definir-me, inserindo-me num contexto divino, es- tabilizando minha mente num processo dinmico de de- senvolvimento espiritual, sentindo-me em conexo co- migo mesmo e com o prximo, prepara-me para o encon- tro da soluo do real problema religioso. 33Religio Pessoal (A).pmd 33 23/10/2007, 10:28
  • 34. Adenuer Novaes Religio e Religiosidade N a essncia dos ensinamentos das religies, existe uma tendncia comum em torno de se alcanar a atitude moral equilibrada. Em todas elas, pode-se obser- var uma pregao constante na permanente busca pelo inefvel, incognoscvel e transcendente. Nem sempre o caminho a ser percorrido pelos adeptos consegue atingir esse alvo, pois cada ser humano possui seu repertrio de experincias que balizar sua relao com a religio. Fun- damental que se perceba, alm do aspecto concreto que existe do divino at o ser humano, o que h psiquicamen- te, isto , o repertrio de experincias acumuladas no in- consciente humano, que interferem no caminho a ser per- corrido. O ser humano constri uma Religio Pessoal, in- dependentemente do que lhe acontece externamente, por conta da percepo prpria a respeito do sagrado. Os termos religio, atitude religiosa, religiosidade, espiritualismo, inquietao mstica, ascese mstica, entre outros, nem sempre se referem aos mesmos objetos de interesse. A criatura humana, mesmo estando consciente de que busca algo superior para a compreenso de si mes- mo e do universo que a cerca, nem sempre sabe de fato o que quer. Sofre influncias inconscientes, oriundas de suas prprias experincias pregressas, que a levam a acreditar cada vez mais em algo distinto do que conscientemente 34Religio Pessoal (A).pmd 34 23/10/2007, 10:28
  • 35. Religio pessoal deseja. Medos e anseios pueris interferem na sua com- preenso, levando-a muitas vezes a buscar salvaes mgicas e inconseqentes. A adoo de uma religio parece ser um ato exclu- sivamente aleatrio de seu livre-arbtrio ou resultante de um chamado divino, neste caso externo. Deve ser tam- bm considerada uma necessidade psicolgica, portanto, interna. Nesse ltimo aspecto, uma condio coletiva con- tra a qual no se pode resistir. Uma tendncia humana forjadora da cultura e dos valores. Nesse sentido, de exis- tir um imperativo psicolgico inconsciente, a autoridade religiosa que norteia a busca espiritual do ser humano no deve ser externa (um livro, um lder religioso, um depoimento de algum, um governo etc.), muito embora possa se iniciar dessa maneira. A autoridade real deve ser a prpria conscincia humana, a partir das experincias adquiridas em suas vidas sucessivas, conduzidas pelo sen- tido que atribui a sua vida atual e futura. Sobre a tendn- cia inconsciente deve prevalecer uma atitude consciente. Nas organizaes religiosas de pequenas comunidades, as escolhas individuais se estruturam contaminadas pelo arqutipo dominante que atua em seus lderes. S a matu- ridade do ego pode fazer a conscincia assumir a atitude religiosa. Religiosidade a tendncia ao sagrado, isto , ao que transcende o humano para alm dele mesmo. Neces- sariamente no obriga o ser humano adoo de uma religio. Quando a religio adotada, a religiosidade ade- quou-se, podendo resultar, ou no, em estagnao da cons- cincia que deseja realizar-se. A religio formal tende a permitir um certo alvio da tenso provocada pelo incons- ciente, que impulsiona o ego na direo do sagrado. A religiosidade o impulsiona para a compreenso de si mes- 35Religio Pessoal (A).pmd 35 23/10/2007, 10:28
  • 36. Adenuer Novaes mo, assimilando os contedos inconscientes, direcionando sua energia para a compreenso da realidade e de sua exis- tncia no mundo. O conhecimento a respeito das coisas do esprito, vindo do Espiritismo ou de outras religies medinicas, do Hindusmo, do Cristianismo ou de crenas esotricas, deve ser utilizado para a formao da Religio Pessoal. Por enquanto ele ainda elemento da curiosidade da cons- cincia pueril da humanidade, usado como sistema de proteo contra o medo e o desconhecido. Em face da infncia espiritual do ser humano, tal conhecimento misturado com crendices e supersties, que apenas aten- dem ao anseio coletivo de aliviar as tenses inconscien- tes. Ainda no esto a servio da religiosidade nem da formao da Religio Pessoal, muito embora sirvam atualizao do arqutipo, necessitando da conscientizao adequada pelo ego para a internalizao do resultante das experincias vividas. importante ressaltar que a religio coletiva no se constituiu num conjunto coeso de normas e regras in- terpretadas e aceitas integralmente por todos. Tampouco se deve pensar que a totalidade dos adeptos de uma reli- gio tem a mesma conscincia de seus princpios, bem como a praticam da mesma forma. Na realidade, os adep- tos das grandes religies vivenciam o sagrado de diferen- tes formas, mas preferem estar abrigados sob o manto protetor da coletividade a assumir, cada um, sua singula- ridade. Pode-se dizer que no existe religio uniforme, pois na realidade seus diversos nomes so denominaes oriundas de algum fato gerador numinoso. Foram gera- das por um fenmeno mstico e transcendente e se diver- sificaram quando se confrontaram com o processo de simbolizao da psiqu de cada indivduo. O novo (cli- 36Religio Pessoal (A).pmd 36 23/10/2007, 10:28
  • 37. Religio pessoal ma, tradies, linguagem, etc.), as experincias coletivas de cada povo e as experincias de vidas passadas so res- ponsveis pela multiplicidade de expresses religiosas. O nmero de religies cresce ao surgimento de cada novo paradigma que se estabelece. Essa tendncia fruto do processo de amadurecimento da psiqu, bem como do distanciamento do mito que deu origem quela religio. Todos possuem sua Religio Pessoal, muito embora no tenham conscincia ou coragem de assumir. Vivem-na na intimidade de sua conscincia, muitas vezes receosa de manifestar autenticamente o que pensa e sente. A religio formal deve favorecer a construo de uma religiosidade madura, capaz de fazer face aos anseios psquicos inconscientes de realizao pessoal, de desco- berta do Si-Mesmo e de encontro com Deus. Quanto mais o indivduo assuma sua Religio Pessoal e construa uma religiosidade que suporte todo o mal inerente natureza humana, mais cedo alcanar a compreenso de sua exis- tncia e viver sua essncia. Por no suportar o mal, a religio exclui parte da natureza humana. Uma religio que oferea uma perspectiva de con- tinuidade da existncia do eu, que, por conta disso, im- pulsione as pessoas comunicao interdimensional (medinica), que reforce a obrigao tica, que pugne pela responsabilidade social pessoal e que convide as pessoas a vivenciar o amor no pode ser vivida simplesmente para uma suposta salvao pessoal ou para encher os templos de adeptos. Uma religio que se fixe em estabelecer o que moral, bem como em condenar uma imoralidade formal, que no compreende o dinamismo do Universo tende a estagnar, falir ou alienar seus adeptos. necess- rio que se entenda que o imoral, com o tempo, pode se transformar em moral ou vice-versa. 37Religio Pessoal (A).pmd 37 23/10/2007, 10:28
  • 38. Adenuer Novaes preciso viver religiosamente, porm sem se alie- nar do mundo, sem deixar de considerar que todos esto num mesmo momento evolutivo e que isso os nivela es- piritualmente. A Religio Pessoal deve ser capaz de pro- porcionar uma vida pacfica, harmoniosa e com amorosidade. Uma religio que no resiste mnima imoralidade apenas uma convenincia humana. A religio no para formar crentes, mas para fazer evoluir conscincias. Sua misso libertar as conscincias, tambm de seus prpri- os egos. Religio sem religiosidade torna-se um movi- mento intelectual, frio e tendente alienao. 38Religio Pessoal (A).pmd 38 23/10/2007, 10:28
  • 39. Religio pessoal A palavra religio E star conectado a uma ordem csmica desejo de todo ser humano. A religio se prope a oportunizar essa divina conexo, mas como se dirige ao coletivo, dificil- mente seu adepto alcanar esse intento. Muito prova- velmente, com o auxlio da religio formal, o indivduo ter de constituir sua Religio Pessoal para que se sinta conectado ao divino. Complexo explicar o que religio quando se trata de algo de difcil traduo em palavras. O que se sente quando se vive uma experincia religiosa no pertence ao intelecto. Mais difcil ainda querer escrever ou falar sobre a manifestao religiosa de outra pessoa. Com difi- culdade, ou mesmo parcialmente, consegue-se falar a res- peito da prpria religio, isto , do sentimento religioso que se tem. A raiz da experincia religiosa pertence a uma ins- tncia psquica que transcende o campo da conscincia, cuja procedncia se confunde com a gerao do Esprito. O que quer que lhe d origem esconde-se no inconsciente humano, impulsionando-o para um encontro com a Vida, consigo mesmo e com a Divindade. Sua influncia na vida, na cultura e no destino humano inquestionvel. Questionvel a afirmao de que a cultura deter- mina as caractersticas da religio. o mesmo que dizer 39Religio Pessoal (A).pmd 39 23/10/2007, 10:28
  • 40. Adenuer Novaes que a religio to somente mais uma das manifestaes culturais produzidas pela conscincia humana. Pe a re- ligio no mesmo patamar de outras manifestaes cultu- rais, tais como o folclore, a arte popular, crendices, com- portamentos coletivos etc., deliberadamente criadas. De fato, as manifestaes religiosas fazem parte da cultura de um povo, porm no surgem aleatoriamente nem so livres produtos da conscincia. No so formadas pelo desejo unilateral de algum ou de um grupo. So geradas pelas aspiraes inconscientes, pelos mistrios que cer- cam o surgimento da vida humana, pelos questionamentos das origens e do destino humano, pelas foras espirituais de cada povo, bem como por influncia divina. Seria mais adequado afirmar que a cultura de um povo recebe forte influncia de suas crenas e ritos religiosos, o que pode ser observado de forma mais evidente nos pases do Ori- ente Mdio e na sia. Em alguns pases, a autoridade religiosa tambm econmica e poltica. No Brasil, mais acentuadamente no Nordeste, essa influncia acontecia nas populaes mais pobres, nas quais os clrigos se por- tavam lado a lado com o poder poltico, at mesmo dis- putando lugar. Pode-se afirmar ento que no h religio sem in- fluncia cultural, e vice-versa, portanto, sem subjetivida- de. Toda religio ou ritual religioso contm uma manifes- tao da subjetividade psquica inerente ao humano. Essa subjetividade (leia-se subjetividade igual a impulso in- consciente) permeia toda a cultura humana. O fenmeno do surgimento de uma nova religio, ou da diviso de uma religio em distintos segmentos, est atrelado a fatores culturais, mas com interferncias da religio tradicional. Quando ocorre uma certa tenso social motivada por fatores morais, seja por uma maior 40Religio Pessoal (A).pmd 40 23/10/2007, 10:28
  • 41. Religio pessoal liberalidade ou por necessidade de retorno ao sagrado, estabelecem-se condies para aquele surgimento ou desmembramento. Independentemente do que influencia a vida huma- na, seja a economia, as condies climticas ou a cultura, existe, em cada indivduo, um senso ordenador que o impulsiona busca do sentido e do significado da exis- tncia. Esse senso ordenador que o faz querer elevar-se para alm de si mesmo e ao encontro de algo superior tambm conhecido pelo nome de religio. O termo religio pressupe a idia de re-ligao, etimologicamente validada na cultura judaico-crist, pois deriva da idia de que Ado teria se desligado de Deus. Todos, teoricamente seus descendentes, deveriam reatar aquela ligao pela via da religio. Essa idia passou a fazer parte do inconsciente humano na cultura ocidental. Nas religies originrias do Judasmo, isto , que tm a Bblia como referncia maior, o termo encontra respaldo. Nele, tambm est implcita a idia de salvao, pois Ado, que representaria a Humanidade, tendo sido expulso do paraso, precisaria recuperar sua antiga posio. A deso- bedincia provocou sua derrocada, conseqentemente a de toda a Humanidade. Nas religies, ou caminhos de busca do transcen- dente, fora do eixo bblico, deve-se ter outra compreen- so do significado da palavra religio. Talvez se deva pensar em religio como busca pelo sagrado, como busca pelo Si-Mesmo (individualidade como Esprito imortal), como encontro com o divino ou como ascese mstica. A salvao pelo erro cometido por Ado no se aplica, por exemplo, ao hindu, ao budista ou ao taosta, pois no tm a mesma construo histrico-religiosa. A atitude religi- osa dos adeptos dessas trs religies no contempla a culpa 41Religio Pessoal (A).pmd 41 23/10/2007, 10:28
  • 42. Adenuer Novaes nem a idia de que devem ser salvos de um perigo subje- tivo e relacionado Divindade, ou que devam se redimir de algum erro consciente ou inconscientemente cometi- do. A idia est mais prxima de alcanar a iluminao do que a salvao. Iluminao compreendida como um processo de aquisio de conhecimentos e experincias para alcanar um estado de elevao divina. No Budis- mo, por exemplo, deve-se buscar o nirvana no samsara, isto , a iluminao no mundo, e no fora dele. Ilumina- o e salvao do esprito, pregados pelas religies, so representaes de polaridades psquicas relativas ao Self. O Espiritismo, ao adotar o Cristianismo, mesmo com interpretaes prprias de seus postulados, reforou a idia inconsciente da culpa, da salvao e de religao. A salvao tambm no deve se aplicar ao Espiritismo. Difcil mudar essa concepo, pois ela conta com o apoio inconsciente da tradio judaico-crist, inerente aos que vm reencarnando constantemente no ocidente. O termo religio, para a maioria das religies, guar- da relao com a busca do sentido e do significado da vida. Mas as religies, lamentavelmente, no tm alcan- ado, na prtica, esse objetivo. Equivocadamente parece que a responsabilidade disso se daria pela simples aceita- o da religio. Talvez no. Creio que o adepto tem tam- bm sua responsabilidade. Ele ainda se situa como sofre- dor que precisa de alvio, culpado que necessita de reden- o, crdulo que deseja confirmao de sua prpria imaginao, devoto envolvido pelo complexo messinico, inocente em busca de emoes, temente, ingnuo e igno- rante. preciso que ele saia dessa conformidade e cami- nhe livre para construir os alicerces psquicos de sua evoluo espiritual. Quando o adepto ultrapassar esses estgios, tornando-se consciente de que deve assumir seu 42Religio Pessoal (A).pmd 42 23/10/2007, 10:28
  • 43. Religio pessoal prprio destino, sendo dono de sua prpria vida, perce- ber a importncia de constituir sua Religio Pessoal. Entendo como religio o caminho para o encontro consigo mesmo, para a compreenso do sentido e do sig- nificado da Vida e de tudo que diz respeito palavra Deus. Portanto, no associo ao conceito de religio a idia de salvao, pecado, fuso com Deus, negao do mundo material, excluso social, imolao, sofrimento, adora- o, idolatria etc.. Religio pacto do indivduo com a Vida, como proprietrio de si mesmo. Ao pensar em religio, todo e qualquer ser humano deve reportar-se a um processo de transformao, a uma conexo com o sagrado, visando o encontro consigo mes- mo e a descoberta do sentido e do significado da Vida. Prticas sagradas, rituais e cerimnias devem concorrer diretamente para esse processo. T-las como simblicas mera representao, sem possibilidade de consecuo real. preciso sair do simblico para a internalizao concreta do significado do que se vive como sendo sa- grado. Todo smbolo deve ser dissolvido a servio da com- preenso real de seu significado profundo. Os rituais reli- giosos no precisam ser destrudos, mas seus significa- dos transcendentes devem ser absorvidos pela conscin- cia transformada. Cada vez mais, no mundo moderno, os adeptos das religies esto sentindo necessidade de inserir o esforo pessoal na aquisio das promessas que sua religio ofe- rece para seu futuro. A espera de um Deus dispensador eterno de bens quele que segue preceitos automticos e coletivos tem dado lugar ao esforo pessoal pela ascese mstica. O esforo pessoal, a autotransformao, a auto- determinao, a renncia ao egosmo e ao orgulho, o sa- crifcio pelo trabalho comum, a vida harmnica e equili- 43Religio Pessoal (A).pmd 43 23/10/2007, 10:28
  • 44. Adenuer Novaes brada em sociedade e a dedicao ao prximo tm sido os meios pelos quais se alcana aquela ascese. A idia do sofrimento e da auto-flagelao cede lugar conquista de si mesmo e ao reconhecimento da prpria ignorncia para a busca da auto-realizao. O culto externo cede terreno para a construo pessoal de uma religiosidade operativa em favor da compreenso da vida e de si mesmo. Uma religio que tambm se ocupe do bem coletivo, de causas sociais e, alm de tudo, eleve o ser humano para conquis- tas maiores, sem retir-lo do mundo, tem sido cada vez mais desejada. Religio vivida como meio de salvao ou de alvio de tenses to somente uma resposta ten- dncia coletiva arquetpica, reduzindo-se apenas a um primeiro passo para a iniciao e constituio da Reli- gio Pessoal. medida que a religio vivida, seus princpios vo se dogmatizando. O que era puro vai se tornando miscigenado pela agregao de contedos estranhos, oriundos dos complexos humanos. A comunidade de adep- tos, temendo a perda da garantia proporcionada pelo con- forto na adoo dos princpios religiosos, ferrenhamente os mantm vivos. Isso cristaliza aqueles princpios, dogmatizando-os. um fenmeno coletivo ao que nem o Espiritismo, com todo seu racionalismo, escapou. Isso pode melhor ser observado quando do surgimento de movimentos ou grupos defendendo a pureza doutrin- ria, o retorno ao Cristianismo primitivo etc.. No se pode esquecer que princpios devem sempre ser contextualizados tendo em vista no se tornarem motivos de sacralizao de livros, de pessoas ou de templos, ge- rando dogmas. Esse fenmeno, quase impossvel de ser evitado, promove o atraso no desenvolvimento psicol- gico de uma comunidade. O retorno religio primitiva, 44Religio Pessoal (A).pmd 44 23/10/2007, 10:28
  • 45. Religio pessoal ou como os antigos a viviam, representa uma dificuldade de adaptao ao moderno, ao novo e s atualizaes do arqutipo religioso. O medo de perder as garantias e a segurana psquicas responsvel por isso. A religio um caminho e no o retorno ao passado. Sua atualizao um princpio necessrio manuteno de sua vitalidade impulsionadora da busca do Si-Mesmo. Por outro lado, no se deve pensar que a anarquia religiosa ou uma religio sem regras e normas seja a me- lhor opo. A religio no se sustentaria sem disciplina e sem a manuteno de princpios; as divises internas que nelas ocorrem se devem necessidade de contextualizao adequada para caber a evoluo da psiqu humana. Quan- do os princpios de uma religio se opem por demais evoluo intelecto-moral da sociedade, d-se uma tenso interna que fatalmente leva ciso. As religies parecem que se cristalizam em dogmas por exigncia coletiva daqueles que ainda no alcana- ram a compreenso dos significados dos smbolos gera- dos pelo inconsciente. Aqueles que envelheceram na cul- pa, que ignoram a excelncia do Criador, que no arris- cam na vida, que permanecem querendo benesses divi- nas e que se apegam ao egosmo do poder impedem as transformaes na religio. A espiritualidade que convidada pela religio deve ser vivida em todo percurso da evoluo do esprito. Quer esteja encarnado, quer desencarnado. No se deve pregar religio apenas para a vida futura, mas principalmente para a vida presente. Os preceitos religiosos devem se opor vida hu- mana em seu contexto material? No seria uma contradi- o estar no mundo e neg-lo? No seria adequado pen- sar que na relao com o mundo que se deve encontrar 45Religio Pessoal (A).pmd 45 23/10/2007, 10:28
  • 46. Adenuer Novaes o sentido e o significado da vida humana? Para responder a essas questes, talvez seja adequado inserir-se uma ou- tra idia de mundo. O mundo deveria ser considerado como a unio da sociedade material com a sociedade es- piritual. Nessa unio est implcito que uma interfere e influencia na outra, sem primazia de qualquer delas. Dei- xariam de ser vistas como opostos inconciliveis, mas como uma totalidade na qual o esprito transita. Quando o ser humano nega uma em detrimento da outra, ocorre um vis que reduz a prpria vida. Quando a religio nega uma sociedade em favor da outra, comete o mesmo equ- voco do materialista que se afirma sobre os pilares fr- geis do que apenas revela seus cinco sentidos. Negar o mundo material deixar de aprender aquilo que s no contato com o corpo fsico e nas relaes interpessoais pertinentes a ele se adquire. A religio deve ser facilitadora da relao do indi- vduo consigo mesmo e com o mundo, seja ele material ou espiritual. Deve lev-lo a experincias que produzam reflexes, emoes e sentimentos, diferentes das que tem quando tocado por outros arqutipos. A religio surge a partir da existncia de um centro psquic