jorge luis borges- ficções

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Y Y | | v v Æ Æ x x á á ***** J J O O R R G G E E L L U U I I S S B B O O R R G G E E S S http://groups.google.com/group/digitalsource

Author: mayara-alexandre-costa

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livro de Jorge Luís Borges

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  • YYYYYYYY||||||||vvvvvvvvxxxxxxxx **********

    JJJOOORRRGGGEEE LLLUUUIIISSS BBBOOORRRGGGEEESSS

    http://groups.google.com/group/digitalsource

  • Este livro: Fices, parte integrante da coleo:

    JJOORRGGEE LLUUIISS BBOORRGGEESS OOBBRRAASS CCOOMMPPLLEETTAASS VOLUME I

    1923-1949 Ttulo do original em espanhol: Jorge Luis Borges Obras Completas

    98-3272 Copyright 1998 by Maria Kodama Copyright 1998 das tradues by Editora Globo S.A.

    1a Reimpresso-9/98 2a Reimpresso-1/99 3a Reimpresso 12/99

    Edio baseada em Jorge Luis Borges Obras Completas,

    publicada por Emec Editores S.A., 1989, Barcelona Espanha.

    Coordenao editorial: Carlos V. Fras

    Capa: Joseph Llbach / Emec Editores

    Ilustrao: Alberto Ciupiak

    Coordenao editorial da edio brasileira: Eliana S

    Assessoria editorial: Jorge Schwartz

    Preparao de textos: Maria Carolina de Arajo

    Reviso de textos: Flvio Martins, Levon Yacubian,

    Luciana Vieira Alves e Mrcia Menin

    Projeto grfico: Alves e Miranda Editorial Ltda.

    Fotolitos: GraphBox

    Agradecimentos a Antonio Fernndez Ferrer, Maite Celada, Ana Cecilia Olmos,

    Blas Matamoro, Fernando Paixo, Daniel Samoilovich e Michel Sleiman

    Agradecimentos especiais a lida Lois

    Direitos mundiais em lngua portuguesa, para o Brasil, cedidos

    EDITORA GLOBO S.A.

    Avenida Jaguar, 1485

  • CEP O5346-9O2 Tel.: 3767-7OOO, So Paulo, SP

    E-mail: [email protected]

    Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edio pode ser utilizada ou reproduzida em qualquer meio ou forma, seja mecnico ou eletrnico, fotocpia, gravao

    etc. nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorizao da editora.

    Impresso e acabamento:

    Grfica Crculo

    CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Cmara Brasileira do Livro, SP Borges, Jorge Luis, 1899-1986.

    Obras completas de Jorge Luis Borges_ volume 1 / Jorge Luis Borges. So Paulo : Globo, 1999.

    Ttulo original: Obras completas Jorge Luis Borges. Vrios tradutores.

    V. 1. 1923-1949 / v. 2. 1952-1972 / v. 3. 1975-1985 / v. 4. 1975-1988 ISBN 85-25O-2877-O (v. 1) / ISBN 85-25O-2878-9 (v. 2) ISBN 85-25O-2879-7 (v. 3) / ISBN 85-25O-288O-O

    (v. 4.)

    1. Fico argentina 1. Ttulo. ndices para catlogo sistemtico

    1. Fico : Sculo 2O : Literatura argentina ar863.4

    2. Sculo 2O : Fico : Literatura argentina ar863.4 CDD-ar863.4

    FICES Ficciones

    Traduo de Carlos Nejar Reviso de traduo: Maria Carolina de Araujo

    FICES (1944)

  • O JARDIM DE VEREDAS QUE SE BIFURCAM (1941)

    Prlogo Tln, Uqbar, Orbis Tertius Pierre Menard, autor do Quixote As runas circulares A loteria em Babilnia Exame da obra de Herbert Quain A biblioteca de Babel O jardim de veredas que se bifurcam

    ARTIFCIOS (1944)

    Prlogo Funes, o memorioso A forma da espada Tema do traidor e do heri A morte e a bssola O milagre secreto Trs verses de Judas O fim A seita da Fnix O Sul

  • OO JJAARRDDIIMM DDEE VVEERREEDDAASS QQUUEE SSEE BBIIFFUURRCCAAMM ((11994411))

    A Esther Zemborain de Torres

    1941

  • PRLOGO

    As sete obras deste livro no requerem maior elucidao. A stima ("O jardim de veredas que se bifurcam") policial; seus leitores assistiro execuo e a todos os preliminares de um crime cujo propsito no ignoram, mas que no compreendero, parece-me, at o ltimo pargrafo. As outras so fantsticas; uma "A loteria em Babilnia" no totalmente isenta de simbolismo. No sou o primeiro autor da narrativa "A biblioteca de Babel"; os curiosos de sua histria e de sua pr-histria podem examinar certa pgina do nmero 59 da revista Sur, que registra os nomes heterogneos de Leucipo e de Lasswitz, de Lewis Carroll e de Aristteles. Em "As runas circulares" tudo irreal; em "Pierre Menard, autor do Quixote", irreal o destino que seu protagonista se impe. O rol de escritos que lhe atribuo no muito divertido, mas no arbitrrio; um diagrama de sua histria mental...

    Desvario laborioso e empobrecedor o de compor extensos livros; o de espraiar em quinhentas pginas uma idia cuja perfeita exposio oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento simular que esses livros j existem e oferecer um resumo, um comentrio. Assim procedeu Carlyle em Sartor Resartus; assim Butler em The Fair Haven; obras que tm a imperfeio de serem tambm livros, no menos tautolgicos que os outros. Mais razovel, mais inepto, mais preguioso, preferi a escrita de notas sobre livros imaginrios. Estas so "Tln, Uqbar, Orbis Tertius"; e o "Exame da obra de Herbert Quain".

    J. L. B.

  • TLN, UQBAR, ORBIS TERTIUS

    Devo conjuno de um espelho e de uma enciclopdia o descobrimento de Uqbar. O espelho inquietava o fundo de um corredor numa chcara da rua Gaona, em Ramos Meja; a enciclopdia falazmente se chama The Anglo-American Cyclopaedia (New York, 1917) e uma reimpresso literal, mas tambm tardia, da Encyclopaedia Britannica de 19O2. O fato ocorreu faz uns cinco anos. Bioy Casares jantara comigo naquela noite e deteve-nos uma extensa polmica sobre a elaborao de um romance em primeira pessoa, cujo narrador omitisse ou desfigurasse os fatos e incorresse em diversas contradies, que permitissem a poucos leitores a muito poucos leitores a adivinhao de uma realidade atroz ou banal. Do fundo remoto do corredor, o espelho nos espreitava. Descobrimos (na alta noite essa descoberta inevitvel) que os espelhos tm algo de monstruoso. Ento Bioy Casares lembrou que um dos heresiarcas de Uqbar declarara que os espelhos e a cpula so abominveis, porque multiplicam o nmero dos homens. Perguntei-lhe a origem dessa memorvel sentena e ele me respondeu que The Anglo-American Cyclopaedia a registrava, em seu artigo sobre Uqbar. A chcara (que havamos alugado mobiliada) possua um exemplar dessa obra. Nas ltimas pginas do volume XLVI demos com um artigo sobre Upsala; nas primeiras do XLVII, com um sobre Ural-Altaic Languages, mas nem uma palavra a respeito de Uqbar. Bioy, um pouco perturbado, consultou os volumes do ndice. Esgotou em vo todos os verbetes imaginveis: Ukbar, Ucbar, Ookbar, Oukbahr... Antes de ir embora, disse-me que era uma regio do Iraque ou da sia Menor. Confesso que assenti com certa incomodidade. Conjecturei que esse pas indocumentado e esse heresiarca annimo eram uma fico improvisada pela modstia de Bioy para justificar uma frase. O exame estril de um dos atlas de Justus Perthes fortaleceu minha dvida.

    No dia seguinte, Bioy me telefonou de Buenos Aires. Disse-me que tinha vista o artigo sobre Uqbar, no volume XLVI da Enciclopdia. No constava o nome do heresiarca, mas sim a informao de sua doutrina, formulada em palavras quase idnticas s repetidas por ele, ainda que talvez literariamente inferiores. Ele tinha recordado: "Copulation and mirrors are abominable". O texto da Enciclopdia dizia: "Para um desses gnsticos, o visvel universo era uma iluso ou (mais precisamente) um sofisma. Os espelhos e a paternidade so abominveis (mirrors and fatherhood are hateful) porque o multiplicam e o divulgam". Eu lhe disse, sem faltar verdade, que gostaria de ver esse artigo. Em poucos dias ele o trouxe. O que me surpreendeu, porque os escrupulosos ndices cartogrficos da Erdkunde de Ritter ignoravam completamente o nome de Uqbar.

    O volume que Bioy trouxe era efetivamente o XLVI da Anglo-American Cyclopaedia. No ante-rosto e na lombada, a indicao alfabtica (Tor-Ups) era a de nosso exemplar, mas em vez de 917 pginas constava de 921. Essas quatro pginas adicionais compreendiam o artigo sobre Uqbar; no previsto (como ter observado o leitor) pela indicao alfabtica. Comprovamos depois que no havia outra diferena entre os

  • volumes. Os dois (conforme creio haver indicado) so reimpresses da dcima Encyclopaedia Britannica. Bioy adquirira seu exemplar num de tantos leiles.

    Lemos com certo cuidado o artigo. A passagem recordada por Bioy era talvez a nica surpreendente. O restante parecia muito verossmil, muito ajustado ao tom geral da obra e (como natural) um pouco maante. Relendo-o, descobrimos sob sua rigorosa escrita uma fundamental vaguidade. Dos catorze nomes que figuravam na parte geogrfica, apenas reconhecemos trs Kurassan, Armnia, Erzerum , interpolados no texto de modo ambguo. Dos nomes histricos, um s: o impostor Esmerdis, o mago, invocado mais como metfora. A nota parecia precisar as fronteiras de Uqbar, mas seus nebulosos pontos de referncia eram rios e crateras e cadeias dessa mesma regio. Lemos, verbi grada, que as terras baixas de Tsai Jaldun e o delta do Axa definem a fronteira do Sul e que nas ilhas desse delta procriam os cavalos selvagens. Isso, no comeo da pgina 918. Na seo histrica (pgina 92O) soubemos que, por causa das perseguies religiosas do sculo XIII, os ortodoxos procuraram refgio nas ilhas, onde ainda perduram seus obeliscos e onde no raro exumar seus espelhos de pedra. A seo idioma e literatura era breve. Um nico trao memorvel: anotava que a literatura de Uqbar era de carter fantstico e que suas epopias e suas lendas no se referiam nunca realidade mas s duas regies imaginrias de Mlejnas e de Tln... A bibliografia enumerava quatro volumes que no encontramos at agora, embora o terceiro Silas Haslam: History of the Land Called Uqbar, 1874 figure nos catlogos da livraria de Bernard Quaritch.1 O primeiro, Lesbare und lesenswerthe Bemerkungen ber das Land Ukkbar in Klein-Asien, data de 1641 e obra de Johannes Valentinus Andre. O fato significativo; alguns anos depois, deparei com esse nome nas inesperadas pginas de De Quincey (Writings, dcimo terceiro volume) e soube que era o de um telogo alemo que, em princpios do sculo XVII, descreveu a imaginria comunidade da Rosa Cruz que outros depois fundaram, imitao do prefigurado por ele.

    Nessa noite visitamos a Biblioteca Nacional. Em vo esgotamos atlas, catlogos, anurios de sociedades geogrficas, memrias de viajantes e historiadores: ningum estivera jamais em Uqbar. O ndice geral da enciclopdia de Bioy tampouco registrava esse nome. No dia seguinte, Carlos Mastronardi (a quem eu relatara o assunto) reparou numa livraria de Corrientes e Talcahuano as pretas e douradas lombadas da Anglo-American Cyclopaedia... Entrou e consultou o volume XXVI. Naturalmente, no deu com o menor indcio de Uqbar.

    ___________________________________

    l Haslam publicou tambm A General History of Labyrinths.

  • II

    Alguma lembrana limitada e diluda de Herbert Ashe, engenheiro das ferrovias do Sul, persiste no hotel de Adrogu, entre as efusivas madressilvas e no fundo ilusrio dos espelhos. Em vida padeceu de irrealidade, como tantos ingleses; morto, no sequer fantasma que j era ento. Era alto e aptico, e a sua canosa barba retangular havia sido ruiva. Creio que era vivo, sem filhos. De tantos em tantos anos ia a Inglaterra: visitar (julgo eu por umas fotografias que nos mostrou) um relgio de sol e uns carvalhos. O meu pai estreitara com ele (o verbo excessivo) uma dessas amizades inglesas que comeam por excluir as confidncias e que muito em breve omitem o dilogo. Costumavam exercer um intercmbio de livros e de jornais; costumavam defrontar-se no xadrez, taciturnamente... Lembro-me dele no corredor do hotel, com um livro de matemtica na mo, fitando s vezes as cores irrecuperveis do cu. Uma tarde, falmos do sistema duodecimal de numerao (em que o doze se escreve 10). Ashe disse que estava precisamente a transferir no sei que tabelas duodecimais para sexagesimais (em que sessenta se escreve 10). Acrescentou que esse trabalho lhe fora encomendado por um noruegus: no Rio Grande do Sul. H oito anos que o conhecemos e nunca mencionara sua estada nessa regio... Falamos de vida pastoril, de capangas, da etimologia brasileira da palavra gaucho (que alguns velhos orientais ainda pronunciam gacho) e nada mais se disse Deus me perdoe de funes duodecimais. Em setembro de 1937 (ns no estvamos no hotel), Herbert Ashe morreu da ruptura de um aneurisma. Dias antes, recebera do Brasil um pacote selado e registrado. Era um livro em oitavo maior. Ashe deixou-o no bar, onde meses depois o encontrei. Pus-me a folhe-lo e senti uma ligeira vertigem de assombro que no descreverei, porque esta no a histria de minhas emoes, mas de Uqbar e Tln e Orbis Tertius. Numa noite do Isl, que se chama a "Noite das Noites", abrem-se de par em par as secretas portas do cu e mais doce a gua nos cntaros; se essas portas se abrissem, no sentiria o que nessa tarde senti. O livro estava redigido em ingls e o compunham 1OO1 pginas. Na amarela lombada de couro li estas curiosas palavras que o ante-rosto repetia: A First Encyclopaedia of Tln. Vol. XI. Hlaer to Jangr. No havia indicao de data nem de lugar. Na primeira pgina e numa folha de papel de seda que cobria uma das lminas coloridas, estava impresso um valo azul com esta inscrio: Orbis Tertius. Fazia dois anos que eu descobrira num tomo de certa enciclopdia pirtica uma sumria descrio de um falso pas; agora me proporcionava o acaso algo mais precioso e mais rduo. Agora tinha nas mos um vasto fragmento metdico da histria total de um planeta desconhecido, com suas arquiteturas e seus naipes, com o pavor de suas mitologias e o rumor de suas lnguas, com seus imperadores e seus mares, com seus minerais e seus pssaros e seus peixes, com sua lgebra e seu fogo, com sua controvrsia teolgica e metafsica. Tudo isso articulado, coerente, sem visvel propsito doutrinal ou tom pardico.

    No "dcimo primeiro tomo" de que falo, h aluses a tomos ulteriores e precedentes. Nstor Ibarra, num artigo j clssico da N.R.F., negou a existncia de tais tomos; Ezequiel Martnez Estrada e Drieu La Rochelle refutaram, qui vitoriosamente, essa dvida. O fato que at agora as investigaes mais diligentes tm sido estreis. Em vo desordenamos

  • as bibliotecas das Amricas e da Europa. Alfonso Reyes, saturado dessas fadigas subalternas de ndole policial, prope que todos empreendamos a obra de reconstruir os muitos e macios tomos que faltam: ex ungue leonem. Calcula, entre srio e jocoso, que uma gerao de tlnistas pode bastar. Esse arriscado cmputo nos faz voltar ao problema fundamental: quem so os inventores de Tln? O plural inevitvel, porque a hiptese de um nico inventor de um infinito Leibniz trabalhando na treva e na modstia fora descartada unanimemente. Conjetura-se que este brave new world obra de uma sociedade secreta de astrnomos, de bilogos, de engenheiros, de metafsicos, de poetas, de qumicos, de algebristas, de moralistas, de pintores, de gemetras... dirigidos por um obscuro homem de gnio. Muitos so os indivduos que dominam essas disciplinas diversas, mas no os capazes de inveno e menos os capazes de subordinar a inveno a um rigoroso plano sistemtico. Esse plano to vasto que a contribuio de cada escritor infinitesimal. A princpio, acreditou-se que Tln era um mero caos, uma irresponsvel licena da imaginao; agora se sabe que um cosmos e as ntimas leis que o regem foram formuladas, ainda que de modo provisrio. Basta-me recordar que as contradies aparentes do Dcimo Primeiro Tomo so a pedra fundamental da prova de que existem os outros: to lcida e to justa a ordem que nele se observou. As revistas populares divulgaram, com perdovel excesso, a zoologia e a topografia de Tln; penso que seus tigres transparentes e suas torres de sangue no merecem, talvez, a contnua ateno de todos os homens. Atrevo-me a pedir alguns minutos para seu conceito do universo.

    Hume observou em definitivo que os argumentos de Berkeley no admitem a menor rplica e no causam a menor convico. Esse parecer totalmente verdico em sua aplicao terra; totalmente falso em Tln. As naes desse planeta so congenitamente idealistas. Sua linguagem e as derivaes de sua linguagem a religio, as letras, a metafsica pressupem o idealismo. O mundo para eles no um concurso de objetos no espao; uma srie heterognea de atos independentes. sucessivo, temporal, no espacial. No h substantivos na conjetural Ursprache de Tln, da qual procedem os idiomas "atuais" e os dialetos: h verbos impessoais, qualificados por sufixos (ou prefixos) monossilbicos de valor adverbial. Por exemplo: no h palavra que corresponda palavra lua, mas h um verbo que seria em espanhol lunecer ou lunar. Surgiu a lua sobre o rio diz-se hlr u fang axaxaxas ml ou seja em sua ordem: para cima (upward) atrs duradouro-fluir luneceu. (Xul Solar traduz sinteticamente: upa tras perfluyue lun. Upward, behind the onstreaming it mooned).

    O que antes foi dito se refere aos idiomas do hemisfrio austral. Nos do hemisfrio boreal (sobre cuja Ursprache h bem poucos dados no Dcimo Primeiro Tomo) a clula primordial no o verbo, mas o adjetivo monossilbico. O substantivo se forma por acumulao de adjetivos. No se diz lua: diz-se areo-claro sobre escuro-redondo ou alaranjado-tnue-do-cu ou qualquer outro acrscimo. No caso escolhido, a massa de adjetivos corresponde a um objeto real; o fato puramente fortuito. Na literatura deste hemisfrio (como no mundo subsistente de Meinong), so muitos os objetos ideais, convocados e dissolvidos num momento, conforme as necessidades poticas. Determina-os, s vezes, a mera simultaneidade. H objetos compostos de dois termos, um de carter visual e outro auditivo: a cor do nascente e o remoto grito de um pssaro. H alguns de mltiplos: o sol e a gua contra o peito do nadador, o vago rosa trmulo que se v com os olhos fechados, a sensao de quem se deixa levar por um rio e tambm pelo sonho. Esses

  • objetos de segundo grau podem combinar-se com outros; o processo, mediante certas abreviaturas, praticamente infinito. H poemas famosos compostos de uma nica enorme palavra. Essa palavra integra um objeto potico criado pelo autor. O fato de que ningum acredite na realidade dos substantivos faz, paradoxalmente, com que seja interminvel seu nmero. Os idiomas do hemisfrio boreal de Tln possuem todos os nomes das lnguas indo-europias e muitos outros mais.

    No exagero afirmar que a cultura clssica de Tln compreende uma nica disciplina: a psicologia. As outras esto subordinadas a ela. Disse que os homens desse planeta concebem o universo como uma srie de processos mentais, que no se desenvolvem no espao, mas de modo sucessivo no tempo. Spinoza atribui a sua inesgotvel divindade os atributos da extenso e do pensamento; ningum compreenderia em Tln a justaposio do primeiro (que apenas tpico de certos estados) e do segundo que sinnimo perfeito do cosmos. Antes, com outras palavras: no concebem que o espacial perdure no tempo. A percepo de uma fumaceira no horizonte e depois do campo incendiado e depois do charuto meio apagado que produziu a queimada considerada exemplo de associao de idias.

    Esse monismo ou idealismo total invalida a cincia. Explicar (ou julgar) um fato uni-lo a outro; essa vinculao, em Tln, um estado posterior do sujeito, que no pode afetar ou iluminar o estado anterior. Todo estado mental irredutvel: o simples fato de nome-lo id est, de classific-lo implica falseio. Disso caberia deduzir que no h cincias em Tln nem sequer raciocnios. Mas a paradoxal verdade que existem, em quase inumervel nmero. Com as filosofias acontece o que acontece com os substantivos no hemisfrio boreal. O fato de que toda filosofia seja de antemo um jogo dialtico, uma Philosophie des Als Ob, contribuiu para multiplic-las. Sobram os sistemas inacreditveis, mas de arquitetura agradvel ou de tipo sensacional. Os metafsicos de Tln no procuram a verdade nem sequer a verossimilhana: procuram o assombro. Julgam que a metafsica um ramo da literatura fantstica. Sabem que um sistema no outra coisa que a subordinao de todos os aspectos do universo a qualquer um deles. At a frase "todos os aspectos" inaceitvel, porque supe a impossvel adio do instante presente e dos pretritos. Nem lcito o plural "os pretritos", porque supe outra operao impossvel... Uma das escolas de Tln chega a negar o tempo: argumenta que o presente indefinido, que o futuro no tem realidade seno como esperana presente, que o passado no tem realidade seno como lembrana presente.2 Outra escola declara que transcorreu j todo o tempo e que nossa vida apenas a lembrana ou reflexo crepuscular, e sem dvida falseado e mutilado, de um processo irrecupervel. Outra, que a histria do universo e nela nossas vidas e o mais tnue detalhe de nossas vidas a escrita que produz um deus subalterno para entender-se com um demnio. Outra, que o universo comparvel a essas criptografias nas quais no valem todos os smbolos e que s verdade o que acontece a cada trezentas noites. Outra, que enquanto dormimos aqui, estamos despertos em outro lado e que assim cada homem dois homens.

    Entre as doutrinas de Tln, nenhuma mereceu tanto escndalo como o materialismo. Alguns pensadores o formularam, com menos clareza que fervor, como quem antecipa um paradoxo. Para facilitar o entendimento dessa tese inconcebvel, um heresiarca do dcimo primeiro sculo3 ideou o sofisma das nove moedas de cobre, cujo renome escandaloso

  • equivale em Tln ao das aporias eleticas. Desse "raciocnio especioso" h muitas verses, variam o nmero de moedas e o nmero de achados; eis aqui a mais comum:

    "Tera-feira, X atravessa um caminho deserto e perde nove moedas de cobre. Quinta-feira, Y encontra no caminho quatro moedas, um pouco enferrujadas pela chuva de quarta-feira. Sexta-feira, Z descobre trs moedas no caminho. Sexta-feira de manh, X encontra duas moedas no corredor de sua casa." O heresiarca queria deduzir dessa histria a realidade id est, a continuidade das nove moedas recuperadas. " absurdo (afirmava) imaginar que quatro das moedas no existiram entre tera e quinta-feira, trs entre tera-feira e a tarde de sexta-feira, duas entre tera-feira e a madrugada de sexta-feira. lgico pensar que existiram ainda que de algum modo secreto, de compreenso vedada aos homens em todos os momentos desses trs prazos."

    A linguagem de Tln se opunha a formular esse paradoxo; os demais no o entenderam. Os defensores do sentido comum limitaram-se, no incio, a negar a veracidade do episdio. Repetiram que era uma falcia verbal, baseada no emprego temerrio de duas palavras neolgicas, no autorizadas pelo uso e alheias a todo pensamento severo: os verbos encontrar e perder, que comportam uma petio de princpio, porque pressupem a identidade das nove primeiras moedas e das ltimas. Recordaram que todo substantivo (homem, moeda, quinta-feira, quarta-feira, chuva) somente tem valor metafrico. Denunciaram a prfida circunstncia um pouco enferrujadas pela chuva de quarta feira, que pressupe o que se procura demonstrar: a persistncia das quatro moedas, entre quinta e tera-feira. Explicaram que uma coisa igualdade e outra, identidade e formularam uma espcie de reductio ad absurdum, ou seja, o caso hipottico de nove homens que em nove sucessivas noites padecem de uma viva dor. No seria ridculo perguntaram pretender que essa dor fosse a mesma?4 Disseram que ao heresiarca no o movia seno O blasfematrio propsito de atribuir a divina categoria de ser a umas simples moedas e que, s vezes, negava a pluralidade e outras, no. Argumentaram: se a igualdade abrangesse a identidade, seria necessrio admitir, do mesmo modo, que as nove moedas eram uma s.

    Inacreditavelmente, essas refutaes no resultaram definitivas. Cem anos depois de ser enunciado o problema, um pensador no menos brilhante que o heresiarca, mas de tradio ortodoxa, formulou uma hiptese muito audaz. Essa conjetura feliz afirma que h um nico sujeito, que esse sujeito indivisvel cada um dos seres do universo e que estes so os rgos e mscaras da divindade. X Y e Z. Z descobre trs moedas, porque se ______________________________________

    2 Russel (The Analysis of Mind, 1921, pgina 159) supe que o planeta foi criado h poucos minutos, provido de uma humanidade que "recorda" um passado ilusrio.

    3 Sculo, de acordo com o sistema duodecimal, significa um perodo de cento e quarenta e quatro anos.

    4 Hoje em dia, uma das igrejas de Tln sustenta, platonicamente, que tal dor, que tal matiz verdoso do amarelo, que tal temperatura, que tal som, so a nica realidade. Todos os homens, no vertiginoso instante do coito, so o mesmo homem. Todos os homens que repetem uma linha de Shakespeare so Wlliam Shakespeare.

  • lembra de que X as perdeu; X encontra duas no corredor, porque se lembra de que foram recuperadas as outras... O dcimo primeiro tomo deixa entender que trs razes capitais determinaram a vitria total desse pantesmo idealista. A primeira, o repdio do solipsismo; a segunda, a possibilidade de conservar a base psicolgica das cincias; a terceira, a possibilidade de conservar o culto aos deuses. Schopenhauer (o apaixonado e lcido Schopenhauer) formula uma doutrina muito semelhante no primeiro volume de Parerga und Paralipomena.

    A geometria de Tln compreende duas disciplinas um pouco diferentes: a visual e a ttil. A ltima corresponde nossa e a subordinam primeira. A base da geometria visual a superfcie, no o ponto. Essa geometria desconhece as paralelas e declara que o homem que se desloca modifica as formas que o circundam. A base de sua aritmtica a noo de nmeros indefinidos. Acentuam a importncia dos conceitos de maior e menor, que nossos matemticos simbolizam por > e por

  • primeiras escavaes), os discpulos exumaram ou produziram uma mscara de ouro, uma espada arcaica, duas ou trs nforas de barro e o limoso e mutilado torso de um rei com uma inscrio no peito que ainda no se conseguiu decifrar. Descobriu-se, assim, a improcedncia de testemunhas que conhecessem a natureza experimental da busca... As pesquisas em massa produzem objetos contraditrios; agora se preferem os trabalhos individuais e quase improvisados. A metdica elaborao de hrnir (diz o Dcimo Primeiro Tomo) prestou servios prodigiosos aos arquelogos. Permitiu examinar e at modificar o passado, que agora no menos plstico e menos dcil que o futuro. Fato curioso: os hrnir de segundo e de terceiro grau os hrnir derivados de outro hrn, os hrnir derivados do hrn de um hrn exageram as aberraes do inicial; os de quinto so quase uniformes; os de nono confundem-se com os de segundo; nos de dcimo primeiro, h uma pureza de linhas que os originais no tm. O processo peridico: o hrn de dcimo segundo grau j comea a decair. Mais estranho e mais puro que todo hrn , s vezes, o ur: a coisa produzida por sugesto, o objeto eduzido pela esperana. A grande mscara de ouro que mencionei um ilustre exemplo.

    As coisas duplicam-se em Tln; propendem simultaneamente a apagar-se e a perder os detalhes, quando as pessoas os esquecem. E clssico o exemplo de um umbral que perdurou enquanto o visitava um mendigo e que se perdeu de vista com sua morte. s vezes, alguns pssaros, um cavalo, salvaram as runas de um anfiteatro.

    Salto Oriental, 194O.

    Ps-escrito de 1947. Reproduzo o artigo anterior tal como apareceu na Antologia de la Literatura Fantstica, 194O, sem outro corte seno o de algumas metforas e de uma espcie de resumo zombeteiro que agora se tornou frvolo. Ocorreram tantas coisas desde essa data... Limitar-me-ei a record-las.

    Em maro de 1941, descobriu-se uma carta manuscrita de Gunnar Erfjord num livro de Hinton que fora de Herbert Ashe. O envelope tinha o carimbo postal de Ouro Preto; a carta elucidava completamente o mistrio de Tln. Seu texto corrobora as hipteses de Martnez Estrada. Em princpios do sculo XVII, numa noite de Lucerna ou de Londres, comeou a esplndida histria. Uma sociedade secreta e benvola (que entre seus afiliados teve Dalgarno e depois George Berkeley) surgiu para inventar um pas. No vago programa inicial figuravam os "estudos hermticos", a filantropia e a cabala. Dessa primeira poca data o curioso livro de Andre. Ao fim de alguns anos de concilibulos e de snteses prematuras, compreenderam que uma gerao no bastava para articular um pas. Resolveram que cada um dos mestres que a integravam escolhesse um discpulo para a continuao da obra. Essa disposio hereditria prevaleceu; depois de um hiato de dois sculos, a perseguida fraternidade ressurge na Amrica. Por volta de 1824, em Memphis (Tennessee), um dos afiliados conversa com o asctico milionrio Ezra Buckley. Este o deixa falar com certo desdm e ri da modstia do projeto. Diz-lhe que na Amrica absurdo inventar um pas e prope-lhe a inveno de um planeta. A essa gigantesca idia acrescenta outra, filha de seu niilismos: 5 a de manter em sigilo o enorme empreendimento.

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    5 Buckley era livre-pensador, fatalista e defensor da escravido.

  • Circulavam, ento, os vinte tomos da Encyclopaedia Britannica; Buckley sugere uma enciclopdia metdica do planeta ilusrio. Deixar-lhes- suas cordilheiras aurferas, seus rios navegveis, suas pradarias pisadas pelo touro e pelo biso, seus negros, seus prostbulos e seus dlares, sob uma condio: "A obra no pactuar com o impostor Jesus Cristo". Buckley descr de Deus, mas quer demonstrar ao Deus no existente que os homens mortais so capazes de conceber um mundo. Buckley envenenado em Baton Rouge, em 1828; em 1914 a sociedade remete a seus colaboradores, que so trezentos, o volume final da Primeira Enciclopdia de Tln. A edio secreta: os quarenta volumes que compreende (a obra mais vasta que empreenderam os homens) seriam a base de outra mais minuciosa, no mais redigida em ingls, mas em algumas das lnguas de Tln. Essa reviso de um mundo ilusrio se denomina provisoriamente Orbis Tertius e um de seus modestos demiurgos foi Herbert Ashe, no sei se como agente de Gunnar Erfjord ou como afiliado. O fato de ter recebido um exemplar do Dcimo Primeiro Tomo parece favorecer a segunda hiptese. Mas, e os outros? Por volta de 1942, recrudesceram os fatos. Lembro-me com singular nitidez de um dos primeiros e me parece que vislumbrei algo de seu carter premonitrio. Ocorreu num apartamento da rua Laprida, diante de uma clara e alta sacada, voltada para o ocaso. A princesa de Faucigny Lucinge recebera de Poitiers sua baixela de prata. Do vasto interior de um caixote rubricado de carimbos internacionais, iam saindo finas coisas imveis: prataria de Utrecht e de Paris com dura fauna herldica, um samovar. Entre elas com perceptvel e tnue tremor de pssaro adormecido latejava misteriosamente uma bssola. A princesa no a reconheceu. A agulha azul indicava o norte magntico; a caixa de metal era cncava; as letras da esfera correspondiam a um dos alfabetos de Tln. Tal foi a primeira intruso do mundo fantstico no mundo real. Um acaso que me inquieta fez com que eu tambm fosse testemunha da segunda. Ocorreu uns meses depois, no armazm de um brasileiro, na Cuchilla Negra. Amorim e eu regressvamos de SantAnna. Uma enchente do rio Tacuaremb nos obrigou a provar (e a suportar) essa rudimentar hospitalidade. O dono do armazm acomodou-nos em catres rangestes num quarto amplo, abarrotado de barris e couros. Deitamo-nos, mas no nos deixou dormir at o amanhecer a bebedeira de um vizinho invisvel, que alternava injrias inextricveis com rajadas de milongas melhor, com rajadas de uma nica milonga. Como de supor, atribumos fogosa cachaa do proprietrio essa gritaria insistente... De madrugada, o homem estava morto no corredor. A aspereza da voz nos enganara: era um rapaz jovem. Durante o delrio caram-lhe do cinturo algumas moedas e um cone de metal reluzente, do dimetro de um dado. Em vo um menino tentou pegar esse cone. Apenas um homem mal conseguiu levant-lo. Eu o tive na palma da mo por alguns minutos: lembro-me de que seu peso era intolervel e que, depois de retirado o cone, a opresso perdurou. Tambm me lembro do crculo preciso que me gravou na carne. Essa evidncia de um objeto muito pequeno e, ao mesmo tempo, pesadssimo deixava uma impresso desagradvel de asco e de medo. Um lavrador props que o jogassem na correnteza do rio: Amorim o adquiriu por alguns pesos. Ningum sabia nada sobre o morto, exceto "que vinha da fronteira". Esses cones pequenos e muito pesados (feitos de um metal que no deste mundo) so imagem da divindade, em certas religies de Tln.

    Aqui termino a parte pessoal de minha narrativa. O restante est na memria (quando no na esperana ou no temor) de todos os meus leitores. Basta-me recordar ou mencionar os fatos subseqentes, com mera brevidade de palavras que a cncava lembrana geral enriquecer ou ampliar. Por volta de 1944, um pesquisador do jornal The

  • American (de Nashville, Tennessee) exumou numa biblioteca de Memphis os quarenta volumes da Primeira Enciclopdia de Tln. At o dia de hoje se discute se essa descoberta foi casual ou se a consentiram os diretores do ainda nebuloso Orbis Tertius. verossmil a segunda hiptese. Alguns traos inacreditveis do Dcimo Primeiro Tomo (verbi grada, a multiplicao dos hrnir) foram eliminados ou atenuados no exemplar de Memphis; razovel imaginar que essas rasuras obedecem ao plano de exibir um mundo que no seja demasiadamente incompatvel com o mundo real. A disseminao de objetos de Tln em diversos pases complementaria esse plano...6 O fato que a imprensa internacional divulgou infinitamente o "achado". Manuais, antologias, resumos, verses literais, reimpresses autorizadas e reimpresses pirticas da Obra Maior dos Homens abarrotaram e continuam abarrotando a terra. Quase imediatamente, a realidade cedeu em mais de um ponto. O certo que desejava ceder. H dez anos, bastava qualquer simetria com aparncia de ordem o materialismo dialtico, o anti-semitismo, o nazismo para encantar os homens. Como no se submeter a Tln, minuciosa e vasta evidncia de um planeta ordenado? Intil responder que a realidade tambm est ordenada. Quem sabe o esteja, mas conforme leis divinas traduzo: leis desumanas que nunca percebemos completamente. Tln ser um labirinto, mas um labirinto urdido por homens, um labirinto destinado a ser decifrado pelos homens.

    O contato e o hbito de Tln desintegraram este mundo. Encantada por seu rigor, a humanidade esquece e torna a esquecer que um rigor de enxadristas, no de anjos. J penetrou nas escolas o (conjetural) "idioma primitivo" de Tln; j o ensino de sua histria harmoniosa (e cheia de episdios comovedores) obliterou o que presidiu minha infncia; j nas memrias um passado fictcio ocupa o lugar de outro, do qual nada sabemos com certeza nem, ao menos, que falso. Foram reformadas a numismtica, a farmacologia e a arqueologia. Entendo que a biologia e a matemtica aguardam tambm seu avatar... Uma dispersa dinastia de solitrios mudou a face do mundo. Sua tarefa prossegue. Se nossas previses no errarem, daqui a cem anos algum descobrir os cem tomos da Segunda Enciclopdia de Tln.

    Com isso, desaparecero do planeta o ingls e o francs e o simples espanhol. O mundo ser Tln. No me importo, continuo revisando, nos plcidos dias do hotel de Adrogu, uma indecisa traduo quevediana (que no tenciono publicar) do Urn Burial, de Browne.

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    6 Permanece, naturalmente, o problema da matria de alguns objetos.

  • PIERRE MENARD, AUTOR DO QUIXOTE

    A Silvina Ocampo

    A obra visvel que deixou este romancista de fcil e breve enumerao. So, portanto, imperdoveis as omisses e adies perpetradas por Madame Henri Bachelier num catlogo falaz que certo jornal, cuja tendncia protestante no segredo, teve a desconsiderao de infligir a seus deplorveis leitores embora estes sejam poucos e calvinistas, quando no maons e circuncisos. Os amigos autnticos de Menard viram com alarme esse catlogo e ainda com certa tristeza. Dir-se-ia que ontem nos reunimos diante do mrmore final e entre os ciprestes infaustos e j o Erro trata de empanar sua Memria... Decididamente, uma breve retificao inevitvel.

    Consta-me que muito fcil refutar minha pobre autoridade. Espero, no entanto, que no me probam de mencionar dois valiosos testemunhos. A baronesa de Bacourt (em cujos vendredis inesquecveis tive a honra de conhecer o pranteado poeta) houve por bem aprovar as linhas que seguem. A condessa de Bagnoregio, um dos espritos mais finos do principado de Mnaco (e agora de Pittsburg, Pensilvnia, depois de suas recentes bodas com o filantropo internacional Simn Kautzsch, to caluniado ai! pelas vtimas de suas desinteressadas manobras), sacrificou " veracidade e morte" (tais so suas palavras) a senhoril reserva que a distingue e, numa carta aberta publicada na revista Luxe, concede-me tambm seu beneplcito. Esses ttulos, creio, no so insuficientes.

    Disse que a obra visvel de Menard facilmente enumervel. Examinando com esmero seu arquivo particular, verifiquei que se constitui dos seguintes trabalhos:

    a) Um soneto simbolista que apareceu duas vezes (com variantes) na revista La Conque (nmeros de maro e outubro de 1899).

    b) Uma monografia sobre a possibilidade de construir um vocabulrio potico de conceitos que no fossem sinnimos ou perfrases dos que formam a linguagem comum, "mas objetos ideais criados por uma conveno e essencialmente destinados s necessidades poticas" (Nimes, 19O1).

    c) Uma monografia sobre "certas conexes ou afinidades" do pensamento de Descartes, de Leibniz e de John Wilkins (Nimes, 19O3).

    d) Uma monografia sobre a Characteristica Universalis de Leibniz (Nimes, 19O4).

    e) Um artigo tcnico sobre a possibilidade de enriquecer o xadrez eliminando um dos pees de torre. Menard prope, recomenda, polemiza e acaba por rejeitar essa inovao.

    f )Uma monografia sobre a Ars Magna Generalis de Ramn Llull (Nimes, 19O6).

  • g) Uma traduo com prlogo e notas do Livro da Inveno Liberal e Arte do Jogo de Xadrez de Ruy Lpez de Segura (Paris,1907.)

    h) Os rascunhos de uma monografia sobre a lgica simblica de George Boole.

    i) Um exame das leis mtricas essenciais da prosa francesa, ilustrado com exemplos de Saint-Simon (Revue des Langues Romanes, Montpellier, outubro de 19O9).

    j) Uma rplica a Luc Durtain (que negara a existncia de tais leis) ilustrada com exemplos de Luc Durtain (Revue des Langues Romanes, Montpellier, dezembro de 19O9).

    k) Uma traduo manuscrita da Aguja de Navegar Cultos, de Quevedo, intitulada La Boussole des Prcieux.

    l) Um prefcio ao catlogo da exposio de litografias de Carolus Hourcade (Nimes, 1914).

    m) A obra Les Problmes dun Problme (Paris, 1917) que discute em ordem cronolgica as solues do ilustre problema de Aquiles e a tartaruga. Duas edies desse livro apareceram at agora; a segunda traz como epgrafe o conselho de Leibniz "Ne craignez point, monsieur, la tortue", e renova os captulos dedicados a Russell e a Descartes.

    n) Uma obstinada anlise dos "usos sintticos" de Toulet (N. R. F.., maro de 1921). Menard lembro-me declarava que censurar e louvar so operaes sentimentais que nada tm a ver com a crtica.

    o) Uma transposio em alexandrinos do Cimetire marin de Paul Valry (N. R. F., Janeiro de 1928).

    p) Uma invectiva contra Paul Valry, nas Folhas para a supresso da realidade de Jacques Reboul. (Esta invectiva, diga-se entre parntesis, o reverso exato da sua verdadeira opinio sobre Valry. Este assim o entendeu e a amizade antiga entre os dois no correu perigo.)

    q) Uma definio" da condessa de Bagnoregio, no "vitorioso volume" a locuo de outro colaborador, Gabriele d'Annunzio que anualmente publica esta dama para retificar os inevitveis falseamentos do jornalismo e apresentar ao mundo e Itlia" uma autntica imagem da sua pessoa, to exposta (pela prpria razo da sua beleza e da sua atuao) a interpretaes errneas ou apressadas.

    r) Um ciclo de admirveis sonetos para a baronesa de Bacourt (1934).

    s) Uma lista manuscrita de versos que devem sua eficcia pontuao.1

  • At aqui (sem outra omisso que alguns vagos sonetos circunstanciais para o hospitaleiro, ou vido, lbum de Madame Henri Bachelier) a obra visvel de Menard, em sua ordem cronolgica. Passo agora outra: a subterrnea, a interminavelmente herica, a mpar. Tambm ai das possibilidades do homem! a inconclusa. Essa obra, talvez a mais significativa de nosso tempo, compe-se dos captulos nono e trigsimo oitavo da primeira parte do Dom Quixote e de um fragmento do captulo vinte e dois. Sei que tal afirmao parece disparate; justificar esse "disparate" o objeto primordial desta nota.2

    Dois textos de valor desigual inspiraram a idia. Um aquele fragmento filolgico de Novalis o que leva o nmero 2OO5 na edio de Dresden que esboa o tema da total identificao com um autor determinado. Outro um desses livros parasitrios que situam Cristo num bulevar, Hamlet na Cannebire ou Dom Quixote em Wall Street. Como todo homem de bom gosto, Menard abominava esses carnavais inteis, somente aptos dizia para produzir o plebeu prazer do anacronismo ou (o que pior) para atrair-nos com a idia primria de que todas as pocas so iguais ou de que so diferentes. Mais interessante, embora de execuo contraditria e superficial, parecia-lhe o famoso propsito de Daudet: conjugar em uma figura, que Tartarim, o Engenhoso Fidalgo e seu escudeiro... Aqueles que insinuaram que Menard dedicou sua vida a escrever um Quixote contemporneo caluniam sua lmpida memria.

    No queria compor outro Quixote o que fcil mas o Quixote. Intil acrescentar que nunca enfrentou uma transcrio mecnica do original; no se propunha copi-lo. Sua admirvel ambio era produzir algumas pginas que coincidissem palavra por palavra e linha por linha com as de Miguel de Cervantes.

    "Meu propsito simplesmente assombroso", escreveu-me em 3O de setembro de 1934, de Bayonne. "O termo final de uma demonstrao teolgica ou metafsica o mundo externo, Deus, a causalidade, as formas universais no menos anterior e comum que meu divulgado romance. A nica diferena que os filsofos publicam em agradveis volumes as etapas intermedirias de seu trabalho e eu resolvi perd-las." De fato, no resta um nico rascunho que ateste esse trabalho de anos.

    O mtodo inicial que imaginou era relativamente simples. Conhecer bem o espanhol, recuperar a f catlica, guerrear contra os mouros ou contra o turco, esquecer a histria da Europa entre os anos de 16O2 e de 1918, ser Miguel de Cervantes. Pierre

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    1 Madame Henri Bachelier enumera tambm uma verso literal da verso literal que fez Quevedo da Introduction la Vie Dvote de So Francisco de Sales. Na biblioteca de Pierre Menard no h vestgios de tal obra. Deve tratar-se de uma brincadeira de nosso amigo, mal-ouvida.

    2 Tive tambm o propsito secundrio de esboar a imagem de Pierre Menard. Mas, como atrever-me a competir com as pginas ureas que, dizem-me, prepara a baronesa de Bacourt ou com o lpis delicado e pontual de Carolus Hourcade?

  • Menard estudou esse procedimento (sei que conseguiu um manejo bastante fiel do espanhol do sculo XVII), mas o afastou por consider-lo fcil. Na realidade, impossvel! dir o leitor. De acordo, porm o projeto era de antemo impossvel e de todos os meios impossveis para lev-la a cabo, este era o menos interessante. Ser no sculo XX um romancista popular do sculo XVII pareceu-lhe uma diminuio. Ser, de alguma maneira, Cervantes e chegar ao Quixote pareceu-lhe menos rduo por conseguinte, menos interessante que continuar sendo Pierre Menard e chegar ao Quixote mediante as experincias de Pierre Menard. (Essa convico, diga-se de passagem, o fez excluir o prlogo autobiogrfico da segunda parte do Dom Quixote. Incluir esse prlogo teria sido criar outro personagem Cervantes mas tambm teria significado apresentar o Quixote em funo desse personagem e no de Menard. Este, naturalmente, negou-se a essa concesso.) "Meu projeto no essencialmente difcil", leio em outro lugar da carta. "Bastar-me-ia ser imortal para realiz-la." Confessarei que costumo imaginar que a concluiu e que leio o Quixote todo o Quixote como se o tivesse pensado Menard? Noites atrs, ao folhear o captulo XXVI nunca por ele esboado reconheci o estilo de nosso amigo e como que sua voz nesta frase excepcional: "as ninfas dos rios, a dolorosa e mida Eco". Essa conjuno eficaz de um adjetivo moral e outro fsico trouxe-me lembrana um verso de Shakespeare, que discutimos uma tarde:

    Where a malignant and a turbaned Turk...

    Por que precisamente o Quixote? dir nosso leitor. Essa preferncia, num espanhol, no seria inexplicvel; mas o , sem dvida, num simbolista de Nimes, essencialmente devoto de Poe, que gerou Baudelaire, que gerou Mallarm, que gerou Valry, que gerou Edmond Teste. A carta acima mencionada elucida a questo. "O Quixote", esclarece Menard, "interessa-me profundamente, mas no me parece como direi? inevitvel. No posso imaginar o universo sem a interjeio de Poe:

    Ah, bear in mind this garden was enchanted!

    ou sem o Bateau Ivre ou o Ancient Mariner, sei-me contudo capaz de imagin-lo sem o Quixote. (Falo, naturalmente, de minha capacidade pessoal, no da ressonncia histrica das obras.) O Quixote um livro contingente, o Quixote desnecessrio. Posso premeditar sua escrita, posso escrev-lo, sem incorrer numa tautologia. Aos doze ou treze anos o li, talvez integralmente. Depois reli com ateno alguns captulos, aqueles que no tentarei por ora. Freqentei tambm os entremezes, as comdias, a Galatia, os romances exemplares, os trabalhos sem dvida laboriosos de Pergiles e Sigismunda a Viagem do Parnaso... Minha lembrana geral do Quixote, simplificada pelo esquecimento e pela indiferena, pode muito bem eqivaler imprecisa imagem anterior de um livro no escrito. Postulada essa imagem (que ningum por direito me pode negar) indiscutvel que meu problema bastante mais difcil que o de Cervantes. Meu complacente precursor no recusou a colaborao do acaso: ia compondo a obra imortal um pouco la diable, levado por inrcias da linguagem da inveno. Contra o misterioso dever de reconstruir literalmente sua obra espontnea. Meu solitrio jogo est governado por duas leis polares. A primeira permite-me ensaiar variantes de tipo formal ou psicolgico; a segunda obriga-me a sacrific-las ao texto "original" e a raciocinar de modo irrefutvel sobre essa aniquilao... A esses obstculos artificiais convm somar outro, congnito. Compor o

  • Quixote em princpios do sculo XVII era um empreendimento razovel, necessrio, quem sabe fatal; em princpios do XX, quase impossvel. No transcorreram em vo trezentos anos, carregados de complexssimos fatos. Entre eles, para mencionar um apenas: o prprio Quixote."

    Apesar desses trs obstculos, o fragmentrio Quixote de Menard mais sutil que o de Cervantes. Este, de modo grosseiro, ope s fices cavaleirescas a pobre realidade provinciana de seu pas; Menard elege como "realidade" a terra de Carmen durante o sculo de Lepanto e de Lope. Que espanholadas no teria sugerido essa escolha a Maurice Barrs ou ao doutor Rodrguez Larreta! Menard, com toda naturalidade, evita-as. Em sua obra no h ciganices, nem conquistadores, nem msticos, nem Filipe Segundo, nem autos-de-f. Desatende ou proscreve a cor local. Esse desdm revela um sentido novo do romance histrico. Esse desdm condena Salammb inapelavelmente.

    No menos assombroso considerar captulos isolados. Por exemplo, examinemos o XXXVIII da primeira parte, "que trata do curioso discurso que fez Dom Quixote sobre as armas e as letras". sabido que Dom Quixote (como Quevedo na passagem anloga, e posterior, de A Hora de Todos) julga o pleito contra as letras e a favor das armas. Cervantes era um velho militar: sua deciso se explica. Mas que o Dom Quixote de Pierre Menard homem contemporneo de La Trahison des Clercs e de Bertrand Russell reincida nessas nebulosas sofistarias! Madame Bachelier viu nelas admirvel e tpica subordinao do autor psicologia do heri; outros (nada perspicazmente) uma transcrio do Quixote; a baronesa de Bacourt, a influncia de Nietzsche. A essa terceira interpretao (que acho irrefutvel) no sei se me atreverei a adicionar uma quarta, que condiz muito bem com a quase divina modstia de Pierre Menard: seu hbito resignado ou irnico de propagar idias que eram o estrito reverso das preferidas por ele. (Rememoremos outra vez sua diatribe contra Paul Valry na efmera pgina surrealista de jacques Reboul.) O texto de Cervantes e o de Menard so verbalmente idnticos, mas o segundo quase infinitamente mais rico. (Mais ambguo, diro seus detratores; mas a ambigidade uma riqueza.)

    Constitui uma revelao cotejar o Dom Quixote de Menard com o de Cervantes. Este, por exemplo, escreveu (Dom Quixote, primeira parte, nono captulo):

    ...a verdade, cuja me a histria, mula do tempo, depsito das aes, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertncia do futuro.

    Redigida no sculo XVII, redigida pelo "engenho leigo" Cervantes, essa enumerao mero elogio retrico da histria. Menard, em compensao, escreve:

    ...a verdade, cuja me a histria, mula do tempo, depsito das aes, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertncia do futuro.

    A histria, me da verdade; a idia assombrosa. Menard, contemporneo de William James, no define a histria como indagao da realidade, mas como sua origem. A verdade histrica, para ele, no o que aconteceu; o que julgamos que aconteceu. As

  • clusulas finais exemplo e aviso do presente, advertncia do futuro so descaradamente pragmticas.

    Tambm vvido o contraste dos estilos. O estilo arcaizante de Menard no fundo estrangeiro padece de alguma afetao. No assim o do precursor, que emprega com desenvoltura o espanhol corrente de sua poca.

    No h exerccio intelectual que no resulte ao fim intil. Uma doutrina filosfica no incio uma descrio verossmil do universo; passam os anos e um simples captulo quando no um pargrafo ou um nome da histria da filosofia. Na literatura, essa caducidade final ainda mais evidente. O Quixote disse-me Menard foi antes de tudo um livro agradvel; agora uma ocasio de brindes patriticos, de soberba gramatical, de obscenas edies de luxo. A glria uma incompreenso e talvez a pior.

    Nada tm de novo essas comprovaes niilistas; o singular a deciso que delas derivou Pierre Menard. Resolveu adiantar-se vaidade que aguarda todas as fadigas do homem; empreendeu uma tarefa complexssima e de antemo ftil. Dedicou seus escrpulos e viglias a repetir num idioma alheio um livro preexistente. Multiplicou os rascunhos; corrigiu tenazmente e rasgou milhares de pginas manuscritas.3 No permitiu que fossem examinadas por ningum e cuidou que no lhe sobrevivessem. Em vo, procurei reconstru-las.

    Refleti que lcito ver no Quixote "final" uma espcie de palimpsesto, no qual devem transluzir-se os rastos tnues, mas no indecifrveis da "prvia" escrita de nosso amigo. Infelizmente, apenas um segundo Pierre Menard, invertendo o trabalho do anterior, poderia exumar e ressuscitar essas Trias...

    "Pensar, analisar, inventar" (escreveu-me tambm) "no so atos anmalos, so a normal respirao da inteligncia. Glorificar o ocasional cumprimento dessa funo, entesourar antigos e alheios pensamentos, recordar com incrdulo estupor o que o doctor universalis pensou, confessar nossa languidez ou nossa barbrie. Todo homem deve ser capaz de todas as idias e suponho que no futuro o ser."

    Menard (talvez sem quer-lo) enriqueceu, mediante uma tcnica nova, a arte fixa e rudimentar da leitura: a tcnica do anacronismo deliberado e das atribuies errneas. Essa tcnica de aplicao infinita nos leva a percorrer a Odissia como se fosse posterior Eneida e o livro Le Jardin du Centaure de Madame Henri Bachelier como se fosse de Madame Henri Bachelier. Essa tcnica povoa de aventura os livros mais pacficos. Atribuir a Louis Ferdinand Cline ou a James Joyce a Imitao de Cristo no suficiente renovao dessas tnues advertncias espirituais?

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    3 Recordo seus cadernos quadriculados; suas negras rasuras, seus peculiares smbolos tipogrficos e sua letra de inseto. Nos entardeceres gostava de caminhar pelos arrabaldes de Nimes; costumava levar consigo um caderno e fazer uma alegre fogueira.

    Nimes,1939.

  • AS RUNAS CIRCULARES

    And if he left off dreaming about you... Through the Looking-Glass, VI.

    Ningum o viu desembarcar na unnime noite, ningum viu a canoa de bambu sumindo-se no lodo sagrado, mas em poucos dias ningum ignorava que o homem taciturno vinha do Sul e que sua ptria era uma das infinitas aldeias que esto guas acima, no flanco violento da montanha, onde o idioma zenda no est contaminado de grego e onde infreqente a lepra. O certo que o homem cinza beijou o lodo, subiu as encostas da margem sem afastar (provavelmente, sem sentir) os arbustos cortantes que lhe dilaceravam as carnes e se arrastou, aturdido e ensangentado, at o recinto circular que coroa um tigre ou cavalo de pedra, que teve certa vez a cor do fogo e agora a da cinza. Essa arena um templo que os devoraram incndios antigos, que a selva paldica profanou e cujo deus no recebe honra dos homens. O forasteiro estendeu-se sob o pedestal. Despertou-o o sol alto. Comprovou sem assombro que as feridas tinham cicatrizado; fechou os olhos plidos e dormiu, no por fraqueza da carne, mas por determinao da vontade. Sabia que esse templo era o lugar que requeria seu invencvel propsito; sabia que as rvores incessantes no tinham conseguido estrangular, rio abaixo, as runas de outro templo propcio, tambm de deuses incendiados e mortos; sabia que sua imediata obrigao era o sonho. Por volta da meia-noite, despertou-o o grito inconsolvel de um pssaro. Rastros de ps descalos, alguns figos e um cntaro advertiram-no de que os homens da regio haviam espiado com respeito seu sono e solicitavam seu amparo ou temiam sua magia. Sentiu o frio do medo e procurou na muralha dilapidada um nicho sepulcral e se cobriu com folhas desconhecidas.

    O propsito que o guiava no era impossvel, ainda que sobrenatural. Queria sonhar um homem: queria sonh-lo com integridade minuciosa e imp-lo realidade. Esse projeto mgico esgotara o espao inteiro de sua alma; se algum lhe tivesse perguntado o prprio nome ou qualquer aspecto de sua vida anterior, no teria acertado na resposta. Convinha-lhe o templo inabitado e despedaado, porque era um mnimo de mundo visvel; a proximidade dos lenhadores tambm, porque estes se encarregavam de suprir suas necessidades frugais. O arroz e as frutas de seu tributo eram pbulo suficiente para seu corpo, consagrado nica tarefa de dormir e sonhar.

    No comeo, os sonhos eram caticos; pouco depois, foram de natureza dialtica. O forasteiro sonhava-se no centro de um anfiteatro circular que era de certo modo o templo incendiado: nuvens de alunos taciturnos esgotavam os degraus; os rostos dos ltimos pendiam a muitos sculos de distncia e a uma altura estelar, mas eram absolutamente precisos. O homem ditava-lhes lies de anatomia, de cosmografia, de magia: as fisionomias escutavam com ansiedade e tentavam responder com entendimento, como se adivinhassem a importncia daquele exame, que redimiria um deles de sua condio de v aparncia e o interpolaria no mundo real. O homem, no sonho e na viglia, considerava as respostas de seus fantasmas, no se deixava iludir pelos impostores, adivinhava em certas

  • perplexidades uma inteligncia crescente. Procurava uma alma que merecesse participar do universo.

    Depois de nove ou dez noites, compreendeu, com alguma amargura, que no podia esperar nada daqueles alunos que aceitavam passivamente sua doutrina e sim daqueles que arriscavam, s vezes, uma contradio razovel. Os primeiros, embora dignos de amor e afeio, no podiam ascender a indivduos; os ltimos preexistiam um pouco mais. Uma tarde (agora tambm as tardes eram tributrias do sonho, agora velava apenas algumas horas no amanhecer) diplomou para sempre o vasto colgio ilusrio e ficou com um nico aluno. Era um rapaz taciturno, citrino, indcil s vezes, de feies afiladas que repetiam as de seu sonhador. No o desconcertou por muito tempo a repentina eliminao dos condiscpulos; seu progresso, ao fim de poucas lies particulares, pde maravilhar o mestre. No obstante, a catstrofe sobreveio. O homem, um dia, emergiu do sonho como de um deserto viscoso, olhou a v luz da tarde que, primeira vista, confundiu com a aurora e compreendeu que no sonhara. Toda essa noite e todo o dia, a intolervel lucidez da insnia se abateu contra ele. Quis explorar a selva, extenuar-se; somente entre a cicuta conseguiu algumas rajadas de sonho dbil, venuladas fugazmente de vises de tipo rudimentar: inaproveitveis. Quis congregar o colgio e apenas havia articulado algumas breves palavras de exortao, este se deformou, se apagou. Na quase perptua viglia, lgrimas de ira queimavam-lhe os velhos olhos.

    Compreendeu que o empenho de modelar a matria incoerente e vertiginosa de que se compem os sonhos o mais rduo que pode empreender um varo, ainda que penetre em todos os enigmas da ordem superior e da inferior: muito mais rduo que tecer uma corda de areia ou amoedar o vento sem rosto. Compreendeu que um fracasso inicial era inevitvel. Jurou esquecer a enorme alucinao que o desviara no comeo e procurou outro mtodo de trabalho. Antes de exercit-lo, dedicou um ms reposio das foras que o delrio havia desperdiado. Abandonou toda premeditao de sonhar e quase imediatamente conseguiu dormir uma parte razovel do dia. As raras vezes que sonhou, durante esse perodo, no reparou nos sonhos. Para retomar a tarefa, esperou que o disco da lua fosse perfeito. Depois, tarde, purificou-se nas guas do rio, adorou os deuses planetrios, pronunciou as slabas lcitas de um nome poderoso e dormiu. Quase de imediato, sonhou com um corao que pulsava.

    Sonhou-o ativo, caloroso, secreto, do tamanho de um punho fechado, cor gren na penumbra de um corpo humano, ainda sem rosto ou sexo; com minucioso amor sonhou-o, durante catorze lcidas noites. Cada noite, percebia-o com maior evidncia. No o tocava: limitava-se a testemunh-lo, observ-lo, talvez corrigi-lo com o olhar. Percebia-o, vivia-o, de muitas distncias e muitos ngulos. Na dcima quarta noite, roou a artria pulmonar com o indicador e depois todo o corao, por fora e por dentro. O exame o satisfez. Deliberadamente no sonhou durante uma noite: depois retomou o corao, invocou o nome de um planeta e empreendeu a viso de outro dos rgos principais. Antes de um ano chegou ao esqueleto, s plpebras. O cabelo inumervel foi talvez a tarefa mais difcil. Sonhou um homem inteiro, um moo, mas este no se incorporava nem falava, nem podia abrir os olhos. Noite aps noite, o homem sonhava-o adormecido.

  • Nas cosmogonias gnsticas, os demiurgos amassam um vermelho Ado que no consegue pr-se de p; to inbil e rude e elementar como esse Ado de p era o Ado de sonho que as noites do mago tinham fabricado. Uma tarde, o homem quase destruiu toda a sua obra, mas se arrependeu. (Mais lhe teria valido destru-la.) Esgotados os votos aos numes da terra e do rio, arrojou-se aos ps da efgie que talvez fosse um tigre e talvez um potro, e implorou seu desconhecido socorro. Nesse crepsculo, sonhou com a esttua. Sonhou-a viva, trmula: no era um atroz bastardo de tigre e potro, mas simultaneamente essas duas criaturas veementes e tambm um touro, uma rosa, uma tempestade. Esse mltiplo deus revelou-lhe que seu nome terrenal era Fogo, que nesse templo circular (e em outros iguais) rendiam-lhe sacrifcios e culto e que magicamente animaria o fantasma sonhado, de tal sorte que todas as criaturas, exceto o prprio Fogo e o sonhador, julgassem-no um homem de carne e osso. Ordenou-lhe que uma vez instrudo nos ritos, remetesse-o ao outro templo despedaado, cujas pirmides persistem guas abaixo, para que alguma voz o glorificasse naquele edifcio deserto. No sonho do homem que sonhava, o sonhado despertou.

    O mago executou essas ordens. Consagrou um prazo (que finalmente abrangeu dois anos) para descobrir-lhe os arcanos do universo e do culto do fogo. Intimamente, doa-lhe separar-se dele. Com o pretexto da necessidade pedaggica, dilatava a cada dia as horas dedicadas ao sonho. Tambm refez o ombro direito, talvez deficiente. s vezes, inquietava-o uma impresso de que tudo isso havia acontecido... Em geral, seus dias eram felizes; ao fechar os olhos pensava: "Agora estarei com meu filho". Ou, mais raramente: "O filho que gerei me espera e no existir se eu no for".

    Gradualmente, foi acostumando-o realidade. Certa vez, ordenou-lhe que embandeirasse um cume longnquo. No outro dia, flamejava a bandeira no cume. Ensaiou outras experincias anlogas, cada vez mais audazes. Compreendeu com certa amargura que seu filho estava pronto para nascer e talvez impaciente. Nessa noite beijou-o pela primeira vez e enviou-o ao outro templo cujos despojos branqueavam rio abaixo, a muitas lguas de inextricvel selva e pntano. Antes (para que nunca soubesse que era um fantasma, para que se acreditasse um homem como os outros) infundiu-lhe o esquecimento total de seus anos de aprendizagem.

    Sua vitria e sua paz ficaram embaadas de fastio. Nos crepsculos da tarde e da alvorada, prostrava-se diante da figura de pedra, talvez imaginando que seu filho irreal executasse idnticos ritos, em outras runas circulares, guas abaixo; de noite, no sonhava, ou sonhava como o fazem todos os homens. Percebia com certa palidez os sons e formas do universo: o filho ausente se nutria dessas diminuies de sua alma. O propsito de sua vida fora atingido; o homem persistiu numa espcie de xtase. No fim de um tempo que certos narradores de sua histria preferem computar em anos e outros em lustros, despertaram-no dois remadores, meia-noite: no pde ver seus rostos, mas lhe falaram de um homem mgico, num templo do Norte, capaz de pisar o fogo e no queimar-se. O mago lembrou-se bruscamente das palavras do deus. Recordou que de todas as criaturas que compem o orbe, o fogo era a nica que sabia ser seu filho um fantasma. Essa lembrana, apaziguadora no princpio, acabou por atorment-lo. Temeu que seu filho meditasse nesse privilgio anormal e descobrisse de algum modo sua condio de mero simulacro. No ser um homem, ser a projeo do sonho de outro homem, que humilhao

  • incomparvel, que vertigem! A todo pai interessam os filhos que procriou (que permitiu) numa simples confuso ou felicidade; natural que o mago temesse pelo futuro daquele filho, pensado entranha por entranha e trao por trao, em Mil e Uma Noites secretas.

    O final de suas cavilaes foi brusco, mas o anunciaram alguns sinais. Primeiro (no trmino de uma longa seca) uma remota nuvem numa colina, leve como um pssaro; depois, para o Sul, o cu que tinha a cor rosada da gengiva dos leopardos; depois a fumaceira que enferrujou o metal das noites; depois a fuga pnica das bestas. Porque se repetiu o acontecido faz muitos sculos. As runas do santurio do deus do fogo foram destrudas pelo fogo. Numa alvorada sem pssaros, o mago viu cingir-se contra os muros o incndio concntrico. Por um instante, pensou refugiar-se nas guas, mas depois compreendeu que a morte vinha coroar sua velhice e absolv-lo de seus trabalhos. Caminhou contra as lnguas de fogo. Estas no morderam sua carne, estas o acariciaram e o inundaram sem calor e sem combusto. Com alvio, com humilhao, com terror, compreendeu que ele tambm era uma aparncia, que outro o estava sonhando.

  • A LOTERIA EM BABILNIA

    Como todos os homens de Babilnia, fui procnsul; como todos, escravo; tambm conhecia a onipotncia, o oprbrio, os crceres. Olhem: minha mo direita falta-lhe o indicador. Olhem: por este rasgo da capa v-se em meu estmago uma tatuagem vermelha: o segundo smbolo, Beth. Esta letra, nas noites de lua cheia, confere-me poder sobre os homens cuja marca Ghimel, mas me subordina aos de Aleph, que nas noites sem lua devem obedincia aos Ghimel. No crepsculo do amanhecer, num poro, degolei diante de uma pedra negra touros sagrados. Durante um ano da lua, fui declarado invisvel: gritava e no me respondiam, roubava o po e no me decapitavam. Conheci o que ignoram os gregos: a incerteza. Num aposento de bronze, diante do leno silencioso do estrangulador, a esperana me foi fiel; no rio dos deleites, o pnico. Heraclides Pntico narra com admirao que Pitgoras lembrava-se de ter sido Pirro e antes Euforbo e antes ainda algum outro mortal; para recordar vicissitudes anlogas no preciso recorrer morte, nem mesmo impostura.

    Devo essa variedade quase atroz a uma instituio que outras repblicas ignoram ou que nelas trabalha de modo imperfeito e secreto: a loteria. No indaguei sua histria; sei que os magos no conseguem chegar a um acordo; sei de seus poderosos propsitos o que pode saber da lua o homem no versado em astrologia. Sou de um pas vertiginoso onde a loteria parte principal da realidade: at o dia de hoje, pensei to pouco nela como na conduta dos deuses indecifrveis ou de meu corao. Agora, longe de Babilnia e de seus queridos costumes, penso com certo assombro na loteria e nas conjeturas blasfemas que no crepsculo murmuram os homens velados.

    Meu pai contava que antigamente questo de sculos, de anos? a loteria em Babilnia era um jogo de carter plebeu. Contava (ignoro se com verdade) que os barbeiros vendiam, por moedas de cobre, retngulos de osso ou de pergaminho adornados de smbolos. Em pleno dia verificava-se um sorteio: os contemplados recebiam, sem outra corroborao da sorte, moedas cunhadas de prata. O procedimento era elementar, como vem os senhores.

    Naturalmente, essas "loterias" fracassaram. Sua virtude moral era nula. No se dirigiam a todas as faculdades do homem: unicamente sua esperana. Diante da indiferena pblica, os mercadores que fundaram essas loterias venais comearam a perder dinheiro. Algum ensaiou uma reforma: a interpolao de uns poucos nmeros adversos no censo de nmeros favorveis. Mediante essa reforma, os compradores de retngulos numerados corriam o duplo risco de ganhar uma soma e de pagar uma multa, s vezes vultosa. Esse leve perigo (em cada trinta nmeros favorveis havia um nmero aziago) despertou, como natural, o interesse do pblico. Os babilnios entregaram-se ao jogo. O que no tentava a sorte era considerado um pusilnime, um apoucado. Com o tempo, esse desdm justificado duplicou-se. Era desprezado o que no jogava, mas tambm eram desprezados os perdedores que abonavam a multa. A Companhia (assim comeou ento a

  • ser chamada) teve que velar pelos ganhadores, que no podiam cobrar os prmios se faltasse nas caixas a importncia quase total das multas. Deu incio a uma demanda contra os perdedores: o juiz condenou-os a pagar a multa original e as custas ou a uns dias de priso. Todos optaram pelo crcere, para defraudar a Companhia. Dessa bravata de uns poucos nasce todo o poder da Companhia: seu valor eclesistico, metafsico.

    Pouco depois, os relatrios dos sorteios omitiram as enumeraes de multas e limitaram-se a publicar os dias de priso que designava cada nmero adverso. Esse laconismo, quase desapercebido em seu tempo, foi de importncia capital. Foi o primeiro aparecimento na loteria de elementos no pecunirios. O xito foi grande. Instada pelos jogadores, a Companhia viu-se obrigada a aumentar os nmeros adversos.

    Ningum ignora que o povo de Babilnia muito devotado lgica, e ainda simetria. Era incoerente que os nmeros de sorte se computassem em redondas moedas e os infausto sem dias e noites de crcere. Alguns moralistas raciocinaram que a posse de moedas nem sempre determina a felicidade e que outras formas de ventura so talvez mais diretas.

    Outra inquietao propagava-se nos bairros mais humildes. Os membros do colgio sacerdotal multiplicavam as apostas e gozavam de todas as vicissitudes do terror e da esperana; os pobres (com inveja razovel ou inevitvel) sabiam-se excludos desse vaivm, notoriamente delicioso. O justo desejo de que todos, pobres e ricos, participassem por igual da loteria inspirou uma indignada agitao, cuja memria no apagaram os anos. Alguns obstinados no compreenderam (ou simularam no compreender) que se tratava de uma ordem nova, de uma etapa histrica necessria... Um escravo roubou um bilhete carmesim, que no sorteio o fez credor a que lhe queimassem a lngua. O cdigo fixava essa mesma pena para quem roubasse um bilhete. Alguns babilnios argumentavam que merecia o ferro candente, em sua qualidade de ladro; outros, magnnimos, que se devia conden-lo ao carrasco porque assim o havia determinado o acaso... Houve distrbios, houve efuses lamentveis de sangue; mas a gente babilnica imps finalmente sua vontade, contra a oposio dos ricos. O povo conseguiu plenamente seus fins generosos. Em primeiro lugar, obteve que a Companhia aceitasse a soma do poder pblico. (Essa unificao era necessria, dada a vastido e complexidade das novas operaes.) Em segundo lugar, conseguiu que a loteria fosse secreta, gratuita e geral. Ficou abolida a venda mercenria de sortes. Iniciado nos mistrios de Bel, todo homem livre automaticamente participava dos sorteios sagrados, que se efetuavam nos labirintos do deus a cada sessenta noites e que determinavam seu destino at o prximo exerccio. As conseqncias eram incalculveis. Uma jogada feliz podia motivar-lhe a elevao ao conclio de magos ou a deteno de um inimigo (notrio ou ntimo) ou o encontrar, na pacfica treva do quarto, a mulher que comea a inquietar-nos ou que no espervamos rever; uma jogada adversa: a mutilao, a variada infmia, a morte. s vezes, um nico fato o grosseiro assassinato de C, a apoteose misteriosa de B era a soluo genial de trinta ou quarenta sorteios. Combinar as jogadas era difcil; mas convm lembrar que os indivduos da Companhia eram (e so) todo-poderosos e astutos. Em muitos casos, o conhecimento de que certas felicidades eram simples obra do acaso teria diminudo sua virtude; para evitar esse inconveniente, os agentes da Companhia usavam das sugestes e da magia. Seus passos, seus manejos, eram secretos. Para indagar as ntimas esperanas e

  • os ntimos terrores de cada um, dispunham de astrlogos e de espies. Havia certos lees de pedra, havia uma latrina sagrada chamada Qaphqa, havia algumas fendas no poeirento aqueduto que, segundo opinio geral, levavam Companhia; as pessoas malignas ou benvolas depositavam delaes nesses lugares. Um arquivo alfabtico recolhia essas informaes de varivel veracidade.

    Inacreditavelmente, no faltaram murmrios. A Companhia, com sua discrio habitual, no respondeu diretamente. Preferiu rabiscar nos escombros de uma fbrica de mscaras um argumento breve, que agora figura nas escrituras sagradas. Essa obra doutrinal observava que a loteria uma interpolao do acaso na ordem do mundo e que aceitar erros no contradizer o acaso: corrobor-lo. Observava, da mesma maneira, que esses lees e esse recipiente sagrado, ainda que no desautorizados pela Companhia (que no renunciava ao direito de consult-los), funcionavam sem garantia oficial.

    Essa declarao apaziguou as inquietaes pblicas. Tambm produziu outros efeitos, talvez no previstos pelo autor. Modificou profundamente o esprito e as operaes da Companhia. Pouco tempo me resta; avisam-nas de que a nave est por zarpar; mas tratarei de explic-lo.

    Por inverossmil que parea, ningum ensaiara at ento uma teoria geral dos jogos. O babilnio no especulativo. Acata os ditames do acaso, entrega-lhes sua vida, sua esperana, seu terror pnico, mas no lhe ocorre investigar suas leis labirnticas, nem as esferas giratrias que o revelam. No obstante, a declarao oficiosa que mencionei inspirou muitas discusses de carter jurdico-matemtico. De alguma delas nasceu a conjetura seguinte: Se a loteria uma intensificao do acaso, uma peridica infuso do caos no cosmos, no conviria que o acaso interviesse em todas as etapas do sorteio e no apenas em uma? No irrisrio que o acaso dite a morte de algum e que as circunstncias dessa morte a reserva, a publicidade, o prazo de uma hora ou de um sculo no estejam subordinadas ao acaso? Esses escrpulos to justos provocaram, por fim, uma considervel reforma, cujas complexidades (agravadas por um exerccio de sculos) s as entendem alguns especialistas, mas que tentarei resumir, embora de modo simblico.

    Imaginemos um primeiro sorteio, que decreta a morte de um homem. Para seu cumprimento procede-se a outro sorteio, que prope (digamos) nove executores possveis. Desses executores, quatro podem iniciar um terceiro sorteio que dir o nome do verdugo, dois podem substituir a ordem adversa por uma ordem feliz (o encontro de um tesouro, digamos), outro exacerbar a morte (isto , torn-la- infame ou a enriquecer de torturas), outros podem negar-se a cumpri-la... Tal o esquema simblico. Na realidade, o nmero de sorteios infinito. Nenhuma deciso final, todas se ramificam em outras. Os ignorantes supem que infinitos sorteios requerem um tempo infinito; na realidade, basta que o tempo seja infinitamente subdivisvel, como o ensina a famosa parbola do Certame com a tartaruga. Essa infinitude condiz de maneira admirvel com os sinuosos nmeros do Acaso e com o Arqutipo Celestial da Loteria, que adoram os platnicos... Algum eco disforme de nossos ritos parece ter retumbado no Timbre: Ello Lamprdio, na Vida de Antonino Heliogbalo, conta que esse imperador escrevia em conchas as sortes que destinava aos convidados, de maneira que um recebia dez libras de ouro e outro, dez

  • moscas, dez marmotas, dez ossos. lcito lembrar que Heliogbalo educou-se na sia Menor, entre os sacerdotes do deus epnimo.

    Tambm h sorteios impessoais, de propsito indefinido; um decreta que se lance s guas do Eufrates uma safira de Taprobana; outro, que do alto de uma torre se solte um pssaro; outro, que a cada sculo se retire (ou se acrescente) um gro de areia dos inumerveis que h na praia. As conseqncias so, s vezes, terrveis.

    Sob o influxo benfeitor da Companhia, nossos costumes esto saturados de acaso. O comprador de uma dzia de nforas de vinho damasceno no se assombrar se uma delas contiver um talism ou uma vbora; o escrivo que redige um contrato no deixa quase nunca de introduzir algum dado errneo; eu prprio, nesta apressada exposio, falseei certo esplendor, certa atrocidade. Talvez, tambm, alguma misteriosa monotonia... Nossos historiadores, que so os mais perspicazes do orbe, inventaram um mtodo para corrigir o acaso; diz-se que as operaes desse mtodo so (em geral) fidedignas; embora, naturalmente, no se divulguem sem certa dose de engano. Alm disso, nada to contaminado de fico como a histria da Companhia... Um documento paleogrfico, exumado num templo, pode ser obra de um sorteio de ontem ou de um sorteio secular. No se publica um livro sem alguma divergncia em cada um dos exemplares. Os escribas prestam juramento secreto de omitir, de interpolar, de alterar. Tambm se exerce a mentira indireta.

    A Companhia, com modstia divina, elude toda publicidade. Seus agentes, como bvio, so secretos; as ordens que d continuamente (qui incessantemente) no diferem das que prodigalizam os impostores. Ademais, quem poder gabar-se de ser um simples impostor? O bbado que improvisa um mandato absurdo, o sonhador que desperta de repente estrangula a mulher que dorme a seu lado, no executam, porventura, uma secreta deciso da Companhia? Esse funcionamento silencioso, comparvel ao de Deus, provoca toda espcie de conjeturas. Uma insinua abominavelmente que faz j sculos que no existe a Companhia e que a sacra desordem de nossas vidas puramente hereditria, tradicional; outra a julga eterna e ensina que perdurar at a ltima noite, quando ltimo deus aniquile o mundo. Outra declara que a Companhia onipotente, mas que influi somente em coisas minsculas: no grito de um pssaro, nos matizes da ferrugem do p, nos entressonhos da alvorada. Outra, por boca de heresiarcas mascarados, que nunca existiu nem existir. Outra, no menos vil, argumenta que indiferente afirmar ou negar a realidade da tenebrosa corporao, porque Babilnia no outra coisa seno um infinito jogo de acasos.

  • EXAME DA OBRA DE HERBERT QUAIN

    Herbert Quain morreu em Roscommon; comprovei sem assombro que o Suplemento Literrio do Times apenas lhe concede meia coluna de piedade necrolgica, na qual no h epteto laudatrio que no esteja corrigido (ou seriamente admoestado) por um advrbio. O Spectator, em seu nmero a respeito, sem dvida menos lacnico e talvez mais cordial, contudo equipara o primeiro livro de Quain The God of the Labyrinth a um de Mrs. Agatha Christie e outros aos de Gertrude Stein: evocaes que ningum julgar inevitveis e que no teriam alegrado o defunto. Este, de resto, nunca se acreditou genial; nem sequer nas noites peripatticas de conversa literria, nas quais o homem que j esgotou os jornais brinca invariavelmente de ser Monsieur Teste ou o doutor Samuel Johnson... Percebia, com toda lucidez, a condio experimental de seus livros: admirveis talvez pela novidade e por certa lacnica probidade, mas no pelas virtudes da paixo. "Sou como as odes de Cowley", escreveu-me de Longford em seis de maro de 1939. "No perteno arte, seno mera histria da arte." No havia, para ele, disciplina inferior histria.

    Repeti uma modstia de Herbert Quain; naturalmente, essa modstia no esgota seu pensamento. Flaubert e Henry James acostumaram-nos a supor que as obras de arte so infreqentes e de realizao penosa; o sculo XVI (recordemos a Viagem do Parnaso, recordemos o destino de Shakespeare) no compartilhava dessa desconsolada opinio. Herbert Quain, tampouco. Parecia-lhe que a boa literatura era bastante comum e que so poucos os dilogos de rua que no a atingem. Parecia-lhe tambm que o fato esttico no pode prescindir de certo elemento de assombro e que assombrar-se de memria difcil. Deplorava com sorridente sinceridade "a servil e obstinada conservao" de livros pretritos... Ignoro se sua vaga teoria justificvel; sei que seus livros desejam em demasia o assombro.

    Lamento ter emprestado a uma dama, irreversivelmente, o primeiro que publicou. Declarei que se trata de um romance policial: The God of the Labyrinth; posso agradecer que o editor colocou-o venda nos ltimos dias de novembro de 1933. Em princpios de dezembro, as agradveis e rduas involues do Siamese Twin Mystery atarefaram Londres e Nova York; prefiro atribuir a essa coincidncia arruinada o fracasso do romance de nosso amigo. Do mesmo modo (quero ser totalmente sincero) sua elaborao deficiente e v e frgida pompa de certas descries do mar. Depois de sete anos, para mim torna-se impossvel recuperar os pormenores da ao; eis aqui seu plano; tal como agora o empobrece (tal como agora o purifica) meu esquecimento. H um indecifrvel assassinato nas pginas iniciais, uma lenta discusso nas intermedirias, uma soluo nas ltimas. J esclarecido o enigma, h um pargrafo longo e retrospectivo que contm esta frase: "Todos acreditaram que o encontro dos jogadores de xadrez fora casual". Essa frase deixa entender que a soluo errnea. O leitor, inquieto, rev os captulos pertinentes e descobre outra soluo, que a verdadeira. O leitor desse livro singular mais perspicaz que o detetive.

  • Ainda mais heterodoxo o "romance regressivo, ramificado" April March, cuja terceira (e nica) parte de 1936. Ningum, ao julgar esse romance, nega-se a descobrir que um jogo; lcito recordar que o autor nunca o considerou outra coisa. "Reivindico para essa obra", escutei-o dizer, "os aspectos essenciais de todo jogo: a simetria, as leis arbitrrias, o tdio." At o nome um dbil calembour: no significa Marcha de Abril, mas literalmente Abril Maro. Algum percebeu em suas pginas um eco das doutrinas de Dunne; o prlogo de Quain prefere evocar aquele inverso mundo de Bradley, no qual a morte precede ao nascimento e a cicatriz ferida e a ferida ao golpe (Appearance and Reality, 1897, pgina 215).1 Os mundos que prope April March no so regressivos; mas sim a maneira de histori-los. Regressiva e ramificada, como j disse. Treze captulos integram a obra. O primeiro relata o ambguo dilogo de alguns desconhecidos numa estao. O segundo conta os acontecimentos da vspera do primeiro. O terceiro, tambm retrgrado, conta os acontecimentos de outra possvel vspera do primeiro; o quarto, os de outra. Cada uma dessas trs vsperas (que rigorosamente se excluem) ramifica-se em outras trs vsperas, de ndole muito diversa. A obra total compe-se, pois, de nove romances; cada romance, de trs longos captulos. (O primeiro comum a todos eles, naturalmente.) Desses romances, um de carter simblico; outro, sobrenatural; outro, policial; outro, psicolgico; outro, comunista; outro, anticomunista, etc. Talvez um esquema ajude a compreender a estrutura.

    Dessa estrutura cabe repetir o que declarou Schopenhauer das doze categorias kantianas: sacrifica tudo a um furor simtrico. Previsivelmente, uma das nove narrativas

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    1 Ai da erudio de Herbert Quain, ai da pgina 215 de um livro de 1897. Um interlocutor do Poltico, de Plato, j havia descrito regresso semelhante: a dos Filhos da Terra ou Autctones que, submetidos ao influxo de uma rotao inversa do cosmos, passaram da velhice maturidade, da maturidade infncia, da infncia ao desaparecimento e ao nada. Tambm Teopompo, em sua Filpica, fala de certas frutas boreais que originam em quem as come o mesmo processo retrgrado... Mais interessante imaginar uma inverso do Tempo: um estado no qual recordssemos o futuro e ignorssemos, ou apenas pressentssemos, o passado. Cf. o canto dcimo do Inferno, versos 97-1O2, em que se comparam a viso proftica e a presbitia.

  • indigna de Quain; o melhor no o que originariamente ideou, o x 4; o de natureza fantstica, o x 9. Outros esto deformados por brincadeiras lnguidas e por pseudoprecises inteis. Quem os l em ordem cronolgica (verbi grada: x 3, y 1, z) perde o sabor peculiar do estranho livro. Duas narrativas o x 7, o x 8 carecem de valor individual; a justaposio d-lhes eficcia... No sei se devo lembrar que j publicado April March, Quain arrependeu-se da ordem ternria e predisse que os homens que o imitassem optariam pela binria

    e os demiurgos e os deuses pela infinita: infinitas histrias, infinitamente ramificadas.

    Muito diversa, mas tambm retrospectiva, a comdia herica em dois atos The Secret Mirror. Nas obras j resenhadas, a complexidade formal havia entorpecido a imaginao do autor; aqui, sua evoluo mais livre. O primeiro ato (o mais extenso) ocorre na casa de campo do general Thrale, C.I.E., perto de Melton Mowbray. O invisvel centro da trama Miss Ulrica Thrale, a primognita do general. Por meio de certo dilogo a entrevemos, amazona e altiva; suspeitamos que no costuma visitar a literatura; os jornais anunciam seu noivado com o duque de Rutland; os jornais desmentem o noivado. Adora-a um autor dramtico, Wilfred Quarles; certa vez, ela lhe concedeu um distrado beijo. Os personagens so de vasta fortuna e ascendncias tradicionais; os afetos, nobres, ainda que veementes; o dilogo parece vacilar entre a mera vaniloqncia de Bulwer-Lytton e os epigramas de Wilde ou de Mr. Philip Guedalla. H um rouxinol e uma noite; h um duelo secreto num terrao. (Quase totalmente imperceptveis, h certa curiosa contradio, h pormenores srdidos.) Os personagens do primeiro ato reaparecem no segundo com outros nomes. O "autor dramtico" Wilfred Quarles um corretor de Liverpool; seu verdadeiro nome, John William Quigley. Miss Thrale existe; Quigley jamais a viu, porm, morbidamente, coleciona suas fotografias do Tatler ou do Sketch. Quigley autor do primeiro ato. A inverossmil ou improvvel "casa de campo" a penso judaico-irlandesa em que vive, transfigurada e magnificada por ele... A trama dos atos paralela, mas no segundo tudo ligeiramente horrvel, tudo se posterga ou se frustra. Quando The Secret Mirror estreou, a crtica pronunciou os nomes de Freud e de Julien Green. A meno do primeiro parece-me totalmente injustificada.

    A fama divulgou que The Secret Mirror era uma comdia freudiana; essa interpretao propcia (e falaz) determinou seu xito. Infelizmente, Quain j completara os quarenta anos; estava aclimatado ao fracasso e no se resignava docemente a uma

  • mudana de regime. Resolveu desforrar-se. Em fins de 1939, publicou Statements, quem sabe o mais original de seus livros, sem dvida o menos elogiado e o mais secreto. Quain costumava argumentar que os leitores eram espcie j extinta. "No h europeu (raciocinava) que no seja escritor, em potncia ou em ato." Tambm afirmava que das diversas felicidades que pode ministrar a literatura, a mais alta era a inveno. J que nem todos so capazes dessa felicidade, muitos tero de contentar-se com simulacros. Para esses "imperfeitos escritores", cujo nome legio, Quain redigiu as oito narrativas do livro Statements. Cada uma delas prefigura ou promete um bom argumento, voluntariamente frustrado pelo autor. Uma no a melhor insinua dois argumentos. O leitor, distrado pela vaidade, acredita t-las inventado. Da terceira, The Rose of Yesterday, cometi a ingenuidade de extrair "As runas circulares", que um dos contos do livro O Jardim de Veredas que se Bifurcam.

    1941

  • A BIBLIOTECA DE BABEL

    By this art you may contemplate the variation of the 23 letters...

    The Anatamy of Melancholy, part. 2, sect. II, mem. 1V.

    O universo (que outros chamam a Biblioteca) compe-se de um nmero indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poos de ventilao no centro, cercados por balaustradas baixssimas. De qualquer hexgono, vem-se os andares inferiores e superiores: interminavelmente. A distribuio das galerias invarivel. Vinte prateleiras, em cinco longas estantes de cada lado, cobrem todos os lados menos dois; sua altura, que a dos andares, excede apenas a de um bibliotecrio normal. Uma das faces livres d para um estreito vestbulo, que desemboca em outra galeria, idntica primeira e a todas. A esquerda e direita do vestbulo, h dois sanitrios minsculos. Um permite dormir em p; outro, satisfazer as necessidades fsicas. Por a passa a escada espiral, que se abisma e se eleva ao infinito. No vestbulo h um espelho, que fielmente duplica as aparncias. Os homens costumam inferir desse espelho que a Biblioteca no infinita (se o fosse realmente, para que essa duplicao ilusria?), prefiro sonhar que as superfcies polidas representam e prometem o infinito... A luz procede de algumas frutas esfricas que levam o nome de lmpadas. H duas em cada hexgono: transversais. A luz que emitem insuficiente, incessante.

    Como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, talvez do catlogo de catlogos; agora que meus olhos quase no podem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer, a poucas lguas do hexgono em que nasci. Morto, no faltaro mos piedosas que me joguem pela balaustrada; minha sepultura ser o ar insondvel; meu corpo cair demoradamente e se corromper e dissolver no vento gerado pela queda, que infinita. Afirmo que a Biblioteca interminvel. Os idealistas argem que as salas hexagonais so uma forma necessria do espao absoluto ou, pelo menos, de nossa intuio do espao. Alegam que inconcebvel uma sala triangular ou pentagonal. (Os msticos pretendem que o xtase lhes revele uma cmara circular com um grande livro circular de lombada contnua, que siga toda a volta das paredes; mas seu testemunho suspeito; suas palavras, obscuras. Esse livro cclico Deus.) Basta-me, por ora, repetir o preceito clssico: "A Biblioteca uma esfera cujo centro cabal qualquer hexgono, cuja circunferncia inacessvel".

    A cada um dos muros de cada hexgono correspondem cinco estantes; cada estante encerra trinta e dois livros de formato uniforme; cada livro de quatrocentas e dez pginas; cada pgina, de quarenta linhas; cada linha, de umas oitenta letras de cor preta. Tambm h letras no dorso de cada livro; essas letras no indicam ou prefiguram o que diro as pginas. Sei que essa inconexo, certa vez, pareceu misteriosa. Antes de resumir a soluo (cuja descoberta, apesar de suas trgicas projees, talvez o fato capital da histria); quero rememorar alguns axiomas.

  • O primeiro: A Biblioteca existe ab aeterno. Dessa verdade cujo corolrio imediato a eternidade futura do mundo, nenhuma mente razovel pode duvidar. O homem, o imperfeito bibliotecrio, pode ser obra do acaso ou dos demiurgos malvolos; o universo, com seu elegante provimento de prateleiras, de tomos enigmticos, de infatigveis escadas para o viajante e de latrinas para o bibliotecrio sentado, somente pode ser obra de um deus. Para perceber a distncia que h entre o divino e o humano, basta comparar esses rudes smbolos trmulos que minha falvel mo garatuja na capa de um livro, com as letras orgnicas do interior: pontuais, delicadas, negrssimas, inimitavelmente simtricas.

    O segundo: O nmero de smbolos ortogrficos vinte e cinco.1 Essa comprovao permitiu, depois de trezentos anos, formular uma teoria geral da Biblioteca e resolver satisfatoriamente o problema que nenhuma conjetura decifrara: a natureza disforme e catica de quase todos os livros. Um, que meu pai viu em um hexgono do circuito quinze noventa e quatro, constava das letras M C V perversamente repetidas da primeira linha at a ltima. Outro (muito consultado nesta rea) um simples labirinto de letras, mas a pgina penltima diz Oh, tempo tuas pirmides. J se sabe: para uma linha razovel ou uma correta informao, h lguas de insensatas cacofonias, de confuses verbais e de incoerncias