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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO De comunicação e expressão CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA TRADUÇÃO, REVISÃO E AUTORIA EM FICÇÕES, DE JORGE LUIS BORGES FABRICIO ALEXANDRE GADOTTI Orientador: Prof. Dr. Walter Carlos Costa FLORIANOPOLIS 2002

Author: ngonhi

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINACENTRO De c o m u n ic a o e e x p r e s s o CURSO DE PS-GRADUAO EM LITERATURA

TRADUO, REVISO E AUTORIA EM FICES, DE JORGE LUIS BORGES

FABRICIO ALEXANDRE GADOTTI

Orientador: Prof. Dr. Walter Carlos Costa

FLORIANOPOLIS

2002

Traduo, Reviso e Autoria em Fices, de Jorge Lu is Borges

Fabrcio Alexandre GadottiEsta dissertao foi julgada adequada para a obteno do ttulo

MESTRE EM LITERATURA

rea de concentrao em Teoria Literria e aprovada na sua forma final pelo Curso de Ps-Graduao em Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina.

Prof. Dr. Walter Carlos Costa ORIENTAD

P ro f^ i^ lc k m a ilu i^ ^ s Santos COORDENADOR DO CURSO

BANCA EXAMINADO

Prof. Dr. Walter Carlos Costa PRESIDENTE

/P ro f. Dr. Marco Lucchesi (UFRJ)

Prof. Dr. Rafael Camorlinga Alcaraz (UFSC)

Prof. Dr. Marco Antonio Castelli (UFSC) SUPLENTE

FABRCIO ALEXANDRE GADOTTI

TRADUO, REVISO E AUTORIA EM FICES, DE JORGE LUIS BORGES

Dissertao apresentada como requisito parcial obteno do Grau de Mestre em Literatura, rea de concentrao Teoria Literria, pelo Curso de Ps- graduao em Letras pela Universidade Federal de Santa Catarina.Orientador; Prof. Dr. Walter Carlos Costa.

Agradecimentos

Agradeo ao Prof. Dr. Walter, meu orientador, pela atenta leitura, pelas

sugestes e pelas crticas.

Ao Prof. Dr. Antnio Marco Castelli que muito me ajudou mostrando-me o

melhor caminho a trilhar.

iluminada Elba Ribeiro, secretria do Curso de Ps-graduao em Letras da

UFSC, por suas orientaes e carinho.

Prof. Dra. Maria Jos Damiani Costa pelas palavras construtivas e pela

oportunidade que me deu para que eu pudesse mostrar meu trabalho.

Aos colegas de curso Fabiano Fernandes e Andria Guerini pela leitura atenta

e comentrios importantes.

s amigas Helen C. P. Fernandes e Fernando A. dos Santos pelo auxlio que

lhes foi solicitado e prontamente correspondido.i . ' , . ' ' c.

A minha famlia, Amanda, Leila e Clia, gostaria de dizer que me desculpem

pelos momentos de ausncia para poder penetrar em outro mundo, o dos livros, ou

como diria Borges, o da extenso de nossa memria e imaginao, e tambm, pelo

apoio positivo e sempre construtivo.

Resumo

A partir do livro Ficciones, de Jorge Luis Borges, foram selecionados os

contos Piere Menard, autor dei Quijote, El jardin de senderos que se bifiircan e

La biblioteca de Babel como corpus por terem em comum a temtica do livro. Sob a

tica do processo de decises, elaborada por Jiry Levy, e com apoio em outros

tericos da traduo como Schleiermacher, Octavio Paz e o prprio Borges, so

analisadas as tradues destes contos feitas para o portugus por Carlos Nejar e Maria

Carolina de Arajo. margem do cnone da literatura brasileira, o poeta e escritor

Carlos Nejar, pioneiro na rdua tarefa de traduzir Borges, segue uma linha mais livre

e mais literria de traduo. Por outro lado, dentro de uma linha mais literal e mais

acadmica, Maria Carolina de Arajo limita-se a corrigir, em grande part, as

desatenes e os desvios de seu precvirsor. Constata-se, tambm, que 0 paradigma

criado por Nejar, fimciona como um outro desafio, alm do texto-fonte criado por

Borges, a ser superado por parte da revisora no seu intento de tom-lo mais claro para

o leitor brasileiro.

Abstract

The starting point of the present dissertation is Jorge Luis Borges book

Fcciones, from which the short stories "Perre Menard, autor dei Quijote", "El jardn

de senderos que se bifiircan" e "La biblioteca de Babel" were chosen as corpus

because of their common theme, the book. The translations into Portuguese mde by

Carlos Nejar and Maria Carolina de Arajo of these short-stories are here analyzed

from the viewpoint of decsion process, elaborated by Jiry Levy, and seeking support

with other translation scholars sueh as Schleiermacher, Octavio Paz and Borges

himself Being a marginal writer in the canon of Brazihan literature, Carlos Nejar,

pioneer in the hard task of translating Borges, follows a somewhat freer and more

literary trend of translation. On the other hand, following a more hteral and academic

trend, Maria Carolina de Arajo limits herself mostly to correcting her predecessors

lapses and deviations. It may also be seen that, alongside with Borges source text, the

parameters set by Nejar put forward a challenge to be overcome by his reviser, in her

willingness to make it clearer to the Brazilian reader.

Sumrio

Introduo 7

Captulo I - Pierre Menard, autor de! Quijote 20

Captulo II - El jardn de Senderos que se bifurcan 41

Captulo in - La Biblioteca de Babel 66

Concluso 87

Bibliografia 91

Apndice 94

l. Pierre Menard, autor dei Quijote 95n . El jardn de senderos que se bifurcan 104ffl. La biblioteca de Babel 115

Introduo

o fim da Guerra Civil Espanhola, da Segunda Guerra Mundial, de um poder

oligarquista direitista que se estende durante toda a dcada de 30 e, somente cede

frente ao governo populista de Pern, e a morte de sua mulher, Evita, formam o

contexto histrico do livro Ficciones de Jorge Luis Borges.

Sobre o posicionamento dos argentinos, frente a este contexto histrico,

especificamente o do governo populista, assinala Jean Franco; Muchos intelectuales

se sentan en una posicin insostenible, entre un orden que no les gustaba y la

amenaza de unos movimientos populares que eran totalmente antiintelectuales. Fue un

tiempo de soluciones desesperadas.'

Segundo Jorge Schwartz, em 1921, o jovem Borges desembarca em Buenos

Aires decidido a mudar o panorama literrio local, dominado pela esttica simbolista-

decadentista de Rubn Daro, Leopoldo Lugones, Evaristo Carriego e oufros. Ele

chega de Madrid contaminado ainda pelo entusiasmo da criao do idtrasmo, que,

por sua vez, haveria de servir de catalisador na formao da vanguarda argentina.

Sobre Borges e sua relao com a vanguarda Argentina, diz Saul Yurkievich,

La militancia de vanguardia durante su perodo ultrasta resulta episdica y superficial, un tributo a la moda cuando joven y sensible a los requerimientos dei presente. Casi el nico contacto con su poca es considerado luego como accidente cuyas huellas se quiere borrar. El vanguardismo de Borges fiie epidmico porque Io asumi en superfcie. Lo cual no quiere dedr que la voluntad de actulizarse, la bsqueda de la renovacin constituyan de por si actides pasajeras, sujetas ms a la

FRANCO, Jean. Historia de la Literatura Hispanoamericana. Barcelona; Ariel, 2001, p. 293. SCHWARTZ, Jorge. Vanguardas Latino-Americanas : Polmicas, Manifestos e TexSos Crticos. So

Paulo. Editora da Universidade de So Paulo: Iluminuras: FAPESP, 1995, p., 105.

filgacidad de la moda que a la permanencia dei arte. [...] Su experiencia dei mundo est, desde el principio, regida por una visin armnica, espiritualista, idealista, por una implcita creencia en los valores

absolutos.^

Motivado por este espirito vanguardista, Borges fiie uno de los guias y de los

miembros ms activos de la vanguardia de los afios veinte, contribuindo, inclusive,

para fiindar as revistas Prisma, Proa e Martin Fierro, as trs revistas de vanguarda

deste perodo. Pode-se dizer que Borges a figura mais importante do ultrasmo em

Buenos Aires. No entanto, resta esclarecer que o ultrasmo, desenvolvido na

Argentina, no deve ser entendido como uma derivao do espanhol pois, este

dependia fimdamentalmente de mna moda literria, j o de Bs.As., por sua vez, era o

desenvolvimento natural da tradio literria hispnica. Sobre este assunto, comenta o

prprio Borges,

Nosotros, mientras tanto, sopesbamos lneas de Garcilaso, andariegos y graves a lo largo de Ias estrellas dei suburbio, solicitando un limpido arte que fiiese tan intemporal como Ias estrellas de siempre. Abominbamos de los matices borrosos dei rubenismo y nos enardeci la metfora por la precisin que hay en ella, por su algbrica forma de correlacionar lejanas,'*

As primeiras obras de Borges, desde seu retomo a Buenos Aires e de seu

primeiro livro. Fervor de Buenos Aires (1923), at o surgimento de Discusin (1932),

livro que antecede Ficciones, marcam sua produo literria atravs de poesias e

ensaios. O hvro Ficciones, na vida literria de Jorge Luis Borges, funciona como luna

YURKIEVICH, Saul. Fundadores de la Nueva Poesia Latinoamericana - Vallejo, Huidobro, Borges, Neruda, Paz. Barcelona; Banal, 1970, p. 120.

'' FRANCO, Jean. Op., cit., p. 287.

linha divisria. atravs deste livro que Borges, alm de romper com a produo

anterior passando a dedicar-se ao gnero mais antigo e verstil, que tem incio com

as primeiras epopias, passa pelas M/ e Uma Noites e, no sculo 19, por autores como

Machado de Assis e Tchecov, at chegar, no sculo 20 , mostrando-nos seu outro

lado, o de exmio criador de contos, mostra, tambm, a sua preferncia pelo idealismo

em detrimento do reahsmo.

Cada um dos contos que compem Ficciones, segundo Franco,

es una pequena obra maestra, cuya superfcie enganosamente lmpida enreda constantemente ai lector en problemas. Saturadas de referencias literarias, a menudo tan cerca dei ensayo como de la idea convencional que se tiene dei cuento. Ias ficciones retan siti embargo a la cultura

impresa a un nivel muy proftindo, y tal vez sugiere su imposibilidad.

O conto El jardn de senderos que se bifiircan, publicado pela primeira vez

em 1942, o incio deste momento de ruptura e do que se transformou,

posteriormente, em Ficciones. A primeira edio deste livro foi publicada em 1944.

Em 1956, volta a ser publicada a verso definitiva de Ficciones com a incluso

dos contos La secta dei Fnix, El Sur e El fn, os quais haviam sido escritos

entre 1952 e 1953 respectivamente.

A verso definitiva de Ficciones est dividida em duas partes. A primeira,

chamada de El jardn de senderos que se bifurcan (1942), composta pelos contos;

Tln, Uqbar, Orbis Tertius, Pierre Menard, autor dei Quijote, Las minas

circulares, La loteria en Babilnia, Examen de la obra de Herbert Quain, La

Biboteca de Babel e El jardn de senderos que se bifiircan; a segunda, chamada

INFANTE, Guillermo Cabrera Uma Histria do Conto, Traduo de Sergio Molina. Folha de So Paulo. Mais! 30.12.2001. FRANCO, Jean. Op., cit., p. 288 - 289.

de Artifcios (1944), por Funes el memorioso, La forma de la espada, Tema dei

traidor y dei hroe, La muerte y la brjula, El milagro secreto, Tres versiones

de Judas, El fn, La secta de Fnix e El sur.

Para Borges, El jardn de senderos que se bifurcan um conto policial, sus

lectores asistirn a la ejecucin y a todos los preliminares de un crimen, cuyo

propsito no ignoran pero que no comprendern, me parece, hasta el ltimo prrafo.

Os demais contos so fantsticos, segundo afirma o prprio autor no prefcio de

Ficcones.

Referindo-se a La Biblioteca de Babel, diz Borges; No soy el primer autor

de la narracin La biblioteca de Babel; los curiosos de su historia y de su prehistoria

pueden interrogar cierta pgina dei nmero 59 de SUR, que registra los nombres

heterogneos de Leucipo y de Lasswitz, de Lewis Carroll y de Aristteles.

Pierre Menard, autor dei Quijote tambm um conto fantstico, segundo

Borges, retratando o irreal, ou melhor, lo es el destino que su protagonista se

impone.*

Dentre os textos que compem Ficciones, os selecionados para anlise so:

El jardn de senderos que se bifurcan, Pierre Menard, autor dei Quijote e La

Biboteca de Babel.

Embora Borges tenha classificado El jardn de senderos que se bifurcan

como um conto policial, Pierre Menard, autor Del Quijote e La Biblioteca de

Babel como fantsticos, o livro aparece como tema central nos trs contos, o livro

como espelho, como metfora e como enigma independente do gnero a que

pertencem.

^BORGES, Jorge Lus. Ficciones. Madrid; Alianza, 1998, p. 11.* Id. Ib p. 45.

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Muito se tem falado sobre o tempo, o labirinto, o homem angustiado frente ao

enigmtico mundo que o cerca e sobre muitos outros aspectos encontrados tanto na

produo borgeana quanto nos trs contos selecionados, no entanto, me parece que o

livro o ponto bsico para toda esta discusso esttica e , ao mesmo tempo, ele que

tambm viabiliza esta discusso, ou seja, ele o espao para a criao a discusso.

atravs dele que tudo se materializa, e esta materializao ocorre de forma exemplar

nos trs contos selecionados.

Portanto, a partir de minhas repetidas leituras da obra, compreendi que o tema

livro servia de elo entre os contos. Segimdo Antonio Cndido, a diferena entre

manifestaes literrias e literatura propriamente dita, radica em que esta ltima s

existe a partir do momento em que a literatura passa a organizar-se como sistema,

quando a atividade dos escritores de um dado perodo se integra em tal sistema, ocorre outro elemento decisivo; a formao da continuidade literria... uma tradio, no sentido completo do termo, isto , transmisso de algo entre os homens, e o conjunto de elementos

transmitidos, formando padres que se impem ao pensamento ou ao comportamento, e aos quais somos obrigados a nos referir, para aceitar ou rejeitar. Sem esta tradio no h literatura, como fenmeno de

civilizao

Assim como Cndido, Borges tambm nos passa a idia da continuidade, da

tradio, da reformulao, da recriao, do palimpsesto. Sempre h um primeiro, o

inspirador, o provedor. Quanto no ter ele bebido das Mil e uma noites e da

Odissial Entende-se aqui o ponto levantado sobre o tema livro. Ele possibilita a

CNDIDO, Antonio. Formao da Literatura Brasileira. Volume 1. 8 edio. Belo Horizonte - Riode Janeiro: Itatiaia, 1997, p. 24.

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criao, a reformulao, a continuidade. atravs dele que esta cadeia existe e se

mantm viva.

Para Borges, os livros que lemos nos remetem a outros: aos clssicos, s

mitologias, gnese literria, enfim. o espelho, o labirinto, o caleidoscpio do

Aleph onde tudo se encontra, tudo se v, tudo se vislimibra. No obstante, nada disto

real, pois a lngua para ele um sistema rgido e artificial - o sentimento verdadeiro,

aquele de um olhar, de um sorriso, de um odor, de uma sensao, de um encontro, no

pode ser transcrito, seno sentido.

A traduo, no apenas entendida de uma lngua para outra, destinada quase

sempre a ilustrar a discusso esttica, seno esta que usamos para tentar expressar o

mundo no-vfbal', este mundo em que vivemos, caminhamos e sentimos, tambm

tradutpra, tambm ficcional. No entanto, esta menos exuberante em relao

outra, a estritamente literria. Esta ltima, tal qual pensa Jakobson a respeito da

literatura\ uma violncia linguagem cotidiana.

O significado arbitrrio, convencionado, estipulado por determinados

indivduos que compartilham os mesmos cdigos lingtlsticos. Chegamos novamente

a literatura como sistema e, talvez esta seja uma manifestao prpria deste mundo

ficcional; voltamos ao poro onde est o Aleph, e atravs dele vemos novamente a

Antonio Cndido, a Borges, a ns mesmos, o universo e sua plurahdade refletida em

outro e outro Aleph infinitamente.

Segundo Octavio Paz, todo texto nico e , ao mesmo tempo, a traduo de outro texto. Nenhum texto completamente original porque apropria lngua, em sua essncia, J uma traduo: em primeiro lugar, do mundono-verbal e, em segundo, porque todo signo e toda frase a traduo de outro signo e de outra frase. PAZ ( apud. Arrojo, Rosemaiy. Oficina de Traduo-A teoria na prtica. Editoratica- So Pauo, 1986. p.Ii).

JAKOBSON, (apud EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introduo. Traduo; Waltensir Dutra So Paulo; Martins Fontes, 1997, p. 2)

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Partindo do pressuposto de que a linguagem artificial, e de que no se

encontra para cada palavra de uma lngua um equivalente exato em cada uma das

demais lnguas'^, o mais prximo que se pode chegar do significado, ou de um

provvel significado levando em considerao o que disse Antonio Cndido em seus

pressupostos:

Um movimento amplo e constante entre o geral e o particular, a sntese e a anlise, a erudio e o gosto. E necessrio um pendor para integrar contradies, inevitveis quando se atenta, ao mesmo tempo, para o significado histrico do conjunto e o carter singular dos autores. preciso sentir, por vezes, que imi autor e imia obra podem ser ou no ser alguma coisa, sendo duas coisas opostas simultaneamente, - porque as obras vivas constituem uma tenso incessante entre os contrastes do espirito e da sensibilidade. A forma atravs da qual se manifesta o contedo, perfazendo com ele a expresso, uma tentativa mais ou menos feliz e duradoura de equilbrio entre estes contrastes. Mas mesmo quando relativamente perfeita, deixa vislumbrar a contradio e revela a fragiHdade do equilbrio. Por isso, quem quiser ver em profundidade, tem de aceitar o contraditrio, nos perodos e nos autores, porque, segundo

uma fi ase justa, ele o prprio nervo da vida

Emaranhado nesta linguagem artificiosa, encontramos Borges criando suas

multipHcidades que devem existir para que, atravs do jogo da metfora, a infinidade

do real possa, talvez algmn dia, vir a ser decodificada a partir das pginas de um livro.

Pode-se tentar identificar, por vezes, dependendo do ngulo em que nos

situemos, o jogo da linguagem, descobrir o nome que no se diz, a rosa como

metfora, quando se conhece o fator externo, o fator individuil e o texto

SCHOPENHAUER, Arthur. Sobre Lngua e Palavra. In. Clssicos da teoria da traduo. Traduo de Ina Emmel. Florianpolis: UFSC, Ncleo de traduo, 2001. (Antologia bilinge, alemo- portugus; v.l). p. 165.

CNDIDO, op. Cit, p. 30.

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propriamente dito. Todavia, isto importa menos, o que de fato importa o que o texto

exprime.

Borges inicia sua vida literria apaixonando-se por facas, adagas, guerreiros,

heris e preocupando-se com reflexos nas madeiras dos mveis da biblioteca de seu

pai, temendo que em um determinado momento a imagem refletida, talvez, no fosse

a dele. Este medo, esta biblioteca, estes livros e seus personagens formam o embrio

que passa a ter vida. Nasce, neste contexto, o criador de labirintos, ou melhor, o

Senhor de Labirintos e Espelhos, como o denominou Harold Bloom. Mesmo

conhecendo o incio de Borges, suas leituras, seus sonhos, seus pesadelos, o que de

verdade importa a sua literatura.

E qual a sua literatura?

Provavelmente encontremos uma das inmeras definies no fi^agmento

extrado do prprio El Aleph:

Arribo, ahora, al inefable centro de mi relato; empieza, aqui, mi desesperacin de escritor. Todo lenguaje es un alfabeto de smbolos cuyo ejercicio presupone un pasado que los interlocutores comparten; ^cmo transmitir a los otros el infinito Aleph, que mi temerosa memria apenas abarca? Los msticos, en anlogo trance, prodigan los emblemas: para significar la divinidad, un persa habla de un pjaro que de algn modo es todos los pjaros; Alanus de Insulis, de una esfera cuyo centro est en todas partes y la circunferencia en ninguna; Ezequiel, de un ngel de cuatro caras que a un tiempo se dirige al Oriente y al Occidente, al Norte y al Sur. (No en vano rememoro esas inconcebibles analogias; alguna relacin tiene con el Aleph.) Quiz los dioses no me negarian el hallazgo de una imagen equivalente, pero este informe quedaria contaminado de literatura, de falsedad. Por lo dems, el problema central es irresoluble; la enumeracin, siquiera parcial, de un conjunto infinito. En ese instante gigantesco, he visto millones de actos deleitables o atroces; ninguno me asombr como el hecho de que todos ocuparan el mismo punto, sin

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supearposicin y sin transparncia. Lo que vieron mis ojos fiie simultneo:

lo que transcribir, sucesivo, porque el lenguaje lo es. Algo, sin embargo.

recoger. "*

Temos nas entrelinhas da transcrio acima, um breve resumo desde o mais

antigo registro da mitologia grega, passando por Saussure, pela metafsica, e

chegando aos momentos histricos marcantes de nossa humanidade. A imagem

central de Borges o labirinto, o ponto final ou/e inicial de todas as suas obsesses e

pesadelos.

Em meio a este enigmtico mundo ficcional borgeano, no verdadeiro,

transfigurado, deve-se primeiro compreender os artifcios da linguagem pois, dizendo

como no , o autor faz o leitor chegar compreenso do que . Assim, para o bom

tradutor chegar a usar o bom significante, deve antes passar pelos possveis

significados - deve esforar-se por captar El Aleph que a temerosa memria do

escritor apenas abarca.

Traduzir Borges, portanto, um processo gentico; retomar ao livro

ancestral e, a partir do qual, os demais derivam.

De fato em Borges, o livro sempre recorrente - espelho. Nos trs contos, o

livro fimciona como chave para desvendar um mistrio, mesmo no sendo o aspecto

mais salientado pela critica nos contos citados anteriormente. Em Pierre Menard,

autor dei Quijote, vemos claramente a vigncia do hvro, ou seja, a sua durabilidade

ao longo do tempo, pois todo o trabalho que Menard se prope a realizar se baseia na

criao de um livro a partir de outro e suas repercusses em outros. O livro possibita

esta atividade. Se no fosse por ele, Menard no teria acesso ao Quijote de Cervantes.

Em El jardn de senderos que se bifinrcan, o personagem Yu Tsum se depara com o

BORGES, Jorge Luis. El Aleph. Madrid; Alianza, 1997, p. 191 - 192.

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manuscrito de seu antepassado em um dos momentos mais crticos de sua vida e

percebe tanto a complexidade quanto a originalidade do livro que escrevera seu

parente. Em meio a uma questo de sobrevivncia e, atravs de um livro, a

perspiccia de seu antepassado reverenciada. J La biblioteca de Babel tratar da

busca constante por parte dos homens frente aos inmeros questionamentos de sua

existncia e do universo que os cerca, sendo que o lugar preciso para estas eventuais

descobertas uma biblioteca. Novamente entre em questo o tema livro. O livro como

soluo.

Borges, em discurso pronunciado no Cuarto Congreso Mundial de Lectura,

Argentina, 1972, afirma;

[...] el libro es la extensin de algo ms ntimo; el libro es una extensin de la memria y la imaginacin, y esto es muy importante porque qu seria de nuestra identidad personal frente al hecho de que cada uno friese su yo, sin la memria personal. Sin la memria seriamos, simplemente,

percepciones actuales.^^

Este fragmento reforou a minha escolha, pois os livros, alm de ocuparem um

lugar cenfral em sua concepo de mundo e em sua literatura, o acompanham desde

sua infncia, fertihzam a sua imaginao, tanto que aos nove anos de idade j compe

um compndio de mitologia grega.

Alm das questes levantadas anteriormente sobre o tema hvro, inerente aos

tontos selecionados dentre os demais que compem Ficciones, da simpatia por

Borges adquirida ao longo do curso de graduao e da paixo pela lngua espanhola, o

fato de ter ido morar durante a minha infncia em Buenos Aires tambm me motivou

BORGES, Jorge Luis. Fragmento dei discurso Bibliotecas, libros y lectura, pronunciado en la apertura dei Cuarto Congreso Mundial de Lectura Argentina, 1972.

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a empreender a realizao desta dissertao. Ao ler os contos de Borges era como se

estivesse compartilhando com um amigo algumas experincias comuns, ou talvez, o

fato de saber que aqueles contos foram escritos por algum que estava to prximo,

que passara pelas mesmas ruas, compartilhara a mesma praa, em fim, um vizinho da

mesma cidade em meio amplitude do universo. A partir desse conglomerado de

sentimentos, fui em busca de tradues de Borges feitas para o portugus e comecei a

pensar na repercusso que as suas obras teriam na lngua portuguesa.

Aps algumas buscas, me deparei com as tradues de Ficciones feitas ao

portugus e publicadas pela editora Globo, em diferentes momentos com diferentes

tradutores. A primeira, de Carlos Nejar, foi editada em 1972, e reeditada vrias vezes;

a segunda traduo uma reviso da traduo de Carlos Nejar feita por Maria

Carolina de Arajo e publicada em 1999.

Portanto, sabendo da amplitude do trabalho e do tempo limitado de anlise, o

estudo realizado compreende apenas a anhse dos originais de Pierre Menard, autor

dei Quijote, El jardin de senderos que se bifurcan e La bibhoteca de Babel e suas

respectivas tradues feitas para o portugus. Cada um dos contos foi trabalhado

separadamente, sendo assim, os contos esto organizados, segundo a ordem acima,

nos Captulo 1, 2 e 3.

No Captulo 1 Pierre Menard, autor dei Quijote, verificar-se-o os seguintes

pontos avultantes do processo tradutrio: os de interpretao; em seguida, a simples

troca de vocbulo, a supresso de parte do original e as mudanas em relao

sintaxe e; por ltimo, a questo da fluncia; no Captulo 2 El jardin de senderos que

se bifurcan, os de interpretao; em seguida, a simples troca de vocbulo, a

supresso de parte do original, as mudanas em relao sintaxe e a abreviao e; por

ltimo, a questo do estilo; e no Captulo 3 La biblioteca de Babel, a simples troca

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de vocbulo, a supresso de parte do original, as mudanas em relao sintaxe; em

seguida, os de interpretao; e por ltimo, a mudana verbal.

Na anlise destes captulos examino at que ponto o processo de decises -

uma srie de situaes consecutivas - como jogadas em um jogo - que impem ao

tradutor a necessidade de escolher entre um nmero determinado (e muitas vezes

definvel com exatido) de alternativas^ segundo Jir Levy, afeta o estilo, o

vocabulrio, a sintaxe e o sentido na transcrio da lngua-fonte para a lngua-meta.

Ao invs de simplesmente aplicar os conceitos de boa ou ruim em relao

traduo do texto de partida para o texto de chegada, com base nas teorias de

traduo, tentar-se- verificar os momentos em que o tradutor ala vo, sai do original

em direo ao ponto mais elevado, ao da arte, optando, obviamente, pelo contedo em

detrimento da forma, e os momentos em que este atuou, sobretudo, como rgo

receptor do objeto e seguiu a ordem local e temporal .

Verificar-se- tambm, no decorrer dos captulos, se os tradutores ao seguirem

uma determinada linha de traduo, optando pela foraia ou contedo, esto isentos de

cometer faltas, ou de desviar-se do texto de partida em partes de sua traduo,

comprometendo desta forma o entendimento do que est no texto de partida e que o

leitor de uma traduo poderia ou no chegar a conhecer.

Anahso tambm, a partir da traduo de Carlos Nejar, a tarefe da revisora que

se prope a revisar e alterar, quando julgar necessrio, uma traduo j feita

anteriormente, a necessidade de mostrar-se firente a esta reviso e o quo complexo

revisar.

Levy, apud, VENUTI, Lawrmce. A invisibilidade do tradutor. Traduo de Carolina Alfaro. Rio de Janeiro; Palavra - Departamento de Letras daPUC-Rio, n 3 ,1995, p. 113,

SCHLEIERMACHER. Sobre os diferentes mtodos de traduo. Traduo de Pilar Estelrich. In: LAFARGA, Francisco (org). El discurso sobre la traduccin en la historia. Barcelona, EUB, 1996, p, 210 .

18

Portanto, para chegar concluso das questes introduzidas at aqui e

desenvolvidas a seguir, o processo de anlise dos contos envolveu cinco fases, a

saber, estudo preliminar, comparao, redao, reviso e reorganizao a partir do que

18Althusser chamou de processo produtivo.

A continuao e, diante desta enigmtica fonte borgeana, verificar-se- como

se posiciona o tradutor ao apresent-la em outro idioma.

Segundo Venuti, a partir das idias de Athusser, na prtica da traduo, a matria-prima , obviamente, o texto em lngua estrangeira, determinado no sentido de que, em primeira instncia, ele prprio um produto da transformao, feita pelo autor estrangeiro, de um conjunto anterior de matrias-primas {a lngua estrangeira; os diversos tropos, gneros, convenes, idias e movimentos culturais existentes na histria daquela lngua; a experincia vivida no pas estrangeiro). O momento mais importante de qualquer prtica o trabalho de transformao; para qualquer trabalho intelectual, como escrever ou traduzir, a transformao possibilitada e delimitada por uma teoria, o campo conceituai no qual o texto produzido a partir de suas matrias-primas e onde todos os problemas de composio so colocados e resolvidos, sejam esses problemas explicitados ou no. Essa teoria determinada no sentido de que, em primeira instncia, ela o produto da transformao, seja esta feita pelo autor ou pelo tradutor, de um campo conceituai (estilo, movimento, corrente intelectual) que tem uma existncia anterior, seja na cultura passada ou na contempornea No que concerne ao tradutor, sua familiaridade com duas histrias culturais, a da lngua-fonte e a da lngua-meta, geralmente constitui o campo intelectual no qual ele transforma o texto original e produz a traduo. VENUTI, Lawrence. A invisibilidade do tradutor. Traduo de Carolina Alfaro. Rio de Janeiro: Palavra. Departamento de Letras daPUC-Rio, n3, 1995, p. 116

19

Captulo I - Pierre Menard, autor dei Quijote

Em Pierre Menard, autor dei Quijote, temos um narrador que fala sobre um

crtico literrio chamado Pierre Menard, personagem fictcio inventado por Borges, e

a produo textual desenvolvida por este durante a sua vida. Dentre as suas criaes

literrias, aparecem inmeras obras, sendo que a mais importante de todas diz respeito

tentativa de reescrever o Quijote . Neste intento, Borges cria espao para discutir

sobre as influncias literrias, as vrias leituras de um texto de acordo com o seu

momento histrico, a questo esttica da palavra escrita e, finalmente, para brincar

com a literatura pois, ao comparar o Quijote de Cervantes e o de Nejar diz;

Es una revelacin cotejar el don Quijote de Menard con el de Cervantes. ste, por ejemplo, escribi (Don Quijote, primera parte, noveno capitulo): (...) la verdacl cuya madre es la historia, mula dei tiempo, depsito de Ias acciones, testigo de lo pasado, ejemplo y aviso de lo presente, advertencia de lo por venir.Redactada en el sigio diecisiete, redactada por el ingenio lego Cervantes, esa enumeracin es un mero elogio retrico de la historia Menard, en cambio, escribe;(...) la verdad, cuya madre es la historia, mula dei tiempo, depsito de Ias acciones, testigo de lo pasado, ejemplo y aviso de lo presente, advertencia de lo por venir.La historia, madre de la verdad; Ia idea es asombrosa. Menard, contemporneo de William 3ames, no define la historia como una indaga- cin de la realidad sino como su origen. La verdad histrica, para l, no es lo que sucedi; es lo que juzgamos que sucedi. Las clusulas finales ejemplo y aviso de lo presente, advertencia de lo por venir son descaradamente pragmticas.

Tambin es vivido el contraste de los estilos. El estilo arcaizante de Menard extranjero al fin adolece de alguna afectacin. No as el dei

precursor, que maneja con desenfado el espanol corriente de su poca.^

Muitos leitores desatentos no percebem a diferena estabelecida pelo

narrador do conto e, em muitos casos, chegam a icar em dvida se Menard realmente

existe ou existiu. Reside neste aspecto o lado ao mesmo tempo ldico e alegrico de

Borges em seu conto Pierre Menard, autor dei Quijote. Verifcar-se-, no decorrer

desta anlise como os tradutores enfrentaram este desafio.

Esta brincadeira de Borges, em Pierre Menard, autor dei Quijote, comea a

partir de um catlogo criado por Madame Henri Bachelier sobre as obras de Menard,

com omisses e adies. Descontente com o catlogo criado por Madame Henri

Bachelier, o narrador decide mencionar todas as criaes feitas por Menard em ordem

cronolgica na tentativa de elucidar a verdadeira produo de Pierre Menard. A estas

produes, num total de dezenove, Borges chama de visveis. A outra obra, talvez a

mais significativa de nosso tempo, segundo o narrador do conto, consta dos captulos

IX e XXXVIIl da Primeira parte do Quixote e de um fragmento do captulo XXII.

Pierre Menard no se propunha compor outro Quixote, mas o prprio Quixote

criado por Cervantes. Dois textos inspiraram-no a realizar tal tarefa; o primeiro, imi

fragmento de Novalis - que esboza el tema de la total identificacin con un autor

determinado; o segundo, um desses textos que sitan a Cristo en un bulevard, a

Hamlet en Cannebire o a Don Quijote en Wall Street.

O mtodo imaginado por Pierre Menard era: conocer bien el espanol,

recuperar la fe cathca, guerrear contra los moros o contra el turco, olvidar la historia

de Europa enfre los anos de 1602 y de 1918, er Miguel de Gervantes. Apesar disso,

' BORGES, Jorge Luis. Ficciones. Pierre Menard, autor dei Quijote. Alianza Editorial. Madrid, 1998, p. 5 2 -5 3 .

21

trs obstculos se opunham realizao de seu objetivo; o primeiro deles, Cervantes,

como ressalta o prprio Menard, mi complaciente precursor no rehus la

colaboracin dei azar; iba componiendo la obra inmortal un poco la diable, llevado

por inercias dei lenguaje y de la invencin; o segundo, Menard teria que reconstruir

literalmente a obra espontnea de Cervantes; o terceiro e ltimo, congnito, pois,

componer el Quijote a principios dei siglo diecisiete era una empresa razonable,

necesaria, acaso fatal; a principios dei veinte, es casi imposible. No en vano han

transcurrido trescientos afios, cargados de complejsimos hechos.

Para o narrador do conto, ambos os textos so verbalmente idnticos, tanto o

de Cervantes quanto o de Menard, no entanto, el segundo es casi infinitamente ms

rico, pois, atravs desta obra, Menard (acaso sin quererlo) ha enriquecido mediante

rnia tcnica nueva el arte detenido y rudimentario de la lectura; la tcnica dei

anacronismo deliberado y de Ias atribuciones errneas.

Segundo o narrador, a obra de maior prestgio de Menard no se encontra entre

suas obras visveis; a de maior importncia, a inigualvel, a mpar, a invisvel,

uma reproduo dos captulos IX e XXXVIII da Primeira parte do Quijote de Miguel

de Cervantes.

Neste conto, Borges parte do postulado de que toda linguagem implica uma

srie de acontecimentos passados que criou o significado atual de uma determinada

palavra, ou as associaes que fazemos em tomo dela, por um processo causai e

determinista. O ponto culminante do conto se encontra en el deseo de trascender los

limites humanos y de anadir un elemento nuevo a la reahdad .

Id. Ib., p. 4] - 55. SHAW, Donald L. Jorge Lus Borges Ficciones. Editora Laia Barcelona, ] 986, p. 47.

22

Quando imaginamos que Menard, personagem do conto, tenta reescrever o

Quijote, pensamos no acrscimo de significados que as palavras utilizadas no sculo

XVI sofreram at o sculo XIX, momento em que Menard se dispe a reescrev-la.

Ademais da polissemia iaerente s palavras na verso original do Quijote de

Cervantes e da traduo de Menard, devemos levar em conta que dentro de cada

lengua se reproducen Ias divisiones; pocas histricas, clases sociales, generaciones'*.

A ltima parte do conto nos revela que o Quijote escrito por Menard supera o

de Cervantes justamente pelos fatos acima descritos, pois as associaes so

infinitamente mais complexas. Com o passar do tempo, novos valores vo sendo

agregados aos j existentes, o que era num determinado momento, pode deixar de ser

em outro.

O prprio conto uma metfora da crtica literria e da teoria da traduo

como j o disse Rosemaiy Arrojo em seu livro Oficina de Traduo^

Segundo Rosemary Arrojo, o conto Pierre Menard, autor dei Quijote,

apresentado como uma resenha pstuma das obras de Pierre Menard (personagem fictcio inventado por Borges), um homem de letras francs que viveu na primeira metade do sculo XX. O narrador um crtico

literrio que tenta apresentar o verdadeiro catlogo das obras de Menard, de quem se diz amigo, com o objetivo de retificar um catlogo recm- publicado, que considera falso e incompleto. Segundo o narrador, fcil enumerar o que chama a obra visvel de Menard; e ele nos apresenta dezenove obras (monografias, tradues, anlises e alguDS poemas) publicadas e no-publicadas, que sugerem, como escreveu Borges no

*PAZ, Octavio. Traduccin: literatura y litemlidad. 3 ed. Barcelona, Tusquets, 19S>0, p. 09. O projeto invisvel de Menard reflete, portanto, uma teoria da traduo (e uma teoria da leitura)

semelhante de Catford ou Nida, j que parte de uma teoria da linguagem que autoriza a possibilidade de determinar e delimitar o significado de uma palavra, ou mesmo de um texto, fora do contexto em que lida ou ouvida Arrojo, Rosemary. Oficina de Traduo - A teoria na prtica: Editora tica - So Paulo, 1986. p. 19.

23

prlogo de Ficciones, o diagrama da histria mental de Menard: sua

ideologia, suas concepes tericas, seus desejos e at suas contradies.'

Antes de passarmos anlise das tradues deste conto para o portugus,

devemos entender que a leitura de um texto de acordo com o seu momento histrico e

outros , precisamente, o tema tratado por Borges em Pierre Menard, autor de

Quijote.

Para iniciar a discusso das tradues feitas para o portugus, gostaria de

examinar dois pressupostos iniciais: a prpria moral do conto Pierre Menard, autor

dei Quijote e a idia de que cada traduecin-es, hasta cierto'pmito W a invhcin y

as constituye un texto nico Tanto Carlos Nejar quanto Maria Carolina de Arajo,

antes mesmo de iniciarmos a anUse das tradues, receberiam a denominao de

criadores, ainda que seus textos no representassem fielmente em lngua portuguesa o

que Borges quis dizer em seu clebre Pierre Menard em lngua espanhola. Levando

em conta os dois pressupostos anteriores, entende-se, portanto, que a traduo

funciona como transformao do original. Ou seja, alm da transformao ocasionada

pela traduo, devemos levar em considerao a prpria metfora do conto analisado,

reescrever Pierre Menard, autor dei Quijote, seja em espanhol ou portugus, aps

algumas horas, dias, meses, ou anos, j no seria representar o mesmo texto, teramos

todos os acrscimos ocasionados pela passagem do tempo e por novas relaes

intertextuais.

Assim, podemos entender que toda colaboracin es misteriosa*, como disse

o prprio Borges em El enigma de Edward Fitzgerald ao argumentar que o casual

encontro dos manuscritos do oriental Umar Ibrahim por parte de Fitzgerald, d incio

p. 14. PAZ, op.cit,, p. 09.

* BORGES, Jorge Luis. Olras Inguisicioms. Emec, 1999, p. 130.

24

a um extraordinrio poeta que no especificamente nenhum dos dois. Eles jamais se

encontrariam se no fosse pelo caminlio da literatura, pelas vrias ramificaes

possveis a partir de um livro e de suas repeties em outros.

Partindo da dificuldade de encontrar o foco apropriado para analisar a

traduo, inicia-se aqui uma possvel viso desta ampla tarefa na tentativa de elucidar,

no na sua totalidade, pois isto seria irrealizvel, o questionamento anunciado na

introduo desta dissertao; diante da enigmtica fonte borgeana, resta saber como se

posiciona o tradutor que se dispe a apresentar uma obra de tal complexidade em

outro idioma.

Neste Captulo I, agrupados em ordem de maior a menor incidncia, os pontos

mais relevantes das tradues feitas para o portugus do conto Pierre Menard, autor

dei Quijote so; primeiramente, os de interpretao; em seguida, a simples troca de

vocabulrio, a supresso de parte do original e as mudanas em relao sintaxe e;

por ltimo, a questo da fluncia.

Interpretao

Percebe-se, inicialmente, nas tradues realizadas, que algumas vezes o

tradutor se desvia do sentido proposto por Borges, pois quando este utiliza a palavra

enumeracin para referir-se s obras escritas por Pierre Menard, Nejar utiliza a

palavra referncia para substitu-la. Ao utilizar a expresso enumeracin, Borges

nos d a idia de que as obras escritas por Pierre Menard so facilmente enumerveis,

contveis. Nejar se desvia do sentido original ao passar uma idia diferente da que

sugere o texto borgeano, pois, referncia no remete imediatamente quantidade,

mas ao fato de que estas obras so facilmente lembradas, ou referidas pelas pessoas;

25

j o texto revisado por Maria Carolina Arajo, opta por uma traduo literal e usa o

equivalente imediato na lngua portuguesa que enumerao.

Em um dos momentos do conto, Borges se refere ao fato de que Menard

propone, recomienda, discute; tanto Nejar quanto a revisora usam o vocbulo

polemiza; a palavra discute no texto borgeano no indica que Menard causa uma

polmica, mas uma discusso sobre um assunto levantado por ele mesmo. Se sua

opinio causou polmica sobre o assunto, isto j outro assunto, no diz respeito ao

que consta no texto original.

Na letra P da enumerao das obras de Menard, Boi-ges utiliza a expresso

dicho sea entre parntesis para referir-se a Una invectiva contra Paul Valry, e

ns, leitores, ficamos na dvida se h neste momento uma cumplicidade como ocorre

no prlogo do livro Don Ouijote de la Mancha, Desocupado lector , ou o que ele se

refere como entre parnteses est realmente entre parnteses no texto citado ao

mencionar a invectiva. Em Nejar e no texto revisado, l-se, simplesmente, entre

parnteses; desta forma limita-se o entendimento sugerido por Borges quanto

dubiedade da proposio.

Sobre o uso dos parnteses por parte de Borges, comenta Barrenecbea;

A veces el autor propone dos o ms interpretaciones de un suceso, todas plausibles, casi con la sugestin implcita de que quiz sean todas verdaderas simultneamente, porque la realidad y en especial la psicologia humana son complejas. [...] Tal construccin es muy caracterstica de su

estilo y puede encerrar varios valores, por lo cual merece un estdio detallado. En general se siente como si Borges estuviera expresando un lnea de pensamiento y al mismo tiempo quisiera manifestar paralelamente a ella una acotacin, una correccin, un subrayado, un desarrollo de sus

CERVANTES, Miguel de. Don Quijotede la Mancha. PML Ediciones, 1994, p, 19.

26

elementos; es decir como si se doblase en dos indivduos, uno que narra y

otro - siempre vigilante y lcido - que comenta la obra dei primero.

A partir da citao acima, percebemos que no texto borgeano paira no ar se a

invectiva escrita contra Paul Valry est entre parnteses ou se dicho sea entre

parntesis Borges dialogando, confessando, revelando ao leitor um segredo. Borges

cria um vnculo com o leitor, fora a participao deste, faz com que ele acorde e se

questione sobre a verdade da proposio; o que no acontece nas tradues.

Ainda quanto questo de interpretao, constata-se que ao utilizar

costumbres sintcticas de Toulet, Borges quer dizer que Toulet tinha alguns

costumes sintticos, uma maneira prpria de escrever. Esta idia acaba sendo perdida

quando Nejar a traduz por regras sintticas. Citando o prprio Borges, poder-se-a

dizer que [...] la dficultad categrica de saber lo que pertenece al poeta y lo que

pertenece al lenguaje. A esta dficultad feliz debemos la posibdad de tantas otras

versiones, todas sinceras, genunas, y divergentes\ Na reviso de Arajo

encontramos usos sintticos.

Noutro momento, em Intil agregar que no encar nunca uma transcripcin

mecnica dei original, temos o entendimento de que em sua transcrio o mtodo

utilizado foi uma transcrio mecnica, idntica ao original; j na proposio de

Menard, Intil acrescer que nunca vsionou qualquer transcrio mecnica do

original acabamos perdendo a noo de que ele realmente realizou o trabalho de

transcrio e ficamos com a idia de que ele apenas objetivava realiz-lo, parece-nos

que permaneceu distante do texto. Por sua vez, o texto revisado opta por Intil

BARRENECHEA, Ana Maria. La expresin de la Irrealidad en la Obra de Borges. Caitro Editor de Amrica Latina, 1984, p. 110.

BORGES, Jorge Luis. Discusin. Las versiones homricas. Biblioteca Borges. Alianza Editorial,1997, p. 132.

27

acrescentar que nunca enfrentou uma transcrio mecnica do original, a substituio

de visionou por enfrentou nesta passagem causa uma mudana entre as aes dos

verbos. Borges afirma que Menard no encaro, no realizou, no fez; Nejar que ele

apenas visionou pensou em fazer e o texto revisado nos passa a informao de que

enfrentou como se estivesse travando uma batalha com o texto original. Pierre

Menard fez ou no a fraduo, de fato reazou este frabaio? No texto original de

Borges e no texto revisado, sim, o fez; no de Nejar apenas imaginou faz-lo. Verifica-

se aqui a transformao, constata-se nesta amostragem, as diversas ramificaes

semnticas a partir de um texto nico, aparentemente inteligvel.

Observa-se na proposio pero lo descarto por fc. iMs bien por imposible!

dir el lector sendo fransposta ao portugus com uma grande perda semntica, pois,

em Borges, Menard descarta uma possibilidade por fcil, no entanto, o texto borgeano

interage com o leitor quando fala que na realidade Menard no o teria descartado por

fcil, seno pelo fato de ser impossvel, como se o leitor estivesse pensando realmente

na possibilidade de uma desculpa ao utilizar a frase exclamativa. Em Carlos Nejar,

mas o afastou por fcil Menard atua como atuou no texto de partida, no obstante, a

passagem em que Borges interage com o leitor sobre o real sentido do fato de Menard

ter descartado jMs bien por imposible! dir el lector sofre uma ruptura, pois, ao

dizer Antes por impossvel! - dir o leitor no retrata a faceta irnica do original. O

advrbio Antes no tem esta carga semntica e tampouco o tipo de utilizao que

ms bien.

Esta mesma passagem, algo desarmnica na fraduo de Carlos Nejar, acaba

tendo um outro desenlace no texto revisado, mas o afastou por consider-lo fcil. Na

realidade, impossvel! - dir o leitor. O texto revisado ao utilizar Na realidade,

impossvel! reativa o lado irnico que tinha sido suprimido no texto de Nejar. Em

28

Borges, esta ironia no est oculta, o leitor no precisa reler o texto inmeras vezes

para perceb-la, assim como no texto revisado, na de Nejar esta aparece

indiretamente, como se ficssemos na dvida de se era ou no impossvel fazer esta

traduo.

As constataes feitas at aqui, nos instam a pensar sobre a questo do autor,

do tradutor, do leitor e da interculturalidade. Segundo disse o prprio Borges em Las

versiones homricas' , os tradutores estariam ampliando o sentido de suas frases, de

sua obra, recriando a partir de seus textos ou simplesmente suprimindo um ponto

semntico importante? Estas perguntas perdem seu sentido quando entendemos que

no mbito da traduo tanto a verso de Nejar quanto a reviso feita, a partir de sua

traduo, nunca sero, parafraseando a Borges, para ns o que seu original espanhol

para os argentinos, puesto que su caudal representativo, para nosotros, ser menor^ .

Por mais que se tente estabelecer um equivalente em outro idioma entre a lngua, a

literatura, a cultura, a sociedade, sempre haver o sentimento, a emoo e o sentir do

habitante nativo, daquele que passa pelos momentos, que interage com o seu povo,

vibra pelas conquistas e sofre pelas derrotas. Sentimento este, incompleto nos livros,

nas linhas e nas palavras, pois estas so artificiais, nos revelam apenas a ponta do

iceberg.

Em outra passagem, nos deparamos com a expresso acometi una empresa

complejsima y de antemo futil, sendo substituda por empreendeu uma tarefaI

complexssima e de antemo vazia, na traduo de Nejar, e empreendeu uma tarefa

complexssima e de antemo ftitil, na do texto revisado. A traduo altera o proposto

por Borges em dois planos; lingstico e semntico, pois a palavra utiUzada no

pertence a um campo conceituai totalmente idntico ao da utilizada por Borges.

Id, Ib., p. 129 - 139.Borges, Jorge Luis. Las dos maneras de traducir, p. 256 - 259,

29

Quando Borges fala sobre a contribuio que Menard deu prtica da leitura

diz: Menard {acaso sin quererlo) ha enriquecido mediante una tcnica nueva el arte

detenido y rudiinentario de la lectura. Os tradutores trocam a palavra detenido por

retardada e fixa. Ambas as palavras, apesar de fazer parte de um campo

semntico aceitvel, refletem idias diferentes do proposto por detenida e so

utilizadas geralmente em outros contextos.

A penltima, sem dvida uma das mais importantes observaes feita at

ento sobre a questo interpretativa, encontra-se no momento em que o narrador do

texto original conclui que a tcnica proposta por Menard nos instiga a ler livros

clssicos como se fossem anteriores ou posteriores a outros livros; no entanto, a

primeira traduo nega essa possibilidade.

Vejamos: Esa tcnica de aplicacin infinita nos insta a recorrer la Odisea

como si fuera posterior a la Eneida y el libro Le Jardin du Centaure de Madame Henri

Bachelier como si fuera de Madame Henri Bachelier diz Borges; Essa tcnica de

aplicao infinita no leva a percorrer a Odissia como se fora posterior Eneida e o

livro Le jardin du Centaure de Mme. Henri Bachelier com se fora de Mme, traduz

Nejar.

A partir do exposto acima, comprova-se que o texto original afirma que essa

tcnica nos leva a percorrer outras obras, j o texto de Nejar traduz essa passagem

como se a tcnica no nos levasse a percorrer essas obras; o texto revisado traduz

como proposto pelo original, nos leva a percorrer.

Todo o argiunento do conto Pierre Menard, autor dei Quijote encontra-se

reunido na expresso nos insta, nel que todos os recursos utilizados no original

passam a ter sentido, tudo converge para este fm, no entanto, tambm aqui que o

tradutor aparece, obviamente para aqueles fcjue se dem o trabalho de percorrer esta

30

anlise, como a figura que tanto pode transformar quanto bifurcar, no s em estilo

como tambm em sentido.

Ter havido uma simples gralha, ou o tradutor teria sido absorvido pelas

incongruncias do texto e levado a deduzir justamente o contrrio do que prope

Borges? Sobre isto comenta Venuti,

[...] nos damos conta, por vezes talvez de forma desagradvel, de que o tradutor est presente ao longo de toda a traduo, apesar de tomar-se visvel apenas quando a lngua notadamente d um tropeo. nessas horas que o tradutor materializa-se, no como origem transcendental do texto, mas como um agente social em conflito, foco de certas contradies que so refletidas, ainda que indiretamente, em outros nveis da prtica social.

Borges ao dizer, neste ltimo exemplo de discrepncia com o original em

relao interpretao, que No hay ejercicio intelectual que no sea finalmente intil

est se referindo idia de que se dedicar ao exerccio intelectual intil, e no que o

exerccio intelectual, o produto deste exerccio, ser utilizado para algo intil como

propem Nejar, No h exerccio intelectual que no resulte ao fim intil, e o texto

revisado, No h exerccio intelectual que no resulte ao fim intil.

Para finalizar este ponto sobre a questo interpretativa e, levando em conta os

pontos sahentados at aqui, comprovamos uma vez mais a veracidade e a vigncia do

que afirma Octavio Paz, por una parte Ia traduccin suprime Ias diferencias entre ima

lengua y otra: por la otra. Ias revela ms plenamente. (Paz, 1990) e entendemos,

tambm, que a maneira de escrever filogentica, cada escritor tem a sua.

VENUTI, Lawrence. A invisibilidade do tradutor. Traduo de Carolina Alfaro. Palavra Deparamaio de Letras da PUC-Rio, n3, 2995, Rio de Janeiro, p. 127.

31

independente de que algum nos indique a direo a seguir, a estrutura correta, o

efeito buscado, cabe a ns escolhermos a maneira precisa, o estilo. No final, a maneira

pessoal prevalece.

Se encontrar equivalentes lingsticos j bastante problemtico, muito mais

problemtico ser buscar a interpretao apropriada.

Troca de vocbulo, supresso e as mudanas em relao sintaxe

As mudanas com relao posio do adjetivo, feitas por Nejar, so bastante

comuns durante todo o processo de anlise. Em alguns casos, como por exemplo em

plebeyo placer por prazer plebeu, elas causam estranheza. Samos da idia de um

prazer simples para a de prazer de um plebeu.

O que pensar um leitor ao deparar-se com estas questes? Talvez no

devamos tentar imaginar o que pensar um leitor ao deparar-se com a expresso

prazer plebeu, do texto de Nejar, pois, este fato somente ilustra a discusso esttica,

interessa sobretudo aos escritores e crticos de traduo. Aos desconhecedores da

lngua espanhola, aos que no faro uma comparao com o original, aos supostos

leitores do texto traduzido no le parecern ms pobres; - como disse Borges em Las

dos maneras de traducir- sern ms pobres.'^ Vemos aqui um caso, segundo o

mencionado por Octavio Paz, de que a traduo transformao, e neste caso

especfico a transformao gera imi entendimento estranho ao proposto pelo texto

original.

Ao longo da anlise deste conto, pontos importantssimos para o

questionamento da prtica da traduo, reaparecem. Verifica-se, primeiramente, a

BORGES, Jorge Luis . Las dos maneras de traducir"

32

expresso siglo diecisiete sendo alterada ou transformada para a nomenclatura

romana XVII no no texto de Menard, mas no texto revisado. O que implicaria esta

mudana? O que justificaria Borges utilizar o numeral cardinal ao invs do romano?

Estaria a revisora preocupada em seguir os padres atuais da lngua portuguesa?

Quanto referncia a outros autores, feitas por Borges, pode-se dizer que este

no menciona os nomes completos, no entanto, a traduo de Carlos Nejar, utiliza em

uma determinada passagem Edgar Allan Poe para referir-se forma Poe utilizada

por Borges. Borges, ao suprimir o nome completo e cham-lo unicamente de Poe,

demonstra conhecimento, afinidade com o devido autor, Nejar, por sua vez, ao utihzar

Edgar Allan Poe, nvima tentativa de explicitar o que Poe significa no texto

original, pressupe que o leitor brasileiro desconhea quem foi o referido autor ao

incluir o seu nome na ntegra. A possvel afinidade ou cumplicidade, criada atravs da

forma pela qual apresenta o nome Poe, restaurada no texto revisado onde se l,

iguahnente, Poe.

Para Borges, criador de labirintos, de metforas, escrutinador de livros, no

escrever o nome completo de Edgar Allan Poe em seu conto faz bastante sentido. Em

Martin Fierro, segundo ele prprio comentou, - no h descrio do local dos

pampas, e no h esta descrio porque um gacho no olha para o cu por motivos

estticos, seno para ver se vai chover ou no - tambm para ele, sujeito comum aos

livros, integrante destes, reproduzir o nome completo de Poe soaria artificial.

Constata-se, nos exemplos a seguir, que o estilo de Borges, aquele que se

aleja tanto de la orfebreria verbal tpica de la prosa modernista cuanto de la

banahdad expresiva de los escritores reahstas o documentalistas de los anos 30 40

en Latinoamrica, sofire irnia transformao, passando a ser representado, nos

'SHAW, op.ci.,p. 109-110.

33

textos traduzidos, justamente por uma caracterstica no condizente com seu esto.

Vejamos alguns exemplos:

Em La carta precitada xmiina el punto possui uma traduo diferente em

ambos os textos do portugus. No primeiro, desloca-se o foco de ateno da palavra

carta para a palavra precitada e perde-se a originalidade do enunciado, de

ilumina el punto passamos para elucida a questo. No segundo caso, opta por

manter a carta em evidncia, A carta acima mencionada, no obstante, comete a

mesma falha, de uma frase literria e original obtm-se algo comum e coloquial.

Verifica-se, neste exemplo, o rompimento de certa justaposio de adjetivos,

caractersticas do texto borgeano, segundo as anlises de Barrenechea e Alazraki.

A inverso do que prope Borges, em relao colocao do adjetivo, nas

tradues de Nejar, pouco a pouco toma conta de seu texto.. Vejamos outro exemplo;

Tambin es vivido el contraste de los estilos, neste caso, o foco principal se d

sobre a palavra vivido; na traduo, Vivido tambm o contraste dos estilos ele

recai sobre tambm. Ao mudar a posio do adjetivo vivido muda-se tambm a

nfase, o foco.

As frases entre parnteses so mantidas em ambas as tradues. No entanto, o

que vai entre parnteses sofre uma alterao semntica. Borges, referindo-se terceira

interpretao sobre a traduo de Menard, captulo XXXVIII da primeira parte do

Quixote, feita pela Baronesa de Bacourt, diz; (que juzgo irrefiitable). A traduo

(que acho irrefiitvel) introduz um elemento de dvida onde havia certeza.

No momento em que Borges reflete que Menard no poderia entender a

histria como madre de la verdad, e sim como sua origem, pelo fato de ser

contemporneo de William James, argumenta que para l (Menard), a histria no

es lo que sucedi; es Io que juzgamos que sucedi. Nesta reflexo, ao utilizar a

34

palavra juzgamos Borges nos afirma algo diferente de Nejar, ou melhor, este afirma

algo distinto do que prope o original ao traduzir juzgamos por pensamos. Pensar

e julgar so atos diferentes, embora as duas palavras sejam usadas como sinnimos na

lngua coloquial. No texto revisado, a palavra utilizada para tal situao , de forma

apropriada, julgamos.

Em uma entrevista citada por Barrenechea, Borges afirmou:

Como escritor he sido siempre lento; cada frase se me presenta de varias

maneras: antes de escoger una palabra tengo que examinar muchos

sinnimos y elegir entre varias metforas.

Tal afirmao nos leva a pensar nas mudanas desnecessrias, na substituio

das palavras, na alterao da sintaxe, nos erros ortogrficos, nos erros semnticos e

nos erros de concordncia, muitas vezes, feitos pelo simples desejo de modificar,

tentando talvez, distanciar-se de uma traduo literal e justificar-se como tradutor

criador.

Segundo Venuti:

fidelidade no pode ser entendida como uma equivalncia lingstica, pois, como o tradutor obrigado a fazer escolhas interpretativas, a traduo toma-se necessariamente luna aproximao ou estimativa que vai alm do texto original. Isto no significa, entretanto, que a traduo esteja etemamente confinada esfera da liberdade, da impossibilidade, do erro e da subjetividade, pois a interpretao do tradutor limitada porum conhecimento da cultura da lngua-fonte, ainda que parcial, e por uma

18assimilao dos valores culturais da lingua-meta.

BARRENECHEA, op.cit., p, 151. VENUTI, op.cit, p. 122.

35

o que segue serve como ilustrao do exposto acima. O texto borgeano

apresenta a seguinte frase; Nada tienen de nuevo esas comprobaciones nihilistas; lo

singular es la decisin que de ellas deriv Pierre Menard, sendo modificada, por

Nejar, ao alterar a ordem dos elementos que a compem; Essas comprovaes

niilistas nada tm de novo; o extraordinrio a deciso que Pierre Menard delas

derivou. J o texto revisado, opta por uma traduo literal, mantendo, desta forma, as

palavras minuciosamente escolhidas por Borges.

Neste ltimo exemplo, tratar-se- de supresso, pois, a proposio Despus

he reledo passa a assumir a forma de Depois li, no texto de Carlos Nejar e, no

texto revisado, Depois reli. Nejar neste momento suprime a idia de repetio que

muito clara e visvel no texto de partida, pois, suprime o prazeroso hbito de leitor

incansvel atribudo a Borges por trs da expresso reledo.

Para finalizar esta seqncia de anlise, pode-se dizer, segundo o analisado at

aqui, que na maioria das vezes o texto de Nejar o mais ousado, ixma vez que inverte

a posio dos adjetivos num falaz catlogo, autnticos amigos; omite certas

estruturas, Espero, sin embargo, que... por No entanto, creio... e modifica tempos

verbais, ha tenido por houve, examinado por examinando. O texto revisado,

por sua vez, mantm-se numa posio de retaguarda, ousando menos e mantendo-se

mais literal em relao ao texto de partida.

Fluncia

Um dos pontos nevrlgicos desta anhse refere-se no-transparncia de

alguns pontos no texto revisado, ocasionada pela no-fluncia em algims momentos

da traduo e que passo a salientar no que segue.

Segundo Lyra,

.16

o tradutor, como leitor, ao entrar no jogo com o autor original, deixar sua

marca no texto traduzido. Mais ou menos visvel, esta passagem

possibilitar ao leitor da lngua alvo o ingresso nimx outro jogo que no

ser idntico ao primeiro, embora idealmente preserve seus elementos

essenciais. [...] Caber ao tradutor, como co-autor do texto traduzido,

respeitar os mesmos critrios,^^

A primeira destas passagens se d pela substituio do substantivo empresa,

presente no texto borgeano, por projeto e a no concordncia desta nova palavra

com os demais elementos do texto relacionados a ela.

No texto original h dois momentos onde esta expresso utilizada. Primeiro,

para a traduo de De acuerdo, pero la empresa era de antemano imposible y de

todos los medios imposible para Uevarla a trmino, o texto revisado, a partir da

correta traduo desta passagem por parte de Nejar, nos apresenta a seguinte falha:

De acordo, porm o projeto era de antemo impossvel e de todos os meios

impossveis para lev-la a cabo. O segundo momento se d quando no texto

borgeano temos, Mi empresa no es difcil, esencialmente, leo en otro lugar de la

carta. Me bastaria ser inmortal para Uevarla a cabo. ^Confesar que suelo imaginar

que la termin y que leo el Quijote - todo el Quijote - como si lo hubiera pensado

Menard?; no revisado lemos, Meu projeto no essencialmente difcil, leio em

outro lugar da carta. Bastar-me-ia ser imortal para realiz-la. Confessarei que

costumo imaginar que a concluiu e que leio o Quixote - todo o Quixote - como se o

tivesse pensado Menard?

LYRA, Regina M. de Oliveira Tavares. Explicar preciso? Notas de tradutor; quando, como e onde. \n Fragmentos. Florianpolis: Editora da UFSC, 1986, p. 76.

37

Erros como os anteriormente citados causaram espanto em mmtos leitores de

Borges e admiradores da traduo de Nejar.

Como relata Manoel Carlos Karam;

Por muitos anos, reli uma traduo de Fices, de Jorge Luis Borges, publicada em 1972. Um volume fisicamente resistente. Mas esto l palavras como nele, rpidamente, bca. Em 1977, decidi que era hora de buscar uma edio onde eu lesse nele, rapidamente, boca. Um dos prazeres reler Minha empresa no necessariamente difcil (...) Bastar- me-ia ser imortal para realiz-la. Est em Pierre Menard, autor dei

Quijote.Mas enfim abri a edio de 1997 para a primeira releitura. Est l Minha empresa no necessariamente difcil (...) Bastar-me-ia ser imoral para realiz-la. Fiquei pasmo diante da hiptese de ter trocado uma palavra De durante anos ter pensado que lia uma coisa e era outra. Abri os dois livros. Imortal na edio de 1972. Imoral na edio de 1997. O primeiro

sentimento foi de que a palavra imoral era pouqussimo borgeana. Mas imortal respirava Borges.Parti etn busca ento de uma edio de Fices. Uma edio espanhola de 1997 com a indicao de corresponder edio revisada pelo autor em 1974. Abri; inmoral. A traduo brasileira de Carlos Nejar.Telefonei para o poeta gacho em seu Paiol da Aurora, Guar^ari, Esprito Santo, para informar sobre o que fizeram com a palavra na edio de 1997. Espanto do tradutor.Disse que escreveria uma carta ao editor reclamando da gralha. Fiquei na espreita da publicao dos volumes brasileiros da obra completa de Borges. No volume I, 1998, imortal. Tudo teria acabado bem no fosse a

editora ter pensado numa reviso da traduo.Meu projeto no essencialmente dificil (...) Bastar-me-ia ser imortal para realiz-la. A reviso optou por trocar empresa por projeto. Sem perceber a mudana de feminino para masculino, manteve realiz-la. No telefonei novamente para Carlos Nejar, vou enviar-lhe este recorte. E

38

tambm usarei este recorte para marcar pgina nas minhas releituras de

Fices^^

A respeito do que estamos tratando aqui, diz Venuti,

[...] a fluncia na traduo gera um efeito de transparncia, a partir do qual se pressupe que o texto traduzido representa a personalidade ou a inteno do autor estrangeiro ou o sentido essencial de seu texto. Assim, a fluncia pressupe o conceito de sujeito humano como conscincia livre e

imificada que transcende as limitaes impostas pela lngua, a biografia e a histria, e que a origem do significado, do conhecimento e da ao

Para finalizar este ponto de anlise sobre a fluncia, gostaria de deixar

registrado que no processo de reviso, teoricamente mais simples do que o fato de ter

que traduzir um texto pela primeira vez, nem sempre produz um fluente e sem

distraes. Por exemplo, quando Borges fala sobre os livros de Miguel de Cervantes,

especialmente, Persiles y Sigismunda o texto revisado apresenta Pergiles e

Sigismunda. Nejar os traduz corretamente segundo prope o original. Embora o fato

ora exposto no apresente grandes problemas, no poderia deix-lo afastado da

discvisso pois, todos os fatos, independente de que sejam eles problemticos ou no,

podem trazer tona questes importantes para a prtica tradutria. Afinal de contas,

atravs destes pontos que se avalia se a traduo atingiu ou no o seu objetivo, se

houve uma imerso por parte do tradutor no verdadeiro processo tradutrio ou se este

atuou meramente de forma automtica sem questionar-se sobre sua prtica.

^httD://www.eazetadopovo.com.br/iomal/cademoe/22ago99d0m/borges.htm] v e n u t i , op. cit.,p. 117.

39

http://www.eazetadopovo.com.br/iomal/cademoe/22ago99d0m/borges.htm

Em resumo, pode-se dizer que nas tradues do conto Pierre Menard, autor

dei Quijote ambos os textos traduzidos apresentam diferenas substanciais com o

texto de partida. No obstante, a reviso mantm-se mais literal em sua traduo,

portanto, transformando e criando menos a partir do paradigma inicial,

conseqentemente errando menos, no significando com isto que no apresente

tambm seus momentos de infelicidade. Estas infelicidades, que Venuti chama de

discrepncias, so inevitveis segundo ele, pois, elas surgem na traduo a partir

da disjuno irredutvel que existe entre dois contextos semiticos (a lngua-fonte e a

lngua-meta) e entre os dois contextos sociais nos quais eles esto situados. A

traduo a conciliao instvel de dois conjuntos diferentes, s vezes conflitantes, de

determinaes culturais. ^

Biflircam-se aqui as duas veias da traduo to debatidas ao longo dos tempos

e, tambm, mencionas na Introduccin a la raduccin de la Retrica de Cicern^^

(1430): se a traduo de um texto for fiel (literal) ser obscura e no ser bela; se for

livre (no literal), o texto ser belo, no entanto, cria-se irnia ramificao a partir do

texto de partida, sendo que esta no o original, retoma-o apenas em alguns

momentos.

Id, lb.,p. 131.22

^ CARTAGENA, Afonso de. Introduccin a la traduccin de l Retrica de Cicern (1430) In El discurso sobre la traduccin en la historia. LAFARGA, Francisco (org). Barcelona, EUB, 1996, p. 92 -9 3 .

40

Captulo II - El jardn de senderos que se bifurcan

o narrador inicia o conto El jardn de senderos que se bifurcan mencionando

uma passagem da Historia de Ia guerra Europea, de Liddel Hart, em que se diz que a

ofensiva britica contra a linha Serre-Montauban, programada para o dia 24 de Mio

de 1916 teve que ser postergada para a manh do dia 24, do mesmo ms e ano, por

motivos meteorolgicos.

Em seguida, o personagem central do conto, o espio chin Yu Tsun a servio

da Alemanha, comenta que deshgou o telefone porque reconhecera a voz do Capito

Richard Madden. Neste momento Yu Tsun teme por sua vida porque sabe o Segredo,

o nome preciso do lugar do novo parque de artilharia britnico sobre o Ancre. Pensa

ento em fugir. Depois de dez minutos de reflexo, se d conta de como poderia

transmitir o Segredo aos seus superiores. A lista telefnica lhe deu o nome da nica

pessoa capaz de transmitir a notcia - vivia em Fenton, um subrbio a menos de trinta

minutos de trem.

Segundo Yu Tsun, a execuo do seu plano foi terrvel e no o realizou pela

Alemanha. Ele no se importava com um pais qu o obrigava a ser espio. Executou

seu plano porque sentia que o chefe temia um pouco os da sua raa - a los

innumerables antepasados que confluyen en m. Yo queria probarle que un amarillo

podia salvar a sus ejrcitos. Adems, yo deba huir dei capitn. Sus manos y su voz

podan golpear en cualquier momento a mi puerta.

Dirigiu-se estao de trem e partiu. Aps alguns minutos o trem se detm e

ningum grita o nome da estao, ento ele pergunta a uns garotos se aquela era a

BORGES, Jorge Luis. Ficciones. El jardn de senderos que se bifurcan. Alianza Editorial. Madrid,1998, p. 104.

estao de Ashgrove. Aps confiimarem que aquele era o destino desejado e, antes

mesmo que ele agradecesse pela ratificao, perguntam-lhe se ia casa do doutor

Stephen Albert e novamente, antes que respondesse, disse-lhe outro garoto que fosse

por um determinado caminho e que dobrasse esquerda em cada encruzilhada.

Surpreendeu-lhe o fato de que tivera que dobrar sempre esquerda, oportunidade em

que recordou que tal procedimento era comum para descobrir o ptio central de certos

labirintos. Algo entendia Yu Tsun de labirintos, pois fora bisneto de Tsui Pn,

governador de Yunnan que renunciou ao poder para escrever irai romance que fosse

ainda mais populoso que Hung Lu Meng, cuyo objetivo era edificar um labirinto no

qual se perdessem todos os homens. Treze anos havi| dedicado Tsui Pn a tal tarefa,

porm morrera assassinado por um forasteiro e ningum encontrou o labirinto.

Ao deparar-se com a casa, Yu Tsun acaba sendo recepcionado por Albert que

ao v-lo o chama e convida para que conhea o que escrevera o seu antepassado Tsui

Pn. Depois de discutir sobre a obra de seu bisav, chegando inclusive concluso de

que o tema central do livro o tempo, Yu Tsun, preocupado com a suposta chegada

do Capito Richard Madden, dispara com o seu revlver contra Stephen Albert, pois

era a nica maneira de tentar indicar, a travs dei estrpito de la guerra, a seu pas

que a cidade de Albert seria o alvo do ataque e que no encontrara outro meio que

matar uma pessoa com esse nome. Lo dems es irreal, insignificante.

A respeito do conto El jardn de senderos que se bifurcan, Borges disse em

uma entrevista a Charboimier;

Creo que eti su origen hay dos ideas; la idea dei laberinto, que me ha obsesionado siempre, y dei mundo como laberinto, y tambin una idea que no era ms que una idea de novela policial, la idea de un hombre que mata

'id. Ib., p. 1 0 0 - ]]8

42

a un desconocido para atraerse la atencin de otro... Creo que lo que es ms importante que la historia policial es la idea, es la presencia dei laberinto y luego la idea de un laberinto perdido. Me diverti con la idea no

de perderse en un laberinto, sino en un laberinto que tambin se pierde.^

Nesta obra se mezclan el suspense y lo inesperado con implicaciones

metafsicas, frmula que Borges descbri originalmente en dos escritores ingleses:

Robert Louis Stevenson (por ej., El Dr. Jekill y el Sr. Hyd) y Gilbert Keith

Chesterton (p. ej., El hombre guefue jueves).'

A trama central do conto, que envolve o personagem Yu Tstm, com narrao

em primeira pessoa, algo as como tma solucin a un problema .

O problema subjacente ao relato , para Donald Shaw,

un problema de tipo existencial y no tiene una solucin tan obvia. La facilidad misma con que, mediante un simple acto de violncia, se resuelve la dificultad concreta, hace resaltar por contraste nuestra

incapacidad angustiosa de resolver el problema abstracto existencial: llegar a descubrir una interpretacin convincente de la vida. Borges deja entrever que, a su parecer, no se puede desentranar el sentido de la existencia humana. Tan slo se pueden resolver los enigmas fabricados

por la inteligencia humana; los de la vida quedan impenetrables. ^

Para solucionar seu problema, Yu Tsun, inevitavelmente, deve matar a Albert.

No entanto^ entre o incio do seu problema - a sada de seu quarto - e o desfecho -

morte de Albert - que, fatahpente, ocorre, temos toda uma discusso sobre a

multiplicidade de escalas diferentes de tempo: una red creciente y vertiginosa de

CHARBONNIER, (apud, SHAW, Donald L. Jorge Luis Borges - Ficciones. Editoria Laia, Barcelona, 1986, p. 7],

Id, Ib., p. 72. Id. Ib., p. 72.

43

tiempos divergentes, convergentes y paralelos*" da qual ns habitualmente

percebemos apenas uma ramificao.

Muitas vezes, o leitor desatento, ou aquele que acredita febnente na

linearidade de um conto, aquele que segue uma linha cronolgica e ascendente em

relao aos fatos narrados, no se acostuma com os saltos que o escritor pode dar, e

tem uma idia distorcida do que realmente Borges quer dizer devido ao fato de que

no entende tanto as inmeras ramificaes do texto borgeano quanto a sua relao

com as demais. Em Pierre Menard, autor dei Quijote os vrios tempos se mesclam e

a concepo de tempo se altera diferentemente do que ns estamos acostumados,

presente, passado, e futuro interagindo, seno tempos metafsicos, de um passado que

j no existe mais, de um passado que existiu, ou que talvez jamais tenha existido; das

inmeras possibilidades de desfecho da ao, nada verdadeiro, tudo verdadeiro,

todas as aes so possveis, todos os tempos interagem com todas as possibilidades e

paira no pensamento do leitor a dvida fi-ente ao enigmtico mundo no

compreendido, o da prpria realidade e do acaso. Consciente e inconsciente

caminham juntos, ora se misturam, ora se separam, forma-se o labirinto.

Sobre as dif.culdades inerentes decodificao do texto borgeano, Arturo

Echavarra assinala;

[...] una lectura literal de los ensayos de Borges, por ejemplo, ha conducido a no pocos de sus lectores a formarse una imagen torcida y esencialmente falsa dei escritor y de sus intenciones. En numerosos artculos, Borges comienza por postolar y defender una idea que termina por rebatir y refutar en los ltimos renglones de ese mismo texto. Para quienes toman lo escrito al pie de la letra, el ensayista no puede ser sino un bromista superficial cuyo principal entretenimiento consiste en

6 Id. Ib., p. 76.

44

tomarles el pelo a los lectores, o an ms: el descenso al nihilismo

intelectual. Son desgraciadamente muy conocidos los vituperios que le ha valido al escritor argentino este tipo de lecturaExisten otros lectores que han ledo los ensayos de Borges como si fiieran tratados de metafsica. Porque Borges escribe sobre la metempsicosis o

alude a ella [...] se le ha llamado panteista; porque ha demostrado un apasionado inters por la metafsica dei irlands Berkeley y ha intentado negar el tiempo (ambos argumentos se encuentran en TSueva re&tacin dei tiempo, se le ha calificado, entre otras cosas, de idealista radical y se

ha incluido entre aquellos que postulan la doctrina cclica de la historia como un hecho objetivo [...]

Para muitos, o entendimento de Borges complexo, para outros, talvez, um

pouco menos assustador. No obstante, ao conhecermos um pouco mais sua forma de

escrever e suas caractersticas como escritor, percebemos algumas nuances e,

conseqentemente, passamos a l-lo no mais como ingnuos leitores, e sim como

leitores sensveis em busca de seus rastros para chegar rainifcao central, para

chegar ao incio, ao livro ancestral. Talvez, a porta para este mundo enigmtico esteja

contida em Fervor de Buenos Aires, segundo o prprio Borges j o afirmara em uma

de suas tantas entrevistas apresentadas pelo canal de televiso People & Arts. Aps

uma brilhante carreira como escritor, Borges diz que neste livro est tudo o que viria a

escrever futuramente, s que est tudo nas entrelinhas.

Entre os traos tpicos de Borges est o de sintetizar, de omitir expresses

idiomticas e de exigir um leitor cmplice e contido, decifrador de aluses,

completador de eHpses.* Em conseqncia, l melhor Borges o leitor cuja vida

tambm tenha sido dedicada aos livros.

ECHAVARRIA, Arturo. Lenguay literatura de Borges. Anel. Barcehna, 1983, p. 22.* COSTA, Walter Carlos. Borges transluz Chesterton In New Froners in Hispanic and Luso- Brazilian Scholarship. Como se fite el maestro. For Derek W. Lomax in Memoriam. Edited by Trevor

45

As, durante muchos anos, yo crd haberme criado en un suburbio de Buenos Aires, un suburbio de calles aventuradas y de ocasos visibles. Lo cierto es que me cri en un jardin, detrs de un largo muro, y en una

biblioteca de ilimitados libros ingleses... Han transcurrido ms de treinta anos, ha sido demolida la casa en que me ueron reveladas esas ficciones, he recorrido Ias ciudades de Europa, he olvidado miles de pginas, miles de insustituibles caras humanas, pero suelo pensar que, esenciahnente, nunca he salido de esa biblioteca y de ese jardn. ^Qu he hecho despus, qu har, sino tejer y destejer imaginaciones derivadas de aqullas?^

O mimdo de Borges se forma atravs dos labirintos, das redes, dos espelhos,

das torres, dos sonhos, do tempo no-linear, ou melhor, dos vrios tempos, inclusive,

no-lineares e de sua estratificao.

Em meio complexidade da formao do mimdo de Borges, tentar-se-

apontar neste captulo os pontos nevrlgicos das tradues, agrupados em ordem de

maior a menor incidncia e classificados da seguinte maneira; primeiramente, os de

interpretao; em seguida, a simples troca de vocbulo, a supresso de parte do

original, as mudanas em relao sintaxe e a abreviao e; por ltimo, a questo do

estilo.

Sobre sua relao vital com os livros, declara o prprio Borges;

J. Dadson, R. J. Oakley, P. A. Odber deBaubeta. United State of America. Edwin Mellen Presss, 1994, t). 512.

BARRENECHEA, Ana Maria. La expresin de la irrealidad en la obra de Borges. Centro Editor de Amrica Latina, 1984, p. 14.

46

Interpretao

Constato inicialmente sobre a questo de interpretao, antes mesmo de

analisar o conto propriamente dito, que o prprio titulo do conto traduzido por Carlos

Nejar apresenta a traduo de senderos por caminhos. Aqui o tradutor afasta-se

do original, pois, senderos sugere um local que possibilita acesso, no obstante, este

acesso se d de maneira precria; por caminhos tem-se tambm a mesma idia de

acesso, no entanto, compreender-se- como um acesso fcil, diferente, portanto, do

vocbulo anterior. O texto revisado utiliza o vocbulo veredas. O Dicionrio Luft

da Lngua Portuguesa^^ d a seguinte definio, e a partir dela, podemos comprovar a

veracidade da argumentao anteriormente mencionada: caminho (substantivo

masculino) - 1. Faixa de terreno destinada ao trnsito de um lugar para outro;

estrada. 2. Destino; direo. 3. Norma de procedimento, vereda (substantivo

feminino) - 1. Caminho estreito; trilha; senda. 2. Direo; rumo.

Em outro momento do conto, aps ter subido ao seu quarto, o personagem Yu

Tsun comenta, ao olhar para a janela; En la ventana estaban los tejados de siempre y

el sol nublado de Ias seis. Por outro lado, ao referir-se ao mesmo fato, seus tradutores

optam por dizer: Na janela mostravam-se os telhados de sempre e o sol nublado das

seis. Ao traduzir, estaban por mostravam-se, escolha esta desnecessria, j que

poderia ter sido utilizado perfeitamente - estavam - quebra-se novamente a seleo

do autor do texto original. O verbo estaban, utilizado no texto borgeano, est

marcado pela questo da monotonia, da simphcidade, da saturao pelo fato de ver

todos os dias o mesmo cenrio, o cansao pelo fato de ser um espio, o enjo e a

repetio; ao substitui-lo por mostravam-se temos a ruptura da carga semntica do

' LUFT, Celso Pedro. Mini-dicionrio Luft. Editora tica, 1998, p. 139 e 670.

47

verbo estaban, pois aquele expressa algo potico, como se ver aquelas rvores e o

sol nublado fosse algo aprazvel, inspirador, concluso esta totalmente diferente, da

proposta por Borges, para expressar a angstia de um espio numa de suas tarefas

mais difceis, estar longe de sua ptria e submetendo-se a situaes de risco. Seria

incongruente pensar que o espio est satisfeito com a sua situao em pas alheio e,

inclusive, lhe sobre tempo para contemplar os telhados que mostravam-se.

Em situao anloga anterior, ao ver o pssaro e o movimento que este fazia

no cu, o narrador associa o pssaro a um aeroplano e, para esta associao, no exato

momento em que o v utiliza a expresso lo traduje en un aeroplano. A opo por

traduje no involuntria, compreende-se por detrs deste verbo o verdadeiro

sentido da traduo e da metfora que Borges cria para referir-se a ela, pois,

transforma um elemento de um campo de significao para outro, da imagem

palavra. Na traduo de Nejar, tomei-o por um aeroplano, no se perde

completamente o sentido proposto pelo texto borgeano, mas nota-se a ausncia da

metfora oculta por trs da expresso lo traduje. O fato de traduzir implica uma

srie de processos conscientes e inconscientes, tomar uma coisa por outra no. O texto

revisado prefere simplesmente manter o verbo traduzir.

Segundo Octavio Paz,

la traduccin implica una transformacin dei original. Esa transformacin no es ni puede ser sino literaria porque todas Ias traducciones son operaciones que se sirven de los dos modos de expresin a que, segn Roman Jakobson, se reducen todos los procedimientos: la metonimia y la metfora. El texto original jams re)arece (seria imposible) en la otra lengua; no obstante, est presente siempre porque la traduccin, sin

48

decrlo, lo menciona constantemente o lo convierte en un objeto verbal

que, aunque distinto, lo reproduce: metonimia o metfora.^

Neste exemplo do aeroplano, Nejar destoa do que afirma Octavio Paz sobre

a inevitvel transformao do texto original e a conservao da metonimia e da

metfora, aqui falta a traduo da metfora, pois, a monotonia do espio no

reaparece no texto transformado.

Nota-se em outra passagem que o substantivo pobre, no texto borgeano,

passa a significar, primeiramente, fraca e, posteriormente, pobre no texto

revisado. Ora, quando Borges diz Mi voz humana era muy pobre poderia ter

utilizado inmeros adjetivos para qualificar o substantivo voz, dentre as vrias

possibilidades, optou por pobre. Por que esta escolha? Podemos pensar nas

amplitudes, possibilidades, e limitaes deste mecanismo hiraiano, questiona-se este

meio de comunicao; com a palavra fraca, temos apenas uma destas tantas facetas

que nos oferece a palavra anterior, limitamos sua possemia. Ao ler o texto traduzido,

sem compar-lo com o texto original, imaginamos apenas a impossibilidade da pessoa

ser ouvida, ou seja, fraca, antnimo de forte. No entanto, ao fazermos a leitura do

texto original compreendemos atravs do texto que a palavra pobre, sinnimo

utilizado para qualificar a voz, no se refere apenas questo de intensidade, seno ao

fato deste - o personagem - estar em um pas que no o seu e, alm do mais, como

espio, portanto, sem voz ativa. Nesta anlise, no se pe em questo o fato de que o

leitor do texto em espanhol e o leitor do texto em portugus faro esta inferncia

semntica, eles sequer se daro conta desta fransformao, para o de lngua espanhola

PAZ, Octavio. Traduccin: literaturay literalidad. 3ed. Barcelona Tusquets, 1990, p. 14.

49

o texto ser o que , no entanto, o de lngua portuguesa sofrer com a perda,

inconscientemente, pois este no estar fazendo uma comparao entre os textos.

A escolha do substantivo pobre, e sua utilizao no texto original se

justificam se pensarmos no que diz Borges; antes de escoger una palabra tengo que

examinar muchos sinnimos y elegir entre varias metforas' . Compreendemos,

assim, seu fascnio pela palavra escrita que maior que a expressa por outros meios

de comunicao, como disse em seu discxirso Bibliotecas, libros y lectura'^. Aquele

que leu Mi voz humana era muy pobre antes das informaes anteriores sobre o que

afirma Borges e, depois das informaes anteriores, seguramente, entender que

houve um acrscimo semntico considervel.

Referindo-se ao labirinto de seu antepassado Tsui Pn como conhecedor deste

assunto, o personagem utihza a expresso no ya de quioscos ochavados y de sendas

que vuelven, sino de rios y provncias y reinos.... No texto de Carlos Nejar,

conserva-se a estrutura anterior atravs de uma traduo literal. Por outro lado, ao

depararmos com a expresso no somente de quiosques oitavados e sendas que

voltam, mas sim de rios e provncias e reinos..., na reviso do texto de Nejar,

percebe-se que houve a substituio do advrbio j por somente. Esta substituio

afeta o sentido da frase, pois, segundo o texto de Borges e a traduo de Nejar, o

personagem no encontra mais quiosques, e sim rios e reinos e, nesta ltima traduo,

a acepo se modifica, pois entendemos que alm de quiosques h tambm rios e

reinos. A expresso no ya e no j exclui os quiosques, enquanto no somente

no o exclui totalmente, agregando por sua vez, novas significaes s j existentes;

samos da idia de descontinuidade, de modificao rumo de ampUao, do

BARRENECHEA, apud Shaw, op, cit, p. 109.BORGES, Jorge Luis. Fragmento dei discurso BibJiotecas, hbros y lectura, pronunciado na

abertura do Quarto Congresso Mundial de Leitura Argentina, 1972.

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contraste homogeneidade. Dizer que antes era Y e, agora X, diferente de dizer

que antes era Y, e agora Y + X.

Em determinado momento de seu conto, Borges utiliza a seguinte expresso;

Pero dei fondo de la ntima casa un faro se acercaba, no entanto, Carlos Nejar

decide mudar a palavra ntima por aconchegante, j o texto revisado recorre

traduo literal, permanecendo desta maneira a escolha e o estilo de Borges na seleo

da palavra, ou seja, v