roteiro - chico xavier

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Author: espiritismo-capixaba

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Sem a Boa Nova, a nossa Doutrina Consoladora será provavelmente um formoso parque de estudos e indagações, discussões e experimentos, reuniões e assembléias, louvores e assombros, mas a felicidade não é produto de deduções e demonstrações. Busquemos, pois, com o Celeste Benfeitor a lição da mente purificada, do coração aberto à verdadeira fraternidade, das mãos ativas na prática do bem e o Evangelho nos ensinará a encontrar no Espiritismo o caminho de amor e luz para a Alegria Perfeita. Emmanuel Pedro Leopoldo , 10 de junho de 1952

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    Definindo Rumos .................................................................................................................3 1 - O HOMEM ANTE A VIDA...............................................................................................5 2 - NO PLANO CARNAL....................................................................................................7 3 - O SANTURIO SUBLIME ............................................................................................9 4 - NA SENDA EVOLUTIVA ............................................................................................11 5 - NOS CRCULOS DA MATRIA.................................................................................13 6 - O PERISPRITO ...........................................................................................................15 7 - NO APRIMORAMENTO ...............................................................................................17 8 - A TERRA.....................................................................................................................19 9 - O GRANDE EDUCANDRIO .......................................................................................21 10 - RELIGIO...................................................................................................................23 11 - A F RELIGIOSA .......................................................................................................25 12 - O SERVIO RELIGIOSO ...........................................................................................27 13 - A MENSAGEM CRIST ...........................................................................................29 14 - EVANGELHO E ALEGRIA .........................................................................................31 15 - EVANGELHO E INDIVIDUALIDADE..........................................................................33 16 - EVANGELHO E CARIDADE ......................................................................................35 17 - EVANGELHO E TRABALHO......................................................................................37 18 - EVANGELHO E EXCLUSIVISMO .............................................................................39 19 - EVANGELHO E SIMPATIA ........................................................................................41 20 - EVANGELHO E DINAMISMO ....................................................................................43 21 - EVANGELHO E EDUCAO.....................................................................................45 22 - O ESPIRITISMO NA ATUALIDADE ........................................................................47 23 - NA EXTENSO DO SERVIO...................................................................................49 24 - O FENMENO ESPRITA..........................................................................................51 25 - ANTE A VIDA MENTAL..............................................................................................53 26 - AFINIDADE ................................................................................................................54 27 - MEDIUNIDADE...........................................................................................................56 28 - SINTONIA...................................................................................................................58 29 - ALM DA MORTE ......................................................................................................60 30 - RENOVAO.............................................................................................................62 31 - DESAJUSTE APARENTE ..........................................................................................64 32 - COLABORAO........................................................................................................66 33 - INDIVIDUALISMO ......................................................................................................68 34 - OBSERVAES ........................................................................................................70 35 - ENTRE AS FORAS COMUNS .................................................................................72 36 DESENVOLVIMENTO PSQUICO.............................................................................74 37 - EXPERIMENTAO ..................................................................................................76 38 - MISSO DO ESPIRITISMO .....................................................................................78 39 - DIANTE DA TERRA ...................................................................................................80 40 - ANTE O INFINITO ......................................................................................................82

    http://livroespirita.4shared.com/

    NDICE

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    Definindo Rumos Em verdade, meu amigo, ters encontrado no Espiritismo a tua renovao mental. O fenmeno ter modificado as tuas convices. As concluses filosficas alteraram, decerto, a tua viso do mundo. Admites, agora, a imortalidade do ser. Sentes a excelsitude do teu prprio destino. Mas se essa transformao da inteligncia no te reergue o corao com o aperfeioamento ntimo, se os princpios que abraas no te fazem melhor, frente dos nossos irmos da Humanidade, para que te serve o conhecimento? Se uma fora superior te no educa as emoes, se a cultura te no dirige para a elevao do carter e do sentimento, que fazes do tesouro intelectual que a vida te confia? No vale o intercmbio, somente pelo capricho atendido. A expresso gritante do inabitual pode estar vazia de substncia. A ventania impetuosa que varre o solo, com imenso alarido, costuma gerar o deserto, enquanto que o rio silencioso e simples garante a floresta e a cidade, os lares e os rebanhos. Se procuras contacto com o plano espiritual, recorda que a morte do corpo no nos santifica. Alm do tmulo, h tambm sbios e ignorantes, justos e injustos, coraes no cu e conscincias no inferno purgatorial . . . As excurses no desconhecido reclamam condutores. O Cristo o nosso Guia Divino para a conquista santificante do Mais Alm... No te afastes dEle. Registrars sublimes narraes do Infinito na palavra dos grandes orientadores, ouvirs muitas vozes amigas que te lisonjearo a personalidade, escutars novidades que te arrebatam ao xtase, entretanto, somente com Jesus no Evangelho bem vivido que reestruturaremos a nossa individualidade eterna para a sublime ascenso Conscincia do Universo.

    * * * Estas pginas despretensiosas constituem um apelo congregao de nossas foras em torno do Cristo, nosso Mestre e Senhor.

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    Sem a Boa Nova, a nossa Doutrina Consoladora ser provavelmente um formoso parque de estudos e indagaes, discusses e experimentos, reunies e assemblias, louvores e assombros, mas a felicidade no produto de dedues e demonstraes. Busquemos, pois, com o Celeste Benfeitor a lio da mente purificada, do corao aberto verdadeira fraternidade, das mos ativas na prtica do bem e o Evangelho nos ensinar a encontrar no Espiritismo o caminho de amor e luz para a Alegria Perfeita.

    Emmanuel

    Pedro Leopoldo , 10 de junho de 1952

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    1 - O HOMEM ANTE A VIDA No crepsculo da civilizao em que rumamos para a alvorada de novos milnios, o homem que amadureceu o raciocnio supera as fronteiras da inteligncia comum e acorda, dentro de si mesmo, com interrogativas que lhe incendeiam o corao. Quem somos? Donde viemos? Onde a estao de nossos destinos? margem da senda em que jornadeia, surgem os escuros estilhaos dos dolos mentirosos que adorou e, enquanto sensaes de cansao lhe assomam alma enfermia, o anseio da vida superior lhe agita os recessos do seu, qual braseiro vivo do ideal, sob a espessa camada de cinzas do desencanto. Recorre sabedoria e examina o microcosmo em que sonha. Reconhece a estreiteza do crculo em que respira. Observa as dimenses diminutas do Lar Csmico em que se desenvolve. Descobre que o Sol, sustentculo de sua apagada residncia planetria, tem um volume de 1.300.000 vezes maior que o dela. Aprende que a Lua, insignificante satlite do seu domiclio, dista mais de 380.000 quilmetros do mundo que lhe serve de bero. Os Planetas vizinhos evolucionam muito longe, no espao imenso. Dentre eles, destaca-se Marte, distante de ns cerca de 56.000.000 de quilmetros na poca de sua maior aproximao. Alongando as perquiries, alm do nosso Sol, analisa outros centros de vida. Srius ofusca-lhe a grandeza. Plux, a imponente estrela do Gmea, eclipsa-o em majestade. Capela 5.800 vezes maior. Antares apresenta volume superior. Canpus tem um brilho oitenta vezes superior ao do Sol.

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    Deslumbrado, apercebe-se de que no existe vcuo, de que a vida patrimnio de gota dgua, tanto quanto a essncia dos incomensurveis sistemas siderais, e, assombrado ante o esplendor do Universo, o homem que empreende a laboriosa tarefa do descobrimento de si mesmo volta-se para o cho a que se imanta e pede ao amor que responda soberania csmica, dentro da mesma nota de grandeza, todavia, o amor no ambiente em que ele vive ainda qual milagrosa em tenro desabrochar. Confinado ao reduzido agrupamento consangnea a que se ajusta ou compondo a equipe de interesses passageiros a que provisoriamente se enquadra, sofre a inquietao do cime, da cobia, do egosmo, da dor. No sabe dar sem receber, no consegue ajudar sem reclamar e, criando o choque da exigncia pra os outros, recolhe dos outros os choques sempre renovados da incompreenso e da discrdia, com raras possibilidades de auxiliar e auxiliar-se. Viu a Majestade Divina nos Cus e identifica em si mesmo a pobreza infinita da Terra. Tem o crebro inflamado de glria e o corao invadido de sombra. Orgulha-se, ante os espetculos magnificentes do Alto e padece a misria de baixo. Deseja comunicar aos outros quanto apreendeu e sentiu na contemplao da vida ilimitada, mas no encontra ouvidos que o entendam. Repara que o Amor, na Terra, ainda a alegria dos osis fechados. E, partindo os elos que o prendem estreita famlia do mundo, o homem que desperta, para a grandeza da Criao, perambula na Terra, maneira do viajante incompreendido e desajustado, peregrino sem ptria e sem lar, a sentir-se gro infinitesimal de poeira nos Domnios Celestiais. Nesse homem, porm, alarga-se a acstica da alma e, embora os sofrimentos que o afligem, sobre ele que as Inteligncias Superiores esto edificando os fundamentos espirituais de Nossa Humanidade.

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    2 - NO PLANO CARNAL Isolado na concha milagrosa do corpo, o esprito est reduzido em suas percepes a limites que se fazem necessrios. A esfera sensorial funciona, para ele, maneira de cmara abafadora. Viso, audio, tato, padecem enormes restries. O crebro fsico um gabinete escuro, proporcionando-lhe ensejo de recapitular e reaprender. Conhecimentos adquiridos e hbitos profundamente arraigados nos sculos a jazem na forma esttica de intuies e tendncias. Foras inexploradas e infinitos recursos nele dormem, aguardando a alavanca da vontade para se externarem no rumo da superconscincia. No templo miraculoso da carne, em que as clulas so tijolos vivos na construo da forma, nossa alma permanece provisoriamente encerrada, em temporrio olvido, mas no absoluto, porque, se transporta consigo mais vasto patrimnio de experincia, torturado por indefinveis anseios de retorno espiritualidade superior, demorando-se, enquanto no mundo opaco, em singulares e reiterados desajustes. Dentro da grade dos sentidos fisiolgicos, porm, o esprito recebe gloriosas oportunidades de trabalho no labor de auto-superao. Sob as constries naturais do plano fsico, obrigado a lapidar-se por dentro, a consolidar qualidades que o santificam e, sobretudo, a estender-se e a dilatar-se em influncia, pavimentando o caminho da prpria elevao. Aprisionado no castelo corpreo, os sentidos so exguas frestas de luz, possibilitando-lhe observaes convenientemente dosadas, a fim de que valorize, no mximo, os seus recursos no espao e no tempo. Na existncia carnal, encontra multiplicados meios de exerccio e luta para a aquisio e fixao dos dons de que necessita para respirar em mais altos climas. Pela necessidade, o verme se arrasta das profundezas para a luz. Pela necessidade, a abelha se transporta a enormes distncias, procura de flores que lhe garantam o fabrico do mel. Assim tambm, pela necessidade de sublimao, o esprito atravessa extensos tneis de sombra, na Terra, de modo a estender os poderes que lhe so peculiares.

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    Sofrendo limitaes, improvisa novos meios para a subida aos cimos da luz, marcando a prpria senda com sinais de uma compreenso mais nobre do quadro em que sonha e se agita. Torturado pela sede de Infinito, cresce com a dor que o repreende e com o trabalho que o santifica. As faculdades sensoriais so insignificantes rsteas de claridade descerrando-lhe leves notcias do prodigioso reino da luz. E quando sabe utilizar as sombras do palcio corporal que o aprisiona temporariamente, no desenvolvimento de suas faculdades divinas, meditando e agindo no bem, pouco a pouco tece as asas de amor e sabedoria com que, mais tarde, desferir venturosamente os vos sublimes e supremos, na direo da Eternidade.

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    3 - O SANTURIO SUBLIME Noutro tempo, as naes admiravam como maravilhas o Colosso de Rodes, os Jardins Suspensos da Babilnia, o Tmulo de Mausolo, e, hoje, no h quem fuja ao assombro, diante das obras surpreendentes da engenharia moderna, quais sejam a Catedral de Milo, a Torre Eiffel ou os arranha-cus de Nova Iorque. Raros estudiosos, no entanto, se recordam dos prodgios do corpo humano, realizao paciente da Sabedoria Divina, nos milnios, templo da alma, em temporrio aprendizado na Terra. Por mais se nos agigante a inteligncia, at agora no conseguimos explicar, em toda a sua harmoniosa complexidade, o milagre do crebro, com o coeficiente de bilhes de clulas; o aparelho eltrico do sistema nervoso, com os gnglios maneira de interruptores e clulas sensveis por receptores em circuito especializado, com os neurnios sensitivos, motores e intermedirios, que ajudam a graduar as impresses necessrias ao progresso da mente encarnada, dando passagem corrente nervosa, com a velocidade aproximada de setenta metros por segundo; a cmara ocular, onde as imagens viajam, da retina para os recnditos do crebro, em cuja intimidade se incorporam s telas da memria, como patrimnio inalienvel do esprito; o parque da audio, com os seus complicados recursos para o registro dos sons e para fixao deles nos recessos da alma, que seleciona rudos e palavras, definindo-os e catalogando-os na situao e no conceito que lhes so prprios; o centro da fala; a sede miraculosa do gosto, nas papilas da lngua, com um potencial de corpsculos gustativos que ultrapassa o nmero de 2.000; as admirveis revelaes do esqueleto sseo; as fibras musculares; o aparelho digestivo; o tubo intestinal; o motor do corao; a fbrica de sucos do fgado; o vaso de fermentos do pncreas; o caprichoso sistema sangneo, com os seus milhes de vidas microscpicas e com as suas artrias vigorosas, que suportam a presso de vrias atmosferas; o avanado laboratrio dos pulmes; o precioso servio de seleo dos rins; a epiderme com os seus segredos dificilmente abordveis; os rgos venerveis da atividade gensica e os fulcros eltricos e magnticos das glndulas no sistema endocrnico. No corpo humano, temos na Terra o mais sublime dos santurios e uma das supermaravilhas da Obra Divina. Da cabea aos ps, sentimos a glria do Supremo Idealizador que, pouco a pouco, no curso incessante dos milnios, organizou para o esprito em crescimento o domiclio de carne em que alma se manifesta. Maravilhosa cidade estruturada com vidas microscpicas quase imensurveis, por meio dela a mente se desenvolve e purifica, ensaiando-se nas lutas naturais e nos servios regulares do mundo, para altos encargos nos crculos superiores. A bno de um corpo, ainda que mutilado ou disforme, na Terra, como preciosa oportunidade de aperfeioamento espiritual, o maior de todos os dons que o nosso Planeta pode oferecer. At agora, de modo geral, o homem no tem sabido colaborar na preservao e na sublimao do castelo fsico. Enquanto jovem, estraga-lhe as possibilidades, de fora para

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    dentro, desperdiando-as impensadamente, e, to logo se v prejudicado por si mesmo ou prematuramente envelhecido, confia-se rebelio, destruindo-o de dentro para fora, a golpes mentais de revolta injustificvel e desespero intil. Dia surge, porm, no qual o homem reconhece a grandeza do templo vivo em que se demora no mundo e suplica o retorno a ele, como trabalhador faminto de renovao, que necessita de adequado instrumento conquista do abenoado salrio do progresso moral para a suspirada ascenso s Esferas Divinas.

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    4 - NA SENDA EVOLUTIVA Quantos milnios gastou a Natureza Divina para realizar a formao da mquina fsica em que a mente humana se exprime na Terra? O corpo para o homem santurio real de manifestao, obra-prima do trabalho seletivo de todos os reinos em que a vida planetria se subdivide. Quanto tempo despender, desse modo, a Sabedoria Celeste na estruturao do organismo da alma? Da sensao irritabilidade, da irritabilidade ao instinto, do instinto inteligncia e da inteligncia ao discernimento, sculo e sculos correram incessantes. A evoluo fruto do tempo infinito. A morte da forma somtica no modifica, de imediato, o Esprito que lhe usufrui a colaborao. Bero tmulo so simples marcos de uma condio para outra. Assim que, para as conscincias primrias, a desencarnao como se fora a entrada em certo perodo de hibernao. Aves sem asas, no se elevam altura. Aguardam o momento de novo regresso ao ninho carnal para a obteno de recursos que as habilitem para os grandes vos. Crislidas espirituais, imobilizam-se na feio exterior com que se apresentam, mas no ntimo conservam as imagens de todas as experincias que armazenaram nos recessos do ser, revivendo-as em forma de pesadelos e sonhos, imprimindo na mente as necessidades de educao ou reparao, com que devem comparecer no cenrio da carne, em momento oportuno. Para semelhantes inteligncias, a morte como que a parada compulsria, por algum tempo, diante de mais altos degraus da escada evolutiva que ainda no se acham aptas a transpor. Sem os instrumentos de exteriorizao, que lhes cabe desenvolver e consolidar, essas mentes, quando desencarnadas, sofrem considerveis alteraes da memria. Quase sempre, demoram-se nos acontecimentos que viveram e, de alguma sorte, perdem, temporariamente, a noo do tempo. Cristalizam-se, dessa maneira, em paixes e realizaes do passado que lhes prprio, para renascerem, na arena da luta material, com as caractersticas do quadro moral em que se coloram, desintegrando erros e corrigindo falhas, edificando, pouco a pouco, as qualidades sublimes com que se transportaro s Esferas Mais Altas. Em razo disso, os Espritos delinqentes ressurgem nas correntes da vida fsica, reproduzindo no patrimnio congenial as deficincias que adquiriram face da Lei. O malfeitor conservar consigo longo remorso por haver desequilibrado o curso do bem, impondo lamentvel retardamento ao avano espiritual que lhe diz respeito e, com essa perturbao, represar na prpria alma grande nmero de imagens que, na zona mental

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    dele mesmo, se digladiaro mutuamente, inibindo, por tempo indeterminvel, o acesso de elementos renovadores ao campo do prprio eu. Purificado o vaso ntimo do sentimento, renascer na paisagem das formas, com o defeito adquirido atravs do longo convvio com o desespero, com o arrependimento ou com a desiluso, reajustando o corpo perispirtico, por intermdio de laborioso esforo regenerativo na esfera carnal. Os aleijes de nascena e as molstias indefinveis constituem transitrios resultados dos prejuzos que, individualmente, causamos corrente harmoniosa da evoluo. De tomo a tomo, organizam-se os corpos astronmicos dos mundos e de pequenina experincia em pequenina experincia, infinitamente repetidas, alargasse-nos o poder da mente e sublimam-se-nos as manifestaes da alma que,no escoar das eras imensurveis, cresce no conhecimento e aprimora-se na virtude, estruturando, pacientemente, no seio do espao e do tempo, o veculo glorioso com que escalaremos, um dia, os imprios deslumbrantes da Beleza Imortal.

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    5 - NOS CRCULOS DA MATRIA Superando as vulgaridades que lhe assinalam a romagem na carne, o Esprito reconhece a sua posio de internado nos crculos da matria que, a seu turno, simplesmente o conjunto das vidas inferiores, suscetvel de ser examinado pela nossa capacidade de apreciao. Em seus mltiplos estados, a matria fora coagulada, dentro de extensas faixas dinmicas, guardando a entidade mental de tipos diversos, em seu longo roteiro evolutivo. Corpos slidos, lquidos, gasosos, fluidos densos e radiantes, energias sutis, raios de variadas espcies e poderes ocultos tecem a rede em que a nossa conscincia se desenvolve, na expanso para a imortalidade gloriosa. O homem gnio divino em aperfeioamento ou um anjo nascituro, no grande imprio das existncias microscopias, em cujo mbito escravo natural das ordenaes superiores e legtimo senhor das potncias menores. Em torno dele tudo movimento, transformao e renovao. No seio multifrio da natureza em que se agita, tudo se modifica no embate turbilhonrio das energias que lhe favorecem a experincia e a ascenso. Embora a ordem dominante nos elementos infra-infinitesimais, tudo a se desfaz e se refaz incessantemente, oferecendo ao Esprito fases importantes de materializao e desmaterializao, dentro de leis sistemticas que funcionam em igualdade de condies para todos. Mas, alm dos elementos qumicos analisados, entre o hidrognio e o urnio, que se agrupam no Planeta, atravs de infinitas combinaes, jazem as linhas de fora do mundo subatmico, geradas pelos potenciais eltricos e magnticos que presidem a todos os fenmenos da vida e, por trs dessas linhas positivas, neutras ou negativas, que constituem a matria, verdadeira aglomerao de sistemas solares microscpicos e de nebulosas infinitesimais, permanece o pensamento que tudo cria, renova e destri para refazer. A energia mental o fermento vivo que improvisa, altera, constringe, alarga, assimila, desassimila, integra, pulveriza ou recompe a matria em todas as dimenses. Por isso mesmo, somos o que decidimos, possumos o que desejamos, estamos onde preferimos e encontramos a vitria, a derrota ou a estagnao, conforme imaginamos. A histria da Criao, no livro de Moiss, idealizando o Senhor diante do abismo, simboliza a fora da mente e perante o cosmo. Faa-se a Luz _ determinou a Divina Vontade _ e a luz se fez sobre as trevas.

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    Por nossa vez, cada dia, proclamamos com as nossas idias, atitudes, palavras e atos: _ Faa-se o destino! E a vida nos traz aquilo que dela reclamamos. Os acontecimentos obedecem s nossas intenes e provocaes manifestas ou ocultas. Encontraremos o que merecemos, porque merecemos o que buscamos. A existncia, pois, para ns, em qualquer parte, ser invariavelmente segundo pensamos.

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    6 - O PERISPRITO Como ser o tecido sutil da espiritual roupagem que o homem envergar, sem o corpo de carne, alm da morte? To arrojada a tentativa de transmitir informes sobre a questo aos companheiros encarnados, quo difcil se faria esclarecer lagarta com respeito ao que ser ela depois de vencer a inrcia da crislida. Colado ao cho ou folhagem, arrastando-se, pesadamente, o inseto no desconfia que transporta consigo os germes das prprias asas. O perisprito , ainda, corpo organizao que, representando o molde fundamental da existncia para o homem, subsiste, alm do sepulcro, de conformidade com o seu peso especfico. Formado por substncias qumicas que transcendem a srie estequiogentica conhecida at agora pela cincia terrena, aparelhagem de matria rarefeita, alterando-se, de acordo com o padro vibratrio do campo interno. Organismo delicado, extremo poder plstico, modifica-se sob o comando do pensamento. necessrio, porm, acentuar que o poder apenas existe onde prevaleam a agilidade e a habilitao que s a experincia consegue conferir. Nas mentes primitivas, ignorantes e ociosas, semelhante vestidura se caracteriza pela feio pastosa, verdadeira continuao do corpo fsico, ainda animalizado ou enfermio. O progresso mental o grande doador de renovao ao equipamento do esprito em qualquer plano de evoluo. Note-se, contudo, que no nos reportamos aqui ao aperfeioamento interior. O crescimento intelectual, com intensa capacidade de ao, pode pertencer a inteligncias perversas. Da a razo de encontrarmos, em grande nmero, compactas falanges de entidades libertas dos laos fisiolgicos, operando nos crculos da perturbao e da crueldade, com admirveis recursos de modificao nos aspectos em que se exprimem. No adquiriram, ainda, a verticalidade do Amor que se eleva ao santurios divinos, na conquista da prpria sublimao, mas j se iniciaram na horizontalidade da Cincia com que influenciam aqueles que, de algum modo, ainda lhes partilham a posio espiritual. Os anjos cados no passam de grandes gnios intelectualizados com estreita capacidade de sentir.

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    Apaixonados, guardam a faculdade de alterar a expresso que lhes prpria, fascinando e vampirizando nos reinos inferiores da natureza. Entretanto, nada foge transformao e tudo se ajusta, dentro do Universo, para o geral aproveitamento da vida. A ignorncia dormente acordada e aguilhoada pela ignorncia desperta. A bondade incipiente estimulada pela bondade maior. O perisprito, quanto forma somtica, obedece a leis de gravidade, no plano a que se afina. Nossos impulsos, emoes, paixes e virtudes nele se expressam fielmente. Por isso mesmo, durante sculos e sculos no demoraremos nas esferas da luta carnal ou nas regies que lhes so fronteirias, purificando a nossa indumentria e embelezando-a, a fim de preparar, segundo o ensinamento de Jesus, a nossa veste nupcial para o banquete do servio divino.

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    7 - NO APRIMORAMENTO No aperfeioamento do corpo espiritual, alm do primitivismo de certas almas que jazem, longo tempo, entorpecidas aps a morte fsica, observemos, ainda, o quadro das mentes evolvidas intelectualmente, mas submersas nas densas vibraes decorrentes de compromissos escuros. No permanecem no regime da inrcia, em sono larval; entretanto, agitam-se nos desvarios da loucura. Criam imagens que vivem e se movimentam na intimidade delas prprias, por tempo indeterminado, cuja durao varia com a fora do impulso de suas paixes. Carregam consigo os dramas intensos de que se fizeram autoras. Encarnada na Terra, a inteligncia vive entre as provocaes da esfera carnal e as sugestes silenciosas da mente. Quanto mais intelectualizada a criatura, mais profundamente respira no plano das idias, influenciando e sendo influenciada. Geralmente, porm, o homem desequilibra os prprios sentimentos, inclinando-se, em maior ou menor percentagem, para o afastamento das leis com as quais se deve nortear. Atravessa os caminhos humanos, ganhando pouco e quase sempre perdendo muito, dentro de si mesmo, obscurecendo-se nas pesadas sombras dos pensamentos inquietantes que produz para o consumo de suas necessidades mentais. Assim que a desencarnao no lhes modifica o campo ntimo. Encasulada no crculo vibratrio das criaes que lhe dizem respeito, a alma sofre naturais inibies, ante a paisagem da vida gloriosa. No possui ainda rgo de percepo para sintonizar-se com os espetculos deslumbrantes da imensidade, encarcerada, qual se encontra, entre as paredes estranhas das concepes obscuras e estreitas em que se agita. Como a lmpada vive no seio das prprias irradiaes, imitindo luz que tambm matria sutil, a alma permanece no seio das criaes que lhe so peculiares, prendendo-se paisagem em que prevaleam as foras e desejos que lhe so afins, porque o pensamento tambm substncia rarefeita, matria dentro de expresses inabordveis at agora pelas investigaes terrestres. Podendo alimentar-se, por tempo indefinvel, das emanaes dos prprios desejos, entidades existem que estacionam, durante muitos anos, dentro dos quadros emocionais em que se comprazem, atrasando a marcha evolutiva, at que reencarnam na recapitulao das experincias em que faliram, retomando o servio de purificao interior para a sublimao de si mesmas. Desse modo, somos defrontados por dolorosos fenmenos congeniais.

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    Suicidas recomeam a luta fsica, no crculo de molstias ingratas, e criminosos reaparecem no bero, com deplorveis mutilaes e defeitos; alcolatras regressam existncia, em companhia de pais que se sintonizam com eles e grandes delinqentes reencetam a viagem do aprimoramento moral, na esfera de provas temveis, quais sejam as de enfermidades indefinveis e de aflies dificilmente remediveis. No extenso e abenoado viveiro de almas que o mundo, pouco a pouco, de sculo a sculo e de milnio a milnio, usando variados corpos e diversas posies no campo das formas, nosso esprito constri lentamente, para o prprio uso, o veculo acrisolado e divino, com que o Senhor nos reserva em plena imortalidade vitoriosa.

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    8 - A TERRA A Terra um magneto enorme, gigantesco aparelho csmico em que fazemos, a pleno cu, nossa viagem evolutiva. Comboio imenso, a deslocar-se sobre si mesmo e girando em torno do Sol, podemos comparar as classes sociais que o habitam a grandes vages de categorias diversas. De quando em quando, permutamos lugar com os nossos vizinhos e companheiros. Quem viaja em instalaes de luxo volta a conhecer os bancos humildes em carros de condio inferior. Quem segue nas acomodaes singelas, ergue-se, depois, a situaes invejveis, alterando as experincias que lhe dizem respeito. Temos a o smbolo das reencarnaes. De corpo em corpo, como quem se utiliza de variadas vestiduras, peregrina o Esprito de existncia em existncia, buscando aquisies novas para o tesouro de amor e sabedoria que lhe constituir divina garantia no campo da eternidade. Podemos, ainda, filosoficamente, classificar o Planeta, com mais propriedade, tomando-o por nossa escola multimilenria. H muitos aprendizes que lhe ocupam as instalaes, na expectativa inoperante, mas o tempo lhes cobra caro a ociosidade, separando-os, por fim, de paisagens e criaturas amadas ou relegando-os paralisia ou cristalizao, em largos despenhadeiros de sombra. Outros alunos indagam, dia e noite...e, com as perquiries viciosas, perdem os valores do tempo. Imaginemos um educandrio, em cuja intimidade comparecessem os discpulos de primria iniciao, exigindo retribuies e homenagens, antes de se confiarem ao estudo das primeiras lies. O menino bisonho no poderia reclamar esclarecimentos, quanto congregao que dirige a casa de ensino onde est recebendo as primeiras letras. E, ante a grandeza infinita da vida que nos cerca, no passamos de crianas no conhecimento superior. Vacilamos, tateamos e experimentamos, a fim de aprender e amealhar os recursos do Esprito.

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    Compete-nos, assim, to-somente, um direito: - o direito de trabalhar e servir, obedecendo s disciplinas edificantes que a Sabedoria Perfeita nos oferece, atravs das variadas circunstncias em que a nossa vida se movimenta. Ningum se engane, julgando mistificar a Natureza. O trabalho divina lei. Pesquisar indefinidamente, na maioria das vezes disfarar a preguia intelectual. A vida, porm, ciosa dos seus segredos e somente responde com segurana aos que lhe batem porta com o esforo incessante do trabalho que deseja para si a coroa resplandecente do apostolado no servio.

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    9 - O GRANDE EDUCANDRIO De portas abertas glria do ensino, a Terra, nas linhas da atividades carnal, , realmente, um universidade sublime, funcionando, em vrios cursos e disciplinas, com dois bilhes de alunos, aproximadamente, matriculados nas vrias raas e naes. Mais de vinte bilhes de almas conscientes, desencarnadas, sem nos reportarmos aos bilhes de inteligncias sub-humanas que so aproveitadas nos mltiplos servios do progresso planetrio, cercam o domiclio terrestre, demorando-se noutras faixas de evoluo. Para a maioria dessas criaturas, necessitadas de experincia nova e mais ampla, a reencarnao no somente um impositivo natural mas tambm um prmio pelo ensejo de aprendizagem. Assim que, sob a iluminada superviso das Inteligncias Divinas, cada povo, no passado ou no presente, constitui uma seo preparatria da Humanidade, frente do porvir. Ontem, aprendamos a cincia no Egito, a espiritualidade na ndia, o comrcio na Fencia, a revelao em Jerusalm, o direito em Roma e filosofia na Grcia. Hoje, adquirimos a educao na Inglaterra, a arte na Itlia, a pacincia na China, a tcnica industrial na Alemanha, o respeito liberdade na Sua e a renovao espiritual nas Amricas. Cada nao possui tarefa especifica no aprimoramento do mundo. E ainda mesmo quando os blocos raciais, em desvairo, se desmandam na guerra, movimentam-se procura de valores novos no prprio engrandecimento. Ns crculos do Planeta, vemos as mais primitivas comunidades dirigindo-se para as grandes aquisies culturais. Se verdade que a civilizao refinada de hoje voa, pelo mundo, contornando-o em algumas horas, caracterizando-se pelos mais altos primores da inteligncia, possumos milhes de irmos pela forma, infinitamente distantes do mundo moral. Quase nada diferindo dos irracionais, no conseguiram ainda fixar a mnima noo de responsabilidade. Os anes docos da Abissnia, sem qualquer vesturio e pronunciando gritos estranhos guisa de linguagem, mais se assemelham aos macacos. Os nossos irmos negros de Kytches passam os dias estirados no cho, espera de ratos com que possam mitigar a prpria fome. Entre grande parte dos africanos orientais, no existe ligao moral entre pais e filhos. Os Latucas, no interior da frica, no conhecem qualquer sentimento de compaixo ou dever.

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    Remanescentes dos primitivos habitantes das Filipinas erram nas montanhas, maneira de animais indomesticveis. E, no longe de ns, os botocudos, entregues caa e pesca, so exemplares terrveis de bruteza e ferocidade. No imenso educandrio, h tarefas mltiplas e urgentes para todos os que aprendem que a vida movimento, progresso, ascenso. Na f religiosa como na administrao dos patrimnios pblicos, na arte tanto quanto na indstria, nas obras de instruo como nas cincias agrcolas, a individualidade encontra vastssimo campo de ao, com dilatados recursos de evidenciar-se. O trabalho a escada divina de acesso aos lauris imarcescveis do esprito. Ningum precisa pedir transferncia para Jpiter ou Saturno, a fim de colaborar na criao de novos cus. A Terra, nossa casa e nossa oficina, em plena paisagem csmica, espera por ns, a fim de que a convertamos em glorioso paraso.

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    10 - RELIGIO A cincia multiplica as possibilidades dos sentidos e a filosofia aumenta os recursos do raciocnio, mas a religio a fora que alarga os potenciais do sentimento. Por isso mesmo, no corao mora o centro da vida. Dele partem as correntes imperceptveis do desejo que se substanciam em pensamento no dnamo cerebral, para depois se materializarem nas palavras, nas resolues, nos atos e nas obras de cada dia. Na luta vulgar, h quem menospreze a atividade religiosa, supondo-a mero artifcio do sacerdcio ou da poltica, entretanto, na predicao da f santificante que encontraremos as regras de conduta e perfeio de que necessitamos para o crescimento de nossa vida mental na direo das conquistas divinas. A humanidade, sintetizando o fruto das civilizaes, construo religiosa. Dos nossos antepassados invertebrados e vertebrados caminhamos nos milnios, de reencarnao em reencarnao, adquirindo inteligncia, por intermdio da experimentao incessante, mas no somente a razo o fruto de nosso aprendizado, no decurso dos sculos, mas tambm o discernimento ou a luz espiritual, com que pouco a pouco aperfeioamos a mente. A religio a fora que est edificando a Humanidade. a fbrica invisvel do carter e do sentimento. Milhes de criaturas encarnadas guardam, ainda, avanados patrimnios de animalidade. Valem-se da forma humana, como quem aproveita de uma casa nobre para a incorporao de valores educativos. Possuem corao para registrar o bem, contudo, abrigam impulsos de crueldade. O instinto da pantera, a peonha da serpente, a voracidade do lobo, ainda imperam no psiquismo de inumerveis inteligncias. S a religio consegue apagar as mais recnditas arestas do ser. Determinando nos centros profundos de elaborao do pensamento, altera, gradativamente, as caractersticas da alma, elevando-lhe o padro vibratrio, atravs da melhoria crescente de suas relaes com o mundo e com os semelhantes. Nascida no bero rstico do temor, a f iniciou o seu apostolado, ensinando s tribos primrias que o Divino Poder guarda as rdeas da suprema justia, infundindo respeito vida e aprimorando o intercmbio das almas. Dela procedem os mananciais da fraternidade realmente sentida, e, embora as formas inferiores da religio, na antigidade, muita vez incentivando a perseguio e a morte, em sacrifcios e flagelaes deplorveis, e apesar das lutas de separao e incompreenso que dividem os templos nos dias da atualidade, arregimentando-os para o dissdio em variadas fronteiras dogmticas, ainda a religio a escola soberana de formao moral do povo, dotando o esprito de poderes e luzes para a viagem da sublimao.

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    A cincia construir para o homem o clima do conforto e enriquec-lo- com os brases da cultura superior; a filosofia auxili-lo- com valiosas interpretaes dos fenmenos em que a Eterna Sabedoria se manifesta, mas somente a f, com os seus estatutos de perfeio ntima, consegue preparar nosso esprito imperecvel para a ascenso universal.

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    11 - A F RELIGIOSA Em todos os tempos, o homem sonha com a ptria celestial. As idias do cu e inferno jazem no pensamento de todos os povos. Os indgenas da Amrica admitem o paraso de caa abundante e danas permanentes, com reservas inesgotveis de fumo. Os esquims localizavam o den nas cavernas adornadas. As tribos maori, que cultivam a guerra, por estado natural de felicidade, esperam que o cu lhes seja uma rinha eterna, em que se digladiem, indefinidamente. Entre os hindus, as noes de responsabilidade e justia esto fortemente associados idia da sobrevivncia. De conformidade com a crena por eles esposadas, nas eras mais remotas, os desencarnados eram submetidos s apreciaes do Juiz dos Mortos. Os bons seriam destinados ao paraso, a fim de se deliciarem, ante os coros celestes, e os maus desceriam para os despenhadeiros do imprio de Varuna, o deus das gua, onde se instalariam em cmaras infernais, algemados uns aos outros, por laos vivos de serpentes. Situados, porm, na sementeira da verdade, sempre admitiram que do palcio celeste ou do abismo tormentoso, as almas regressariam esfera carnal, de modo a se adiantarem na cincia da perfeio. Os assrios-caldeus supunham que os mortos viviam sonolentos em regies subterrneas, sob amplo domnio das sombras. Na Grcia, a partir dos mistrios de Orfeu, as concepes de justia pstuma alcanam grau mais alto. No Hades terrificante de Homero, os Espritos so julgados por Minos, filho de Zeus. Os gauleses aceitavam a doutrina da transmigrao das almas e eram depositrios de avanadas revelaes da Espiritualidade Superior. Os hebreus localizavam os desencarnados no "scheol", que Job classifica como sendo "terra de misria e trevas, onde habitam o pavor e a morte". Com Virglio, encontramos princpios mais seguros no que se refere s leis de retribuio. Na entrada do Orco, h divindades infernais para os trabalhos punitivos, quais a Guerra, o Luto, as Doenas, a Velhice, o Medo, a Fome, os Monstros, os Centauros e as Harpias, as Frias e a Hidra de Lerna, simbolizando os terrveis suplcios mentais das almas que se fazem presas da iluso, durante a vida fsica. Entre esses deuses do abismo, ergue-se o velho ulmeiro, em cujos galhos se dependuram os sonhos, a principiando a senda que desemboca no Aqueronte, enlameado e lodoso, com largos redemoinhos de gua fervente.

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    Os egpcios atravessavam a existncia, consagrando-se aos estudos da morte, inspirados pelo ideal da justia e da felicidade, alm-tmulo. Mais recentemente, Maomet estabelece novas linhas vida espiritual, situando o Cu em sete andares e o inferno em sete sub divises. Os eleitos respiram em deliciosos jardins, com regatos de gua cristalina, leite e mel, e os condenados vivem no territrio do suplcio, onde corre ventania cruel, alimentando estranho fogo que tudo consome, e Dante, o vidente florentino, apresenta quadros expressivos do Inferno, do Purgatrio e do Cu. As realidades da sobrevivncia acompanham a alma humana que a vida no se encontra circunscrita s estreitas atividades da Terra. O corpo uma casa temporria a que se recolhe nossa alma em aprendizado. Por isso mesmo, quando atingido pelas farpas da desiluso e do cansao, o esprito humano recorda instintivamente algo intangvel que se lhe afigura ao pensamento angustiado como sendo o paraso perdido. Desajustado na Terra, pede ao Alm a mensagem de reconforto e harmonia. Semelhante momento, porm, profundamente expressivo no destino de cada alma, porque, se o corao que pede portador da boa vontade, a resposta da vida superior no se faz esperar e um novo caminho se desdobra frente da alma opressa e fatigada que se volta para o Alm, cheia de amor, sofrimento e esperana.

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    12 - O SERVIO RELIGIOSO Desde quando comeou na Terra o servio de adorao a Deus? Perde-se o alicerce da f na sombra de evos insondveis. Dir-se-ia que o primeiro impulso da planta e do verme, procura da luz, no seno anseio religioso da vida, em busca do Criador que lhes instila o ser. Considerando, porm, as escolas religiosas dos povos mais antigos, vemos no sistema egpcio a idia central da imortalidade, com avanadas concepes da Grandeza Divina, mas enclausurada nos templos do sacerdcio ou no palcio dos faras, sem ligao com o esprito popular, muita vez relegado superstio e ao abandono. Na ndia, identificando o culto da sabedoria. Instrutores eminentes a ensinam que a bondade deve ser a raiz de nossas relaes com os semelhantes, que as nossas virtudes e vcios so as foras que nos seguiro, alm do tmulo, propagando-se abenoadas lies de aperfeioamento moral e compreenso humana; entretanto, o esprito das castas a sufocou os santurios, impedindo a desejvel extenso dos benefcios espirituais aos crculos do povo. Na Prsia, temos no zoroastrismo a consagrao do nosso dever para com o Bem; todavia, as comunidades felicitadas por seus respeitveis ensinamentos se confiam a guerras de conquista e destruio. Entre os Judeus, sentimos o sopro da revelao do Deus nico, estabelecendo o reino da justia na Terra, mas, apesar da glria sublime que coroa a fronte de Moiss e dos profetas que o sucederam, o orgulho racial uma chaga viva no corao do Povo Escolhido. Na China, possumos a exaltao da simplicidade, atravs de lies que fulguram em todas as suas linhas sociais, destacando o equilbrio e a solidariedade, contudo, o grande povo chins no consegue superar as perturbaes do separativismo e do cativeiro. Na Grcia, encontramos o culto da Beleza. Os mistrios de Orfeu traam formosos ideais e constroem maravilhosos santurios. O aprimoramento da arte e da cultura, porm, no consegue criar no esprito helnico a noo do Amor Universal. Generais e filsofo usam a inteligncia para a dominao e, de modo algum, se furtam s tentaes do campo blico, acendendo a abominvel fogueira da discrdia e do arrasamento. Em Roma, surpreendemos o Direito ensinando que o patrimnio e a liberdade do prximo devem ser respeitados, no entanto, em nenhuma civilizao do mundo observamos juntos tantos gnios da flagelao e da morte. Hermes a Sabedoria. Buda a Renunciao.

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    Zoroastro o Dever. Moiss a Justia. Confcio a Harmonia. Orfeu a Beleza. Numa Pomplio o Poder. Em todos os grandes perodos da evoluo religiosa, antes do Cristo, vemos, porm, as demonstraes incompletas da espiritualidade. No h padres absolutos de perfeio moral, indicando aos homens o caminho regenerador e santificante. Aparecem linhas divisrias entre raas e castas, com vrios tipos de louvor e humilhao para ricos e pobres, senhores e escravos, vencedores e vencidos. Com Jesus, no entanto, surge no mundo o vitorioso coroamento da f. No Cristianismo, recebemos as gloriosas sementes de fraternidade que dominaro os sculos. O Divino Fundador da Boa Nova entra em contacto com a multido e o santurio do Amor Universal se abre, iluminado e sublime, para a santificao da Humanidade inteira.

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    13 - A MENSAGEM CRIST No se reveste o ensinamento de Jesus de quaisquer frmulas complicadas. Guardando embora o devido respeito a todas as escolas de revelao da f com os seus colgios iniciticos, notamos que o Senhor desce da Altura, a fim de libertar o templo do corao humano para a sublimidade do amor e da luz, atravs da fraternidade, do amor e do conhecimento. Para isso, o Mestre no exige que os homens se faam heris ou santos de um dia para outro. No pede que os seguidores pratiquem milagres, nem lhes reclama o impossvel. Dirige-se a palavra dEle vida comum, aos campos mais simples do sentimento, luta vulgar e s experincias de cada dia. Contrariamente a todos os mentores da Humanidade, que viviam, at ento, entre mistrios religiosos e dominaes polticas, convive com a massa popular, convidando as criaturas a levantarem o santurio do Senhor nos prprios coraes. Ama a Deus, Nosso Pai - ensinava Ele -, com toda a tua alma, com todo o teu corao e com todo o teu entendimento. Ama o prximo como a ti mesmo. Perdoa ao companheiro quantas vezes se fizerem necessrias. Empresta sem aguardar retribuio. Ora pelos que te perseguem e caluniam. Ajuda aos adversrios. No condenes para que no sejas condenado. A quem te pedir a capa cede igualmente a tnica. Se algum te solicita a jornada de mil passos, segue com ele dois mil. No procures o primeiro lugar nas assemblias, para que a vaidade te no tente o corao. Quem se humilha ser exaltado. Ao que te bater numa face, oferece tambm a outra. Bendize aquele que te amaldioa. Liberta e sers libertado.

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    D e recebers. S misericordioso. Faze o bem ao que te odeia. Qualquer que perder a sua vida, por amor ao apostolado da redeno, ganh-la- mais perfeita, na glria da eternidade. Resplandea a tua luz. Tem bom nimo. Deixa aos mortos o cuidado de enterrar os seus mortos. Se pretendes encontrar-me na luz da ressurreio, nega a ti mesmo, alegra-te sob o peso da cruz dos prprios deveres e segue-me os passos no calvrio de suor e sacrifcio que precede os jbilos da aurora divina! E, diante desses apelos, gradativamente, h vinte sculos, calam-se as vozes que mandam revidar e ferir!... E a palavra do Cristo, acima de editos e espadas, decretos e encclicas, sobe sempre e cresce cada vez mais, na acstica do mundo, preparando os homens e a vida para a soberania do Amor Universal.

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    14 - EVANGELHO E ALEGRIA Grande injustia comete quem afirma encontrar no Evangelho a religio da tristeza e da amargura. Indubitavelmente, o sacerdcio muita vez impregnou o horizonte cristo de nuvens sombrias, com certas etiquetas do culto exterior, mas o Cristianismo, em sua essncia, a revelao da profunda alegria do Cu entre as sombras da Terra. A vinda do Mestre precedida pela visitao do anjos. Maria, jubilosa, conversa com um mensageiro divino que a esclarece sobre a chegada do Embaixador Celestial. Nasce Jesus na manjedoura humilde, que se deslumbra ao claro de inesperada estrela. Tratadores rsticos so chamados por um emissrio espiritual, repentinamente materializado frente deles, declarando-se portador das notcias de grande alegria para todos o povo. No mesmo instante, vozes cristalinas entoam cnticos na Altura, glorificando o Criador e exaltando a paz e a boa-vontade entre os homens. Comeam a reinar o contentamento e a esperana... Mais tarde, o Mestre inicia o seu apostolado numa festa nupcial, assinalando os jbilos da famlia. Como que percebendo limitao e estreiteza em qualquer templo de pedra para a sua palavra no mundo, o Senhor principia as suas pregaes beira do lago, em pleno santurio da natureza. Flores e pssaros, luz e perfume representam a moldura de sua doutrinao. Multides ouvem-lhe a voz balsamizante. Doentes e aleijados tocam-se de infinitas consolaes. Pobres e aflitos entrevem novos horizontes no futuro. Mulheres e crianas acompanham-no, alegremente. O Sermo da Montanha o hino das bem-aventuranas, suprimindo a aflio e o desespero. Por onde passa o Divino Amigo, estabelece-se o contentamento contagiante. Em pleno campo, multiplica-se o po destinado aos famintos.

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    O tratamento dispensado pelo Mestre aos sofredores, considerados inteis ou desprezveis, cria novos padres de confiana no mundo. Desdobra-se o apostolado da Boa Nova, no clima da alegria perfeita. Cada criatura que registra as notas consoladoras do Evangelho comea a contemplar o mundo e a vida, atravs de prisma diferente. Surge-lhe a Terra por bendita escola de preparao espiritual, com servio santificante para todos. Cada enfermo que se refaz para a sade veculo de bom nimo para a comunidade inteira. Cada sofredor que se reconforta constitui edificao moral para a turba imensa. Madalena, que se engrandece no amor, a beleza que renasce eterna, e Lzaro, que se ergue do sepulcro, a vida triunfante que ressurge imortal. E, ainda, do suor sangrento das lgrimas da cruz, o Senhor faz que flua o manancial da vida vitoriosa pra o mundo inteiro, com o sol da ressurreio a irradiar-se para a Humanidade, sustentando-lhe o crescimento espiritual na direo dos sculos sem-fim.

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    15 - EVANGELHO E INDIVIDUALIDADE Efetivamente,as massas acompanhavam o Cristo, de perto, no entanto, no vemos no Mestre a personificao do agitador comum. Em todos os climas polticos, as escolas religiosas, aproximando-se da legalidade humana, de alguma sorte partilham da governana, estabelecendo regras espirituais com que adquirem poder sobre a multido. Jesus, porm, no transforma o esprito coletivo em terreno explorvel. Proclamando as bem-aventuranas turba no monte, no a induz para a violncia, a fim de assaltar o celeiro dos outros. Multiplica, Ele mesmo, o po que a reconforte e alimente. No convida o povo a reivindicaes. Aconselha respeito aos patrimnios da direo poltica, na sbia frmula com que recomendava seja dado a Csar o que de Csar. Muitos estudiosos do Cristianismo pretendem identificar no Mestre Divino a personalidade do revolucionrio, instigando os seus contemporneos rebeldia e discrdia; entretanto, em nenhuma passagem do seu ministrio encontramos qualquer testemunho de indisciplina ou desespero, diante da ordem constituda. Socorreu a turba sofredora e consolou-a; no se mostrou interessado em libertar a comunidade das criaturas, cuja evoluo, at hoje, ainda exige lutas acerbas e provaes incessantes, mas ajudou o Homem a libertar-se. Ao apstolo exclama _ vem e segue-me. pecadora exorta _ vai e no peques mais. Ao paraltico fala, bondoso _ ergue-te e anda. mulher sirofencia diz, convincente _ a tua f te curou. Por toda parte, vemo-lo interessado em levantar o esprito, buscando erigir o templo da responsabilidade em cada conscincia e o altar dos servios aos semelhantes em cada corao. Demonstrando as preocupaes que o tomavam, perante a renovao do mundo individual, no se contentou em sentar-se no trono diretivo, em que os generais e os legisladores costumam ditar determinaes... Desceu, Ele prprio, ao seio do povo e entendeu-se pessoalmente com os velhos e os enfermos, com as mulheres e as crianas. Entreteve-se em dilatadas conversaes com as criaturas transviadas e reconhecidamente infelizes.

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    Usa a bondade fraternal para com Madalena, a obsidiada, quanto emprega a gentileza no trato com Zaqueu, o rico. Reconhecendo que a tirania e a dor deveriam permanecer, ainda, por largo tempo, na Terra, na condio de males necessrios retificao das inteligncias, o Benfeitor Celeste foi, acima de tudo, o orientador da transformao individual, o nico movimento de liberao do esprito, com bases no esforo prprio e na renncia ao prprio eu. Para isso, lutou, amou, serviu e sofreu at cruz, confirmando, com o prprio sacrifcio, a sua Doutrina de revoluo interior, quando disse: e aquele que deseja fazer-se o maior no Reino do Cu, seja no mundo o servidor do todos.

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    16 - EVANGELHO E CARIDADE Antes de Jesus, a caridade desconhecida. Os monumentos das civilizaes antigas no se reportam divina virtude. Os destroos do palcio de Nabucodonosor, no solo em que ser erguia a grandeza de Babilnica, falam simplesmente de fausto e poder que os sculos consumiram. Nas lembranas do Egito glorioso, as Pirmides no se referem compaixo. Os famosos hipogeus de Perspolis so atestados de orgulho racial. As muralhas da China traduzem a preocupao de defesa. Nos velhos santurios da ndia, o Todo-Poderoso venerado por milhes de fiis, indiscutivelmente sinceros, mas deliberadamente afastados dos semelhantes, nascidos na condio de prias desprezveis. A acrpole de Atenas, com as suas colunas respeitveis, louvor inteligncia. O coliseu de Vespasiano, em Roma, monumento levantado ao triunfo blico, para as expanses da alegria popular. Por milnios numerosos, o homem admitiu a hegemonia dos mais fortes e consagrou-a atravs da arte e da cultura que era suscetvel de criar e desenvolver. Com Jesus, porm, a paisagem social experimenta decisivas alteraes. O Mestre no se limita a ensinar o bem. Desce ao convvio com a multido e materializa-o com o prprio esforo. Cura os doentes na via pblica, sem cerimoniais, e ajuda a milhares de ouvintes, amparando-os na soluo dos mais complicados problemas de natureza moral, sem valer-se das etiquetas do culto externo. Lega aos discpulos a parbola do bem samaritano, que exalta a misso sublime da caridade para sempre. A histria simples e expressiva. Transmite Lucas a palavra do Celeste Orientador, explicando que descia um homem de Jerusalm para Jeric e caiu nas mos dos salteadores que o despojaram, espancando-o e deixando-o semimorto. Ocasionalmente, passava pelo mesmo caminho um sacerdote e, vendo-o, passou de largo. E, de igual modo, tambm um levita, abordando o mesmo lugar e observando-o, passou a distncia. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao p dele e, reparando-o, moveu-se de ntima piedade. Abeirando-se do infortunado, aliviou-lhe

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    as feridas e, colocando-o sobre sua cavalgadura, cuidadosamente asilou-o numa estalagem. Vemos, dentro da narrativa, que o Senhor situa no necessitado simplesmente um homem. No lhe identifica a raa, a cor, a posio social ou os pontos de vista. Nele, enxerga a Humanidade sofredora, carecente de auxlio das criaturas que acendam a luz da caridade, acima de todos os preconceitos de classe ou de religio. Desde a, novo movimento de solidariedade humana surge na Terra. No curso do tempo, dispersam-se os apstolos, ensinando, em variadas regies do mundo, que mais vale dar que receber. E, inspirados na lio do Senhor, os vanguardeiros do bem substituem os vales da imundcie pelos hospitais confortveis; combatem vcios multimilenrios, com orfanatos e creches; instalam escolas, onde a cultura jazia confiada aos escravos; criam institutos de socorro e previdncia, onde a sociedade mantinha a mendicncia para os mais fracos. E a caridade, como gnio cristo na Terra, continua crescendo com os sculos, atravs da bondade de um Francisco de Assis, da dedicao de um Vicente de Paulo, da benemerncia de um Rockfeller ou da fraternidade do companheiro annimo da via pblica, salientando, valorosa e sublime, que o Esprito do Cristo prossegue agindo conosco e por ns.

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    17 - EVANGELHO E TRABALHO A glorificao do trabalho servio evanglico. Antecedendo a influncia do Mestre, a Terra era vasto latifndio povoado de senhores e escravos. O servio era considerado desonra. Dominadas pelo princpio da fora, as naes guardavam imensa semelhana com as tabas da comunidade primignia. O destaque social resultava da caa. Erguiam-se os tronos, quase sempre, sobre escuros alicerces de rapinagem. Os favores da vida pertenciam aos mais argutos e aos mais poderosos. Qualquer infelicidade econmica redundava em compulsrio cativeiro. Trabalho era sinnimo de aviltao. Os espritos mais nobres, na maioria das vezes, demoravam-se na subalternidade absoluta, suando e gemendo para sustentar o carro purpreo dos opressores. Em toda as cidades, pululavam escravos de todos os matizes e somente a eles era conferido o dever de servir, como austera punio. Roma imperial jazia repleta de cativos tomados ao Egito e Grcia, Glia e ao Ponto. S na revoluo de Esprtaco, no ano de 71, antes da era crist, foram condenados morte trinta mil escravos na Via pia, cuja nica falta era aspirar ao trabalho digno em liberdade edificante. Com Jesus, no entanto, nova poca surge para o mundo. O ministrio do Senhor , sobretudo, de ao e movimento. Levanta-se o Mestre com o dia e devota-se ao bem dos semelhantes pela noite a dentro. Mdico _ no descansa no auxlio efetivo aos doentes. Professor _ no se fatiga, repetindo as lies. Juiz _ exemplifica a imparcialidade e a tolerncia. Benfeitor _ espalha, sem cessar, as bnos do amor infinito. Sbio _ coloca a cincia do bem ao alcance de todos.

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    Advogado _ defende os interesses dos fracos e dos humildes. Trabalhador divino _ serve a todos, sem reclamao e sem recompensa. O exemplo do Cristo sublime e contagiante. Cada companheiro de apostolado ausenta-se, mais tarde, do comodismo para ajudar e ensinar em seu nome, raspando horizontes mais vastos compreenso da vida, em regies distantes do bero que os vira nascer. Mais tarde, em Roma, o desejo de auxlio mtuo entre os cristos atinge inconcebveis realizaes no captulo do trabalho. Pessoas convertidas ao Evangelho se consagram, inteiramente, ao servio como o objetivo de amparar os companheiros necessitados. Espalham-se aprendizes da Boa Nova nas atividades da indstria e da agricultura, das artes e das cincias, da instruo e do comrcio, da enfermagem e da limpeza pblica, disputando recursos para o auxlio aos associados de ideal, na servido ou na indigncia, no sofrimento e nas prises. H quem jejue por dois e trs dias seguidos, a fim de economizar dinheiro para os servios de assistncia ao prximo, sob a direo do pastor. O trabalho passa, ento, a ser interpretado por beno divina. Paulo de Tarso, transferindo-se da dignidade do Sindrio para o duro labor do tear, confeccionando tapetes para no ser pesado a ningum e garantindo, por esse modo, a sua liberdade de palavra e de ao, o smbolo do cristo que educa e realiza, demonstrando que claridade do ensino deve aliar-se a glria do exemplo. E, at hoje, honrando no trabalho digno a sua norma fundamental de ao, o Cristianismo a fora libertadora da Humanidade, nos quadrantes do mundo inteiro.

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    18 - EVANGELHO E EXCLUSIVISMO Quase todos os santurios religiosos divididos entre si, na esfera dogmtica, isolam-se indebitamente, disputando privilgios e primazias. E at mesmo nos crculos da atividade crist, o esprito de exclusivismo tem dominado grupos de escol, desde os primeiros sculos de sua constituio. Em nome do Cristo, muitas vezes a tirania poltica e o despotismo intelectual organizaram guerras, atearam fogueiras, incentivaram a perseguio e entronizaram a morte. Pretendendo representar o Mestre, que no possua uma pedra onde repousar a cabea dolorida, o Imperador Focas estabelece o Papado, em 607, exalando a vaidade romana. Supondo agir na condio de seus defensores, Godofredo de Bulho e Tancredo de Siracusa organizam, em 1096, um exrcito de 500.000 homens e estimulam conflitos sangrentos, combatendo pela reivindicao de terras e relquias que recordam a divina passagem de Jesus pela Terra. Acreditando preservar-lhe os princpios salvadores, Gregrio IX, em 1231, consolida o Tribunal da Inquisio, adensando a sombra e fortalecendo criminosas flagelaes, no campo da f religiosa. Convictos de garantir-lhe a Doutrina, os sacerdotes punem com o suplcio e com a morte valorosos pioneiros do progresso planetrio, quais sejam Giordano Bruno e Joo Huss. Semelhantes violncias, todavia, no passam de manifestaes do esprito belicoso que preside as inquietudes humanas. Cristo nunca endossou o dogmatismo e a intransigncia por normas de ao. Afirma no haver nascido par destruir a Lei Antiga, mas para dar-lhe fiel cumprimento. No hostiliza seno a perversidade deliberada. No guerreia. No condena. No critica. Combate o mal, socorrendo-lhe as vtimas. D-se a todos. Ensina com pacincia e bondade o caminho real da redeno. Comea o ministrio da palavra, conversando com os doutores do Templo, e termina o apostolado, palestrando com os ladres. A ningum desdenha e os transviados infelizes lhe merecem mais calorosa ateno.

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    Prepara o esprito dos pescadores para os grandes cometimentos do Evangelho, com admirvel confiana e profunda bondade, sem exigir-lhes qualquer atestado de pureza racial. Auxilia mulheres desventuradas, com serenidade e desassombro, em contraposio com os preconceitos do tempo, trazendo-as, de novo, dignidade feminina. No busca ttulos e, sim, inclina-se, atencioso, para os coraes. Nicodemos, o mestre de Israel, e Bartimeu, o cego desprezado, recebem dEle a mesma expresso afetiva. A intolerncia jamais compareceu ao lado de Jesus, na propagao da Boa Nova. O isolacionismo orgulhoso, na esfera crist, simples criao humana, fadado naturalmente a desaparecer, porque, na realidade, nenhuma doutrina, quanto o Cristianismo, trouxe, at agora, ao mundo atormentado e dividido os elos de amor e luz da verdadeira solidariedade.

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    19 - EVANGELHO E SIMPATIA Do apostolado de Jesus, destaca-se a simpatia por alicerce da felicidade humana. A violncia no consta da sua tcnica de conquistar. Ainda hoje, vemos vasta fileira de lidadores do sacerdcio usando, em nome dEle, a imposio e a crueldade; todavia, o Mestre, invariavelmente, pautou os seus ensinamentos nas mais amplas normas de respeito aos seus contemporneos. Jamais faltou com o entendimento justo para com as pessoas e as situaes. Divino Semeador, sabia que no basta plantar os bons princpios e sim oferecer, antes de tudo, semente favorveis condies, necessrios germinao e ao crescimento. Certo, em se tratando do interesse coletivo, Jesus no menoscaba a energia benfica. Exprobra o comercialismo desenfreado que humilha o Templo, quanto profliga os erros de sua poca. Entretanto, diante das criaturas dominadas pelo mal, enche-se de profunda compaixo e tolerncia construtivas. Aos enfermos no indaga quanto causa das aflies que os vergastam, para irrit-los com reclamaes. Aos enfermos no indaga quando causa das aflies que os vergastam, para irrit-los com reclamaes. Auxilia-os e cura-os. Os apontamentos que dirige aos pecadores e transviados so recomendaes doces e sutis. Ao doente curado do Tanque de Betesda, explica despretensioso: _ Vai e no reincidas no erro para que te no acontea coisa pior. pobre mulher, apedrejada na praa pblica, adverte, bondoso: _ Vai e no peques mais. No indica o inferno s vitimas da sombra. Reergue-as, compassivo, e acende-lhes nova luz. Compreende os problemas e as lutas de cada um.

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    Atrai as crianas a si, compadecidamente, infundindo nova confiana aos coraes maternos. Sabe que Pedro frgil, mas no desespera e confia nele. Contempla o torvo drama do esprito de Judas, no entanto, no o expulsa. Reconhece que a maioria dos beneficirios no se revelam altura das concesses que solicitam, contudo, no lhes nega assistncia. Preso, recompe e orelha de Malco, o soldado. frente de Pilatos e da ntipas, no pede providncias suscetveis de lanar a discrdia, ainda mesmo a ttulo de preservao da justia. Longe de impacientar-se com a presena dos malfeitores que tambm sofreram a crucificao, inclina-se amistosamente para eles e busca entend-los e encoraja-los. turba que o rodeia com palavres e cutiladas envia pensamentos de paz e votos de perdo. E, ainda alm da morte, no foge aos companheiros que fugiram. Materializa-se, diante deles, induzindo-os ao servio da regenerao humana, com o incentivo de sua presena e de seu amor, at ao fim da luta. Em todas as passagens do Evangelho, perante o corao humano, sentimos no Senhor o campeo da simpatia, ensinando como sanar o mal e construir o bem. E desde a Manjedoura, sob a sua divina inspirao, um novo caminho redentor se abre aos homens, no rumo da paz e da felicidade, com bases no auxlio mtuo e no esprito de servio, na bondade e na confraternizao.

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    20 - EVANGELHO E DINAMISMO Desde os primrdios da organizao religiosa no mundo, h quem estime a vida contemplativa absoluta por introduo imprescindvel s alegrias celestiais. Cristalizado em semelhante atitude, o crente demanda lugares ermos como se a solido fosse sinnimo de santidade. Poder, contudo, o diamante fulgurar no mostrurio da beleza, fugindo ao lapidrio que lhe apura o valor? Com o Cristo, no vemos a idia de repouso improdutivo como preparao do Cu. No foge o Mestre ao contacto com a luta comum. A Boa Nova em seu corao, em seu verbo e em seus braos essencialmente dinmica. No se contenta em ser procurado para mitigar o sofrimento e socorrer a aflio. Vai, Ele mesmo, ao encontro das necessidades alheias, sem alardear presuno. Instrui a alma do povo, em pleno campo, dando a entender que todo lugar sagrado para a Divina Manifestao. No adota posio especial, a fim de receber os doentes e impressiona-los. Na praa pblica, limpa os leprosos e restaura a viso dos cegos. beira do lago, entre pescadores, reergue paralticos. Em meio da multido, doutrina entidades da sombra, reequilibrando obsidiados e possessos. Mateus, no captulo nove, versculo trinta e cinco, informa que Jesus percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nos templos que encontrava, pregando o Evangelho do Reino e curando todas as enfermidades que assediavam o povo. Em ocasio alguma o encontramos fora de ao. Quando se dirige ao monte ou ao deserto, a fim de orar, no a fuga que pretende e sim a renovao das energias para poder consagrar-se, mais intensamente, atividade. Certamente, para exaltar os mritos do Reino de Deus, no se revela pregoeiro barato da rua, mas afirma-se, invariavelmente, pronto a servir. Atencioso, presta assistncia sogra de Pedro e visita, afetuosamente, a casa de Levi, o publicano, que lhe oferece um banquete.

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    No impe condies para o desempenho da misso de bondade que o retm ao lado das criaturas. No usa roupagens especiais para entender-se com Maria de Magdala, nem se enclausura em preconceitos de religio ou de raa para deixar de atender aos doentes infelizes. Seja onde for, sem subestimar os valores do Cu, ajuda, esclarece, ampara e salva. Com o Evangelho, institui-se entre os homens o culto da verdadeira fraternidade. O Poder Divino no permanece encerrado na simbologia dos templos de pedra. Liberta-se. Volta-se para a esfera pblica. Marcha ao encontro da necessidade e da ignorncia, da dor e da misria. Abraa os desventurados e levanta os cados. No mais a tirania de Baal, nem o favoritismo de Jpiter, mas Deus, o Pai, que, atravs de Jesus Cristo, inicia na Terra o servio da f renovadora e dinmica que, sendo xtase e confiana, tambm compreenso e caridade para a ascenso do esprito humano Luz Universal.

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    21 - EVANGELHO E EDUCAO Quando o mestre confiou ao mundo a divina mensagem da Boa Nova, a Terra, sem dvida, no se achava desprovida de slida cultura. Na Grcia, as artes haviam atingido luminosa culminncia e, em Roma, bibliotecas preciosas circulavam por toda parte, divulgando a poltica e a cincia, a filosofia e a religio. Os escritores possuam corpos de copistas especializados e professores emritos conservavam tradies e ensinamentos, preservando o tesouro da inteligncia. Prosperava a instituio, em todos os lugares, mas a educao demorava-se em lamentvel pobreza. O cativeiro consagrado por lei era flagelo comum. A mulher, aviltada em quase todas as regies, recebia tratamento inferior ao que se dispensava aos cavalos. Homens de conscincia enobrecia, por infelicidade financeira ou por questinculas de raa, eram assinalados a ferro candente e submetidos penosa servido, anotados como animais. Os pais podiam vender os filhos. Era razovel cegar os vencidos e aproveita-los em servios domsticos. As crianas fracas eram, quase sempre, punidas com a morte. Enfermos eram sentenciados ao abandono. As mulheres infelizes podiam ser apedrejadas com o beneplcito da justia. Os mutilados deviam perecer nos campos de luta, categorizados conta de carne intil. Qualquer tirano desfrutava o direito do reduzir os governados extrema penria, sem ser incomodado por ningum. Feras devoravam homens vivos nos espetculos e divertimentos pblicos, com aplauso geral. Rara a festividade do povo que transcorria sem vasta efuso de sangue humano, como impositivo natural dos costumes. Com Jesus, entretanto, comea uma era nova para o sentimento.

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    Condenado ao supremo sacrifcio, sem reclamar, e rogando o perdo celeste para aqueles que o vergastavam a feriam, instila no nimo dos seguidores novas disposies espirituais. Iluminados pela Divina Influncia, os discpulos do Mestre consagram-se ao servio dos semelhantes. Simo Pedro e os companheiros dedicam-se aos doentes e infortunados. Instituem-se casas de socorro para os necessitados e escolas de evangelizao para o esprito popular. Pouco a pouco, altera-se a paisagem social, no curso dos sculos. Dilacerados e atormentados, entregues ao supremo sacrifcio nas demonstraes sanguinolentas dos tribunais e das praas pblicas, ou trancafiados nas prises, os aprendizes do Evangelho ensinam a compaixo e a solidariedade, a bondade e o amor, a fortaleza moral e a esperana. H grupos de servidores, que se devotam ao trabalho remunerado para a libertao de numerosos cativos. Senhores da fortuna e da terra, tocados nas fibras mais ntimas, devolvem escravos ao mundo livre. Doentes encontram remdio, mendigos acham teto, desesperados se reconfortam, rfos so recebidos no lar. Nova mentalidade surge na Terra. O corao educado aparece, por abenoada luz, nas sombras da vida. A gentileza e a afabilidade passam a reger o campo das boas maneiras e, sob a inspirao do Mestre Crucificado, homens de ptrias e raas diferentes aprenderam a encontrar-se com alegria, exclamando, felizes: _ meu irmo.

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    22 - O ESPIRITISMO NA ATUALIDADE O Espiritismo, nos tempos modernos, , sem dvida, a revivescncia do Cristianismo em seus fundamentos mais simples. Descerrando a cortina densa, postada entre os dois mundos, nos domnios vibratrios em que a vida se manifesta, mereceu, desde a primeira hora de suas arregimentaes doutrinrias, o interesse da cincia investigadora que procura escraviz-lo ao gabinete ou ao laboratrio, qual se fora mera descoberta de energias ocultas da natureza, como a da eletricidade, que o homem submete ao seu bel-prazer, na extenso de vantagens ao comodismo fsico.. Interessada no fenmeno, a especulao analisa-lhe os componentes, acreditando encontrar, no intercmbio entre as duas esferas, nada mais que respostas a velhas questes de filosofia, sem qualquer conseqncia de ordem moral, na experincia humana. Erra, todavia, quem se norteia por essas normas, de vez que o Espiritismo, positivando a sobrevivncia alm da morte, envolve em si mesmo vasto quadro de ilaes, no campo da tica religiosa, constrangendo o homem a mais largas reflexes no campo da justia. No cogitamos aqui de dogmtica, de apologtica ou de qualquer outro ramo das escolas de f em seus aspectos sectrios. No nos reportamos a religies, mas Religio, propriamente considerada como sistema de crescimento da alma para celeste comunho com o Esprito Divino. Desdobrando o painel das responsabilidades que a vida nos confere, o novo movimento de revelao implica abenoado e compulsrio desenvolvimento mental. A permuta com os crculos de ao dos desencarnados compele a criatura a pensar com mais amplitude, dentro da vida. Novos aspectos da evoluo se lhe descortinam e mais rico material de pensamento lhe enriquece os celeiros do raciocnio e da observao. Entretanto, como cada recipiente guarda o contedo dessa ou daquela substncia, segundo a conformao e a situao que lhe so prprias, a Doutrina Renovadora, com os seus benefcios, passa despercebida ou escassamente aproveitada pelos que se inclinam s discusses sem utilidade, pelos que se demoram no xtase improdutivo ou pelos que se arrojam aos despenhadeiros da sombra, companheiros ainda inaptos para os conhecimentos de ordem superior, trazidos Terra, no para a defesa do egosmo ou da animalidade, mas sim para a espiritualizao de todos os seres. De que nos valeria a prodigiosa descoberta de Watt, se o vapor no fosse disciplinado, a benefcio da civilizao? Que faramos da eletricidade, sem os elementos de conteno e transformao que lhe controlam os impulsos?

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    No Espiritismo fenomnico, somos constantemente defrontados por aluvies de foras inteligentes, mas nem sempre sublimadas, que nos assediam e nos reclamam. Aprendemos que a morte questo de seqncia nos servios da natureza. Reconhecemos que a vida estua, ao redor de nossos passos, nos mais variados graus de evoluo. Da o impositivo da fora disciplinar. Urge o estabelecimento de recursos para a ordenao justa das manifestaes que dizem respeito nova ordem de princpios que se instalam vitoriosos na mente de cada um. E, para cumprir essa grande misso, o Evangelho chamado a orientar os aprendizes da cincia do esprito, para que, levianos ou desavisados, no se precipitem a imensos resvaladouros de amargura ou desiluso.

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    23 - NA EXTENSO DO SERVIO Que seria do Espiritismo se no guardasse finalidades de aperfeioamento da prpria Terra, onde se expressa por movimento libertador doas conscincias? Seria louvvel subtrair o homem do campo funo laboriosa da sementeira, distraindo-o com narrativas brilhantes e induzindo-o inrcia? Seria aconselhvel a imposio do xtase ao esforo ativo, congelando-se preciosas oportunidades de realizao para o bem? Mas, se nos abeirarmos do trabalhador, com o intuito de estimula-lo ao servio, auxiliando-lhe o entendimento, para que a tarefa se lhe faa menos sacrificial, e favorecendo-o a fim de que descubra, por si mesmo, os degraus da prpria elevao, estaremos edificando o bem legtimo, no aprimoramento da vida e da coletividade. De que valeria a intimidade do homem com os Espritos domiciliados em outras esferas, sem proveito para a existncia que lhe peculiar? No ser deplorvel perda de tempo informarmo-nos, sem propsito honesto, quanto aos regulamentos que regem a casa alheia? Se a criatura humana ainda no pode dispensar o suprimento de protenas e carboidratados, de oxignio e vitaminas, se no pode prescindir do banho e da leitura, por que induzi-la ao ocioso prazer das indagaes sem elevao de vistas? Atendamos, acima de tudo, ao essencial. curioso notar que o prprio Cristo, em sua imerso nos fluidos terrestres, no cogitou de qualquer problema inoportuno ou inadequado. No se sentou na praa pblica para explicar a natureza de Deus e, sim, chamou-lhe simplesmente Nosso Pai, indicando os deveres de amor e reverncia com que nos cabe contribuir na extenso e no aperfeioamento da Obra Divina. Embora asseverasse que na casa do Senhor h muitas moradas, no se deteve a destacar pormenores quanto aos habitantes que as povoam. No obstante exaltar o Reino Celeste, nele situando a glria do futuro, no olvidou o Reino da Terra, que procurou ajudar com todas as possibilidades de que dispunha. Curando cegos e leprosos, loucos e paralticos, deu a entender que vinha no somente regenerar as almas e sem tambm socorrer os corpos enfermos, na recuperao do homem integral. No se contentou, porm, com isso. Em todas as ocasies, exaltou nossos deveres de amor para com a vida comum. Recorre semente de mostarda e dracma perdida para alinhar preciosos ensinamentos.

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    Compara o mundo a vinha imensa, onde cada servidor recebe determinada quota de obrigaes. Consagra especial ateno as criancinhas, salientando o amparo que devemos s geraes renascentes. Nessa mesma esfera de realizaes, os princpios do Espiritismo Evanglico se estendero em favor da Humanidade. Os desencarnados testemunham a sobrevivncia individual, depois da morte, provam que a alma se transfere de habitao sem alterar-se, de imediato, mas, preconizando o estudo e a fraternidade, a cultura e a santificao, o trabalho e a anlise, em obedincia e ditames superiores, objetivam, acima de tudo, a melhoria da vida na Terra, a fim de que os homens se faam, efetivamente, irmos uns dos outros no mundo porvindouro que ser, indiscutivelmente, iluminada seo do Reino Infinito de Deus.

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    24 - O FENMENO ESPRITA Em todas as civilizaes, o culto dos desencarnados aparece como facho aceso de sublime esperana. Rpido exame nos costumes e tradies de todos os remanescentes da vida primitiva, entre os selvagens da atualidade, nos dar conhecimento de que as mais rudimentares organizaes humanas guardam no intercmbio com os mortos suas elementares noes de f religiosa. Aparies e vozes, fenmenos e revelaes do mundo espiritual assinalam a marcha das tribos e das povoaes do princpio. No Egito, os assuntos ligados morte assumem especial importncia para a civilizao. Anbis, o deus dos sarcfagos, era o guardio das sombras e presidia viagem das almas para o julgamento que lhes competia no Alm. Na China multimilenria, os antepassados vivem nos alicerces da f. Em todas as circunstncias da vida, os Espritos dos avoengos so consultados pelos descendentes, recebendo oraes e promessas, flores e sacrifcios. Na ndia encontram nos rakchasas, Espritos malficos que residem nos sepulcros, os portadores invisveis de molstias e aflies. Os gregos acreditavam-se cercados pelas entidades que nomeavam por demnios ou familiares intangveis, as quais os inspiram na execuo de tarefas habituais. Em Roma, os Espritos amigos recebem o culto constante da intimidade domstica, onde so interpretados como divindades menores. Para a antiga comunidade latina, as almas bem-intencionadas, que haviam deixado, na Terra, os traos da sabedoria e da virtude eram os deuses lares, com recursos de auxiliar amplamente, enquanto que os fantasmas das criaturas perversas eram conhecidos habitualmente por larvas, cuja aproximao causava dissabores e enfermidades. Os feiticeiros das tabas primitivas eram nas civilizaes recuadas substitudos por magos, cujo poder imperava sobre a espada dos guerreiros e sobre a coroa dos prncipes. E ainda, em todos os acontecimentos religiosos que precederam a vinda do Cristo, a manifestao dos desencarnados ou o fenmeno esprita comparece por vvido claro da verdade, orientando os sucessos e guiando as supremas realizaes do esforo coletivo. Com a superviso de Jesus, porm, a marcha da espiritualidade na Terra adquire novos caractersticos. Ele o disciplinador dos sentimentos, o grande construtor da Humanidade legtima.

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    Por trezentos anos, os discpulos do Senhor sofrem, lutam, sonham e morrem para doar ao mundo a doutrina de luz e amor, com a plena vitria sobre a morte, mas a poltica do Imprio Romano reduz, por dezesseis sculos consecutivos, o movimento libertador. Os sculos, contudo, na eternidade, so simples minutos e, em seguida s sombras da grande noite, o evangelismo puro surge, de novo. Cristianismo _ doutrina do Cristo... Espiritismo _ doutrina dos Espritos... Volta a influncia do Mestre sobre a imensa coletividade humana, constituda por mentes de infinita gradao. Homens por homens, inteligncias por inteligncias, incorreramos talvez no perigo de comprometermos o progresso do mundo, isolados em nossos pontos de vista e em nossas concepes deficitrias, mas, regidos pela Infinita Sabedoria, rumaremos para a perfeio espiritual, a fim de que, um dia, despojados em definitivo das escamas educativas da carne, possamos compreender a excelsa palavra da celeste advertncia: _ vs sois deuses...

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    25 - ANTE A VIDA MENTAL Quando a criatura passa a interrogar o porqu do destino e da dor e encontra a luz dos princpios espiritistas a clarear-lhe os vastos corredores do santurio interno, deve consagrar-se apreciao do pensamento, quanto lhe seja possvel, a fim de iniciar-se na decifrao dos segredos que, para ns todos, ainda velam o fulcro mental. Se as incgnitas do corpo fazem no mundo a paixo da cincia, que designa exrcitos numerosos de hbeis servidores para a soluo dos problemas de sade e gentica, reconforto e eugenia, alm tmulo a grandeza na mente desafia-nos todos os potenciais de inteligncia, no trato metdico dos assuntos que lhe dizem respeito. A psicologia e a psiquiatria, entre os homens da atualidade, conhecem tanto do esprito, quanto um botnico, restrito ao movimento em acanhado crculo de observao do solo, que tentasse julgar um continente vasto e inexplorado, por alguns talos de erva, crescidos ao alcance de suas mos. Libertos do veculo de carne, quando temos a felicidade de sobre pairar alm das atraes de natureza inferior, que, por vezes, no imantam crosta da Terra, indefinidamente, compreendemos que o poder mental reside na base de todos os fenmenos e circunstncias de nossas experincias isoladas ou coletivas. A mente manancial vivo de energias criadoras. O pensamento substncia, coisa mensurvel. Encarnados e desencarnados povoam o Planeta, na condio de habitantes dum imenso palcio de vrios andares, em posies diversas, produzindo pensamentos mltiplos que se combinam, que se repelem ou que se neutralizam. Correspondem-se as idias, segundo o tipo em que se expressam, projetando raios de fora que alimentam ou deprimem, sublimam ou arrunam, integram ou desintegram, arrojados sutilmente do campo das causas para a regio dos efeitos. A imaginao no um pas de nvoa, de criaes vagas e incertas. fonte de vitalidade, energia, movimento... O idealismo operante, a f construtiva, o sonho que age, so os pilares de todas as realizaes. Quem mais pensa, dando corpo ao que idealiza, mais apto se faz recepo das correntes mentais invisveis, nas obras do bem ou do mal. E, em razo dessa lei que preside vida csmica, quantos se adaptarem, ao reto pensamento e ao enobrecedora, se fazem preciosos canais da energia divina, que, em efuso constante, banha a Humanidade em todos os ngulos do Globo, buscando as almas evoludas e dedicadas ao servio de santificao, convertendo-as em mdiuns ou instrumentos vivos de sua exteriorizao, para benefcio das criaturas e erguimento da Terra ao concerto dos mundos de alegria celestial.

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    26 - AFINIDADE O homem permanece envolto em largo oceano de pensamentos, nutrindo-se de substncia mental, em grande proporo. Toda criatura absorve, sem perceber, a influncia alheia nos recursos imponderveis que lhe equilibram a existncia. Em forma de impulsos e estmulos, a alma recolhe, nos pensamentos que atrai, as foras de sustentao que lhe garantem as tarefas no lugar em que se coloca. O homem poder estender muito longe o raio de suas prprias realizaes, na ordem material do mundo, mas, sem a energia mental na base de suas manifestaes, efetivamente nada conseguir. Sem os raios vivos e diferenciados dessa fora, os valores evolutivos dormiriam latentes, em todas as direes. A mente, em qualquer plano, emite e recebe, d e recolhe, renovando-se constantemente para o alto destino que lhe compete atingir. Estamos assimilando correntes mentais, de maneira permanente. De modo imperceptvel, ingerimos pensamentos, a cada instante, projetando, em torno de nossa individualidade, as foras que acalentamos em ns mesmos. Por isso, quem no se habilite a conhecimentos mais altos, quem no exercite a vontade para sobrepor-se s circunstncias de ordem inferior, padecer, invariavelmente, a imposio do meio em que se localiza. Somos afetados pelas vibraes de paisagens, pessoas e coisas que cercam. Se nos confiamos s impresses alheias de enfermidade e amargura, apressadamente se nos altera o tnus mental, inclinando-nos franca receptividade de molstias indefinveis. Se nos devotamos ao convvio com pessoas operosas e dinmicas, encontramos valioso sustentculo aos nossos propsitos de trabalho e realizao. Princpios idnticos regem as nossas relaes uns com os outros, encarnados e desencarnados. Conversaes alimentam conversaes. Pensamentos ampliam pensamentos. Demoramo-nos com que se afina conosco. Falamos sempre ou sempre agimos pelo grupo de espritos a que nos ligamos.

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    Nossa inspirao est filiada ao conjunto dos que sentem como ns, tanto quanto a fonte est comandada pela nascente. Somos obsidiados por amigos desencarnados ou no e auxiliados por benfeitores, em qualquer plano da vida, de conformidade com a nossa condio mental. Da, o imperativo de nossa constante renovao para o bem infinito. Trabalhar incessantemente dever. Servir elevar-se. Aprender conquistar novos horizontes. Amar engrandecer-se. Trabalhando e servindo, aprendendo e amando, a nossa vida ntima se ilumina e se aperfeioa, entrando gradativamente em contacto com os grandes gnios da imortalidade gloriosa.

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    27 - MEDIUNIDADE Esmagadora maioria dos estudantes do Espiritismo situam na mediunidade a pedra basilar de todas as edificaes doutrinrias, mas cometem o erro de considerar por mdiuns to somente os trabalhadores da f renovadora, com tarefas especiais,ou os doentes psquicos que, por vezes, servem admiravelmente esfera das manifestaes fenomnicas. Antes de tudo, preciso compreender que tanto quanto o tato o alicerce inicial de todos os sentidos, a intuio a base de todas as percepes espirituais e, por isso mesmo, toda inteligncia mdium das foras invisveis que operam no setor de atividade regular em que se coloca. Dos crculos mais baixos aos mais elevados da vida, existem entidades anglicas, humanas e sub-humanas, agindo atravs da inteligncia encarnada, estimulando o progresso o divinizando experincias, brunindo caracteres ou sustentando abenoadas reparaes, protegendo a natureza e garantindo as leis que nos governam. Desvendando conhecimentos novos Humanidade, o Espiritismo incorpora ao nosso patrimnio mental valiosas informaes sobre a vida imperecvel, indicando a nossa posio de espritos imortais em temporrio aprendizado, nas classes da raa, da nao e do grupo consangneo a que transitoriamente pertencemos na Terra. Cada individualidade renasce em ligao com os centros de vida invisvel do qual procede, e continuar, de modo geral, a se instrumento do conjunto em que mantm suas concepes e seus pensamentos habituais. Se deseja, porm, aproveitar a contribuio que a escola sublime do mundo lhe oferece, em seus cursos diversos de preparao e aperfeioamento, aplicando-se execuo do bem, nos menores ngulos do caminho, adquirindo mais amplas provises de amor e sabedoria, aceita pelos grandes benfeitores do mundo, nos quadros da evoluo humana, por intrprete da assistncia divina, onde quer que se encontre, seja na construo do patrimnio de conforto material ou na santificao da alma eterna. necessrio, contudo, reconhecer que, na esfera da mediunidade, cada servidor se reveste de caractersticas prprias. O contedo sofrer sempre a influenciao da forma e da condio do recipiente. Essa a lei do intercmbio. Uma taa no guardar a mesma quantidade de gua, suscetvel de ser sustentada numa caixa com capacidade para centenas de litros. O perfume conservado no frasco de cristal puro no ser o mesmo, quando transportando num vaso guarnecido de logo.

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    O sbio no poder tomar uma criana para confidente, embora a criana, invariavelmente, detenha consigo tesouros de pureza e simplicidade que o sbio desconhece. Mediunidade, pois, para o servio da revelao divina reclama estudo constante e devotamento ao bem para o indispensvel enriquecimento de cincia e virtude. A ignorncia poder produzir indiscutveis e be