circulação, medos e brincadeiras

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1 CECIP Circulação, medos e brincadeiras: Os impactos da Unidade de Polícia Pacificadora nas crianças moradoras do Morro dos Macacos Rio de Janeiro/ Brasil Pesquisadoras: Beatriz Corsino Pérez e Mariana Koury Com colaboração de Claudius Ceccon e Claudia Ceccon CECIP - Centro de Criação de Imagem Popular FBvL - Fundação Bernard van Leer Rio de Janeiro, agosto de 2013

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Os impactos da Unidade de Polícia Pacificadora nas crianças moradoras do Morro dos Macacos – Rio de Janeiro/ Brasil. (CECIP/ Fundação Bernard ven Leer, 2013)

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    CECIP

    Circulao, medos e brincadeiras:

    Os impactos da Unidade de Polcia

    Pacificadora nas crianas moradoras do

    Morro dos Macacos Rio de Janeiro/

    Brasil

    Pesquisadoras:

    Beatriz Corsino Prez e Mariana Koury

    Com colaborao de Claudius Ceccon e

    Claudia Ceccon

    CECIP - Centro de Criao de Imagem

    Popular

    FBvL - Fundao Bernard van Leer

    Rio de Janeiro, agosto de 2013

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    CECIP

    Resumo executivo

    A presente pesquisa, realizada nos meses de junho e julho de 2013, tem como

    objetivo investigar as repercusses da Unidade de Polcia Pacificadora (UPP) na vida das

    crianas moradoras do Morro dos Macacos, favela localizada na zona norte da cidade do Rio de

    Janeiro, Brasil. Como metodologia, foram realizadas oficinas com 35 crianas e grupos de

    discusso com 15 educadoras e 25 mes.

    Partimos dos dados da pesquisa feita pelo CECIP - Centro de Criao de Imagem

    Popular, no final de 2010, sobre os impactos das polticas pblicas de segurana e outras

    iniciativas comunitrias sobre a criana pequena, em trs comunidades urbanas de baixa renda:

    Morro dos Macacos e Santa Marta, no Rio de Janeiro, e Calabar, em Salvador. Naquele

    momento, o Morro dos Macacos acabava de ser ocupado pelo Batalho de Operaes Especiais

    (Bope) para instalao de uma Unidade de Polcia Pacificadora. A pesquisa mostrou haver, por

    parte dos moradores, muitas incertezas e expectativas em relao ao futuro, assim como apontou

    que as crianas desta favela demonstravam ser muito afetadas pela rotina de violncia. Trs anos

    depois, voltamos para o Morro dos Macacos para procurar entender se, com a instalao da UPP,

    houve alguma mudana significativa na vida das crianas e da favela como um todo.

    Os resultados da atual pesquisa mostram que a instalao da UPP teve impactos positivos

    em relao maior liberdade de circulao das crianas (o que tambm afeta os adultos), e

    provocou mudanas em suas brincadeiras e temores, que deixaram de estar vinculados

    violncia urbana. A diminuio do confronto armado entre bandidos, policiais e entre traficantes

    rivais afetou as relaes e o imaginrio das crianas. Permanecem, porm, muitas demandas dos

    moradores, principalmente por obras de saneamento bsico, servio regular de coleta de lixo e

    providncias quanto ao aumento do nmero de roubos na comunidade. Apesar de a Unidade de

    Polcia Pacificadora ter trazido expectativas aos moradores, baseadas em promessas por parte do

    poder pblico, muitos problemas no foram solucionados e continuam sendo um empecilho para

    a garantia dos direitos e da qualidade de vida da populao do Morro dos Macacos.

    Palavras -chave: Violncia, Segurana, Criana, Favela

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    CECIP

    1. Introduo

    No final do ano de 2010, o CECIP Centro de Criao de Imagem Popular, em parceria

    com a Unirio Universidade do Rio de Janeiro, e apoiado pela Fundao Bernard van Leer,

    realizou uma pesquisa sobre o impacto das polticas pblicas de segurana e de iniciativas

    comunitrias na vida de crianas pequenas, moradoras de duas favelas no Rio de Janeiro, Morro

    dos Macacos e Santa Marta, e uma favela na capital da Bahia, Calabar. Como metodologia,

    foram aplicados questionrios em responsveis pelas crianas; realizados grupos focais com

    responsveis, educadores e jovens; e feitas entrevistas com realizadores de projetos sociais

    voltados para crianas, lideranas comunitrias, comerciantes e agentes de sade. Tambm foram

    realizadas oficinas com crianas pequenas, para conhecer o que lhes despertava medo e

    insegurana. Um total de 319 pessoas, moradoras das trs favelas, participou da investigao.

    Naquele momento, fazia dois anos que havia sido implantada, na favela Santa Marta, a

    Unidade de Polcia Pacificadora (UPP), uma nova poltica de segurana pblica com o objetivo

    de mudar a forma de atuao da polcia. Em vez de invases espordicas e com alto ndice de

    letalidade, essa interveno buscava retomar territrios ocupados por traficantes fortemente

    armados e estabelecer uma atuao permanente da polcia nas favelas. Com a presena da UPP,

    havia a expectativa de que novos programas e servios pblicos e privados pudessem ser

    oferecidos para os habitantes do morro Santa Marta e de outras comunidades que j tinham

    recebido essa nova poltica de segurana.

    A estratgia de retomada do territrio pela polcia era composta basicamente de trs

    etapas: no primeiro momento, policiais do Batalho de Operaes Policiais Especiais (BOPE)

    anunciavam a invaso da favela, entravam, por vezes encontrando resistncia, e a ocupavam. O

    BOPE se estabelecia na comunidade, revistando casas e moradores considerados suspeitos de

    envolvimento com o narcotrfico, para apreender armas e drogas e prender traficantes. Numa

    segunda etapa, o controle da favela passava para a Unidade de Polcia Pacificadora, formada por

    policiais militares que permaneceriam indefinidamente no local. No terceiro momento,

    iniciavam-se os trabalhos da UPP Social.

    Criado em 2010, o projeto da UPP Social era a princpio coordenado pela Secretaria de

    Estado de Assistncia Social e Direitos Humanos. No incio de 2011, o programa tornou-se uma

    atribuio da Prefeitura, com sua gesto transferida para o Instituto Pereira Passos (IPP). A UPP

    Social tinha como objetivos melhorar a qualidade de vida dos moradores das favelas onde j

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    CECIP

    havia UPP e criar uma articulao entre as demandas da favela e as possibilidades de ao do

    governo, da sociedade civil e do setor privado. A inaugurao da UPP Social se dava em um

    frum comunitrio com a presena do poder pblico e de moradores. A ao continuava atravs

    de reunies e encontros com os habitantes e lideranas locais.

    Em outubro de 2010, o Morro dos Macacos acabava de ser ocupado pelo BOPE, com o

    intuito de preparar a favela para receber uma Unidade de Polcia Pacificadora. Quando

    realizamos a pesquisa, estava um clima tenso e de insegurana em relao ao que poderia

    acontecer no local. Durante a aplicao dos questionrios e a realizao das entrevistas, algumas

    pessoas preferiram no falar sobre o tema da violncia. Uma criana nos disse que antes da

    entrada do BOPE sentia medo da polcia, mas que a partir daquele momento no teria mais.

    Percebemos que havia a expectativa de ver uma polcia diferente atuando no Morro dos

    Macacos, que pudesse apoiar e dar segurana aos moradores.

    Presenciamos uma reunio do BOPE com os moradores para apresentar a equipe e

    explicar como se daria sua ao na favela. Embora a reunio estivesse cheia, algumas pessoas

    preferiram no comparecer, pois o gesto poderia ser interpretado como um apoio polcia.

    Temiam que os olheiros do trfico contassem para os traficantes quem estava presente na

    reunio. Uma moradora narrou como foi recebida a notcia de que a UPP chegaria ao Morro dos

    Macacos: No Dia das Crianas, os bandidos fizeram uma festa de adeus para a comunidade, de

    despedida. A gente j esperava UPP, vimos na TV que iam entrar. Na quarta-feira, todos os

    bandidos estavam reunidos para saber o que iam fazer. Os traficantes deixaram a favela na

    vspera da entrada policial e muitos de seus familiares, com medo, tambm preferiram sair.

    Como ainda era muito recente a presena da polcia na comunidade, a pesquisa colheu as

    expectativas e os receios dos moradores do Morro dos Macacos em relao UPP.

    O terceiro local onde realizamos a pesquisa, o Calabar, era um contraponto a essa

    nova poltica de segurana pblica. A favela convivia com tiroteios entre a polcia e traficantes

    armados.

    Os resultados da pesquisa (CECIP, 2010) mostram que a instalao da UPP

    proporcionou um impacto positivo sobre as crianas pequenas da favela Santa Marta, que

    passaram a poder circular livremente. Diferentemente das crianas moradoras do Morro dos

    Macacos, elas no se assustavam mais ao ver policiais ou ao ouvir barulho de helicpteros

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    CECIP

    passando pelo morro1. Contudo, a relao que os policiais da UPP estabeleciam com os

    moradores da favela gerava grande insatisfao. Os moradores se queixavam da falta de preparo

    dos policiais para trabalhar em comunidades, dialogar e mediar conflitos. Outro ponto

    problemtico era a atribuio de diversas funes polcia, sem relao com segurana pblica.

    Essa instituio passou a deter muito poder na favela, estabelecendo muitas vezes uma relao

    autoritria com os moradores. Isso significava que as favelas com UPP continuavam vivendo sob

    condies de exceo, que no se aplicavam ao resto da cidade.

    Outro desafio da UPP era o surgimento de um novo sentimento de insegurana na favela

    Santa Marta. Isso acontecia porque, durante o controle da comunidade pelo trfico de drogas, os

    moradores viviam sob determinadas regras de comportamento que, quando transgredidas, eram

    imediatamente punidas de forma muito rigorosa e violenta. Com a chegada das leis do Estado, a

    percepo dos moradores era de que as punies acabaram ou ficaram mais brandas, levando ao

    aumento do nmero de delitos e brigas.

    A pesquisa revelou tambm que, uma vez reduzidos os tiroteios, aspectos referentes

    urbanizao e questes ambientais se tornaram as maiores preocupaes dos moradores, com

    destaque para o lixo e a falta de saneamento bsico. Um resultado significativo foi a percepo

    de que, para combater a violncia, mais do que o aumento do policiamento era preciso oferecer

    projetos sociais s crianas e aos adolescentes, no horrio do contraturno escolar; para os jovens,

    formao profissional em carreiras com perspectiva de ascenso social; e tambm creches

    pblicas de qualidade. Alm disso, os moradores sentiam falta de espaos ao ar livre adequados

    para as crianas brincarem; seus espaos se restringiam aos becos e laje.

    Outra preocupao era que a presena da polcia e a chegada efetiva de servios

    legalizados (gua, luz, coleta de lixo, TV a cabo) gerassem uma valorizao dos imveis e o

    aumento do custo de vida na favela. O morro Santa Marta poderia passar por um processo de

    remoo branca ou gentrificao termo atribudo ao processo em que populaes

    tradicionalmente radicadas numa rea revitalizada no conseguem se manter nela por razes

    econmicas. Essa questo perturbava bastante os moradores, uma vez que eles gostavam do local

    onde viviam e afirmavam s pretender sair de l em casos extremos, seja por causa de

    desabamento das casas ou de violncia.

    1 Os policiais faziam incurses nas favelas usando helicpteros para identificar onde estavam os traficantes e, muitas

    vezes, atiravam do alto em direo favela, na tentativa de acert-los. Essa situao gerava um clima de tenso e medo para todos os

    moradores, afetando tambm as crianas.

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    CECIP

    Em 2011, o CECIP realizou a pesquisa As polticas pblicas de segurana e de

    urbanizao das favelas do Rio de Janeiro e ateno dada s crianas pequenas, em parceria

    com a Fundao Osvaldo Cruz e apoiada pela Fundao Bernard van Leer. A pesquisa contou

    com uma metodologia qualitativa atravs da anlise de notcias de jornal e da realizao de

    entrevistas semiestruturadas com representantes e pessoas envolvidas nos programas: Unidade

    de Polcia Pacificadora; UPP Social; programa de urbanizao da prefeitura, Morar Carioca;

    Secretaria de Educao; alm de observaes participantes em reunies e fruns comunitrios da

    UPP Social.

    Essa pesquisa (CECIP, 2011) constatou que as UPPs buscavam se aproximar dos

    moradores atravs da relao que os policiais estabeleciam com as crianas. Ofereciam cursos

    para crianas em diversas favelas, como lutas marciais, msica, informtica e lngua estrangeira.

    Alguns policiais visitavam regularmente as escolas, dando aulas em um programa de preveno

    ao uso de drogas e violncia (PROERD) que recebia o apoio da prefeitura. Alm disso,

    promoviam passeios e atividades culturais para crianas. J a UPP Social no realizava aes

    diretas para esse pblico. Tinha um papel de articulao entre as vrias secretarias municipais e

    seus programas sociais j existentes. A UPP Social tambm orientava ONGs e iniciativas

    privadas que gostariam de desenvolver aes nas favelas com UPP, inclusive projetos que

    tinham as crianas como pblico-alvo, prestando informaes especficas sobre esses locais. O

    programa de urbanizao da prefeitura Morar Carioca no possua nenhuma ao de incluso da

    participao infantil no planejamento das obras ou de criao de espaos de lazer voltados para

    elas.

    Em junho de 2013, resolvemos retornar ao Morro dos Macacos com o objetivo de

    atualizar os dados da pesquisa referente aos impactos das polticas pblicas de segurana e de

    urbanizao voltadas s crianas pequenas. Para isso, realizamos atividades com 35 crianas de 3

    a 10 anos e fizemos discusses sobre os resultados da pesquisa de 2010 com 20 educadoras e 35

    mes. Decidimos retornar ao Morro dos Macacos porque era uma favela cuja imagem estava

    fortemente relacionada ao trfico de drogas. Ela ganhou destaque na mdia quando, no dia 17 de

    outubro de 2009, um helicptero da Polcia Militar, que fazia operao na favela, explodiu aps

    ser atingindo por tiros de traficantes dois policiais que estavam na aeronave morreram. No

    ano seguinte, no dia 14 de outubro de 2010, ocorreu a ocupao da polcia no Morro dos

    Macacos e foi instalada a 13 Unidade de Polcia Pacificadora da cidade.

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    CECIP

    Buscamos compreender como estava a situao das crianas, no que se refere segurana

    e suas repercusses na vida dos moradores, quase trs anos depois da entrada da UPP nessa

    favela.

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    CECIP

    2. Metodologia

    Na presente pesquisa utilizamos uma metodologia qualitativa para compreender a opinio

    de adultos e crianas sobre as mudanas ocorridas no Morro dos Macacos, aps trs anos da

    presena da UPP. Realizamos uma parceria com uma instituio local, que j tinha participado

    da pesquisa em 2010: o CEACA-Vila (Centro Educacional da Criana e do Adolescente Ldia

    dos Santos Vila Isabel), que administra a creche comunitria Patinho Feliz e o Centro Cultural

    da Criana (CCCria), no Morro dos Macacos.

    Com os adultos, foram feitos trs grupos de discusso. O primeiro era formado por

    educadoras da creche, reunindo 15 profissionais. Os outros dois grupos (com 15 e 20

    participantes) eram compostos por mes, e apenas um pai, de crianas da creche ou que

    frequentavam o CCCria, divididos de forma aleatria. O convite para participar da pesquisa foi

    feito aos responsveis, mas a presena foi quase apenas de mulheres: muitas delas no

    trabalhavam para se dedicar aos filhos ou estavam desempregadas; outras pediram para sair mais

    cedo do trabalho para comparecer ao encontro.

    O primeiro momento do grupo de discusso com os adultos foi de apresentao e

    descontrao: espalhamos pelas mesas algumas fotos de brincadeiras antigas feitas na rua e

    pedimos para as participantes escolherem aquela com a qual mais se identificavam. Alm de

    explicar o porqu da escolha da foto, cada uma devia se apresentar dizendo nome e se era

    moradora do Morro dos Macacos (no caso das educadoras) e o parentesco com a criana (no

    caso dos responsveis). Depois desse momento inicial, colocamos algumas questes s

    participantes sobre as brincadeiras e a circulao das crianas na favela; o sentimento de

    insegurana e a violncia; a relao da polcia com a comunidade; o custo de vida e os

    investimentos realizados no local; as crticas e sugestes de melhorias para o Morro dos

    Macacos. As perguntas feitas aos grupos se inspiravam nas informaes obtidas da pesquisa de

    2010. Algumas possuam trechos de falas dos moradores para provocarem uma discusso sobre a

    situao anterior e o momento atual. Por exemplo: Na pesquisa, uma moradora disse 'a

    comunidade vista por quem mora fora como um lugar perigoso, o que se justifica porque a

    imprensa s noticia as tragdias, e no os projetos sociais'. Vocs acham que a imagem do

    Morro dos Macacos mudou?. Buscamos, dessa maneira, dar um retorno dos resultados

    encontrados na primeira pesquisa e instigar a reflexo entre os participantes sobre a situao

    atual da favela e das crianas pequenas.

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    CECIP

    Tabela 1, Grupo de discusso com adultos Grupos de adultos Participantes Atividades

    Grupo 1 15 educadoras da Creche

    Patinho Feliz

    Apresentao;

    Dinmica das brincadeiras de ontem e hoje;

    Discusso dos resultados da pesquisa de 2010

    e sobre a situao das crianas e da

    comunidade aps a entrada da UPP.

    Grupo 2 20 mes do CCCria e da

    Creche

    Grupo 3 14 mes e um pai do CCCria

    e da Creche

    Com as crianas tambm realizamos trs grupos: dois com crianas da creche (entre

    3 e 4 anos de idade) e o terceiro com crianas que frequentam o Centro Cultural da Criana (de 5

    a 10 anos).

    Com o primeiro grupo da creche, aps a confeco de crachs com os nomes das

    crianas como uma forma de apresentao, optamos por explorar a questo do medo. Realizamos

    a leitura do livro Vai embora grande monstro verde (Emberley, 2009). Depois as crianas

    pediram que continussemos contando histrias, e escolhemos ler o livro Os pesadelos de Liza

    (Gutman, 2010), para dialogar sobre o tema. Ao final, conversamos com as crianas explorando

    as seguintes questes: O que vocs mandariam embora?, Do que vocs no gostam?, Do

    que vocs tm medo?, Vocs j tiveram pesadelos? e pedimos para que elas desenhassem

    numa folha de papel.

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    CECIP

    Leitura para as crianas

    Com o segundo grupo de crianas pequenas, repetimos a mesma proposta de trabalho, mas

    em vez da produo do desenho as crianas usaram massa de modelar para expressar os seus

    medos. Como tivemos mais tempo, pudemos trabalhar tambm a questo do ambiente da favela:

    o que as elas veem no caminho entre suas casas e a creche, com quem elas encontram, quais as

    dificuldades que passam, quais os problemas e as coisas legais que vivenciam. Em uma folha de

    papel pardo desenhamos a creche e as casas em extremidades opostas, fazendo um caminho entre

    esses dois lugares. A proposta era que as crianas desenhassem em cima desse caminho as coisas

    que encontram no percurso casacrechecasa.

    Assim como nos grupos anteriores, com as crianas mais velhas, de 5 a 10 anos, iniciamos

    a oficina com a confeco dos crachs. Para explorar a questo do medo, lemos a histria da

    Chapeuzinho Amarelo (Buarque, 2003). Durante a leitura, perguntamos para as crianas: O

    que vocs tm medo de fazer?, O que vocs tinham medo de fazer e do que tinham medo de

    brincar quando eram bem pequenininhos?, Do que vocs brincam hoje?. Abordamos tambm

    a questo do ambiente da favela, propondo o desenho do que as crianas viam e encontravam no

    percurso casaCentro Culturalcasa.

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    CECIP

    Crianas desenhando o caminho casaCentro Culturalcasa

    Tabela 2, Oficinas com as crianas Grupos de

    crianas

    Participante

    s

    Idades Atividades realizadas nas oficinas

    Grupo 1 10 crianas 3 e 4 anos - Confeco do crach;

    - Leitura de histrias sobre medo;

    - Desenhos.

    Grupo 2 10 crianas 3 e 4 anos - Confeco do crach;

    - Leitura de histrias sobre medo;

    - Massinha;

    - Conversa e desenho do caminho casacrechecasa.

    Grupo 3 15 crianas 5 a 10

    anos

    - Confeco do crach;

    - Leitura de histria sobre medo;

    - Conversa e desenho do caminho casaCentro Culturalcasa;

    - Observao e conversa com as crianas.

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    CECIP

    3. Violncias e inseguranas na comunidade

    A primeira instalao de uma Unidade de Polcia Pacificadora aconteceu em 2008, no

    Morro Santa Marta. A proposta era mudar a lgica de confronto que a Polcia Militar do Rio de

    Janeiro estabelecia com os traficantes que ocupavam as favelas do estado, e das invases

    espordicas, com o uso de armamentos pesados e outros equipamentos de apoio, como

    helicptero e o caveiro2. Apesar de o Rio de Janeiro j contar com 33 UPPs, promovendo

    uma ocupao policial permanente nas comunidades e a diminuio dos confrontos armados

    (CECIP, 2010), esse nmero no d conta das mais de mil favelas3 que existem no Grande Rio.

    Muitas ainda sofrem com incurses com alta letalidade entre policiais, traficantes e moradores,

    que criam situaes de violncia extrema afetando diversas regies da cidade.

    Antes da instalao da UPP, em outubro de 2010, o Morro dos Macacos vivia uma

    situao difcil, porque os traficantes que atuavam ali eram de uma faco rival que dominava

    os outros morros da regio, o que gerava intensas disputas pelo controle do territrio e da venda

    de drogas. A relao dos policiais da UPP com os moradores dessa favela complexa, permeada

    por diferentes conflitos e tenses. Aps anos convivendo com uma polcia violenta e que muitas

    vezes desrespeitava direitos individuais e sociais, os moradores ainda tm na memria a

    truculncia policial e sentem dificuldade de estabelecer uma aproximao. Na pesquisa anterior,

    a desconfiana em relao polcia foi apontada por uma educadora:

    O caveiro entra, arromba, mexe em tudo. Eles bateram muito no rapaz, um trabalhador.

    J vi o caveiro pegando cerveja, roupa de marca e batendo. Nessa hora por que

    ningum fotografa? Ningum tem coragem. As crianas veem. Se a polcia vem para a

    paz, por que age desse jeito? Eu com dois filhos homens como vou confiar? Eles mexem

    com as meninas. (CECIP, 2010)

    Apesar disso, houve uma tentativa de aproximao da polcia com os moradores,

    atravs das crianas. A pesquisa de 2010 identificou uma estratgia da coordenao geral das

    UPPs de criar mecanismos para conquistar esse pblico, com aulas de msica e lutas, festas no

    Dia das Crianas, distribuio de balas, idas a jogos de futebol, entre outras. Ao conquistarem a

    2 Caveiro o nome popular do carro blindado usado pelo Batalho de Operaes Eespeciais (BOPE) da Polcia

    Militar em incurses nas favelas da capital e de outras cidades do estado. 3 http://oglobo.globo.com/infograficos/upps-favelas-rio/

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    CECIP

    confiana das crianas, eles pretendiam se aproximar tambm dos adultos. Uma educadora do

    Morro dos Macacos expressou bem essa relao:

    As crianas esto achando muito legal. As crianas na creche falam Eu vi o policial, ele apertou a minha mo. E na escola tambm, Eu conversei com o cara do BOPE. As crianas esto animadas com essas figuras que usam uniforme, que tm armas, j esto

    acostumados, mas esto vendo uma outra forma de aproximao da polcia. A polcia

    entrava dando tiro, atacando, e hoje esto ocupando espao, mas nem tiro teve nessa

    ocupao.(CECIP, 2010)

    Trs anos depois, os moradores e a UPP no tm uma relao prxima. Na pesquisa

    realizada em 2013, as mes e as educadoras disseram que no incio da implantao da UPP os

    policiais tentaram agradar as crianas, mas essa estratgia no durou muito tempo. Apesar de

    seguir o padro da ocupao de outras favelas como a proibio de bailes funk e o

    estabelecimento de novas regras de convvio social , a UPP local tem contornos bem

    especficos. A polcia no tenta estabelecer uma relao com os moradores atravs do

    oferecimento de cursos e festas, como acontece em algumas favelas, e eles tambm no se abrem

    para uma aproximao. Ao ser perguntada se a UPP promovia festas para a comunidade, uma

    educadora comentou: Tambm, se fizerem, ningum vai. Outra educadora, que mora em uma

    favela com UPP na regio da grande Tijuca, disse que onde ela mora os policias fazem muitos

    eventos e os moradores costumam frequentar: Na minha comunidade a polcia mais prxima.

    Percebemos que, apesar do programa de segurana pblica possuir os mesmos fundamentos, na

    prtica as UPPs assumem configuraes distintas, variando de acordo com as caractersticas

    locais.

    Nas oficinas realizadas com as crianas em 2013, tanto as pequenas quanto as mais

    velhas, ao serem perguntadas e estimuladas a desenhar sobre seus medos, referiram-se a bichos

    que so comuns, como aranha, lacraia, rato, barata, cobra e macaco. As menores tambm falaram

    de medos mais fantasiosos, como monstro, lobo, fantasma, coisa do misterioso e tambm

    medo do escuro. Em 2010, ao participar de uma atividade semelhante, as crianas do Morro dos

    Macacos relataram ter medo de helicptero, polcia e bandido. Na pesquisa atual, mesmo sendo

    provocadas, as crianas menores no fizeram referncia a esses elementos relacionados

    violncia urbana. Com trs meninos de cerca de 9 anos, ocorreu o seguinte dilogo enquanto eles

    desenhavam:

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    CECIP

    - O que tem de ruim aqui? perguntamos. - A polcia.

    - Os bandidos.

    - O que a polcia faz? perguntamos. - Ela bate em morador que faz besteira.

    - Que tipo de besteira?

    - Namorado que bate no outro.

    - Quem vai fazer a polcia? perguntamos. - Eu!

    - Eu vou fazer o bandido!

    - Tem bandido ainda aqui? perguntamos. - Tem!

    Essa discusso sobre quem iria desenhar o bandido e a polcia nos pareceu ocorrer de uma

    forma bem natural, sem estigmas sobre policial e bandido, como acontece com crianas que no

    vivem (ou viveram) de forma to forte e violenta essa disputa de poderes. Em 2010, moradores

    falaram que, antes da chegada da UPP, era comum ver crianas de 9 ou 10 anos segurando armas

    que os prprios traficantes ofereciam. Embora ainda haja a presena de traficantes no morro, o

    fato de no andarem armados e de no haver tiroteios trouxe mais segurana para as crianas, o

    que se reflete em seus medos que deixaram de estar relacionados diretamente aos confrontos.

    A pesquisa de 2010 apontou que, com a chegada da UPP, algumas regras de convivncia

    na comunidade, antes estabelecidas pelo trfico, mudaram e isso seria a causa de novos casos

    de roubos e estupros. A ameaa de punio por parte dos traficantes de certa forma dava aos

    moradores uma sensao de segurana. Na pesquisa de 2013, nos grupos com as mes e com as

    educadoras, apareceu a questo do aumento de roubos e da ocorrncia de estupros. O que

    cessou foi o tiroteio, mas tem violncia, estuprador, assaltante, disse uma me. Uma

    participante teve a casa roubada recentemente. Algumas culparam os usurios de crack

    (cracudos), que agora circulam livremente na comunidade e estariam cometendo esses roubos.

    Mas tambm foi mencionado que os cracudos muitas vezem levam a culpa por roubos feitos

    por outros moradores. H grande preocupao das mes em relao ao abuso sexual das crianas,

    que buscam desde cedo orient-las a se protegerem dessas situaes. Contudo, no foi relatado

    nenhum caso especfico de abuso sexual no grupo.

    Ao serem questionadas sobre como os moradores lidam com essas questes,

    principalmente de roubo, todas disseram que a UPP no toma providncias para tentar investigar

    as ocorrncias: No vai dar em nada. Algumas mes foram delegacia relatar os roubos, mas

    mesmo assim no obtiveram retorno sobre as suas denncias. Outras contaram que policiais que

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    atuam na favela usam drogas, como maconha e cocana, e elas suspeitam que tenham algum tipo

    de acordo com o trfico.

    4. Circulao e brincadeiras das crianas no Morro dos Macacos

    Algumas famlias do Morro dos Macacos que participaram dos grupos de discusso em

    2010 disseram no deixar as crianas brincarem fora de casa e nem circularem sozinhas pelas

    ruas, por medo da violncia. s vezes elas podiam ficar na laje, mas mesmo assim era

    considerado um lugar perigoso. Para as educadoras que participaram da pesquisa, algumas

    crianas que circulavam pelo morro sozinhas tornavam-se menos sensveis ao uso de armas e

    chegavam a rir daquelas que ficavam apavoradas durante os tiroteios. Elas tambm contaram que

    adolescentes corriam para ver o que estava acontecendo quando ouviam tiros, achando a situao

    emocionante: era como se houvesse uma adrenalina, como estar num filme de ao.

    Uma me contou que, quando era pequena, brincava e caminhava livremente no Morro

    dos Macacos, mas que agora no deixava o filho de 5 anos sair de casa. Ela lamentava que o

    filho no possusse amigos na comunidade. Outra participante tambm lembrou que, na sua

    infncia, podia brincar tranquilamente no campinho. Quando sua filha pediu para brincar de

    velocpede ali, ela ficou tensa, olhando para todos os lados, na apreenso de que alguma coisa

    ruim pudesse acontecer a qualquer instante. Sentiu-se triste porque era um lugar maravilhoso,

    mas no se pode brincar. Este movimento de proteo dos filhos era considerado absolutamente

    necessrio, dadas as condies precrias de segurana. No entanto, trazia um prejuzo

    incalculvel para as crianas, como bem lembrou uma me: Acaba que a criana no vivencia

    aquela brincadeira de taco, de pique-pega, que a gente tinha quando a gente era pequeno.

    Embora todos os participantes dos grupos de discusso na poca concordassem que sempre

    houve trfico no morro, diziam que antigamente no havia tanta arma, e que havia mais respeito

    aos membros da comunidade, especialmente s crianas. Os homens do trfico at escondiam as

    armas da vista das crianas situao bem diferente do cenrio anterior chegada da UPP.

    Em 2010, as crianas conviviam com as armas o tempo todo, as brigas o tempo todo,

    usurios de drogas o tempo todo, e aquilo influencia muito, segundo uma me. Ela relatou que,

    antes da entrada do BOPE, as crianas estavam brincando de arma, de ser bandido. Elas faziam

    rplicas de fuzil de madeira e cobriam de fita isolante, para ficar preto. Pegavam farinha de trigo

    para jogar nas outras pessoas e, com a tinta, imitavam bombas. Alm de criar armas de

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    brinquedo, tambm pegavam frutas na mata prxima comunidade para tacar uns nos outros. As

    mes pareciam assustadas com a criatividade das crianas em construir um brinquedo to

    semelhante arma verdadeira. Educadoras e familares sentiam-se incomodadas em ver as

    crianas vestidas de bandido, mesmo que fosse de brincadeira. Outra educadora disse que os

    confrontos da polcia com os bandidos faziam com que as crianas se tornassem violentas e

    competitivas: A competitividade uma coisa muito gritante nessa comunidade. Situaes de

    violncia entre as crianas aconteciam frequentemente.

    Uma educadora possua viso diferente em relao circulao das crianas. Ela dizia

    que as crianas brincavam na rua mesmo com a violncia no morro. Ficavam em frente ao porto

    de casa, jogavam futebol na quadra do CIEP, frequentavam o parque (mesmo estando

    abandonado) acompanhadas de um adulto. Ela chamou ateno para o fato de que a violncia vai

    alm do tiro, tem a violncia que a criana vive em casa, no modo dos pais falarem, brigando,

    batendo nas crianas. Mas muitos componentes daquele grupo discordaram de que as crianas

    realmente podiam ficar vontade no espao da rua. Alegaram que pais cautelosos no deixam

    seus filhos brincarem nem na porta de casa.

    Ao longo dos anos, houve um impacto grande da violncia sobre a possibilidade das

    crianas se apoderarem do espao pblico. Uma semana depois da entrada da polcia,

    representando talvez o primeiro sinal de mudana, as crianas j estavam frequentando mais a

    rua. Um morador dos Macacos constatava, em 2010: As crianas esto gostando pra caramba.

    As crianas esto todas na rua, sexta-feira, ento...!. Elas estavam pedindo para os pais

    comprarem patins e bicicletas para que pudessem brincar na rua. Os policiais disseram, na

    primeira reunio do BOPE com a comunidade, que seu objetivo era dar tranquilidade para que os

    filhos dos senhores possam usufruir do espao pblico. A mensagem transmitida era que a

    UPP viria para recuperar o espao para os seus verdadeiros donos.

    Quando voltamos comunidade em 2013, perguntamos s educadoras e mes sobre as

    brincadeiras preferidas das crianas. Inicialmente, surgiu o depoimento de que as crianas hoje

    no brincam mais porque preferem ficar no computador, em casa. Uma me relatou que estava

    muito preocupada com o filho de 5 anos que no parava de jogar: Ele est viciado em

    computador. Sempre que ela pede para o menino largar o jogo, ele comea a chorar e muito

    difcil convenc-lo a fazer outra coisa. Outra me disse que com o filho dela o contrrio: o

    menino muito agitado, no para em casa de jeito nenhum.

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    Depois dessa fala inicial de que as crianas no brincam mais, mes e educadoras disseram

    que elas gostam de soltar pipa e jogar bolinha de gude na rua. Uma educadora comentou que as

    crianas brincam de pique-esconde para namorar, assim como ela fazia quando tinha a mesma

    idade. Ns observamos, no Centro Cultural da Criana, os meninos jogando pique-bandeira e as

    meninas brincando de roda no ptio. Durante a oficina com as crianas pequenas, perguntamos

    se elas brincavam mais em casa ou na rua. As meninas disseram que gostavam de brincar de

    boneca em casa e na laje. Os meninos disseram brincar em casa e na rua de carrinho e que

    gostavam de jogar futebol. Assim, percebemos que embora o computador faa parte da vida das

    crianas elas continuam brincando com os seus colegas, e muitas vezes usam os espaos comuns

    da favela. Os adultos com quem conversamos parecem falar com certo saudosismo sobre a sua

    infncia, como se hoje estivesse tudo diferente. No entanto, algumas brincadeiras antigas

    continuam sendo praticadas.

    Quando perguntamos s mes se hoje as crianas brincam mais dentro ou fora de casa, elas

    afirmaram que isso varia de acordo com cada famlia. Uma me disse no gostar de deixar o

    filho na rua porque perigoso, prefere que ele brinque em casa. Mas o risco de brincar do lado

    de fora, para ela, a criana cair e se machucar. Outra me comentou que perigo tem em

    qualquer lugar, at nas redes sociais. Uma ideia que apareceu durante as discusses foi que

    antes da UPP se instalar na favela os pais no deixavam seus filhos brincarem fora de casa por

    causa dos tiroteios e da circulao de motos e carros em alta velocidade. Quando estavam na rua,

    as crianas tinham horrio para chegar em casa. Naquele momento, o lugar considerado seguro

    era dentro de casa, pois havia muitas trocas de tiros. Uma educadora disse que a creche ficava no

    meio do confronto e as crianas ficavam aterrorizadas]. Para ela , a situao mudou com a

    chegada da UPP: Agora melhorou. T mais tranquilo, no tem mais tiro. Ela tambm reparou

    uma mudana nas brincadeiras das crianas do maternal: Tudo o que elas faziam era 'pou pou'

    [barulho de tiro] e agora no fazem mais. Segundo a educadora, as crianas da pr-escola

    moldavam o biscoito do tipo cream cracker com mordidas, para deix-lo no formato de uma

    arma. Com a chegada da UPP as crianas esto se divertindo mais e todo mundo tem mais

    liberdade. Algumas mes disseram que, com a UPP, houve um aumento dos casos de roubos e

    estupros. Por isso no deixam mais os filhos sozinhos em casa. Ou seja: quando os pais esto

    ausentes, a rua se tornou um lugar mais seguro do que a casa.

    Na hora do almoo, observamos o movimento no Morro dos Macacos. Notamos que

    muitas crianas vo para a escola acompanhadas dos irmos mais velhos. Uma menina estava

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    com um irmo pequeno e tentava ir frente, reclamando quando ele comeava a andar mais

    rpido do que ela. Ao longo do caminho, eles encontravam e conversavam com colegas de

    turma, vizinhos e outras crianas. Na reunio com as mes, perguntamos se hoje as crianas

    costumam ir sozinhas escola. Algumas mes disseram que os filhos podem ir sozinhos sim, e

    que no veem problema nisso. Elas tambm deixam as crianas irem desacompanhadas de um

    adulto para o parque e a Vila Olmpica. Em alguns momentos, o grupo ficou divido se ou no

    perigoso deixar as crianas circularem sozinhas pela favela.

    Durante a atividade com as crianas, perguntamos sobre os locais que elas gostam de

    frequentar na favela. Elas apontaram o Centro Cultural da Criana, a praa, a quadra da escola

    Brizolo onde os meninos jogam bola, o Parque de Vila Isabel e a Vila Olmpica. As crianas

    vo ao parque recm-reformado com a famlia e a escola, gostam de ver os micos nas rvores e

    brincar na piscina da Vila Olmpica. No caminho de casa para o Centro Cultural, elas

    desenharam as motos que passam na rua e o nibus do CEACA-Vila. Este leva as crianas de

    casa para os projetos que a instituio oferece dentro e fora da comunidade.

    Houve, portanto, mudanas na circulao e nas brincadeiras das crianas na favela ao

    longo desses trs anos. Este talvez seja o resultado mais significativo das conquistas da presena

    da UPP no Morro dos Macacos.

    Foto do Parque Recanto do Trovador em Vila Isabel

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    5. As mudanas e investimentos na favela e os problemas que continuam presentes

    Quando realizamos a pesquisa anterior, em 2010, a perspectiva dos moradores do morro

    Santa Marta e do Morro dos Macacos era que, com a entrada da UPP, poderia haver melhorias na

    infraestrutura dessas favelas. O morro Santa Marta aguardava pelas obras de saneamento bsico

    e de melhorias nas habitaes que eram de madeira, pois eram problemas que ainda no tinham

    sido solucionados, aps dois anos da instalao da UPP. Os principais problemas citados no

    Morro dos Macacos foram a falta de saneamento bsico, o acmulo de lixo, os ratos, as

    condies ruins em que se encontravam as escadas da favela e as moradias. interessante notar

    como as pessoas criavam uma expectativa de que a UPP iria resolver problemas que no tinham

    relao direta com a segurana pblica. No Morro dos Macacos, sobravam esperanas de que as

    obras de urbanizao e os servios pblicos chegariam favela, como percebemos na fala de

    uma liderana comunitria:

    O lixo um problema. Em frente creche tem um esgoto a cu aberto. A CEDAE diz que

    toda rede muito antiga e que nunca tiveram pulso para mudar. Talvez agora se

    vislumbre uma melhoria, provavelmente agora deve ser de interesse do poder pblico

    fazer essas obras. Mas j deveria ter sido feita h muito tempo, as crianas da creche

    pulam essa vala, vem com o p sujo para a creche. O lixo jogado no cho, no tem

    caamba, o lixo era jogado em frente creche, ficou cheio de ratos. (CECIP, 2010)

    Apesar do desejo dos moradores de que a UPP resultasse em outros servios pblicos e

    melhorias para a comunidade, os principais problemas apontados naquela poca ainda no foram

    solucionados. As crianas do Morro dos Macacos, nas atividades realizadas na presente pesquisa,

    contaram que h muito lixo no morro e apontaram a presena de gua suja (esgoto) e bichos

    (barata e rato), inclusive dentro das casas, em decorrncia da falta de saneamento bsico e do

    lixo acumulado. As crianas parecem ter no apenas a percepo desse problema, mas tambm

    do que deve ser feito: Olha, na hora de ir embora no pode jogar lixo na rua. Uma menina

    optou por desenhar uma lixeira de diferentes cores uma referncia ao lixo reciclvel. H

    atualmente um bem-sucedido projeto de reciclagem de lixo na favela, mas ele insuficiente para

    atender todas as necessidades do local.

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    As crianas convivem ainda com outros animais, como cachorros, gatos e micos.

    Enquanto espervamos do lado de fora da creche para fazer uma atividade com as crianas, dois

    meninos com cerca de 10 anos brincavam em um carrinho de supermercado quando uma

    professora passou e brigou com eles, dizendo que o carrinho servia de lixeira e que eles

    poderiam pegar doenas de pele. Um dos meninos, ento, nos contou que j teve problemas na

    pele, que imaginamos terem sido causados por contato com lixo. Na pesquisa passada de 2010

    tambm foi mencionada a ocorrncia de doenas causadas pela insalubridade: Falta de

    saneamento. Aqui no uma comunidade modelo. Poderia ser melhor se os rgos competentes

    dessem mais valor. Tem bueiro aberto, a criana pega a bonequinha do cho sujo, a comunidade

    muito suja. Isso transmite doenas para as crianas, contou uma educadora.

    Segundo as mes, nestes trs anos no houve muitos investimentos em obras de

    urbanizao ou novos servios. Para as educadoras e mes, est a mesma coisa e a nica coisa

    que mudou mesmo foram os policiais. Elas reclamam de diferenas entre o Morro dos Macacos

    e outras favelas com UPP, que teriam sido mais beneficiadas. Depois se lembraram de algumas

    melhorias que ocorreram no local, como a construo de uma pracinha onde antes havia a

    piscina usada pelo trfico de drogas, e a reforma do parque que estava abandonado h anos.

    Embora as crianas no frequentem tanto a praa, o parque passou a ser um lugar de referncia

    para toda a comunidade, sendo muito utilizado por crianas, jovens e adultos. As educadoras

    falaram que crianas de outros locais do bairro tambm brincavam l, o que no acontecia antes

    da chegada da UPP, por causa das faces rivais que ocupavam os diferentes morros da regio.

    Criados ou reformados, h novos espaos pblicos e de lazer, que favorecem a presena das

    crianas nessas reas de convivncia.

    As mes tambm se lembraram de dois projetos novos: um curso de preparao para o

    mercado de trabalho, financiado pela Coca-Cola, e a Vila Olmpica, que oferece aulas de

    diferentes esportes e no final de semana libera a piscina para as crianas, que costumam brincar

    l. Duas mes do grupo de discusso fizeram o curso da Coca-Cola. Elas se mostram satisfeitas

    com a qualidade e surpresas com a presena de pessoas de outras partes da cidade que vm fazer

    o curso ali.

    Em 2010, os participantes da pesquisa se preocupavam com a possibilidade do aumento

    do custo de vida na favela, gerado pela regularizao dos servios de luz, gua, TV a cabo e

    internet. Eles sempre desfrutaram desses servios por meio de ligaes ilegais (gato), a um

    preo muito baixo ou de graa. Como expressou uma moradora do Morro dos Macacos: A UPP

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    vai trazer um aumento do custo de vida. Aqui na comunidade no se paga luz, no se paga TV,

    no paga gua. O dinheiro vem limpinho. Agora que eles vo melhorar a comunidade, vo

    aumentar tambm o gasto. Essa era tambm uma das crticas que os moradores do morro Santa

    Marta tinham em relao UPP principalmente pelo preo alto da conta de luz.

    A pesquisa de 2013 revela que o custo de vida aumentou no Morro dos Macacos para

    quem no tem casa prpria. Segundo uma moradora, o aluguel virou ouro. Houve uma

    valorizao grande do preo dos imveis: casa de 20 mil virou 40 e o aluguel que custava 150

    reais passou para 400 reais. As mes dizem que continuam no pagando conta de luz, mas que a

    empresa responsvel est instalando os relgios e em breve elas devem comear a pagar.

    Segundo os moradores, ningum saiu da comunidade por causa do aumento do custo de vida. As

    pessoas saam antes da UPP por causa da violncia. Depois da sua instalao, ex-moradores

    voltaram a morar no Morro dos Macacos.

    H uma percepo muito forte das participantes dos grupos de discusso de que a

    chegada da Unidade de Polcia Pacificadora possibilitou uma maior circulao na comunidade e

    arredores de pessoas que no so do Morro dos Macacos, e tambm dos prprios moradores em

    outros espaos. Uma me disse ainda que agora ela no sente mais medo em convidar amigos e

    familiares para irem sua casa: Quando a gente convida algum a gente se sente responsvel

    tambm. E se acontecer alguma coisa? Agora no temos mais essa preocupao.

    Ao serem perguntadas sobre a imagem que as pessoas tm do Morro dos Macacos e se

    ela mudou aps a chegada da UPP, mes e educadoras expressam opinies diferentes. A maioria

    das educadoras que participou da discusso no mora na comunidade e tem a impresso de que a

    imagem do local melhorou. Muitas disseram que tinham medo de entrar na favela antes da UPP:

    Eu sou de fora e no passava aqui. Mas, hoje em dia, elas podem trabalhar e caminhar pelo

    morro normalmente. J as mes, todas moradoras, acreditam que ainda h muito preconceito em

    relao favela e que a imprensa apenas noticia as coisas ruins que acontecem l. Uma me

    contou que estava saindo do mercado e perguntou ao taxista se ele a levaria at o morro. Ele

    disse que sim, mas quando viu que tinha que subir a ladeira de acesso favela o motorista

    desistiu. O mesmo aconteceu conosco quando fomos comunidade fazer a pesquisa. O taxista se

    recusou a subir a ladeira, mesmo vendo que estvamos carregando muitas sacolas.

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    Consideraes finais

    A partir da anlise das falas das crianas, mes e educadoras que moram ou trabalham no

    Morro dos Macacos, percebemos alguns pontos positivos e negativos relacionados entrada da

    UPP na favela. As mes e educadoras elogiaram a oferta de projetos tanto para crianas quanto

    para jovens e a presena de escolas prximas e no Morro dos Macacos: S fica toa quem os

    pais querem que fique, disse uma educadora. Uma me comentou a minha filha j no tem

    nem mais tempo, pois participa de diferentes cursos e atividades extraescolares. A favela

    tambm possui reas de lazer recm-reformadas, como o Parque Recanto do Trovador e a Vila

    Olmpica, ambos muito frequentados por crianas e adultos de diversos locais, inclusive no

    moradores da favela. Com a chegada da UPP a circulao de adultos e crianas dentro e fora

    da comunidade melhorou, assim como a presena de pessoas que antes no podiam ir, e hoje

    frequentam o morro. A sensao das moradoras que elas esto com mais liberdade. O fato de as

    crianas participantes da pesquisa no terem relatado questes relacionadas violncia tambm

    um aspecto positivo, consequncia da chegada da UPP, que diminui rotinas de violncia extrema

    que afetavam diretamente as crianas e seu imaginrio.

    Entre os pontos negativos, permanece a questo da carncia de servios pblicos, que no

    chegaram nem melhoram com a UPP. O lixo, a falta de saneamento bsico e os problemas

    decorrentes disso, comuns a quase todas as favelas da cidade, foram apontados pelas crianas e

    pelos adultos. Com a diminuio do conflito armado, que em 2010 assustava as crianas, hoje o

    que elas temem so ratos e baratas, efeitos dos problemas ambientais. Houve tambm o

    crescimento do nmero de roubos entre moradores, que vivem o medo da violncia e do abuso

    sexual, consequncia do fim das duras leis do trfico. A entrada da UPP provocou o aumento do

    aluguel e da moradia. A forma como os moradores e os policiais que ocupam a comunidade se

    relacionam tambm pode ser vista como um aspecto negativo, pois o distanciamento no cria um

    clima amigvel entre as partes, tornando a relao difcil e turbulenta.

    As mes e educadoras apresentam algumas sugestes para melhorar a vida das crianas e

    da comunidade como um todo. Apesar de contar com um posto de sade, que oferece ateno

    bsica como clnico-geral, pediatria e ginecologia-obsttrica, elas sentem falta de mdicos

    especialistas que possam trat-las na favela, sem precisar se deslocar para outros locais. Uma

    educadora, moradora antiga dos Macacos, sugere que aos domingos uma parte da rua principal

    da favela seja fechada para servir de rea de lazer, como acontece em outros lugares da cidade.

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    Tanto as mes quanto as educadoras falam da necessidade de reeducar os pais para que esses

    levem os filhos aos projetos, pois muitos tm preguia e no participam.

    Notamos que a UPP trouxe evidentes melhorias para a vida das crianas, que se

    sentem mais seguras para andar e brincar nos becos, ruas e reas livres da favela. Porm ainda h

    muitos desafios que no podem ser deixados de lado. Afinal a qualidade de vida no diz respeito

    apenas segurana, mas tambm inclui moradia, educao e sade de qualidade, saneamento

    bsico e opes culturais, questes que ainda precisam de maiores investimentos no local. A

    relao da polcia com os moradores tambm precisa ser trabalhada para que se possa criar um

    clima de confiana e segurana na favela.

    Referncias bibliogrficas

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    CECIP - CENTRO DE CRIAO DE IMAGEM POPULAR. O impacto sobre a primeira

    infncia das polticas de segurana pblica e iniciativas comunitrias em comunidades urbanas

    de baixa renda. Rio de Janeiro, 2010.

    CECIP - CENTRO DE CRIAO DE IMAGEM POPULAR. As polticas pblicas de

    segurana e de urbanizao das favelas do Rio de Janeiro e ateno dada s crianas pequenas.

    Rio de Janeiro, 2011.

    EMBERLEY, E. Vai embora, grande monstro verde. So Paulo: Brinque Book, 2009.

    GUTMAN, A. Os pesadelos de Lisa, Rio de Janeiro: Cosac Naif, 2010.