2011 – scheila maria valentim nienkötter

Click here to load reader

Post on 02-Jan-2017

218 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • 1

    UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE CINCIAS DA SADE

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM ENFERMAGEM MESTRADO PROFISSIONAL GESTO DO CUIDADO DE

    ENFERMAGEM

    SCHEILA MARIA VALENTIM NIENKTTER

    ACOLHIMENTO AOS ACOMPANHANTES DE PESSOAS

    ADULTAS EM SITUAO CRTICA DE SADE EM SERVIO DE EMERGNCIA

    FLORIANPOLIS-SC 2011

  • 2

  • 3

    SCHEILA MARIA VALENTIM NIENKTTER

    ACOLHIMENTO AOS ACOMPANHANTES DE PESSOAS

    ADULTAS EM SITUAO CRTICA DE SADE EM SERVIO DE EMERGNCIA

    Dissertao apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Enfermagem a Universidade Federal de Santa Catarina, como requisito para a obteno do ttulo de Mestre Profissional em Gesto do Cuidado em Enfermagem, do Curso de Mestrado Profissional Gesto do Cuidado em Enfermagem rea de Concentrao: Filosofia, Sade e Sociedade. Orientadora: Dra. Eliane Matos Linha de Pesquisa: Arte, Criatividade e Tecnologia em Sade e Enfermagem.

    FLORIANPOLIS 2011

  • Catalogao na fonte pela Biblioteca Universitria

    da

    Universidade Federal de Santa Catarina

    .

    N673a Nienkotter, Scheila Maria Valentim

    Acolhimento aos acompanhantes de pessoas adultas em

    situao crtica de sade em servio de emergncia

    [dissertao] / Scheila Maria Valentim Nienkotter ;

    orientadora, Eliane Matos. - Florianpolis, SC, 2011.

    137 p.: il.

    Dissertao (mestrado) - Universidade Federal de Santa

    Catarina, Centro de Cincias da Sade. Programa de Ps-

    Graduao em Enfermagem.

    Inclui referncias

    1. Enfermagem. 2. Hospitais - Servio de emergncia.

    3. Doentes hospitalizados - Relaes com a famlia.

    4. Enfermagem de emergncia - Pacientes. I. Matos, Eliane.

    II. Universidade Federal de Santa Catarina. Programa de Ps-

    Graduao em Enfermagem. III. Ttulo.

    CDU 616-083

  • 6

  • 7

    AGRADECIMENTOS

    Gostaria de agradecer a muitas pessoas, porm, em primeiro lugar, e mais importante, agradeo ao meu Deus, Fiel e Companheiro em todos os momentos de minha vida, que sempre soube o que era melhor para mim, e por isso deixei tudo em suas mos. Senhor muito obrigado, por estar sempre ao meu lado.

    Agradeo professora Dr Eliane Matos, que me orientou nesse

    estudo, pela amizade, carinho e toda a dedicao para que este estudo fosse concludo. Obrigada pela oportunidade de conhec-la melhor e pelos momentos de muito aprendizado. Voc um exemplo.

    Universidade Federal de Santa Catarina, que me forneceu

    formao, de graduao e mestrado, e onde tambm presto hoje meus servios como enfermeira e com satisfao e orgulho.

    Muito obrigada ao Programa de Ps-Graduao - PEN, ao

    Hospital Universitrio, aos colegas do curso de mestrado profissional e ao grupo PRXIS, que me acolheu de braos abertos nesse ltimo ano e tambm a toda equipe de trabalhadores da Emergncia Adulto, em especial aos que tiveram a disponibilidade em participar do estudo, tornando todos os momentos muito especiais.

    s professoras Francine Lima Gelbcke, Selma Regina Andrade,

    Eliane Nascimento, Ndia Chiodelli Salum, enfermeira Sabrina Silva de Souza, aos doutorandos Maria Patrcia Locks de Mesquita e Jose Luis Guedes dos Santos, meus agradecimentos por se disporem a participar da banca de qualificao e defesa.

    Aos pacientes e seus familiares atendidos nos servios de

    emergncia adulto do HU. Um agradecimento especial aos familiares, por terem contribudo com este estudo em um momento to especial.

    Aos amigos, que na vida nos fortalecem nos momentos difceis,

    muito obrigada pelos momentos passados juntos e to necessrios para dar continuidade nessa caminhada, a alegria de vocs foi fundamental.

  • 8

    Aos meus pais Nilo e Nilda, por ensinarem o caminho correto da vida, pois se hoje sou quem sou, agradeo a eles, pois me deram carinho e um amor incondicional, sempre me incentivando na profisso, mostrando-se orgulhosos e confiantes. Pai e me, muito obrigada por tudo, amo vocs para sempre.

    Agradeo tambm aos meus irmos Leonardo e Deise e tambm

    aos seus pares, muito obrigada pela fora, desculpe a ausncia por alguns perodos; amo vocs.

    V Lita, e V Xiquinha ( in memrian), agradeo todo o apoio

    de luz e amor que vocs me do todos os dias com suas oraes e ensinamentos, obrigada por fazerem parte de minha vida.

    Ao meu amor Aramis, esposo incansvel, paciente e amoroso,

    que sempre esteve ao meu lado incentivando minhas escolhas pessoais e profissionais, muito obrigada, pela pacincia nesse tempo de mestrado; te amo muito.

  • 9

    NIENKOTTER, Scheila Maria Valentim. Acolhimento aos acompanhantes de pessoas adultas em situao crtica de sade em servio de emergncia. 2011.137p. Dissertao (Mestrado Profissional Gesto do Cuidado em Enfermagem) Programa de Ps-Graduao em Enfermagem, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianpolis, 2011 Orientadora: Dra. Eliane Matos Linhas de Pesquisa: Arte, Criatividade e Tecnologia em Sade e Enfermagem.

    RESUMO

    O presente estudo teve por objetivo construir, a partir de um processo crtico-reflexivo, realizado com profissionais de sade atuantes em uma emergncia hospitalar, indicativos para a elaborao de um protocolo de acolhimento ao acompanhante do paciente adulto, em situao crtica de sade. Investigao de natureza qualitativa, realizada a partir dos pressupostos da pesquisa Convergente Assistencial (TRENTINI, PAIM, 2004) em um servio de emergncia em hospital escola de um estado da regio sul do Brasil, que atende exclusivamente pelo Sistema nico de Sade (SUS). Envolveu a participao de sete familiares/acompanhantes de pacientes e 53 profissionais de sade, mdicos, enfermeiros, tcnicos e auxiliares de enfermagem, psiclogo e assistente social, que participaram expondo suas percepes e expectativas sobre aspectos que envolvem a ateno ao familiar do paciente em situao crtica de sade. Os familiares responderam a uma entrevista semiestruturada, abordando aspectos do atendimento recebido, satisfao e insatisfao com o servio e expectativas em relao ao acolhimento. Os profissionais de sade tambm participaram do estudo respondendo a u,ma entrevista semiestruturada, contendo questes acerca do acolhimento, e de grupos de reflexo para discutir os principais achados das entrevistas e os indicativos de uma proposta de acolhimento na realidade. Os resultados apontam que para os dois grupos (familiares e profissionais) o acolhimento fundamental para a qualidade da assistncia e humanizao do atendimento. Familiares/acompanhantes apontam como aspecto positivo da ateno recebida o pronto atendimento dos casos graves. Consideram o atendimento positivo quando permitido permanecer junto ao paciente, quando recebem informaes adequadas e

  • 10

    frequentes sobre o estado do paciente e quando os profissionais tm uma postura acolhedora. Percebem como negativa a experincia de serem retirados do local de atendimento sem informaes sobre o paciente. Profissionais de sade compreendem a filosofia do acolhimento em servios de sade, conceituando-o como momento de atendimento inicial, o primeiro contato incluindo aspectos relacionais como o envolvimento pessoal, acolher, receber, ouvir, conversar, manter uma comunicao adequada com a famlia, informar o estado de sade da pessoa em atendimento, dar respostas, trocar informaes, formao de vnculo, melhoria do acesso e classificao de risco com priorizao de casos. Entendem que essa postura acolhedora, na maioria das vezes, no ocorre no servio. Apontam como limites para o acolhimento: dificuldades na estrutura fsica do servio, despreparo dos profissionais pra lidar com a famlia de paciente com risco de morte, excesso de demanda e outros. Como indicativos para uma proposta de acolhimento, apresentam as seguintes questes: necessidade de capacitao dos profissionais, presena de psiclogo 24hs no servio para conduzir o acolhimento dos familiares de pacientes crticos, melhorias no ambiente com definio de local prprio para permanncia de familiares de pacientes nesta condio, dentre outros.

    Palavras-chave: Enfermagem. Servios Hospitalares de Emergncia. Famlia. Acompanhantes de Pacientes. Acolhimento.

  • 11

    NIENKOTTER, Scheila Maria Valentim. La acogida a los acompaantes de pacientes adultos en estado de salud crtico en el servicio de urgencias. 2011.137 p. Disertacin (Maestra Profesional en Gestin de Cuidados de Enfermera) - Programa de Postgrado en Enfermera, Universidad Federal de Santa Catarina, Florianpolis, 2011. Orientadora: Dra. Eliane Matos Lneas de Investigacin: Arte, creatividad y tecnologa en salud y enfermera

    ABSTRACT

    Study aimed at constructing indicators for the elaboration of a reception protocol to the companions of adult patients in critical health situation from a critical-reflexive process conducted with health professionals who act in a hospital emergency. Qualitative investigation based on the assumptions of the Assistential Converging research (TRENTINI, PAIM, 2004) in the emergency services of a teaching hospital that works exclusively with Public Health System patients in southern Brazil. The study involved the participation of seven patients relatives/companions and 53 health professionals - doctors, nurses, technicians and nurses aides, psychologist and social assistants, who participated exposing their perceptions and expectations of the aspects that involve attention to the patient in critical health situations relative. The relatives answered a semi-structured interview addressing the aspects of the reception received, satisfaction or dissatisfaction with the service and expectations regarding reception. The health professionals participated in the study responding to a semi-structured interview with questions about the reception, and took part in focal groups to discuss the main findings of the interviews and the indicators of an actual reception proposal. The results indicate that reception is fundamental to both groups - relatives and reception professionals - for the quality of assistance and the humanization of services. Relatives/companions indicate the emergency care received in severe cases as a positive aspect. The service is considered positive when they are allowed to remain with the patient, receive adequate and frequent information on the patient's health state, and the professionals show a receptive posture. The experience of being removed form the site of care and not receiving information on the patient is perceived as negative. Health professionals understand the philosophy of reception and welcoming in health

  • 12

    services, considering it as a concept in initial care, the first contact including relational aspects such as personal involvement, welcoming, receiving, listening, talking, maintaining adequate communication with the family, informing the state of the patients health, giving answers, exchanging information, forming links, improving access, and the classification of risks with case prioritization. They understand that in most cases this welcoming posture does not occur in the reception services, and indicate the following limitations to reception: physical structure limitations, professionals who lack preparation to deal with the relatives of the patient in risk of death, excessive demand and other factors. The following are presented as indicators within a reception proposal: the need to train professionals, the 24-hour presence of a psychologist to conduct reception of critical patient family members, and an improved environment, with the definition of a specific place for the relatives of patient in this condition, among others.

    Key words: Nursing. Hospital Emergency Services. Patient Companions. Reception.

  • 13

    NIENKOTTER, Scheila Maria Valentim. Home to the accompanying adult health in a critical condition in the emergency services. 2011. 137F. Dissertation (Professional Master in Nursing Care Management) - Graduate Program in Nursing, Federal University of Santa Catarina (UFSC), Florianpolis, Santa Catarina State, Brazil, 2011.

    Advisor: Dr. Eliane Matos Research Areas: Art, creativity and technology in Health and Nursing

    RESUMEN

    El presente estudio tuvo como objetivo crear un protocolo de acogida al cuidador del paciente adulto crticamente enfermo, elaborado a partir de un proceso crtico reflexivo, llevado a cabo con profesionales del rea de la salud que trabajan en el servicio de urgencias de un hospital. Se trata de una investigacin de carcter cualitativo, realizada segn los supuestos de la investigacin Convergente Asistencial (TRENTINI, PAIM, 2004), en un servicio de urgencias de un hospital universitario, en el sur de Brasil, y que slo atiende por el Sistema nico de Salud (SUS). El estudio cont con la participacin de siete familiares/cuidadores de los pacientes, y cincuenta y tres profesionales del rea de la salud: mdicos, enfermeros, tcnicos y auxiliares de enfermera, psiclogos y trabajadores sociales, que expusieron sus percepciones y expectativas sobre temas relativos a la atencin prestada al cuidador del paciente crticamente enfermo. Los familiares respondieron una entrevista semi-estructurada sobre aspectos relacionados con la atencin recibida, la satisfaccin e insatisfaccin con el servicio y las expectativas sobre la acogida. Los profesionales del rea de la salud respondieron una entrevista semi-estructurada con preguntas sobre la acogida, y participaron de grupos de enfoques para discutir los resultados de las entrevistas y los indicadores de una propuesta de acogida en la realidad. Los resultados muestran que para ambos grupos - familiares y profesionales- la acogida es fundamental para la calidad del cuidado y la humanizacin de la atencin. Los familiares/cuidadores sealan como un aspecto positivo de la atencin recibida, el tratamiento de urgencia de los casos ms graves. Consideran positiva la atencin cuando: les es permitido permanecer con el paciente, reciben una informacin adecuada y constante sobre el estado del paciente, los profesionales tienen una actitud de

  • 14

    acogida. Perciben como negativa la experiencia de ser retirados del lugar de la atencin y no recibir informacin sobre el paciente. Los profesionales del rea de la salud comprenden la filosofa de la atencin en los servicios de salud, conceptualizndola como un momento de atencin inicial, un primer contacto en el que se incluyen aspectos relacionales, tales como: la implicacin personal, acoger, recibir, escuchar, hablar, mantener una comunicacin clara con la familia, informar sobre el estado de salud del paciente, dar respuestas, intercambiar informaciones, crear vnculos, mejorar el acceso, la clasificacin del riesgo y prioridad para los casos ms graves. Comprenden que esa actitud de acogida, en la mayora de los casos, no se lleva a cabo en el servicio, y sealan como limitaciones para la acogida: las dificultades en la estructura fsica del servicio, la falta de preparacin de los profesionales para hacer frente a la familia del paciente con riesgo de muerte, el exceso de demandas, entre otros. Como indicadores para una propuesta de acogida son presentados: la necesidad de formacin profesional, la presencia de un psiclogo las 24 horas para llevar a cabo el servicio de acogida de los familiares de los pacientes en estado grave, las mejoras en el ambiente de trabajo con la definicin de un lugar propio de residencia para las familias de los pacientes en esta condicin, entre otros. Palabras-clave: Enfermera. Servicios Hospitalarios de Urgencias. Familia; Acompaantes de pacientes. Acogida.

  • 15

    LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS

    AACCN American Association of Critical Care Nurses

    AACR Acolhimento com Avaliao e Classificao de Risco

    APVP Anos Potenciais de Vida Perdidos

    BAEM British Association of Accident and Emergency Medicine

    ENA Emergency Nurses Association

    PCA Pesquisa Convergente Assistencial

    PEN Programa de Ps-Graduao de Enfermagem

    PNAU Programa Nacional de Atendimento de Urgncia

    RCN Royal College Nursing

    RCP Resuscitation Cardio Respiratory

    RUE Rede de Ateno s Urgncias e Emergncias

    SAMU Servio de Atendimento Mvel de Urgncia

    SEA Servio de Emergncia Adulto

    SEI Servio de Emergncia Interna

    SUS Sistema nico de Sade

    TCLE Termo de Consentimento Livre Esclarecido

    UFSC Universidade Federal de Santa Catarina

  • 16

  • 17

    LISTA DE QUADROS

    Quadro 1: Protocolo de Acolhimento e Avaliao com Classificao de Risco, conforme as cores e prioridades de atendimento ........................ 51

  • 18

  • 19

    SUMRIO

    LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS ........................................ 15

    LISTA DE QUADROS ....................................................................... 17

    INTRODUO ................................................................................... 21 1.1 OBJETIVOS ................................................................................... 26 1.1.1 Objetivo Geral ............................................................................ 26 1.1.2 Objetivos Especficos .................................................................. 27

    2 REVISO DE LITERATURA........................................................ 29

    3 MARCO CONCEITUAL ................................................................ 37

    4 MTODO .......................................................................................... 49 4.1 LOCAL DA PESQUISA ................................................................. 50 4.2 SUJEITOS DA PESQUISA ............................................................ 52 4.3 INSTRUMENTOS DE PESQUISA E A COLETA DE DADOS ... 53 4.3.1 Entrevistas .................................................................................. 53 4.3.2 Grupos de reflexo ..................................................................... 55 4.4 ANLISE DE DADOS ................................................................... 56 4.5 ASPECTOS TICOS ...................................................................... 57

    5 RESULTADOS ................................................................................. 59 5.1 MANUSCRITO 1: ACOLHIMENTO EM SERVIO DE EMERGNCIA: OPINIES E EXPECTATIVAS DE FAMILIARES/ACOMPANHANTES DE PACIENTES CRTICOS .. 59 5.2 MANUSCRITO 2: POSSIBILIDADES E LIMITES PARA UMA PROPOSTA DE ACOLHIMENTO DE FAMILIARES/ACOMPA-NHANTES DE PACIENTES CRTICOS EM SERVIOS DE EMERGNCIA ..................................................................................... 79

    CONSIDERAES FINAIS ........................................................... 107

    REFERNCIAS ................................................................................ 111

    APNDICES ...................................................................................... 123

  • 20

  • 21

    INTRODUO A preocupao com a humanizao da assistncia e o

    acolhimento aos usurios do Sistema nico de Sade (SUS) tem se destacado no cenrio brasileiro, especialmente a partir do processo da reforma sanitria no Pas, na perspectiva de melhorar a assistncia populao e responder s principais insatisfaes dos usurios do sistema, quanto ao acesso e aos aspectos da ateno prestada pelos profissionais e instituies de sade nos momentos em que estes, por algum motivo, buscam atendimento para suas necessidades (BRASIL, 2004a).

    A assistncia sade no Brasil marcada pela falta de ateno s queixas dos usurios, baixa resolutividade das aes, impessoalidade nas relaes entre profissionais/pessoas que buscam o servio, falta de responsabilizao dos profissionais e das instituies com os problemas de sade dos usurios, duplicidade das aes de sade, resultando em utilizao inadequada dos j escassos recursos do sistema (BRASIL, 2004b, BRASIL, 2004c).

    No rol de dificuldades que permeiam a ateno sade no Brasil, destacam-se a precria estruturao dos servios de sade para organizar a entrada do usurio no sistema, racionalizar os servios, obtendo uma melhor utilizao dos recursos em cada nvel de ateno, disciplinando uma organizao mais lgica dos servios de sade (MERHY 1997a; BRASIL, 2004a; CECLIO; MERHY, 2005).

    Essa realidade resulta que ao longo dos anos a populao tem estabelecido com os servios de sade uma relao bastante problemtica, e os servios de Emergncia tornaram-se uma das principais portas de entrada do sistema de sade, inviabilizando que esses servios atuem de forma competente sua funo primordial: o atendimento de situaes mais complexas que impliquem em risco de morte para as pessoas. Grande parte dos atendimentos nos Servios de Emergncia poderia ser realizada adequadamente em outros locais da rede, melhorando a ateno s situaes graves de sade nas emergncias (NAZRIO, 1999).

    Segundo Calil e Patanhos (2007), os servios de emergncia funcionam geralmente em hospitais de mdio ou grande porte, recebem pacientes em situaes graves ou potencialmente graves, os quais necessitam de recursos tecnolgicos e humanos especializados e preparados para o seu atendimento e recuperao. O panorama atual desses servios em nosso pas, entretanto, denuncia uma situao catica

  • 22

    tornando-se um grave problema de sade pblica a ser enfrentado. Atualmente, os servios de emergncia no se caracterizam como unidades hospitalares que prestam apenas o atendimento inicial, mas, sim, unidades superlotadas de pacientes que permanecem por dias e at semanas em macas aguardando por uma vaga em outras unidades por exames e cirurgias. Muitos dos atendimentos realizados nas emergncias hospitalares poderiam se dar em outras esferas do servio de sade.

    No entanto, segundo Ceclio e Merhy (2003, p. 4), [...] por mais que se amplie e se aprimore a rede bsica de servios, as urgncias/emergncias hospitalares seguem sendo importantes portas de entrada da populao no seu desejo de acessar o SUS.

    Essa realidade levou, nos ltimos anos, profissionais e gestores do SUS a aprofundarem a discusso sobre a humanizao da assistncia nos espaos de ateno sade. Nas diversas iniciativas governamentais para responder a essa realidade, destaca-se um conjunto de aes e propostas articuladas: a implantao do Programa/Estratgia de Sade da Famlia a partir de 1994; o Programa Nacional de Humanizao da Assistncia Hospitalar em 2001, que em 2004 foi ampliado para a Poltica Nacional de Humanizao da Assistncia, e outros (BRASIL, 2006a; BRASIL, 2004a). Nos Servios de Emergncia, os debates sobre a humanizao da assistncia contriburam para a construo e implementao da proposta de Acolhimento com Avaliao e Classificao de Risco (AACR), existente nos dias atuais em muitos servios, cujo objetivo atender adequadamente s demandas colocadas para esse nvel de ateno (BRASIL, 2009).

    Outra iniciativa governamental de extrema importncia para a organizao dos Servios de Emergncia refere-se criao dos Sistemas Estaduais de Urgncia e Emergncia Servio de Atendimento Mvel de Urgncia (SAMU), sob a Portaria n. 2048/GM, de novembro de 2002, do Ministrio da Sade, atualmente um importante componente da assistncia sade. Tal iniciativa vem em resposta crescente demanda por servios nessa rea, nos ltimos anos, devido ao crescimento do nmero de acidentes e da violncia urbana e insuficiente estruturao da rede, fatores que tm contribudo decisivamente para a sobrecarga de servios de Urgncia e Emergncia disponibilizados para atendimento da populao (BRASIL, 2002; BRASIL, 2006).

    A portaria 2048/GM/2002 estabelece tambm a REGULAO MDICA DAS URGNCIAS E EMERGNCIAS definindo que esta, baseada na implantao de Centrais de Regulao, o elemento ordenador e orientador dos Sistemas Estaduais de Urgncia e

  • 23

    Emergncia. As Centrais, estruturadas nos nveis estadual, regional e/ou municipal, organizam a relao entre os vrios servios, qualificando o fluxo dos pacientes no sistema e gerando uma porta de comunicao aberta ao pblico em geral, atravs da qual os pedidos de socorro so recebidos, avaliados e hierarquizados (BRASIL, 2002).

    No que diz respeito s UNIDADES DE REFERNCIA, essa portaria regulamentou que as Unidades de Referncia em Atendimento s Urgncias e Emergncias so aquelas instaladas em hospitais (gerais ou especializados) aptos a prestarem esse tipo de assistncia, correspondente M31 e alta complexidade, de acordo com sua capacidade instalada, especificidade e perfil assistencial. Essas unidades, integrantes do Sistema Estadual de Referncia Hospitalar em Atendimento de Urgncias e Emergncias, devem contar com instalaes fsicas e recursos humanos e tecnolgicos adequados, tornando-se referncia de assistncia hospitalar no atendimento de urgncia e emergncia do Sistema Estadual de Urgncia e Emergncia (BRASIL, 2002).

    Apesar da existncia dessas iniciativas, muitos so os fatores que ainda contribuem para dificultar um atendimento qualificado e humanizado nos Servios de Emergncia. Existe, geralmente, uma sobrecarga de servio aos profissionais, pelo grande nmero de pacientes atendidos, pela falta de leitos hospitalares que permitiriam a rpida transferncia dos pacientes, abrindo espao para novos atendimentos, e pela caracterstica dos casos que chegam ao servio necessitando de inmeras intervenes.

    O aumento dos casos de acidentes e a violncia tambm contribuem para dificultar a organizao desses servios, tendo forte impacto sobre o SUS e para o conjunto da sociedade. Na assistncia, esse impacto pode ser medido diretamente pelo aumento dos gastos realizados com internao hospitalar, assistncia em UTI e a alta taxa de permanncia hospitalar desse perfil de pacientes. Na questo social, pode ser verificado pelo aumento de 30% no ndice de Anos Potenciais de Vida Perdidos (APVP) em relao a acidentes e violncias nos ltimos anos, enquanto que por causas naturais esse dado encontra-se em queda (BRASIL, 2002).

    Dados brasileiros obtidos pelo Data SUS, mostram tambm que 35% das mortes no Brasil so por causas cardiovasculares, resultando

    _______________ 1 M3 - Classificao das Unidades de Referncia em Atendimento s Urgncias e Emergncias instaladas em hospitais, gerais ou especializados, aptas a prestarem assistncia de urgncia e emergncia e alta complexidade (BRASIL, 2002 p. 31).

  • 24

    em 300 mil bitos/ ano. J nos EUA, estima-se que 250 mil mortes sbitas por ano decorram de causas coronarianas. Nenhuma situao clnica supera a prioridade de atendimento da Parada Cardiorrespiratria (PCR), em que a rapidez e a eficcia das intervenes adotadas, so cruciais para melhor resultado do atendimento geralmente prestado nas emergncias (MARTINS, 2008, p. 1).

    A necessidade de ateno s intercorrncias graves de sade, que colocam em risco a vida e integridade das pessoas, ao mesmo tempo em que justifica a necessidade de uma equipe capacitada e treinada tecnicamente para o atendimento de urgncia/emergncia, exige profissionais preparados para um atendimento humanizado, pois, na maioria das vezes, tais situaes surgem de modo imprevisto na vida das pessoas, envolvendo no apenas o doente, mas tambm sua famlia e rede de relaes que necessitam de cuidados e ateno das equipes de sade.

    Como parte integrante do Sistema de sade, o Hospital Universitrio, local onde foi desenvolvida a presente pesquisa, no est alheio a essas necessidades. Para atender populao que procura a Unidade de Emergncia, a estrutura fsica do servio foi totalmente reformada e adequada, em 2007, de acordo com as novas diretrizes do Ministrio da Sade para as emergncias hospitalares no Brasil, com implantao do Acolhimento com Avaliao e Classificao de Risco (AACR).

    O Acolhimento com Classificao de Risco foi organizado de modo que, ao dar entrada no Servio de Emergncia, o paciente fosse recebido por um enfermeiro, que, utilizando um protocolo do Ministrio da Sade (MS), adaptado pela Instituio, define, a partir das queixas, sinais e sintomas, a prioridade de atendimento. Excluem-se do acolhimento realizado pelo enfermeiro os pacientes crticos, trazidos pelo esquema de regulao e outros casos encaminhados j com a prioridade definida, pois esses entravam diretamente na rea de atendimento ao paciente grave.

    Embora essa iniciativa tenha aparentemente gerado bons resultados para a assistncia, uma vez que no h avaliao formal sobre os efeitos do AACR na realidade, no ms de setembro de 2010, o atendimento foi suspenso por falta de mdicos e somente retomado em agosto de 2011. No perodo em que esteve suspenso, as pessoas eram atendidas por ordem de chegada, excetuando-se os casos graves, trazidos pelo sistema de regulao, e aquelas situaes em que o servidor administrativo (que abre a ficha de atendimento) percebia alguma situao mais grave.

  • 25

    Mesmo com todas as iniciativas voltadas para melhorar/humanizar a ateno nos servios de sade, so imensas as dificuldades a serem superadas pelos servios de Emergncia em nossa realidade. Como profissional que atua nesse servio, convivo diariamente com o descontentamento e insatisfao dos usurios com a assistncia recebida nessa unidade assistencial. Por outro lado, os profissionais de sade convivem com alto nvel de presso e estresse para dar conta de uma ateno adequada aos usurios.

    Em minha prtica diria observei que, nos atendimentos a pacientes crticos, geralmente junto ao paciente est um familiar/acompanhante, carente de ateno, sofrendo as incertezas e ansiedades prprias da condio de ter algum que lhe caro em situao de risco. Esse acompanhante, quando includo na situao e acolhido em suas necessidades, pode ter o sofrimento minimizado e tambm pode contribuir com informaes e referncias para auxlio da equipe de sade.

    Em relao humanizao, o atendimento famlia/acom-panhante do paciente em situao crtica de sade e com risco de morte ainda pouco trabalhado pelos profissionais. Geralmente, os pacientes so levados ao Servio por situaes como acidentes, doenas coronarianas, doenas gstricas como as hemorragias digestivas e doenas hepticas, doenas pulmonares entre outras complicaes principalmente clnicas, uma vez que a instituio no tem referncia para especialidades como neurocirurgia, ortopedia, cirurgia cardaca e outras. A caracterstica dos casos atendidos leva permanncia prolongada (horas ou mesmo dias) desses pacientes no ambiente da Emergncia, especificamente na sala de reanimao, devido falta de leitos hospitalares e especialmente leitos em Unidade de Tratamento Intensivo (UTI).

    A chegada desse tipo de paciente ao Servio de Emergncia mobiliza os profissionais de sade, enquanto o acompanhante/famlia, que vive um momento de extrema ansiedade, esquecido. Frequentemente, o familiar/acompanhante permanece fora do ambiente de ateno do paciente, recebe pouca ou quase nenhuma informao sobre o que est acontecendo, caracterizando o oposto do que determina a Poltica Nacional de Humanizao. Resumindo, o acompanhante/familiar no acolhido adequadamente pela equipe de sade. Muitos so os profissionais envolvidos no cuidado ao paciente crtico, porm, inexiste at o momento uma discusso sobre as aes planejadas para a ateno aos acompanhantes e familiares. Na verdade, h um despreparo dos profissionais para a realizao de aes junto aos

  • 26

    acompanhantes/familiares, o que compromete a humanizao da assistncia e qualidade do cuidado.

    Prioriza-se apropriadamente, nessas situaes, a ateno ao problema clnico do paciente sob cuidados, uma vez que da ateno recebida depende muitas vezes a manuteno de sua prpria vida. No entanto, o paciente no o nico a sofrer com a doena e com a hospitalizao, pois as demais pessoas envolvidas diretamente com o paciente compartilham a angstia, o medo e o sofrimento desse momento. Sendo assim, importante que o profissional de sade dispense tambm ateno aos acompanhantes, intentando facilitar o enfrentamento dessa nova experincia.

    A motivao para esta investigao surgiu da necessidade de trabalhar propostas que possibilitem a qualificao dos profissionais e da assistncia em relao ao acolhimento do acompanhante/familiar de pacientes em estado crtico de sade nos servios de Emergncia. Entende-se que o compromisso da equipe de sade atuante em um Servio de Emergncia Hospitalar deve tambm incluir os acompanhantes no cuidado prestado, introduzindo na dinmica do servio tecnologias relacionais como o acolhimento para melhorar a qualidade da assistncia.

    Frente exposio feita at o momento, surge a questo norteadora deste estudo: o que pensam e fazem os profissionais de sade em relao ao acolhimento aos acompanhantes, nas situaes de atendimento ao paciente crtico, em um servio de emergncia?

    1.1 OBJETIVOS

    1.1.1 Objetivo Geral Construir, a partir de um processo crtico-reflexivo com

    profissionais de sade que atuam em uma Emergncia hospitalar e opinio de acompanhantes, indicativos para a elaborao de um protocolo de acolhimento ao acompanhante do paciente adulto, em situao crtica de sade.

  • 27

    1.1.2 Objetivos Especficos a) Conhecer o que pensam os acompanhantes de pacientes em

    situaes crticas de sade, atendidos em uma unidade de emergncia hospitalar, acerca do atendimento recebido;

    b) Refletir, com os profissionais de sade, envolvidos no

    atendimento ao paciente adulto em situao crtica de sade, em um servio de emergncia, as possibilidades e limitaes de acolhimento aos acompanhantes desses pacientes com vistas humanizao da assistncia.

    c) Levantar, a partir da reflexo com os profissionais e

    acompanhantes indicativos a construo de um protocolo de atendimento aos familiares de pacientes em situao crtica de sade.

  • 28

  • 29

    2 REVISO DE LITERATURA

    A reviso de literatura deste estudo foi fundamentada em

    levantamento assistemtico efetuado nas bases de dados BIREME, SCIELO, PUBMED, LILACS, utilizando palavras-chave prximas do tema acolhimento de acompanhantes de pessoas em situao crtica de sade, atendidas em emergncia hospitalar, sendo algumas delas: acolhimento; enfermagem; equipe de assistncia ao paciente, enfermagem em emergncia, famlia/acompanhante, atendimento em emergncia, servio de emergncia. Nos peridicos internacionais, foram utilizadas as seguintes palavras chave: family member; presence; resuscitation; family presence during resuscitation; family witnessed resuscitation; patient views. Utilizou-se tambm a base de dados da Biblioteca da Universidade Federal de Santa Catarina para consulta de dissertaes e teses.

    O tema acolhimento tem sido alvo de intenso debate no que diz respeito aos servios de sade, incluindo os servios de emergncia. No entanto, quando se trata da incluso/acolhimento do acompanhante/familiar do paciente em situao crtica de sade nos servios de emergncia, percebe-se uma insuficincia de estudos na literatura. A produo cientfica sobre o acolhimento em emergncia est centrada na perspectiva de humanizao da assistncia, pelas propostas de implantao do Acolhimento com Avaliao e Classificao de Risco nesses servios, segundo a perspectiva das polticas pblicas brasileiras de humanizao da assistncia. Nesse sentido, aborda o acolhimento no contexto geral desses servios, no fazendo referncias especficas sobre o acompanhante do paciente em situao crtica.

    Segundo a Poltica Nacional de Humanizao (PNH), o atendimento aos usurios do Sistema nico de Sade (SUS) deveria estar pautado em parmetros como: melhoria das condies de acesso e prestao dos servios; qualidade das instalaes, equipamentos e condies ambientais; clareza nas informaes oferecidas aos usurios, com identificao dos profissionais que prestam atendimento, informao aos familiares sobre o atendimento, educao em sade inerentes preveno de doenas e promoo da sade, informaes sobre servios existentes na comunidade e qualidade da relao entre usurios e profissionais, dentre outros (BRASIL, 2004a).

    Aspectos da PNH que suscitam a importncia da incluso do

  • 30

    acompanhante na ateno sade tm apoio nos parmetros que destacam a necessidade de pensar a qualidade da relao entre usurios e profissionais, de modo a propiciar um atendimento eficiente e gentil, que demonstre interesse dos profissionais pela situao vivida pelo doente/famlia, compreenso das necessidades dos usurios, informao quanto ao diagnstico, tratamento e prognstico e privacidade no atendimento (BRASIL, 2004a).

    Nas publicaes do Ministrio da Sade no Brasil, o destaque ao acompanhante do paciente dado pelo projeto de visita aberta e pela carta dos direitos dos usurios do SUS (BRASIL, 2006b; BRASIL, 2007). A proposta de visita aberta faz parte da Poltica Nacional de Humanizao, cujo objetivo ampliar o acesso dos visitantes s unidades de internao, de forma a garantir o elo entre o paciente, sua rede social e os diversos servios da rede de sade, mantendo latente o projeto de vida do paciente. A proposta de visita aberta parte do pressuposto de que as pessoas fazem parte de sistemas complexos e interconectados que abarcam os fatores individuais, familiares e extra familiares, os amigos, a escola, o trabalho e a comunidade. Segundo essa concepo, a famlia ou rede social essencial no s para acompanhar a pessoa internada, mas tambm para ser orientada no seu papel de cuidador leigo. Cuidar ganha um sentido amplo, alm de tratamentos e medicamentos, configurando-se na criao de ambientes relacionais que permitam pessoa doente ou hospitalizada a descoberta ou a releitura do sentido e do valor de sua existncia para aqueles que a rodeiam e para si mesma favorecendo a eficcia dos tratamentos (BRASIL, 2007, p.3, 4).

    Por sua vez, a Carta dos Direitos dos Usurios do SUS chama a ateno para

    [...] o direito do paciente ao acompanhamento por pessoa de sua livre escolha nas consultas, exames e internaes, no momento do pr-parto, parto e ps-parto e em todas as situaes previstas em lei (criana, adolescente, pessoas vivendo com deficincias ou idoso). Nas demais situaes, ter direito a acompanhante e/ou visita diria, no inferior a duas horas durante as internaes, ressalvadas as situaes tcnicas no indicadas (Brasil, 2006b, p. 5).

    Prev ainda a ampliao dos horrios de visita nos casos em que a

    permanncia do acompanhante no indicada (BRASIL, 2006b, p. 5).

  • 31

    As referncias ao acompanhante do paciente, presentes nos diversos documentos emanados do MS no Brasil, so claras quanto importncia da rede de relaes do paciente nos momentos de hospitalizao, no obstante as dificuldades existentes para sua concretizao na realidade. Nesse sentido, pensar o acolhimento dos acompanhantes de pacientes em situao crtica de sade, contribui para a concretizao das polticas pblicas de humanizao.

    Segundo o Ministrio da Sade, o acolhimento como postura e prtica nas aes de ateno e gesto nas unidades de emergncia, a partir da anlise dos processos de trabalho, favorece a construo de relao de confiana e compromisso entre as equipes e os servios, possibilitando tambm os avanos nas alianas entre usurios e trabalhadores (BRASIL, 2009).

    O conceito de acolhimento, na concepo das polticas pblicas de sade, no se restringe ao problema da recepo da demanda. O acolhimento na porta de entrada s ganha sentido se o entendermos como parte do processo de produo de sade, como algo que qualifica a relao e que, portanto, passvel de ser apreendido e trabalhado em todo e qualquer encontro entre aquele que busca o servio e os profissionais de sade. O acolhimento como ato ou efeito de acolher expressa uma ao de aproximao, um estar com e perto de, ou seja, uma atitude de incluso e estar em relao com algo ou algum. exatamente no sentido da ao de estar com ou prximo de que o acolhimento afirma-se como uma das diretrizes de maior relevncia poltica, tica e esttica da Poltica Nacional de Humanizao da Ateno e Gesto do SUS (BRASIL, 2009, p. 11).

    Estudos que abordam a questo do acolhimento na realidade dos servios de emergncia pouco tratam da questo do acompanhante. De acordo com Pai e Lautert (2005), Dal Sousa Filho, Xavier e Vieira (2008), Araujo (2009) a comunicao essencial para o adequado acolhimento aos usurios e seus acompanhantes. No entanto, no foram encontrados estudos abordando a questo da interao profissional/acompanhante no Servio de Emergncia hospitalar. Observa-se, pelos estudos existentes, uma preocupao dos profissionais com o pronto atendimento do paciente, porm, normalmente, deixam-se de lado as pessoas de suas relaes, desconsiderando um momento de extremo estresse.

    Em pesquisa realizada com mdicos de um hospital pblico em Belo Horizonte, constatou-se a dificuldade no dialogo entre mdico, familiar e paciente. Para suprir os dficits dessa condio de baixa interao entre profissional de sade e usurios, foi instituda a atividade

  • 32

    Posso Ajudar, realizada por profissional no tcnico como, por exemplo, um estudante, estagirio do servio da psicologia, ou da enfermagem, que de modo mais informal presta informaes e realiza aes envolvendo familiares, pacientes e mdicos, com o objetivo de melhorar a comunicao entre esses dois sujeitos (ARAUJO, 2009).

    Ainda na tentativa de instituir um atendimento com base nas polticas de humanizao, diversas aes tm sido empreendidas pelas instituies de sade, atravs de um ou outro grupo profissional. Em Santa Maria/RS, a equipe de enfermagem tem realizado algumas aes objetivando um trabalho mais humanizado. A proposta tem viso de melhorar a comunicao entre enfermagem e paciente/famlia pelo estabelecimento de relao de ajuda e confiana entre os envolvidos nesse processo. Segundo as autoras, este trabalho tem se mostrado positivo e os resultados destacam que paciente e famlia ao perceberem a disponibilidade e o interesse dos profissionais conseguem melhor expressar seus sofrimentos, necessidades, dificuldades facilitando o estabelecimento de relaes mais humanizadas (DAL PAI; LAUTERT, 2005).

    Ainda Dal Pai e Lautert (2005), Siqueira et al. (2006), ao abordarem a assistncia de enfermagem em setores de pacientes crticos em instituies hospitalares, destacam como aspecto positivo dessa assistncia a comunicao, a interao interpessoal, a percepo da comunicao verbal e no verbal e o relacionamento teraputico. A comunicao se mostrou o grande fator positivo na relao entre a equipe de enfermagem, famlia e pacientes em coma. Nos aspectos negativos, destacaram-se as condutas mediadas por insensibilidade afetiva, o cuidado tecnicista, a ansiedade dos profissionais na rotina diria com pacientes graves, a alta rotatividade desses profissionais, o elevado nmero de absentismo, a insatisfao no trabalho, a exigida agilidade na assistncia e a grande demanda.

    Relacionados s unidades de Emergncia, predominam os estudos com abordagem no problema da intensa demanda a esses servios, geralmente como resultado da dificuldade de acesso aos servios de sade. Assim, mesmo questionando a qualidade dos servios de emergncia e o longo tempo de espera pelo atendimento, relata-se que os pacientes preferem acessar os servios de sade pelas Emergncias hospitalares (MARQUES, LIMA, 2007; SOUSA FILHO, XAVIER, VIEIRA, 2008). Marques e Lima (2007) constatam em seu estudo que, em situaes de urgncia/ emergncia, o acesso se d de forma mais gil e que o usurio percebe essa diferena, porm, em situaes que poderiam ser resolvidas em outras esferas do servio de sade, a

  • 33

    populao tem dificuldade de mudar suas prticas no uso dos servios de sade por questes diversas.

    Tratando das questes mais subjetivas que envolvem a vivncia de ter algum de suas relaes em estado crtico no servio de emergncia, pesquisa realizada em uma instituio de Fortaleza aborda os sentimentos de familiares. Foram evidenciadas tristeza e depresso, que pode ser exacerbada quando ocorre a perda de uma pessoa significativa; alm disso, os pacientes sofrem com o distanciamento de amigos e do trabalho. Quanto ao papel de profissionais mdicos, eles se restringiram apenas parte tcnica, atuando basicamente no cuidado dos ferimentos e centrando a ateno em procedimentos tcnicos (SOUSA FILHO, XAVIER, VIEIRA, 2008).

    Nos ltimos 10 anos, a literatura internacional tem se destacado nas publicaes que tratam da presena da famlia no recinto, quando da realizao da reanimao Cardiorrespiratria e procedimentos invasivos. Desde 1987, estudos dessa natureza e a prtica da presena do familiar vm ocorrendo na Inglaterra com intenso debate entre as organizaes profissionais de mdicos e enfermeiras (RCN, 1995).

    O debate internacional sobre a presena do familiar em sala de reanimao envolve enfermeiros e mdicos de diversas nacionalidades e traz alguns aspectos que contribuem para pensar a situao em nossa realidade (DOYLE, 1987; RCN, 1995; RCN, 2002).

    As organizaes profissionais como o Royal College of Nursing (RCN) e a British Association of Accident and Emergency Medicine (BAEM), desde 1995, recomendam a presena de pessoas da relao do paciente, quando da realizao de procedimentos invasivos e RCP, desde que as condies o permitam. Em muitos pases, desde 1990, tm sido elaborados estudos e institudos protocolos e rotinas que organizam a prtica de acompanhamento de familiares nessas situaes. Em 2002, o Royal College of Nursing elaborou em Guideline especial, orientaes para a equipe de enfermagem, recomendando essa prtica nos servios e os cuidados que devem ser observados ao se iniciar o atendimento na presena de familiares (RCN, 2002). Essa tendncia observada na literatura internacional defendida pelas entidades profissionais e pelos autores, com base no entendimento que a presena do familiar assegura a transparncia das aes realizadas, principalmente na Reanimao Cardio-Pulmonar (RCP), tranqilizando profissionais e familiares.

    Estudos internacionais nesse campo do conhecimento tm abordado tambm a aceitao dos profissionais, familiares e pacientes quanto prtica da presena da famlia nos atendimentos de emergncia com resultados bastante positivos (EICHHORN, 2001; MACLEAN, et

  • 34

    al., 2003; ELLISON, 2003; NYKIEL et al., 2010). MacLean (et al., 2003), nos Estados Unidos, desenvolveram uma

    pesquisa com 984 enfermeiros, membros da American Association of Critical Care Nurses (AACCN) e da Emergency Nurses Association (ENA), constatando que os profissionais so favorveis a essa prtica e julgam necessria a elaborao de diretrizes que os orientem. Segundo a pesquisa, somente 5% dos entrevistados trabalhavam em unidades com polticas escritas a respeito da presena da famlia. Cerca de 50% dos profissionais atuavam em servios de emergncia e autorizavam a presena do familiar, mesmo no existindo diretrizes institucionais regulamentando tal prtica. Dos entrevistados, 36% apoiavam a permanncia dos membros da famlia durante a reanimao; 41% j haviam permitido a presena de membros da famlia durante a realizao de procedimentos invasivos; 31% manifestaram que no ano anterior pesquisa pelo menos trs famlias haviam solicitado o direito permanncia ao lado do paciente durante a RCP.

    Estudo de Ellison (2003), realizado com 208 enfermeiros que atuavam em ambiente hospitalar constatou que apenas 4% dos entrevistados j haviam participado de alguma capacitao acerca do tema, e que os enfermeiros com maior grau de formao tinham posio mais aberta presena da famlia durante procedimentos de emergncia. Os enfermeiros que atuavam em servio de emergncia mostravam-se mais abertos permanncia da famlia durante o atendimento, se comparados aos atuantes em outras unidades do hospital

    Estudo de Nykiel (et al., 2010) realizado nos Estados Unidos, aps a adoo de protocolo institucional que orienta a presena do familiar nos atendimentos de emergncia, conclui que a presena da famlia nessas unidades est se tornando um padro de atendimento. No Barnes-Jewish Hospital, onde as autoras realizaram o estudo, concluiu-se que, embora na opinio inicial dos profissionais que atuam no setor de emergncia tenham aparecido diferentes posies sobre a presena da famlia no momento da recuperao cardiorrespiratria, a experincia aps a adoo de um protocolo tem se mostrado um sucesso. Mdicos assistentes e residentes sentem-se mais confortveis com a adoo do protocolo, e enfermeiros e pessoal de apoio so fortes defensores dessa prtica. Para as autoras desse estudo, o entendimento da relevncia da presena da famlia nos atendimentos de emergncia pode ser ampliado atravs da prtica de reunies peridicas com o pessoal do servio.

    Estudos que tratam o tema na perspectiva dos pacientes, apontam que para a maioria dos entrevistados a presena dos familiares considerada positiva. A famlia serve de consolo nesses momentos,

  • 35

    contribui com seus cuidados, fazendo-os se sentirem algum no servio de sade e no apenas mais um paciente. A presena do familiar oferece muitas vantagens e poucas desvantagens tanto para eles como para os familiares (EICHHORN, 2001).

    Tambm Benjamin, Holder e Carr (2004), em pesquisa realizada com 200 pessoas em sala de espera no servio de emergncia, mostrou que 72% dos entrevistados era favorvel presena de membros da famlia durante a reanimao. 56% dos entrevistados entendia que para o acompanhamento necessrio ter algum lao familiar com o acompanhante. A maioria dos entrevistados preferia ser acompanhando primeiramente pelo cnjuge, seguido daqueles que desejavam pais ou filhos junto a si naquele momento. Ainda aparece, em menor percentual, a preferncia por irmos ou outras pessoas de suas relaes, pois muitos entrevistados manifestaram o desejo de ter mais de um membro da famlia presente. Os entrevistados que responderam negativamente presena da famlia, justificaram que essa presena causaria sentimentos de embarao e mostraram a preocupao com os efeitos causados aos familiares, como por exemplo, lembranas dolorosas e muito duradouras. Para os pesquisadores, o resultado da pesquisa traz uma polmica importante sobre a questo tica, uma vez que no momento do atendimento, geralmente, o paciente no tem condies de optar pela presena ou no do familiar.

    Alguns estudos abordam tambm resistncias de profissionais acerca do acompanhamento ao paciente nessas situaes, relacionando essa prtica com o aumento do nmero de processos judiciais, geralmente pela incapacidade do familiar de entender a realizao de alguns procedimentos. Nesses estudos, os profissionais entrevistados questionam tambm o benefcio da presena do acompanhante para o paciente, uma vez que no momento da RCP ele est desacordado (RCN, 2002).

    Apesar das avaliaes negativas, a maior parte dos estudos internacionais sobre a presena da famlia no atendimento de emergncia, especialmente nos casos de RCP, apontam majoritariamente para uma avaliao positiva sobre essa prtica (RCN, 2002; RCN, 1995; EICHHORN, 2001; MACLEAN et al., 2003; ELLISON, 2003; BENJAMIN; HOLDER; CARR, 2004; NYKIEL et al., 2010). Esses estudos trazem uma contribuio para pensar a condio do familiar/acompanhante do paciente nos servios de sade em nossa realidade. Trabalhar a presena do acompanhante/familiar do paciente nos servios de sade demanda o reconhecimento da autonomia dos sujeitos e o entendimento do paciente como ser de relaes. A

  • 36

    presena do acompanhante no ambiente hospitalar uma discusso recente em nossa realidade e tem se aprofundado, a partir da ltima dcada com as polticas de humanizao da assistncia. Muitos profissionais e instituies de sade tm se mostrado mais sensveis ao tema, porm visita e acompanhante ainda so vistos como elementos de obstruo ao trabalho do hospital, um peso a mais, uma demanda que precisa ser contida, e a estrutura das unidades de emergncia no apresentam condies adequadas ao acolhimento, pois a maioria dos servios de sade no dispe de ambiente que propicie a presena do acompanhante 24hs, ou, quando tm, as condies so precrias (BRASIL, 2007, p. 6). O avano dessa perspectiva, no entanto, depende de estudos que levem os profissionais reflexo e busquem conhecer a expectativa de pacientes e familiares em nossa realidade.

    Considerando os estudos evidenciados na reviso de literatura, percebe-se uma lacuna do conhecimento no que diz respeito insero do acompanhante/familiar de pacientes em situao crtica de sade nos servios de emergncia na realidade brasileira, justificando deste modo o empreendimento de estudos dessa natureza.

  • 37

    3 MARCO CONCEITUAL Ao longo de sua histria, os hospitais tm passado por inmeras

    mudanas de modo a acompanhar as necessidades e valores de cada poca. De instituio de caridade, na Idade Mdia, prestando cuidado a pobres e moribundos (indivduos marginalizados pela sociedade da poca, os hospitais passaram por diversas transformaes e hoje se constituem importantes centros de ateno s pessoas com problemas de sade (PAIXAO, 1979).

    Nesse processo histrico, muito se tem preocupado com aes que visam ao saneamento dessas instituies, assim como o desenvolvimento de tecnologias que contribuam para melhorar a ateno prestada nos hospitais.

    Segundo Pinho, Kantorski e Erdman (2005), esse o caso da humanizao da assistncia e do acolhimento a pessoas que utilizam os hospitais. Para as autoras, embora o tema tenha despontado mais significativamente na ltima dcada, na enfermagem, Florence Nightingale, no sculo XIX, j se mostrava preocupada com a humanizao ao abordar o atendimento s necessidades psicossociais das pessoas hospitalizadas.

    No contexto dos hospitais e da ateno sade, os Servios de Emergncia passaram a ocupar espao de especial destaque. Isso porque, como instituio hospitalar, presta o primeiro atendimento ao doente grave, determinando muitas vezes sua possibilidade ou no de recuperao, alm da importncia que esse servio ganhou, atravs dos tempos, no contexto de ateno sade.

    No Brasil, o Ministrio da Sade define Emergncia como aquela unidade destinada assistncia de doentes, com ou sem risco de vida, cujos agravos sade necessitam de atendimento imediato. Pronto-atendimento entendido como a unidade destinada a prestar, dentro do horrio de funcionamento do estabelecimento de sade, assistncia a doentes com ou sem risco de vida, cujos agravos sade necessitam de atendimento imediato. J Pronto-socorro o estabelecimento de sade destinado a prestar assistncia a doentes, com ou sem risco de vida, cujos agravos sade necessitam de atendimento imediato; funciona durante 24 horas e dispe apenas de leitos de observao. Ainda nesse contexto, define Atendimento de emergncia como o conjunto de aes empregadas para recuperao de pacientes, cujos agravos sade necessitam de assistncia imediata, por apresentarem risco de morte e Atendimento de urgncia, como o

  • 38

    conjunto de aes empregadas para recuperao de pacientes, cujos agravos sade necessitam de assistncia imediata (BRASIL, 1985, p.11-30).

    No obstante os investimentos na sade, os Servios de Emergncia compem, juntamente com outros servios, o cenrio um tanto catico dos servios de sade em todo o Pas. Os servios de emergncia so responsveis pelo atendimento de casos em que h risco de morte imediato ou mediato, atendendo assim tanto no servio pblico como privado. Por razes diversas, envolvendo tanto questes culturais como estruturais dos servios de sade, as emergncias so servios extremamente procurados pela populao, que percebem esses servios como dotados de um melhor grau de resolutividade no atendimento s suas questes de sade-doena (CECLIO, 1997). Essa realidade gera uma sobrecarga de trabalho aos profissionais atuantes nos servios de emergncia e tambm servios de qualidade questionvel. As relaes estabelecidas entre usurios e profissionais de sade so marcadas pela ausncia de vnculo, bem como destitudos de uma postura acolhedora conforme preconiza a poltica de sade no Brasil (BRASIL, 2009).

    Os Servios de Emergncia demandam um investimento constante em adequao de rea fsica, equipamentos, materiais permanentes e de consumo, alm da necessidade de constante incorporao de profissionais capacitados para esse servio, bem como em quantidade suficiente para atender s necessidades da populao. As demandas colocadas aos profissionais de sade dos Servios de Emergncia so muitas e diversificadas; vo desde o atendimento seguro ao paciente em situao de urgncia/emergncia, queles que procuram o servio por situaes que poderiam ser resolvidas em outras instncias dos servios de sade e o atendimento em regime de internao aos pacientes, quando no h vagas nas demais unidades da instituio hospitalar, incluindo os casos de ateno intensiva e semi-intensiva. Isso porque a Emergncia, na estrutura dos servios de sade o espao em que sempre h de ter lugar para mais um que chega necessitando de cuidados de sade.

    Mais recentemente, a reestruturao dos servios de sade pela Reforma Sanitria desencadeada no Brasil, a partir da dcada de 1980, tem potencializado as discusses e a adoo de tecnologias inovadoras em toda a rede de ateno, incluindo os Servios de Emergncia.

    Mudanas ocorreram aps a instituio da Lei n 8.080 - de 19 de setembro de 1990 (Lei Orgnica da Sade), que dispe sobre as condies para a promoo, proteo e recuperao da sade, organizao e funcionamento dos servios correspondentes, em todo o

  • 39

    territrio nacional. Essa Lei afirma em suas disposies gerais que a sade um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condies indispensveis ao seu pleno exerccio (BRASIL, 1990). Esse entendimento, em termos de setor sade, tem levado a uma reorganizao poltico-administrativa, com base nas diretrizes gerais de universalizao da ateno, equidade no atendimento, integralidade nas aes, descentralizao da execuo e tomada de deciso, e a participao da populao (BRASIL, 1990).

    Nesse sentido que se tm pensado, nos ltimos anos, diversas propostas incluindo tecnologias especiais de ateno, que buscam garantir um melhor atendimento aos usurios dos servios de sade. No que diz respeito ao atendimento de emergncia, essas inovaes incluem, entre outras, a atuao dos Servios de Atendimento Mvel de Urgncia (SAMU) gerenciados pela lgica de regulao do atendimento e a implantao de AACR. As diversas iniciativas tm como objetivo central oferecer aos usurios do SUS assistncia na hora e na quantidade certa, minimizando riscos, reduzindo sequelas e possibilitando a recuperao das pessoas (BRASIL, 2009).

    Recentemente, foi editada a Portaria N 1.600, DE 7 DE JULHO DE 2011, que reformula a Poltica Nacional de Ateno s Urgncias e institui a Rede de Ateno s Urgncias e Emergncias(RUE) no Sistema nico de Sade (SUS). A RUE tem por finalidade articular e integrar todos os equipamentos de sade ampliando e qualificando o acesso humanizado e integral aos usurios em situao de urgncia/emergncia nos servios de sade de forma gil e oportuna. A Rede de Ateno s Urgncias prioriza as linhas de cuidado cardiovascular, cerebrovascular e traumatolgica, organizando a ateno pelos diversos componentes (BRASIL, 2011). Diversos conceitos so definidos pela RUE, os quais so importantes para o presente estudo. Dentre eles salientam-se:

    O Componente de Promoo, Preveno e Vigilncia Sade, que tem por objetivo

    [...] estimular e fomentar o desenvolvimento de aes de sade e educao permanente voltadas para a vigilncia e preveno das violncias e acidentes, das leses e mortes no trnsito e das doenas crnicas no transmissveis, alm de aes inter-setoriais, de participao e mobilizao da sociedade visando promoo da sade, preveno de agravos e vigilncia sade (BRASIL, 2011, p.2).

  • 40

    A Ateno Bsica em Sade que Visa a ampliao do acesso, fortalecimento do vnculo e responsabilizao e o primeiro cuidado s urgncias e emergncias, em ambiente adequado, at a transferncia/encaminhamento a outros pontos de ateno, quando necessrio, com a implantao de acolhimento com avaliao de riscos e vulnerabilidades (BRASIL, 2011, p. 2).

    O Servio de Atendimento Mvel de Urgncia (SAMU 192) e

    suas Centrais de Regulao Mdica das Urgncias que assumem a finalidade de

    [...] chegar precocemente vtima aps ter ocorrido um agravo sua sade (de natureza clnica, cirrgica, traumtica, obsttrica, peditricas, psiquitricas, entre outras) que possa levar a sofrimento, seqelas ou mesmo morte, sendo necessrio, garantir atendimento e/ou transporte adequado para um servio de sade devidamente hierarquizado e integrado ao SUS (BRASIL, 2011, p. 2).

    A Sala de Estabilizao como o ambiente que possibilita

    [...] a estabilizao de pacientes crticos e/ou graves, com condies de garantir a assistncia 24 horas, vinculado a um equipamento de sade, articulado e conectado aos outros nveis de ateno, para posterior encaminhamento rede de ateno sade pela central de regulao das urgncias (BRASIL, 2011, p. 2).

    A Fora Nacional de Sade do SUS que objetiva aglutinar

    esforos para garantir a integralidade na assistncia em situaes de risco ou emergenciais para populaes com vulnerabilidades especficas e/ou em regies de difcil acesso, pautando-se pela equidade na ateno, considerando-se seus riscos (BRASIL, 2011, p. 2).

    As Unidades de Pronto Atendimento (UPA 24h) e o conjunto de servios de urgncia 24 horas constitudos pelas:

    - Unidade de Pronto Atendimento (UPA 24 h) que o estabelecimento de sade de complexidade

  • 41

    intermediria entre as Unidades Bsicas de Sade/Sade da Famlia e a Rede Hospitalar, devendo com estas compor uma rede organizada de ateno s urgncias; e - as Unidades de Pronto Atendimento (UPA 24 h) e o conjunto de Servios de Urgncia 24 Horas no hospitalares que devem prestar atendimento resolutivo e qualificado aos pacientes acometidos por quadros agudos ou agudizados de natureza clnica e prestar primeiro atendimento aos casos de natureza cirrgica ou de trauma, estabilizando os pacientes e realizando a investigao diagnstica inicial, definindo, em todos os casos, a necessidade ou no, de encaminhamento a servios hospitalares de maior complexidade (BRASIL, 2011, p. 2-3).

    O Componente Hospitalar que ser constitudo pelas Portas

    Hospitalares de Urgncia, pelas enfermarias de retaguarda, pelos leitos de cuidados intensivos, pelos servios de diagnstico por imagem e de laboratrio e pelas linhas de cuidados prioritrias (BRASIL, 2011, p. 2-3).

    Por ltimo, o Componente Ateno Domiciliar, que [...] compreendido como o conjunto de aes integradas e articuladas de promoo sade, preveno e tratamento de doenas e reabilitao, que ocorrem no domiclio, constituindo-se nova modalidade de ateno sade que acontece no territrio e reorganiza o processo de trabalho das equipes, que realizam o cuidado domiciliar na ateno primria, ambulatorial e hospitalar (BRASIL, 2011, p.2-3).

    A perspectiva de ateno em rede e a humanizao da assistncia

    remete a pensar as especificidades da ateno nos servios de emergncias hospitalares. O Servio de Emergncia apresenta caractersticas totalmente diferentes de outras unidades hospitalares: um ambiente cuja dinmica impe aes complexas, nas quais a presena da finitude da vida uma constante, gerando ansiedade, tanto do doente e familiar como dos profissionais que ali desempenham suas

  • 42

    atividades. A internao na Emergncia rompe bruscamente com o modo de viver do paciente e seus familiares. O paciente sente-se impedido/limitado em sua autonomia, a doena pode levar incapacidade de tomar decises e de se autocuidar, perdendo parte de sua singularidade, muitas vezes passando a ser tratado como objeto (NASCIMENTO, 2004).

    Nesse cenrio destacam-se aqueles que vivenciam situaes mais graves, como por exemplo, pessoas que apresentam o rebaixamento do nvel de conscincia, caracterizado pela ausncia de respostas verbais e no-verbais e a incapacidade em se comunicar, em tomar decises, reforando a importncia do acompanhamento de algum de suas relaes. (FERREIRA, 2000). O acolhimento nesse contexto um gesto que pode contribuir para a concretizao das polticas de humanizao amplamente abordadas na realidade brasileira.

    A perspectiva de humanizao da assistncia ganhou espao no cenrio brasileiro a partir do ano 2000, quando o governo federal lanou o Programa Nacional de Humanizao da Assistncia Hospitalar/PNHAH (BRASIL, 2001). Em 2002, foi aprovado o Regulamento Tcnico dos Sistemas Estaduais de Urgncia e Emergncia. Em 2004, o PNHAH passou a Poltica Nacional de Humanizao (PNH) Humaniza SUS cujo objetivo resgatar a qualidade na ateno sade, incluindo resolubilidade, eficcia e efetividade da ateno sade, reduo dos riscos sade, humanizao das relaes em todos os nveis de ateno, presteza e conforto no atendimento ao usurio, motivao dos profissionais de sade, controle social na ateno e organizao do sistema de sade (BRASIL, 2004a).

    Em relao ao gerenciamento dos servios de urgncia/emergncias, implantado o Servio de Atendimento Mvel de Urgncia (SAMU) para prestar assistncia imediata em situaes de risco no domiclio ou via pblica, e instalam-se as Centrais de Regulao de Emergncia. Tudo isso com o objetivo de melhorar a qualidade de atendimento nas Emergncias hospitalares, definir a retaguarda de leitos hospitalares e ateno domiciliar e organizar os pronto-atendimentos (BRASIL, 2002).

    Avanando nessa perspectiva em 2004, atravs do Humaniza SUS, discutiuse a proposta de Acolhimento com Avaliao e Classificao de Risco, que prev a gesto de cuidados por nvel de gravidade do usurio, o direcionamento dos leitos de internao a partir da demanda das Emergncias, a instalao do Comit Gestor reunindo os setores crticos responsveis pela assistncia, a instalao do Conselho Gestor formado pelos usurios, trabalhadores da sade e

  • 43

    gestores, alm da instalao da ouvidoria e articulao com o SAMU (BRASIL, 2004d).

    O acolhimento o ponto-chave do trabalho de humanizao, fortalecendo o comportamento tico e articulando o cuidado tcnico-cientfico construdo e em construo, com o cuidado que incorpora a necessidade de explorar e acolher o imprevisvel, o incontrolvel, o diferente e singular. Trata-se de um agir inspirado em uma disposio de acolher e de respeitar o outro como um ser autnomo e digno. Entende-se que a construo de um vnculo efetivo entre os profissionais de sade e familiares, que se expresse em mtua cumplicidade, fundamental para enfrentar os diferentes problemas de sade e fortalecer o acolhimento humanizado (BRASIL, 2001).

    Segundo o MS, humanizar adotar uma prtica em que profissionais e usurios consideram o conjunto dos aspectos fsicos, subjetivos e sociais que compem o atendimento sade. Humanizar refere-se, portanto, possibilidade de assumir uma postura tica de respeito ao outro, de acolhimento do desconhecido e de reconhecimento dos limites (BRASIL, 2001, p. 52).

    A fragilizao fsica e emocional provocada pela doena e suas consequncias na relao entre profissionais, pacientes e familiares deve ser considerada durante o acolhimento. Segundo o mesmo pensamento, o MS reafirma que os [...] sentimentos como afeio, respeito, simpatia, empatia, angstia, raiva, medo, erotismo, compaixo, etc. so inevitveis em qualquer contato humano. Tais aspectos precisam ser reconhecidos, estar sob controle e a servio da compreenso das necessidades de acolhimento. Na verdade, esses sentimentos, mesmo que intensos e imprevisveis, quando incorporados adequadamente atividade do profissional, podem se tornar instrumentos valiosos no atendimento sade (BRASIL, 2001, p. 53).

    Nessa perspectiva integradora, o conceito de humanizao adquire um carter transversal e vincula-se a um conjunto de condies e relaes que se estabelecem no processo de trabalho e atendimento hospitalar (MARTINS, 2008).

    A humanizao do atendimento envolve a observao de todos os aspectos ligados ao adoecer, como o respeito aos temores, s crenas e s fragilidades dos usurios e de seus familiares, alm da tica na adoo das atividades tcnico-cientficas. A humanizao amplia a possibilidade de integrao da equipe tcnica com os usurios, para uma nova concepo sobre o cuidado em

  • 44

    sade no ambiente hospitalar (MARTINS, 2008, p. 39).

    Cuidar com base em uma ateno humanizada, porm, constitui-

    se um desafio aos profissionais de sade, seja pelas dificuldades impostas nas condies de trabalho, seja pela formao acadmica que refora uma viso parcial do ser humano e de suas necessidades, alm de reforar o tecnicismo e as relaes distanciadas com os usurios do sistema de sade. O cuidar humanizado implica pensar o doente a partir de suas relaes sociais, incluindo tambm a famlia e suas relaes.

    No entanto, o desenvolvimento tecnolgico, especialmente no que diz respeito a tecnologias materiais de ponta, tem deixado de lado os aspectos subjetivos da pessoa que cuidada, privilegiando-se demasiadamente a utilizao de produtos e equipamentos de ltima gerao. Isso porque a tecnologia em sade tem sido associada predominantemente a produtos ou equipamentos, levando muito em conta sua concepo, desenvolvimento e/ou utilizao. Tecnologia compreende, tambm, os saberes constitudos para a gerao, criao e utilizao de produtos, bem como para organizar as relaes humanas. Acolhimento, no contexto das polticas pblicas de sade, coloca-se como uma tecnologia de cuidado ao usurio dos servios; a tcnica permeia todo o nosso modo de viver, nosso modo de trabalhar, de cuidar e ser cuidado, inerente s nossas relaes e, portanto, tambm s nossas aes (GALLIMBERTI, 2003; MERHY, 2005; MARTINS, 2008).

    Tratando da utilizao de aparatos tecnolgicos em sade, Martins (2008, p. 66), afirma: [...] fato que, nos servios de sade, em todas as reas, o uso de aparatos tecnolgicos auxilia, mas no dispensa o trabalho humano, visto que precisa deste para sobreviver, para manter-se, transformar-se. Seria injusto opor-se contribuio que o desenvolvimento tecnolgico ocasionou em relao ao desenvolvimento e aumento da produtividade em vrias reas, em especial na rea da sade, no que se refere ao apoio diagnstico e tratamento.

    No entanto, preciso considerar que o trabalho em sade realizado por seres humanos para outros seres humanos, envolvendo relaes e subjetividades. O uso de tecnologias nesse sentido, sejam de natureza material ou no, permeia a relao entre sujeitos, suas crenas e valores, modos de ver o mundo, a sade e a doena, pois temos, nesse caso, no mnimo dois protagonistas: o trabalhador e o usurio do servio de sade. Desconsiderar o usurio e seus modos de vida em prol de

  • 45

    determinada tecnologia desconhecer sua importncia na construo dessas relaes e, portanto, a negao de que esta possa ser considerada um processo (MARTINS, 2008).

    O debate acerca do significado do termo tecnologia tratado na literatura de diferentes modos. De modo geral, a literatura nacional e internacional tem adotado o entendimento do termo a partir da noo de tecnologia material (equipamentos, materiais, produtos) e tecnologia no material (conhecimento, relaes).

    No Brasil, Merhy (2005) tem trabalhado o conceito de tecnologia em sade a partir de uma classificao em tecnologia dura, tecnologia leve-duras e tecnologias leves. As tecnologias duras tratam dos equipamentos, mquinas, normas, rotinas e estruturas organizacionais; as tecnologias leve-duras aos saberes estruturados, como por exemplo, a fisiologia, a anatomia e outros presentes no trabalho em sade. As tecnologias leves tratam de tecnologias de acesso, como por exemplo, o acolhimento, o vnculo e o dilogo.

    No entender de MS, acolher com a inteno de resolver os problemas de sade das pessoas que procuram uma unidade de emergncia, pressupe que todos deveriam ser recebidos por um profissional da equipe de sade. Define as funes diante desse ato de acolher, aos profissionais de sade que deveriam escutar as queixas, os medos e as expectativas, dos usurios. (BRASIL, 2009).

    O acolhimento tambm um [...] dispositivo de interveno que possibilita analisar o processo de trabalho em sade com foco nas relaes e que pressupe a mudana das relaes profissional/usurio/rede social e profissional por meio de parmetros tcnicos, ticos, humanitrios e de solidariedade, reconhecendo o usurio como sujeito e como participante ativo no processo de produo da sade (BRASIL, 2009, p 17)

    Seguindo o mesmo pensamento,

    [...] o acolhimento no um espao ou um local, mas uma postura tica; no pressupe hora ou profissional especfico para faz-lo, mas implica necessariamente o compartilhamento de saberes, angstias e invenes; quem acolhe toma para si a responsabilidade de abrigar e agasalhar outrem em suas demandas, com a resolutividade

  • 46

    necessria para o caso em questo. Desse modo que o diferenciamos de triagem, pois se constitui numa ao de incluso que no se esgota na etapa da recepo, mas que deve ocorrer em todos os locais e momentos do servio de sade (BRASIL, 2009, p. 17).

    Ao se falar em acolhimento, podemos pensar na humanizao do

    atendimento prestado, pois, segundo Ballone (2008, p.1), [...] humanizar o atendimento no apenas chamar o paciente pelo nome, nem ter constantemente um sorriso nos lbios, mas, alm disso, compreender os medos, angstias e incertezas, dar apoio e ateno permanente ao paciente. Humanizar tambm , alm do atendimento fraterno e humano, procurar aperfeioar os conhecimentos continuadamente valorizar, no sentido antropolgico e emocional, todos os elementos implicados na assistncia.

    Uma das implicaes da humanizao e do assistir no ambiente

    hospitalar diz respeito incluso das redes de relaes do paciente no cuidado. Esse debate tem tomado vulto atravs das polticas pblicas de sade e propostas ministeriais de ambincia, visita aberta e direitos do usurio. (BRASIL, 2004e; BRASIL, 2006b; BRASIL, 2007). A manuteno da famlia e da rede de relaes do doente junto ao paciente em situaes especficas como acompanhamento criana e adolescente, ao parto e puerprio, ao idoso e s pessoas especiais hoje um direito assegurado pela Carta dos Direitos dos Usurios do SUS, assim como a recomendao da permanncia da famlia em todas as situaes em que no houver impossibilidades relacionadas condio do paciente (BRASIL, 2006b).

    A proposta de visita aberta e ampliada complementa o direito ao acompanhante e intensifica a permanncia da famlia junto ao paciente, naquelas situaes em que o acompanhamento no possvel (BRASIL, 2007).

    A proposta de ambincia vem ao encontro das propostas anteriores, na medida em que coloca a importncia de pensar um ambiente acolhedor e facilitador da permanncia de familiares no meio hospitalar como acompanhantes do paciente (BRASIL, 2004e).

  • 47

    O debate em torno da humanizao e acolhimento leva-nos a pensar a questo do paciente crtico e seu acompanhante/familiar.

    O paciente crtico entendido neste estudo como aquele que, por disfuno ou falncia profunda de um ou mais rgos ou sistemas, a sua sobrevivncia depende de meios avanados de monitorizao e teraputica (SOCIEDADE PORTUGUESA DE CUIDADOS INTENSIVOS, 2010, p. 01). Incluem-se tambm entre os pacientes crticos todos aqueles que em funo de uma intercorrncia aguda apresentam risco de vida.

    No contexto das Emergncias hospitalares, na grande maioria das vezes, estes pacientes chegam trazidos por policiais, ou servios mdicos de urgncias, ou mesmo acompanhados de pessoas conhecidas/ familiares. Independentemente do modo como o paciente crtico chega ao servio, em algum momento realizado contato com sua rede de relaes e esses passam a fazer parte do contexto assistencial, geralmente na condio de acompanhante ou visitante.

    Acompanhante/familiar do paciente em estado crtico entendido em sentido amplo. Pode ser algum com laos consanguneos, responsvel legal, amigos, pessoa prxima, companheiro ou outro. algum que se preocupa com o paciente, no sentido de acompanhar o processo de hospitalizao mantendo uma relao prxima com os profissionais de sade. Pode estar presente desde o momento inicial de chegada emergncia, ou acompanhar posteriormente o paciente durante e aps a hospitalizao (GORTADO; SILVA, 2005).

    Em decorrncia dos laos mantidos com o paciente, o acompanhante tambm necessita de cuidados, e os profissionais de sade ao cuidar dele devem estar atentos s necessidades de ambos. Os acompanhantes tm momentos de ansiedade e sofrimento em relao situao do paciente e ao que possa acontecer em virtude da pouca informao e contato (GORTADO; SILVA, 2005).

    Segundo Nascimento e Martins (2000), os membros da famlia, quando bem preparados, tm condio de ficar mais tempo junto ao seu familiar e se envolverem no processo de recuperao, o que, alm de benefici-los, diminui o sentimento de desamparo. Correa, Sales e Luciana (2002), em estudo realizado junto a familiares de pacientes crticos, ensinam que pelo olhar dos enfermeiros que trabalham nessa realidade, a famlia, ao deparar-se com aquele ambiente estranho e com o aparato tecnolgico que envolve a assistncia a esse paciente perde os meios efetivos para convencer-se de que seu familiar tem possibilidade de recuperao. Assim, vai em busca daquele que, ao manipular de certo modo a vida do doente, podem esclarec-lo: o profissional da sade.

  • 48

    Percebe-se deste modo, que a equipe de sade no pode centrar suas tividades apenas em procedimentos tcnicos, mas buscar refletir e atuar considerando a importncia do envolvimento com o paciente, e em ter uma relao mais prxima com as pessoas que buscam ou precisam de ajuda. Em suma, o relacionamento humano nos servios de sade essencial para melhorar a assistncia (CAMELO et al., 2000).

    Num estudo realizado, por Leite e Vila (2005), para verificar as dificuldades vivenciadas pela equipe multiprofissional ao cuidar de pacientes crticos, evidenciou-se que as dificuldades mais relatadas, estavam relacionadas ao contato com os familiares, com o lidar com a morte, com a falta de recursos materiais e, especialmente, com o relacionamento entre os membros da equipe. Os resultados desse estudo evidenciam mais uma vez, a necessidade da promoo de momentos para reflexo e discusso acerca dos aspectos tcnicos, cientficos e ticos referentes ao cuidado tanto dos pacientes crticos quanto de seus acompanhantes, tendo em vista a melhoria da qualidade do atendimento e relacionamento interpessoal. Buscar caminhos para melhor acolher os acompanhantes de pacientes crticos nos Servios de Emergncia torna-se um modo de concretizao das polticas de humanizao.

  • 49

    4 MTODO O estudo foi desenvolvido a partir da Pesquisa Convergente

    Assistencial (PCA), por entend-la como um caminho adequado investigao, uma vez que este referencial prope uma interveno articulada entre assistncia e pesquisa. Assistir pesquisando e pesquisar assistindo um dos pressupostos da PCA (TRENTINI; PAIM, 2004).

    A PCA propicia as trocas de informaes durante o fazer e pesquisar o cuidado. Informaes obtidas pela pesquisa influenciam as mudanas na prtica assistencial, e a prtica, por sua vez, instiga novos problemas de pesquisa, buscando a construo de um novo conhecimento e a melhoria direta do contexto estudado (TRENTINI; PAIM, 2004). Dessa forma, demanda que todos os sujeitos da pesquisa, sejam extremamente ativos e envolvidos durante todo o processo. Isso vem ao encontro dos objetivos da presente pesquisa, ou seja, promover a reflexo acerca do acolhimento aos acompanhantes, de pacientes crticos, atendidos em servio de emergncia, com vistas a mudanas que revertam em melhores prticas em sade.

    Ao pensar a Pesquisa Convergente Assistencial, as autoras indicam os caminhos a seguir para o encadeamento do processo. Um primeiro passo da PCA diz respeito definio do tema em estudo, das preocupaes do pesquisador a respeito do tema que podem levar a uma questo de pesquisa, assim como a avaliao do grau de envolvimento do pesquisador com a questo estudada, ou seja, a fase de concepo (TRENTINI; PAIM, 2004).

    Considerando a insero da pesquisadora e suas inquietaes, a investigao foi realizada a partir de uma interveno no ambiente de trabalho que incluiu a ateno ao paciente/familiar, entrevistas com familiares de pacientes, entrevista com profissionais de sade e grupo de reflexo com profissionais de sade.

    A fase de concepo inclui tambm a justificativa do tema, definio da questo de pesquisa, objetivos, reviso da literatura e o referencial terico, j apresentado anteriormente.

    No processo de concepo da pesquisa, ocorreu a escolha do local, dos participantes, dos mtodos e tcnicas para obteno e anlise dos dados, o que constitui a fase de instrumentao.

  • 50

    4.1 LOCAL DA PESQUISA O estudo foi desenvolvido em um Servio de Emergncia, que

    atende pessoas adultas de um hospital geral pblico e de ensino, localizado na capital de um estado da Regio Sul do Brasil, sendo referncia para sua rea de abrangncia.

    Esse hospital foi fundado em 1980 e possui atualmente, cerca de 270 leitos nas reas de Clnica Mdica, Clnica Cirrgica, Terapia Intensiva, Tratamento Dialtico, Pediatria, Ginecologia, Obstetrcia e Neonatologia, Centro Cirrgico, Servio de Ambulatrio geral e especializado, Hemodinmica e Onco-hematologia. Possui ainda servio de Emergncia Adulto, Infantil e Gineco-obstetrcia, Centro Obsttrico, Centro de Incentivo ao Aleitamento Materno e Centro de Esterilizao. A nica forma de atendimento via Sistema nico de Sade.

    O Servio de Emergncia estudado fica localizado no andar trreo do hospital e atende cerca de 300 a 350 pacientes/dia, os quais chegam por iniciativa prpria, trazidos por familiares ou ento referenciados de outras unidades/servios. Para prestar assistncia a essa clientela, o servio de emergncia conta com uma organizao que divide a rea fsica m rea de acolhimento, Servio de Emergncia Interna (SEI) e Repouso; cada uma delas conta com diversos ambientes que possibilitam a realizao da assistncia.

    Para atender demanda na Unidade de Emergncia, a estrutura fsica do servio foi totalmente reformada e adequada em 2007, para atender s novas diretrizes do MS para as emergncias hospitalares no Brasil, com implantao do Acolhimento com Avaliao e Classificao de Risco (AACR).

    Conforme explicitado anteriormente, o acolhimento vem sendo realizado j h algum tempo, sofreu interrupo durante o ano de 2010, tendo sido retomado a partir de agosto de 2011.

    Segundo o Ministrio da Sade, a tecnologia de Avaliao com Classificao de Risco, pressupe a determinao de agilidade no atendimento a partir da anlise, sob a tica de protocolo pr-estabelecido do grau de necessidade do usurio, proporcionando ateno centrada no nvel de complexidade e no na ordem de chegada (BRASIL, 2004d). O AACR pressupe a existncia de atendimento organizado, pela gravidade e necessidade do usurio organizado por reas e com cores diferenciadas para facilitar o fluxo do servio.

    Segundo recomendaes do MS, os protocolos de classificao de risco devem se dar a partir de cada realidade, considerando o perfil de

  • 51

    cada servio e o contexto de sua insero na rede de sade. A construo e efetivao desses protocolos na realidade constituem-se oportunidade de interao entre a equipe multiprofissional, valorizao dos trabalhadores e momento de reflexo sobre o processo de trabalho (BRASIL, 2009).

    A construo do protocolo na referida emergncia se deu conforme a indicao do MS, com parte dos profissionais que ali atuam e envolveu a adaptao de modelos de protocolos j existentes. Neste protocolo adotou-se uma classificao com base em seis cores que definem a prioridade de atendimento do doente, como pode ser visto no Quadro1 a seguir:

    Prioridade Nome Cor Tempo Alvo

    01 Emergente Vermelho 0 Minutos (Imediato) 02 Muito Urgente Laranja 10 Minutos 03 Urgente Amarelo 60 Minutos (1 Hora) 04 Pouco Urgente Verde 120 Minutos (02 Horas) 05 No Urgente Azul 240 Minutos (04 Horas) 06 Procedimentos Branco Sem Tempo

    Fonte: Hospital Universitrio (2011, p. 3). Quadro 1: Protocolo de Acolhimento e Avaliao com Classificao de Risco, conforme as cores e prioridades de atendimento

    Os fatores que determinam uma prioridade so: ameaa vida,

    ameaa funo, durao do problema, idade, historia, risco de maus tratos (HOSPITAL UNIVERSITRIO, 2011).

    O AACR realizado diariamente das 7 s 24 horas em consultrio localizado prximo recepo.

    O Servio de Emergncia possui tambm uma rea de repouso com 12 leitos de observao e um leito de isolamento, mas, cotidianamente, permanecem em mdia 25 a 30 pacientes em observao ou mesmo internados, aguardando disponibilizao de leitos nas demais clnicas do hospital ou em outra unidade hospitalar. O excedente de pacientes mantido em macas ou poltronas pelos corredores ou consultrios at a desocupao de um leito. Os pacientes em situao crtica de sade, ao chegarem ao Servio geralmente so mantidos na sala de reanimao at a obteno de um leito de UTI, cirurgia, transferncia para outra instituio ou bito.

  • 52

    4.2 SUJEITOS DA PESQUISA O servio de Emergncia Adulto conta com uma equipe de

    atendimento formada por 35 mdicos clnicos e cirurgies, 17 enfermeiros, 51 tcnicos e auxiliares de enfermagem, 1 assistente social, 1 psicloga, 1 nutricionista, 2 acadmicos de enfermagem (bolsistas), assistentes administrativos, seguranas, copeiras, auxiliares de limpeza. Atuam ainda neste setor em esquema de rodzio, mdicos residentes, acadmicos de enfermagem e medicina e estagirios do curso tcnico de enfermagem e residentes enfermeiros, assistente social, farmacutico e psiclogo da Residncia Integrada Multiprofissional de Sade na rea de concentrao em Urgncia e Emergncia. Participaram da pesquisa 53 profissionais de sade (03 mdicos, 20 enfermeiros, 25 tcnicos de enfermagem, 01 auxiliar de enfermagem, 01 psiclogo e 03 assistentes sociais, incluindo os residentes das diversas profisses) e 07 acompanhantes/familiares de pacientes em atendimento no servio.

    Os profissionais do Servio foram convidados individualmente a participar e na ocasio do convite foram explicados os objetivos da pesquisa. O critrio de incluso foi ser profissional da sade e atuar no referido servio, independentemente do tempo de atuao, alm aceitar participar do estudo em qualquer uma de suas etapas: entrevista ou grupo de reflexo. Os residentes das diversas reas, embora em processo de formao, foram convidados a participar, pois atuam no dia-a-dia do servio e vivenciam os mesmos problemas que os demais profissionais.

    Os profissionais participaram do estudo na etapa de entrevista e/ou dos grupos de reflexo. Quarenta e dois (42) profissionais responderam s entrevistas (trs mdicos, 20 enfermeiros, 25 tcnicos de enfermagem, um auxiliar de enfermagem, um psiclogo e 03 assistentes sociais). Vinte e quatro (24) profissionais participaram dos grupos de reflexo. Dos que participaram do grupo de reflexo, 13 haviam respondido anteriormente s entrevistas e 11 participaram somente desta ltima etapa. No total, incluindo a participao nas entrevistas e no grupo de reflexo, participaram da pesquisa 53 profissionais que atuam no servio de emergncia estudado.

    Pensar modos mais humanos de acolhimento dos familiares/acompanhantes implica tambm considerar a participao de todos os profissionais no processo. Isso porque o trabalho em sade tem caractersticas multiprofissionais, de carter interdisciplinar e interdependente, uma vez que a complexidade da assistncia no permite na atualidade que uma nica categoria d conta desse

  • 53

    atendimento (MATOS, 2006). Tambm fizeram parte do estudo 07 acompanhantes de pacientes

    em situao crtica de sade que estavam sendo atendidos no servio. Esses familiares/acompanhantes, dependendo de suas necessidades, foram assistidos pelas diversas categorias profissionais que atuam na emergncia (mdicos, enfermeiros, tcnicos e auxiliares de enfermagem, assistente social, psicloga, nutricionista), e todos eles foram minimamente atendidos pela rea mdica e de enfermagem.

    O objetivo da incluso desses sujeitos no processo de investigao foi conhecer suas percepes acerca do acolhimento, as potencialidades e dificuldades existentes no atendimento de suas necessidades. Essas contribuies somadas s dos profissionais deram suporte para repensar e propor inovaes no atendimento.

    Os acompanhantes familiares foram includos seguindo os seguintes critrios: ser familiar acompanhante de paciente em situao crtica de sade, estar com pessoa de sua famlia ou relaes no momento inicial do atendimento, ter mais de 18 anos e aceitar participar do estudo. Foram excludos os familiares/acompanhantes menores de 18 anos, bem como aqueles cujo paciente evoluiu para bito nos momentos iniciais de atendimento ou que foram transferido para outra instituio de sade. A totalidade desses pacientes apresentou algum problema clnico, como dor intensa, hipertenso arterial sistmica, edema agudo de pulmo, ou outro problema clnico.

    4.3 INSTRUMENTOS DE PESQUISA E A COLETA DE DADOS Na coleta de dados, foram uti