revista teologia da convergência

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Revista teologia da convergência 4 edição

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  • Teologia da Convergncianfase nas religies afro-brasileirasAno I I - N4 - novembro de 2011 - ISNN 2236-1642

    FESTAS DE SANTOS TAMBOR DE MINA DO MARANHO

    EXPERINCIA RELIGIOSA A EXPERINCIA RELIGIOSA COMO REFERNCIA

    REIS ENCANTADOSREPRESENTAO DA NOBREZA LUSITANA

  • Teologia da Convergncia uma publicao da Faculdade de Teologia Umbandista (FTU)

    Diretor Geral da FTUF. Rivas Neto (Pai Rivas)

    Vice-Diretora Geral da FTUMaria Elise Rivas

    (Sacerdotisa Yamaracy)

    Coordenao do Curso e Editor-Chefe

    Cassiano Terra Rodrigues

    Jornalista responsvel e diagramao

    Rodrigo Mariano - MTB 32394/RJ

    Webdesigner e responsvel tcnicoGerson Albuquerque

    Alexandra Abdala

    FotosAcervo fotogrco da FTU

    Expediente

    FACULDADE DE TEOLOGIA UMBANDISTA

    Avenida Santa Catarina, 400 Vila Alexandria04635-001 So Paulo SPTelefone 55 11 5031-8852

    www.ftu.edu.br - faculdade@ftu.edu.br

    nfase nas religies afro-brasileirasAno II - N 4 - novembro de 2011

    Entrevista - Fernando de Oxaguinpg. 57

    Teologia da Convergncia

    Reis encantados do Tambor de Mina: Dom Manuel, Dom Joo Soeira e Dom Pedro Angassu

    Representao da nobreza lusitana em populaes afro-brasileiras? pg. 03

    Experincia religiosa e Teologiapg. 15

    Festas de Santos no Tambor de Mina do Maranhopg. 27

    Grupos de TrabalhoTeologia e Tradio Oral

    Memria, Cultura e IdentidadeEnsino Religioso

    pg. 40

    Rito de Exu 2011Vitria da diversidade de cultos

    pg. 54

  • Um novo incio Celebrao do primeiro ano de vida da nossa Revista

    A revista Teologia da Convergncia chega ao seu primeiro ano de vida. Exatamente no ltimo Congresso Brasileiro de Umbanda do Sculo XXI a primeira edio foi entregue ao pblico levan-do contedo acadmico de peso e referncias religiosas signicativas, por meio de entrevistas e fotos do Rito de Exu realizado nas dependn-cias da FTU daquele ano.

    A quarta edio entregue de maneira anloga Tradio Oral: reatualizada e ressignicada. Estamos novamente inaugurando a edio no Congresso Brasileiro de Umbanda do Sculo XXI, quarto encontro, s que desta vez em con-junto com o I Congresso Internacional das Re-ligies Afro-americanas.

    Esta edio recebe textos que sero apresen-tados durante os referidos congressos e outras novidades.

    Mundicarmo M. R. Ferretti discute o tema Reis Encantados do Tambor de Mina: Dom Manuel, Dom Joo Soeira e Dom Pedro Angassu. Rep-resentao da Nobreza Lusitana em populaes afro-brasileiras?. Na sequncia, ser possvel apreciar o texto Experincia religiosa e Teolo-gia, cujo autor o renomado Volney J. Berken-brock. Ainda na sesso de artigos encontrare-mos as palavras de Srgio F. Ferretti intituladas: Festas de Santos no Tambor de Mina do Mara-nho: So Sebastio, So Joo, So Benedito e Divino Esprito Santo.

    Continuando o trnsito pela Revista, foram pub-licados todos os resumos que os comunicadores apresentaro em trs grupos de trabalho (GT). So estes os temas e respectivos professores responsveis pelos GTs: GT 01 - Tema: Teolo-gia e Tradio Oral, Prof. Dsc. Irene Dias; GT - 02 - Tema: Memria, Cultura e Identidade, Prof. Dsc. Maria Helena Villas Bas Concone e profa. Mestranda rica Jorge; GT - 03 - Tema: Ensino Religioso, Prof. Dsc. Srgio Junqueira e Prof. Doutorando Luis Alberto.

    Ao nal da mesma, ser possvel ler as palavras do fundador da FTU e sacerdote das Religies Afro-brasileiras F. Rivas Neto (Pai Rivas) sobre o rito de Exu realizado neste ano que tambm foi espao para discusso intra-religiosa no II Congresso de Sacerdotes e Sacerdotisas das Religies Afro-brasileiras, reunindo milhares de pessoas e lideranas desta Tradio oriundas do Brasil, Paraguai e Portugal.

    A entrevista desta edio foi realizada com Pai Fernando Soares de Portugal, o qual nos deu o prazer de traar o panorama geral das Religies Afro-brasileiras no continente europeu.

    Esperamos que esta edio permita uma re-exo salutar no meio acadmico e religioso e que sirva como demonstrao que Cincia e Religio so formas particulares de um mesmo saber humano.

    Joo Luiz CarneiroProfessor da FTU

  • Reis encantados do Tambor de Mina: Dom Manuel, Dom Joo Soeira

    e Dom Pedro Angassu Representao da nobreza lusitana em populaes

    afro-brasileiras?

    pg.04

    Mundicarmo Ferretti Universidade Federal do Maranho/Brasil

    _________________________________________________1 Apresentado originalmente na Universidade de Aveiro (Portugal), em maio de 2011, por ocasio do Congresso In-ternacional A Europa das Nacionalidades: mitos de origem, discursos modernos e ps-modernos.2 Doutora em Antropologia; Professora do Programa de Ps-Graduao em Cincias Sociais da Universidade Federal do Maranho UFMA; Pesquisadora de religies afro-brasileiras.

    O Brasil freqentemente apresentado como uma nao formada por trs raas: a branca, representada pelo colonizador por-tugus; a negra, constituda pelos escravos africanos; e a amarela, formada pelo ndio, o nativo do territrio colonizado. Vrios pes-quisadores de religies afro-brasileiras tm chamado ateno para a correspondncia entre esses trs segmentos sociais e as cat-egorias de entidades espirituais recebidas em transe medinico na Umbanda, mas ela pode ser encontrada tambm em menor escala em outras denominaes religiosas afro-brasilei-ras. No Tambor de Mina, denominao reli-giosa afro-brasileira tpica do Maranho (Bra-

    Resumosil) que temos pesquisado sistematicamente desde 1984, o povo portugus costuma ser lembrado como nobre e representado no seu panteo por reis que se acredita ter alguma relao com a histria do Brasil (como Dom Manuel) e/ou que tem grande importncia no Tambor de Mina (como o Rei Sebastio). Nesse trabalho pretendemos analisar a rep-resentao de alguns desses reis encanta-dos recebidos em transe medinico ou cul-tuados em terreiros (casas de culto) de So Lus-MA e de Belm-PA para onde a Mina se expandiu desde o nal do sculo XIX Dom Manuel, Dom Joo Soeira e Dom Pedro An-gassu, procurando apontar idias e valores a eles associados, compreender sua associao

  • pg.05

    _________________________________________________

    3 Embora a nao cambinda seja lembrada nos terreiros jeje, nag (fundados por africanos) e nos demais terreiros de So Lus, abertos por crioulos, afro-descendentes e outros, classicados pelos jeje como beta da mata ou de caboclos -, h muito no existe em So Lus nenhum terreiro denido como cambinda.

    nobreza portuguesa e entidades espiri-tuais africanas, e analisar a sua posio de destaque no panteo do Tambor de Mina.

    PALAVRAS CHAVE: Religio afro-brasileira; Tambor de Mina; Mitologia; Reis encantados.

    1. IntroduoEmbora as casas de Mina mais antigas do Ma-ranho a Casa das Minas (jeje) e a Casa de Nag (iorubana) - sejam consagradas a voduns e orixs divindades africanas (a primeira a Zomadnu e a segunda a Xang), na Casa de Nag e nos demais terreiros de Mina so tambm cultuados:

    1) encantados gentis (nobres cristos eu-ropeus associados a orixs: portugueses, franceses e de outras nacionalidades);

    2) turcos (nobres geralmente submetidos ao cristianismo);

    3) entidades caboclas (tipos populares com ou sem origem indgena; nobres que rejeita-ram a vida palaciana - como Antonio Lus, o Corre Beirada, lho de Dom Lus rei de Frana);

    4) e ndios, geralmente aculturados (di-tos mansos) como Caboclo Velho, o ndio Sapequara, pois na Mina maranhense as en-tidades indgenas so geralmente apresen-tadas como muito selvagens, sem condies de participao de rituais onde so recebidas entidades de outras categorias (voduns, gen-tis, caboclo).

    No Tambor de Mina as entidades indgenas so geralmente descritas como ndios brabos, indomveis, e algumas vezes quando incor-poradas exibem um comportamento sub-hu-mano (adotam nos rituais uma postura pou-co ereta, uivam, pulam, comem carne crua etc.). Alguns terreiros realizam anualmente para essas entidades um ritual denominado: Tambor de ndio, Tambor de Canjer ou de Tambor Bor (FERRETTI, M. 2000, p. 218).

    Nesse trabalho pretendemos analisar repre-sentaes de trs reis de nomes portugue-ses integrados ao panteo do Tambor de Mina (Dom Manuel, Dom Joo e Dom Pedro) a par-

    tir de:

    1) entrevistas com pais e com lhos-de-santo em vrios momentos do nosso trabalho de campo e da anlise da literatura afro-brasilei-ra acadmica e no acadmica;

    2) observaes de rituais realizados em ter-reiros de So Lus onde ocorreram transes de possesso com aquelas entidades ou onde elas so homenageadas;

    3) da analises de letras de doutrinas/musi-cas cantadas em rituais (geralmente em por-tugus) em homenagem quelas entidades espirituais coletadas e transcritas por ns e/ou registradas por outros pesquisadores e por pais-de-santo.

    Entre as obras de outros pesquisadores que tratam sobre encantados gentis do `Tambor de Mina merece destaque especial a tese de doutorado de Taissa de Luca (2010) Tem branco na guma: a nobreza europia mon-tou corte na encantaria mineira e trabalhos de Sergio Ferretti sobre Rei Sebastio (FER-RETTI, S. 2004; 2009; 2011).

    Como nos rituais de Mina o transe com as entidades gentis/nobres costuma ser menos freqente e duradouro, elas quando incor-poradas falam pouco principalmente com as pessoas da assistncia, e os mineiros em geral quase no falam sobre suas entidades espirituais, a anlise das letras das musicas cantadas em sua homenagem se mostrou uma excelente fonte de dados.

    O Tambor de Mina a denominao religiosa afro-brasileira tpica e predominante de So Lus, capital do Maranho, um dos estados do nordeste brasileiro. Tal como o candom-bl da Bahia, que mais conhecido nacional e internacionalmente, apresenta variaes denidas em termos de etnias ou naes africanas: jeje, nag, cambinda (ou caxias) e outras, para citar apenas as mais antigas3. Arma-se geralmente que a inuncia jeje e nag foi maior nos ter