Bakhtin 2011

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  • "OS G~NEROS DO DISCURSO

    Esta obra/o; publicado ori,ifI,Q/nwnu ~m russo ('um o I(tuloESTE:TIKA SLOVltSNOVA TVRTCHESTVA.

    COP.\riXht O h,v EJirws Iskwsrvo. Mflse"",. /Y7Y.Copyr;/lht C J 992 r 200J. Uvraria MlIrtiru Fontes E.dom Irdn ..

    So Paulo, para Q ""untr rdirdo.

    I: edlio /9926: edlio 2011

    TnldUHP,o.ULO BEZERRA

    Acompan nlo editorialLuzia Apondda dos Santos

    Revlsos 1"'1IcasMeor;a Lu;:A Favrrt

    f,'rlr Batista t!(IS SuntosAI Uuio Or1"'ftca

    Ald,duumrProduio JriftcaGrro/du Alvt'JPaclnaio

    S,uJio J Desenvulvimentn ditnria

    1. O PROBLEMA E SUA DEFINiO

    Todos os diversos campos da atividade humana esto ligados aouso da linguagem. Compreende-se perfeitamente que o carter e asformas desse uso sejam to mulriformes quanto os campos da ativida-de humana, o que, claro, no contradiz a unidade nacional de umalngua. O emprego da lngua efetua-se em forma de enunciados" (oraise escritos) concretos e nicos, proferidos pelos integrantes desse ou da-quele campo da atividade humana. Esses enunciados refletem as con-dies especficas e as finalidades de cada referido campo no s porseu contedo (terndtico) e pelo estilo da linguagem, ou seja, pela sele-o dos recursos lexicais, fraseolgicos e gramaricais da lngua mas,acima de tudo, por sua construo composicional. Todos esses trs ele-

    o.doo Intanudonals cio Co,",-*, DIIPubIIcaiolei!'}lCmu-a BrasIIdn do lJvTo. SP.IIt'aW)

    Bilkhlin. Mikhail Mikhailovilch&1f!lica da t:ri~o verbal I Mikh.il ~"ikh;ailovih.:h Bkhnn . pre .

    rcio cdi~'~ofrolo,'cstI Tzv~tan Tcdoruv . Il1u\.'du\:lo c IraIJu\'ln II11russo Paulo BC1.C"a. - b~ eu. - Su Paulo : EiJlhlra WMF ."'urtlll~Fontes. 101 I.

    Titulo origjnal: E."tetiklSlovisnova T\"t,n,,:h('~lvaISBN 97HH5 78274702

    I. Literatura - Esl~lica 2. Literanm - Histria c crtucal. Ii,:,.,:n ..P;.aulo. 11.ToeJomv,Tzvetan.Hl. Ttulo.

    Bakhrin cmprt.-ga O lermo vukdzivanit'. derivado do infinirivo viJluizivat. que significaato de enunciar, de exprimir. transrnirir pensamentos. sentimentos. ele. em palavras.() prprio autor si rua t'isluizivanir no campo da parole saussuriana. Em Marxismo rfiloJOfia da linguogrm (Hucirec, So Paulo). o mesmo lermo aparece traduzido como"enunciao" e "enunciado". Mas Bakhun no faz disuno entre enunciado e enun-ciao, ou melhor. cmprc:ga o lermo uulaiziuanie quer para o lia de produo do discur-so oral. 'Iucr para o discurso escrito. O discurso da cultura. um romance j publicadoe absorvido por uma cultura. ele. Por essa razo, resolvemos no desdobrar o lermo(j 'Iu,' o prprio autor no o rez!) e traduzir uiskdxiuani por enunciado. (N. do T.)

    eUI)XI.'

    ndices pa callOllo sUkm'rlco:I. lilenuur : Hi~lri c ,,ritit:.. H(N

    Todos os direitos desta edio reservados tiEditora WMF Marfins Fontes LIda.

    Rua Prof LartRamas dCarvalho. 1J3 OIJZ5.0JO Sei" "0/1/0 SP IIr

  • 2621 MIKHAIL BAKHTIN

    mentos - O contedo remrico, o estilo, a construo composicional -esto indissoluvelmente ligados no todo do enunciado e so igualmen-te determinados pela especificidade de um determinado campo da co-municao. Evidentemente, cada enunciado particular individual, mascada campo de utilizao da lngua elabora seus tipos relativamente est-veis de enunciados, os quais denominamos gneros do discurso.

    A riqueza e a diversidade dos gneros do discurso so infinitas por-que so inesgotveis as possibilidades da multiforme atividade humanae porque em cada campo dessa atividade integral o repertrio de gne-ros do discurso, que cresce e se diferencia medida que se desenvolvee se complexifica um determinado campo. Cabe salientar em especial aextrema heterogeneidade dos gneros do discurso (orais e escritos), nosquais devemos incluir as breves rplicas do dilogo do cotidiano (sa-liente-se que a diversidade das modalidades de dilogo cotidiano ex-traordinariamente grande em funo do seu tema, da situao e da com-posio dos participantes), o relate do dia a dia, a carta (em todas assuas diversas formas), o comando militar lacnico padronizado, a or-dem desdobrada e detalhada, o repertrio bastante vrio (padronizadona maioria dos casos) dos documentos oficiais e o diversificado univer-so das manifestaes publicsricas (no amplo sentido do termo: sociais,polticas); mas a tambm devemos incluir as variadas formas das ma-nifestaes cientficas e todos os gneros literrios (do provrbio ao ro-mance de muitos volumes). Pode parecer que a heterogeneidade dosgneros discursivos to grande que no h nem pode haver um planonico para o seu estudo: porque, neste caso, em um plano do estudo apa-recem fenmenos sumamente heterogneos, como as rplicas mono-vocais do dia a dia e o romance de muitos volumes, a ordem militarpadronizada e at obrigatria por sua enronao e uma obra lrica pro-fundamente individual, etc, A heterogeneidade funcional, como se podepensar, torna os traos gerais dos gneros discursivos demasiadamenteabstratos e vazios. A isto provavelmente se deve o fato de que a questogeral dos gneros discursivos nunca foi verdadeiramente colocada. Estu-dav.im-se - e mais que tudo - os gneros literrios. Mas da Antiguida-de aos nossos dias eles foram estudados num corte da sua especificidadeartstico-literria, nas distines diferenciais entre eles (no rnbiro daliteratura) e no como determinados tipos de enunciados. que so di-

    EsnnCA DA CRIA(,:Ao VERBAl 1 263

    ferenres de outros tipos mas tm com estes uma natureza verbal (lin-gustica) comum. Quase no se levava em conta a questo lingusticageral do enunciado e dos seus tipos. Comeando pela Antiguidade, es-tudavam-se os gneros rerricos (demais, as pocas subsequenres pou-co acrescentaram teoria an~iga); a j se dava mais ateno naturezaverbal desses gneros como enunciados, a tais momentos, por exemplo,como a relao com o ouvinte e sua influncia sobre o enunciado, so-bre a conclusibilidade verbal especfica do enunciado ( diferena da con-clusibilidade do pensamento), erc. Ainda assim, tambm a a especifi-cidade dos gneros rerricos (jurdicos, polticos) encobria a sua naturezalingustica geral. Estudavam-se, por ltimo, tambm os gneros dis-cursivos do cotidiano (predominantemente as rplicas do dilogo coti-diano) e, ademais, precisamente do ponto de vista da lingustica geral(na escola de Saussure', em seus adeptos modernos - os estruturalistas,nos behavioristas americanos' e, em bases lingusticas totalmente dis-tintas, nos seguidores de Vossler"). Contudo, esse estudo tambm nopodia redundar em uma definio correta da natureza universalmentelingustica do enunciado, uma vez que estava restrito especificidadedo discurso oral do dia a dia, por vezes orientando-se diretamente emenunciados deliberadarnente primitivos (os behavioristas americanos).

    No se deve, de modo algum, minirnizar a extrema heterogenei-dade dos gneros discursivos e a dificuldade da advinda de definir anatureza geral do enunciado. Aqui de especial importncia atentar paraa diferena essencial entre os gneros discursivos primrios (simples) esecundrios (complexos) - no se trata de uma diferena funcional. Osgneros discursivos secundrios (complexos - romances, dramas, pes-quisas cientficas de toda espcie, os grandes gneros publicsticos, erc.)surgem nas condies de um convvio cultural mais complexo e relati-vamente muito desenvolvido e organizado (predominantemente o es-crito) - arrstico, cientfico, sociopolrico, etc, No processo de sua forma-o eles incorporam e reelaboram diversos gneros primrios (simples),que se formaram nas condies da comunicao discursiva imediata.Esses gneros primrios, que integram os complexos, a se transformame adquirem um carter especial: perdem o vnculo imediato com a reali-dade concreta e os enunciados reais alheios: por exemplo, a rplica dodilogo cotidiano ou da carta no romance, ao manterem a sua forma e

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    o significado cotidiano apenas no plano do contedo romanesco, inte-gram a realidade concreta apenas atravs do conjunto do romance, ouseja, como acontecimento artstico-literrio e no da vida cotidiana. Noseu conjunto o romance um enunciado, como a rplica do dilogo co-tidiano ou uma carta privada (ele tem a mesma natureza dessas duas),mas diferena deles um enunciado secundrio (complexo).

    A diferena entre os gneros primrio e secundrio (ideolgicos) extremamente grande e essencial, e por isso mesmo que a natureza doenunciado deve ser descoberta e definida por meio da anlise de ambasas modalidades; apenas sob essa condio a definio pode vir a ser ade-quada natureza complexa e profunda do enunciado (e abranger assuas facetas mais importantes); a orientao unilateral centrada nos g-neros primrios redunda fatalmente na vulgarizao de todo o problema(o behaviorismo lingustico o grau extremado de tal vulgarizao). Aprpria relao mtua dos gneros primrios e secundrios e o proces-so de formao histrica dos ltimos lanam luz sobre a natureza doenunciado (e antes de tudo sobre o complexo problema da relao dereciprocidade entre linguagem e ideologia).

    O estudo da natureza do enunciado e da diversidade de formas degnero dos enunciados nos diversos campos da atividade humana deenorme importncia para quase todos os campos da lingustica e da fi-lologia. Porque todo trabalho de investigao de um materiallingusti-co concreto - seja de histria da lngua, de gramtica normativa, de con-feco de toda espcie de dicionrios ou de estilsrica da lngua, etc. -opera inevitavelmente com enunciados concretos (escritos e orais) rela-cionados a diferentes campos da atividade humana e da comunicao- anais, tratados, textos de leis, documentos de escritrio e outros, di-versos gneros literrios, cientficos, publicsticos, cartas oficiais e co-muns, rplicas do dilogo cotidiano (em todas as suas diversas modali-dades), etc. de onde os pesquisadores haurem os fatos Iingusricos deque necessitam. Achamos que em qualquer corrente especial de estudofaz-se necessria uma noo precisa da natureza do enunciado em ge-ral e das particularidad