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    Arte e reconciliao em Herbert Marcuse

    Rafael Cordeiro Silva

    RESUMO

    O artigo pretende explicitar a relao entre arte e reconciliao no pensamento de

    Herbert Marcuse, considerando-se vrios de seus escritos que tocam no tema. Ao longo

    deles, percebe-se que o uso do termo reconciliao assume um duplo significado: por um

    lado, significa a possibilidade de que os temas sublimados da cultura possam ser efetivados

    no plano das relaes materiais, o que implicaria o desaparecimento da arte; por outro,

    significa a imagem de um mundo harmonizado que a arte preserva em si e que se distancia

    da ordem social. Sob esse aspecto, a arte permanece utopia.

    Palavras-chave: Marcuse; Teoria Crtica; Escola de Frankfurt; filosofia social;

    esttica.

    ABSTRACT

    This paper aims to clarify the relation between art and reconciliation in Herbert

    Marcuse's thought, according to some of his writings concerning the subject. These works

    employ the term "reconciliation" with two meanings: it means the possibility of

    effectuating within material relations the sublimed cultural themes and this would result in

    the disappearance of the art; on the other hand, it means the image of a harmonic world

    which art preserves in itself and that stays away from social order. Under this aspect, art

    remains utopia.

  • Keywords: Marcuse; Critical Theory; Frankfurt School; social philosophy; esthetic.

    Marcuse sempre foi visto, dentre os filsofos ligados ou influenciados pelo Instituto

    de Pesquisa Social de Frankfurt, como o menos resistente teoria da identidade. Ainda que

    eles utilizassem a dialtica negativa como mtodo e criticassem igualmente Hegel pelo

    aspecto fechado e totalitrio de seu sistema, no foram unnimes em aceitar o conceito de

    reconciliao como termo final para a teoria crtica da sociedade. Adorno mostra total

    incompatibilidade com este conceito hegeliano na obra Dialtica negativa. Horkheimer, por

    sua vez, oscila entre a posio receptiva defendida em Eclipse da razo e o crescente

    distanciamento expresso em seus escritos posteriores. Mas o que dizer a respeito de

    Marcuse? Habermas sustenta que ele foi o mais afirmativo dentre os que se valeram do

    pensamento negativo.2 Ainda que tivesse sido menos resistente perspectiva da

    reconciliao, como declara Martin Jay em A imaginao dialtica (1977, p.80), que

    relao ela estabelece com a arte? Como hiptese de fundo, sustento que, embora presente,

    o conceito de reconciliao no pode ser tomado em um nico sentido, quando referido s

    obras de arte e crtica da cultura. Sob esse aspecto, tentarei mostrar como essa relao

    tematizada ao longo dos escritos do autor.3

    No ensaio "Sobre o carter afirmativo da cultura", publicado em 1937, Marcuse

    reconstri o percurso histrico que resultou na separao contempornea entre cultura e

    civilizao e fez com que ambas persistissem como mbitos aparentemente opostos.

    Analisando o pensamento filosfico desde a Grcia at os expoentes da filosofia moderna,

    o filsofo mostra como a separao inicial entre teoria e prxis, caraterstica da filosofia

    antiga, relaciona-se com a noo contempornea segundo a qual a superestrutura aparece

    como desvinculada da infra-estrutura. As filosofias de Plato e Aristteles fundamentam a

    separao entre a esfera do til e necessrio, de um lado, e a do belo e da fruio, de outro.

    A primeira corresponde aos esforos prticos que visam conservao da vida e no pode

  • ser erigida em objeto do conhecimento, pois insegura e inconstante; a segunda relaciona-

    se ao mbito do belo e da fruio e no pertence esfera das coisas teis e necessrias, o

    que faz com que sua apreenso seja possvel unicamente por meio da "teoria pura". Dessa

    forma, a beleza e a felicidade, por serem aspectos que transcendem o mbito da vida

    material, s devem ser buscados depois da satisfao das necessidades vitais. A filosofia

    antiga sustenta, portanto, que o gozo da verdade, do bom e do belo prerrogativa de uma

    elite. E o conhecimento delas atribuio do filsofo, visto estar ele dispensado da

    atividade produtiva.

    Para a filosofia grega, verdade, beleza, bondade e felicidade no so valores

    universais. Somente na poca burguesa, quando eles deixam de ser a ocupao do filsofo,

    que se forma a cultura propriamente dita e tem lugar a universalizao dos valores. Seu

    pressuposto pode ser ilustrado pela seguinte mxima:

    A verdade de um juzo filosfico, a bondade de uma ao moral, a beleza de uma

    obra de arte devem, segundo sua essncia, dirigir-se a todos, afetar a todos, comprometer a

    todos. Sem diferena de sexo e de origem, sem prejuzo de sua posio no processo de

    produo, os indivduos tm de se submeter aos valores culturais... A "civilizao" recebe

    alma da "cultura". (Marcuse, 1968, p.62)

    Por continuarem persistindo a cultura e a civilizao como dois campos

    separados na poca burguesa, Marcuse afirma a prevalncia de um tipo de compreenso da

    cultura que a eleva por sobre a base material. Essa situao denominada cultura

    afirmativa e significa que os valores do bom, verdadeiro, justo e belo so vlidos

    universalmente e realizveis no "interior de cada sujeito", sem que esteja implcito o

    compromisso de transformar a realidade. Cada um, diante da cultura burguesa, pode ser

    atingido pela magnitude de seus valores, mesmo que persista a misria material.

    Essa forma de compreenso mantm estreita conexo com a prxis poltica. A

    cultura originada no perodo burgus traz a marca da diviso de classes entre dominadores e

    dominados, em que os encargos e os prazeres so repartidos injustamente. Porm, a cultura

    endereada a um sujeito abstrato, independentemente de sua posio de classe. Um

    exemplo desse trao afirmativo pode ser buscado na Revoluo Francesa. A burguesia,

  • interessada no colapso do Ancien Rgime, sustentou como universalmente vlidas a

    liberdade, a igualdade e a fraternidade, com o intuito de conseguir a adeso das camadas

    populares. Uma vez alada ao poder e diante da reivindicao de liberdade, igualdade e

    fraternidade concretas, a burguesia responde com a cultura afirmativa: liberdade abstrata,

    igualdade abstrata e fraternidade abstrata. Todas as realizaes da cultura evocam esses

    valores abstratos. Se para a construo da nova ordem eles possuam carter progressista,

    com a sua estabilizao esses valores assumem uma funo legitimadora do statu quo.

    "Aquelas foras que tiram proveito das piores relaes sociais, servem-se agora de cada

    uma destas idias para impedir a possvel mudana que se faz necessria humanidade"

    (Horkheimer, 1988, p.142). Assim evidencia-se o trao idealista que adquire a cultura na

    medida em que afirma apenas a universalidade interior dos valores: " necessidade do

    indivduo isolado ela responde com a humanidade universal; misria corporal, com a

    beleza da alma; servido exterior, com a liberdade interior; ao egosmo brutal, com o

    reino virtuoso do dever" (Marcuse, 1968, p.66).

    A cultura tomou a alma para si, instituindo-a como seu domnio prprio, j que a

    filosofia sempre se viu embaraada em sua tentativa de abord-la e preferiu discutir a razo

    como substncia da individualidade, ao passo que a religio estabeleceu a grandeza da alma

    somente aps a morte. Os valores da cultura so os valores da alma, do interior das pessoas

    e s alcanam o exterior a partir de dentro. Essa forma de compreenso caracteriza a cultura

    afirmativa: a exaltao do anmico o seu mote. Para ela, o indivduo se realiza como tal,

    no pelo uso da razo, mas pela alma que lhe confere a essncia particular e a sua

    individualidade prpria.

    No capitalismo liberal, a alma escapa lgica do mercado e por isso permanece

    margem do mundo do trabalho. O novo sistema econmico alcanou sua hegemonia, entre

    outros, devido revoluo industrial, que foi possibilitada pela razo tcnica, e necessitou

    apenas dos corpos, ou seja, da mo-de-obra, inicialmente para a manufatura e depois para a

    indstria mecanizada. A reificao corporal de homens, mulheres e crianas, condenados

    explorao, misria, penria e sofrimento nas frentes de trabalho, compensada pela

    exaltao da beleza da alma. Porm, a cultura afirmativa no se destina ao proletariado

    rude, mas burguesia refinada que, graas fruio esttica, engrandece sua alma e se v

  • dispensada de refletir que a condio abastada na qual vive s possvel pela misria dos

    trabalhadores.

    A cultura anmica, quando usada para afirmar a realidade e ocultar a desigualdade,

    ideologia. Entretanto, Marcuse enxerga nela outra funo: consiste, ao mesmo tempo, em

    um protesto contra a situao vigente. Ao mostrar imagens belas, a cultura apresenta o

    mundo como possibilidade de ser diferente. E, em um contexto econmico marcado pela

    desigualdade social, a reivindicao de felicidade depe contra a ordem estabelecida. Nisto

    reside o perigo dos prprios temas da arte burguesa. Ocultar e desvelar, afirmar e contestar

    estes pares dialticos caracterizam a essncia da cultura.

    Ao protestar contra a ordem vigente e reivindicar uma outra forma de existncia, a

    obra de arte antecipa uma maneira nova de organizao da humanidade, mais feliz, livre e

    racional.4 Mas, diante da impossibilidade de efetivao dessa nova realidade, a cultura

    conserva em seus temas a esperana de que o futuro possa ser melhor. Ento, valendo-se da

    expresso