teologia da libertação

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  • 1. TEOLOGIA DA LIBERTAO /
  • 2. Enrique Dussel 1995, Potrerillos Editores S.A. de c.v. Vicente Surez 72 - Colonia Condesa - Ciudad de Mxico Ttulo do original espanhol: Teologa de la liberacin - Un panorama de 5U desarrollo. Direitos de publicao em lngua portuguesa no Brasil: Editora Vozes Ltda. Rua Frei Lus, 100 25689-900 Petrpolis, RJ Internet: http://www.vozes.com.br Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poder ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrnico ou mecnico, incluindo fotocpia e gravao) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permisso escrita da Editora. ISBN 968-7441-02-X (edio espanhola) ISBN 85.326.2204-6 (edio brasileira) Este livro foi composto e impresso pela Editora Vozes Ltda. - Rua Frei Lus, 100. Petrpolis, RJ - Brasil- CEP 25689-900 - Iel.: (OXX24-) 237 -5 112 - Fax: (OXX24-) 231-4676 - Caixa Postal 90023.
  • 3. NDICE PREFCIO, 7 CAPTULO PRIMEIRO IDEOLOGIA E HISTRIA DA TEOLOGIA, 9 Constituio ideolgica da teologia, 9 Condicionamentos ideolgicos da teologia do "centro", 15 CAPTULO SEGUNDO HISTRIA DA TEOLOGIA NA AMRICA LATINA I, 23 PRIMEIRA POCA. Primeira Teologia da Libertao. Teologia proftica entre a conquista e a evangelizao (desde 1511), 23 SEGUNDA POCA. A Teologia da cristandade colonial (1533-1808),29 TERCEIRA POCA. Segunda Teologia da Libertao. Teologia revolucio- nria diante da emancipao contra a Espanha e Portugal (desde meados do sculo XVIII), 34 QUARTA POCA. A teologia neocolonial na defensiva (at 1930),40 QUINTA POCA. A teologia da "Nova Cristandade" (desde 1930),42 CAPTULO TERCEIRO HISTRIA DA TEOLOGIA NA AMRICA LATINA II (Sexta poca), 51 PRIMEIRO PERODO. Da teologia europia latino-americana (1959-1968),51 SEGUNDO PERODO. Formulao da Teologia da Libertao (1968-1972),59 TERCEIRO PERODO. A Teologia da "Igreja dos pobres" no cativeiro e no exlio (1972-1979), 79 QUARTO PERODO. A Teologia latino-americana diante da revoluo centro-americana e os novos ataques (desde 1979), 91 QUINTO PERODO. Desde a "Instruo" romana de 1984, 102 Novos desafios da Teologia da Libertao no incio da dcada de no- venta, 108 Glossrio, 120
  • 4. PREFCIO No debate, pela primeira vez em mbito mundial, do tema da teologia da libertao latino-americana, provocado em parte pelo aparecimento da "Instruo sobre alguns aspectos da Teologia da Li- bertao" da Sagrada Congregao para a Doutrina da f - promulga- da em Roma no dia 6 de agosto de 1984, mas s publicada em 3 de setembro pelo Cardeal Joseph Ratzinger (meu professor em Muenster em 1964) - colheu muitas pessoas um tanto despreveni- das, j que passaram a se indagar sem um prvio conhecimento: o que essa teologia da libertao? Na realidade, na Europa latina ou germnica, ou na eslava (in- cluindo a Rssia ou a Polnia), a Amrica Latina a grande desco- nhecida. Algumas pessoas podem pensar que a teologia da libertao no possui antecedentes e uma criao de alguns te- logos e produzida por situaes totalmente novas. Desejaramos que tomassem conscincia de que os grandes momentos criadores de teologia na Amrica Latina foram, desde sua origem, teologia da libertao diante da opresso sofrida pelos "pobres" de nosso con- tinente. No comeo, e para o agora to celebrado "descobrimento" - que na realidade foi conquista, violncia e morte dos amerndios -, os pobres foram os indgenas ou primitivos habitantes americanos; depois as vtimas foram os crioIlos ante os "europeus intrusos" - como os denominava o grande heri rebelde cristo Tpac Amam - e na atualidade so as massas populares de operrios, camponeses, etnias, marginais, o bloco social dos explorados pelo capitalismo nacional e transnacional. Diante dessas trs opresses histricas - que se sucedem no tempo e que possuem o mesmo sujeito hist- rico: o povo latino-americano - e quando se produz objetivamente uma prxis de libertao do mencionado povo, j surgiram em trs oca- sies teologias da libertao. Se aqueles que desejam condenar-nos sem conhecer a nossa realidade se debruassem com mais ateno sobre a nossa histria, possvel que no recassem em erros pas- sados. necessrio no esquecer que o Papa Pio VII condenou a 7
  • 5. emancipao americana contra a Espanha a 30 de janeiro de 1816 em sua encclica Etsi longissimo. E como uma nova incidncia no mesmo erro poltico do papado - j que nesse nvel, como no da recente "Instruo", em nada est comprometida a infalibilidade pontifi- cia, pois se trata de disposies referentes ao nvel poltico mais que ao espiritual, como veremos - uma nova encclica, a Etsi iam diu de 24 de setembro de 1824, volta a condenar as lutas da emancipao, aconselhando obedincia ao Rei da Espanha, "nosso muito amado filho Fernando", no qual o Papa observa "sublime e slida virtude" - sendo que na realidade fugiu covardemente deixando a defesa da ptria contra a invaso napolenica nas mos do prprio povo es- panhol. Por fim, carncia de conhecimento romano da nossa reali- dade, devido a uma informao deficiente. por isso que a histria poder nos defender diante de decises precipitadas. Enrique Dussel Cidade do Mxico, 1995 8
  • 6. CAPTULO PRIMEIRO IDEOLOGIA EHISTRIA DA TEOLOGIA o contexto da histria da teologia na Amrica Latina a histria da teologia do "centro", originariamente do Mediterrneo e da Eu- ropa e hoje, por extenso, dos Estados Unidos. O contexto da bio- grafia do filho a biografia do pai, o que no quer dizer que o filho seja o pai e sim, muito pelo contrrio, que somente o seu contex- to. A teologia latino-americana filha da europia, porm dife- rente; outra: um acesso diferente mesma tradio porque surge num mundo "perifrico" dentro da poca moderna mercantil pri- meiro e depois imperial monopolstica. A teologia de um mundo colonial ou neocolonial pode por momentos refratar a teologia do "centro", mas, nos momentos criativos, produzir uma nova teo- logia que se erguer contra a grande teologia constituda tradicio- nalmente. nesse movimento de refrao imitativa ideolgica ou de criatividade que acede realidade distinta de nosso mundo lati- no-americano que se decidir a sorte da histria da teologia em nosso continente dependente. Examinemos a questo por partes. CONSTITUIO IDEOLGICA DA TEOLOGIA A noo de ideologia 1 descoberta pelo seu oposto: a revelao no-ideolgica. Se h uma expresso que permite furar a crosta externa de todo sistema ideolgico constitudo a proto-palavra, a exclamao ou interjeio de dor, conseqncia imediata do trau- matismo sentido. O "Ai!" do grito de dor produzido por um golpe, uma ferida, um acidente, indica de maneira imediata no algo mas sim algum. Aquele que ouve um grito de dor pego de surpresa por- 1. Veja-se uma bibliografia mnima sobre ideologia na obra de Kurt Lenk, Ideologie. Ideologiekritik undWissensoziologie, Berlim, 1971 (Trad. esp. Buenos Aires, 197+). 9
  • 7. que irrompe em seu mundo cotidiano e integrado o sinal, o som, o rudo que quase permite vislumbrar a presena ausente de al- gum na dor. No se sabe, ainda, que tipo de dor nem o porqu do grito, e por isso inquietante at que se saiba quem e por que se lamenta. O que o referido grito diz secundrio; o fundamental o prprio dizer, que algum diz algo. No grito de dor no se apresenta o dito mas um dizer, a prpria pessoa, a exterioridade que provoca: que "vaca" ou chama pedindo ajuda. No entanto, exclamar "Socorro!" j uma palavra de uma linguagem, de uma cultura. O grito, antes de ser uma palavra de auxlio, talvez o sinal mais distante do ideolgico: "Ouvi o seu clamor por causa dos seus opressores" (xodo 3,8); " ... e lanando um grande grito expirou" (Marcos 15,37). o limite da revelao humana, e divina, que se situando fora do sistema o coloca em questo - quando a dor produzida pela opresso, quer dizer, pela injustia ou domi- nao sobre o Outro, que a dor de J e no uma mera dor fisica, ainda que esta tambm questione. O grito de dor como o "Tenho fome!" exige uma resposta pe- remptria. A resposta que traz como obrigao a responsabilidade: ser responsvel ou tomar a seu cargo aquele que clama e a sua dor. Nessa responsabilidade se fundamenta a religio autntica e o cul- to 2 , e o traumatismo que sofre aquele que se arrisca pelo Outro que clama no sistema aglria do infinito. "Tenho fome!" a revelao de que o suco gstrico molesta ou sensibiliza as paredes internas do estmago. Esse cido que produz dor o apetite; o "desejo" de comer. Este desejo carnal, corporal, material j o desejo do Reino dos Cus em sua significao mais real: a insatisfao que exige ser saciada. Quando se trata da fome de um povo, habitual, a fome da pobreza, o lugar donde surge a palavra no-ideolgica. Esse o carnalismo ou adequado ma- terialismo que Jesus coloca como critrio supremo do Juzo: "Tive fome e me destes de comer" (Mateus 25,35). O "Ai!" da dor primeira, o "Tenho fome!", j articulado numa linguagem, numa classe social, num povo, num momento da his- 2. Vide Captulo X. "La Arqueolgica", de meu livro Para W1a tica de la lib,rocin latinoamericana. USTA, Bogot, t.v, 1980 (em porto Loyola/UNIMEP. So Paulo/Piracicaba, 1977). 10

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