origens da teologia da libertação

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    QUANDO A IGREJA SE FEZ VERBO: O SURGIMENTO DA

    TEOLOGIA DA LIBERTAO

    Captulo 2 da tese:

    A AO TERRITORIAL DE UMA IGREJA RADICAL: Teologia da Libertao, Luta pela Terra e a Atuao da Comisso Pastoral da

    Terra no Estado da Paraba Tese apresentada ao Programa de Ps Graduao em Geografia Humana, Departamento de Geografia, Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo, para a obteno do ttulo de Doutor.

    Orientador: Prof. Dr. Ariovaldo Umbelino de Oliveira

    So Paulo 2008

  • 2

    M a

    Mitidiero Junior, Marco Antonio

    A ao territorial de uma igreja radical: teologia da libertao, luta pela terra e atuao da comisso pastoral da terra no Estado da Paraba./ Marco Antonio Mitidiero Junior. So Paulo: USP, 2008.

    500f.: il. Color Orientador: Prof. Dr. Ariovaldo Umbelino de Oliveira Tese (Doutorado) - Programa de Ps Graduao em

    Geografia Humana - Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo, 2008.

    Referncias: f. 475-500. 1. . I. Oliveira, Ariovaldo Umbelino de. II. Programa de Ps

    Graduao em Geografia Humana - Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo. III. T.

    CDD:

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    CAPTULO 2

    QUANDO A IGREJA SE FEZ VERBO: O SURGIMENTO DA

    TEOLOGIA DA LIBERTAO

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    2 QUANDO A IGREJA SE FEZ VERBO: O SURGIMENTO DA TEOLOGIA DA

    LIBERTAO

    Pode-se encontrar na bibliografia relativa ao tema proposto uma infinidade de

    expresses, tais como: nova teologia, teologia dos pobres, teologia dos oprimidos,

    teologia revolucionria, entre outras, para se referir Teologia da Libertao e a

    todo movimento religioso e social desencadeado por ela. Contudo, todas essas

    expresses fazem referncia releitura bblica e construo intelectual de uma

    interpretao da f religiosa advinda de telogos que estabeleceram uma ponte

    religiosa, filosfica, poltica e sociolgica entre a realidade terrena e a mensagem

    evanglica da religio catlica. Desde ento, foi afastado qualquer tipo de pr-

    determinao divina que justificasse problemas sociais mundanos; a velha idia de

    que a pobreza uma virtude agradvel aos olhos de Deus caiu por terra. A utopia

    do Reino de Deus passa a ser pensada como etapas de transformaes sociais

    necessrias na realidade terrena. A Teologia da Libertao nasce, portanto, da

    tentativa e do engajamento de parte dos setores eclesiais1 para territorializar a

    Igreja, dando uma feio mais real e objetiva misso dessa instituio no mundo.

    Certamente foi em razo da constatao dessa objetividade ou dessa feio

    mais real que um grande estudioso do tema, Michael Lowy (2000), passou a

    considerar a Teologia da Libertao como um fenmeno mais amplo e profundo do

    que uma mera corrente teolgica: um vasto movimento social, com conseqncias

    polticas de grande alcance2.

    1 importante, nesse momento, fazer a ressalva de que, quando uso a expresso parte dos setores eclesiais ou parte da igreja, refiro-me ao pequeno contingente de telogos, clrigos e cristos que adotaram essa teologia como a teologia da sua Igreja e da sua vida. No obstante, notrio para todos os setores que a Igreja Hierrquica (do Vaticano) quem domina o discurso teolgico oficial (e tradicional). O que quero afirmar que, em termos quantitativos (nmeros de cristos, parquias, dioceses, comunidades, movimentos eclesiais e clrigos), a teologia oficial supremacia.

    2 Lowy (1994, 2000) analisa e historiografa muito bem esse amplo movimento social na Amrica Latina, entretanto particulariza, dando um peso maior aos acontecimentos (e resultados) decorridos na Igreja brasileira. A Igreja brasileira um caso nico na Amrica Latina, na medida em que a nica Igreja no continente sobre a qual a teologia da libertao e seus seguidores das pastorais conseguiram exercer uma influncia decisiva. A importncia desse fato evidente, se considerarmos que a Igreja brasileira a maior Igreja catlica do mundo. Alm disso, os novos movimentos populares a radical confederao dos sindicatos (CUT), os movimentos de trabalhadores sem terra (MST), as associaes de moradores das reas pobres e sua expresso poltica, o novo Partido dos Trabalhadores, so at certo ponto produto da atividade comunitria de cristos dedicados, agentes leigos das pastorais e comunidades de base tambm crists (2000. p 135). Evidentemente, contextualizar essa frase desse autor com o momento poltico atual mostraria que a CUT no um sindicato radical dada a crise do sindicalismo no Brasil e no mundo e que o PT no expresso das classes populares. O importante aqui, por enquanto, frisar que foi a Igreja

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    Nesse ponto, parte da Igreja, imbuda pelos ideais teolgicos dessa nova

    interpretao da f, muda a sua forma de atuao frente realidade que a

    circundava e ocorre uma espcie de mudana do discurso, que acarreta diretamente

    mudana da prtica e, por outro lado, simultaneamente uma mudana na prtica,

    que influencia diretamente a construo de um novo discurso. A mudana da prtica

    significa colocar-se como ator que age e como sujeito que incentiva as aes que

    objetivam a realizao de um mundo mais fraterno, solidrio e igualitrio, palavras

    provindas de uma raiz bblica, e no da revoluo democrtico-burguesa. Na busca

    por sujeitos histricos que realizassem tal empreitada, os telogos da libertao,

    inspirados pela histria e misso de Jesus Cristo na terra, elegeram o pobre e o

    oprimido como portadores incondicionais do gesto e da palavra libertadora.

    Esse movimento produziu uma arquitetura teolgica (e lgica), por meio da

    qual o cotidiano direto das comunidades de fiis e das sociedades passou a ser,

    dialeticamente, referncia de resistncia e de transformao diante do

    desenvolvimento de condies sociais opressoras e injustas.

    A teologia tornou-se o discurso, e a idia de libertao, a prtica. No que diz

    respeito a uma teoria da ao social, o binmio teologia versus prtica

    transformadora pretende-se realizar, ou seja, a teologia serve como incentivadora

    das aes sociais transformadoras, serve como fermento subjetivo, cultural e

    simblico dos sujeitos na luta pela libertao. Na verdade, esse discurso teolgico

    produz manifestaes de luta, ao contrapor a teologia tradicional, centrada na

    salvao individual e no conformismo poltico, ao comunitria contestatria das

    condies sociais perversas. , em primeira instncia, um discurso que se

    verbaliza, na mesma medida em que possui forte referencial territorial.

    Neste captulo, alm de propor uma seqncia histrica de eventos que

    reconstituam o nascimento da Teologia da Libertao, terei a preocupao de narrar

    e comentar a produo desse discurso teolgico para, em seguida, descrever com

    base no material emprico a ao territorial da Igreja Libertadora. Assim, procurarei

    deixar clara a relao umbilical entre Teologia da Libertao e ao territorial desse

    fragmento de Igreja.

    libertadora uma das razes seno a principal delas a influenciar (e amparar) o surgimento de sindicatos, partidos e movimentos sociais.

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    2.1 Breve histrico da teologia da libertao

    Nenhum dos telogos e autores mais importantes da Teologia da Libertao,

    entre eles Gustavo Gutirrez (1981), Leonardo Boff (1980, 1992, 1998, 2000, 2004),

    Frei Betto (1981, 1998), Henrrique Dussel (1981, 1987, 2007), Clodovis Boff (1987,

    1989, 1991) Joseph Comblin, (1983, 1996, 2002, 2003), Joo Batista Libnio (1982,

    1984, 2001), Srio Lopez Velasco (1991), arrisca datar o surgimento dessa nova

    interpretao do Evangelho. Em entrevistas que realizei com pessoas adeptas e

    envolvidas com esse segmento da Igreja e com clrigos que participaram desse

    movimento (Dom Toms Balduno e Joseph Comblin) nenhum deles precisa uma

    data ou um fato criador dessa teologia, mas todos deixam pistas do processo

    formador da Teologia da Libertao. O Conclio Vaticano II (1962 -1965) e,

    principalmente, os encontros episcopais de Medelm na Colmbia (1968) e Puebla

    no Mxico (1979), contextualizados pela realidade scio-econmica e poltica da

    Amrica Latina, certamente so reconhecidos por todos como as razes de uma

    abertura na Igreja Catlica, que possibilitou a emerso de crticas teologia

    tradicional e a formao de uma nova hermenutica da f, portanto de um novo vis

    interpretativo da Bblia Sagrada e do Cristianismo.

    A Amrica Latina, mergulhada em um ambiente de misria e explorao, foi o

    centro geogrfico para o encaminhamento dessa nova teologia. Foi nesse continente

    que perguntas indigestas mexeram com os dogmas de muitos religiosos. A questo

    fundamental foi constatar que aquela organizao social marcada pela pobreza no

    estava nos projetos de Deus e que a Igreja mostrava-se inerte e, muitas vezes,

    colaborava com a realidade injusta presente no cotidiano dos latino-americanos.

    Eduardo Galeano, em seu clebre livro As Veias Abertas da Amrica Latina,

    descreve a paisagem perversa dos diferentes pases e resume a histria desse

    continente, vtima do processo de sucessivas pilhagens por parte dos projetos

    imperialistas das naes poderosas. Com a diviso internacional do trabalho

    remodelada aps a formao das empresas multinacionais (dcadas de 1960 e

    1970), a Amrica Latina ganhou novamente a funo de produtora e reprodutora do

    capital com

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