narrativa e dimensÃo estÉtica da linguagem: qual narrativa e dimensÃo... · estética da...

Download NARRATIVA E DIMENSÃO ESTÉTICA DA LINGUAGEM: QUAL NARRATIVA E DIMENSÃO... · estética da linguagem

Post on 09-Nov-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • NARRATIVA E DIMENSO ESTTICA DA LINGUAGEM:

    QUAL O LUGAR DA EXPERINCIA?

    Patrcia Pacheco Colgio Pedro II - RJ

    Resumo

    Este artigo se fundamenta nos conceitos de Experincia e Enunciao, desenvolvidos,

    respectivamente, por Walter Benjamin e Mikhail Bakhtin, para discutir a dimenso

    esttica da linguagem associada ao ato de narrar. So apresentadas reflexes sobre

    personagens literrios, relatos de atividades cotidianas em algumas cidades do Norte e

    Nordeste do Brasil, bem como a reflexo de uma experincia escolar, mais

    especificamente voltada para o ensino da Literatura, no 1 segmento do Ensino

    Fundamental, em uma escola da Rede Pblica Federal, localizada no Rio de Janeiro.

    Neste percurso, cuja tessitura se desenrola em forma de narrativa entremeada pela

    discusso terica, ora questionamos e, por vezes, referendamos certas ideias

    apresentadas pelo filsofo alemo em seu clebre ensaio O Narrador. Ao denunciar

    que a arte de narrar estava definhando, ao longo de um processo histrico que vinha

    sofrendo as aes devastadoras das foras produtivas, Benjamin tambm anuncia que a

    faculdade de intercambiar experincias, outrora reconhecida como inseparvel da

    condio humana, estaria em extino. Partindo do pressuposto de que a natureza da

    linguagem se apoia em bases dialgicas, numa relao alteritria, conforme a teoria

    bakhtiniana, passamos a questionar se, de fato, possvel conceber a condio humana

    sem as possibilidades estticas e expressivas calcadas na troca de experincias.

    Compreendemos as reflexes do autor de O Narrador e partilhamos de muitos de seus

    apontamentos, mas no podemos deixar de estabelecer um dilogo crtico com sua

    premissa inicial. A rememorao, princpio fundamental da narrativa, no seria to

    intrnseca natureza dialgica da linguagem quanto a enunciao, que se estabelece

    como elos em uma cadeia ininterrupta de muitos enunciados?

    Palavras-chave: Narrativa; Esttica; Experincia.

    INTRODUO

    Jos Saramago, em depoimento apresentado no documentrio Lngua, Vidas em

    Portugus, realiza a seguinte reflexo Quanto mais palavras temos, mais somos

    capazes de expressar o que sentimos, mais somos capazes de pensar. Estamos vivendo

    um momento de involuo, de volta ao tempo das cavernas. Parece que temos cada vez

    menos palavras. Haver um dia em que as pessoas, para se comunicarem, usaro

    apenas grunhidos ou sons guturais e alguns gestos.

    Ao pensar sobre o quadro descrito pelo autor portugus, possvel fazer

    referncia a Walter Benjamin, mais especificamente ao seu ensaio O Narrador, que

    discorre, no incio no sculo XX, sobre questes ligadas tradio da arte de narrar,

    outrora to frequente nas sociedades tradicionais:

    Torna-se cada vez mais raro o encontro com pessoas que sabem narrar

    alguma coisa direito. cada vez mais frequente espalhar-se em volta o

    embarao quando se anuncia o desejo de ouvir uma histria. como

    Didtica e Prtica de Ensino na relao com a Escola

    EdUECE- Livro 102848

  • se uma faculdade, que nos parecia inalienvel, a mais garantida entre

    as coisas seguras, nos fosse retirada. Ou seja: a faculdade de trocar

    experincias (BENJAMIN, 1994, p.198).

    LIES DA LITERATURA: A NARRATIVA NA ARTE

    Ambos os autores expem a preocupao quanto ao definhamento do uso da

    palavra e sua centralidade na constituio do sujeito. Benjamim, nesse sentido,

    desenvolve o conceito de experincia que se refere a toda ao realizada para alm do

    tempo vivido, alm do momento imediato de sua realizao. Para o filsofo, so as

    experincias que, ao ultrapassar a noo de finitude, contribuem para a formao da

    subjetividade, e isso passa diretamente pelos usos da linguagem.

    A Literatura oferece vrias imagens que se relacionam com a questo

    supracitada. Em As Mil e Uma noites, Sherazade, personificao da palavra como poder

    de sobrevivncia e de humanizao, arrisca sua prpria vida ao candidatar-se ao

    casamento com Shariar, um sulto ensandecido pelo dio que nutria por todas as

    mulheres desde que sua esposa o traiu com um de seus empregados. Movido pela ira,

    mata sua cnjuge e decreta a morte encadeada das demais mulheres do reino, ao tramar

    um plano diablico: a cada noite escolheria uma moa para casar-se e, aps as npcias,

    na manh seguinte, ela seria entregue ao carrasco, para que o sulto no corresse o risco

    de uma nova traio.

    Ao decidir espontaneamente casar-se com Shariar, Sherazade, filha do vizir, leva

    consigo, alm de uma dose de altrusmo, um acmulo de sabedoria tecida entre os livros

    e as vozes dos contadores de histrias, na longnqua Prsia medieval. Essa sabedoria,

    em forma de narrativas cadenciadamente contadas por mil e uma noites, fecunda os

    ouvidos e a alma do sulto, que, de algoz, transformou-se em amigo e amante.

    Ao mudar de poca e paisagem, surge para reflexo a figura de Franz Kafka,

    mais especificamente a de Gregor Samsa, personagem central da obra A Metamorfose,

    que passa por um processo revelador do total definhamento da experincia: aps uma

    noite mal dormida, v-se transformado em um inseto, uma barata. Em consequncia, v-

    se, tambm, expropriado de sua condio humana, o que se torna mais evidente quando

    no consegue fazer uso da palavra. Gregor entende o que dizem e sentem seus

    familiares, mas no compreendido por eles, sequer reconhecido como sujeito. Para

    seus pais e sua irm, aquela barata no seria o irmo to amado de quando provia as

    necessidades domsticas. Assim, isolado em seu quarto, que, aos poucos, tornou-se um

    Didtica e Prtica de Ensino na relao com a Escola

    EdUECE- Livro 102849

  • depsito das quinquilharias da casa, encontra-se privado de convvio, no se comunica,

    no se expressa, no deixa suas marcas na relao com o outro. Este outro passa a no

    existir, no fecunda mais sua experincia, que, esvaziada, se aniquila. Nem mesmo sua

    morte motivo de comoo, o que leva a crer que ela j tinha se dado antes mesmo do

    momento fatal.

    Sherazade e Gregor Samsa representam o poder da palavra em toda a sua

    grandeza e fora. Cada qual constitui uma alegoria para pensar a dimenso esttica da

    linguagem como formadora da experincia humana. Tais exemplos literrios levam a

    pensar sobre os questionamentos expostos por Saramago e Benjamin no incio desse

    texto. O que est em xeque so os usos da linguagem e sua centralidade para a formao

    do sujeito, mais especificamente a linguagem em sua dimenso esttica, cuja

    manifestao mais evidente se concretiza por meio do ato de narrar, ou seja, de

    intercambiar experincia, entendido, de acordo com Larrosa (2004, p163), como aquilo

    que nos passa, ou nos toca, ou nos acontece e, ao nos passar, nos forma e nos

    transforma. Assim, as aes que envolvem o uso da palavra para se estabelecerem como

    experincia, precisam ser pensadas como formadoras, algo que transpasse e constitua o

    sujeito.

    Eis um caminho possvel para estreitar o lao entre experincia e esttica. Ao

    pensar nesta palavra, necessrio perceb-la para alm de uma apologia ao belo, s

    formas perfeitas, a um estado contemplativo-passivo de apreciao de uma obra de arte

    ou um estado de pura inspirao para sua execuo. Antes de tudo isso, esttica (estesia)

    est associada aos sentidos, percepo atravs da sensibilidade. Uma percepo

    sentida pode ultrapassar os limites da imediatez e, aps sucessivas mediaes,

    transformar-se em reflexo formadora e constituidora da subjetividade.

    Desta forma, possvel inferir que a aprendizagem, a produo de conhecimento

    como ao formadora e transformadora se efetivam ao se constiturem como

    experincia. O sujeito afetado, e necessrio reiterar: esteticamente afetado pela

    experincia, capaz de atribuir sentidos, preencher lacunas, tal qual o menino que

    carregava gua na peneira, do poeta Manoel de Barros (1999), que gostava mais dos

    vazios do que dos cheios e por isso insistia em carregar gua na peneira, em brincar de

    ser poeta, em fazer peraltagens com as palavras. E por falar em peraltagens com as

    palavras, voltamos a Larrosa (2004), quando afirma:

    As palavras determinam nosso pensamento porque no pensamos com

    Didtica e Prtica de Ensino na relao com a Escola

    EdUECE- Livro 102850

  • pensamentos, mas com palavras (...). E pensar no somente

    raciocinar ou calcular ou argumentar, mas sobretudo dar sentido ao

    que ns somos e ao que nos acontece (...). Por isso que atividades

    como atender s palavras, criticar as palavras, inventar palavras no

    so atividades ocas ou vazias, no so mero palavrrio (LARROSA,

    2004, p. 153).

    A crtica de Saramago, no primeiro pargrafo deste texto, refere-se ao fato de

    muitas pessoas, por ele observadas, estarem fazendo uso econmico, mesquinho, pouco

    expressivo das palavras e negando a potencialidade esttica que elas podem oferecer.

    Sem pretender colocar abaixo tal constatao, indagamos se o quadro pintado pode se

    apresentar de forma generalizada, nica possvel de ser vista. Nesse universo de

    degradao da arte de narrar, j apresentado por Benjamin (1994) quase um sculo antes

    do depoimento do autor portugus, no haveria espao, na contramo do fluxo das

    foras produtivas, para meninas, meninos, jovens, homens e mulheres carregarem gua

    na peneira, fazerem peraltagens com as palavras, atendendo-as, criticando-as,

    inventando-as?

    LIES DO COTIDIANO: A NARRATIVA NA VIDA

    Para alm das f

Recommended

View more >