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  • MANUAL DE FOTOGRAFIA E CINEMATOGRAFIA BSICA

    Por Filipe Salles

  • Manual de Fotografia e Cinematografia Bsica Prof. Filipe Salles 2004 - 2 -

    PARTE 1 - FOTOGRAFIA

  • Manual de Fotografia e Cinematografia Bsica Prof. Filipe Salles 2004 - 3 -

    INTRODUO Sempre foi natural do homem procurar o registro puro e simples dos

    acontecimentos sua volta. As pinturas rupestres das cavernas pr-histricas, os primeiros registros visuais e tentativas de escrita, bem como as inscries hieroglficas do antigo Egito e imediaes, so testemunho desta necessidade, desde os mais remotos tempos. Mas, uma vez dominada a tcnica do registro atravs do desenho, o homem passou ento a desenvolver uma dimenso esttica destes registros, que preocupava-se no apenas com a simples representao, mas uma representao que traduzisse a idia do belo, do aprazvel, da harmonia. A essa dimenso esttica da representao denominou-se ARTE.

    Portanto, pode-se considerar razovel que h muito tempo o homem busca imitar suas aes em simulacros, sendo tanto uma necessidade scio-cultural como religiosa. E, por vezes, ambas, pois na antigidade no havia dissociao entre a vida social e a vida espiritual em muitas sociedades. Esse foi o primeiro conceito de esttica, pois a busca do belo e perfeito representava a busca pela prpria divindade. Posteriormente, muitos ritos e smbolos deste conhecimento milenar foram se perdendo e a representao passou a ser, para a maioria das pessoas, apenas uma curiosidade histrica, um elo de uma corrente no desenvolvimento cronolgico da arte, ou ainda a depositria de certas tradies, nica forma de mant-las vivas. Atualmente, s temos conhecimento da existncia desses rituais e de uma simbologia antiga atravs de suas reprodues visuais.

    Isso no se d por mera coincidncia. Diversos estudos recentes sobre psicologia, especialmente sua ramificao visual (gestalt) apontam de maneira contundente para o potencial sinttico que encerram certas imagens, ou seja, modelos e smbolos visuais so capazes de armazenar uma grande quantidade de informao, em pouco espao. Exemplo disso a escrita ideogrfica oriental, em especial a chinesa e a japonesa. Existem ideogramas bsicos que encerram determinados significados, e um sem-nmero de outros ideogramas podem ser formados a partir da superposio de dois ou mais significados, depositando num nico smbolo um determinado conhecimento. uma escrita sensvel, cuja inteligibilidade depende da sensibilidade em interpretar combinaes simblicas. A ns parece coisa de outro mundo, mas h milnios que a escrita oriental praticada desta maneira. De mesma estrutura parece ser constitudo o sonho, que, segundo Freud e mais tarde Jung, so tradues simblicas de imagens inconscientes, podendo uma nica imagem arquetpica traduzir toda a psiqu de um indivduo.

    Portanto, um nico smbolo visual capaz de armazenar um conhecimento muito grande, que tomaria um enorme tempo e espao se fosse guardado e transmitido por palavras (Poderia vir da o dito popular uma imagem vale mil palavras? ).

    De qualquer maneira, no h como negar o fascnio que a imagem exerce sobre ns, um maravilhamento que vai da simples constatao de verossimilhana at a admirao esttica mais profunda, um canal de transmisso de conhecimento, emoes e idias. Onde reside esta magia?

    Os gregos foram, sem dvida, os primeiros a teorizarem sobre a natureza da representao artstica, seu valor e sua utilidade. Pitgoras, por exemplo, via na msica a manifestao artstica da matemtica.

    Mas um dos primeiros estudos registrados, sobre a qualidade dos simulacros, bem como sua funo esttica, poltica, social e religiosa, foi enunciado pelo filsofo grego Aristteles (500ac) em uma obra denominada Potica. Embora tenha como ponto de partida a anlise da tragdia, sabido que, para o homem grego, a arte potica no era limitada, como hoje, literatura. Pois poeta, do grego poietes, significa aquele que faz, e a potica, poiesis, capacidade criadora. Assim, todo o poeta era um arteso, que

  • Manual de Fotografia e Cinematografia Bsica Prof. Filipe Salles 2004 - 4 -

    criava, fazia, e sua rea de atuao abrangia diversas instncias do conhecimento, desde o artesanato at a msica, pintura, artes dramticas e literrias. Mas, para adentrar na esfera esttica, ser chamado artista (tal como hoje conhecemos) era preciso mais: era preciso sentir. Da o termo esttica, que vem do grego aisthesis, sentir. Aristteles via na potica (que para os gregos subentendia a manifestao dramtica, literria e potica propriamente dita) a mimese da sociedade.

    Mas quanto imagem, Plato deu-nos os princpios bsicos, vlidos at hoje, do comportamento esttico frente s artes visuais, e que atualmente inclui a fotografia e o cinema.

    Para Plato, existem dois tipos de imagem: uma objetiva, detectada por nossos sentidos da conscincia, e outra subjetiva, advinda de uma idia, de um pensamento. A necessidade desta subdiviso entre o mundo real e o mundo das idias partiu da premissa de que tudo o que existe no mundo real fruto do mundo das idias. Embora os atributos filosficos desta premissa quanto ao mundo natural sejam deveras complexos e necessitariam de um estudo especfico para tal, podemos nos fixar, para fins do presente estudo, nas artes, da qual a fotografia faz parte1. No campo da arte, bastante claro que toda a produo artstica provm de uma idia, e manifestada no objeto de arte pelo arteso competente para tal. A idia, portanto, antecede a realidade esttica, e nela situa-se a matriz criadora de toda e qualquer manifestao artstica. A importncia deste conhecimento para nossa finalidade se faz evidente quando temos que produzir ou entender uma obra de esprito artstico, pois s conseguimos chegar a algum resultado na compreenso ou produo de uma obra se tentarmos detectar e interagir com essa matriz. A colocao em evidncia desta pequena gota, tirada do oceano platnico de conhecimento, ser para ns importantssima no decorrer de um curso de fotografia e cinema, pois aqui est um pequeno compndio tcnico que precisar desta chave para ser posto em prtica enquanto manifestao esttica, tanto para a produo da arte fotogrfica quanto para sua apreciao.

    Mas Plato no pra suas reflexes neste ponto; temos tambm a advertncia sobre a iluso das imagens que fez, pouco antes, em sua Repblica. Este poder da imitao (mimese), ou at melhor, da imitao estilizada, esttica, foi estudado no s pelo prprio Plato (mestre de Aristteles) mas tambm, depois, por todos os demais filsofos que se dedicaram de alguma forma arte e sua essncia.

    Bem ou mal utilizada, a imagem artstica, quer esttica (como na pintura ou fotografia), quer dinmica (como no teatro ou cinema), uma arma capaz de alterar hbitos, costumes, opinies e modos de vida de muitos, simultaneamente; sem dvida uma poderosa arma poltica e ideolgica.

    O partido nazista alemo, o soviete supremo e o exrcito americano se utilizaram largamente de propaganda cinematogrfica durante seus conflitos exteriores e interiores, s para citar alguns exemplos extremos. Mas, se nos detivermos em uma anlise mais abrangente, no h nenhuma imagem produzida no mundo que no contenha algum tipo de inteno ideolgica. Mas, evidentemente, no podemos nos esquecer que a imagem em si no boa nem ruim, ns que a revestimos de significado, e da sempre bom recordar a responsabilidade que temos ao produzir imagens.

    Isso tudo apenas um breve panegrico que nos introduz na questo da imagem: ela que parece exercer maior fascnio sobre as pessoas, tanto na fotografia como no cinema.

    Do ponto de vista da fotografia, sua expresso na sociedade humana como um todo eminente tanto como registro documental quanto artstico. Tal fato est provavelmente ligado, filosoficamente, ao mundo de idias perfeitas a que todos, consciente ou inconscientemente, buscamos, o mundo platnico. A fotografia seria o 1 A colocao da fotografia enquanto arte no foi simples; muita teoria esttica foi posta em discusso at que tenha havido um consenso sobre sua natureza artstica.

  • Manual de Fotografia e Cinematografia Bsica Prof. Filipe Salles 2004 - 5 -

    simulacro mais prximo desta idia de representao visual que gera verossimilhana direta com o objeto fotografado.

    Da mesma maneira, o cinema o simulacro mais prximo considerando o movimento, a dinmica das aes humanas, e que, de certa forma, cumpre na mesma medida a funo que a tragdia grega exercia sobre sua poca. O cinema , igualmente, uma confluncia de vrias artes que se combinam num todo orgnico disposto segundo um objetivo ou inteno narrativa, tal como a potica grega. Ademais, se analisarmos diversas estruturas narrativas cinematogrficas, no so poucos os filmes em que se reconhece a mesma estrutura trgica descrita por Aristteles h mais de dois mil anos atrs.

    Entrementes, o ideal fotogrfico e cinematogrfico s foi possvel tecnologicamente muito tempo depois de Plato, mas pode-se considerar a inveno da fotografia como um marco revolucionrio, tanto do ponto de vista esttico/filosfico como do ponto de vista social e histrico.

    Assim, a fotografia e o cinema tm razes comuns, no apenas tecnicamente, uma vez que o cinema uma sucesso de fotogramas, mas tambm filosoficamente. A mesma busca pela verossimilhana da representao ideal, de onde decorre o valor esttico da arte, foi alcanada pela fotografia no eixo do espao, e pelo cinema no eixo do tempo, complementando-se.

    Este pequeno manual tem por objetivo dar ao aluno uma noo do quanto a fotografia e o cinema esto unidos pela mesma razo esttica. Como se trata de um manual tcnico, fotografia e cinematografia caminham lado a lado, apesar das separaes capitulares, meramente didticas, pois se trata de um conjunto onde cada elemento importante e imprescindvel na sua funo.

    Filipe Salles, 10/01/2004

  • Manual de Fotograf