la señora macbeth de griselda gambaro

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MICHELLE JEANE DE SOUZA GRR20023002 LA SEÑORA MACBETH DE GRISELDA GAMBARO: INTERTEXTO FEMININO E POLÍTICO Trabalho de Graduação do Curso de Letras, do Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná. Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Vasconcelos Machado CURITIBA 2008

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  • MICHELLE JEANE DE SOUZA

    GRR20023002

    LA SEORA MACBETH DE GRISELDA GAMBARO:

    INTERTEXTO FEMININO E POLTICO

    Trabalho de Graduao do Curso de

    Letras, do Setor de Cincias Humanas,

    Letras e Artes da Universidade

    Federal do Paran.

    Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Vasconcelos Machado

    CURITIBA 2008

  • 2

    SUMRIO

    1 RESUMO........................................................................................................... 3

    2 OBJETIVOS

    2.1 Objetivos gerais..................................................................................... 4

    2.2 Objetivos especficos............................................................................. 4

    3 INTRODUO................................................................................................. 5

    4 REVISO BIBLIOGRFICA

    4.1 Gerao dos anos 60 e a polmica Gambaro....................................... 8

    4.1.2 Ciclo Teatro Aberto 81.................................................................... 10

    4.2 Cenas do poder: do feminino e do poltico......................................... 10

    5 ANLISE DO TEXTO DRAMTICO

    5.1.1 Abordagem temtica: questes do poder........................................ 13

    5.1.2 Interpretaes das Personagens....................................................... 15

    5.1.3 Espaos Interiores.............................................................................. 20

    5.2 Intertextualidade com a tragdia clssica: Macbeth de Shakespeare

    E La Seora Macbeth de Gambaro.............................................................22

    6 CONCLUSO.................................................................................................... 27

    7 REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS............................................................. 29

  • 3

    1- RESUMO

    Este texto analisa criticamente e interpreta uma das obras dramticas da escritora

    argentina Griselda Gambaro (1928). Autora que comeou a escrever para o teatro na

    dcada de 60 (1963-2008) e atualmente tem, com sua obra dramtica, ocupado um lugar

    de destaque no contexto latino americano e europeu. Escolho como objeto de estudo um

    de seus textos mais recentes La Seora Macbeth, publicado no ano de 2003. A obra

    aqui estudada possui como ponto de partida Macbeth (1606), a tragdia clssica de

    Shakespeare que aborda a temtica da ambio e do poder, assim como investiga

    profundamente a natureza do mal na conduta humana. Na contempornea criao de

    Gambaro, a autora desloca o foco da ao para uma mulher, Lady Macbeth, e nos

    conduz para fora do texto, na referencia realidade da mulher no contexto histrico-

    social da Amrica Latina. O universo feminino tematizado atravs da busca de uma

    identidade, em enfrentamentos com questes essenciais, tais como: a dependncia do

    amor masculino e as relaes de poder que se estabelecem no mbito privado e pblico.

    Pretendo localizar este intertexto feminino e poltico na construo argumentativa de

    Griselda Gambaro, comprovando este discurso crtico como fundamental na escrita da

    autora. Para tal anlise partirei da noo de que o texto teatral constitui por si mesmo

    um objeto de estudo, com esta perspectiva estudo os aspectos estruturais da obra, alguns

    procedimentos formais adotados por seus autores, com a nfase na interpretao textual

    e as possveis relaes deste com seu contexto scio-poltico-cultural. Enfatizarei

    tambm as principais caractersticas do clssico shakespereano e do texto La Seora

    Macbeth, marcando suas diferenas e semelhanas com intuito de estabelecer suas

    relaes intertextuais. Assim como apontar na recriao contempornea as marcas

    textuais da dramaturga argentina, que reescreve o texto teatral elisabetano e comprova a

    originalidade da obra aqui estudada La Seora Macbeth.

    Palavras-chaves: Griselda Gambaro, Senhora Macbeth, poltico, feminino

  • 4

    2 OBJETIVOS

    2.1 Objetivos Gerais

    Analisar a obra La Seora Macbeth da autora argentina Griselda Gambaro e sua

    equivalncia com Macbeth do dramaturgo ingls Willian Shakespeare.

    Delimitar o perodo histrico em que se concentra a maior produo literria da

    escritora estudada, no intuito de valorizar sua trajetria artstica e sua importncia para o

    teatro argentino.

    Atravs da anlise crtica e o apoio de uma bibliografia especfica pretendido

    aproximar tais autores e demonstrar que, apesar dos quatro sculos que separam o texto

    clssico da recente re-criao, possvel comprovar a contemporaneidade temtica das

    obras escolhidas.

    Divulgar o teatro argentino e latino-americano, pois este ainda pouco

    conhecido pelos pesquisadores e profissionais que atuam na rea.

    Estimular o intercmbio das produes teatrais de textos latino-americanos,

    assim como despertar o interesse dos profissionais e estudiosos para a importncia da

    traduo e edio das obras destes dramaturgos em nosso pas.

    2.2 Objetivos especficos

    Interpretar a obra La Seora Macbeth em relao a seus trs intertextos:

    intertexto literrio shakespereano prprio da dramaturgia; intertexto feminino; e o

    intertexto localizado fora da obra e que se comunica com a poltica.

    Analisar de forma comparativa a obra deste dois autores e descrever suas

    equivalncias literrias no que se refere construo do texto, dos argumentos e da

    temtica;

    Em seu intertexto feminino pretendo localizar na construo argumentativa de

    Griselda Gambaro, a identificao de um corpus crtico feminino, comprovando este

    discurso como fundamental na escrita da autora;

    Em seu intertexto poltico, apontar seu discurso crtico, os crimes cometidos em

    nome da ambio e do poder, contextualizando de forma subjacente a realidade

    argentina com a possvel ampliao para a situao poltica latino-americana.

  • 5

    3 INTRODUO

    Na presente monografia proponho desenvolver a anlise crtica de uma das

    diversas obras que compe a dramaturgia da escritora argentina Griselda Gambaro

    (1928). A autora inicia sua produo literria na dcada de sessenta e, ao longo destes

    quarenta anos, vem se dedicando literatura, mais especificamente ao gnero narrativo e

    a dramaturgia, conquistando na atualidade um lugar de destaque no cenrio cultural da

    Amrica Latina. Neste trabalho analisarei seu recente texto teatral publicado em 2003,

    La Seora Macbeth 1.

    Para tal anlise partirei da noo de que o texto teatral constitui por si mesmo um

    objeto de estudo: O texto dramtico um documento idneo para estudar o drama fora

    da representao (salvo os inconvenientes que se derivam do carter efmero e de

    mltiplos cdigos do teatro) (Apud, TARANTUVIEZ, 2006, p.59). Com esta

    perspectiva estudo os aspectos estruturais da obra, tais como: temtica, personagens e

    espao dramtico; tambm aponto alguns procedimentos formais adotados na escrita da

    autora. A nfase da anlise est na interpretao textual, com o propsito de captar o

    sentido que encerra o texto, extraindo da novos significados obra dramtica, e atravs

    desta sntese interpretativa relacion-la com seu contexto scio-poltico-cultural. A

    metodologia aplicada se fundamentar na pesquisa de fontes bibliogrficas de livros e

    artigos de alguns autores argentinos contemporneos que investigaram sobre a produo

    dramatrgica de Gambaro, cito: Susana Tarantuviez, e seu recente livro La escena del

    poder El teatro de Griselda Gambaro2, no qual apresenta um trabalho indito, uma

    analise crtica sistemtica de suas peas, que engloba quatro dcadas da produo da

    autora, ou seja, desde a publicao da primeira pea Las Paredes em 1963, chegando at

    as publicaes de setembro de 2003. Tarantuviez em seu livro enfatiza na dramaturgia de

    Gambaro, o que j vinha sendo constatado pela crtica especializada ao longo destes anos,

    a importncia do estudo do perodo histrico-poltico em que a autora escreve, e seu

    contexto scio-cultural, confirmando a busca sempre polmica e reflexiva de um

    1 A montagem teve sua estria em abril de 2004, no Centro Cultural da Cooperao de Buenos Aires; com a direo de Pompeyo Audivert e no papel de Lady Macbeth, a atriz Cristina Banegas. No Brasil, estreou em julho de 2006, no SESC Vila Mariana em So Paulo, e contou com a direo, traduo e adaptao de Antonio Abujamra, e no papel protagonista Marlia Gabriela. 2 Este livro foi lanado em agosto de 2007, no XVI Congresso Internacional de Teatro Ibero americano e Argentino, realizado pela UBA (Universidade de Buenos Aires); evento no qual tive a oportunidade de participar, j em pesquisa.

  • 6

    referente extra-textual que permeia toda a obra dramtica gambariana.

    Com a finalidade de apresentar a trajetria de Gambaro dentro do teatro argentino,

    e a importncia histrica de sua obra cena contempornea, tambm me apoiarei em

    alguns livros do pesquisador de teatro argentino e ibero-americano Osvaldo Pellettiere. 3

    O mesmo levantamento bibliogrfico ser assumido para o estudo da tragdia

    Macbeth, de Willian Shakespeare, para qual a contempornea criao de Griselda

    Gambaro faz explcita relao intertextual. Para essa anlise, sero abordados livros

    crticos tais como: Reflexes Shakespereanas, da pesquisadora brasileira Brbara

    Heliodora, tambm Shakespeare: a inveno do humano, do autor Harold Bloom.

    Para a fundamentao terica necessria na delimitao do objeto de estudo,

    assim como para a compreenso dos aspectos estruturais da obra dramtica, ser

    utilizado principalmente o livro Teoria del Teatro: bases para el anlisis de la obra

    dramtica, do autor espanhol Santiago Trancn, entre outros estudiosos das teorias

    teatrais.

    A obra aqui estudada tem como ponto de partida Macbeth (1606), a mais breve

    das consideradas quatro grandes tragdias de Shakespeare (apenas 2.107 linhas). Pea

    que tem como protagonista absoluto, o violento general Macbeth e, aborda a temtica da

    ambio e do poder, assim como investiga profundamente a natureza do mal na conduta

    humana. Griselda em sua recriao desloca o foco do personagem protagonista, o general

    Macbeth, para sua ambiciosa esposa, Lady Macbeth e as trs bruxas que a acompanham

    por toda a trama. Tambm se apresenta o espectro de Banquo, uma das vtimas da

    ambio de seu marido. Com este deslocamento do protagonista, a autora d espao e

    voz ao feminino, matiza a personalidade da personagem Lady Macbeth, que ao ser

    colocada em primeiro plano na pea, permite acesso a seus pensamentos privados,

    interioridade que expe e explora conflitos, e nos conduz para fora do texto, na

    referencia realidade da mulher no contexto histrico-social da Amrica Latina. O

    universo feminino tematizado atravs da busca constante de uma identidade, em

    enfrentamentos com questes essenciais, tais como: a dependncia do amor masculino e

    as relaes de poder que se estabelecem no mbito familiar e privado, e que

    oportunamente se estende ao poder pblico e poltico.

    3 Oswaldo Pelletiere responsvel pela publicao de diversos livros sobre o teatro Ibero-americano e Argentino. Dirige atualmente na Universidade de Buenos Aires o grupo de pesquisa teatral Getea (Grupo de Estdios de Teatro Argentino y Latinoamericano)

  • 7

    Neste trabalho localizarei este corpus do discurso feminino e poltico, bastante

    caracterstico na construo argumentativa da dramaturgia de Griselda Gambaro. E, ao

    contrastar seu texto com a tragdia Shakespereana, afirmar sua contemporaneidade

    atravs desta apropriao, que possibilita uma nova perspectiva e tambm a retomada de

    temas que j estavam presentes na obra referente; assim como confirmar a indiscutvel

    criao do novo ao trazer tona, atravs da interpretao textual, questes da atualidade

    que refletem a postura crtica da escrita de Gambaro diante da realidade argentina, e que

    alcana em sua obra (tal como o gnio Shakespeare) caractersticas universais e

    atemporais, garantindo com isto, um lugar permanente no cenrio teatral e acadmico

    hispano-americano e europeu.

    Assim a presente pesquisa se justifica pela busca da investigao terica que

    possibilitar trabalhar o dilogo intertextual de dois textos de reconhecido contedo

    literrio, e comprovar que, apesar da distncia histrica que separa a tragdia de

    Shakespeare da atualidade, esta afirma e renova seu valor universal na escrita de

    Gambaro, que por sua vez cumpre, com seu teatro contemporneo, um dos papis

    fundamentais da arte: a reflexo crtica de sua poca e sociedade.

  • 8

    4- REVISO BIBLIOGRFICA 4.1 Gerao dos anos 60 e a polmica Gambaro

    Griselda Gambaro inicia sua trajetria de dramaturga e novelista em meados dos

    anos 60, sendo uma das autoras representantes de uma nova forma de teatro considerada

    emergente, denominada de Neovanguardista:

    La Neovanguardia entiende que el mundo creado por la obra literaria no debe responder a

    una trabazn racional ni sistemtica, sino que est presentado con sus caracteres de

    inconexin y ambigedad, pues la visin de la que se parte incluye al mito, a lo maravilloso,

    a lo fantstico y a lo inslito como componentes de este mundo. (TARANTUVIEZ, 2006, p.

    102)

    Sua pea teatral El Desatino (1965) estria esta tendncia, e desata uma

    polmica ao ganhar o Prmio de Melhor Obra de Autor Argentino Contemporneo,

    concedido por Teatro XX, uma conceituada revista de crtica cultural da poca (tais

    prmios se tornaram legitimadores das novas figuras do panorama teatral do pas).

    A polmica girava em torno de duas correntes ideolgicas: os realistas reflexivos

    e os neovanguardistas, ambas tendncias tentavam produzir uma ruptura e trazer tona

    novos discursos estticos e questionar o j consagrado. Pretendiam mudar o teatro

    nacional; tambm acreditavam na atitude militante do teatro propondo uma

    democratizao da cultura. A diferena entre os dois grupos se dava principalmente

    na potica dos textos dramticos, na posio que sustentavam frente instituio teatral

    e nas distintas leituras da realidade social argentina. Tambm procuravam defender um

    lugar central dentro do campo das artes. Este perodo foi denominado de ingnuo, pois

    nenhum dos grupos neste momento concretizou um discurso sistemtico sobre seus

    novos textos, seus autores e crticos foram iniciadores de uma forma nova de teatro,

    utilizavam tcnicas, efeitos radicais, mas ainda no tinham conscincia crtica total das

    novidades que propunham nem de sua ideologia esttica. (PELLETTIERE, 2003)

    Este conflito durou cerca de quatro anos, e se desenvolveu tambm no plano do debate

    cultural e poltico. Pellettieri, ao tratar dessa dcada, conclui:

    (....) en el plano de la dramaturgia los aos 60 fueron de modernizacin, a tal punto que

    podemos decir que ms de treinta aos despus continuamos dentro de su atmsfera

  • 9

    esttico-ideolgica. Seguramente es por ese motivo por lo que todava los principales

    exponentes de la dcada Roberto Coosa, Griselda Gambaro, Juan Carlos Gen, Augusto

    Fernndez siguen ocupando el centro del campo intelectual correspondiente al teatro en

    nuestro pas. (PELLETIERE, 2003, p.54)

    Griselda Gambaro, que nestes anos apenas iniciava sua trajetria como escritora,

    j afirmava, ao localizar sua obra no centro desta polmica intelectual, a relevncia

    futura de sua escrita no contexto histrico-cultural da Argentina.

    J no perodo 1967-19764 estas duas tendncias, neovanguarda e realismo

    reflexivo, encontram um processo de intercmbio de procedimentos e homogeneizao

    do sistema teatral, provocado principalmente pela intensificao do problema poltico-

    social. Este perodo fortemente marcado por uma clara politizao e nacionalizao da

    cultura. Assim como a interveno das ditaduras militares no campo intelectual e

    artstico, causando uma srie de perseguies, desaparecimentos, ameaas, proibies

    que levaram vrios artistas e intelectuais ao exlio. Ento, com o golpe de Estado do ano

    de 1976, Griselda Gambaro sofre com um decreto do ditador general Videla, que probe

    seu romance Ganarse la Muerte, alegando que sua obra era contraria a instituio

    familiar e a ordem social. Declara a autora sobre a obra: (...) yo lo haba pensado como

    una metfora del poder poltico en ese momento, sobre todo que era la poca de

    Isabelita, donde se deca una cosa y se haca otra en realidad: el discurso de Isabelita

    era sobre la solidaridad, la fraternidad, y la realidad mostraba otra cosa completamente

    distinta.5 O romance representou com os recursos da metonmia e da alegoria a difcil

    situao histrico-poltica da Argentina dos anos setenta. Assim, devido ao decreto, e

    diante da represso imperante no pas, no ano de 76, Gambaro se exila em Barcelona,

    Espanha.

    A autora retorna a seu pas somente em 1981, e participa com a pea Decir Si,

    do importante movimento cultural denominado Ciclo de Teatro Aberto, que me ocupo

    brevemente no prximo tpico, com intuito de evidenciar a importncia deste teatro

    nascido no conturbado e polmico anos sessenta, que se fortalece culturalmente nos

    oitenta, e que permanece ainda na atualidade desenvolvendo as estticas teatrais

    surgidas nestes anos.

    4 Periodizao sugerida por Osvaldo Pellettiere, no livro Teatro Argentino Breve (1962-1983) 5 Declarao de Griselda em entrevista realizada pela pesquisadora Suzana Tarantuviez, no Dom Bosco, Buenos Aires, em 18 de outubro de 1999.

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    4.1.2 Ciclo Teatro Aberto 81

    O movimento denominado Ciclo Teatro Aberto, em 1981 reuniu na capital

    Buenos Aires diversos profissionais do teatro, entre autores, diretores, e atores. Contou

    tambm com a participao massiva do pblico da classe mdia argentina. Em 28 de

    julho quando inicia as apresentaes dos vinte e um espetculos de um ato, que

    compunham o ciclo, o evento foi considerado no s um fenmeno artstico, mas

    configurou principalmente como um feito poltico, uma aberta resposta do campo

    intelectual ditadura.

    Os textos teatrais representados neste evento acentuavam em sua maioria a

    crtica ao contexto autoritrio e um marcado antagonismo frente ditadura que no incio

    dos anos 80 j dava sinais de decadncia. O Teatro Aberto teve novas edies em 1982,

    83 e 85. (PELLITIERE, 2003, p.87).

    Griselda Gambaro comps este quadro de autores nacionais que participaram do

    Ciclo Teatro Aberto. Estreou em julho no Teatro Picadeiro com a pea Decir S. Com

    esta obra inicia uma longa trajetria de sucesso, sendo um dos textos mais encenados,

    com diversas montagens na Argentina, Amrica Latina e Europa.

    A pesquisadora Suzana Tarantuviez enfatiza, ao analisar este perodo da histria

    do teatro argentino, outro importante aspecto do campo teatral dos anos 80, o

    surgimento de um maior nmero de autoras com a emergncia de uma literatura

    feminina escrita desde o gnero, assim como a busca de tais autoras por uma

    discursividade prpria, na tentativa de transgredir ou subverter o discurso masculino

    atravs do erotismo, do feminismo ou da subjetividade. Ressalta tambm a importncia

    de afirmar como escrita feminina a produo de dramaturgas considerando no

    somente o sujeito autoral mulher, mas, sim, as caractersticas acima citadas como

    marcantes da textualidade feminina. Griselda Gambaro, no contexto destes anos, se

    consagra, com sua escrita, como uma representante crtica desta discursividade feminina

    emergente.

    4.2 Cenas do poder: do feminino e do poltico

    Susana Tarantuviez, em seu recente livro La escena del poder El teatro de

    Griselda Gambaro apresenta um trabalho indito, uma analise crtica sistemtica de

  • 11

    suas peas que engloba quatro dcadas da produo da autora, ou seja, desde a

    publicao da primeira pea Las Paredes em 1963, chegando at as publicaes de

    setembro de 2003. Tarantuviez enfatiza, na dramaturgia de Gambaro, o que j vinha

    sendo constatado pela crtica especializada ao longo destes anos, a importncia do

    estudo do perodo histrico-poltico em que a autora escreve, e seu contexto scio-

    cultural, confirmando a busca sempre polmica e reflexiva de um referente extra-textual

    que permeia toda a obra dramtica gambariana.

    Com esta postura crtica, que tem como referente realidade vigente poca em

    que escreve (sculos XX e XXI), Gambaro evoca em sua potica teatral a conscincia

    do seu leitor-espectador, levando-o inevitavelmente a refletir com as situaes, imagens

    e dilogos produzidos no interior de seu texto. Aponto brevemente neste tpico as

    principais eleies temticas da autora, foco da obra aqui estudada. Abordo o feminino

    e o poltico da pea La Seora Macbeth, para comprovar o tratamento dado a estes

    temas como uma marca autoral de contemporaneidade crtica da dramaturgia

    gambariana.

    O ttulo La Seora Macbeth j nos apresenta a uma mulher nomeada atravs da

    identidade de seu marido e do poder que este representa; demonstrando o abandono de

    sua identificao primeira: ao subjugar suas relaes deixa sua identidade sob domnio

    de seu esposo; atravs desta indicao inicial da autora possvel delatar a crtica

    sociedade civil patriarcal e a instituio familiar centrada no poder da figura masculina.

    Crtica que nos permite referir diretamente realidade discriminatria da mulher na

    Argentina (e tambm de diversos pases) em que a legislao, vigente at 1987, dispe

    que a mulher obrigada a utilizar o sobrenome do marido, o que resulta numa clara

    submisso da mulher nesta esfera privada da famlia. No mbito profissional e poltico,

    em 1976 a Lei 21.297 reforma a Lei de Contrato de Trabalho de 1974, suprimindo

    garantias e diminuindo direitos, principalmente das mulheres trabalhadoras, e que s

    recentemente na dcada de 90 se legisla sobre a igualdade de oportunidade entre

    homens e mulheres para o acesso a cargos eletivos e partidrios. (TARANTUVIEZ,

    2006, p. 283)

    No Brasil, por exemplo, at recentemente constava no Cdigo Civil a figura da

    legtima defesa da honra, somente sendo promulgada em janeiro de 2002 com a lei

    10.406 e atualizada em fevereiro de 2003. Esta lei, vigente ainda no sculo XXI, dava

    respaldo legal para a defesa de maridos que assassinavam suas mulheres sob fatos ou

  • 12

    apenas indcios de adultrio das mesmas, as condenando pena de morte com o cruel

    argumento de lavar com sangue a prpria honra. 6

    Estes exemplos, entre muitos outros, comprovam a lentido respeito dos direitos

    legais femininos, principalmente no contexto latino-americano, desigualdade que

    consiste nos motivos que certamente levam a autora a delatar em seus textos

    personagens femininas, representantes destas varias facetas de uma mesma mulher,

    submetida aos valores de uma sociedade repressora, que nega direitos primordiais e

    perpetua com isso situaes de violncia, humilhao e degradao da identidade da

    mulher.

    Este o foco da ao cnica no texto teatral aqui estudado, o espao privado

    feminino, o poder da mulher por trs do trono, a qual articula e joga com seus desejos e,

    oportunamente, faz da relao conjugal uma alavanca para a concretizao de um poder

    com aspiraes polticas que durante muitos anos lhe foi negado.

    6 LEO, L. C.; SANTOS M. S. O lugar da mulher na sociedade elisabetana - Jaimesca e na criao potica de Shakespeare p.133. In: Shakespeare, sua poca e sua obra. Curitiba: Editora Beatrice, 2008.

  • 13

    5 ANLISE DO TEXTO DRAMTICO

    5.1.1 Abordagem Temtica: questes do poder

    A obra La Seora Macbeth seguramente bastante representativa de um

    momento de maturidade da escrita de Griselda Gambaro, resultado dos quarenta anos de

    trabalho da autora com a dramaturgia. Aglutina assim, na argumentao temtica desta

    obra, alguns dos principais ncleos semnticos apontados pela crtica no decorrer de

    todos estes anos de produo artstica.

    A autora argentina Suzana Tarantuviez, enfatiza a questo do poder como a

    isotopia7 predominante na obra gambariana e, na textualidade de La Seora Macbeth,

    claramente este tema se mostra central. Os outros ncleos definidos por Tarantuviez

    seriam: a representao do feminino, a construo da memria, a questo do outro e a

    realidade do desejo. Temas que encontram seus lugares de representao e expresso na

    figura da personagem protagonista Seora Macbeth. Para esta recriao se tem como

    referente literrio o clssico Macbeth de Shakespeare, o qual explora a questo do

    poder como o primordial da obra, sendo esta temtica tambm uma constante em toda a

    dramaturgia do autor ingls.

    Na tragdia Macbeth, o autor explora, na estrutura do drama, a inverso dos

    valores sociais, tornando belo o horrvel e, horrvel o belo; bom o mau e, mau o bom. A

    clara identificao desta inverso ocorre no momento em que a ambio e coragem do

    protagonista deixam de defender o reino da Esccia, o leal general, heri de guerra

    transgride o cdigo social, e passa a defender de maneira inconseqente e desmedida

    sua sede de poder pessoal. (HELIODORA, 2003, p.171).

    A ambio de poder, impulsionada pelas previses das bruxas, e o desejo de

    grandezas de sua esposa Lady Macbeth, conduzem o protagonista a romper seus laos

    de lealdade e honra: assassina aquele que protegia o rei Duncan. O personagem nem

    bem se d conta de uma ambio, ou um desejo, e j capaz de ver a si mesmo

    cometendo o crime que, equivocadamente, satisfaz a referida ambio (BLOOM, 2000,

    p.633).

    7 Conceito introduzido por A. Greimas em semntica, a isotopia um conjunto redundante de categorias semnticas que torna possvel a leitura uniforme da narrativa tal como ela resulta das leituras parciais dos enunciados e da resoluo de sua ambigidade que guiada pela busca da leitura nica. A isotopia o fio condutor a guiar o leitor ou o espectador em sua busca de sentido e que o ajuda a reagrupar diversos sistemas significantes de acordo com uma determinada perspectiva. PAVIS, p.02.

  • 14

    Aps o ato criminoso, Macbeth vai tomando conscincia das conseqncias

    deste poder ilegtimo, conquistado a fora com uso da brutalidade e violncia. Ento,

    para manter a coroa, segue cometendo atitudes desmedidas, crimes em srie, delitos que

    atingem toda a sociedade, ou seja, aqueles que deveria proteger com seu governo.

    Explicitamente o protagonista vai sofrendo a decadncia moral e psquica

    decorrente do mal que causa a todo o Estado. Macbeth no dorme mais, sem o alento do

    descanso noturno, o personagem delira, ouve vozes que o acusam, v sua traio

    materializada no espectro de Banquo. A escurido de sua alma invade todo o externo, a

    natureza ao seu redor compactua para seu declnio; fora da razo, segue confiando

    somente nas profecias demonacas das bruxas que, com palavras dbias, alimentam suas

    iluses de permanecer no poder: equvoco fatal de acreditar at o fim que teria uma vida

    enfeitiada, na previso ambgua de que nenhum homem nascido de mulher lhe mataria;

    e que somente seria derrotado quando a floresta de Birman chegasse a Dusinane. Como

    resultado de todas estas aes contra seu meio social, o personagem chega ao nico

    final possvel nas tragdias Shakespereanas, morre nas mos do inimigo Macduff. Com

    a morte do protagonista, Malcon, o filho do rei Duncan assume o poder, e com isto a

    ordem e o equilbrio se estabelece no reino da Esccia, e com ela a expectativa de um

    governo mais benfico e justo. Diante do sofrimento causado pelo protagonista, e o

    conseqente aprendizado que o conduz infelicidade e a morte, o leitor-espectador

    compreende um pouco mais sobre sua prpria condio social e humana.

    Ao partir da mesma abordagem temtica, o argumento geral do texto

    shakespereano preservado por Gambaro nesta profunda investigao da natureza do

    mal no gnero humano; tambm as aes sem medida e perversas feitas em nome do

    poder. Porm, na obra contempornea o heri trgico Macbeth est ausente, sendo sua

    esposa Lady Macbeth o foco do drama. Este deslocamento da personagem protagonista

    aponta, desde o ttulo, La Seora Macbeth, a nova perspectiva desta obra, e a clara

    inteno da autora de apresentar as matizes desta personalidade feminina, as aes da

    mulher por trs do trono e as relaes que esta estabelece para realizar seu desejo de

    poder. Lady Macbeth de Shakespeare ambiciosa, porm, no capaz de imaginar as

    conseqncias do crime que ajuda a planejar. Depois que visualiza a imagem do rei

    assassinado, a personagem se distancia de quem era cmplice. Lady Macbeth some da

    pea, reaparecendo somente nas ltimas cenas, j enferma, com a evidente crise que a

    leva ao suicdio.

  • 15

    Em La Seora Macbeth de Gambaro, a crise trgica se instala na mulher. Lady

    Macbeth expe desde o incio, nas suas falas, uma personalidade complexa, perturbada

    pela culpa dos crimes cometidos por seu esposo. Coloca-se alheia realidade, resiste em

    assumir seu desejo de poder e a cumplicidade no assassinato do rei; uma personagem

    cindida no conflito entre o amor de seu marido, o poder que este representa, e o

    reconhecimento de si mesmo. As bruxas que a acompanham, ajudam com ironia a

    revelar as verdades sobre os fatos, todo mal que Macbeth perpetua para se manter no

    poder; tais personagens tambm so responsveis por induzirem Lady Macbeth morte.

    No pice do confronto com esta outra aprisionada em si mesma, e ao constatar a

    impossibilidade de assumir sua verdadeira personalidade, para muito submetida figura

    masculina, aceita com passividade o antdoto do esquecimento preparado pelas bruxas:

    morta na ignorncia de si mesma.

    Gambaro, ao representar o personagem do general Macbeth no discurso

    feminino como o alter ego de sua esposa, certamente enfatiza a caracterstica da

    onipresena do poder. O poder socialmente institudo dentro da relao homem-mulher,

    aonde esta sempre se depara com a dificuldade de assumir uma voz prpria,

    independente do discurso dominante masculino; tambm representao do poder

    pblico, que tantas vezes age em silncio, corrompendo e tramando crimes. O poder

    poltico que historicamente esteve centrado na figura masculina. Com Griselda, o foco

    da ao cnica se desloca para o ambiente privado, expe os bastidores, e a interioridade

    da mente corrompida e deteriorada pelos abusos do poder. No final, com o

    reconhecimento da impossibilidade de qualquer mudana da realidade, Lady Macbeth

    entrega sua vida como mais uma vtima do poder autoritrio e tirnico.

    5.1.2 Interpretao das Personagens

    A personagem clssica, Lady Macbeth, ao ser colocado em foco na pea por

    Griselda, permite explorar os espaos internos da personalidade conflituosa desta

    mulher, que se constri a partir da referncia e do amor de seu homem. A comear por

    seu prprio nome, que revela o abandono de sua identidade primeira, se assumindo

    somente em relao ao marido e o poder que o mesmo representa.

    Lady Macbeth, sob a tica da escritora argentina, se apresenta desde o incio do

    texto perturbada pela culpa, fragilizada em seu juzo, mas ainda ambiciosa, pois deixa

  • 16

    evidente seu receio que no lugar ocupado, como mulher e esposa, no possa dividir as

    mesmas grandezas de Macbeth; anseia: Eu serei rainha com poder de rei. Esta

    ambio a identifica com os propsitos de Macbeth e o mesmo desejo de poder.

    Lady M.: (...) Dijo Macbeth: no seguiremos adelante con esto, y me mir como si yo fuera

    su cmplice. Pero yo no haba pronunciado palabra.

    Bruja: No importa estar muda seora. Es conveniente. l te dir a su hora las palabras que

    quiere escuchar. Y aumentar su amor por vos porque tu lengua ser un espejo de su lengua.

    Lady M.: Es posible...es posible sin que disminuya el mo, el amor que le tengo.

    (GAMBARO, 2003, p.35)

    Lady Macbeth, como em um espelho, v suas palavras e atos refletidos na figura

    do marido, encontra como sada para realizao de seus anseios de poder se torna

    cmplice dos crimes de Macbeth. Cumplicidade esta que justifica em nome de seu

    incondicional amor, capaz dos maiores sacrifcios. Porm no desenvolvimento dos

    argumentos do texto dramtico de Gambaro, torna-se ntida a busca por uma voz prpria

    da personagem, e a afirmao da sua identidade feminina.

    Lady M.: (...) Quin soy? Cal mi naturaleza? Acaso soy un hombre y slo llevo un

    vestido de mujer para que mi aquiescencia se finja lcita, natural, y con ese disfraz de mis

    vestidos acompae sin sonrojos de hombre, sin orgullo de hombre, el poder de Macbeth? O

    soy mujer y an siendo mujer deseo el poder de Macbeth, que si fuera mo no s si habra

    sido diferente del suyo? La yo misma lo sabe! Oh que horror! Ah esta con aires de

    extranjera! (GAMBARO, 2003, p.73)

    Assim a protagonista inicia uma difcil trajetria em busca do reconhecimento de

    si mesma, na construo desta subjetividade prpria se depara com questes que a

    fazem mergulhar nos abismos de sua personalidade, expondo a complexidade da psique

    feminina, ainda submetida ao poder masculino.

    Na terceira cena da pea narra atravs de um monlogo, o jantar oferecido em

    seu castelo, no qual Macbeth assassina o rei. Com isto tm conscincia de sua

    irreversvel cumplicidade, no ato de sujar de sangue os guardas, para incrimin-los. A

    partir deste momento a imagem do crime e do sangue em suas mos permanecer retido

    em sua mente, j no pode apag-los; o sangue simbolicamente a representao da

    culpa que nega, que a faz delirar, e conduz loucura.

  • 17

    Aps a concretizao do premeditado assassinato do rei, inicia-se um complexo

    processo interior da protagonista, centrado na culpa que aumenta com a descoberta dos

    novos crimes cometidos por seu companheiro, gerando questionamentos acerca de qual

    o verdadeiro lugar que ocupa junto ao esposo, Macbeth. No final reconhecer que nela

    convivem duas mulheres: a que empresta sua voz a Macbeth para ser um eco de seus

    pensamentos e outra, a verdadeira e oculta, que renega a autoridade masculina e

    condena suas atitudes, ainda que tambm esteja sedenta de poder.

    Este eu termina sendo calado, se transformando em metfora da submisso

    cmplice frente ao poder tirnico, que um dos temas recorrentes da obra da escritora, e

    aqui, como em outras obras, a autora conecta com a histria recente da Argentina

    atravs de diversas aluses.

    As bruxas tambm desempenham importante papel nesta conscincia do crime,

    pois so questionadoras, acompanham seus pensamentos e sarcasticamente induz a

    personagem a reconhecer a outra em si mesma. Esta outra Lady Macbeth que se

    esconde e se projeta na representao da figura masculina.

    As personagens antagonistas das trs bruxas manipulam a protagonista com

    dilogos contraditrios, conhecem todas as aes desde o inicio da intriga. No possuem

    um carter fantasmagrico e sobrenatural como no texto de Shakespeare, e funcionam

    conforme a indicao da prpria autora, como um coro, servas que acompanham todo o

    tempo Lady Macbeth; em alguns momentos aconselham, em outros aparecem criticando

    abertamente e julgando suas atitudes. O tom predominante de suas falas a ironia e a

    dissimulao, o que caracteriza um sentido duplo nos comentrios que produzem, com a

    valorizao das metforas:

    Bruja 1: Es una mujer sensible.

    Bruja 2: Un travesti.

    Bruja 1: (le pega un golpe) Hermana cuid tu lenga.

    Bruja 2: Por qu? Qu es un travesti sino una creatura que no esconde su alma, como todos?

    La lleva afuera. Prueba de lo que se es en la carne como prueba el vuelo que se es el pjaro.

    Bruja 3: Potico! (GAMBARO, 2003, p. 25)

    A maioria de suas falas a exemplo do acima citado induz sempre a protagonista

    a se deparar com si mesma e a verdade sobre os fatos, os assassinatos cometidos por seu

    marido. Para revelar esta verdade autora utiliza de variados recursos em sua escrita,

    sendo um deles o metateatro, na representao das aes da pea dentro da prpria

  • 18

    estrutura cnica, aonde encenam lady Macbeth em tom de farsa, alguns dos crimes

    brutais cometidos a mando de seu marido. Griselda nesta encenao da pea dentro da

    pea transcreve e insere o texto de Shakespeare, para evidenciar, o justo discurso da

    vtima, uma criana, o filho do nobre Macduff, assassinado juntamente com sua me;

    crime este cometido para punir a ameaa que seu pai representava ao poder do agora rei,

    Macbeth.

    L. Macduff: (...) Nio mo, tu padre ha muerto. Qu haras ahora, cmo vivers?

    Nio: Aunque afirmes lo contrario, mi padre no est muerto.

    L.Macduff: S lo est para nosotros, nio mo.

    Nio: Es un traidor?

    L. Macduff: Si.

    Nino: Qu es un traidor, madre?

    L. Macduff: Alguien que jura en falso y miente. Cada uno que lo hace es un traidor y debe

    ser colgado.

    Nio: Deben colgar a todos los que juran en falso?

    L.Macduff: A todos.

    Nio: Y quin se carga de ahorcarlos?

    L. Macduff: Pues los hombres honestos.

    Nio: Entonces los perjurios y mentirosos son idiotas. Hay perjurios y mentirosos

    suficientes como para derrotar a los hombres honestos. Y ahorcarlos a todos!

    (GAMBARO, 2003, p.66)

    Esta encenao tem o poder de despertar Lady Macbeth para a real tirania do

    governo de seu amado; primeiro nega e resiste aceitar a morte de uma criana inocente,

    ento, para defender seu amor desta acusao, passa a atacar as bruxas, e igualmente s

    acusa de revelar falsas verdades em suas profecias. A encenao da pea dentro da pea

    responsvel por detonar o processo interior da personagem, que ao reconhecer no

    crime da famlia de Macduff, os propsitos de Macbeth, se perde em seus delrios, da

    em diante, a angstia e o sofrimento tomam conta de suas falas, e se explicita a loucura.

    Ao final do texto as bruxas se mostram decisivas, e atravs de um jogo perverso e o

    artifcio do simulacro, conduzem Lady Macbeth a tomar um antdoto do esquecimento,

    preparado por elas, o que leva a personagem fazer a passagem da situao dramtica

    trgica; ou seja, do drama morte.

    Outro personagem que aparece no decorrer da pea o espectro de Banquo,

    companheiro de batalhas de Macbeth, outra vtima da traio de seu esposo. No texto de

  • 19

    Shakespeare o espectro somente aparece para o assassino, Macbeth, durante o forjado

    jantar que o homenagearia. Esta representao fantasmagrica o faz delirar, revelando a

    autoria do crime. Na recriao da autora argentina, Banquo aparece tambm Lady

    Macbeth, denuncia o criminoso e confirma as suspeitas sobre mais este grave delito de

    Macbeth. O espectro delata: La accin que ignoraba ya est hecha. Y soy la prueba.

    Pods aplaudirla por lo tanto, como dijo Macbeth! Aplaude seora!

    Esta apario espectral de Banquo fundamental para compreender a marca da

    autora no texto, na representao metafrica dos assassinatos cometidos em nome do

    poder, principalmente durante a ditadura militar argentina:

    Seora Macbeth: -(...) Macbeth (...) No ests tan plido que no hay castigo para los

    poderosos. Siempre encuentran razones. O sea: yo lo orden el crimen- porque era

    necesario para el bien del estado, o no lo orden y alguien os asesinar por cuenta propia. Y

    si aparecen cadveres en una zanja o en el ro, de esa accin soy inocente porque mi poder

    no lo orden. (Re) (GAMBARO, 2003, p.41)

    O estudioso Grisby Ogs Puga aponta o tratamento dado a este personagem

    como chave para uma leitura de intertexto poltico no drama: El tema del cuerpo del

    desaparecido en el imaginario social argentino es algo no reconocido como muerto ya

    que no es posible su comprobacin emprica en tanto cadver. Por eso su alusin tiene

    un carcter fantasmagrico, como lo que an no termina de morir. Em La Seora

    Macbeth este fantasma retorna para denunciar seu assassino, e afirmar tambm a

    cumplicidade de Lady Macbeth no crime indaga: Pero si solo el asesino padece el

    castigo de ver el espectro de su vctima. Por qu yo lo vi (...).

    Importante destacar que tal espectro tambm a nica personagem masculina da

    obra clssica que se apresentada na pea contempornea, ausncia esta que enfatiza as

    intenes da autora de explorar o rico universo das personagens femininas de

    Shakespeare.

    O general Macbeth a grande presena cnica em Shakespeare: O protagonista

    domina a pea de maneira to absoluta que no temos a quem mais recorrer. Lady

    Macbeth personagem forte, mais Shakespeare a tira do palco aps a quarta cena do

    terceiro ato, exceto por ocasio do breve momento em que ela surge em estado de

    loucura no incio do quinto ato. (BLOOM, 2000, p.633) No texto argentino Macbeth se

    apresenta somente atravs do discurso feminino, dos dilogos entre Lady e as bruxas

    que narram e comentam suas aes, revelando as verdadeiras intenes de uma mente

  • 20

    que premedita crimes com uma imaginao e ambio que, aniquila qualquer idia de

    conscincia social.

    Esta ausncia de Macbeth no texto de Gambaro denota a possvel representao

    da onipresena do poder, do poder pblico que tantas vezes corrompe e trama seus

    crimes em silncio; este poder institudo que historicamente esteve centrado na fora da

    figura masculina.

    O tratamento dado pela autora s personagens de Shakespeare constitui uma das

    principais diferenas entre o texto renascentista e o contemporneo, pois ao re-

    interpretar personagens clssicas, as recria tornando-as autnomas na nova obra, ou seja,

    com personalidade e discurso que passam a servir os propsitos caractersticos de sua

    potica. Gambaro trabalha com os silncios deixados no texto referente, sendo este um

    dos recursos da escrita que a dramaturga utiliza para dar novos significados, a favor de

    seu discurso e viso crtica de mundo.

    5.1.3 Espaos Interiores

    Na obra originria, o castelo dos Macbeth o cenrio onde, em seu interior,

    Lady MacBeth, juntamente com o seu esposo, premedita e assassina ao rei Duncan;

    planeja no prprio lar, com detalhes, a morte do nobre hspede. Este ambiente privado

    permite executar o crime com liberdade, sem deixar pistas e, supostamente, sem

    levantar suspeitas. Assim, aps Lady Macbeth adicionar sonfero no vinho servido aos

    guardas do rei, Macbeth se dirige ao quarto e o apunhala covardemente enquanto

    dormia. Quando o crime descoberto na manh que segue, dissimulam dor e indignao

    aos presentes, afirmando a maldio do castelo. Somente no interior do quarto, a quatro

    paredes revelam a conseqente culpa, e as perturbaes recorrentes da mesma; Macbeth

    no dorme mais, e sua esposa delira ao no conseguir limpar suas mos sujas do sangue

    da vtima.

    O espao dramtico8 proposto em La Seora unicamente o interior do castelo

    do general Macbeth, local onde a protagonista e as trs bruxas dialogam abertamente

    8 Segundo Patrice Pavis, em seu Dicionrio de Teatro. Espao dramtico ope-se a espao cnico (ou espao teatral). Este ltimo visvel e se concretiza na encenao. O primeiro construdo pelo espectador ou pelo leitor para fixar o mbito da evoluo da ao e das personagens; pertence ao texto dramtico e s visualizvel quando o espectador constri imaginariamente o espao dramtico. p. 135.

  • 21

    enquanto aguardam a chegada de Macbeth e do rei Duncan, esto as voltas com os

    preparativos do jantar onde ocorrer o crime; posteriormente este espao palco

    tambm para revelar os assassinatos de Banquo, da esposa e filhos de Macduff.

    Gambaro trabalha em sua re-criao neste espao lacunar e de silncios do texto

    shakespereano, pois ao colocar em primeiro plano Lady Macbeth (no texto elisabetano a

    (personagem desaparece de cena no terceiro ato, e somente retorna ao final

    apresentando sua decadncia psquica, a perturbao que leva ao suicdio), a autora

    amplia sua personalidade, acrescentando variadas matizes que permite investigar sua

    interioridade, dando vazo em suas falas a pensamentos ocultos, questes e conflitos

    que conduzem ao encontro com o outro em si mesma; sendo esta uma das marcas

    principais da originalidade do texto de Griselda em relao obra clssica.

    Sendo assim, o espao apresentado pela autora argentina certamente funciona

    como bastidores das aes e crimes de Macbeth, por exemplo, no incio da pea o leitor

    de Gambaro acompanha a preparao do jantar que ser servido ao nobre rei, e a

    preocupao da anfitri com todos os detalhes da festa: Qu hora s? Ya muy tarde,

    verdad? Llegar el Macbeth, llegar el rey y no estar lista! Debo vestirme! Nada est

    preparado! Dnde estn los manteles! La vajilla brillante? Los manjares?

    (GAMBARO, 2003, p.23). Assim este espao nico do castelo dos Macbeth ganha uma

    nova dimenso na estrutura do texto dramtico, e possibilita a valorizao dos dilogos

    e o foco nos personagens que o habitam. Podemos concluir que Gambaro converte La

    Seora Macbeth tambm em bastidores da pea elisabetana, mas atravs da re-

    semantizao proposta, Griselda traz o texto luz da realidade vigente no sculo XXI,

    confirmando a universalidade e atemporalidade dos argumentos contidos na obra-prima

    de Shakespeare.

  • 22

    5.2 Intertextualidade com a tragdia clssica: Macbeth de Shakespeare e La Seora

    Macbeth de Gambaro Assim fala ele, do interior de uma poca agitada e forte

    que semi-embriaga e atordoa com sua abundncia de

    sangue e energia de uma poca pior do que a nossa: eis

    por que somos obrigados a modificar e adaptar a ns o

    objetivo de um drama shakespeariano quer dizer a no o

    compreender. 9

    Graham Bradshaw

    Ao compararmos a consagrada obra Macbeth de Shakespeare, com o atual

    texto teatral de Griselda Gambaro, se faz necessrio uma breve contextualizao da

    poca em que ambos os autores escrevem; enfatizarei tambm as principais

    caractersticas das duas obras, marcando suas diferenas e semelhanas, com intuito de

    estabelecer suas relaes intertextuais. Assim como, apontar na recriao

    contempornea as marcas textuais da dramaturga argentina, comprovando a

    originalidade da obra aqui estudada La Seora Macbeth.

    O poeta e dramaturgo William Shakespeare nasceu em abril de 1564, na cidade

    de Stratford-upon-Avon, na Inglaterra Renascentista. A primeira informao sobre sua

    produo teatral em Londres data de 1592.10 O autor escreve em uma poca de grandes

    transformaes, principalmente dos valores humanos, momento em que o pensamento

    teocentrista, muda seu centro para o homem, o que gera a valorizao do indivduo, a

    busca de uma conscincia prpria, ou seja, as idias que fundam a modernidade.

    Shakespeare, com sua genialidade, se destaca ao conseguir trabalhar em sua

    escrita com o equilbrio entre as foras medievais ainda vigentes, e os novos paradigmas

    do homem, que clamavam por representao.

    9 Apud BLOOM, Harold. Macbeth. In: Shakespeare: a inveno do humano. Rio de Janeiro: Editora

    Objetiva, 2000.p.106) 10 Panfleto crtico escrito pelo escritor Robert Greene, membro do Grupo de dramaturgos denominados

    University Wits (Grupo de escritores formado em universidades).B J In: Shakespeare sua poca e sua

    obra, p.28.

  • 23

    Sendo assim, o artista encontrou na Londres do sculo XVII, um ambiente

    favorvel para a propagao de sua arte potica e dramatrgica; o autor Bardo na

    realidade foi herdeiro de uma rica tradio teatral, transformando-se no principal

    expoente do florescente Teatro Elisabetano ainda que, parte significativa de sua obra

    (incluindo a tragdia Macbeth), tenha sido produzida aps a morte da rainha Elizabeth

    (1533-1603), no reinado de seu sucessor Jaime I.

    Na obra Macbeth a ao dramtica est centrada na figura masculina, o

    protagonista que intitula a pea desde o incio se apresenta dividido no conflito entre o

    bem e o mal; e j no primeiro ato revela sua natureza malvola, quando se deixa levar

    pelas ambguas falas das bruxas que profetizam: Salve Macbeth; oh salve, thane de

    Glamis! Salve Macbeth; oh salve, thane de Cawdor! Salve Macbeth; que um dia h de

    ser rei! Imediatamente tais promessas de poder, geram um pensamento que conota o

    mal j existe no protagonista:

    ( parte) A tentao do sobrenatural

    No pode nem ser m e nem ser boa:

    Se m, porque indica o meu sucesso

    De incio, com a verdade? J sou Cawdor

    Se boa, porque cedo sugesto

    Cujo a horrvel imagem me arrepia

    E bate o corao contra as costelas,

    Negando a natureza? Estes meus medos

    So menos que o terror que imagino;

    Meu pensamento cujo assassinato

    Inda fantstico, tal modo abala

    A minha prpria condio de homem,

    Que a razo se sufoca em fantasia

    E nada existe exceto o inexistente.

    (SHAKESPEARE, 1995, p.42)

    A ambigidade lingstica que marca esta e outras falas (as quais permeiam toda

    a tragdia) uma das fortes caractersticas do texto shakespereano, e na construo da

    personagem trgica, torna-se fundamental para compreender posteriormente o processo

    de degradao moral pelo qual passa o heri. A crise na pea se instala a partir da

    concretizao dos planos de assassinato do rei Duncan, quando o mal prevalece no heri,

    em claro contraste com a imagem criada no incio do texto, do general leal que, recebe

  • 24

    por suas proezas em defesa do reino da Esccia, o ttulo de Thane de Cawdor; sendo

    ironicamente sua bravura louvada pelo prprio rei: Meu bravo primo! O pecado da minha ingratido

    Me pesava. Mas andas to na frente

    Que a veloz gratido tem vo lento

    Para alcanar-te; mereces menos,

    E minha quota de agradecimento

    Seria a dominante! S me resta

    Dizer que devo mais que qualquer paga.

    (SHAKESPEARE, 1995, p.71)

    A natureza do mal em Macbeth se revela aps a ao irreversvel, o assassinato

    do rei generoso, e o conseqente desequilbrio que este ato causa a transgresso das leis

    naturais: Macbeth no s mata, como tambm, mais grave ainda, transgride trs

    circunstncias bsicas: mata um rei, um parente e um hspede. Incluindo a vitima nas

    trs categorias, Shakespeare faz o crime de Macbeth atingir a ordem do Estado, da

    famlia e da sociedade. (HELIODORA, 2004 p.170). A partir da a natureza malvola

    domina a ao do personagem, resultando em traies e a morte de inocentes, como

    tambm a visvel decadncia moral de Macbeth, que o conduz morte.

    J Lady Macbeth se configura, na obra clssica, segundo a interpretao de

    grande parte da crtica, como o alter ego do protagonista: Apesar do muito que se

    escreve a respeito, preciso no esquecer que o papel de Lady Macbeth pequeno: no

    incio da pea a presena dela necessria justamente para ser possvel ao poeta retratar

    o conflito desse protagonista que traz o mal em si mesmo. (HELIODORA, 2004,

    p.177). Lady MacBeth, ento, simboliza a materializao do desejo de matar e do poder

    de seu esposo; a personagem que aparece nas primeiras cenas, como companheira e

    cmplice do marido, aps o ato criminoso, e a impossibilidade de alcanar a felicidade

    desejada, perde a razo e demonstra sua fragilidade, representada pela loucura e o

    suicdio final.

    Para a composio de Macbeth, a mais curta das quatro grandes tragdias,

    Shakespeare utilizou-se principalmente de duas fontes: suas habituais Crnicas da

    Inglaterra, Esccia e Irlanda, de Raphael Holinshed e, para vrios detalhes, a Histria e

    as Crnicas da Esccia, de John Bellenden (resultado da mescla de outras trs obras).

  • 25

    Este procedimento de pesquisa de fontes, autores e personagens na escrita do

    dramaturgo ingls apontado pela crtica como um recurso freqente em toda sua obra:

    Apesar do uso de tantas fontes - ou exatamente por serem tantas o resultado uma

    criao exclusiva do poeta. (HELIODORA, 2004, p.177). Comprova-se com isso que

    apesar do conceito de intertextualidade ser bem recente, autores do renascimento e at

    mesmo da antiguidade clssica j utilizavam este recurso como inspirao para criao

    de novos textos literrios.

    A intertextualidade se define por uma relao de co-presena entre dois ou mais

    textos, e na maioria das vezes, por a presena efetiva de um texto no outro (Apud,

    MIRANDA, p.146). A intertextualidade pe uma obra em relao com outras, ou seja,

    estabelece um dilogo entre os textos e seus contextos literrios. Este um

    procedimento freqente na escrita de Gambaro, principalmente a partir de sua produo

    dos anos 80, aonde se destaca intertextos variados, tanto na narrativa como em sua obra

    dramtica. Na produo dramtica encontra-se esta co-presena explcita em peas

    como Del sol naciente (1984), onde se inclui haikais tradicionais, recitados pela

    protagonista; Penas sin importncia (1990) que aparecem na representao fragmentos

    de Tio Vnia, de Chejov. Tambm a presena de intertextos Kafkianos em Las Paredes

    (1963). Suzana Tarantuviez destaca o trabalho de intertextualidade nas seguintes obras:

    Por su parte, las obras Antgona furiosa (1986), Desafiar al destino (1990) y Mi querida

    (2001), presentan otro tipo de transtextualidad: la hipertextualidad, definida como toda

    relacin que una un texto B (que llamar hipertexto) a un texto anterior A (que llamar,

    desde luego, hipotexto) en el cual l se injerta de una manera que no es la del comentario. El

    hipertexto es, entonces, un texto derivado de otro preexistente, travs de una operacin de

    transformacin directa o indirecta: Nada que ver (1970) se apropia del Frankenstein de

    Mary Shelley; Antgona furiosa se injerta en la Antgona de Sfocles; Desafiar al destino es

    la reelaboracin libre de un cuento de Heinrich Bll, Un relato optimista; y Mi querida est

    basada en un cuento de Antn Chejv de 1899, Duschechka (almita). (TARANTUVIEZ,

    2006, p.233)

    A trans-textualidade referida nas obras acima citadas se trata do mesmo

    procedimento efetuado na escrita do texto teatral La Seora Macbeth, em que autora

    parte do clssico de Shakespeare para concretizar sua criao e, atravs de alguns

    recursos formais utilizados na re-escrita, extrai novos significados da obra elisabetana.

  • 26

    Cito para fundamentar tais procedimentos da escrita gambariana, trecho do artigo de

    Grisby Ogs Puga:

    La relacin Gambaro-Shakespeare se efecta en el proceso de recepcin productiva de la

    obra de Shakespeare a partir del fenmeno de apropiacin, que consiste, segn Pavis, en

    adaptar el teatro y la cultura extranjeros a nuestras propias necesidades. De esta forma la

    autora produce una resemantizacin del texto shakespeareano; por eso podemos hablar de

    un texto nuevo. Los recursos utilizados por la dramaturga para la reescritura de la obra

    shakespeareana pueden resumirse en cuatro: 1 condensacin de personajes; 2 narracin

    de los sucesos; 3 traslado de los hechos a la extraescena; 4 indefinicin tmporo-

    espacial.11

    Gambaro nesta apropriao conserva a linha argumentativa do texto original,

    mas converte o personagem protagonista Macbeth, em ausente, focalizando o dilogo

    em Lady Macbeth, sua esposa, e nas trs bruxas que como um coro a acompanham

    durante o transcorrer da pea. Tambm se apresenta o espectro de Banquo, companheiro

    de batalhas do general, e que posteriormente se torna mais uma vtima da traio de

    Macbeth.

    Ento, com o recurso acima citado de condensao das personagens, as aes do

    texto clssico so narradas atravs do dilogo de Lady Macbeth e as bruxas, sendo esta

    uma das marcas da autora nesta re-criao; importante destacar a diferena que na obra

    shakespereana tais personagens no se comunicam, Lady Macbeth somente toma

    conhecimento da existncia das bruxas e de seus pressgios atravs de seu esposo.

    Ento atravs desta nova perspectiva no dilogo, a histria se refaz para indagar a

    dependncia feminina dentro da relao homem-mulher, condicionada pela ambio e a

    violncia ocasionada pelo desejo de poder.

    A aproximao dos textos de Gambaro e de Shakespeare demonstra que apesar

    dos quatro sculos que separam uma obra da outra, esta se afirma e se renova na

    recriao da escritora argentina, que mesmo mantendo os argumentos da obra original,

    consegue criar uma estrutura dramtica essencialmente nova, pois o texto revela uma

    enorme gama de possibilidades interpretativas e de intertextos que se comunicam com a

    realidade e histria da argentina atual, e garante com este teatro tico e crtico a

    relevncia e permanncia de sua obra no cenrio cultural latino-americano.

    11 PUGA G. O. Telondefondo, revista de teoria y crtica teatral. Disponvel em: www.telondefondo.org.

  • 27

    6 CONCLUSO

    O presente trabalho se centrou na anlise e interpretao de uma das ltimas

    peas dramtica de Griselda Gambaro, La Seora Macbeth. A pesquisa teve como

    perspectiva primeira a anlise dos aspectos estruturais da obra teatral, assim como

    apontar alguns dos procedimentos formais adotados pela autora, com nfase na

    interpretao textual e as possveis relaes deste com seu contexto scio-poltico-

    cultural da atualidade.

    Com a finalidade de apresentar a trajetria de Gambaro dentro do teatro

    argentino, e a importncia histrica de sua obra cena contempornea, foram descritos

    os principais momentos da trajetria da autora no teatro argentino, comprovando que

    sua obra se localiza fazendo parte dos principais movimentos intelectuais e artsticos

    que ocorreram na Argentina do sculo XX, e que seguramente influencia na produo

    teatral da Amrica Latina at a atualidade.

    Na interpretao do texto teatral La Seora Macbeth foram apontados como os

    principais eixos temticos, a questo do poder e sua relao intertextual com a realidade

    Argentina. Tambm o lugar que a mulher ocupa historicamente dentro destas possveis

    relaes com o poder pblico institudo. Esta representao simblica na trama de

    Gambaro tem como principal expoente a protagonista Lady Macbeth, na recriao desta

    personagem clssica a autora consegue trazer ao texto de forma tangencial questes

    pertinentes ao universo feminino tais como: a busca constante por uma identidade e um

    discurso prprio; a dependncia do amor masculino e as relaes de poder que se

    estabelecem no mbito familiar e privado, e que oportunamente se estende ao poder

    pblico e poltico.

    Como resultado desta pesquisa bibliogrfica, analisou-se de forma comparativa,

    a relao intertextual com o texto clssico referente Macbeth, de Shakespeare. A partir

    do texto shakespereano a dramaturga traz tona novos significados e sentidos a obra

    original, e a re-contextualizao do intertexto literrio. Efetua atravs do processo de

    apropriao, a reduo das personagens, trabalhando essencialmente com as figuras

    femininas de Shakespeare; a ao dramtica substituda pela narrao dos fatos,

    realizada atravs dos dilogos entre Lady Macbeth e as trs bruxas. O tempo e o espao

    funcionam para valorizar o dilogo destas personagens e, tambm so reduzidos se

    comparados a tragdia do autor ingls, o nico espao proposto o interior do castelo

  • 28

    dos Macbeth; e o espao mais explorado por Gambaro certamente a interioridade da

    protagonista Lady Macbeth.

    Ao se marcar estas principais semelhanas e diferenas dos dois textos de

    reconhecido valor literrio, se comprova a indiscutvel criao do novo, manifesta

    atravs da potica gambariana, que ao trabalhar em sua escrita com os silncios e

    lacunas deixados pelo texto clssico, consegue encontrar o lugar para seu discurso

    crtico, comprometido com o humano e o meio social latino-americano em que a autora

    est inserida. Gambaro alcana atravs de diversos procedimentos e tcnicas em sua

    escrita, refletir sua concepo da literatura e sua interpretao de mundo, enfrentando

    sempre este desafio de inserir em suas obras dramticas o referente extra-textual

    controverso e polmico, deixando clara sua ideologia artstica.

  • 29

    7 REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

    FONTES PRIMRIAS

    GAMBARO, Griselda. La Seora Macbeth. Buenos Aires: Norma, 2003.

    SHAKESPEARE, William. Hamlet e Macbeth. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995.

    SECUNDRIAS

    GAMBARO, Griselda. Teatro 5 piezas: (Falta de modestia, M querida, De profesin

    maternal, Pedir demasiado, Lo que va dictando el sueo). Buenos Aires: Norma, 2002.

    __________, Teatro 3: Viaje de invierno. Nosferatu. Cuatro ejercicios para actrices.

    Acuerdo para cambiar de casa. Slo un aspecto. La gracia. El miedo. El nombre. El

    viaje a Baha Blanca. El despojamiento. Decir S. Antgona furiosa. Buenos Aires,

    Ediciones de la Flor, 2004.

    __________, Teatro 6: Atando Cabos. La casa sin sosiego. Es necesario entender un

    poco. Buenos Aires: Ediciones de la Flor, 2006.

    CRTICA TEATRAL

    BLOOM, Harold. Macbeth. In: Shakespeare: a inveno do humano. Rio de Janeiro:

    Editora Objetiva, 2000.

    GIELLA, Angel Miguel. Teatro Latinoamericano Actual. Buenos Aires: Ediciones

    Corregidor, 1994.

    HELIODORA, Brbara. Reflexes Shakespereanas. Rio de Janeiro: Lacerda Editores,

    2004.

    LEO, L. C.; SANTOS M. S. Shakespeare, sua poca e sua obra. Curitiba: Editora

    Beatrice, 2008.

    PIZARRO, Ana. Teatro latinoamericano: desde las vanguardias histricas hasta hoy. In:

    Amrica Latina: Palavra, Literatura e Cultura V.3. So Paulo: Unicamp, 1995.

    PELLETTIERI, Osvaldo. Teatro argentino breve (1962-1983). Madrid: Editorial

    Biblioteca Nueva, 2003.

    _____________, Teatro Argentino de los 60. Polmica, continuidad y ruptura. Buenos

    Aires: Corregidor, 1989.

    PUGA, G. O. Telondefondo, revista de teora y crtica teatral. Disponvel em:

    www.telondefondo.org

  • 30

    TARANTUVIEZ, Susana. La escena del poder: el teatro de Griselda Gambaro.

    Buenos Aires: Corregidor, 2007.

    TEORIA TEATRAL

    ARTAUD, Antonin. O teatro e seu duplo. So Paulo: Martins Fontes, 1991.

    A.A.V.V. Semiologia del teatro. Barcelona: Planeta, 1975.

    BROOK, Peter. El espacio vaco. Barcelona: Pennsula, 1998.

    ROSENFELD, Anatol. Prismas do Teatro. So Paulo: Perspectiva, 1993.

    TRANCN, Santiago. Teora del Teatro: Bases para analices de la obra dramtica.

    Madrid: Editorial Fundamentos, 2003.

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