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RAE-CLÁSSICOS • DEBATES E PERSPECTIVAS CENTRAIS NA TEORIA DAS ORGANIZAÇÕES 52 RAE VOL. 45 Nº2 DEBATES E PERSPECTIVAS CENTRAIS NA TEORIA DAS ORGANIZAÇÕES RESUMO Diversas escolas do pensamento organizacional são classificadas de acordo com os níveis micro e macro de análise organizacional e com premissas deterministas em oposição a voluntaristas acerca da natureza humana, gerando, assim, quatro perspectivas básicas: a visão organizacional sistêmico-estrutural, a visão da escolha estratégica, a da seleção natural e a da ação coletiva. Essas quatro visões representam qualitativamente diferentes conceitos sobre a estrutura, o comportamento, a mudança e os papéis gerenciais nas organizações. São identificados seis debates teóricos por meio da sobreposição dessas quatro visões, sendo assim alcançada uma reconciliação parcial, levando os pontos de vista opostos a um entendimento dialético. Os seis debates, que tendem a ser individualmente tratados e isolados pela literatura, são então reintegrados, num nível metafórico. O modelo apresentado tenta transcender os problemas associados a uma fragmentação excessiva, focando a interação entre perspectivas teóricas divergentes, mas procurando também preservar a autenticidade de pontos de vista distintos, preservando, dessa forma, as vantagens associadas ao pluralismo teórico. W. Graham Astley University of Pennsylvania Andrew H. Van de Ven University of Minnesota ABSTRACT The diverse schools of organizational thought are classified according to micro and macro levels of organizational analysis and deterministic versus voluntaristic assumptions of human nature to yield four basic perspectives: system-structural, strategic choice, natural selection, and collective-action views of organizations. These four views represent qualitatively different concepts of organizational structure, behavior, change, and managerial roles. Six theoretical debates are then identified by systematically juxtaposing the four views against each other, and a partial reconciliation is achieved by bringing opposing viewpoints into dialectical relief. The six debates, which tend to be addressed singly and in isolation from each other in the literature, are then integrated at metatheoretical level. The framework presented thus attempts to overcome the problems associated with excessive theoretical compartmentalization by focusing on the interplay between divergent theoretical perspectives, but it also attempts to preserve the authenticity of distinctive viewpoints, thereby retaining the advantages associated with theoretical pluralism. PALAVRAS-CHAVE Voluntarismo, ação coletiva, níveis de análise micro e macro, ambiente, teoria das organizações. KEYWORDS Voluntarism, collective action, micro and macro levels of analysis, environment, organizational theory.

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  • RAE-CLSSICOS DEBATES E PERSPECTIVAS CENTRAIS NA TEORIA DAS ORGANIZAES

    52 RAE VOL. 45 N2

    DEBATES E PERSPECTIVAS CENTRAIS NA TEORIADAS ORGANIZAES

    RESUMO

    Diversas escolas do pensamento organizacional so classificadas de acordo com os nveis micro e macrode anlise organizacional e com premissas deterministas em oposio a voluntaristas acerca da naturezahumana, gerando, assim, quatro perspectivas bsicas: a viso organizacional sistmico-estrutural, a visoda escolha estratgica, a da seleo natural e a da ao coletiva. Essas quatro vises representamqualitativamente diferentes conceitos sobre a estrutura, o comportamento, a mudana e os papis gerenciaisnas organizaes. So identificados seis debates tericos por meio da sobreposio dessas quatro vises,sendo assim alcanada uma reconciliao parcial, levando os pontos de vista opostos a um entendimentodialtico. Os seis debates, que tendem a ser individualmente tratados e isolados pela literatura, so entoreintegrados, num nvel metafrico. O modelo apresentado tenta transcender os problemas associados auma fragmentao excessiva, focando a interao entre perspectivas tericas divergentes, mas procurandotambm preservar a autenticidade de pontos de vista distintos, preservando, dessa forma, as vantagensassociadas ao pluralismo terico.

    W. Graham AstleyUniversity of Pennsylvania

    Andrew H. Van de VenUniversity of Minnesota

    ABSTRACT The diverse schools of organizational thought are classified according to micro and macro levels of organizational analysis anddeterministic versus voluntaristic assumptions of human nature to yield four basic perspectives: system-structural, strategic choice, natural

    selection, and collective-action views of organizations. These four views represent qualitatively different concepts of organizational structure,

    behavior, change, and managerial roles. Six theoretical debates are then identified by systematically juxtaposing the four views against each other,

    and a partial reconciliation is achieved by bringing opposing viewpoints into dialectical relief. The six debates, which tend to be addressed singly

    and in isolation from each other in the literature, are then integrated at metatheoretical level. The framework presented thus attempts to overcome

    the problems associated with excessive theoretical compartmentalization by focusing on the interplay between divergent theoretical perspectives,

    but it also attempts to preserve the authenticity of distinctive viewpoints, thereby retaining the advantages associated with theoretical pluralism.

    PALAVRAS-CHAVE Voluntarismo, ao coletiva, nveis de anlise micro e macro, ambiente, teoria das organizaes.KEYWORDS Voluntarism, collective action, micro and macro levels of analysis, environment, organizational theory.

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    W. GRAHAM ASTLEY ANDREW H. VAN DE VEN

    Nos ltimos anos tem surgido um pluralismo terico cres-cente na literatura organizacional, refletindo em parte acrescente conscientizao acerca das complexidades or-ganizacionais e em parte o refinamento dos interesses epreocupaes dos tericos da rea. De um lado, esse plu-ralismo terico deve ser encorajado, para que os pesqui-sadores descubram novos aspectos da vida organizacio-nal e aprofundem suas indagaes crticas. De outro lado,esse pluralismo encoraja uma fragmentao terica ex-cessiva, ficando fcil perder de vista as formas com queas vrias escolas de pensamento se relacionam. A intera-o entre as diferentes perspectivas permite que se ad-quira um entendimento mais abrangente da vida organi-zacional, uma vez que qualquer escola de pensamento,invariavelmente, oferece uma explicao parcial da rea-lidade. Alm disso, a sobreposio das diferentes escolasde pensamento pe em destaque as vises de mundo con-trastantes que motivam os maiores debates que caracte-rizam a teoria organizacional contempornea.

    Por conseguinte, este artigo examina seis debates so-bre a natureza e a estruturao organizacionais que per-meiam atualmente a literatura. Os debates circundam asseguintes questes:1. As organizaes so sistemas funcionalmente racionais

    e tecnicamente determinados ou so materializaesde aes individuais socialmente construdas e subje-tivamente significativas?

    2. As mudanas nas formas organizacionais so explica-das pela adaptao interna ou pela seleo ambiental?

    3. A vida organizacional determinada por limitaesambientais ou criada ativamente por meio de deci-ses gerenciais estratgicas?

    4. O ambiente deve ser visto como um agregado simplesde organizaes, governado por foras econmicasexternas, ou como uma coletividade de organizaesintegradas e governadas por suas prprias foras pol-ticas e sociais internas?

    5. O comportamento organizacional est principalmen-te preocupado com a ao individual ou com a aocoletiva?

    6. As organizaes so instrumentos tcnicos neutros,programados para atingir metas, ou so manifestaesinstitucionalizadas de interesses adquiridos e estrutu-ras de poder da sociedade?

    Apesar de essas pendncias terem sido debatidas emcerto grau pela literatura, nenhuma anlise satisfatriasurgiu nem se tornou provvel. O problema que asdiferentes escolas de pensamento tendem a focar ques-tes apenas unilateralmente, alm de utilizarem lgicas

    e vocabulrios bastante diferentes para no dialogaremdiretamente entre si. Como afirmou Poggi (1965, p. 284),uma forma de ver uma forma de no ver. Ento, al-guma integrao deve ser desejvel, mas que preserve,ao mesmo tempo, a distino entre as diferentes pers-pectivas analticas envolvidas. Estamos convencidos deque essa integrao possvel se reconhecermos que asdiferentes perspectivas podem apresentar quadros mui-to diversos do mesmo fenmeno organizacional sem quese anulem. Isso alcanado por meio do uso de diferen-tes lentes analticas no exame dos lados opostos e con-traditrios de uma mesma questo. Neste artigo, em vezde proclamarmos certos pontos de vista como corre-tos, reconciliamos as contradies entre as teorias con-trastantes ao juntarmos uma variedade de interpretaesdialticas acerca da vida organizacional. Essas reconcilia-es preservam a autenticidade das incompatveis teo-rias, mas alcanam ao mesmo tempo um meio de inte-grao ao destacarem as fontes de tenses dialticas en-tre as teorias.

    Essa abordagem aplicada a cada um dos debatesacima, no contexto de um esquema metaterico amploo bastante para unir os diferentes debates. Tratar os seisdebates como interdependentes deixa em acordo am-bos os pontos de contraste e tangncia entre a maiorparte das principais abordagens tericas dos estudos or-ganizacionais. A inteno no apenas refinar e apro-fundar a teoria atual, mas tambm entender melhor asestruturas de apoio dos pensamentos geradores de teo-rias particulares. Procuramos uma integrao no so-mente dentro dos debates, mas entre os debates, em umnvel metaterico. A esse respeito a principal meta anloga ao pedido de Rank (1941) para que as compa-raes entre as diferentes psicologias sejam substitu-das por uma psicologia das diferenas. Enquanto dis-tinguimos as diferenas no interior das teorias organi-zacionais, esperamos contribuir com uma teoria queexplique as diferenas entre elas. Isso apoiando-nosnuma conscincia explcita das premissas metatericascontrastantes que as apiam. Colocando de forma dife-rente, procuramos identificar os alicerces paradigmti-cos das metforas tericas existentes no campo (Morgan,1980).

    PERSPECTIVAS CENTRAISDA TEORIA ORGANIZACIONAL

    A Figura 1 esboa um esquema metaterico de classifi-cao das principais escolas de pensamento da teoria or-

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    ganizacional e gerencial em quatro vises bsicas. Elasso baseadas em duas dimenses analticas: 1) o nvel deanlise organizacional, e 2) a relativa nfase dada s pre-missas deterministas da natureza humana contra as pre-missas voluntaristas.

    Alguns autores recentemente distinguiram as teoriasorganizacionais utilizando a clssica dualidade entre odeterminismo e o livre-arbtrio a viso de que os sereshumanos e suas instituies so determinados por for-as externas ou so dotados de autonomia e criados porseres humanos (Weeks, 1973; Driggers, 1977; Burrell e

    Morgan, 1979; Van de Ven e Astley, 1981). Do ponto devista da orientao voluntarista, indivduos e instituiesso agentes autnomos, proativos e autodirigidos; os in-divduos so vistos como a unidade bsica de anlise efonte de mudana da vida organizacional. J a orienta-o determinista no focaliza os indivduos, mas sim aspropriedades estruturais do contexto em que a ao sedesenrola, e um comportamento individual visto comodeterminado por restries estruturais que proporcionamestabilidade e controle absoluto vida organizacional, ea elas reativo.

    Figura 1 Quatro vises da organizao e da gesto

    Nvel macro(populaes ecomunidades

    organizacionais)

    VISO DA SELEO NATURAL

    Escolas: Ecologia populacional, economia industrial, his-tria econmica.

    Estrutura: A competio ambiental e a capacidade de ma-nuteno predefinem os nichos. A estrutura da indstria econmica e tecnicamente determinada.

    Mudana: Uma evoluo natural das variaes, selees emanutenes ambientais. O contexto econmico circunscre-ve a direo e a amplitude do crescimento organizacional.

    Comportamento: Seleo ambiental aleatria, natural oueconmica.

    Papel do gestor: Inativo

    VISO SISTMICO-ESTRUTURAL

    Escolas: Teoria dos sistemas, funcionalismo estrutural, teo-ria da contingncia.

    Estrutura: Papis e posies ordenados hierarquicamentepara atingir a funo do sistema eficientemente.

    Mudana: Diviso e integrao de papis para adaptar ossubsistemas s mudanas de ambiente, tecnologia, tama-nho e necessidades de recursos.

    Comportamento: Determinado, restrito e adaptativo.

    Papel do gestor: Reativo.

    VISO DA AO COLETIVA

    Escolas: Ecologia humana, economia poltica, pluralismo.

    Estrutura: Comunidades e redes de grupos semi-autno-mos e partidrios que interagem para criar ou modificar osambientes, regras e opes da coletividade.

    Mudana: Barganha, conflito, negociao e compromis-sos coletivos por meio de ajustes partidrios mtuos.

    Comportamento: Ordens racionais coletivamente constru-das e politicamente negociadas.

    Papel do gestor: Interativo.

    VISO DA ESCOLHA ESTRATGICA

    Escolas: Teoria da ao, teoria de deciso contempor-nea, gesto estratgica.

    Estrutura: As pessoas e seus relacionamentos so organi-zados e socializados para servir s escolhas e propsitosdaqueles que esto no poder.

    Mudana: O ambiente e a estrutura so ordenados eincorporam os significados das aes dos que esto nopoder.

    Comportamento: Construdo, autnomo e ordenado.

    Papel do gestor: Proativo.Nvel micro

    (organizaesindividuais)

    Q1

    Q4Q3

    Q2

    Orientao determinista Orientao voluntarista

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    Historicamente, o intercmbio das vises entre as abor-dagens voluntarista e determinista da anlise organiza-cional tem sido relacionado maior distino entre osnveis utilizados. Tradicionalmente, as organizaes in-dividuais tm sido o principal foco. No entanto, um n-mero recente de tericos expandiu o nvel de anlise parao estudo de populaes organizacionais inteiras sob apremissa de que as populaes exibem caractersticas edinmicas prprias e distintas, no discernveis em or-ganizaes individuais. A principal razo para fazermosa distino micromacro focar as relaes entre as par-tes e o todo existentes em qualquer fenmeno organiza-cional. Discusses sobre os nveis de anlise apropriadostm englobado o debate voluntarista-determinista, masisso no apaga a distino analtica entre as duas dimen-ses em que os debates se baseiam.

    A classificao das escolas de pensamento nessas duasdimenses produz quatro perspectivas bsicas: as visessistmico-estrutural, da escolha estratgica, da seleonatural e da ao coletiva. Afirmamos que a maioria dasescolas de pensamento, seno todas, podem ser classifi-cadas em termos dessas dimenses, refiram-se ou no osautores explicitamente a elas. Como indica a Figura 1, asquatro perspectivas representam, qualitativamente, dife-rentes vises de estrutura, comportamento, mudana epapis da gesto organizacional. Elas oferecem um re-pertrio de formas de abordagem e entendimento da teo-ria organizacional.

    A viso sistmico-estruturalNo nvel organizacional individual, o funcionalismo es-trutural e a teoria de sistemas so as escolas dominantesdo pensamento organizacional (Silverman, 1970). Essasescolas influenciaram a teoria clssica da gesto (Gulicke Urwick, 1937; Fayol, 1949) e a teoria da burocracia(Merton, 1940; Blau e Scott, 1962), que, por sua vez,precederam o desenvolvimento das teorias estruturais dascontingncias (Woodward, 1965; Lawrence e Lorsch,1967; Thompson, 1967).

    Apesar da diversidade e dos considerveis debatesentre essas escolas, elas compartilham uma orientaodeterminista na qual o comportamento organizacional como que moldado por uma srie de mecanismos im-pessoais que atuam como restries externas sobre osagentes. Consideram-se os elementos estruturais de talforma inter-relacionados, que instrumentalmente servemao alcance de metas organizacionais e so, portanto, fun-cionais. Os componentes bsicos da estrutura so ospapis. Os papis predeterminam um conjunto de ex-pectativas comportamentais, obrigaes e responsabili-

    dades associadas a uma determinada posio. So os pa-pis, e no os indivduos, que so estruturados; os sereshumanos ocupam tais papis, e devem ser cuidadosa-mente selecionados, treinados e controlados para aten-derem s exigncias das posies que ocupam. Metasorganizacionais compartilhadas impem a necessidadede conformidade e coerncia. Os indivduos so, portan-to, absorvidos como componentes de uma coletividadeinterdependente um sistema estruturado e engrenado,que molda e determina o comportamento deles.

    De acordo com a viso sistmico-estrutural, o papelbsico do gestor reativo. Trata-se de um papel tcnico deajuste fino da organizao, de acordo com as exignciasde tal papel. A mudana assume a forma de adaptao;ocorre como produto de alteraes exgenas ao ambien-te. O gestor deve perceber, processar e responder ao ambi-ente instvel, e se adaptar por meio do rearranjo da estru-tura organizacional interna, para garantir-lhe a sobrevi-vncia ou a efetividade. O foco da tomada de deciso ge-rencial, portanto, no est na escolha, mas no acmulo deinformaes corretas sobre as variaes ambientais, e nautilizao de critrios tcnicos para examinar as conse-qncias das respostas a demandas alternativas.

    A viso da escolha estratgicaAs crticas abordagem sistmico-estrutural surgiram soba forma de um quadro de referncia da ao defendidopor aqueles que aderiram a uma orientao mais volun-tarista (Silverman, 1970). Este ponto de vista utilizadopara atacar as abordagens sistmicas e estrutural-funcio-nalistas, e para inferir a existncia de mecanismos de auto-regulao que atendam s necessidades e funes dosistema. Trata-se do problema da reificao. Em contras-te, de acordo com a teoria da ao, as organizaes socontinuamente construdas, mantidas e alteradas pelasdefinies situacionais dos agentes os significados sub-jetivos e as interpretaes que os agentes imputam aoseu mundo quando negociam e ordenam aquilo que na-turalmente os cerca. Foi nesse sentido que surgiu umavariedade de abordagens de intercmbio (Blau, 1964),simblica (Feldman e March, 1981), de interao(Goffman, 1961), de ordem negociada (Strauss et al.,1963), fenomenolgica (Weick, 1979) e etnometodolgica(Bittner, 1965).

    A teoria da ao em anlise organizacional tem sidoaplicada principalmente escolha estratgica em situa-es de tomadas de decises (Child, 1972). De acordocom esta viso, a escolha est disponvel para a delineaoda estrutura organizacional, que pode ser modelada deacordo com consideraes polticas, mais do que com

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    critrios tcnicos. Os tericos da deciso tm enfatizadoque a ambigidade est suficientemente difundida nasorganizaes para permitir com freqncia a oportuni-dade de construo de tal resultado (March e Olsen,1976). A escolha estratgica tambm se estende ao am-biente organizacional. Assim, os tericos da gesto es-tratgica e da dependncia de recursos argumentam queo ambiente no deve ser visto como um conjunto de res-tries inflexveis; ele pode ser mudado e manipulado pormeio de negociaes polticas para ajuste dos objetivos daalta gesto (Pfeffer e Salancik, 1978; Lorange, 1980).

    Como mostra a Figura 1, a viso da escolha estratgi-ca chama a ateno para os indivduos e suas interaes,construes sociais, autonomia e escolhas, em oposios restries da incumbncia de seus papis e inter-rela-es funcionais no sistema. Tanto o ambiente quanto aestrutura so ordenados para incorporar os significadose aes dos indivduos particularmente daqueles queesto no poder. Os gestores so considerados represen-tantes de um papel proativo; suas escolhas so vistas comoautnomas e seus atos, como foras de ao enrgica quemoldam o mundo organizacional.

    A viso da seleo naturalContrastando com as abordagens sistmico-estrutural eda escolha estratgica, uma viso mais macro das rela-es entre organizao e ambiente desenvolveu-se sob aforma da seleo natural, que no enfoca as organiza-es individualmente, mas sim as caractersticas estru-turais e demogrficas de populaes completas de orga-nizaes ou indstrias. Dentre os que adotam essa pers-pectiva, esto os ecologistas populacionais, os economis-tas industriais e os historiadores econmicos.

    O modelo da ecologia populacional baseado na no-o de que os recursos ambientais so estruturados emforma de nichos, cuja existncia e distribuio pela so-ciedade so relativamente refratrias manipulao deorganizaes individuais. Em conseqncia, esta visoenfatiza deterministicamente que h limites definidos parao grau de disponibilidade da escolha estratgica autno-ma (Aldrich, 1979). Ao mesmo tempo, v as organizaescomo severamente limitadas na habilidade de adaptar suasformas internas a diferentes nichos. Em resultado, asorganizaes esto merc do ambiente, e ou bem seajustam fortuitamente a um nicho, ou dele so exclu-das e se extinguem (Hannan e Freeman, 1977). Esta vi-so tambm implica um nvel populacional de anlise, vistoque espcies inteiras de organizaes esto sujeitas a so-breviver ou perecer, quaisquer que sejam as aes toma-das individualmente por suas organizaes.

    Um paralelo ao conceito de nichos da ecologia popu-lacional pode ser encontrado na noo de estrutura daeconomia industrial, definida como as dimenses eco-nmicas e tcnicas relativamente estveis de uma inds-tria, que provm o contexto em que ocorre a competi-o. A estrutura industrial inibe o movimento entre osmercados por meio das barreiras de entrada, e delimitaseveramente a exeqibilidade e convenincia de diferen-tes alternativas estratgicas em certos contextos indus-triais (Caves e Porter, 1977). A conduta de mercado,tradicionalmente compreendida, ou a estratgia de umafirma, simplesmente reflete o ambiente (Porter, 1981).

    Alm disso, historiadores econmicos, como Chandler(1977), e economistas institucionais, como Williamson(1975), sustentam que a estrutura industrial evolui dedeterminadas maneiras. A tese geral a de que uma eco-nomia competitiva, conduzida por transaes de merca-do entre muitas empresas pequenas e tradicionais, temevoludo para uma economia regulada e dominada portransaes internas e hierrquicas de grandes negcios.Isso tem ocorrido como resposta s foras ambientaisvariveis sobre as quais as organizaes individuais exer-cem pouco controle. Na viso desses autores, as trans-formaes estruturais do ambiente industrial modernoso governadas por leis e imposies econmicas impes-soais de eficincia administrativa, e no produzidas pelaestratgia de gesto. Os grandes negcios prevalecem nopor terem prosperado no acmulo e explorao do po-der de mercado, mas por serem instrumentos mais eficien-tes do que o mercado para minimizar os custos das tran-saes (Williamson, 1975), ou por coordenarem os flu-xos de bens e servios na economia (Chandler, 1977).

    Em resumo, de acordo com a viso da seleo natural,a evoluo da sociedade corporativa e sua infra-estrutu-ra econmica conduzida por foras ambientais. A mu-dana explicada em termos da movimentao naturalde recursos pela economia, mais do que em termos deaes gerenciais internas. Nesse sentido, o papel geren-cial pode ser descrito como inativo (veja a Figura 1) ou,no mximo, simblico (Pfeffer e Salancik, 1978, p. 263).

    A viso da ao coletivaEm vez de conceber a sociedade corporativa como sujei-ta a uma evoluo ambientalmente determinada, pos-svel conceb-la como construda e guiada por escolhase propsitos coletivos. Essa observao feita por ecolo-gistas sociais (Emery e Trist, 1973), humano-ecologistas(Hawley, 1950, 1968) e tericos de planejamento social(Vickers, 1965; Schon, 1971; Michael, 1973; Ackoff,1974; Warren, Rose e Bergunder, 1974). Eles sustentam

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    que as condies sociais contemporneas so ou deveriamser reguladas por aes propositais (voluntrias) e ocor-rem num nvel coletivo. Em vez de ver as organizaeslanadas em uma batalha de sobrevivncia competitivapor meio do confronto direto com o ambiente natural eexgeno, esses autores enfatizam a sobrevivncia coleti-va alcanada pela colaborao entre organizaes pormeio da construo de um ambiente social, regulado econtrolado, mediador dos efeitos do ambiente natural.

    A noo-chave envolvida na idia de sobrevivnciacoletiva a de uma rede interorganizacional. Uma rede um sistema conector de relaes de intercmbio, negocia-do entre os membros de diferentes organizaes, confor-me moldam seus ambientes em conjunto (Cook, 1977).Essa rede consiste em um sistema de ao social de orga-nizaes interdependentes em simbiose, que ao longo dotempo assumem papis especializados, num modelo deexpectativas normativas, que definem direitos e condu-tas (Van de Ven, Emmett e Koenig, 1974; Benson, 1975).Essas normas que Commons (1950) descreveu comoregras de funcionamento da ao coletiva permitem rede atuar como uma unidade, e tomar decises quealcancem os interesses individuais e coletivos das orga-nizaes que a compem.

    A estrutura poltica externa das redes interorganiza-cionais tem sido representada de diferentes formas: comoum sistema pluralista de interao (Schon, 1971;Metcalfe, 1974; Trist 1979) e tambm como uma econo-mia poltica (Benson, 1975), incorporada a estruturas dedominao e controle hegemnico (Clegg, 1981;Perrow, 1981). Mas, em ambos os casos, a mudana vista como ativamente produzida por negociaes pol-ticas e definies sociais, em vez de determinada por for-as econmicas e ambientais neutras.

    A viso da ao coletiva enfoca simbioticamente as redesinterdependentes, e tambm organizaes semi-autnomasque interagem para construir ou modificar seus ambientescoletivos, suas regras de trabalho e alternativas. O papel dogestor interativo; ele transaciona com os outros por meiode barganhas coletivas, de negociaes, comprometimen-tos, manobras polticas e afins. Movimentos em direo asolues so orientados por normas, costumes e leis, queso regras de funcionamento da ao coletiva.

    DEBATES CENTRAIS NATEORIA DAS ORGANIZAES

    Cada uma das quatro perspectivas representa apenas umaviso parcial da realidade, para que juntas possam pro-

    ver um repertrio de formas complementares com o in-tuito de tornar quadrangular o conjunto dos fenmenosorganizacionais. Isso sugere o desejo de se sobreporemas quatro perspectivas para prover um entendimento or-ganizacional mais abrangente. Ao mesmo tempo, cadaperspectiva contradiz as demais em aspectos-chave, poiscada uma apresenta sua prpria interpretao distinta darealidade. Isso sugere o desejo de se contraporem as qua-tro perspectivas para levar os pontos de divergncia aodesfecho de uma soluo dialtica. Conseqentemente,direcionamos agora a anlise para os seis debates gera-dos na interao das quatro perspectivas.

    Sistema versus ao: Q1 vs. Q21Sero as organizaes sistemas funcionalmente racionaise tecnicamente restritos, ou so incorporaes socialmen-te construdas, subjetivamente significativas da ao in-dividual? Esse debate se preocupa com a interao doque Dawe (1970) chamou de as duas sociologias: umaque v a ao individual como derivada do sistema social,outra que v o sistema social como derivado da ao in-dividual.

    Na teoria organizacional, Crozier e Friedberg (1980)tratam esse debate contrastando um argumento sistmico(viso sistmico-estrutural) e um argumento estratgi-co (viso da escolha estratgica). O argumento sistmicoinicia a anlise a partir da organizao como um todo ealoca a ao individual de acordo com seu lugar e funodentro do sistema. O indivduo apenas um componentesistmico, uma irritao que deve ser controlada para queuma integrao funcional absoluta possa ser mantida (vejaHowton, 1969).

    A argumentao estratgica, por outro lado, inicia apartir do indivduo e prossegue encontrando o sistemaapenas como um resultado agregado das aes individu-ais. Critica a explicao funcional, atestando que ela buscaconsiderar indiretamente os comportamentos, reportan-do suas supostas conseqncias, e no diretamente, re-portando as aes especficas que os causam (Silverman,1970). Para evitar a reificao da organizao, a argu-mentao estratgica trata a ao individual subjetiva-mente significativa como a principal fora do comporta-mento organizacional. De acordo com essa viso, a orga-nizao no mais um monlito funcionalmente coeso;torna-se uma coalizo mutvel (March, 1962; Georgiou,1973; Keeley, 1980), um sistema frouxamente acoplado(Weick, 1976), ou mesmo uma anarquia organizada(Cohen, March e Olsen, 1972).

    Uma reconciliao dialtica, que escapa ao subjetivis-mo unilateral da teoria da ao e ao mesmo tempo resis-

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    te ao determinismo funcional, deve reconhecer que a aoindividual sempre est, de alguma forma, limitada a evitara desintegrao total do sistema. Entretanto, o sistemanunca est totalmente integrado a um corpo perfeitamen-te coeso. As organizaes mantm um grau de coeso, maseste deve sempre ser conquistado por meio de uma su-presso parcial do antagonismo interno. Para Crozier eFriedberg (1980), equilibrar e gerir complexas tensesinternas jogar um jogo. O jogo possui regras que de-vem ser obedecidas para que a associao coletiva conti-nue. Com essas regras, entretanto, muitas estratgias dife-rentes sempre so possveis. Ademais, as regras podem serquebradas, mas apenas at certo ponto. O jogador perma-nece livre, mas, se quiser vencer, deve adotar uma estrat-gia em razovel conformao s regras, pois o abandonocompleto do jogo incapaz de atender a seus interesses.

    Um debate paralelo surgiu das discusses acerca daracionalidade na tomada de deciso. As abordagens es-trutural-funcionais convencionais afirmam que a toma-da de deciso predominantemente racional visto queapresenta um comportamento funcional orientado pararesultados. A lgica objetiva de efetividade, baseada naracionalidade tcnica (Thompson, 1967, p. 14), con-siderada funcional. O processo de tomada de deciso representado como um exerccio de engenharia; gover-nado por leis inferidas de uma relao custobeneficio,de uma lgica de custo e eficincia (Roethlisberger eDickson, 1939), subjacente ao gerencial.

    Para os tericos contemporneos da deciso, que em-pregam modelos de ao como referncia, tal racionali-dade apenas uma falsa aparncia exterior,mistificadora, que obscurece os elementos irracionaisdifundidos na tomada de deciso. March e Olsen (1976)e Weick (1979) sugeriram que a tomada de deciso no concebida como algo racionalmente elaborado para oalcance instrumental dos objetivos organizacionais, mascomo eventos que se desenvolvem simplesmente por umaou outra razo, seja por acaso, pelo hbito, seja por pre-ferncias ou convenincias pessoais. Na realidade, a aopode preceder o objetivo. Os objetivos podem ser recons-trues imaginrias, que imputam ordem e racionalida-de s aes e s decises depois que elas j ocorreram.Os arranjos organizacionais, portanto, no deveriam sermal interpretados como tendo uma demanda lgica oufuncional. Eles se tornam indispensveis apenas em vir-tude de nossas reflexes conscientes, que sobrepem algica a uma ordem j estabelecida. Eis aqui a dialtica:ser o sistema racionalmente planejado e construdo, ou a ao que simplesmente surge para em seguida serracionalizada?

    O debate sistema/ao tambm est presente na ten-so entre a teoria da contingncia, de um lado, e as teoriasda gesto estratgica e da dependncia de recursos, deoutro. A teoria da contingncia presume que as restri-es contextuais apresentam efeitos obrigatrios nasoperaes organizacionais. Em outras palavras, o con-texto possui uma primazia causal; a gesto responde sim-plesmente de maneira tecnicamente adequada. Em con-trapartida, os tericos da gesto estratgica e da teoria dadependncia dos recursos apontam para o aumento deliberdade que a gesto possui para criar e definir o con-texto organizacional. Os gestores selecionam de maneiraproativa o que ser importante e que contexto operacio-nal ser relevante para eles em seu ambiente. Podem ar-car com custos por ignorarem determinados fatores con-textuais, mas so apenas custos a serem ponderados emrelao aos custos alternativos; no so custos determi-nantes.

    Child (1972) tentou reconciliar essas vises indican-do que, enquanto a qualidade do ajuste entre o con-texto e a estrutura das organizaes pode apresentar im-plicaes de desempenho restritivo aos gestores, essasprprias limitaes so definidas socialmente; elas po-dem ser determinadas em nveis baixos o bastante parapermitirem a busca de outros objetivos, no relaciona-dos ao desempenho. Em outras palavras, o desempenhoeconmico pode ser apenas um dos mltiplos pontos dereferncia que influenciam a tomada de deciso. Enquan-to os gestores continuam experimentando restries, fa-zem-no apenas no sentido de terem escolhido o que paraeles ser uma limitao. Novamente, vemos que os doislados da argumentao so ao mesmo tempo complemen-tares, contraditrios e convergentes.

    Adaptao versus seleo: Q1 vs. Q3Sero as mudanas nas formas organizacionais explica-das pela adaptao interna ou pela seleo ambiental? Aprimeira dessas explicaes, a viso da adaptao inter-na, tem dominado historicamente a teoria organizacional.Valendo-se de tericos de sistemas que analisaram as or-ganizaes sociais como sistemas adaptativos complexos(Buckley, 1968), os tericos da contingncia tm enfatiza-do que as organizaes respondem s mudanas elabo-rando ou modificando suas estruturas internas para man-ter uma relao isomrfica com o ambiente. Por exemplo,a heterogeneidade ambiental deve ser combinada com adiferenciao e a integrao internas para que o desempe-nho organizacional no padea (Lawrence e Lorsch, 1967).

    Os ecologistas populacionais reagiram a essa perspec-tiva de adaptao argumentando que ela exagera o grau

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    de flexibilidade que os gestores das organizaes tm paraajustar suas formas estruturais (Aldrich e Pfeffer, 1976).H uma inrcia estrutural induzida por custos irrecu-perveis, precedentes histricos e resistncias polticas amudanas (Hannan e Freeman, 1977). Dada essa inr-cia, se o nicho ocupado por uma organizao no pudermais atrair recursos que sustentem uma forma particu-lar de organizao, essa forma se tornar obsoleta e serextinta. Simultaneamente, os recursos so transferidospara novas reas, criando nichos novos demais para queas adaptaes limitadas de organizaes existentes con-sigam se ajustar adequadamente. Assim, devem ser in-cludas formas organizacionais completamente novas.A seleo ambiental substitui, dessa forma, a adaptaointerna na condio de maior instrumento de mudana.

    Tanto a perspectiva da seleo como a da adaptaocompartilham uma orientao determinista segundo aqual a origem absoluta das mudanas o ambiente. Masdiferem em relao ao nvel da anlise (McKelvey, 1979).Na viso da adaptao, as organizaes respondem smudanas refinando seus prprios ajustes s contingn-cias de seu ambiente de trabalho. A anlise estritamen-te baseada na unidade. Mas na viso da seleo no exis-te uma quantidade de ajuste fino adequada aos limiteslocais de um nicho organizacional, pois a longo prazo onicho de um tipo particular de organizao pode desa-parecer completamente. Assim, o foco muda para esp-cies ou populaes de organizaes que vm e vo emondas como indstrias inteiras nascem e se extinguem(Aldrich, 1979).

    Entretanto, os ecologistas populacionais admitem queo modelo da seleo natural funciona bem melhor paraorganizaes pequenas e desprovidas de poder, que ope-ram em ambientes com recursos dispersos, do que paraorganizaes grandes e politicamente bem relacionadas,que operam em ambientes com recursos concentrados(Aldrich, 1979, p. 111-112). Isso sugere uma possvelreconciliao entre as perspectivas da seleo e da adap-tao. O problema aqui que as grandes organizaesraramente so excludas (Edwards, 1979, p. 84-85).2 Poressa razo, Lawrence (1981) afirmou que a perspectivada seleo natural precisa ser complementada por umaperspectiva de adaptao pelo aprendizado. Ele argumen-tou que, se uma organizao sobrevive seleo naturalnos primeiros estgios de crescimento, e se expande emqualquer direo por exemplo, pela variedade de pro-dutos ou por rea geogrfica , ela pode conseguir seadaptar a mudanas ambientais subseqentes, que seriamfatais em um estgio anterior.

    A explicao para isso pode ser o fato de que as pe-

    quenas organizaes experimentam maior risco de ex-cluso por estarem tipicamente presas a um nico ni-cho, ao passo que grandes organizaes se espalham gra-dativamente por muitos nichos e, por isso, fortalecemsuas posies por meio da expanso e diversificao geo-grfica (Pennings, 1980). Dado que as foras da institu-cionalizao induzem invariavelmente inrcia estrutu-ral (Kimberly, 1980), permanece sem explicao, no en-tanto, como pequenas organizaes conseguem se tor-nar grandes empresas de sucesso sem ser antes exclu-das. Isso pode ocorrer visto que a institucionalizao inibea adaptao em pequena escala e a curto prazo, e conduza um acmulo de tenses quando a organizao se tornagradativamente desajustada ao seu ambiente. Ento, essatenso posteriormente resolvida no pela mudana nosistema, mas pela mudana do sistema (Parsons,1961). Isso explica as transformaes metamrficas(Starbuck, 1965, 1968) que as organizaes empreen-dem quando suas operaes se espalham, abrangendonovos produtos ou posies de mercado (Chandler,1962). Uma vez estabelecida em um ou mais nichos, aorganizao consegue evitar a excluso ao ajustar sua li-nha de produtos ou servios, e transferir recursos de reasdeclinantes para esferas de operaes mais prdigas.Mesmo que uma fraca atuao ainda induza inrcia es-trutural as subunidades de um determinado nicho, a or-ganizao conseguir manter sua vitalidade e seu vigorno nvel corporativo.

    Conquanto essa explicao da adaptabilidade das gran-des organizaes complemente a viso da ecologia po-pulacional, superando uma das maiores deficincias destaltima, pouco contribui para desafiar a adequao deoutra perspectiva que foca especialmente as grandes or-ganizaes, ainda que se mantenha consistente com aviso da seleo natural. Trata-se do modelo de falhasde mercado, oferecido por Williamson (1975). Essemodelo classificado como uma viso da seleo naturalno sentido em que trata da forma como o ambiente eco-nmico seleciona uma espcie nova e importante deorganizao, que Chandler (1977) descreveu como aempresa multiunitria moderna.

    A tese geral de que os mercados so suplantadospor hierarquias quando param de funcionar adequa-damente devido concentrao de informao, umadistribuio assimtrica da informao que interfere naalocao tima de recursos nas transaes de mercado.A monitorao superior da organizao e sua capacidadede controle superam esse problema: reduzem os custosde transao e restauram a eficincia. O crescimento dasgrandes organizaes hierrquicas , portanto, determi-

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    nado economicamente no sentido de que a organizaointerna restabelece a operao natural da racionalidadeeconmica quando os mercados no conseguem maisexecutar suas funes. Ao mesmo tempo, essa racionali-dade econmica opera no nvel populacional de anlise,pois governa a operao de todo o mercado ou indstria.A mudana dos mercados para as hierarquias explicadacomo um triunfo dos interesses do sistema econmicocomo um todo sobre as tendncias oportunistas de seusmembros constituintes (Willamson, 1975, p. 27). A oti-mizao da eficincia em alocar recursos por toda a eco-nomia uma notvel fora em operao.

    Quando o modelo de falhas de mercado plausivelmenteestende a viso da seleo natural s grandes organiza-es, abre-se tambm para a reinterpretao dialtica pelaviso sistmico-estrutural. Thompson explicou de ummodo muito diferente como os mercados so suplanta-dos pelas hierarquias, ou seja, organizaes sob normasde racionalidade procuram limitar-se a atividades que,se deixadas por conta da ao ambiental, representariamcontingncias cruciais (Thompson, 1967, p. 39). Deacordo com a explicao de Thompson para tal fenme-no, no so os trabalhos racionais de um sistema econ-mico que importam, mas as normas da racionalidade tc-nica que governam as operaes internas das organiza-es particulares. So os interesses da organizao emfoco que representam demarcaes, e no os interessesdo mercado econmico. As hierarquias no sosubprodutos das falhas de mercado agindo simplesmen-te como mecanismos alternativos para alocao de re-cursos econmicos em beneficio da sociedade; ao con-trrio, so instrumentos gerenciais para controle, redu-o e remoo de contingncias que ameacem o funcio-namento tcnico das organizaes. De acordo com essaviso, a interiorizao representa uma absoro das ame-aas externas, e no uma falha de mercado. Incorpora-se, assim, a lgica da adaptao organizacional, e no algica da evoluo ambiental. Trata-se do determinismotecnolgico aplicado s organizaes individuais, e nodo determinismo econmico aplicado s populaes or-ganizacionais em um sistema de mercado.3 Vemos aquinovamente uma tenso dialtica; a essncia do assunto a mesma, o que se altera o ngulo da cmera.

    Nichos restritos versus domniosordenados: Q2 vs. Q3Ser a vida organizacional determinada por restries am-bientais inflexveis ou criada ativamente por escolhas ge-renciais estratgicas? Esse debate foi recentemente des-tacado na discusso de Porter (1981) acerca da relao

    entre a economia industrial e a gesto estratgica. Emcontraste sistemtico entre os dois campos, Porter apon-ta diferenas de orientao, que pertencem a duas di-menses da Figura 1. Primeiro, enquanto os economis-tas industriais conseguem tomar a indstria como umtodo como unidade de anlise, ao imaginarem que todasas firmas da indstria reagiro de maneira idntica aosmesmos contextos econmicos, os tericos da gesto es-tratgica se interessam pelos problemas de firmas indivi-duais, como entidades nicas, dotadas de foras e de fra-quezas nicas. Segundo, os economistas industriais apre-sentam, preferencialmente, uma viso determinista, porcausa de suas anlises industriais estticas e estruturais,ao passo que o campo da poltica possui uma amplatradio em enfatizar a perspiccia, a criatividade, e atmesmo vislumbra que algumas firmas demonstram terencontrado formas nicas de mudar as regras do jogoem suas indstrias (Porter, 1981, p. 613).

    Dadas essas contrastantes orientaes, no surpreen-dente que Aldrich (1979) tenha confiado na literaturada economia industrial para delimitar at que ponto aescolha estratgica est disponvel para as organizaes.Esse argumento circunda a premissa da existncia de ni-chos, ou combinaes distintas de recursos e outras res-tries no ambiente. O conceito de nicho implica enfo-que nas populaes organizacionais em vez de nas orga-nizaes individualmente, pois a distribuio dos recur-sos econmicos e de outros tipos, que formam os nichos,prov suporte a espcies completas de organizaes. Odestino de cada organizao individual est atrelado aofato de pertencer a um tipo particular de populao, poisas organizaes no conseguem se adaptar facilmente anichos diferentes. As foras macroeconmicas, sociais epolticas que apiam o surgimento e a dissoluo de ni-chos subjugam a ao gerencial estratgica a longo pra-zo, pois apenas algumas poucas organizaes, poderosase politicamente bem relacionadas, conseguem reagir deforma significativa a essas foras.

    Em contrapartida, os tericos da escolha estratgicavem o ambiente como um domnio, que os gestoresordenam, definem e influenciam (Levine e White, 1961).Rumelt (1979) reagiu ento posio da seleo naturalargumentando que a capacidade de adaptao a novosnichos refletida numa postura estratgica particular,adotada individualmente pelos gestores das organizaes.A presena de estratgias idiossincrticas produz varia-es de desempenho entre as organizaes que perten-cem s mesmas espcies, mas que conseguem criar seusprprios nichos de mercado e produtos distintos. Assim,so as transaes particulares com as quais os gestores

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    das organizaes se comprometem que alteram suas po-sies no ambiente, sem alterar o prprio ambiente(Rumelt, 1979). Outros tericos tm argumentado quemesmo a macroestrutura do ambiente se altera em res-posta s estratgias corporativas. Caves e Porter (1977)e Salop (1979), por exemplo, mostraram como os gesto-res podem influenciar ou mesmo impedir a entrada desuas firmas em indstrias escolhendo cuidadosamentesuas estratgias. Tais observaes requerem que a pre-missa tradicional da economia industrial de que a es-trutura da indstria relativamente constante, alm deser o principal determinante da estratgia sejacontrabalanada por uma teoria de estruturas industri-ais dinmicas, que, em vez de considerar a indstriasomente como uma varivel independente que determi-na o comportamento da firma, tambm trate a estruturade mercado como uma varivel dependente, que venha arefletir as estratgias passadas das firmas na indstria,atravs do tempo (Brock, 1981).

    O contraste entre as vises da seleo natural e da es-colha estratgica cristaliza-se na modificao feita porWeick (1979) do modelo de variao, seleo e reten-o, utilizado pelos ecologistas populacionais (e.gAldrich, 1979) e reclassificado como um modelo de or-denao, seleo e reteno. A substituio feita porWeick da ordenao pela variao serve para enfatizarque os gestores constroem, rearranjam, selecionam edestroem muitas caractersticas objetivas que os cercam,quando definem e criam literalmente suas prprias res-tries (Weick, 1979, p. 164). Os critrios de seleo noso to incorporados s condies ambientais externasquanto fixados nos membros organizacionais. A seleoconquista espao quando os indivduos impem signifi-cados e do sentido a seus dados brutos ordenados. Es-ses padres de dados que se ajustam a seus esquemas deinterpretao e a seus repertrios cognitivos so seleci-onados por eles, enquanto o resto eliminado. Os critriosde seleo so especficos para os indivduos particula-res nas espcies organizacionais, em vez de serem trans-mitidos a espcies completas de organizaes, como res-tries dos nichos. Mais uma vez, o processo de retenono pertence s caractersticas do ambiente, mas a ma-pas causais, construdos a partir das experincias pas-sadas dos indivduos. Esses mapas causais reforam pro-cessos de ordenao e seleo, provendo-os com suges-tes, padres de observaes e processos de exame emonitoramento, que desempenham papel ativo na cons-truo de um ambiente artificial a partir do ambienteobjetivo. Conseqentemente, Weick insiste em que am-bientes significativos so produtos da organizao, e no

    insumos para ela, como afirmariam os ecologistas popu-lacionais. O modelo da variao, seleo e reteno pa-rece assim igualmente compatvel com ambas as vises,da seleo natural e da escolha estratgica.

    O fato de no haver algo pertencente ao modelo davariao, seleo e reteno que tenda para a orientaodeterminista sugere que o sucesso dos ecologistas popu-lacionais em atribuir a primazia causal ao ambiente seapia mais na adoo caracterstica de um nvel de anli-se populacional do que em qualquer outra coisa. A aode organizaes individuais parece contar pouco em facedas tendncias demogrficas de longo prazo que afetampopulaes inteiras. Se for verdade, contudo, que a apli-cao bem-sucedida do modelo de ecologia populacio-nal seleo ambiental se apia nos seus nveis de anli-se (Aldrich, 1979, p. 107), ento as concluses tericasda ecologia populacional que enfatizam a importnciade restries ambientais externas so baseadas em umacombinao analtica das duas dimenses da Figura 1.

    Em outras palavras, o modelo de ecologia populacio-nal atribui ao ambiente o que o nvel de anlise popula-cional realmente alcana. Se focarmos populaes deorganizaes, as escolhas estratgicas das organizaesindividuais devem assumir importncia mnima. as-sim simplesmente porque a troca do nvel de anlise estdestinada a alcanar apenas aquele efeito. Ao procurarentender as dinmicas que sustentam as distribuies deorganizaes agregadas pelas condies ambientais, ado-tamos um foco macro na populao, antecedendo auto-maticamente, assim, uma viso micro das atividades deorganizaes individuais. Mas concluir, a partir de enfo-ques restritos, que o ambiente possui uma primazia, eque o ambiente que seleciona (Hannan e Freeman,1977), menospreza incorretamente o papel dovoluntarismo na vida organizacional. Apesar de ainda serverdade que as aes de pequenas organizaes indivi-duais pouco importam para as tendncias de longo pra-zo identificadas com o nvel populacional, no se devesucumbir seduo de representar esse fato em termosde foras naturais vagas e de restries externas localiza-das num ambiente annimo. Isso confirmado pelo fatode que possvel usar um nvel de anlise populacionalligado a uma orientao voluntarista, como ilustra, a se-guir, o contraste entre as vises da seleo natural e daao coletiva.

    Agregados econmicos versuscoletividades polticas: Q3 vs. Q4Deve o ambiente ser visto como um simples agregado deorganizaes governadas por foras econmicas exter-

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    nas, ou como uma coletividade de organizaes integra-da e governada por suas prprias foras sociais e polti-cas internas? No nvel da anlise populacional, a dialti-ca do voluntarismo-determinismo entre as teorias ecol-gicas enfoca duas questes: 1) a definio de popula-o propriamente dita; e, 2) se as populaes organiza-cionais so conduzidas por dinmicas econmicas oudinmicas sociais e polticas. Essas duas questes inter-relacionadas sero separadas por conta de uma clarifica-o analtica.

    Na viso da ecologia populacional, uma populao definida como um agregado de organizaes relativa-mente homogneas (Hannan e Freeman, 1977). Todasas organizaes da populao compartilham certos ele-mentos-chave que constituem sua forma comum e,conseqentemente, uma vulnerabilidade recproca aoambiente. Essa vulnerabilidade comum explica a ocor-rncia e a distribuio de diferentes espcies organiza-cionais em diferentes condies ambientais.

    Em contrapartida, os humano-ecologistas (Hawley,1950, 1968; Duncan, 1964; Boulding, 1978) no defi-nem uma populao em termos de sua suscetibilidadecomum ao ambiente, mas em termos da padronizaointerna das relaes entre os membros que a constitu-em. Para os humano-ecologistas, a populao no umaaglomerao incoerente, mas sim uma organizao coe-rente um sistema integrado, com algum grau de ca-rter unitrio (Hawley, 1968). A organizao inter-na o grande atributo que transforma o grupo de orga-nizaes em uma coletividade, com suas caractersticasprprias e distintivas.

    A concepo de comportamento coletivo dos huma-no-ecologistas se estende alm da noo de Hannan eFreeman de populaes de espcies nicas. Essas popu-laes consistem em um conjunto homogneo de orga-nizaes que compartilham uma relao competitiva eintra-especfica, conhecida como comensalismo. Paraos humano-ecologistas, uma populao surge somentequando a qualidade de unidade corporativa ou de coe-so interna pode ser a ela atribuda. Tal coeso deriva deuma interdependncia funcional, que se desenvolve basede diferenas complementares entre unidades heterog-neas, especialmente as que compartilham uma relaointerespecfica, conhecida como simbiose.

    Na viso da ecologia humana, a adaptao obtm es-pao por um mecanismo de formao de redes fechadas.A simbiose resulta do fato de que algumas organizaesse tornam funcionalmente especializadas na obteno derecursos diretamente do ambiente, enquanto outras ga-rantem seus recursos ao organizar a demarcao de limi-

    tes. Dessa forma, o funcionamento interno da populao protegido dos efeitos ambientais, representando umesforo criativo e coletivo da populao para gerenciar econtrolar sua existncia, parcialmente livre da necessi-dade de reagir s intruses do ambiente. A uniosimbitica aumenta a eficincia da produo, ou do es-foro criativo; a unio comensal, j que suas partes sohomogneas, pode apenas reagir, e o faz, portanto, so-mente em aes protetoras e conservadoras (Hawley,1968, p. 332).

    Por seu enfoque nas populaes de organizaes ho-mogneas, relacionadas de forma comensalstica ou seja,indiretamente relacionadas devido dependncia comumdo ambiente , a viso da seleo natural chama a aten-o para a condio de sistema aberto, em que cada mem-bro da populao interage diretamente com o ambientee, por isso, por ele diretamente influenciado. A influn-cia ambiental destacada ao se definir a populao emtermos de sua vulnerabilidade ambiental compartilhada.Por definio, quanto maior essa vulnerabilidade, maioro efeito populacional.

    Por seu enfoque na interdependncia simbitica e domovimento em direo s redes fechadas, removendo amaior parte da populao do contato direto com o am-biente, a viso da ecologia humana diminui automati-camente os efeitos do ambiente, enquanto destaca asconstrues sociais da ao coletiva. Por definio,quanto maior for o isolamento da influncia do ambien-te com o fechamento do sistema, maior ser o efeitopopulacional.

    Em resumo, a ecologia populacional foca sua atenono ambiente natural, constitudo por foras fora de al-cance do controle organizacional. As organizaes po-dem disputar entre si recursos ambientais, em uma con-corrncia competitiva pela sobrevivncia, mas enfim seusdestinos so determinados pelo ambiente. Em contra-partida, a ecologia humana foca a ateno na construode um ambiente social protetor, que substitui o ambien-te natural como influncia crtica. Com efeito, os gruposconspiram em simbiose para assegurar a existncia con-tnua das redes interorganizacionais como um todo.

    Esse enfoque contrastante entre os ambientes natu-ral versus social tem tambm implicaes para a ava-liao de cada viso constituinte da dinmica essencialem que se baseia a atividade organizacional. Assim, paraos ecologistas populacionais, as presses ambientais fa-zem da competio por recursos a fora fundamental dasatividades organizacionais (Aldrich, 1979, p. 27-28), eo modelo de ecologia populacional deve funcionar me-lhor em ambientes dotados de recursos dispersos

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    (Aldrich, 1979, p. 111), ou seja, em ambientes que seaproximam dos mercados de perfeita concorrncia.4 Todaa noo de que os relacionamentos entre as organizaesso indiretamente mediados por processos naturais am-bientais implica que algo semelhante mo invisvelde Adam Smith (1937) esteja operando. A dinmica essencialmente a mesma da competio econmica.

    Por outro lado, a nfase dos humano-ecologistas emambientes socialmente construdos e regulados tende adestacar mais a importncia das foras sociais e polticasmais do que das econmicas. O poder passa a desempe-nhar um papel explcito quando as unidades diretamen-te responsveis pela obteno de recursos do ambientenatural conseguem regular as condies essenciais parao funcionamento de outras unidades da rede, que possuemrelaes apenas indiretas com esse ambiente. Ainda quealgum grau de poder seja retido por todas as unidades,esse poder varia inversamente com o nmero de estgiosem que cada unidade removida do contato direto como ambiente, resultando que as relaes de poder entre asorganizaes se desenvolvem de forma ainda mais ela-borada quando as redes interorganizacionais alcanamum maior grau de fechamento (Hawley, 1968). Quandoisso ocorre, a negociao poltica desempenha um papelgradativamente mais importante na regulao de fluxosde recursos econmicos em toda a rede. Apesar de essesfluxos de recursos ainda poderem se caracterizar comotrocas econmicas, na medida em que os membros po-derosos da rede consigam definir seus prprios termosde troca e os imponham aos demais, exige-se uma anli-se poltico-econmica. Benson (1975) afirmou que o pro-cesso de aquisio de recursos em redes interorganiza-cionais est inevitavelmente ligado distribuio de po-der, e deve ser adequadamente analisado como uma eco-nomia poltica.

    Outro aspecto desse mesmo debate surge entre oseconomistas industriais e os economistas polticos, e rela-ciona-se crescente dominao dos grandes negcios nocerne das redes interorganizacionais. A construo de umambiente social artificial em uma comunidade de orga-nizaes uma forma de garantir imunidade s realida-des da competio no ambiental natural. Uma formaigualmente importante controlar o ambiente naturalabsorvendo-o nos limites corporativos de empresas in-dividuais. Galbraith (1967) e Edwards (1979) tm indi-cado essa eliminao do intercmbio do mercado comoo principal mtodo de promover o controle econmicopor parte de uma elite de grandes corporaes. Edwards(1979, p. 83) fornece evidncias disso, notando que asfuses de empresas que controlam menos de 50% de seus

    mercados falham com freqncia quase trs vezes maisdo que as de firmas com maior controle do mercado,enquanto estas ltimas recebem aproximadamente lucros30% maiores que as primeiras.

    Enquanto esses autores destacam mais a importnciapoltica desse fenmeno do que a econmica, outros otm incorporado ao modelo de seleo natural. Comonotamos anteriormente, Williamson (1975) argumentouque os grandes negcios crescem quando os mercadosfalham na alocao eficiente de recursos, tanto que necessrio um monitoramento hierrquico das transa-es para restaurar a racionalidade econmica pela re-duo de custos. Similarmente, Chandler (1977) argu-mentou que a eficincia administrativa auxilia o cresci-mento de grandes negcios porque estes tm planejamen-to e coordenao de produtos padronizados, em inds-trias de grande escala. Em outras palavras, as foras eco-nmicas especialmente as vantagens econmicas daintegrao vertical levaram ao surgimento de grandesempresas, pois as firmas que no se ajustaram s condi-es das mudanas mercadolgicas e tecnolgicas pormeio da interiorizao do ambiente no conseguiramcompetir e foram excludas.

    Perrow (1981) criticou essa explicao de eficincianeutra por no considerar a possibilidade de que a inte-grao vertical ganha espao com o propsito um tantoabominvel de cortar os suprimentos dos competidoresou de dominar os meios de distribuio, em vez de sim-plesmente reduzir os custos econmicos. Ainda que eletenha concordado que os fatores econmicos fornecem ascondies necessrias para a integrao vertical ganharespao j que nem todas as indstrias realizam ou po-dem realizar a integrao vertical , o controle do podere do mercado e no a eficincia econmica que d a moti-vao essencial para tal crescimento. Assim, surge nova-mente a dialtica: a concentrao industrial um poderhegemnico; o sucesso econmico uma dominao po-ltica; a organizao corporativa um controle social.

    Ao individual versus ao coletiva: Q2 vs. Q4Estar o comportamento organizacional preocupado prin-cipalmente com a ao individual ou com a coletiva? Essaquesto enfoca a tenso bsica entre os modelos de refe-rncia individuais e coletivos, quando so apresentadosem nveis micro e macro de anlise organizacional. Es-sencialmente, as teorias organizacionais e de gesto as-sumiram uma orientao de interesse individual, aderin-do ao modelo racional de comportamento administrati-vo. Em contrapartida, o problema do interesse coletivopermanece em grande medida ignorado.

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    O axioma bsico do comportamento racional ma-ximizar ou, ao menos, satisfazer interesses individuais(Simon, 1976). Aceita-se uma ordem de preferncia con-sistente, em que os indivduos ou as organizaes tmuma funo objetiva e claramente especfica, com a qualconseguem selecionar a melhor de uma srie de alterna-tivas. Se aceitarmos que as organizaes possuem me-tas e que tais metas tm algumas propriedades clssicasde estabilidade, preciso e consistncia, podemos tratara organizao como um tipo de ator racional (March,1981, p. 215). De fato, toda a teoria do comportamentoracional nas organizaes se apia na premissa de queseus participantes compartilham objetivos comuns, sema qual o trabalho cooperativo em equipe no seria pos-svel (Simon, 1976).

    Mas os stakeholders organizacionais com freqnciapossuem objetivos conflitantes, particularmente em si-tuaes de escassez. Ento, o modelo racional no setransforma em uma teoria competitiva dos jogos, commatrizes de retornos probabilsticas para cada participan-te, nem so realizadas tentativas de alterar as prefernciasde partes discordantes em um consenso de que o traba-lho em equipe prevalea novamente. As teorias clssi-cas da firma lidam com esse problema em dois estgios.Primeiro, as demandas conflitantes so convertidas empreos, tendo cada indivduo negociado os termos ne-cessrios para concordar em procurar as preferncias dooutro. Segundo, os gestores e empreendedores impemseus objetivos organizao em troca de salrios nego-ciados e pagos aos empregados (March, 1981). Almdessas negociaes salariais, as organizaes utilizamelaborados sistemas de motivao, promoo, recom-pensas e controles, para manter a ordem e o consensoentre os participantes organizacionais. Assim, o con-trato de trabalho reforado por um sistema de incen-tivos que fornece aos administradores meios de assegu-rar o consenso dos empregados em prol dos objetivosorganizacionais.

    nesta linha que Olson (1965) argumentou que, porser sempre possvel aproveitar-se do esforo alheio (freerider problem), no h justificativa racional para que in-divduos contribuam para os bens coletivos. Em pe-quenos grupos, ou oligarquias, os indivduos podemquerer contribuir voluntariamente para obter bens cole-tivos por uma norma comum de reciprocidade, confian-a interpessoal, amizade, presso social, ou uma preocu-pao altrusta com o bem-estar do grupo como um todo.Entretanto, para grandes grupos esses incentivos dimi-nuem, e o problema de gerao da ao coletiva crescede modo agudo. Para Olson (1965, p. 51), apenas um

    incentivo individual e seletivo estimular um individuoracional em um grupo latente a agir de forma orientadapelo grupo.

    Reagindo a esse mpeto individualista dos economis-tas clssicos, para quem o indivduo humano age de certaforma como um tomo (Commons, 1950, p. 36),Commons (1950, p. 14) argumentou que os indivduosno so entidades independentes nem auto-suficientes;e a sociedade no a soma dos membros individuais. Aliberdade individual no um direito inato; uma con-quista coletiva. A nica forma de a liberdade individualser obtida pela aderncia coletiva s regras que defi-nem e protegem os direitos individuais de todos. Osdireitos e regras no so determinados individualmente;vm de normas, costumes e leis impostos por uma sobe-rania. Commons se referiu a essas normas, costumes eleis como regras de funcionamento da ao coletiva,uma noo baseada no conceito legal do homem razo-vel. O homem razovel segue uma lgica bem diferentedaquela do homem racional (Van de Ven e Freeman,1983). No direito, o homem razovel deve atender a umpadro de conduta uniforme e coletivo. Este determi-nado por uma avaliao comunitria e deve ser o mesmopara todas as pessoas, pois a lei no deve apresentarfavorecimentos (Prosser, 1971, p. 150).

    Porm, o comportamento razovel no nega o com-portamento racional e proporciona um modelo institu-cional em que ele consegue atuar. Os indivduos buscamclaramente seus prprios objetivos, tentando maximizarseus interesses da melhor maneira possvel em determi-nadas condies. Conseqentemente, o conflito e a rup-tura so to presentes e importantes quanto o consensoe a ordem, fato reconhecido pela perspectiva pluralistade Lindblom (1965), Wilson (1973), e Dahl e Lindblom(1976). Esses autores analisam a ao coletiva como umprocesso incremental, que surge de ajustes mtuos entregrupos de mltiplos interesses partidrios. Ainda que osatores partidrios persigam seus prprios interesses, fa-zem-no, no entanto, dentro de limites, necessitando ne-gociar com os demais para estabelecer compromissoscoletivamente aceitveis. Essa a funo desempenhadapelas regras da ao coletiva: incorporam uma ordeminstitucional, que define o limite em que os indivduosconseguem realizar sua prpria vontade.

    Esse debate da ao individual versus a coletiva ficaevidente na literatura sobre os relacionamentos entre asorganizaes e o ambiente. Prevalece novamente a pers-pectiva do indivduo como ator racional, fato refletidopela tendncia de autores a adotar o ponto de vista daorganizao em foco. Por exemplo, a teoria da depen-

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    dncia de recursos (Pfeffer e Salancick, 1978) atesta queos gestores perspicazes procuram aumentar seu poderem relao s fontes limitadas de dependncia do ambien-te, alcanando, de um lado, barganhas favorveis juntoaos parceiros de troca, e de outro, evitando desacordoscustosos. Os recursos necessrios precisam ser adquiri-dos, mas apenas de forma defensiva, evitando a reden-o da organizao a uma autonomia excessiva, ou a umagrande dependncia de grupos externos (Thompson eMcEwan, 1958). A interao resultante vista como umtipo de jogo: os gestores reagem estrategicamente smanobras dos outros. Mesmo os casos de colaboraoaparente so analisados do ponto de vista da teoria dosjogos. Assim, parcerias, coalizes e acordos informais sovistos como jogos de causas mistas. Trata-se de alianascom propsitos convenientes, porm temporrias, feitassomente para atenderem ao prprio interesse de cadaparceiro da coalizo, e enquanto puderem faz-lo.

    Por outro lado, uma orientao genuinamente coleti-va tambm aparece na literatura organizacional-ambien-tal. Benson (1975) e Pefeffer e Salancick (1978, p. 147)tm esboado algumas normas ou regras de funciona-mento da ao coletiva , que operam nas redes interor-ganizacionais. Tais normas estabilizam o funcionamen-to coletivo de sistemas de organizaes interdependen-tes e, ainda assim, no suplantam completamente a au-tonomia, a busca de interesses localizados ou o surgi-mento de conflitos entre organizaes. Em vez disso, fa-cilitam ajustes mtuos entre os mltiplos interesses par-tidrios, em um sistema pluralista que no nem indivi-dualista e anrquico, nem totalitrio. Como indicaramMetcalfe (1974) e Van de Ven (1980), a participaopluralista pode reconciliar tanto os interesses seccionaisquanto o bem-estar coletivo nas relaes interorganiza-cionais.

    Mas um problema permanece: se as organizaes re-presentam interesses secionais, por que aderem volunta-riamente s regras coletivas de funcionamento particu-larmente s que no so legalmente impostas , em vezde tentar explorar inexoravelmente as dependncias dasoutras? A resposta est na compreenso de que, aointeragir, os representantes das organizaes comparti-lham valores que transformam os interesses secionais emorientaes coletivas. Quando os padres de atuaoconvenientes so descobertos por tentativa e erro, ten-dem a se repetir. Posteriormente, os gestores que intera-gem continuamente passam a compartilhar a idia de queessa a forma como as coisas devem ser feitas. Comtal desdobramento, as normas se dissociam das situaesespecficas em que surgiram no incio, e passam a ser

    generalizadas, cobrindo boa parte da atividade coletiva.Assim, assumem o papel de foras sociais autnomas,conduzindo e regulando a ao coletiva. Essa a funodesempenhada pelas estruturas de pensamento institu-cionalizadas de Warren, Rose e Bergunder (1974), e pelaracionalidade de classe de Useem (1982), nas redes inte-rorganizacionais.

    Assim se interiorizam os padres normativos de inte-rao interorganizacional, constituindo o que Durkheim(1933) chamou de base moral dos contratos sociais.Isto , as normas adquirem um senso de moralidade emvez de uma inclinao pragmtica, de modo que os res-ponsveis por decises organizacionais so impelidos aaceit-las e execut-las. No entanto, a obrigao moralno deve ser interpretada como uma limitao externa,pois para Commons e Durkheim uma fora libertadora.Ao criar padres estveis de associaes coletivas, livraas organizaes da necessidade de criar novos padresde atuao para cada situao enfrentada. A complacn-cia com as normas mais voluntria do que coercitiva.Isso representa a adoo de uma orientao coletiva, coma qual os gestores e as organizaes se identificam.

    Em resumo, os grupos organizacionais so atores in-dependentes e tambm membros envolvidos em umacoletividade maior. De um lado, agem de maneira aut-noma para maximizar as chances de conseguir seus ob-jetivos individuais, alheios aos da coletividade. De outrolado, aderem aos padres unificantes de ordens sociais eculturais, ao assumirem responsabilidades parciais emuma entidade social maior. Em outras palavras, o gestoratua como jogador e poltico. A necessidade de estabele-cer um equilbrio entre essas presses opostas forma abase do que Thompson (1967, p. 48) descreveu como oparadoxo da Administrao. A existncia desse parado-xo produz no apenas contradies na prtica da vidacotidiana das organizaes, mas tambm, como vimos,uma tenso dialtica na teorizao.

    Organizaes versus instituies: Q1 vs. Q4Sero as organizaes instrumentos tcnicos, neutros,construdos para atingir metas, ou manifestaes insti-tucionalizadas dos interesses e da estrutura de poder dasociedade? O ponto de partida desse debate a distinofeita por Selznick (1957) entre organizaes e insti-tuies. De acordo com Selznick, as organizaes sodelineadas de acordo com uma lgica de eficincia; soinstrumentos tcnicos da mobilizao de atividades emprol de um conjunto de objetivos. Podem ser considera-das ferramentas a ser usadas ou instrumentos racionais,construdos para a execuo de uma tarefa. Diferente-

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    mente, as instituies incorporam valores e no ape-nas os requisitos tcnicos para a execuo da tarefa emquesto. So organismos que respondem e soadaptativos, produtos das necessidades e presses so-ciais, que as moldam e formulam. Como tal, incorpo-ram respostas e interesses prprios dos seus ambientes.Como indicam Meyer e Rowan (1977), as instituiesso menos significativas por seus atributos tcnicos doque pelo papel que desempenham na sociedade; simples-mente refletem as estruturas institucionais em que estoinseridas.

    H pouca dvida de que a imagem da organizaocomo ferramenta tem dominado a histria da teoria or-ganizacional, como demonstra o Modelo Racional pre-valecente de Gouldner (1959). Mas h uma reao con-tempornea a essa escola de pensamento, desde que Child(1972) atacou a explicao da teoria da contingncia acer-ca do comportamento organizacional por sua refernciaa imperativos funcionais, em vez da ao poltica. Essacrtica ganhou particularmente fora com o trabalho dostericos radicais, dos marxistas e dos tericos da econo-mia poltica (Marglin, 1974; Stone, 1974; Clegg; 1975,1979, 1981; Benson, 1977a, Goldman e Houten, 1977;Salaman, 1978; Burawoy, 1979; Edwards, 1979; Clegg eDunkerly, 1980; Clawson, 1980). Esses autores rejeita-ram a idia de que a estrutura organizacional sejadelineada com base numa lgica neutra de eficcia tc-nica. Em vez de ver as restries estruturais como neces-sidades funcionais, cuja existncia se justifica pela refe-rncia aos ideais de eficincia e racionalidade, cha-maram a ateno para as funes e vantagens secionaisde elementos organizacionais aparentemente neutros, eexpuseram a eficincia e a racionalidade como ideologiasque estimulam, encobrem e justificam a natureza noigualitria das estruturas organizacionais. Em vez da efi-cincia tcnica, a dominao poltica considerada a baseda delineao da estrutura organizacional.

    O argumento convencional de que os mtodos de pro-duo capitalista so mais produtivos que suas formasanteriores do trabalho organizacional por serem maiseficientes normalmente contraposto pela questo efi-ciente para quem? (Perrow, 1980). A crtica aqui deque a eficincia definida de forma a atender aos inte-resses da gesto. Uma definio neutra mediria a eficin-cia de um processo de transformao pela razo entreseus resultados e insumos: quanto maior a razo, maiseficiente o processo de transformao. Entretanto, con-sidera-se que, se o capitalismo mais produtivo que osmodos de produo anteriores, no porque seu proces-so de transformao seja tecnicamente superior, mas

    porque seu sistema de controle capacitou os gestores, naaquisio de fora de trabalho, a extrair dos trabalhado-res um valor de produo maior do que precisavam em-pregar. Em outras palavras, maior produtividade resultade maiores insumos de trabalho em vez de um trabalhode transformao mais eficiente. Certamente, isso faz comque a produo capitalista parea mais eficiente para agesto, mas eficiente apenas de seu prprio ponto devista (Clawson, 1980). Para os trabalhadores, representaapenas explorao e dominao.

    De acordo com essa viso, a forma de organizao ca-pitalista no conduzida por leis imutveis de eficinciatcnica, mas por interesses socialmente moldados daselites gerenciais. Ademais, tal dominao consideradaenraizada em fatores que emanam de circunstncias par-ticulares de fora da fbrica, na medida em que ocorre emum contexto social mais amplo. Por exemplo, Edwards(1979) explicou a explorao capitalista referindo am-plamente os desdobramentos da fora de trabalho: a trans-formao da fora de trabalho em proletariado, o deslo-camento da agricultura para a indstria, o declnio daimportncia das habilidades dos trabalhadores, e a seg-mentao dos mercados de trabalho. Foi assim que Burrell(1981) descreveu as condies organizacionais contem-porneas, como epifenmenos de foras que permeiama sociedade. A dominao poltica nos locais de trabalho o reflexo das dinmicas mais abrangentes do capitalis-mo. Eventos aparentemente distantes dos locais de tra-balho propriamente ditos impem importantes limita-es s relaes nesses locais. Sob essa luz, o confrontoentre trabalhadores e gerentes nas organizaes deve servisto como simplesmente um microcosmo da arena maisabrangente do conflito de classes.

    Assim, o foco se desloca da problemtica da estrutu-rao racional (Benson, 1979), inerente visosistmico-estrutural, para os relacionamentos entre re-des que se definem social e politicamente numa viso daao coletiva. A unidade caracterstica de anlise passa aser a estrutura do ambiente social propriamente dito (M.Meyer, 1978). A estrutura e o funcionamento organiza-cional devem ser vistos em termos de prioridades da so-ciedade hospedeira em vez das conseqncias das for-mas processuais ou tecnolgicas particulares dos proces-sos de trabalho (Salaman, 1978). A organizao vem arefletir sua prpria histria (Stinchcombe, 1965; Meyere Brown, 1977) por uma assimilao de valores e deman-das impulsionados por uma srie de interesses conferi-dos pela sociedade (J. Meyer, 1978; Perrow, 1979). O ar-gumento da dominao poltica requer, portanto, quedesloquemos o foco analtico do determinismo das con-

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    sideraes acerca da eficincia, interno s organizaes,para as amplas dinmicas sociais, que se desenvolvemno nvel coletivo de anlise.

    DISCUSSO

    Ao comparar e contrastar quatro vises bsicas da teoriaorganizacional (veja a Figura 1), abordamos seis debatespresentes na literatura organizacional.5 Eles fornecem es-clarecimentos importantes para a compreenso de certastenses dialticas da vida organizacional. Por meio dosdebates, as tenses enfocaram as formas estruturais emoposio ao pessoal (debates 1 e 4), e as relaesentre a parte e o todo (debates 2 e 5), bem como a intera-o entre estas duas fontes de tenso organizacional (de-bates 3 e 6). Em concluso, especulamos a importnciadessas duas abrangentes tenses dialticas para direcio-nar futuras pesquisas em teoria organizacional. Os prin-cpios da anlise dialtica de Benson (1977b) so parti-cularmente relevantes para essa discusso.

    O primeiro princpio de Benson (1977b) a produ-o/construo social. Resumidamente, o autor defen-deu que uma organizao, como parte de um mundosocial, est sempre na situao de tornar-se algo. Con-seqentemente, deve-se focar a ateno nos mecanismospelos quais uma forma organizacional estabelecida con-tinuamente construda, mantida, reproduzida ereconstruda. Essa a tarefa com que se comprometemas teorias situadas do lado direito da Figura 1. Mas Benson(1977b) tambm indica que os processos explicativos dosurgimento e da dissoluo das organizaes ocorrem emuma estrutura social que restringe as aes organizacio-nais. A anlise dessas foras restritivas distingue as teo-rias situadas do lado esquerdo da Figura 1. Esses doisconjuntos oponentes de foras so discutidos abaixo,como uma interao entre formas estruturais e aopessoal.

    O segundo princpio da anlise dialtica referido porBenson (1977b) como o princpio da totalidade. Talprincpio expressa um comprometimento com o estu-do de arranjos sociais na condio de complexas totali-dades inter-relacionadas a partes parcialmente autno-mas. Por outro lado, as organizaes so vistas comointrincadamente atadas ao contexto social em que se in-serem: so consideradas partes constituintes de padrese foras maiores que se desenvolvem na sociedade. Masas organizaes tambm so capazes de realizar por simesmas aes parcialmente autnomas, o que gera ten-ses entre as partes e o todo. Essa fonte de tenso cap-

    tada pela interao entre o nvel mais baixo e o mais altoda Figura 1, sendo discutida abaixo.

    Formas estruturais e ao pessoalAs formas estruturais e a ao pessoal so questes cen-trais de interesse da teoria organizacional e gerencial.Conquanto o determinismo e o voluntarismo sejam teispara classificar as teorias organizacionais, orientam ina-dequadamente a investigao. Isso porque pressupemque as vises deterministas da estrutura organizacionale as vises voluntaristas da ao pessoal sejam mutua-mente exclusivas. De fato, ambas as vises so conjunta-mente necessrias para o desenvolvimento de uma apre-ciao dinmica das organizaes.

    As organizaes, enfim, no so fenmenos puramenteobjetivos nem puramente subjetivos. So sistemas ob-jetivos na medida em que exibem estruturas apenas par-cialmente modificveis por aes pessoais, mas so sub-jetivas na medida em que essas estruturas abrigam indi-vduos que atuam com base em suas prprias percep-es, e podem agir tanto de forma previsvel como im-previsvel. As questes e problemas de interesse, ento,esto em saber como as formas estruturais e as aespessoais se inter-relacionam e produzem tenses que es-timulam mudanas atravs do tempo.

    Por exemplo, no nvel individual, de um lado h oproblema de selecionar, socializar e controlar os indiv-duos para posies e tarefas na estrutura, e de outro,examinar como as aes pessoais com o temporeestruturam essas posies. Com o passar dos anos,surgem tenses e desajustes entre as vrias aspiraes,necessidades e crescimento pessoal dos indivduos e asvrias opes de carreira, promoo e mobilidade naestrutura organizacional.

    No nvel de grupo, produz-se uma tenso contnuaquando a diviso e a integrao estrutural do trabalho edos recursos das subunidades influenciam e so influen-ciadas pelo surgimento sociopsicolgico de diversas nor-mas, padres de interao, conflitos e relaes de poderno interior dos grupos e entre estes. No nvel organiza-cional, est a questo de que a estrutura organizacional tanto causa como conseqncia das transformaes am-bientais e das escolhas estratgicas dos indivduos pode-rosos dentro e fora da organizao. Finalmente, no nvelpopulacional, esto as questes de que os nichos organi-zacionais ou as estruturas de mercado so produtos erestries da ao coletiva, alcanados por meio de umalonga srie de disputas e barganhas polticas entre gru-pos partidrios, assim como por meio de normas sociaise culturais.

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    Essas questes interessam primeiramente porque ad-mitem ambas as vises, determinista e voluntarista, davida organizacional. Em segundo lugar porque sobrepemessas vises, relacionando reciprocamente estruturas for-mais e aes pessoais em nveis comparveis de anlise,e finalmente porque mostram que esses relacionamen-tos se desenvolvem de forma complementar e contradi-tria ao longo do tempo. Infelizmente, os aspectos inte-ressantes dessas questes so em geral abandonadosquando se tenta representar teoricamente esses padresobservveis. Devido a limitaes cognitivas, educacio-nais ou de socializao, certos tericos tendem a reduziressas complexidades observadas a modelos causaisunidirecionais de um conjunto limitado de fatores, vis-tos por meio do isolamento de outras variveis.

    Tais modelos so estreitos e limitados. Como atestouWeick (1979, p. 52), quando dois eventos quaisquerso relacionados de forma interdependente, chamar umdos dois de causa e o outro de efeito uma designaoarbitrria. A maioria dos tericos e gestores enfrentamproblemas porque se esquecem de pensar circularmente[...] Os problemas persistem porque os gestores e teri-cos continuam acreditando que h coisas como causasunidirecionais, variveis dependentes e independentes,origens e fins (Weick, 1979, p. 52). Alm disso, diantedos esforos de identificar causas e efeitos, a parte maisinteressante das questes anteriores tende a ser ignora-da, isto , investigar o processo como ocorrem as rela-es circulares. Dizer que A causa B e que B causa A uma predio, mas tambm algo intelectualmente estrilat que se possa explicar como se desenvolvem os relacio-namentos recprocos no tempo.

    So essas relaes recprocas entre formas estruturaise aes pessoais que tornam a tenso e o conflito carac-tersticos da vida organizacional. Como mostrouGomberg (1964), o prprio conceito de organizao im-plica conflito. Este pode ser interpretado em termos dadialtica hegeliana, em que as formas estruturais exis-tentes so a tese e as aes pessoais contraditrias so aanttese, conduzindo finalmente a uma sntese:

    A estrutura de uma organizao identificada com a tese.

    A hierarquia resultante gera a semente de sua prpria

    oposio, a anttese. A necessidade de reavaliao ge-

    rada no ventre da organizao, pelas atividades da velha

    hierarquia. A necessidade de funes novas e revistas

    cresce at desafiar a hierarquia existente. Essa anttese,

    se totalmente desenvolvida, desafia a hierarquia estru-

    tural existente. Desse choque surge ou declina uma nova

    hierarquia ou um conjunto de relaes, que identifica-

    mos como a nova sntese temporria. Essa sntese surge

    agora como tese, em um novo ciclo de conflitos, e assim

    o processo se repete quando os organizadores inovado-

    res ou os gestores empreendedores buscam satisfao a

    partir da contnua acumulao de tenses, para habilitar

    libertaes subseqentes. A histria da gesto pode ser

    interpretada como esse tipo de processo dinmico

    (GOMBERG, 1964, p. 52-53).

    As relaes entre a parte e o todoMuitos problemas visveis em algum nvel da anlise or-ganizacional manifestam-se de forma diferente e contra-ditria em outros nveis. No nvel micro, enfocam-se ascaractersticas de posies, tarefas e subunidades, bemcomo as habilidades, orientaes, preferncias e aesindividuais. No nvel macro, o enfoque est na configu-rao e no domnio da estrutura global organizacional, enos relacionamentos entre os grupos de tomadores dedecises, dentro e fora da organizao. Entretanto, oquadro de referncia substancialmente alterado quan-do o enfoque est nos relacionamentos entre as partes eo todo, ou entre os nveis de anlise micro e macro.

    Por exemplo, contando com o conceito da necessida-de de variedade, Weick (1979) argumentou que, com acrescente complexidade, incerteza e variao ambiental,a estrutura organizacional como um todo se torna maiscomplexa, frouxamente acoplada, descentralizada, par-ticular e anrquica. Sendo assim, as estruturas das partesindividuais ou dos grupos da organizao se tornaromais simples, fortemente acopladas, hierrquicas, uni-versais e coesas todos eles fatores que conduzem faltade adaptao, estreiteza e inflexibilidade. Apesar deWeick no ter tido claramente a inteno de escreversobre essa conseqncia, ela o resultado do princpiobsico das relaes de oposio entre as partes e o todoproposto por Georg Simmel. Os elementos dos crculossociais diferenciados so indiferenciados, j aqueles dosindiferenciados so diferenciados (Blau, 1964, p. 284).O princpio da necessidade de variedade de Conant eAshby (1970), no nvel macro, torna-se uma lei de indis-pensvel simplicidade no nvel micro.

    As noes de Gouldner (1959) a respeito de interde-pendncia funcional e de autonomia funcional sovaliosas por salientar tal ponto. Gouldner mostrou que apreocupao dos tericos sistmicos com a interdepen-dncia funcional chama a ateno para as restries im-postas pela colaborao conjunta na busca de objetivossistmicos. Entretanto, ele argumentou que tal interde-pendncia nunca uma restrio absoluta, apenas im-pe graus diversos de restrio a diferentes pontos do

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    sistema. Assim, to razovel enfatizar os graus da auto-nomia funcional quanto os da interdependncia funcio-nal. O que aparenta ser uma restrio do ponto de vistado sistema pode parecer liberdade do ponto de vista desuas partes.

    Blau (1964) posteriormente aperfeioou o conceito deGouldner, notando que a dependncia das subunidadesem relao s estruturas sociais que as cercam entra emconflito direto com sua autonomia. O conflito inevi-tvel porque a coordenao centralizada e a autonomiaparcial so igualmente necessrias s coletividades orga-nizadas (Blau, 1964, p. 303). Os relacionamentos entregrupos e coletividades se manifestam por meio de sua in-terdependncia, na mobilidade dos indivduos que atuamcomo representantes de seus prprios grupos e nos seuspapis como membros dos grupos, envolva isso aespara a busca de fins coletivos ou individuais. J que osindivduos podem pertencer simultaneamente a muitosgrupos, a imagem de Blau das relaes entre as partes e otodo no a de crculos concntricos com afiliaesmutuamente exclusivas em cada nvel. Em vez disso, ade crculos em interseco, pois as redes sociais que defi-nem a estrutura dos grupos so transpostas e sobrepos-tas, e as fronteiras entre elas no so precisas nem fixas.Os grupos se expandem e se contraem com a mobilida-de dos membros que esto dentro e fora deles (Blau,1964, p. 284).

    Esse tipo de relao dialtica entre as partes e o todonas organizaes no adequadamente levado em contapor muitas teorias organizacionais. Isso lamentvel,porque possvel mostrar que qualquer teoria macro deordem e consenso inclui uma teoria micro de conflito ecoero, e vice-versa. Por exemplo, o funcionalismo es-trutural das organizaes tem sido atacado pelos teri-cos radicais (Burrell e Morgan, 1979) e tericos da ao(Silverman, 1970), em virtude de sua inabilidade paraexplicar mudanas devido nfase dada ordem, ao con-senso e unidade. Se isso uma verdade no nvelmacroorganizacional, no nvel micro a mudana poss-vel somente devido coero, dominao e ao controledas tendncias de ruptura. No fosse assim, no haverianecessidade de regras, doutrinao, socializao ou me-canismos de controle nas organizaes: esses so concei-tos centrais na viso estruturalista das organizaes. Poroutro lado, as teorias da mudana radical (Burrell eMorgan, 1979) valorizam extremamente as tendnciasde conflito, coero e ruptura nas organizaes, sem ad-mitir que elas s podem ocorrer pela ordem, consenso eunidade no nvel micro. Assim, podemos ver que, quan-do Marx colocou a noo de conflito e confronto entre

    as classes, deixou de dar o merecido reconhecimento sforas de coeso e unidade do seu interior. Como suge-riu Coser (1965), o conflito fora do grupo est associa-do coeso dentro do grupo.

    Em resumo, estudar adequadamente as organizaesem nveis de anlise cruzados entender as reaesdialticas entre as foras dos conflitos, coeres e ruptu-ras no nvel organizacional, e as foras de consenso, uni-dade e integrao em outro nvel foras previamentenecessrias e recprocas.

    CONCLUSO

    Para se ter uma apreciao adequada da teoria organiza-cional deve-se prestar ateno natureza antittica bsi-ca do campo. Enfocamos duas fontes de antteses gen-ricas, manifestas nas dialticas entre estrutura e ao, eentre as partes e o todo. A ampla existncia de tensesgeradas por esses modelos opostos de anlise explicaapenas parcialmente os debates tericos e as contradi-es da teoria organizacional. O terceiro princpio daanlise dialtica de Benson, o princpio da contradio,trata desse ponto. Benson chamou a ateno para as rup-turas, inconsistncias e incompatibilidades da constru-o da vida social (Benson, 1977b). Porque as contradi-es esto difundidas nas organizaes, as teorias quecaptam e refletem os discretos segmentos da vida orga-nizacional so tambm inevitavelmente contraditrias es podem ser dialeticamente conciliadas.

    Mas a teoria das organizaes no apenas reflete a rea-lidade organizacional, mas tambm produz essa realida-de. Como indicou Albrow (1980), a teoria das organiza-es compartilha uma relao dialtica com a vida orga-nizacional. Como outras cincias sociais, ajuda a estru-turar seu prprio objeto de estudo. Ao considerar os fe-nmenos organizacionais, a teoria ajuda a dar objetivi-dade s prticas a que se refere. Essa reflexividade entreeventos tericos e prticos apreendida em um quarto eltimo princpio da anlise dialtica, formulada porBenson (1977b): o princpio da prxis, ou a reconstru-o criativa dos arranjos sociais com base em anlisesracionalmente desenvolvidas.

    Esse entendimento d significncia anlise deste ar-tigo. Sugere que a interao das teorias organizacionais, na realidade, uma disputa quanto futura configura-o do mundo organizacional. Conseqentemente, es-sencial uma conscincia dos valores e tendncias sobreos quais se constri a teoria. Esses valores e tendnciasatuam como premissas dadas como certas nas vises de

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  • RAE-CLSSICOS DEBATES E PERSPECTIVAS CENTRAIS NA TEORIA DAS ORGANIZAES

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    mundo que guiam a teoria, e constituem paradigmas quecanalizam a ateno em direes especficas, obstruindoas investigaes nas esferas alternativa, terica, ideol-gica e prtica. Mesmo quando os tericos organizacio-nais alegam iseno de valores, invariavelmente impli-cam e comprometem valores por meio da construo devises parciais da realidade. Por isso Ritzer (1980, p. 12)afirmou que as cincias multiparadigmticas, como ateoria das organizaes, desempenham funes polticasessenciais. Os proponentes de cada paradigma se engajamem esforos polticos para dominar a disciplina, comoum meio de impor suas prprias concepes da realida-de aos eventos prticos da vida social.

    NOTAS

    Agradecemos, pelas teis sugestes feitas aos rascunhos anteriores desteartigo, a Charles Fombrun, John Bryson, William Gomberg, e aos anni-mos revisores da ASQ. Tambm agradecemos, por seu apoio, ao Centerfor the Study of Organizational Innovation, da Universidade da Pensilvnia,e Charles F. Kettering Fundation.

    1 As abreviaes Q1, Q2, Q3 e Q4 so utilizadas ao longo do artigo paradenotar os quadrantes numerados na Figura 1.

    2 Na realidade, a rotatividade declinou notadamente ao longo do sculoXX nas grandes corporaes (Scherer, 1980, p. 54-56) provavelmente porestarem elas em melhor posio para tirar vantagem de adaptaes insti-tucionais (Meyer e Rowan, 1977; J. Meyer, 1978).

    3 Ainda que a absoro corporativa de contingncias seja uma adaptaofactvel da organizao ao seu ambiente, Thompson deixa claro que taladaptao determinada por uma racionalidade tcnica. A expanso dasoperaes n