poemas de ricardo reis poemas:

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Poemas de Ricardo Reis Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa) (Fonte:http://www.secrel.com.br/jpoesia/reis.html) Poemas: A Abelha que voando A Cada Qual Acima da Verdade A Flor que És Aguardo Aqui, dizeis, na cova a que me abeiro Aqui, Neera, longe Aqui, neste misérrimo desterro Ao Longe Aos Deuses Antes de Nós Anjos ou Deuses A Palidez do Dia Atrás Não Torna A Nada Imploram As Rosas Azuis os Montes Bocas Roxas Breve o Dia Cada Coisa Cada dia sem gozo não foi teu Cada Um Como Coroai-me Cuidas, Índio Da Lâmpada Da Nossa Semelhança De Apolo De Novo Traz Deixemos, Lídia Dia Após Dia Do que Quero Domina ou Cala Estás só. Ninguém o sabe. Este Seu Escasso Campo É tão Suave Feliz Aquele Felizes Flores Frutos Gozo Sonhado Inglória Já Sobre a Fronte

Author: lamdat

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  • Poemas de Ricardo ReisRicardo Reis (heternimo de Fernando Pessoa)(Fonte:http://www.secrel.com.br/jpoesia/reis.html)

    Poemas:

    A Abelha que voando A Cada Qual Acima da Verdade A Flor que s Aguardo Aqui, dizeis, na cova a que me abeiro Aqui, Neera, longe Aqui, neste misrrimo desterro Ao Longe Aos Deuses Antes de Ns Anjos ou Deuses A Palidez do Dia Atrs No Torna A Nada Imploram As Rosas Azuis os Montes Bocas Roxas Breve o Dia Cada Coisa Cada dia sem gozo no foi teu Cada Um Como Coroai-me Cuidas, ndio Da Lmpada Da Nossa Semelhana De Apolo De Novo Traz Deixemos, Ldia Dia Aps Dia Do que Quero Domina ou Cala Ests s. Ningum o sabe. Este Seu Escasso Campo to Suave Feliz Aquele Felizes Flores Frutos Gozo Sonhado Inglria J Sobre a Fronte

    http://www.secrel.com.br/jpoesia/reis.html

  • Lenta, Descansa Ldia Melhor Destino Mestre Meu Gesto Nada Fica No a Ti, Cristo, odeio ou te no quero No a Ti, Cristo, odeio ou menosprezo No Canto No Consentem No Queiras No quero as oferendas No quero, Cloe, teu amor, que oprime No quero recordar nem conhecer-me No S Vinho No s quem nos odeia ou nos inveja No sei de quem recordo meu passado No sei se amor que tens, ou amor que finges No Tenhas Nem da Erva Negue-me tudo a sorte, menos v-la Ningum a outro ama, seno que ama Ningum, na vasta selva virgem No Breve Nmero No Ciclo Eterno No Magno Dia No mundo, S comigo, me deixaram Nos Altos Ramos Nunca Ouvi contar que outrora Olho O que Sentimos Os Deuses e os Messias O Deus P Os Deuses O Ritmo Antigo O Mar Jaz O Sono Bom O Rastro Breve Para os Deuses Para ser grande, s inteiro: nada Pesa o Decreto Ponho na Altiva Pois que nada que dure, ou que, durando Prazer Prefiro Rosas Quo breve tempo a mais longa vida Quanta Tristeza Quando, Ldia Quanto faas, supremamente faze

  • Quem diz ao dia, dura! e treva, acaba! Quer Pouco Quero dos Deuses Quero Ignorado Rasteja mole pelos campos ermos Sbio Saudoso Segue o teu destino Se Recordo Severo Narro Sereno Aguarda Seguro Assento Sim S o Ter S Esta Liberdade Sofro, Ldia Solene Passa Se a Cada Coisa Sob a Leve Tutela Sbdito Intil To cedo passa tudo quanto passa! To Cedo Tnue Temo, Ldia Tirem-me os Deuses Tudo, desde ermos astros afastados Tudo que Cessa Tuas, No Minhas Uma Aps Uma Uns Vem sentar-te comigo, Ldia, beira do rio Vem sentar-te comigo Ldia... Vivem em ns inmeros Vive sem Horas Vs que, Crentes Vossa Formosa

    A Abelha

    A abelha que, voando, freme sobreA colorida flor, e pousa, quaseSem diferena dela vista que no olha,

    No mudou desde Cecrops. S quem viveUma vida com ser que se conheceEnvelhece, distintoDa espcie de que vive.

  • Ela a mesma que outra que no ela.S ns tempo, alma, vida, morte! Mortalmente compramosTer mai vida que a vida.

    A Cada Qual

    A cada qual, como a 'statura, dadaA justia: uns faz altosO fado, outros felizes.

    Nada prmio: sucede o que acontece. Nada, Ldia, devemosAo fado, seno t-lo.

    Acima da Verdade

    Acima da verdade esto os deuses.A nossa cincia uma falhada cpiaDa certeza com que elesSabem que h o Universo.

    Tudo tudo, e mais alto esto os deuses,No pertence cincia conhec-los,Mas adorar devemosSeus vultos como s flores,

    Porque visveis nossa alta vista,So to reais como reais as floresE no seu calmo OlimpoSo outra Natureza.

    A Flor que s

    A flor que s, no a que ds, eu quero.Porque me negas o que te no peo.Tempo h para negares Depois de teres dado. Flor, s-me flor! Se te colher avaro A mo da infausta esfinge, tu perere Sombra errars absurda,Buscando o que no deste.

  • Aguardo

    Aguardo, equnime, o que no conheo Meu futuro e o de tudo.No fim tudo ser silncio, salvoOnde o mar banhar nada.

    Aqui, Dizeis

    Aqui, dizeis, na cova a que me abeiro, No 'st quem eu amei. Olhar nem riso Se escondem nesta leira. Ah, mas olhos e boca aqui se escondem! Mos apertei, no alma, e aqui jazem. Homem, um corpo choro!

    Aqui

    Aqui, Neera, longe De homens e de cidades,Por ningum nos tolherO passo, nem vedaremA nossa vista as casas,Podemos crer-nos livres.

    Bem sei, flava, que indaNos tolhe a vida o corpo,E no temos a moOnde temos a alma;Bem sei que mesmo aquiSe nos gasta esta carneQue os deuses concederamAo estado antes de Averno.

    Mas aqui no nos prendemMais coisas do que a vida,Mos alheias no tomamDo nosso brao, ou passosHumanos se atravessamPelo nosso caminho.

    No nos sentimos presos Seno com pensarmos nisso,Por isso no pensemosE deixemo-nos crerNa inteira liberdadeQue a iluso que agoraNos torna iguais dos deuses.

  • Aqui

    Aqui, neste misrrimo desterroOnde nem desterrado estou, habito,Fiel, sem que queira, quele antigo erroPelo qual sou proscrito.O erro de querer ser igual a algumFeliz em suma quanto a sorte deuA cada corao o nico bemDe ele poder ser seu.

    Ao Longe

    Ao longe os montes tm neve ao sol, Mas suave j o frio calmo

    Que alisa e agudece Os dardos do sol alto.

    Hoje, Neera, no nos escondamos, Nada nos falta, porque nada somos.

    No esperamos nada E ternos frio ao sol.

    Mas tal como , gozemos o momento,Solenes na alegria levemente,

    E aguardando a morte Como quem a conhece.

    Aos Deuses

    Aos deuses peo s que me concedam O nada lhes pedir. A dita um jugo

    E o ser feliz oprimePorque um certo estado.No quieto nem inquieto meu ser calmo Quero erguer alto acima de onde os homens

    Tm prazer ou dores.

    Antes de NsAntes de ns nos mesmos arvoredosPassou o vento, quando havia vento,E as folhas no falavamDe outro modo do que hoje.

    Passamos e agitamo-nos debalde.No fazemos mais rudo no que existeDo que as folhas das rvoresOu os passos do vento.

  • Anjos ou Deuses

    Anjos ou deuses, sempre ns tivemos,A viso perturbada de que acimaDe nos e compelindo-nosAgem outras presenas.

    Como acima dos gados que h nos camposO nosso esforo, que eles no compreendem,Os coage e obrigaE eles no nos percebem,

    A Palidez do Dia

    A palidez do dia levemente dourada.O sol de inverno faz luzir como orvalho as curvas

    Dos troncos de ramos Secos. O frio leve treme.

    Desterrado da ptria antiqssima da minhaCrena, consolado s por pensar nos deuses,

    Aqueo-me trmulo A outro sol do que este.

    O sol que havia sobre o Partnon e a AcrpoleO que alumiava os passos lentos e graves

    De Aristteles falando. Mas Epicuro melhor

    Me fala, com a sua cariciosa voz terrestreTendo para os deuses uma atitude tambm de deus,

    Sereno e vendo a vida distncia a que est.

    Atrs No Torna

    Atrs no torna, nem, como Orfeu, volveSua face, Saturno.Sua severa fronte reconheceS o lugar do futuro.No temos mais decerto que o instante Em que o pensamos certo.No o pensemos, pois, mas o faamos Certo sem pensamento.

  • A Nada Imploram

    A nada imploram tuas mos j coisas, Nem convencem teus lbios j parados,No abafo subterrneoDa mida imposta terra. S talvez o sorriso com que amavas Te embalsama remota, e nas memrias Te ergue qual eras, hoje Cortio apodrecido.

    E o nome intil que teu corpo morto Usou, vivo, na terra, como uma alma, No lembra. A ode grava, Annimo, um sorriso.

    As Rosas

    As Rosas amo dos jardins de Adnis,Essas volucres amo, Ldia, rosas,Que em o dia em que nascem,Em esse dia morrem.A luz para elas eterna, porqueNascem nascido j o sol, e acabamAntes que Apolo deixeO seu curso visvel.Assim faamos nossa vida um dia,Inscientes, Ldia, voluntariamenteQue h noite antes e apsO pouco que duramos.

    Azuis os Montes

    Azuis os montes que esto longe param.De eles a mim o vrio campo ao vento, brisa, Ou verde ou amarelo ou variegado,Ondula incertamente.Dbil como uma haste de papoilaMe suporta o momento. Nada quero.Que pesa o escrpulo do pensamento Na balana da vida?Como os campos, e vrio, e como eles, Exterior a mim, me entrego, filho Ignorado do Caos e da Noite s frias em que existo.

  • Bocas Roxas

    Bocas roxas de vinho, Testas brancas sob rosas, Nus, brancos antebraos Deixados sobre a mesa;

    Tal seja, Ldia, o quadro Em que fiquemos, mudos, Eternamente inscritosNa conscincia dos deuses.

    Antes isto que a vidaComo os homens a vivemCheia da negra poeiraQue erguem das estradas.

    S os deuses socorremCom seu exemplo aquelesQue nada mais pretendemQue ir no rio das coisas.

    Breve o Dia

    Breve o dia, breve o ano, breve tudo.No tarda nada sermos.Isto, pensado, me de a mente absorveTodos mais pensamentos.O mesmo breve ser da mgoa pesa-me,Que, inda que mgoa, vida.

    Cada Coisa

    Cada coisa a seu tempo tem seu tempo. No florescem no inverno os arvoredos, Nem pela primaveraTm branco frio os campos.

    noite, que entra, no pertence, Ldia,O mesmo ardor que o dia nos pedia.Com mais sossego amemosA nossa incerta vida.

    lareira, cansados no da obraMas porque a hora a hora dos cansaos, No puxemos a vozAcima de um segredo,

  • E casuais, interrompidas, sejamNossas palavras de reminiscncia(No para mais nos serveA negra ida do Sol)

    Pouco a pouco o passado recordemosE as histrias contadas no passadoAgora duas vezesHistrias, que nos falem

    Das flores que na nossa infncia idaCom outra conscincia ns colhamosE sob uma outra espcieDe olhar lanado ao mundo.

    E assim, Ldia, lareira, como estando,Deuses lares, ali na eternidade,Como quem compe roupasO outrora compnhamos

    Nesse desassossego que o descansoNos traz s vidas quando s pensamosNaquilo que j fomos,E h s noite l fora.

    Cada dia sem gozo no foi teu

    Cada dia sem gozo no foi teuFoi s durares nele. Quanto vivasSem que o gozes, no vives.

    No pesa que amas, bebas ou sorrias:Basta o reflexo do sol ido na guaDe um charco, se te grato.

    Feliz o a quem, por ter em coisas mnimasSeu prazer posto, nenhum dia negaA natural ventura!

    Cada Um

    Cada um cumpre o destino que lhe cumpre, E deseja o destino que deseja;Nem cumpre o que deseja,Nem deseja o que cumpre.

    Como as pedras na orla dos canteiros O Fado nos dispe, e ali ficamos;Que a Sorte nos fez postosOnde houvemos de s-lo.

  • No tenhamos melhor conhecimentoDo que nos coube que de que nos coube.Cumpramos o que somos.Nada mais nos dado.

    Como

    Como se cada beijoFora de despedida,Minha Cloe, beijemo-nos, amando.Talvez que j nos toqueNo ombro a mo, que chama barca que no vem seno vazia;E que no mesmo feixe Ata o que mtuos fomos E a alheia soma universal da vida.

    Coroai-me

    Coroai-me de rosas,Coroai-me em verdade,

    De rosas Rosas que se apagam Em fronte a apagar-se

    To cedo!Coroai-me de rosas E de folhas breves.

    E basta.

    Cuidas, ndio

    Cuidas, nvio, que cumpres, apertandoTeus infecundos, trabalhosos diasEm feixes de hirta lenha,Sem iluso a vida.A tua lenha s peso que levasPara onde no tens fogo que te aquea,Nem sofrem peso aos ombrosAs sombras que seremos.Para folgar no folgas; e, se leoas, Antes legues o exemplo, que riquezas,De como a vida bastaCurta, nem tambm dura.Pouco usamos do pouco que mal temos. A obra cansa, o ouro no nosso.De ns a mesma famaRi-se, que a no veremos

  • Quando, acabados pelas Parcas, formos, Vultos solenes, de repente antigos,E cada vez mais sombras,Ao encontro fatal O barco escuro no soturno rio,E os novos abraos da frieza stgiaE o regao insacivelDa ptria de Pluto.

    Da Lmpada

    Da lmpada noturnaA chama estremeceE o quarto alto ondeia.

    Os deuses concedemAos seus calmos crentesQue nunca lhes tremaA chama da vidaPerturbando o aspectoDo que est em roda,Mas firme e esguiadaComo preciosaE antiga pedra,Guarde a sua calmaBeleza contnua.

    Da Nossa Semelhana

    Da nossa semelhana com os deuses Por nosso bem tiremos Julgarmo-nos deidades exiladas E possuindo a Vida Por uma autoridade primitiva E coeva de Jove. Altivamente donos de ns-mesmos,Usemos a existnciaComo a vila que os deuses nos concedemPara, esquecer o estio.

    No de outra forma mais apoquentadaNos vale o esforo usarmosA existncia indecisa e afluenteFatal do rio escuro.

  • Como acima dos deuses o Destino calmo e inexorvel,Acima de ns-mesmos construamosUm fado voluntrioQue quando nos oprima ns sejamosEsse que nos oprime,E quando entremos pela noite dentro Por nosso p entremos.

    De Apolo

    De Apolo o carro rodou pra fora Da vista. A poeira que levantara Ficou enchendo de leve nvoa

    o horizonte;

    A flauta calma de P, descendoSeu tom agudo no ar pausado,Deu mais tristezas ao moribundo

    Dia suave.

    Clida e loura, nbil e triste,Tu, mondadeira dos prados quentes, Ficas ouvindo, com os teus passos

    Mais arrastados,

    A flauta antiga do deus durandoCom o ar que cresce pra vento leve,E sei que pensas na deusa clara

    Nada dos mares,

    E que vo ondas l muito adentro Do que o teu seio sente cansado Enquanto a flauta sorrindo chora

    Palidamente.

    De Novo Traz

    De novo traz as aparentes novasFlores o vero novo, e novamenteVerdesce a cor antigaDas folhas redivivas.No mais, no mais dele o infecundo abismo, Que mudo sorve o que mal somos, torna clara luz supernaA presena vivida.No mais; e a prole a que, pensando, dera A vida da razo, em vo o chama,Que as nove chaves fecham, Da Estige irreversvel.

  • O que foi como um deus entre os que cantam,O que do Olimpo as vozes, que chamavam,'Scutando ouviu, e, ouvindo,Entendeu, hoje nada.Tecei embora as, que teceis, Grinaldas.Quem coroais, no coroando a ele?Votivas as deponde,Fnebres sem ter culto. Fique, porm, livre da leiva e do Orco, A fama; e tu, que Ulisses erigira,Tu, em teus sete montes,Orgulha-te materna,Igual, desde ele s sete que contendemCidades por Homero, ou alcaica Lesbos,Ou heptpila TebasOggia me de Pndaro.

    Deixemos, Ldia

    Deixemos, Ldia, a cincia que no pe Mais flores do que Flora pelos campos,

    Nem d de Apolo ao carro Outro curso que Apolo.

    Contemplao estril e longnquaDas coisas prximas, deixemos que ela

    Olhe at no ver nada Com seus cansados olhos.

    V como Ceres a mesma sempreE como os louros campos intumesce

    E os cala prs avenas Dos agrados de P.V como com seu jeito sempre antigo Aprendido no orige azul dos deuses,

    As ninfas no sossegam Na sua dana eterna.

    E como as heniadrades constantes Murmuram pelos rumos das florestas

    E atrasam o deus P. Na ateno sua flauta.

    No de outro modo mais divino ou menosDeve aprazer-nos conduzir a vida,

    Quer sob o ouro de Apolo Ou a prata de Diana.

  • Quer troe Jpiter nos cus toldados.Quer apedreje com as suas ondas

    Netuno as planas praias E os erguidos rochedos.

    Do mesmo modo a vida sempre a mesma. Ns no vemos as Parcas acabarem-nos.

    Por isso as esqueamos Como se no houvessem.

    Colhendo flores ou ouvindo as fontesA vida passa como se temssemos.

    No nos vale pensarmos No futuro sabido

    Que aos nossos olhos tirar ApoloE nos por longe de Ceres e onde

    Nenhum P cace flauta Nenhuma branca ninfa.

    S as horas serenas reservandoPor nossas, companheiros na malcia

    De ir imitando os deuses At sentir-lhe a calma.

    Venha depois com as suas cs cadasA velhice, que os deuses concederamQue esta hora por ser suaNo sofra de SaturnoMas seja o templo onde sejamos deusesInda que apenas, Ldia, pra ns prpriosNem precisam de crentesOs que de si o foram.

    Dia Aps Dia

    Dia aps dia a mesma vida a mesma.O que decorre, Ldia,No que ns somos como em que no somos Igualmente decorre.Colhido, o fruto deperece; e cai Nunca sendo colhido. Igual o fado, quer o procuremos,Quer o 'speremos. Sorte Hoje, Destino sempre, e nesta ou nessa Forma alheio e invencvel.

  • Do que Quero

    Do que quero renego, se o quer-loMe pesa na vontade. Nada que haja

    Vale que lhe concedamos Uma ateno que doa.

    Meu balde exponho chuva, por ter gua.Minha vontade, assim, ao mundo exponho,

    Recebo o que me dado, E o que falta no quero.

    O que me dado queroDepois de dado, grato.

    Nem quero mais que o dadoOu que o tido desejo.

    Domina ou CalaDomina ou cala. No te percas, dandoAquilo que no tens.Que vale o Csar que serias? GozaBastar-te o pouco que s.Melhor te acolhe a vil choupana dadaQue o palcio devido.

    Ests s. Ningum o sabe.Ests s. Ningum o sabe. Cala e finge. Mas finge sem fingimento. Nada 'speres que em ti j no exista, Cada um consigo triste. Tens sol se h sol, ramos se ramos buscas, Sorte se a sorte dada.

    Este Seu Escasso CampoEste, seu scasso campo ora lavrando, Ora solene, olhando-o com a vista De quem a um filho olha, goza incerto A no-pensada vida. Das fingidas fronteiras a mudana O arado lhe no tolhe, nem o empece Per que conclios se o destino rege Dos povos pacientes. Pouco mais no presente do futuro Que as ervas que arrancou, seguro vive A antiga vida que no torna, e fica,Filhos, diversa e sua.

  • to Suave

    to suave a fuga deste dia,Ldia, que no parece, que vivemos.

    Sem dvida que os deuses Nos so gratos esta hora,

    Em paga nobre desta f que temos Na exilada verdade dos seus corpos

    Nos do o alto prmio De nos deixarem ser

    Convivas lcidos da sua calma, Herdeiros um momento do seu jeito

    De viver toda a vida Dentro dum s momento,

    Dum s momento, Ldia, em que afastados Das terrenas angstias recebemos

    Olmpicas delcias Dentro das nossas almas.

    E um s momento nos sentimos deuses Imortais pela calma que vestimos

    E a altiva indiferena s coisas passageiras

    Como quem guarda a c'roa da vitria Estes fanados louros de um s dia

    Guardemos para termos, No futuro enrugado,

    Perene nossa vista a certa provaDe que um momento os deuses nos amaram

    E nos deram uma hora No nossa, mas do Olimpo.

    Feliz Aquele Feliz aquele a quem a vida grataConcedeu que dos deuses se lembrasse

    E visse como elesEstas terrenas coisas onde moraUm reflexo mortal da imortal vida.Feliz, que quando a hora tributriaTranspor seu trio por que a Parca corte

    O fio fiado at ao fim, Gozar poder o alto prmio De errar no Averno grato abrigo Da convivncia.

  • Mas aquele que quer Cristo anteporAos mais antigos Deuses que no Olimpo

    Seguiram a Saturno O seu blasfemo ser abandonadoNa fria expiao at que os DeusesDe quem se esqueceu deles se recordem Erra, sombra inquieta, incertamente,

    Nem a viva lhe pe na boca O bolo a Caronte grato, E sobre o seu corpo insepulto No deita terra o viandante.

    Felizes

    Felizes, cujos corpos sob as rvoresJazem na mida terra,Que nunca mais sofrem o sol, ou sabemDas doenas da lua.

    Verta Eolo a caverna inteira sobreO orbe esfarrapado,Lance Netuno, em cheias mos, ao altoAs ondas estoirando.

    Tudo lhe nada, e o prprio pegureiroQue passa, finda a tarde,Sob a rvore onde jaz quem foi a sombraImperfeita de um deus,

    No sabe que os seus passos vo cobrindoO que podia ser,Se a vida fosse sempre vida, a glriaDe uma beleza eterna.

    Flores

    Flores que colho, ou deixo, Vosso destino o mesmo.Via que sigo, chegasNo sei aonde eu chego.

    Nada somos que valha,Somo-lo mais que em vo.

  • Frutos

    Frutos, do-os as rvores que vivem,No a iludida mente, que s se ornaDas flores lvidasDo ntimo abismo.Quantos reinos nos seres e nas cousasTe no talhaste imaginrio! Quantos,Com a charrua,Sonhos, cidades!

    Ah, no consegues contra o adverso muitoCriar mais que propsitos frustrados!Abdica e sRei de ti mesmo.

    Gozo SonhadoGozo sonhado gozo, ainda que em sonho.Ns o que nos supomos nos fazemos,Se com atenta menteResistirmos em cr-lo.No, pois, meu modo de pensar nas coisas, Nos seres e no fado me consumo.Para mim crio tantoQuanto para mim crio.Fora de mim, alheio ao em que penso,O Fado cumpre-se. Porm eu me cumpro Segundo o mbito breve Do que de meu me dado.

    InglriaInglria a vida, e inglrio o conhec-la. Quantos, se pensam, no se reconhecem Os que se conheceram! A cada hora se muda no s a hora Mas o que se cr nela, e a vida passa Entre viver e ser.

    J Sobre a Fronte

    J sobre a fronte v se me acinzenta O cabelo do jovem que perdi.Meus olhos brilham menos. J no tem jus a beijos minha boca. Se me ainda amas, por amor no ames:Traras-me comigo.

  • Lenta, Descansa

    Lenta, descansa a onda que a mar deixa.Pesada cede. Tudo sossegado.S o que de homem se ouve.Cresce a vinda da lua.Nesta hora, Ldia ou Neera Ou Cloe,Qualquer de vs me estranha, que me inclinoPara o segredo ditoPelo silncio incerto.Tomo nas mos, como caveira, ou chaveDe suprfluo sepulcro, o meu destino,E ignaro o aborreoSem corao que o sinta.

    Ldia

    Ldia, ignoramos. Somos estrangeirosOnde que quer que estejamos.

    Ldia, ignoramos. Somos estrangeirosOnde quer que moremos, Tudo alheioNem fala lngua nossa.Faamos de ns mesmos o retiroOnde esconder-nos, tmidos do insulto Do tumulto do mundo.Que quer o amor mais que no ser dos outros? Como um segredo dito nos mistrios,Seja sacro por nosso.

    Melhor Destino

    Melhor destino que o de conhecer-seNo frui quem mente frui. Antes, sabendo,Ser nada, que ignorando:Nada dentro de nada.Se no houver em mim poder que vena As Parcas trs e as moles do futuro,J me dem os deuses o poder de sab-lo; E a beleza, incrivel por meu sestro, Eu goze externa e dada, repetida Em meus passivos olhos,Lagos que a morte seca.

  • Mestre Mestre, so plcidas Todas as horas Que ns perdemos, Se no perd-las, Qual numa jarra, Ns pomos flores.

    No h tristezas Nem alegrias Na nossa vida. Assim saibamos, Sbios incautos, No a viver,

    Mas decorr-la,Tranqilos, plcidos, Lendo as crianas Por nossas mestras, E os olhos cheios De Natureza ...

    beira-rio, beira-estrada, Conforme calha, Sempre no mesmo Leve descanso De estar vivendo.

    O tempo passa,No nos diz nada. Envelhecemos. Saibamos, quase Maliciosos, Sentir-nos ir.

    No vale a penaFazer um gesto. No se resiste Ao deus atroz Que os prprios filhos Devora sempre.

    Colhamos flores.Molhemos leves As nossas mos Nos rios calmos, Para aprendermos Calma tambm.

  • Girassis sempreFitando o sol, Da vida iremos Tranqilos,tendo Nem o remorso De ter vivido.

    Meu Gesto

    Meu gesto que destriA mole das formigas,Tom-lo-o elas por de um ser divino;Mas eu no sou divino para mim.

    Assim talvez os deusesPara si o no sejam,E s de serem do que ns maioresTirem o serem deuses para ns.

    Seja qual for o certo,Mesmo para com essesQue cremos serem deuses, no sejamosInteiros numa f talvez sem causa.

    Nada Fica

    Nada fica de nada. Nada somos.Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamosDa irrespirvel treva que nos peseDa humilde terra imposta,Cadveres adiados que procriam.

    Leis feitas, esttuas vistas, odes findas Tudo tem cova sua. Se ns, carnesA que um ntimo sol d sangue, temosPoente, por que no elas?Somos contos contando contos, nada.

    No a Ti

    No a Ti, Cristo, odeio ou te no quero.Em ti como nos outros creio deuses mais velhos. S te tenho por no mais nem menosDo que eles, mas mais novo apenas.

    Odeio-os sim, e a esses com calma aborreo,Que te querem acima dos outros teus iguais deuses. Quero-te onde tu sts, nem mais altoNem mais baixo que eles, tu apenas.

  • Deus triste, preciso talvez porque nenhum havia Como tu, um a mais no Panteo e no culto,Nada mais, nem mais alto nem mais puroPorque para tudo havia deuses, menos tu.

    Cura tu, idlatra exclusivo de Cristo, que a vida mltipla e todos os dias so diferentes dos outros,E s sendo mltiplos como eles'Staremos com a verdade e ss.

    No a Ti, Cristo

    No a Ti, Cristo, odeio ou menosprezoQue aos outros deuses que te precederam Na memria dos homens.Nem mais nem menos s, mas outro deus.

    No Panteo faltavas. Pois que vieste No Panteo o teu lugar ocupa, Mas cuida no procures Usurpar o que aos outros devido.

    Teu vulto triste e comovido sobre A 'steril dor da humanidade antiga Sim, nova pulcritudeTrouxe ao antigo Panteo incerto.

    Mas que os teus crentes te no ergam sobreoutros, antigos deuses que dataram Por filhos de SaturnoDe mais perto da origem igual das coisas.

    E melhores memrias recolheram Do primitivo caos e da Noite Onde os deuses no so Mais que as estrelas sbditas do Fado.

    Tu no s mais que um deus a mais no eterno No a ti, mas aos teus, odeio, Cristo. Panteo que preside nossa vida incerta.

    Nem maior nem menor que os novos deuses,Tua sombria forma dolorida Trouxe algo que faltava Ao nmero dos divos.

    Por isso reina a par de outros no Olimpo, Ou pela triste terra se quiseresVai enxugar o prantoDos humanos que sofrem.

  • No venham, porm, 'stultos teus cultores Em teu nome vedar o eterno culto Das presenas maiores Ou parceiras da tua.

    A esses, sim, do mago eu odeioDo crente peito, e a esses eu no sigo, Supersticiosos leigosNa cincia dos deuses.

    Ah, aumentai, no combatendo nunca. Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando Cada vez maior fora P'lo nmero maior.

    Basta os males que o Fado as Parcas fez Por seu intuito natural fazerem.Ns homens nos faamos Unidos pelos deuses.

    No Canto

    No canto a noite porque no meu canto O sol que canto acabara em noite.No ignoro o que esqueo.Canto por esquec-lo.

    Pudesse eu suspender, inda que em sonho,O Apolneo curso, e conhecer-me,Inda que louco, gmeoDe uma hora imperecvel!

    No Consentem

    No consentem os deuses mais que a vida. Tudo pois refusemos, que nos alce A irrespirveis pncaros,Perenes sem ter flores. S de aceitar tenhamos a cincia,E, enquanto bate o sangue em nossas fontes,Nem se engelha conosco O mesmo amor, duremos, Como vidros, s luzes transparentes E deixando escorrer a chuva triste,S mornos ao sol quente, E refletindo um pouco.

  • No Queiras

    No queiras, Ldia, edificar no spao Que figuras futuro, ou prometer-teAmanh. Cumpre-te hoje, no 'sperando.

    Tu mesma s tua vida.No te destines, que no s futura.Quem sabe se, entre a taa que esvazias, E ela de novo enchida, no te a sorte Interpe o abismo?

    No Quero

    No quero as oferendas Com que fingis, sinceros Dar-me os dons que me dais. Dais-me o que perderei, Chorando-o, duas vezes,Por vosso e meu, perdido.

    Antes mo prometaisSem mo dardes, que a perda Ser mais na 'speranaQue na recordao.

    No terei mais desgostoQue o contnuo da vida,Vendo que com os diasTarda o que 'spera, e nada.

    No QueroNo quero, Cloe, teu amor, que oprime

    Porque me exige amor. Quero ser livre.

    A 'sperana um dever do sentimento.

    No Quero

    No quero recordar nem conhecer-me. Somos demais se olhamos em quem somos. Ignorar que vivemos

    Cumpre bastante a vida.

    Tanto quanto vivemos, vive a hora Em que vivemos, igualmente morta

    Quando passa conosco, Que passamos com ela.

  • Se sab-lo no serve de sab-lo(Pois sem poder que vale conhecermos?)

    Melhor vida a vida Que dura sem medir-se.

    No S VinhoNo s vinho, mas nele o olvido, deito Na taa: serei ledo, porque a dita ignara. Quem, lembrando Ou prevendo, sorrira? Dos brutos, no a vida, seno a alma, Consigamos, pensando; recolhidos No impalpvel destino Que no 'spera nem lembra. Com mo mortal elevo mortal boca Em frgil taa o passageiro vinho,Baos os olhos feitosPara deixar de ver.

    No s quem nos odeia ou nos invejaNo s quem nos odeia ou nos inveja Nos limita e oprime; quem nos amaNo menos nos limita.Que os deuses me concedam que, despidoDe afetos, tenha a fria liberdadeDos pncaros sem nada.Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada livre; quem no tem, e no deseja, Homem, igual aos deuses.

    No Sei

    No sei de quem recordo meu passadoQue outrem fui quando o fui, nem me conheoComo sentindo com minha alma aquelaAlma que a sentir lembro.De dia a outro nos desamparamos.Nada de verdadeiro a ns nos uneSomos quem somos, e quem fomos foiCoisa vista por dentro.

  • No Sei se Amor que Tens

    No sei se amor que tens, ou amor que finges,O que me ds. Ds-mo. Tanto me basta. J que o no sou por tempo, Seja eu jovem por erro. Pouco os deuses nos do, e o pouco falso.Porm, se o do, falso que seja, a ddiva

    verdadeira. Aceito,Cerro olhos: bastante.Que mais quero?

    No Tenhas

    No tenhas nada nas mosNem uma memria na alma,Que quando te puseremNas mos o bolo ltimo,Ao abrirem-te as mosNada te cair.Que trono te querem darQue tropos to no tire?Que louros que no fanemNos arbtrios de Minos?Que horas que te no tornemDa estatura da sombraQue sers quando foresNa noite e ao fim da estrada.Colhe as flores mas larga-as,Das mos mal as olhaste.Senta-te ao sol. AbdicaE s rei de ti prprio.

    Nem da Erva

    Nem da serva humilde se o Destino esquece.Saiba a lei o que vive.De sua natureza murcham rosasE prazeres se acabam.Quem nos conhece, amigo, tais quais fomos?Nem ns os conhecemos.

    Negue-meNegue-me tudo a sorte, menos v-la,Que eu, 'stico sem dureza,Na sentena gravada do DestinoQuero gozar as letras.

  • Ningum a Outro AmaNingum a outro ama, seno que amaO que de si h nele, ou suposto.Nada te pese que no te amem. Sentem-teQuem s, e s estrangeiro.Cura de ser quem s, amam-te ou nunca.Firme contigo, sofrers avaro

    De penas.

    NingumNingum, na vasta selva virgemDo mundo inumervel, finalmenteV o Deus que conhece.S o que a brisa traz se ouve na brisaO que pensamos, seja amor ou deuses,Passa, porque passamos.

    No Breve NmeroNo breve nmero de doze mesesO ano passa, e breves so os anos,Poucos a vida dura.Que so doze ou sessenta na florestaDos nmeros, e quanto pouco faltaPara o fim do futuro!Dois teros j, to rpido, do cursoQue me imposto correr descendo, passo.Apresso, e breve acabo.Dado em declive deixo, e invito apressoO moribundo passo.

    No Ciclo Eterno

    No ciclo eterno das mudveis coisasNovo inverno aps novo outono volve diferente terraCom a mesma maneira.Porm a mim nem me acha diferenteNem diferente deixa-me, fechadoNa clausura malignaDa ndole indecisa.Presa da plida fatalidadeDe no mudar-me, me infiel renovoAos propsitos mudosMorituros e infindos.

  • No Magno Dia

    No magno dia at os sons so claros.Pelo repouso do amplo campo tardam.Mrmura, a brisa cala.Quisera, como os sons, viver das coisasMas no ser delas, conseqncia aladaEm que o real vai longe.

    No Mundo

    No mundo, S comigo, me deixaramOs deuses que dispem.No posso contra eles: o que deramAceito sem mais nada.Assim, o trigo baixa ao vento, e, quandoO vento cessa, ergue-se.

    Nos Altos Ramos

    Nos altos ramos de rvores frondosasO vento faz um rumor frio e alto,Nesta floresta, em este som me perco

    E sozinho medito.Assim no mundo, acima do que sinto,Um vento faz a vida, e a deixa, e a toma,E nada tem sentido nem a alma

    Com que penso sozinho.

    NuncaNunca a alheia vontade, inda que grata,Cumpras por prpria.Manda no que fazes,Nem de ti mesmo servo.Ningum te d quem s.Nada te mude.Teu ntimo destino involuntrioCumpre alto.S teu filho.

  • Ouvi contar que outrora

    Ouvi contar que outrora, quando a PrsiaTinha no sei qual guerra,Quando a invaso ardia naCidade E as mulheres gritavam,Dois jogadores de xadrez jogavamO seu jogo contnuo.

    sombra de ampla rvore fitavamO tabuleiro antigo,E, ao lado de cada um, esperando os seusMomentos mais folgados,Quando havia movido a pedra, e agoraEsperava o adversrio.Um pcaro com vinho refrescavaSobriamente a sua sede.

    Ardiam casas, saqueadas eramAs arcas e as paredes,Violadas, as mulheres eram postasContra os muros cados,Traspassadas de lanas, as crianasEram sangue nas ruas...Mas onde estavam, perto da cidade,E longe do seu rudo,Os jogadores de xadrez jogavamO jogo de xadrez.

    Inda que nas mensagens do ermo ventoLhes viessem os gritos,E, ao refletir, soubessem desde a almaQue por certo as mulheresE as tenras filhas violadas eramNessa distncia prxima,Inda que, no momento que o pensavam,Uma sombra ligeiraLhes passasse na fronte alheada e vaga,Breve seus olhos calmosVolviam sua atenta confianaAo tabuleiro velho.

    Quando o rei de marfim est em perigo,Que importa a carne e o ossoDas irms e das mes e das crianas?Quando a torre no cobreA retirada da rainha branca,O saque pouco importa.E quando a mo confiada leva o xequeAo rei do adversrio,Pouco pesa na alma que l longeEstejam morrendo filhos.

  • Mesmo que, de repente, sobre o muroSurja a sanhuda faceDum guerreiro invasor, e breve devaEm sangue ali cairO jogador solene de xadrez,O momento antes desse( ainda dado ao clculo dum lancePra a efeito horas depois) ainda entregue ao jogo prediletoDos grandes indif'rentes.

    Caiam cidades, sofram povos, cesseA liberdade e a vida.Os haveres tranqilos e avitosArdem e que se arranquem,Mas quando a guerra os jogos interrompa,Esteja o rei sem xeque,E o de marfim peo mais avanadoPronto a comprar a torre.

    Meus irmos em amarmos EpicuroE o entendermos maisDe acordo com ns-prprios que com ele,Aprendamos na histriaDos calmos jogadores de xadrezComo passar a vida.

    Tudo o que srio pouco nos importe,O grave pouco pese,O natural impulso dos instintosQue ceda ao intil gozo(Sob a sombra tranqila do arvoredo)De jogar um bom jogo.

    O que levamos desta vida intilTanto vale se A glria, a fama, o amor, a cincia, a vida,Como se fosse apenasA memria de um jogo bem jogadoE uma partida ganhaA um jogador melhor.

    A glria pesa como um fardo rico,A fama como a febre,O amor cansa, porque a srio e busca,A cincia nunca encontra,E a vida passa e di porque o conhece...O jogo do xadrezPrende a alma toda, mas, perdido, poucoPesa, pois no nada.

  • Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam,Com um pcaro de vinhoAo lado, e atentos s intil fainaDo jogo do xadrezMesmo que o jogo seja apenas sonhoE no haja parceiro,Imitemos os persas desta histria,E, enquanto l fora,Ou perto ou longe, a guerra e a ptria e a vidaChamam por ns, deixemosQue em vo nos chamem, cada um de nsSob as sombras amigasSonhando, ele os parceiros, e o xadrezA sua indiferena.

    Olho

    Olho os campos, Neera,Campos, campos, e sofroJ o frio da sombraEm que no terei olhos.A caveira ante-sintoQue serei no sentindo,Ou s quanto o que ignoroMe incgnito ministre.E menos ao instanteChoro, que a mim futuro,Sbdito ausente e nuloDo universal destino.

    O que Sentimos

    O que sentimos, no o que sentido, o que temos.Claro, o inverno tristeComo sorte o acolhamos.Haja inverno na terra, no na mente.E, amor a amor, ou livro a livro, amemos Nossa caveira breve.

    Os Deuses e os Messias

    Os deuses e os Messias que so deusesPassam, e os sonhos vos que so Messias.

    A terra muda dura.Nem deuses, nem Messias, nem idiasQue trazem rosas. Minhas so se as tenho.

    Se as tenho, que mais quero?

  • O Deus P

    O Deus P no morreu,Cada campo que mostraAos sorrisos de ApoloOs peitos nus de CeresCedo ou tarde vereispor l aparecerO deus P, o imortal.

    No matou outros deusesO triste deus cristo.Cristo um deus a mais,Talvez um que faltava.P continua a ciarOs sons da sua flautaAos ouvidos de CeresRecumbente nos campos.

    Os deuses so os mesmos,Sempre claros e calmos,Cheios de eternidadeE desprezo por ns,Trazendo o dia e a noiteE as colheitas douradasSem ser para nos dar o dia e a noite e o trigoMas por outro e divinoPropsito casual.

    Os DeusesOs deuses desterrados.Os irmos de Saturno,s vezes, no crepsculoVm espreitar a vida.

    Vm ento ter conoscoRemorsos e saudadesE sentimentos falsos. a presena deles,Deuses que o destron-losTornou espirituais,De matria vencida,Longnqua e inativa.

    Vm, inteis foras,Solicitar em nsAs dores e os cansaos,Que nos tiram da mo,Como a um bbedo mole,A taa da alegria.

  • Vm fazer-nos crer,Despeitadas runasDe primitivas foras,Que o mundo mais extensoQue o que se v e palpa,Para que ofendamosA Jpiter e a Apolo.

    Assim at beiraTerrena do horizonteHiperion no crepsculoVem chorar pelo carroQue Apolo lhe roubou.

    E o poente tem coresDa dor dom deus longnquo,E ouve-se soluarPara alm das esferas...Assim choram os deuses.

    O Ritmo AntigoO ritmo antigo que h em ps descalos,Esse ritmo das ninfas repetido,Quando sob o arvoredoBatem o som da dana,Vs na alva praia relembrai, fazendo,Que 'scura a 'spuma deixa; vs, infantes,Que inda no tendes curaDe ter cura, respondeRuidosa a roda, enquanto arqueia ApoloComo um ramo alto, a curva azul que doura,E a perene marFlui, enchente ou vazante.

    O Mar JazO mar jaz; gemem em segredo os ventos Em Eolo cativos;S com as pontas do tridente as vastas guas franze Netuno;E a praia alva e cheia de pequenos Brilhos sob o sol claro.Inutilmente parecemos grandes. Nada, no alheio mundo,Nossa vista grandeza reconhece Ou com razo nos serve.Se aqui de um manso mar meu fundo indcio Trs ondas o apagam,Que me far o mar que na atra praia Ecoa de Saturno?

  • O Sono Bom

    O sono bom pois despertamos delePara saber que bom. Se a morte sono Despertaremos dela; Se no, e no sono,

    Conquanto em ns nosso a refusemosEnquanto em nossos corpos condenados Dura, do carcereiro, A licena indecisa.

    Ldia, a vida mais vil antes que a morte,Que desconheo, quero; e as flores colho Que te entrego, votivas De um pequeno destino.

    O Rastro Breve

    O rastro breve que das ervas molesErgue o p findo, o eco que oco coa,

    A sombra que se adumbra,O branco que a nau larga

    Nem maior nem melhor deixa a alma s almas,O ido aos indos.A lembrana esquece,

    Mortos, inda morremos.Ldia, somos s nossos.

    Para os Deuses

    Para os deuses as coisas so mais coisas.No mais longe eles vem, mas mais claroNa certa NaturezaE a contornada vida...No no vago que mal vemOrla misteriosamente os seres,Mas nos detalhes clarosEsto seus olhos.A Natureza s uma superfcie.Na sua superfcie ela profundaE tudo contm muitoSe os olhos bem olharem.Aprende, pois, tu, das crists angstias, traidor multplice presenaDos deuses, a no teresVus nos olhos nem na alma.

  • Para ser grande, s inteiro: nada

    Para ser grande, s inteiro: nada Teu exagera ou exclui.S todo em cada coisa. Pe quanto s No mnimo que fazes.Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive

    Pesa o Decreto

    Pesa o decreto atroz do fim certeiro. Pesa a sentena igual do juiz ignoto Em cada cerviz nscia. entrudo e riem. Felizes, porque neles pensa e sente A vida, que no eles!

    Se a cincia vida, sbio s o nscio. Quo pouca diferena a mente interna Do homem da dos brutos! Sus! Deixai Brincar os moribundos!

    De rosas, inda que de falsas team Capelas veras. Breve e vo o tempo Que lhes dado, e por misericrdia Breve nem vo sentido.

    Ponho na Altiva

    Ponho na altiva mente o fixo esforo Da altura, e sorte deixo, E as suas leis, o verso;

    Que, quanto alto e rgio o pensamento, Sbita a frase o busca E o 'scravo ritmo o serve.

    Pois que nada que dure, ou que, durando

    Pois que nada que dure, ou que, durando, Valha, neste confuso mundo obramos, E o mesmo til para ns perdemos Conosco, cedo, cedo. O prazer do momento anteponhamos absurda cura do futuro, cuja Certeza nica o mal presente Com que o seu bem compramos.

  • Amanh no existe. Meu somente o momento, eu s quem existe Neste instante, que pode o derradeiro Ser de quem finjo ser?

    Prazer

    Prazer, Mas devagar, Ldia, que a sorte queles no grata Que lhe das mos arrancam. Furtivos retiremos do horto mundo Os depredandos pomos. No despertemos, onde dorme, a Ernis Que cada gozo trava. Corno um regato, mudos passageiros, Gozemos escondidos. A sorte inveja, Ldia. Emudeamos.

    Prefiro Rosas Prefiro rosas, meu amor, ptria, E antes magnlias amo Que a glria e a virtude.

    Logo que a vida me no canse, deixo Que a vida por mim passe Logo que eu fique o mesmo.

    Que importa quele a quem j nada importa Que um perca e outro vena, Se a aurora raia sempre,

    Se cada ano com a primavera As folhas aparecem E com o outono cessam?

    E o resto, as outras coisas que os humanos Acrescentam vida, Que me aumentam na alma?

    Nada, salvo o desejo de indiferena E a confiana mole Na hora fugitiva.

  • Quo Breve Quo breve tempo a mais longa vida E a juventude nela! Ah!, Cloe, Cloe,Se no amo nem bebo, Nem sem querer no penso, Pesa-me a lei inimplorvel, di-me A hora invita, o tempo que no cessa, E aos ouvidos me sobe Dos juncos o rudo Na oculta margem onde os lrios frios Da nfera leiva crescem, e a corrente No sabe onde o dia, Sussurro gemebundo.

    Quanta Tristeza Quanta tristeza e amargura afoga Em confuso a 'streita vida! Quanto Infortnio mesquinho Nos oprime supremo! Feliz ou o bruto que nos verdes campos Pasce, para si mesmo annimo, e entra Na morte como em casa; Ou o sbio que, perdido Na cincia, a ftil vida austera eleva Alm da nossa, como o fumo que ergue Braos que se desfazem A um cu inexistente.

    Quando, Ldia Quando, Ldia, vier o nosso outono Com o inverno que h nele, reservemos Um pensamento, no para a futura Primavera, que de outrem, Nem para o estio, de quem somos mortos, Seno para o que fica do que passa O amarelo atual que as folhas vivem E as torna diferentes

    Quanto Faas Quanto faas, supremamente faze. Mais vale, se a memria quanto temos, Lembrar muito que pouco. E se o muito no pouco te possvel, Mais ampla liberdade de lembrana Te tornar teu dono.

  • Quem Diz Quem diz ao dia, dura! e treva, acaba! E a si no diz, no digas! Sentinelas absurdas, vigilamos, nscios dos contendentes. Uns sob o frio, outros no ar brando, guardam O posto e a inscincia sua.

    Quer Pouco Quer pouco: ters tudo. Quer nada: sers livre. O mesmo amor que tenham Por ns, quer-nos, oprime-nos.

    Quero dos Deuses

    Quero dos deuses s que me no lembrem. Serei livre sem dita nem desdita,Como o vento que a vidaDo ar que no nada.O dio e o amor iguais nos buscam; ambos, Cada um com seu modo, nos oprimem. A quem deuses concedem Nada, tem liberdade.

    Quero Ignorado Quero ignorado, e calmo Por ignorado, e prprio Por calmo, encher meus dias De no querer mais deles.

    Aos que a riqueza toca O ouro irrita a pele. Aos que a fama bafeja Embacia-se a vida.

    Aos que a felicidade sol, vir a noite. Mas ao que nada 'spera Tudo que vem grato.

  • Rasteja Mole Rasteja mole pelos campos ermos O vento sossegado. Mais parece tremer de um tremor prprio, Que do vento, o que erva. E se as nuvens no cu, brancas e altas, Se movem, mais parecem Que gira a terra rpida e elas passam, Por muito altas, lentas. Aqui neste sossego dilatado Me esquecerei de tudo, Nem hspede ser do que conheo A vida que deslembro. Assim meus dias seu decurso falso Gozaro verdadeiro.

    Sbio Sbio o que se contenta com o espetculo do mundo, E ao beber nem recorda Que j bebeu na vida, Para quem tudo novo E imarcescvel sempre.

    Coroem-no pmpanos, ou heras, ou rosas volteis, Ele sabe que a vida Passa por ele e tanto Corta flor como a ele De tropos a tesoura.

    Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto, Que o seu sabor orgaco Apague o gosto s horas, Como a uma voz chorando O passar das bacantes.

    E ele espera, contente quase e bebedor tranqilo, E apenas desejando Num desejo mal tido Que a abominvel onda O no molhe to cedo.

  • Saudoso Saudoso j deste vero que veio, Lgrimas para as flores dele emprego Na lembrana invertida De quando hei de perd-las. Transpostos os portais irreparveis De cada ano, me antecipo a sombra Em que hei de errar, sem flores, No abismo rumoroso. E colho a rosa porque a sorte manda. Marcenda, guardo-a; murche-se comigo Antes que com a curva Diurna da ampla terra.

    Segue o teu destino Segue o teu destino, Rega as tuas plantas, Ama as tuas rosas. O resto a sombra De rvores alheias.

    A realidade Sempre mais ou menos Do que ns queremos. S ns somos sempre Iguais a ns-prprios.

    Suave viver s. Grande e nobre sempre Viver simplesmente. Deixa a dor nas aras Como ex-voto aos deuses.

    V de longe a vida. Nunca a interrogues. Ela nada pode Dizer-te. A resposta Est alm dos deuses.

    Mas serenamente Imita o Olimpo No teu corao. Os deuses so deuses Porque no se pensam.

  • Se Recordo

    Se recordo quem fui, outrem me vejo, E o passado o presente na lembrana. Quem fui algum que amo Porm somente em sonho. E a saudade que me aflige a mente No de mim nem do passado visto, Seno de quem habitoPor trs dos olhos cegos. Nada, seno o instante, me conhece. Minha mesma lembrana nada, e sinto Que quem sou e quem fui So sonhos diferentes.

    Severo Narro

    Severo narro. Quanto sinto, penso. Palavras so idias. Mrmuro, o rio passa, e o que no passa, Que nosso, no do rio. Assim quisesse o verso: meu e alheio E por mim mesmo lido.

    Sereno Aguarda Sereno aguarda o fim que pouco tarda. Que qualquer vida? Breves sis e sono. Quanto pensas emprega Em no muito pensares.

    Ao nauta o mar obscuro a rota clara. Tu, na confusa solido da vida, A ti mesmo te elege (No sabes de outro) o porto.

    Seguro Assento Seguro Assento na coluna firme Dos versos em que fico, Nem temo o influxo inmero futuro Dos tempos e do olvido; Que a mente, quando, fixa, em si contempla Os reflexos do mundo, Deles se plasma torna, e arte o mundo Cria, que no a mente. Assim na placa o externo instante grava Seu ser, durando nela.

  • Sim Sim, sei bemQue nunca serei algum. Sei de sobraQue nunca terei uma obra. Sei, enfim,Que nunca saberei de mim.Sim, mas agora,Enquanto dura esta hora,Este luar, estes ramos,Esta paz em que estamos,Deixem-me crerO que nunca poderei ser.

    S o Ter S o ter flores pela vista fora Nas leas largas dos jardins exatos Basta para podermos Achar a vida leve.

    De todo o esforo seguremos quedasAs mos, brincando, pra que nos no tome Do pulso, e nos arraste. E vivamos assim,

    Buscando o mnimo de dor ou gozo,Bebendo a goles os instantes frescos, Translcidos como gua Em taas detalhadas,

    Da vida plida levando apenasAs rosas breves, os sorrisos vagos, E as rpidas carcias Dos instantes volveis.

    Pouco to pouco pesar nos braosCom que, exilados das supernas luzes, Scolherrnos do que fomos O melhor pra lembrar

    Quando, acabados pelas Parcas, formos,vultos solenes de repente antigos, E cada vez mais sombras, Ao encontro fatal

    Do barco escuro no soturno rio,E os nove abraos do horror estgio, E o regao insacivel Da ptria de Pluto.

  • S Esta Liberdade S esta liberdade nos concedem Os deuses: submetermo-nos Ao seu domnio por vontade nossa. Mais vale assim fazermosPorque s na iluso da liberdade A liberdade existe.

    Nem outro jeito os deuses, sobre quemO eterno fado pesa,Usam para seu calmo e possudo Convencimento antigoDe que divina e livre a sua vida.

    Ns, imitando os deuses,To pouco livres como eles no Olimpo,Como quem pela areiaErgue castelos para encher os olhos,Ergamos nossa vidaE os deuses sabero agradecer-nosO sermos to como eles.

    Sofro, Ldia Sofro, Ldia, do medo do destino. A leve pedra que um momento ergue As lisas rodas do meu carro, aterra Meu corao.

    Tudo quanto me ameace de mudar-me Para melhor que seja, odeio e fujo. Deixem-me os deuses minha vida sempre Sem renovar

    Meus dias, mas que um passe e outro passe Ficando eu sempre quase o mesmo, indo Para a velhice como um dia entra No anoitecer.

    Solene Passa Solene passa sobre a frtil terraA branca, intil nuvem fugidia,Que um negro instante de entre os campos ergue Um sopro arrefecido.

  • Tal me alta na alma a lenta idia voaE me enegrece a mente, mas j torno,Como a si mesmo o mesmo campo, ao diaDa imperfeita vida.

    Se a Cada Coisa Se a cada coisa que h um deus compete, Por que no haver de mim um deus? Por que o no serei eu? em mim que o deus animaPorque eu sinto.O mundo externo claramente vejo Coisas, homens, sem alma.

    Sob a Leve Tutela

    Sob a leve tutelaDe deuses descuidosos,Quero gastar as concedidas horasDesta fadada vida.

    Nada podendo contraO ser que me fizeram,Desejo ao menos que me haja o FadoDado a paz por destino.

    Da verdade no queroMais que a vida; que os deusesDo vida e no verdade, nem talvez Saibam qual a verdade.

    Sbdito Intil Sbdito intil de astros dominantes,Passageiros como eu, vivo uma vidaQue no quero nem amo,Minha porque sou ela,

    No ergstulo de ser quem sou, contudo,De em mim pensar me livro, olhando no altoOs astros que dominamSubmissos de os ver brilhar.

    Vastido v que finge de infinito(Como se o infinito se pudesse ver!) D-me ela a liberdade?Como, se ela a no tem?Sbdito Intil

  • Sbdito intil de astros dominantes,Passageiros como eu, vivo uma vidaQue no quero nem amo,Minha porque sou ela,

    No ergstulo de ser quem sou, contudo,De em mim pensar me livro, olhando no altoOs astros que dominamSubmissos de os ver brilhar.

    Vastido v que finge de infinito(Como se o infinito se pudesse ver!) D-me ela a liberdade?Como, se ela a no tem?

    To cedo passa tudo quanto passa! To cedo passa tudo quanto passa!Morre to jovem ante os deuses quantoMorre! Tudo to pouco!Nada se sabe, tudo se imagina.Circunda-te de rosas, ama, bebeE cala. O mais nada.

    To Cedo To cedo tudo quanto passa! Morre to jovem ante os deuses quanto Morre! Tudo to pouco! Nada se sabe, tudo se imagina. Circunda-te de rosas, ama, bebe E cala. O mais nada.

    Tnue Tnue, como se de olo a esquecessem, A brisa da manh titila o campo,E h comeo do sol.No desejemos, Ldia, nesta horaMais sol do que ela, nem mais alta brisaQue a que pequena e existe.

  • Temo, Ldia Temo, Ldia, o destino. Nada certo. Em qualquer hora pode suceder-nos O que nos tudo mude.Fora do conhecido estranho o passoQue prprio damos. Graves numes guardam As lindas do que uso.No somos deuses; cegos, receemos, E a parca dada vida anteponhamos novidade, abismo.

    Tirem-me os Deuses Tirem-me os deusesEm seu arbtrioSuperior e urdido s escondidasO Amor, glria e riqueza.

    Tirem, mas deixem-me,Deixem-me apenasA conscincia lcida e soleneDas coisas e dos seres.

    Pouco me importaAmor ou glria,A riqueza um metal, a glria um ecoE o amor uma sombra.

    Mas a concisaAteno dadas formas e s maneiras dos objetosTem abrigo seguro.

    Seus fundamentosSo todo o mundo,Seu amor o plcido Universo,Sua riqueza a vida.

    A sua glria a supremaCerteza da solene e clara posseDas formas dos objetos.

    O resto passa,E teme a morte.S nada teme ou sofre a viso claraE intil do Universo.

  • Essa a si basta,Nada desejaSalvo o orgulho de ver sempre claroAt deixar de ver.

    Tudo Tudo, desde ermos astros afastadosA ns, nos d o mundoE a tudo, alheios, nos acrescentamos,Pensando e interpretando.A prxima erva a que no chega basta,O que h o melhor.

    Tudo que Cessa Tudo que cessa morte, e a morte nossa Se para ns que cessa. Aquele arbusto Fenece, e vai com ele Parte da minha vida.

    Em tudo quanto olhei fiquei em parte. Com tudo quanto vi, se passa, passo, Nem distingue a memria Do que vi do que fui.

    Tuas, No Minhas Tuas, no minhas, teo estas grinaldas, Que em minha fronte renovadas ponho. Para mim tece as tuas, Que as minhas eu no vejo. Se no pesar na vida melhor gozo Que o vermo-nos, vejamo-nos, e, vendo, Surdos conciliemos O insubsistente surdo. Coroemo-nos pois uns para os outros, E brindemos unssonos sorte Que houver, at que chegue A hora do barqueiro.

    Uma Aps Uma Uma aps uma as ondas apressadasEnrolam o seu verde movimentoE chiam a alva 'spumaNo moreno das praias.

  • Uma aps uma as nuvens vagarosasRasgam o seu redondo movimentoE o sol aquece o 'spaoDo ar entre as nuvens 'scassas.Indiferente a mim e eu a ela,A natureza deste dia calmoFurta pouco ao meu sensoDe se esvair o tempo.S uma vaga pena inconseqentePra um momento porta da minha alma E aps fitar-me um poucoPassa, a sorrir de nada.

    Uns Uns, com os olhos postos no passado,Vem o que no vem: outros, fitosOs mesmos olhos no futuro, vemO que no pode ver-se.

    Por que to longe ir pr o que est perto A segurana nossa? Este o dia, Esta a hora, este o momento, isto quem somos, e tudo.

    Perene flui a interminvel horaQue nos confessa nulos. No mesmo haustoEm que vivemos, morreremos. Colhe o dia, porque s ele.

    Vem sentar-te comigo, Ldia, beira do rio Vem sentar-te comigo Ldia, beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e no estamos de mos enlaadas. (Enlacemos as mos.)

    Depois pensemos, crianas adultas, que a vida Passa e no fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para ao p do Fado, Mais longe que os deuses.

    Desenlacemos as mos, porque no vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio. Mais vale saber passar silenciosamente E sem desassosegos grandes.

    Sem amores, nem dios, nem paixes que levantam a voz, Nem invejas que do movimento demais aos olhos, Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria, E sempre iria ter ao mar.

  • Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos, Se quise'ssemos, trocar beijos e abrac,os e carcias, Mas que mais vale estarmos sentados ao p um do outro Ouvindo correr o rio e vendo-o.

    Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as No colo, e que o seu perfume suavize o momento - Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada, Pagos inocentes da decadncia.

    Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois Sem que a minha lembrana te arda ou te fira ou te mova, Porque nunca enlaamos as mos, nem nos beijamos Nem fomos mais do que crianas.

    E se antes do que eu levares o o'bolo ao barqueiro sombrio, Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti. Ser-me-s suave memria lembrando-te assim - beira-rio, Pag triste e com flores no regao.

    Vem sentar-te comigo Ldia... Vem sentar-te comigo Ldia, beira do rio.Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamosQue a vida passa, e nao estamos de maos enlaadas.(Enlacemos as maos.)

    Depois pensemos, crianas adultas, que a vidaPassa e nao fica, nada deixa e nunca regressa,Vai para um mar muito longe, para ao p do Fado,Mais longe que os deuses.

    Desenlacemos as maos, porque nao vale a pena cansarmo-nos.Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.Mais vale saber passar silenciosamenteE sem desassosegos grandes.

    Sem amores, nem dios, nem paixoes que levantam a voz,Nem invejas que dao movimento demais aos olhos,Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,E sempre iria ter ao mar.

    Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,Se quisssemos, trocar beijos e abraos e carcias,Mas que mais vale estarmos sentados ao p um do outroOuvindo correr o rio e vendo-o.

    Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-asNo colo, e que o seu perfume suavize o momento -Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,Pagaos inocentes da decadencia.

  • Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depoissem que a minha lembrana te arda ou te fira ou te mova,Porque nunca enlaamos as maos, nem nos beijamosNem fomos mais do que crianas.

    E se antes do que eu levares o bolo ao barqueiro sombrio,Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.Ser-me-s suave memria lembrando-te assim - beira-rio,Pag triste e com flores no regao.

    Vivem em ns inmeros Vivem em ns inmeros; Se penso ou sinto, ignoro Quem que pensa ou sente. Sou somente o lugar Onde se sente ou pensa.

    Tenho mais almas que uma. H mais eus do que eu mesmo. Existo todavia Indiferente a todos. Fao-os calar: eu falo.

    Os impulsos cruzados Do que sinto ou no sinto Disputam em quem sou. Ignoro-os. Nada ditam A quem me sei: eu 'screvo.

    Vive sem Horas Vive sem horas. Quanto mede pesa,E quanto pensas mede.Num fluido incerto nexo, como o rioCujas ondas so ele,Assim teus dias v, e se te viresPassar, como a outrem, cala.

    Vs que, Crentes Vs que, crentes em Cristos e Marias, Turvais da minha fonte as claras guas S para me dizerdesQue h guas de outra espcie

  • Banhando prados com melhores horas Dessas outras regies pra que falar-me Se estas guas e prados So de aqui e me agradam?

    Esta realidade os deuses deram E para bem real a deram externa. Que sero os meus sonhos Mais que a obra dos deuses?

    Deixai-me a Realidade do momento E os meus deuses tranqilos e imediatos Que no moram no Vago Mas nos campos e rios.

    Deixai-me a vida ir-se pagmente Acompanhada pelas avenas tnues Com que os juncos das margens Se confessam de P.

    Vivei nos vossos sonhos e deixai-me O altar imortal onde meu culto E a visvel presena os meus prximos deuses.

    Inteis procos do melhor que a vida, Deixai a vida aos crentes mais antigos Que a Cristo e a sua cruz E Maria chorando.

    Ceres, dona dos campos, me console E Apolo e Vnus, e Urano antigo E os troves, com o interesse De irem da mo de Jove.

    Vossa Formosa

    Vossa formosa juventude Ieda, Vossa felicidade pensativa,Vosso modo de olhar a quem vos olha, Vosso no conhecer-vos

    Tudo quanto vs sois, que vos semelha vida universal que vos esquece D carinho de amor a quem vos ama Por serdes no lembrando

    Quanta igual mocidade a eterna praia De Cronos, pai injusto da justia, Ondas, quebrou, deixando s memria Um branco som de 'spuma.