planimetria em koellreutter

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Música

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  • PLANIMETRIA EM KOELLREUTTER E ATRATORES ESTRANHOS COMO METFORA PARA A COMPOSIO MUSICAL COM IMPROVISAO GUIADA

    Daniel PuigColgio de Aplicao da UFRJ

    Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro UNIRIOPPGM Doutorado em Msica

    Subrea de Linguagem e Estruturao MusicalSIMPOM: Subrea de Composio

    ResumoEste artigo procura delinear as possibilidades da utilizao do conceito de atrator estranho, provindo da Teoria do Caos, como metfora para a composio musical que se utiliza da improvisao guiada. Inicia por expor o conceito de planimetria como entendido por H. J. Koellreutter, em suas relaes com: a Psicologia da Gestalt e seus princpios bsicos; o serialismo numa viso estruturalista; uma viso dinmica do silncio, entendido como plano ou espao continente das ocorrncias musicais. O relacionamento entre esta concepo e ideias provenientes da Teoria do Caos, em especial o funcionamento de sistemas dinmicos no-lineares, explorado com relao composio de Caotrios 1 e de sua execuo em dois momentos diferentes: na estreia, em 1995, e nos Cursos Internacionais de Frias para a Nova Msica (Internationalen Ferienkurse fr Neue Musik), em Darmstadt, Alemanha, em 2010. A partir da exposio do conceito de atrator estranho, isto , de um conjunto de possibilidades para o qual um determinado sistema dinmico no-linear tende, cujo comportamento no tempo imprevisvel e cuja estrutura apresenta uma dimenso fractal, faz-se uma relao entre este, a planimetria e a possibilidade de utiliz-lo como metfora para o pensamento composicional que se utiliza da improvisao guiada, baseando as concluses nos resultados obtidos com Caotrios 1.

    Palavras-chave: composio; improvisao; planimetria; atratores estranhos.

    17.

    1. Planimetria e sistemas dinmicos no-lineares

    Em 2005 defendi minha Dissertao de Mestrado junto ao Programa de Ps-Graduao em

    Msica da Escola de Msica da UFRJ. Intitulada "Msica e Sistemas Dinmicos No-Lineares:

    uma abordagem composicional", resumiu uma pesquisa de anos acerca de alguns conceitos da

    Teoria do Caos e suas possveis aplicaes para a composio musical. Organizada e aprofundada

    durante o curso, sob a orientao do Prof. Dr. Rodrigo Cicchelli Velloso, no s abordei o trabalho

    de outros compositores, como algumas aplicaes das ideias levantadas no texto, em composies

    de minha autoria (PUIG, 2005a).

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    I Simpsio Brasileiro de Ps-Graduandos em MsicaXV Colquio do Programa de Ps-Graduao em Msica da UNIRIO

    Rio de Janeiro, 8 a 10 de novembro de 2010

  • A dissertao ajudou-me a sistematizar um conhecimento com o qual eu havia entrado em

    contato primeiramente nas aulas de composio com Hans-Joachim Koellreutter no incio dos anos

    90. Explicando suas ideias acerca do que ele chamava de "esttica relativista do impreciso e do

    paradoxal", Koellreutter comentava alguns dos conceitos da Teoria do Caos que poca

    influenciavam o pensamento sobre arte. A partir da passei a estudar o tema, primeiramente no livro de

    James Gleick (1991), por sugesto do professor, e mais tarde na crescente bibliografia especializada

    que foi surgindo. Procurei entender os principais conceitos dessa teoria, as discusses acerca da

    mudana de paradigma para as cincias que ela representava e as ligaes dessas ideias com a arte em

    geral e a msica especificamente. A orientao de Koellreutter, voltou-se para a discusso das

    implicaes estticas dessas ideias e suas consequencias para a msica. Suas observaes ampliavam

    o tema pela incluso de diversos autores que no se restringiam Teoria do Caos (ver, por exemplo, as

    citaes nos textos em KOELLREUTTER, 1987, e a bibliografia em 1990a).

    Ao perceber meu interesse pelas formas abertas e pela utilizao do acaso como parte da

    composio musical, passou a ensinar-me sua tcnica planimtrica de composio. Para o

    entendimento desse conceito era preciso partir do que ele chamava de estruturalismo na msica,

    uma vez que via a planimetria como uma consequencia dessa abordagem. Em seu livro

    "Terminologia de Uma Nova Esttica da Msica", estruturalismo definido como uma:

    Tendncia estilstica em que estruturas (unidades estruturais ou gestalten) substituem melodia, harmonia, etc. Os componentes da obra musical estruturalista no so independentemente analisveis, mas representam um conjunto de interrelaes dinamicamente perceptveis em constante movimento. (KOELLREUTTER, 1990a, p.55)

    A ligao dessa perspectiva com os princpios da Psicologia da Gestalt e da Teoria da

    Informao clara e Koellreutter referenciava os conceitos dessas reas a todo tempo em sua

    abordagem da composio musical. Definindo planimetria, ele escreveu:

    Tcnica de composio; maneira especfica de organizar a msica estruturalista (...). Levantamento cronogrfico destinado a fornecer as medidas e propores do plano partitura ou de uma de suas partes, isto , a projeo grfica das partes significativas do trecho. Realizao de um espao temporal vazio (plano ou fundo) pelo levantamento de ocorrncias musicais. (KOELLREUTTER, 1990a, p.104)

    importante relacionar com este conceito sua definio de "plano", como sendo o "espao

    continente em que acontecem as ocorrncias musicais (= silncio)" (KOELLREUTTER, 1990a, p.

    105). Em seu artigo a respeito de sua composio Wu-Li (KOELLREUTTER, 1990b), encontramos

    esta ideia mais desenvolvida:

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    I Simpsio Brasileiro de Ps-Graduandos em MsicaXV Colquio do Programa de Ps-Graduao em Msica da UNIRIO

    Rio de Janeiro, 8 a 10 de novembro de 2010

  • O "plano" existe sempre onde h sons. o portador das ocorrncias sonoras, por assim dizer. o silncio que faz emergir o som. As ocorrncias musicais, suas variaes e transformaes, o vaivm dos sons so manifestaes do plano.Os sons qualquer coisa que soa passam a existir espontaneamente a partir do silncio, no qual, finalmente, chegam a desaparecer.O silncio existe sempre e por toda parte. E os sons so manifestaes transitrias do silncio subjacente, criadas pela mente humana. No a simples ausncia de som. repleto de potencialidades sonoras, disposio do esprito humano e da criatividade intelectual do homem. tambm monotonia, ndice alto de redundncia, reverberao, despretenso, esboo, delineamento, transparncia, simplicidade, austeridade e meditao.

    Koellreutter procura fechar de maneira clara e concreta o que entende por composio

    planimtrica. Primeiramente, o fato de que no existem parmetros isolados, mas sim relaes entre

    diferentes grandezas do discurso sonoro, cuja compreenso deve passar por um entendimento que as

    capta em sua dinmica e movimento constantes. Na base dessa compreenso "estruturalista" (no

    sentido aqui colocado por Koellreutter) esto os princpios da Psicologia da Gestalt, aplicados ao

    entendimento das relaes entre os sons no mbito da percepo humana: a boa-forma, as relaes de

    figura / fundo, a concepo de que o todo no uma mera soma de suas partes, os princpios de

    proximidade, semelhana e continuidade, bem como a ideia de que nossa percepo tende a fechar em

    Gestalten, aqueles estmulos que nossa experincia anterior j configurou dessa maneira. Procurando

    os termos Gestalt e Gestaltismo em seu glossrio (KOELLREUTTER, 1990a, p.65), encontramos esta

    viso bem recortada, embora para o msico que tenha passado por uma formao tradicional, onde

    no usual abordar a Psicologia da Msica e, consequentemente, os princpios da Gestalt aplicados a

    ela, o verbete parea incompleto por no destrinchar tecnicamente cada um deles.

    curioso notar que seus inmeros exemplos nesses dois verbetes concentram-se em Anton

    Webern, alm de suas prprias composies. De fato, Koellreutter enfatizava que a composio

    planimtrica era uma consequncia do serialismo. Tecnicamente ela parte sempre de uma srie,

    onde, consoante com sua concepo relativista / gestaltista / estruturalista, as alturas no so

    tomadas como absolutas, mas, sim, como um conjunto ordenado de relaes intervalares. Sua

    concepo era a de que a planimetria era capaz de manter o equilbrio entre as diferentes alturas

    utilizadas, sem privilegiar nenhuma delas, por partir de uma viso estatstica da ocorrncia dos

    eventos ou signos musicais durante a execuo. Tal viso estatstica tinha uma forte base emprica

    poderia-se dizer, composicional onde Koellreutter insistia que o compositor deveria imaginar

    uma execuo real da partitura planimtrica, testar seu funcionamento anotando diferentes

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    I Simpsio Brasileiro de Ps-Graduandos em MsicaXV Colquio do Programa de Ps-Graduao em Msica da UNIRIO

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  • possibilidades de execuo especialmente as possibilidades extremas de escolhas dos intrpretes

    e estud-las cuidadosamente. A mesma concepo aplicada a quaisquer outros parmetros do

    som, fazendo com que a construo composicional privilegie uma viso das relaes dentro do

    discurso sonoro, em detrimento de uma decupagem de valores paramtricos absolutos.

    Por outro lado, a composio planimtrica est assentada, igualmente, em uma concepo

    dinmica do silncio ou plano. Koellreutter no entende som e silncio como valores opostos e

    excludentes, mas sim como complementares, interligados e interdependentes (cf. com

    KOELLREUTTER, 1990a, p.119: definio de silncio). Destacando, a partir das colocaes

    acima: o silncio ou plano o portador das potencialidades sonoras a servio da criatividade

    humana e, ao mesmo tempo, o espao continente das ocorrncias musicais. A composio

    planimtrica, portanto, consiste em levantar cronograficamente os limites e configuraes gerais das

    ocorrncias que se quer destacar do plano, em medidas e propores de relaes sonora