estratificaÇÃo social na teoria de max weber

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  • ESTRATIFICAO SOCIAL NA TEORIA DE MAX WEBER: CONSIDERAES EM TORNO DO TEMA

    MARCELO RODRIguES LEMOS

    Mestre em Cincias Sociais pela universidade Federal de uberlndia (uFu), graduado em Cincias Sociais (uFu). Professor de sociologia no Ensino Mdio, em Patrocnio-Mg.

    Contato: marcelo.lemos@hotmail.com.

    S o c i o l o g i a

  • Revista(Iluminart(|(Ano(IV(|(n(9(5(Nov/2012((|((113(

    ESTRATIFICAO SOCIAL NA TEORIA DE MAX WEBER: CONSIDERAES EM TORNO DO TEMA

    Marcelo Rodrigues Lemos

    RESUMO: O seguinte artigo tece reflexes acerca do mtodo analtico weberiano, a Sociologia

    Compreensiva. Para tanto, o foco central abordado diz respeito Teoria da Estratificao Social,

    identificando os conceitos de casta, estamento, classe e partido aos tipos ideais. Por fim,

    atualizaes no pensamento de Max Weber so efetivadas por meio de autores contemporneos

    como Sedi Hirano e Wright Mills, os quais revisam tais categorias.

    PALAVRAS-CHAVE: casta, classe, estamento, estratificao, Weber

    SOCIAL STRATIFICATION IN MAX WEBER'S THEORY:

    CONSIDERATIONS ON THE SUBJECT

    ABSTRACT: This paper reflects on the analytical method of Weber, the Comprehensive

    Sociology. For this, the central focus addressed concerns the theory of social stratification,

    identifying the concepts of caste, estate, class and party to the ideal types. Finally, updates to the

    thought of Max Weber are investigated through contemporary authors such as Sedi Hirano and

    Wright Mills, who review those categories.

    KEYWORDS: caste, class, estate, stratification, Weber

    1. A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA: MTODO ANALTICO WEBERIANO

    O alemo Karl Emil Maximilian Weber, mais conhecido como Max Weber (1864 - 1920),

    nasceu em uma respeitada famlia da burguesia txtil e teve ampla formao acadmica,

    possibilitada pelas poses de seus pais. O pai foi jurista e poltico pragmtico, j a me no

    hesitava em imprimir no filho a tradio protestante de ver o mundo. Ao passar por estudos sobre

    Direito, Economia, Filosofia, Histria e Teologia, tornou-se, ao lado de mile Durkheim (1858 -

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    1917) e Karl Marx (1818 - 1883), um dos pais fundadores da Sociologia, tecendo reflexes

    significativas sobre a realidade social.

    A importncia dos debates em torno das Cincias Sociais, implementados na Alemanha

    durante a segunda metade do sculo XIX, influenciaram o pensamento de autores como Dilthey,

    Lukcs, Marx, Rickert, Simmel, Tnnies, Windelband e, obviamente, Weber. Os pressupostos

    colocados em evidncia nesse contexto histrico tratavam da definio da especificidade analtica

    das Cincias Sociais em relao s Cincias da Natureza, estabelecendo campos de

    conhecimento distintos. A preocupao de Weber era com os instrumentos metodolgicos de

    investigao sociolgica. Para tanto, o autor inova com o mtodo de anlise conhecido como

    Sociologia Compreensiva.

    As interpretaes totalizantes no fazem parte da agenda de estudos weberianos. Por

    considerar a realidade social infinita e em funo de limitaes cientficas de cunho tcnico,

    Weber se interessa por compreender teoricamente eventos em sua singularidade. Dessa forma,

    fragmentos da realidade so colocados em realce por meio da especificidade de um objeto

    recortado (SAINT-PIERRE, 1994).

    As perspectivas tericas que evocam a representao do curso real dos eventos so, para

    Weber, errneas. Tentar reproduzir a realidade sem falhas, encontrando as causas autenticas e

    verdadeiras do devir no correto, pois tais concepes no somente avaliam erradamente a

    natureza probabilstica da causalidade histrica, seno tambm se pem em contradio com a

    essncia da cincia, j que no h conhecimento sem pressuposio (FREUND, 1987, p.103).

    Assim, o objeto da Sociologia weberiana a interpretao da ao social, entendida como

    conduta humana dotada de sentido. Sua Sociologia Compreensiva busca entender, interpretando

    o sentido de tal ao, explicando-a causalmente em seus desenvolvimentos e efeitos. Cabe

    destacar a figura do agente individual, enquanto entidade portadora de sentido, como responsvel

    por levar suas motivaes s aes sociais, as quais so (tpico-idealmente falando) de cunho

    afetivo, tradicional, racional conforme fins ou racional conforme valores. Weber (1991) destaca

    que quando h o compartilhamento de sentido das aes sociais com a criao de um

    comportamento reciprocamente referido, surge a relao social, tambm passvel de anlise.

    O autor afirma que embora o objeto das Cincias Sociais se encontre dentro da esfera de

    valores e em premissas subjetivas, o cientista social no est, por isso, condenado a produzir um

    saber puramente valorativo e sem neutralidade. A partir de tal constatao, Weber (1999)

    apresenta o problema da objetividade das Cincias Sociais, apontando sua superao por meio

    de critrios metodolgicos claros.

    possvel alcanar concluses objetivamente vlidas no terreno das Cincias Sociais

    quando os juzos de valor so identificados e excludos do discurso cientfico e quando se cumpre

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    a verificao emprica das preposies formuladas. Logo, a posio epistemolgica de Weber vai

    se delineando por duas condies fundamentais.

    A primeira refere-se distino entre relao com valores e juzos de valor. Com isso,

    entende-se a relao com valores como um instrumento analtico por meio do qual o cientista

    realiza a seleo do objeto a ser estudado. A partir da relao com valores recorta-se a realidade,

    efetivando-se, tambm, uma triagem entre os elementos essenciais ou acessrios, definindo a

    unidade do problema e destacando o objeto mediante sua significao cultural. Pois o objetivo das

    formulaes weberianas to somente tornar mais inteligveis nossa percepo certos

    aspectos, a saber, os que permitem extrair significaes histricas nos limites da pesquisa,

    definidas pela relao com os valores (FREUND, 1987, p.103). J os juzos de valor so

    elementos de posio poltica e moral do cientista, comprometem a neutralidade da anlise por se

    destacarem enquanto juzos parciais da esfera do deve ser.

    A segunda posio epistemolgica de Weber diz respeito importncia da comprovao

    emprica das hipteses, sendo essencial validar cientificamente o fenmeno estudado por meio do

    teste emprico e mediante a explicao causal (WEBER, 1991).

    Como apresentado, toda a objetividade do conhecimento nas Cincias Sociais somente

    alcanada atravs de recursos metodolgicos. O maior recurso garantidor de tal objetividade a

    construo dos tipos ideais, representados por um

    [...] quadro do pensamento [que] rene determinadas relaes e acontecimentos

    da vida histrica para formar um cosmos no contraditrio de relaes pensadas.

    Pelo seu contedo, essa construo reveste-se do carter de uma utopia, obtida

    mediante a acentuao mental de determinados elementos da realidade [...].

    Obtm-se um tipo ideal mediante a acentuao unilateral de um ou vrios pontos

    de vista, e mediante o encadeamento de grande quantidade de fenmenos

    isoladamente dados, difusos e discretos, que se podem dar em maior ou menor

    nmero ou mesmo faltar por completo, e que se ordenam segundo os pontos de

    vista unilateralmente acentuados, a fim de se formar um quadro homogneo de

    pensamento. Torna-se impossvel encontrar empiricamente na realidade esse

    quadro [...]. A atividade historiogrfica defronta-se com a tarefa de determinar, em

    cada caso particular, a proximidade ou o afastamento entre a realidade e o quadro

    ideal (WEBER, 1999, p.105-6).

    Dessa forma, o sentido das aes sociais investigado pelo socilogo possibilitado pela

    construo cientfica do mtodo tipolgico. Como aplicao de toda a problematizao

    metodolgica anterior, este ensaio busca refletir acerca da tipologia weberiana em sua Teoria da

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    Estratificao Social, bem como apontar a reviso das ideias de Weber feita por autores

    contemporneos que abordam a referida temtica.

    2. TEORIA DA ESTRATIFICAO SOCIAL

    Como j apresentado, o sentido levado atividade social, embora dotado de personalismo,

    orientado pelo comportamento/conduta de outros. Freund (1987, p.90) destaca que a relao

    social o comportamento de uma pluralidade de indivduos que, pelo contedo significativo de

    suas atividades, regulam sua conduta reciprocamente uns pelos outros. Nesta direo, pode-se

    transpor as ponderaes de Freund (1987) para as categorias da estratificao social, entendendo

    que o sentido levado pelos indivduos s relaes baseadas na estratificao so comuns e

    compartilhados, legitimando a hierarquia.

    Existem diversas razes para se ingressar em uma relao de convvio, a qual orientada

    por princpios referentes estratificao e suas normas. O modo como os indivduos esto

    organizados socialmente requer o compartilhamento de relaes sociais, ou seja, o entendimento

    mtuo da coerncia do esquema de estratificao faz com que o sentido de tais princpios seja

    comungado pela coletividade envolvida neste arranjo estrutural.

    Assim, a estratificao a maneira pela qual os indivduos se reproduzem socialmente e,

    de acordo com Weber (1974), toda a discusso relativa estratificao social requer, inicialmente,