despotismo fabril hist 2008

Download Despotismo fabril hist 2008

Post on 06-Jun-2015

483 views

Category:

Business

5 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • 1. Elsio Estanque O Despotismo FabrilPublicado em: Revista Portuguesa de Histria, n 37 (2005). Coimbra: Faculdade de Letras daUniversidade de Coimbra, pp 131-152.Elsio EstanqueCentro de Estudos Sociais,Faculdade de Economia da Universidade de CoimbraO Despotismo Fabril: violncia e poder numa empresa industrial do caladoResumo:O ambiente social numa fbrica industrial do sector do calado (em So Joo da Madeira)na segunda metade da dcada de 1990 o contexto que aqui se retrata e caracteriza doponto de vista sociolgico. O estudo pretende, por um lado, analisar as lgicas de poder e apresena de elementos de violncia no quotidiano fabril; e, por outro lado, procede a umdiagnstico das condies de precariedade do operariado portugus num perodo de crise ede mudanas profundas no nosso tecido produtivo. Para alm disso, procura-se tambmmostrar os mecanismos de aceitao e de resistncia que germinam entre a colectividadeoperria, na sua relao com a empresa, utilizando para tal uma perspectiva auto-reflexiva euma metodologia de observao participante. Esse procedimento permitiu ainda questionara complexidade da referida metodologia e a situao ambivalente do prprio investigadorna sua relao com os diferentes actores sociais no seio da empresa.Quando me convidaram para escrever um artigo centrado no tema das relaeslaborais para um volume temtico sobre violncia de imediato me ocorreu aexperincia de observao participante que vivi h cerca de dez anos atrs numa empresaindustrial do sector do calado em S. Joo da Madeira (SJM). dessa realidade que aquipretendo dar conta. Optei por um registo que recupera alguns extractos do Dirio deCampo que na altura elaborei, e assume uma abordagem auto-reflexiva onde patente aambiguidade da posio em que se encontra o investigador. Trata-se, por um lado, dedescrever e recriar o ambiente vivido no dia-a-dia da fbrica, mostrando alguns doscontornos e contradies de que se revestem os mecanismos de poder que a em vigor.Por outro lado, d-se conta do percurso sinuoso em que o observador se encontrava,envolvido num mundo social que lhe era estranho, e que se depara com todo um conjuntode desafios, dilemas e opes a que tem de responder nesse quotidiano (onde permanecidurante cerca de trs meses).

2. Elsio Estanque O Despotismo Fabril 1. Enquadramento O principal objectivo partir do registo etnogrfico para retratar o ambiente socialda empresa, mostrando os principais mecanismos de poder que a funcionam. Uma dasvantagens deste tipo de metodologia reside no facto de ela permitir elaborar uma espciede arqueologia dos processos de estruturao social, no quadro de um microsistema decaractersticas sui generis. Na realidade, a fbrica industrial um mundo que, para l dasua aparncia rotineira, se vai revelando como repleto de dinamismos no seio dosprprios operrios com as suas segmentaes internas, entre o colectivo operrio e ahierarquia, entre a empresa e a comunidade envolvente, entre homens e mulheres, etc.Alm disso, as mltiplas contradies que podem ser detectadas na fbrica evidenciamno apenas fenmenos de mbito local mas, antes, reflectem os impactos das clivagensestruturais que o capitalismo global vem promovendo, no contexto da globalizaoeconmica actual. Por outras palavras, trata-se, de pr em prtica o que alguns socilogosdesignaram de mtodo de caso alargado, ou seja, trata-se de procura usar um casoparticular para detectar relaes causais e linhas explicativas que nos ajudem acompreender as dinmicas estruturais do mundo social mais vasto onde ele se insere(Burawoy, 1979 e 1985; Santos, 1995). O presente texto insere-se, assim, na mesma linha de estudos anteriores que tenhodesenvolvido sobre as relaes de trabalho, o sindicalismo e as desigualdades de classeem Portugal (Estanque, 2000, 2003, 2004a, 2004b e 2005). Como sabido, ao longo dosanos noventa, a temtica da articulao entre a indstria e a pequena agriculturatradicional foi apontada como um dos traos especficos das sociedades semiperifricas,como a portuguesa. Em especial os sectores industriais de mo-de-obra intensiva (como odo calado) foram assinalados como estando a sofrer processos de implantao difusa,onde se articulam espaos urbanos e rurais, contribuindo para desenvolver culturas erelaes laborais particulares, dando lugar a modelos produtivos em que o capitalismo semistura com modalidades de produo simples, de matriz tradicional ou pr-capitalista(Santos, 1990 e 1993; Reis, 1992). Os processos mais recentes de fragmentao do trabalho e de precarizao dasrelaes laborais tm vindo a tornar ainda mais difcil a capacidade de resistncia do 2 3. Elsio Estanque O Despotismo Fabrilmovimento operrio e sindical contra a hiperexplorao de que o trabalhador volta a servtima, agora escala global. Mais de 150 anos decorridos aps a publicao doManifesto e no obstante a falncia histrica da doutrina marxista-leninista alguns dospostulados tericos de Marx e Engels continuam a revelar grande actualidade enquantoinstrumentos de anlise do sistema capitalista. Por outras palavras, a velha clivagemcapital-trabalho persiste, j que, considerando essa dicotomia clssica, as grandestransferncias de mais-valia continuam a traduzir-se na intensa explorao da classetrabalhadora em favor do capital transnacional.No entanto, e paradoxalmente, a fora crescente do mercado e do capitalismoneoliberal, lado a lado com a sua capacidade de coordenao escala mundial temdecorrido em paralelo com o aumento da debilidade da classe trabalhadora enquantosujeito colectivo. O capital une-se e coordena-se enquanto o trabalho se divide efragmenta cada vez mais. , pois, neste contexto de profundas mutaes scio-laboraisque podemos dizer que recuperando novamente a referncia a Marx a luta declasses deixou de ser o motor da histria e perdeu significado no terreno poltico,muito embora se intensifiquem as desigualdades e os mecanismos de explorao1.A fora de trabalho hoje multitnica, sofre os efeitos da mobilidade e fluidez docapital transnacional, alimenta-se de movimentos migratrios e redes clandestinas detrfico. Apesar da globalizao e por causa dela , os sectores mais degradados, pobrese excludos da classe trabalhadora tendem a localizar-se cada vez mais. O velhooperariado industrial perde peso demogrfico, as leis laborais tornam-se mais flexveis,os despedimentos mais fceis (o desemprego aumenta), ao mesmo tempo que emergem ecrescem novos sectores proletarizados, sem condies de negociar ou reivindicar deforma organizada. Ou seja, pode dizer-se que a classe enquanto actor ou fora socialperdeu sentido, embora se mantenha e porventura at se intensifique o efeito de classeenquanto barreira social, isto , enquanto factor estruturante do acesso desigual aosrecursos (Pakulsky e Waters, 1996; Wright, 1997). So estes processos de profundarecomposio das desigualdades sociais que tm vindo a ser apontados para ilustrar a1 O processo de segmentao das classes e de fragilizao dos movimentos sociais em geral e domovimento sindical em particular de tal maneira poderoso que retirou ao operariado e classe 3 4. Elsio Estanque O Despotismo Fabrilformao de novas subclasses locais, a par da emergncia de um nova sobreclasse outambm chamada classe capitalista transnacional (Estanque, 2005; Sklair, 2001).Quer isto dizer que com a intensificao destas tendncias aperfeioou-se a eficciados mecanismos de sujeio, e aumentaram extraordinariamente o individualismo, aideologia consumista, os factores promotores de aceitao, consentimento e alienao dostrabalhadores e dos cidados em geral. luz destes fenmenos e da sua recente expansono plano global, faz sentido recuperar aqui a expresso relaes na produo, cunhadapor Michael Burawoy (1979; 1985), que pode contrapor-se ao velho conceito derelaes de produo. Na verdade como a seguir se ver , quando se observa ofervilhar de uma fbrica industrial no seu quotidiano, mais do que o conflito de classestradicional, o que salta vista todo um conjunto dinmico de processos de estruturaoidentitria entre grupos distintos, de diferentes geraes, culturas, categoriasprofissionais, sexos, etc. O prprio conceito de ideologia aqui considerado para alm doseu velho sentido poltico-doutrinrio, como dimenso que se enraza e mistura comoutros factores socioculturais. S com tal procedimento possvel captar a emergncia deuma pluralidade de micro-ideologias e formas de aco de natureza distinta, umasprovenientes do topo da hierarquia, outras da base, umas de sentido autocrtico edesptico, outras veiculando formas de rebeldia tcita, outras ainda promotoras deconsentimento e aceitao (Burawoy, 1985; Therborn, 1980).2. O sector industrial do caladoEstes pressupostos tericos mais gerais permitem explicitar alguns dos principaistraos que tenho utilizado na anlise deste sector industrial. Vigora na industria docalado um sistema disciplinar que classifiquei de desptico-paternalista (Estanque, 2000e 2004a), isto , um sistema de controlo cujos contornos combinam elementos demodernidade tcnica com lgicas de gesto pr-modernas derivadas do persistentevnculo entre a indstria e as comunidades tradicionais da regio. Sendo Portugal umpas semiperifrico da Europa, pode dizer-se que esta uma regio perifrica dentro dasemiperiferia. Os inmeros contrastes nos planos cultural e scio-econmico revelam apresena de fenmenos semelhantes aos vividos em pases desenvolvidos, como o Reinotrabalhadora qualquer capacidade de resposta organizada. Para uma anlise aprofundada da temtica das 4 5. Elsio Estanque O Despotismo FabrilUnido, h mais de 150 anos. As desigualdades e modelos de controlo em vigor nasempresas recordam-nos os regimes paternalistas do capitalismo ingls mistura comoutros traos mais tpicos do despotismo de mercado de certas regies dos EUA, ambosfenmenos originariamente identificados no sculo XIX (Burawoy, 1985). Sobretudo nasempresas de pequena e mdia dimenso, subsiste uma mentalidade empresarialconservadora e orientada para o lucro fcil, que se traduz em modelos de gesto de tipoarbitrrio e despti