cruzando o atlântico: etnias africanas nas américas crossing the

Click here to load reader

Post on 08-Jan-2017

227 views

Category:

Documents

10 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • Cruzando o Atlntico: etniasafricanas nas Amricas

    Crossing the Atlantic Ocean: Africanethnic groups in the Americas

    Gwendolyn Midlo Hall

    We are called, we are named just like a child is given a nameand who, like a child, do not have a say in the choice of ourown name. (Possumos um nome, recebemos um nome como

    qualquer criana, e, como crianas, no temos o direito deopinar na escolha do nosso prprio nome.)

    Olabiyi Yai. 1

    Qui se disent leur nation Bambara (Eles dizem que suanao Bambara), retirado de um documento de venda de

    escravos em Lusinia. 2

    Trs clssicos da literatura afro-americana foram publicados durante asegunda metade do sculo XX: The Invisible Man, de Ralph Ellison, em1952; Nobody Knows My Name, de James Baldwin, em 1961; e Roots, deAlex Haley, 1976. Estas obras reproduzem um sentimento de anonimatoentre os afro-americanos e refletem tambm a agonia e sofrimento de seusantepassados capturados, seqestrados, escravizados, comercializados, tras-ladados e acorrentados em navios que cruzavam o Atlntico, e que, emseguida, eram explorados e aterrorizados por todo o Novo Mundo. Priva-dos do seu passado, os afro-americanos tornaram-se invisveis, estigmatiza-dos e annimos nas vrias sociedades para as quais foram trazidos fora.3

    Utilizando novas perspectivas historiogrficas, especialmente o cruzamentode informaes organizadas em bancos de dados informatizados, o desafiodeste trabalho contribuir recuperao da memria de antepassados dosafro-americanos, tornando-os visveis nos vrios pases do continente ame-ricano.4

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

  • 30 GWENDOLYN MIDLO HALL

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    Alguns especialistas e o pblico em geral afirmam que se pode conhe-cer os ancestrais dos afro-americanos porque eram escravos. Curiosamente,como os escravos eram juridicamente considerados propriedades, h maisdocumentos disponveis sobre eles do que sobre os homens livres. Tais do-cumentos descrevem minuciosamente aspectos de suas vidas tais como: osnomes e os de seus respectivos senhores, a idade, seus ofcios, suas doenas,informaes sobre famlias escravas, as origens, incluindo s vezes a sua etnia,e, finalmente, os seus valores de mercado. H uma imensa quantidade dedocumentos inditos ou no que trazem dados preciosos sobre a vidados escravos nos pases americanos e que esto espera de estudos maisaprofundados. Os avanos na rea de Histria permitem, hoje, reconstituiros laos de parentesco entre muitos dos africanos que vivem na frica e seusdescendentes afro-americanos. Para se ter uma noo do volume da docu-mentao disponvel, s com avano nas tcnicas de informao que setornou possvel controlar o material existente, podendo-se obter uma idiamais precisa do conjunto.

    Os estudos sobre a escravido nas Amricas no podem prescindir dasfreqentes alteraes ocorridas nos diferentes contextos espaciais e tempo-rais que se sucediam nos dois lados do Atlntico. A tarefa complexa edifcil. Mesmo se desconsiderarmos o tradicional trfico de escravos para omundo islmico atravs do Saara e do Mediterrneo, e ao longo da costaoriental da frica e Oceano ndico, apenas o trfico atravs do Atlnticodurou mais de quatro sculos consecutivos. O primeiro navio portugusaportou na regio subsaariana em 1444, na Senegmbia, onde embarcouafricanos e os vendeu posteriormente em Portugal. Depois da conquista daAmrica, os navios negreiros que faziam a rota do Atlntico continuaramlevando escravos capturados na frica para a Pennsula Ibrica. S durante aprimeira metade do sculo XIX, j completando quatro sculos da ativida-de negreira, que, paulatinamente, o trfico foi considerado ilegal. Aindaassim, os ento designados trabalhadores por contrato eram aprisionadose exportados para as Amricas e Ilhas Atlnticas situadas no Golfo da Guin.5

    Por quatro sculos, os escravos foram trazidos de regies da frica paravrios pontos do continente americano. Os nmeros e as porcentagens deetnias exportadas de cada regio do continente africano variaram durante operodo da atividade negreira. Por fim, as fontes primrias sobre o tema e a

  • TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    CRUZANDO O ATLNTICO: ETNIAS AFRICANAS NAS AMRICAS 31

    bibliografia especializada flutuam basicamente entre cinco idiomas: ingls,francs, espanhol, portugus e holands.

    Os bancos de dados compostos a partir de fontes seriais em diversospases das Amricas ultrapassam os limites da Histria local. Alm de con-tribuir para os estudos sobre a dispora africana, esta documentao trazelementos importantes para a Histria da frica. Para se rastrear as diferen-tes etnias, o estudo da travessia atlntica no suficiente. As viagens nosfornecem informaes sobre os principais portos de embarque e sobre oslugares onde os negros eram comercializados assim que desembarcavam nocontinente americano. As etnias que partiam dos vrios portos da fricatransformavam-se ao longo do tempo. Logo aps o desembarque, os escra-vos eram revendidos e, conseqentemente, transferidos para outras locali-dades, para outras regies. Os estudos baseados nas fontes seriais produzidasnas Amricas e organizadas em bancos de dados contm registros que nospermitem recuperar informaes referentes a recortes sexo-etrios, bem comoperceber a mudana nos padres de composio do grupo ao longo dotempo e de acordo com a regio observada. Estes estudos so importantestanto para a Histria da Amrica como para a Histria da frica. Os pa-dres das etnias que aparecem nas Amricas durante um perodo determi-nado podem ser teis para ambos os continentes e apresentam umamargem de segurana bastante alta.6

    O sentido em que se emprega o termo nao na documentao pro-duzida nas Amricas mltiplo. H uma escassez de estudos histricosaprofundados e conhecimento sistematizado sobre as etnias africanas noNovo Mundo, lacuna essa igualmente verificada na frica. 7 fcil confun-dir-se diante do nmero de designaes que aparecem para se referir a umavariedade de populaes ao longo de 400 anos de trfico pelo Atlntico.Portanto, o significado das naes e a designao tnica variam no tem-po e no espao. Por exemplo, alguns especialistas se baseiam nos termosque os europeus que viajaram para a frica utilizavam para definir as etniasno continente negro, embora transferir semelhantes taxonomias tnicaspara a Amrica seja bastante questionvel. O Louisiana Slave Database1719-1820, ferramenta sofisticada e detalhada sobre a escravido, nosmostra que, quando os africanos eram vendidos pela primeira vez, as suasetnias raramente eram indicadas, e que, portanto, os escravos s passavam

  • 32 GWENDOLYN MIDLO HALL

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    a se definir etnicamente aps alguns anos de vivncia na Amrica. Quantomais tempo os africanos permaneciam na Lusinia, mais freqentementesuas etnias eram identificadas.

    A toponmia e as etnias que nos informam sobre os indivduos quesaram da frica precisam ser cuidadosamente identificadas pelos especialis-tas. Entre os historiadores que estudam essa temtica, um nmero diminu-to considera etnia como sinnimo de tribo ou a trata como uma categoriaimutvel ao longo da histria.8 Tribo uma categoria esttica que remete idia de povos primitivos, implicando ainda a crena de que os africanosse identificavam de acordo com suas relaes de parentesco, com o cl.Entretanto, as prprias referncias que serviam para identificar os gruposvariavam de acordo com o tempo e o espao. No processo de formao dosEstados, por exemplo, a tradio matrilinear no raro se transformou emuma fora desestabilizadora, especialmente nas sociedades onde havia a po-ligamia. As mudanas na hierarquia fundada no parentesco e na descendn-cia ocorriam na medida em que novas polticas iam sendo criadas e, assim,demandavam o estabelecimento de novos laos de lealdade. Na regio deAngola, ainda durante o sculo XVI, por exemplo, com intuito de destruira fora da matrilinearidade, os Jaga buscaram pr termo ao poder das rela-es de parentesco evitando que suas esposas tivessem filhos, matando aambos ou excluindo-os da comunidade. Com efeito, capturavam e adota-vam crianas com as quais no tinham laos sangneos. Os homens da eliterecorriam ao casamento com escravas como forma de anular ambies, exi-gncias e conflitos entre as suas esposas. Na Alta Guin, durante o sculoXVIII, o estado Bambara de Segu, em expanso, foi se constituindo e si-multaneamente substituindo as filiaes fundadas em grupos de idade e emlealdades pessoais pela descendncia. 9

    Muitos africanos se identificavam com imprios antigos e mais recen-tes, reinos e outras organizaes polticas de menor porte. Algumas etniaseram nomeadas de tal ou qual modo por outros grupos. Freqentemente,os comerciantes de escravos se referiam aos grupos a partir da toponmia,incluindo nome de regies, de portos, do litoral ou de lugares ainda maisespecficos. Os portugueses, por exemplo, nomearam as Ilhas Bijag emfuno dos povos que nela habitavam.10 Em alguns casos, lnguas do mes-mo tronco poderiam ser transformadas em critrio para identificar etnias,

  • TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    CRUZANDO O ATLNTICO: ETNIAS AFRICANAS NAS AMRICAS 33

    mas no era a regra. Por exemplo, os Bamana e os Mandinga falavam ln-guas de origem Mand, mas mantinham conflitos religiosos que resultaramna reiterao de identidades distintas, tanto nas Amricas quanto na frica.

    Outro problema a variedade de critrios adotados pelos comercian-tes de escravos oriundos da Europa, tanto para identificar as etnias quantopara batizar os lugares na frica. Os traficantes da Gr-Bretanha, por exem-plo, referiam-se a toda a regio da frica Central Atlntica como Angola.Os documentos em lngua inglesa identificam como angolanos todos osafricanos daquela regio, mas os anncios de escravos fugitivos e as relaesdas casas de deteno listam etnias mais precisas no interior desse grandegrupo. J os documentos em espanhol e francs identificam os africanosdesta regio centro-ocidental como Congo por exemplo, em 97% dosafricanos originrios da frica Central Atlntica no Louisiana Slave Database,e em 93% na lista trabalhada por David Geggus referente a So Domingosno sculo XVIII. Nos documentos da Lusinia para o perodo de 1719 a1820, apenas 25 escravos foram identificados como Angola, dos quais 18chegaram regio por meio da Carolina do Sul, trazidos pelo Dr. BenjaminFarar em 1783.11 No raro, documentos em espanhol classificam todos osafricanos de uma dada regio a partir da etnia mais conhecida do lugar.Proprietrios de escravos em Valncia, na Espanha, durante o sculo XV,chamavam as regies da Senegmbia pelo nome do maior grupo tnico darea Jalofo a todo o norte da Alta Guin; Mandinga a toda a rea centralda mesma regio (da Gmbia at o Rio Geba); e Sape a todo o sul da AltaGuin.12 Em Cuba, o nome de uma regio da costa africana era utilizadocomo identificao para os Cabildos de Naciones, juntando povos diferen-tes, como o caso do Cabildo de Carabali, que inclua Ibo, de lngua Kwa, eIbibio, que falavam uma lngua Bantu do Noroeste. Semelhante prticaacabava por desarticular tanto os Cabildo de Naciones quanto as linhagenstnicas. 13 Documentos em portugus, tanto aqueles produzidos no Brasilcomo em Portugal, freqentemente identificavam os negros a partir dosportos de embarque na frica,14 ou, como no caso de Moambique, a partirda regio da qual eram exportados. 15 Algumas denominaes escolhidaspara se referir a uma rea da costa africana ou a um determinado portotinham significados mltiplos. Como veremos, Senegal era sinnimo deJalofo, na Lusinia, e, muito provavelmente, acontecia o mesmo em outras

  • 34 GWENDOLYN MIDLO HALL

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    regies das Amricas. Mina no eram apenas os escravos embarcados nafeitoria de So Jorge da Mina (Elmina), mas sim uma designao que sereferia a vrias etnias ao longo do tempo e em diversos lugares.16

    J na Amrica, quando se solicitava a alguns escravos que identificas-sem sua nao, estes freqentemente faziam referncia a um lugar, a umaaldeia. Tal atitude no significava, porm, que estes indivduos no possus-sem laos e identidades mais amplas, ou que, ao invs, fossem homens quevivessem isolados. De fato, o isolamento entre os povos envolvidos notrfico no Atlntico era um fenmeno raro. As redes de trfico na fricaeram anteriores ao advento das rotas Atlnticas e cresceram significativa-mente depois que produtos de outras regies foram introduzidos para se-rem trocados principalmente por escravos, crescimento este simultneo aode guerras, conquistas, capturas, aumento progressivo de escravizaes e depopulaes devastadas por migraes e pela fome.

    A variedade de padres para a auto-identificao entre os escravos dife-riu muito de regio para regio, tanto na frica quanto nas Amricas. Destamaneira, africanos da Senegmbia que se autodefiniam como Jalofo, Man-dinga, Bamana e Fula, e africanos que, mais ao sul, se identificavam comoFon/Alada/Ardra ou Nag/Iorub/Lucumi no podem ser tratados comoaqueles que se identificavam de maneira mais restrita, especialmente emregies onde o Estado no era desenvolvido ou apenas recm-existia como,por exemplo, em Serra Leoa, na Baa de Biafra e na frica Central Atlntica.

    Um documento datado de 1802, de Opelusas, Lusinia, fornece umbom exemplo: Celeste, crioula de 13 anos de idade, filha de um casal deescravos foi acusada de roubar o seu senhor munida de uma machadinha,quase matando-o. Quando seus pais foram chamados para depor, ambosmencionaram que no sabiam suas idades e que no tinham religio algu-ma, o que pode ser um indcio de que seguiam o islamismo. O pai, Zambo,definiu sua nao como sendo Mandinga h poucas dvidas acercada etnia de Zambo, ele era um Mandiga. A me afirmou que sua terra eraYarrow (Jarrow?), como seu nome.17 Yarrow Mahmout fora escrava emMaryland e vivera muito tempo praticando abertamente o islamismo. Muitoprovavelmente, Yarrow tinha um significado religioso. 18

    verdade que os significados destes nomes mudaram de acordo como tempo e o lugar ao longo de quatrocentos anos. Porm, o fato de um

  • TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    CRUZANDO O ATLNTICO: ETNIAS AFRICANAS NAS AMRICAS 35

    grupo de pessoas serem identificadas por outro no diminui a importnciae o aspecto de que vrios eram os critrios para a autodefinio. Ainda du-rante os primeiros anos da presena africana na Lusinia, Le Page du Pratz,diretor da Companhia das ndias, percebeu que os Jalofos eram denomina-dos Senegal pelos colonos franceses, ao mesmo tempo em que os africa-nos insistiam em se identificar como Jalofos entre si. 19 Por certo, os africanosmantinham laos identitrios, tanto na frica quanto nas Amricas. Negara existncia de identidades tnicas na frica e assumir que as muitas e varia-das designaes encontradas na documentao produzida nas Amricas noeram dali originrias, mas criadas no Novo Mundo, fato ainda mais la-mentvel do que no ter identidade prpria. Semelhante procedimento negaa Histria destes homens e os transforma em seres sem vida prpria, invis-veis em relao a seu entorno.

    O processo de adaptao dos africanos se deu de diversas formas edependeu de inmeros fatores: dos padres de introduo dos africanos, dacomposio e porcentagem das etnias, das propores entre homens e mu-lheres; do tempo que levavam para se reproduzir; da presena e do grau deinfluncia dos indgenas; do grau de mistura racial; das condies ambien-tais favorveis ou no ao desenvolvimento de quilombos; das estratgias derepresso e organizao militar utilizadas pelas elites; alm de outras deriva-es dos meios de controle social implementados, uma vez que estes esbar-ravam nas tradies religiosas, nos costumes e no desenvolvimento da eco-nomia. A miscigenao se desenvolvia de maneira qualitativamente diferentena frica e nas Amricas. Na Alta Guin, os primeiros afro-portugueses,seus servidores e os descendentes de ambos os grupos, se estabeleceram nosprincipais enclaves coloniais ao longo da costa, nos rios e nas feiras do con-tinente. Em Cabo Verde, se desenvolveu uma lngua crioula que acabousendo introduzida na Costa da Guin, mesmo permanecendo o Mandcomo a lngua principal para a efetivao das trocas. Em livro editado em1627, Alonso de Alburquerque Sandoval escreveu:

    The Wolofs, Berbesies [Serer], Mandingas [Mandingos] and Fulos[Fulani] can ordinarily understand each other, although their languagesand ethnicities [castas] are diverse, because of the extensive communica-tion all of them have had with the damnable sect of Muhammed, nodoubt to the great confusion of the Christians... Among them the Man-

  • 36 GWENDOLYN MIDLO HALL

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    dingas are innumerable, being spread throughout almost all theKingdoms, and thus knowing almost all the languages.20

    Os especialistas se impressionam com o nmero de designaes tni-cas entre os africanos e as mudanas de significados que elas apresentam aolongo dos sculos e das diferentes regies de ambas as margens do Atlnti-co. Todavia, pode-se avanar nos estudos se partirmos de um nmero restri-to de etnias que so mais freqentemente mencionadas na documentaoamericana, mesmo que em alguns momentos os seus nomes possam variar.H neste material indcios de que tais designaes foram dadas pelos pr-prios africanos e no pelos seus traficantes.

    Apesar dos sinais que apontam para a existncia de identificao dos gru-pos de africanos que participaram da Dispora, os estudos sobre as etnias afri-canas nas Amricas foram, com algumas excees, negligenciados durante astrs ltimas dcadas. A tese de Mintz e Price, publicada pela primeira vez em1976, influenciou largamente os trabalhos sobre o tema.21 O seu ponto cen-tral era a diversidade de etnias e o acaso no processo de distribuio dos gruposintroduzidos na Amrica. Entre as suas virtudes, destaco a importncia dadaao incio do processo de adaptao africana no Novo Mundo, embora devaressaltar que o estudo no sugere nenhum padro presente em semelhanteprocesso. Todavia, a concluso mais influente do trabalho de Mintz e Priceno se sustenta devido a falhas na metodologia utilizada. Os autores no leva-ram em considerao o tempo da travessia e calcularam as porcentagens dasviagens dos negreiros que atravs do Atlntico chegavam ao Suriname a partirde vrios pontos do litoral africano, generalizando os resultados equivocados.Da concluram que a influncia de etnias africanas de uma dada regio erainsignificante na formao de uma cultura afro-americana. A percepo din-mica e as anlises comparativas, que consideram as mudanas ao longo dotempo e do espao, revelam que h padres arraigados, enquanto uma percep-o mais esttica fornece a falsa impresso de que o acaso era um agente funda-mental e que os padres de adaptao eram diversos, uma vez que africanos deuma mesma regio e etnia desembarcavam em vrios pontos da Amrica emgrandes quantidades. A tese de Mintz e Price diminuiu o interesse nos estudossobre as etnias africanas nas Amricas, e trabalhos desse tipo tornaram-se umaespcie de heresia, sendo seriamente ignorados pela maioria dos especialistas.

  • TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    CRUZANDO O ATLNTICO: ETNIAS AFRICANAS NAS AMRICAS 37

    Os estudos de historiadores nos Estados Unidos, elaborados por minorias eou mulheres que faziam referncia s etnias africanas, nunca ganharam o des-taque merecido.

    Recentemente, um crescente nmero de africanistas, de especialistasdo trfico de escravos e da dispora africana vm demonstrando interessesobre os padres de introduo dos africanos de vrios lugares e etnias portodo o continente americano. Tais estudos indicam que os africanos perten-centes a um grupo e oriundos de um mesmo lugar permaneciam reunidosna Amrica, no havendo maior fragmentao. Esta concluso foi reafirma-da com a publicao de um banco de dados que relaciona sries de fontesmacias produzidas por traficantes de escravos e por outro banco de dadosque rene vrios tipos de documentos produzidos nas Amricas.22 As novasferramentas permitem refinar os estudos acerca dos padres da chegada deafricanos em tempos e espaos diversos, bem como suscitam outras ques-tes importantes que envolvem o entendimento do trfico de escravos e daescravido nas Amricas. Os novos bancos de dados nos auxiliam a evitar oproblema de desconsiderar o tempo e o espao, prevenindo distorcer umahistria em si mesma bastante complexa.

    Os bancos de dados histricos permitem observar melhor os proces-sos de adaptao dos africanos nas Amricas e ultrapassar os limites impos-tos pelas evidncias empricas at ento utilizadas. At bem pouco tempo,as interpretaes baseavam-se apenas em narrativas de viajantes, relatriosadministrativos que continham distores da realidade e que refletiam osinteresses particulares, produzidos por pessoas mais ou menos informadasou pelos funcionrios da burocracia colonial. Havia tambm uma vastaproduo bibliogrfica que apresentava teses a partir das informaes conti-das nestas fontes. Muitas concluses foram aceitas como verdades absolutase incorporadas por historiadores, passando de uma gerao a outra. Creioque os bancos de dados constitudos por documentos manuscritos apresen-tam um grau considervel de objetividade e, adequadamente sistematizadosem sries, podem apartar a Histria do niilismo prprio da escola ps-moderna, que nega a verdade histrica, subjetivando-a e reduzindo-a con-dio de crtica literria.

    Renomados historiadores de lngua inglesa, dentre os quais MichaelA. Gomez, Martin M. Klein, Robin Law, Paul Lovejoy, Patrick Manning e

  • 38 GWENDOLYN MIDLO HALL

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    David Robson, reconhecem a importncia das designaes tnicas africanasque aparecem nos documentos americanos. Isto no se d por simples aca-so, uma vez que todos eles so especialistas na histria de regies da fricaonde desde muito existiam Estados com grau significativo de desenvolvi-mento, como na Senegmbia, Costa da Mina e Baa de Benin. Joseph C.Miller, que se deteve sobre a frica Central Atlntica, onde as diferentesetnias no eram bem identificadas pelos documentos pelo que, termoscomo Congo e Angola, largamente utilizados nas Amricas, referem-sea uma grande variedade de povos , chama a ateno para a necessidade dese contextualizar as interpretaes que postulam uma continuidade culturalentre os africanos trazidos para a Amrica. John Thornton, igualmente umespecialista na histria da frica Central Atlntica, verificou uma certa con-tinuidade lingstica e cultural entre as regies africanas exportadoras degrande nmero de escravos, bem como a permanncia destes agrupamentosem regies americanas.23

    Um certo nmero de especialistas dos Estados Unidos e da Franadefende a tese de que as designaes tnicas africanas no dizem nada arespeito dos prprios africanos e de sua cultura, uma vez que, afirmam eles,trata-se de construo dos europeus, missionrios, antroplogos e funcio-nrios coloniais com intuito de gerar conflitos entre os africanos submeti-dos ao seu governo quando do incio da colonizao no final do sculoXIX. As motivaes polticas desta tese so compreensivas. Lembremos quea Guerra Fria representou um perodo de conflitos blicos, uma vez que aspotncias mundiais disputavam o uso de seus aliados africanos em guerras,colocando-os uns contra os outros. Os conflitos tnicos continuam se apro-fundando e ainda so manipulados para garantir a explorao dos recursosnaturais da frica e para destruir e mutilar as organizaes sociais, diziman-do sua populao. Os conflitos tnicos continuam sendo alimentados epromovidos por estrangeiros, dentre os quais os comerciantes de armas eempresas multinacionais que se aliam s elites e a lderes africanos promis-sores que facilitam a explorao de pedras preciosas, ouro, petrleo, mine-rais e outras fontes de riqueza.

    Os especialistas que negam a existncia de identidades tnicas africanaspara o perodo anterior efetiva colonizao da frica, por vezes reconhe-cem que tais concluses se baseiam em estudos de regies onde o trfico de

  • TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    CRUZANDO O ATLNTICO: ETNIAS AFRICANAS NAS AMRICAS 39

    escravos no assumiu maior importncia, como o sul do continente. Aindaassim, alguns deles projetam suas concluses para os ltimos quatro sculose para tratar de regies das quais uma parte significativa da populao foiarrancada para as Amricas, concluindo que as identidades africanas eramapenas uma inveno europia imposta aos nativos. Ora, o trfico atlnticode escravos no apenas anterior colonizao, como tambm ocorreufundamentalmente em regies onde os europeus s conseguiram estabele-cer um precrio domnio sobre reas litorneas, basicamente nas fortifica-es e nos portos situados no ndico e no Atlntico, ou ainda restringindo-se aos navios ancorados a frica Central Atlntica configurou umaexceo. Em Moambique, em 1820, depois de mais de trs sculos e meiode dominao, os portugueses estavam confinados costa e no tinhampermisso para entrar nos territrios Macua e Ia. No ano de 1857, osMacua baniram os traficantes portugueses que tentaram invadir seu territ-rio e ameaaram atacar os enclaves coloniais lusos. O governador portugusfez um acordo para no capturar escravos (ento denominados trabalhado-res por contrato) evitando, assim, o confronto.24

    As identidades tnicas sempre existiram na frica e interagiam noapenas antes do perodo colonial, mas igualmente antes do estabelecimentodo trfico pelo Atlntico. Um grande especialista senegals, Cheikh AntaDiop, chama a ateno para a presena de uma unidade bsica entre osafricanos e seus descendentes, mas no nega a existncia de identidades tni-cas.25 Boubacar Barry afirmou que na Senegmbia de antes do advento dotrfico atlntico

    people switched ethnic groups and languages. There were Toures,originally Manding, who became Tukulor or Wolof; Jallos, originallyPeul [listado como Poulard nos documentos da Lusinia documents],became Khaasonke; Moors [listed as Nar or Nard in Louisianadocuments] turned into Naari Kajor; Mane and Sane, originally Joolasurnames, were taken by the Manding royalty of Kaabu. There was, inshort, a constant mixture of peoples in Senegambia, destined for centuriesto share a common space. Senegambia, in some respects, functionedlike a vast reserve into which populations in the Sudan and the Sahelhabitually poured surplus members. In their new home the immigrantscreated a civilization of constant flux... Nowhere in this Senegambia...

  • 40 GWENDOLYN MIDLO HALL

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    did any Wolof, Manding, Peul, Tukolor, Sereer, Joola, or other ethnicgroup feel they were strangers.26

    Desprezar a Histria e a existncia de diversos grupos sociais africanosnas duas margens do Atlntico refora o hbito de se trat-los de maneiragenrica, distanciando-os e desumanizando-os aos olhos dos europeus eamericanos e rompendo os laos que uniam os africanos entre si e aos seusdescendentes americanos. Se se quer entender a maneira pela qual os euro-peus denominaram africanos de diversas etnias e de vrias regies ao longodos anos, cremos que a informao mais segura aquela que indica a manei-ra pela qual os africanos se identificaram nas Amricas. bvio, a auto-iden-tificao tnica no era freqente na documentao produzida na frica enas Amricas durante o sculo XVIII e no incio do XIX. 27 Porm, oLouisiana Slave Database lana uma luz sobre as maneiras por meio dasquais as etnias eram identificadas. A documentao que restou aponta paraa auto-identificao e, mais raramente, para a circunstncia de outro africa-no definir a etnia. Os casos mais tpicos de auto-identificao envolviamescravos que testemunhavam nos julgamentos realizados nas cortes. Estesprocessos, na maior parte das vezes, eram contra escravos fugitivos ou en-volvidos em revoltas e conspiraes. Quando os depoentes prestavam jura-mento e eram submetidos a interrogatrios, onde havia perguntas padroni-zadas, era comum indagar: Qual a sua nao? Quando solicitados aidentificar outros escravos, freqentemente a nao era um dos aspectosimportantes da descrio que faziam. Como havia um nmero significati-vo de africanos da mesma origem regional e tnica vivendo por toda aLusinia, mentir na corte poderia acarretar srios problemas. Na medidaem que era freqente que os africanos fossem multilinges, o idioma utili-zado pelos recm-chegados dificultava a deturpao das informaes. Algu-mas vezes os africanos se identificavam com grandes etnias, e no era raroque encontrassem grupos na Amrica com os quais estabelecessem algumtipo de relao identitria. Porm, a grande variedade de etnias existente naLusinia, conforme demonstra a documentao, poderia dificultar, mas noeliminar semelhante possibilidade.28

    Nos testamentos e nos registros de compra e venda de escravos, docu-mentos que listam e oferecem dados sobre os cativos na Lusinia, os not-

  • TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    CRUZANDO O ATLNTICO: ETNIAS AFRICANAS NAS AMRICAS 41

    rios afirmavam ser impossvel identificar a nao, uma vez que os escravosno sabiam informar. Alguns exemplos: Quebra no conhece sua nao;Marie no sabe qual a sua nao; Francine, mulher de 23 anos, da Guin,no conhece o nome de sua nao. Apesar disto, padres mais globais sorevelados pelo Louisiana Slave Database, os quais demonstram que os afri-canos possuam identidades tnicas. interessante observar que, quantomaior o tempo de permanncia na Lusinia, tanto maior era a possibilidadede que um escravo reconhecesse sua identidade africana. Assim, quando osrecm-chegados eram vendidos, apareciam nas listas como bruto ou boal(recm-chegados da frica) e sua etnia raramente era identificada, estandoeles com uma idade mdia de 19.2 anos (amostragem = 2,867 escravos).Quando a identidade tnica era conhecida e os escravos no eram classifica-dos como bruto ou boal, a idade mdia subia para 26.4 anos (amostragem= 3,946 escravos), sendo que a maior parte era constituda por cativos re-vendidos que viviam na Lusinia h sete anos em mdia. Quando aparecia aidentidade tnica nos inventrios post-mortem dos seus senhores, a idademdia era de 34.6 anos (amostragem = 5,309 escravos) e os escravos jhabitavam a Lusinia h aproximadamente 15 anos. A idade mdia dosafricanos que sabiam sua identidade tnica era de 31.3 anos (amostragem =10,181 escravos).

    Os cativos que tinham semelhante identidade especificada somavam17.1% dos escravos contabilizados nos testamentos (amostragem = 31,399escravos); 9% dos contabilizados nos documentos de venda (amostragem =50,124 escravos); e 9% dos que aparecem listados em todos os outros tiposde documentos (amostragem = 926 escravos). Portanto, as identidades t-nicas dos africanos eram duas vezes mais freqentemente registradas nostestamentos isto , depois da morte dos senhores e quando atingiamuma idade mdia bastante superior daqueles que aparecem nos registrosde compra e venda. Apesar dos traficantes de escravos saberem das prefern-cias tnicas dos provveis compradores de sua mercadoria em todos os pa-ses e colnias do continente americano, o seu papel na identificao precisadas etnias dos africanos era aparentemente limitado. Da podermos segura-mente minimizar a influncia dos viajantes e negociantes na identificaodas etnias dos africanos trazidos para a Lusinia. razovel concluir que asdesignaes tnicas que aparecem nos documentos dessa regio envolvem

  • 42 GWENDOLYN MIDLO HALL

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    claramente a auto-identificao dada pelos prprios africanos. Semelhantepadro de construo identitria coloca o problema de que rapidamente osescravos perdiam o seu referencial tnico africano no processo de adaptao Amrica. necessrio organizar bancos de dados nos diversos pases parasabermos at que ponto tal padro pode ser generalizado.

    Questes relevantes sobre os escravos e sobre a escravido nas Amri-cas podem ser respondidas com uma boa margem de segurana com baseem clculos feitos a partir de bancos de dados. O Louisiana Slave Database atualmente a melhor ferramenta disponvel. As variveis foram desenvol-vidas durante 15 anos de trabalho, a partir de informaes sobre a Lusiniaencontradas em documentos manuscritos. Com algumas alteraes, estasvariveis podem ser aplicadas para a documentao sobre escravos africanose seus descendentes espalhados pelo continente americano. Existem 106.666registros no Louisiana Slave Database, cada qual elaborado a partir da des-crio individual contida nos manuscritos. So 14 variveis e cada umadelas apresenta dados que permitem a comparao das informaes sobre oescravo, tais como o seu nome, sexo, idade, origem, cor, tipo de documen-to, senhor, local, ofcios, doenas, relaes familiares, envolvimento emfugas e em conspiraes ou revoltas, alm do preo, independentemente dovalor da moeda. Os clculos podem ser facilmente realizados a partir dediferentes recortes de tempo anuais, qinqenais, decenais conside-rando datas precisas, de diferentes administraes (francesa, espanhola, ame-ricana) e de vrias localidades. Cada registro possibilita a recuperao com-pleta dos documentos. Estes fornecem dados, sobretudo acerca do local denascimento de cada escravo, bem como a sua nao de origem. Uma va-riedade surpreendente de naes africanas pode ser encontrada neles. Pre-cisar e identificar algumas delas demandou um trabalho complexo, difcil eem alguns momentos incerto, mas ainda assim gratificante.29 Os documen-tos foram escritos por diferentes profissionais ligados ao campo do Direitoque, alm de possurem escritas diversas, no utilizavam um sistema deabreviao comum, nem mesmo seguiam um padro ortogrfico, alm dealguns manuscritos estarem mal conservados e rasgados. Os registros queinformavam sobre etnias ou africanos identificados com originrios da Guin entendida como a costa da Alta Guin eram, na maior parte, escritosem francs (79.5%), vindo em seguida os espanhis (18.2%) e o restante

  • TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    CRUZANDO O ATLNTICO: ETNIAS AFRICANAS NAS AMRICAS 43

    em ingls (2.3%). Para interpret-los corretamente tive de desenvolver umasensibilidade distinta para cada um dos idiomas e, visando minimizar oserros, para cada forma ortogrfica das naes criou-se um campo especfico.

    Nos quase 9.000 registros que contm informaes sobre as etniasafricanas, aparecem 217 designaes tnicas com ortografia variada. Entreelas, 96 foram identificadas e 121 (referentes apenas a 152 indivduos) no.Entre os 8.840 africanos com identificao tnica, 96.2% estavam reunidosem 18 etnias, desde o menor grupo, formado por 68 registros dos Edo daBaa do Benin, at o mais representativo 3.035 registros de Congos, dafrica Central Atlntica. Embora seja de grande interesse para os especialis-tas em Histria da frica, tais nmeros no so suficientes para estudossobre a distribuio das etnias pelo continente americano.

    Tabela 1 As 18 Etnias mais freqentes na Lusinia francesa1723-1769

    Homens Mulheres Total

    Bamana 51 0 51Mandinga 4 3 7Nar/Mouro 3 0 3Fula/Fulani 4 1 5Senegal/Jalofo 15 6 21Quissi - - -Canga 1 0 1Fon/Alada 19 1 20Chamba/Concomba 5 1 6Hau 1 0 1Mina 7 4 11Nag/Iorub 17 5 22Edo 0 1 1Ibo 3 0 3Ibio/Moco - - -Calabar 0 1 1Congo 39 12 51Macua - - -

    Fonte: Hall, G. Louisiana Slave Database.30

  • 44 GWENDOLYN MIDLO HALL

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    Tabela 1.1 As 18 Etnias mais freqentes na Lusinia espanhola1770-1803

    Homens Mulheres Total

    Bamana 231 32 263Mandinga 308 159 467Nar/Mouro 77 28 105Fula/Fulani 84 30 114Senegal/Jalofo 179 134 313Quissi 31 22 53Canga 105 63 1Fon/Alada 68 87 155Chamba/Concomba 167 86 253Hau 47 1 48Mina 240 85 325Nag/Iorub 163 76 239Edo 27 23 50Ibo 119 121 240Ibibio/Moco 27 5 32Calabar 54 27 81Congo 689 310 999Macua 53 23 76Total 2669 1312 3981

    Fonte: Hall, G. Louisiana Slave Database.

    Tabela 1.2 As 18 Etnias mais freqentes na Lusinia americana1804-20

    Homens Mulheres Total

    Bamana 131 21 152Mandinga 305 143 448Nar/Mouro 21 7 28Fula/Fulani 72 19 91Senegal/Jalofo 169 94 263Quissi 20 13 33

    continua

  • TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    CRUZANDO O ATLNTICO: ETNIAS AFRICANAS NAS AMRICAS 45

    Canga 104 66 170Fon/Alada 39 29 68Chamba/Concomba 104 52 156Hau 74 10 84Mina 183 109 292Nag/Iorub 67 30 97Edo 11 4 15Ibo 165 116 281Ibibio/Moco 34 16 50Calabar 34 31 65Congo 1336 602 1938Macua 14 12 26Total 2883 1374 4257

    Fonte: Hall, G. Louisiana Slave Database.

    Tabela 1.3 As 18 Etnias mais freqentes na Lusinia americana1719-1820

    Homens Mulheres Total

    Bamana 413 53 466Mandinga 617 305 922Nar/Mouro 101 35 136Fula/Fulani 160 50 210Senegal/Jalofo 363 234 597Quissi 51 35 86Canga 210 129 339Fon/Alada 126 117 243Chamba/Concomba 276 139 415Hau 122 11 133Mina 430 198 628Nag/Iorub 247 111 358Edo 38 28 66Ibo 287 237 524

    Homens Mulheres Total

    continua

  • 46 GWENDOLYN MIDLO HALL

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    Ibibio/Moco 61 21 82Calabar 88 59 147Congo 2064 924 2988Macua 67 35 102Total 5721 2721 8442

    Fonte: Hall, G. Louisiana Slave Database.

    As tabelas 1, 1.1, 1.2 e 1.3 demonstram uma mudana de padro nacomposio tnica e de gnero. Selecionando um perodo mais curto e ele-gendo uma regio particular da Lusinia, a emergncia das etnias africanasnos documentos pode ser estudada mais detalhadamente. Embora a no-menclatura varie de acordo com o lugar e a poca, as mesmas etnias apare-cem em nmero significativo na documentao americana. Apesar da po-pulao escrava ser relativamente pequena no perodo inicial de ocupaoda Lusinia, sobretudo em relao a outras regies norte-americanas, a ri-queza de informaes contidas nestas fontes enorme e certamente nicaquando comparadas a outros tipos de documentos sobre a populao escra-va dos Estados Unidos e, mesmo, possivelmente, em relao a todo o con-tinente americano. Excluindo os 8.645 africanos introduzidos pelo trficoatlntico, o Louisiana Slave Database registrou nada menos do que 92.021descries de escravos. Dos 29.769 cativos que tinham o local de nascimen-to e a origem tnica identificados (excluindo os recm-chegados), 16.099(54%) haviam nascido na frica. Destes, 8.994 indicam a nao (etnia);1.032 indicam que vieram da Guin ou da Costa da Guin (quase sempreda Serra Leoa/Alta Guin, sem referncia etnia); 831 indicam apenas queeram africanos, 3.046 eram simplesmente listados como brutos ou boais;e 2.037 (quase todos do perodo francs) eram considerados africanos por-que haviam nascido antes do incio do trfico para a regio da Lusinia.Escravos registrados como nascidos no Caribe francs, ou originrios decolnias onde se falava francs ou ingls, eram raros antes da anexao daregio pelos Estados Unidos. Durante a dominao espanhola, a maioriados cativos nascidos no Caribe provinha da Jamaica (cf. tabela 2).

    Homens Mulheres Total

  • TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    CRUZANDO O ATLNTICO: ETNIAS AFRICANAS NAS AMRICAS 47

    Todos os escravos citados nos documentos foram registrados noLouisiana Slave Database, independentemente do local de nascimento estarou no assinalado. Portanto, inclui-se toda a populao cativa nos 2.903testamentos e inventrios de bens que contm 31.399 escravos, alm de50.124 outros vendidos na Lusinia, mas no necessariamente registradosem cartrio. Poucos cativos encontrados nesta documentao foram nego-ciados sem registro oficial durante o perodo da dominao francesa: 886,ou 1,8%. Durante a dominao espanhola, 12.689 (25,3%) foram nego-ciados. Aps fazer parte dos Estados Unidos, 36.549 (72%) tambm fo-ram negociados e incluem os escravos que no tm identificao do local denascimento.

    Tabela 2 Origem dos escravos da Lusinia, 1719-1820

    Local de # %1 %2NascimentoIdentificado

    frica Nao identificada 8,994 55.8%

    Apenas a regio 1,191 07.4%litornea de origem 100% 54.1%

    Africano, sem mais detalhes 831 05.2%

    Bruto, recm-chegado 3,046 19.0%

    Nascido antes do trfico 2,037 12.6%

    Total1 16,099

    Amrica Crioulo, nascido na Lusinia 9,814 72.1%

    Amrica inglesa 2,183 16.0%

    Caribenho 1,414 10.4% 100% 45.9%

    Nativos da Amrica 207 1.5%

    Total2 13,618

    Total 29,717a 100 %

    a. a categoria outros (com 52 casos) no foi includa no total.Fonte: Hall, G. Louisiana Slave Database.

  • 48 GWENDOLYN MIDLO HALL

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    H informaes sobre os escravos introduzidos pelo trfico no LouisianaSlave Database. Exatos 2.920 registros descrevem os que chegaram emembarcaes provenientes do Caribe durante a dominao espanhola (1770-1803). Os escravos que chegaram na Amrica do Norte via Caribe prova-velmente no haviam nascido ou sido socializados na regio antilhana. Ossenhores relutavam em adquiri-los e possuam bons motivos normal-mente tinham doenas ou eram escravos rebeldes, dos quais eles e as autori-dades coloniais queriam se livrar. Lorena S. Walsh identificou o mesmopadro em Chesapeake.31 De fato, a maioria dos escravos levados do Caribepara a Lusinia era constituda por africanos recm-chegados, adquiridosimediatamente ao aportarem em diversas partes das Antilhas. Eram escolhi-dos entre os que provinham de inmeros pontos do litoral africano, embo-ra um documento datado de 1765 indique que a baa de Biafra era umlugar proibido a traficantes martimos que traziam escravos para o Caribe eda para a Lusinia.32

    O estudo pioneiro de Daniel Littlefield sobre as etnias africanas daregio da Carolina do Sul, com base em anncios de escravos fugidos eoutros documentos, tambm apontou para as ligaes entre o trfico inglse a redistribuio de africanos realizada a partir do Caribe. Ele demonstrouter sido constante o cuidado em manter juntos africanos originrios de umamesma zona e da mesma etnia nas regies da Amrica e, embora a suametodologia e concluses sejam utilizadas, seu livro raramente citado.33

    O lugar de nascimento de 967 escravos chegados do Caribe foi identifica-do, e dentre eles nada menos do que 97,3% eram africanos, dos quais 97%(913) foram listados com brutos, no havendo nenhuma informao sobreas respectivas origens para 87,2% (726). Para 136 havia informaes deta-lhadas sobre a procedncia, com 115 registros indicando as etnias africanase 21 mencionando apenas o porto de embarque na frica. Entre os escravosembarcados do Caribe para a Lusinia havia africanos identificados comoMandinga, Congo e Macua, trazidos em grupo na mesma viagem transa-tlntica. Muitos destes grupos eram, como j dissemos, vendidos para omesmo comprador quando chegavam Lusinia, e apenas um destes com-pradores, Hilario Boutte, foi identificado como intermedirio ourevendedor. Na verdade, muitos, seno a maior parte dos africanos recm-chegados do Caribe, eram comprados e transportados por proprietrios de

  • TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    CRUZANDO O ATLNTICO: ETNIAS AFRICANAS NAS AMRICAS 49

    escravos em seus prprios navios, dos quais eram os capites. Outros eramvendidos em grupos da mesma etnia, como os 13 Mandinga trazidos daJamaica para Lusinia no navio La Cathalina, que em 1785 foram vendi-dos para diferentes compradores em lotes de um, um, seis e cinco cativos,respectivamente. Todos os Mandingas trazidos da Martinica no navio NuevaOrleans, em 1787, foram vendidos para o mesmo comprador, da mesmaforma que nove Congo trazidos de So Domingos, em 1786, no navioRosaria, foram adquiridos pelo mesmo senhor. Os 39 escravos Congo quechegaram no navio Abentura, de Havana, em 1796, foram vendidos paradiversos compradores em lotes de oito a um escravos. Os 17 Macua prove-nientes de So Domingos no Maria Magdalena, em 1785, foram vendidosem trs lotes de quatro, um lote de trs e dois lotes de um escravo. H, pois,indcios de que a venda de africanos a partir da redistribuio caribenha erafeita de maneira a manter os escravos juntos, de acordo com seus grupostnicos, e no de forma aleatria, fragmentando os grupos. Da a reunio degrupos tnicos numa mesma parquia e em testamentos e inventrios.

    No incio do perodo norte-americano propriamente dito, os Congosconcentraram-se na regio de Orles e na parquia de St. Charles, onde aproduo de acar estava crescendo. Depois da conquista da Lusinia pelosEstados Unidos, o abastecimento de escravos congoleses foi garantido pelosnavios britnicos que os traziam diretamente da frica Central Atlntica,como ocorrido em 1808, quando 30 Congos chegaram no negreiro Ana, ea maioria parece ter sido embarcada na costa de Loango. De 1804 a 1820,os escravos vendidos na Lusinia eram oriundos do trfico atlntico e amaior parte deles foi introduzida por meio de portos situados na costa lestedos Estados Unidos, como Baltimore, Charleston e Norfolk. De 1804 a1809, 72% dos escravos que aportaram na Lusinia fizeram-no atravs dotrfico ocenico e, recm-chegados, eram classificados como brutos. Umnmero bastante reduzido de escravos que chegava atravs de navios quevinham da costa leste haviam nascido ou se socializado nos Estados Unidos.Poucos registros informam sobre o lugar de nascimento dos escravos quechegavam atravs do comrcio atlntico entre os anos de 1810 e 1820.

  • 50 GWENDOLYN MIDLO HALL

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    Tabela 3. Local de Nascimento: 1804-1809

    # %

    Carolinas 1 0.4

    Mandinga 5 2.1

    Jalofo 6 2.5

    Concomba 1 0.4

    Mina 10 4.2

    Congo 43 18.0

    Vendido como Congo 1 0.4

    Bruto 172 72.0

    Total 239 100

    Fonte: Hall, G. Louisiana Slave Database.

    Muitos escravos nascidos nos Estados Unidos apenas acompanhavamseus senhores em viagens por terra ou por mar, no sendo por isso vendidos.Contudo, certos documentos registram vendas de escravos na rea do baixoMississipi por traficantes do Kentucky, Tennessee e de outras regies. Hinformaes sobre a residncia dos traficantes de escravos, mas no sabemosde onde vinham os cativos por eles negociados. Havia um nmero razovelde contrabandistas de pretos novos operando na Lusinia, mas a documen-tao sobre as viagens ilegais escassa, embora a quantidade de africanosrecm-chegados Lusinia, de origem tnica variada, aps a ilegalidade dotrfico de escravos, indique aumento do contrabando.

    Para demonstrar a importncia da dispora africana nas Amricas, con-siderando os diversos contextos, que variam no tempo e no espao, discuti-rei utilizando o exemplo de duas etnias. Em primeiro lugar os Ibo, queatualmente vivem na regio leste da Nigria; depois o exemplo dos Bamana(Bambara), que vivem principalmente no Mali. Durante o trfico Atln-tico, a regio por onde os Ibo eram exportados foi batizada pelos europeusde Baa de Biafra ou Costa do Calabar. Quando estudamos o caso dos Ibo

  • TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    CRUZANDO O ATLNTICO: ETNIAS AFRICANAS NAS AMRICAS 51

    nos Estados Unidos, precisamos nos concentrar no sculo XVIII. EmboraDavid Northrup tenha criticado Douglas B. Chambers, Michael A. Gomeze Lorena S. Walsh, sua anlise concentrou-se das duas primeiras dcadas dosculo XVII at o ano de 1627, ano da edio do livro de Alonso de Sandoval,missionrio da Companhia de Jesus. Northrup notou que Sandoval haviaclassificado os Ibo entre um nmero maior de etnias africanas consideradasKarabali Particular e informou que falavam muitas lnguas. Sandoval ob-servou os escravos que chegavam via Cartagena de ndias, atualmente Co-lmbia, e no no Peru, conforme Northrup afirma desde 1978. Cartagenade ndias era, na poca, o maior porto de desembarque de africanos para aAmrica espanhola. Muitos chegavam beira da morte e a principal tarefade Sandoval era se comunicar com eles com o objetivo de garantir a salva-o de suas almas, instruindo sobre a f catlica e batizando-os antes quemorressem, razo pela qual Sandoval deu grande importncia para a lnguaem sua obra. A evidncia acerca da diversidade lingstica que havia entre osafricanos escravizados da regio da Baa de Biafra no nos informa sobre aspropores da populao escrava na Amrica, mesmo durante este perodoparticular e nesta regio especfica. Sandoval no registrou nmeros e por-centagens sobre as etnias africanas que chegavam em Cartagena de ndias.Seus dados sobre a frica e os africanos foram obtidos de relatrios e estu-dos, a maior parte realizada pelos missionrios que viviam na frica. Eledeixa claro quais os africanos que encontrou em Cartagena e aqueles sobreos quais ele obteve informaes a partir de outras fontes. Ainda assim, amaior parte das etnias que Sandoval observou de fato foi trazida para aAmrica, mas algumas delas sequer saram da frica. Entretanto, Sandovalescreveu numa poca em que o nmero de escravos africanos no era signi-ficativo em terras britnicas.34

    Na documentao produzida pelos portugueses, quando controlavamo asiento, a regio da Guin ou Rio da Guin, referia-se Alta Guin.Os africanos que chegavam em Cartagena de ndias eram quase todos daSenegmbia, Alta Guin, freqentemente viajando pela rota com escala nasilhas de Cabo Verde, ou eram da frica Central Atlntica, vindos direta-mente do porto de Luanda, em Angola. Mas alguns navios trouxeram afri-canos das baas de Benin e Biafra, bem como da frica Central Atlntica,chegando em Cartagena de ndias via ilha de So Tom. De fato, estas via-

  • 52 GWENDOLYN MIDLO HALL

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    gens eram raras: so apenas 15 entre as 229 viagens registradas. H umdocumento que registra o trfico trans-atlntico de um navio que saiu deCalabar, em 1625, mas aportou em Vera Cruz, no Mxico, e no emCartagena de ndias. O estudo criterioso de Enriqueta Vila Vilar sobre oasiento portugus, que garantia o abastecimento de escravos para a AmricaEspanhola (1595-1640), revela que, entre as viagens das quais se conhece aprocedncia dos navios, havia uma porcentagem baixa oriunda de So Tom.

    Tabela 4 Viagens para Cartegena de Indias, 1595-1640

    Partida Nmero Percentual

    Alta Guin 84 36.7%

    Angola 127 55.5%

    So Tom 15 6.5%

    Ardra 3 1.3%

    Total 229 100%

    Fonte: Enriqueta Vila Vilar, Hispano-Amrica y el comercio de esclavos (Sevilha,1977), Apndice, Quadros 3, 4 e 5.

    Excetuando os anncios de jornais e registros de priso onde h descri-es sobre os escravos fugitivos que freqentemente no informam so-bre a composio da populao escrava , os dados sobre as etnias africanasso esparsos na documentao em ingls produzida na Amrica durante osculo XVIII. Tal documentao no informa sobre a proporo dos Ibooriginrios da Baa de Biafra durante o mesmo perodo. Evidentemente,documentos em ingls escritos na frica sobre o trfico Atlntico e outrasfontes traduzidas para a mesma lngua tambm no ajudam muito. Segun-do David Northrup:

    There is no direct evidence of the origins of the slaves shipped from OldCalabar before the late eighteenth century... There is little direct evidenceof the origins of slaves, but it is possible to calculate the relativepercentage of speakers of the major languages in the catchment basinsof the regions major slaving ports and to adjust these purely

  • TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    CRUZANDO O ATLNTICO: ETNIAS AFRICANAS NAS AMRICAS 53

    topographical calculations with information about population densitiesand slaving operations.35

    Se cruzarmos o Atlntico, poderemos ultrapassar tais limites. Chambers,Gmez e Walsh, escrevendo basicamente sobre o territrio dominado pelaInglaterra, durante o sculo XVIII, afirmaram que a grande maioria dosafricanos da Baa de Biafra que ali aportaram era formada por Ibo. A maiorestimativa de escravos Ibo ou de lngua Ibo foi publicada por Chambers,que afirmou que eles somavam provavelmente 80% dos africanos oriundosda Baa de Biafra, embora, excluindo o sculo XVIII, ele tenha recentemen-te diminudo tal cifra.36

    Se nos restringirmos ao Setecentos, perodo mais importante para osEstados Unidos, a estimativa de Chambers referente aos 80% de Ibo entreos africanos exportados de Biafra muito prxima do nmero correto.No temos evidncias seguras oriundas das colnias britnicas no continen-te devido s escassas informaes sobre as etnias africanas contidas na docu-mentao em ingls. Mas podemos recorrer aos documentos em francsrelativos ao sculo XVIII. Diferentemente dos registros ingleses, tais fontes,especialmente as notariais de So Domingos, Guadalupe e Lusinia, soricas em informaes minuciosas sobre as etnias africanas. As relaes denomes de escravos na documentao notarial francesa arrolam os de lnguabanto, incluindo os Ibibio e os Moco, bem como os Ibo, detalhados emalguns momentos. Na Lusinia, a designao mais vaga de Calabar tam-bm aparece. Esta evidncia no confirma os indcios de que os de lnguabantu de dialetos Efique, Ibibio, Moco e Ijo eram significativos nas Amri-cas durante o sculo XVIII. Elas apontam para a presena de uma maioriaesmagadora de africanos originrios da Baa de Biafra, registrados na docu-mentao notarial como Ibo, mesmo que assumamos que os africanoslistados como Calabar no o fossem.

    Diferentemente das evidncias do lado africano, as informaes en-contradas no continente americano, retiradas de testamentos do sculo XVIII,permitem estimar as etnias registradas ao longo do tempo e do espao,informando ainda sobre o sexo, entre outros dados. David Geggus realizouum estudo sobre So Domingos e Haiti, analisando aproximadamente 400inventrios post-mortem entre 1721 e 1797, os quais arrolam mais de 13.300

  • 54 GWENDOLYN MIDLO HALL

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    africanos. Este autor verificou que 90,7% (amostragem = 1.129) dos escra-vos vindos da Baa de Biafra eram Ibo. Havia muito poucos africanos clas-sificados como Calabar.37 Para o caso de Guadalupe, Nicole Vanony-Frisch analisou e organizou todos os inventrios post-mortem que restaram eeram legveis, arrolando os escravos para o perodo entre 1770 e 1789, econfirmou que 37% dos que possuam identificao tnica foram classifi-cados como Ibo (amostragem = 248). No havia nenhum Calabar listadoem sua amostra. Nos inventrios da Lusinia, registrados entre 1770 e 1789,os Ibo somavam 78,6% (amostragem = 81) de todos os africanos identifi-cados como originrios da Baa de Biafra. Os documentos cartorrios daLusinia demonstram que, entre os africanos de lngua Bantu, os Ibibio e osMoco apresentavam uma alta porcentagem de escravos do sexo masculino:88,9%. Os classificados como Calabar, nos inventrios da Lusinia, entre1770 e 1789, dividiam-se da seguinte maneira: 84,6% (amostragem = 11)de homens e 15,4% de mulheres. Um escravo do sexo masculino classifica-do como Ecoi e outro como Bioco foram excludos. Embora a presena deno Ibo fosse reduzida, os africanos classificados como Calabar provavel-mente no eram Ibo.

    Durante o sculo XVIII havia uma alta porcentagem de Ibo exporta-dos da Baa de Biafra: pelo menos to alta quanto aquela que Chambers,Gmez e Walsh estimaram, mesmo que cheguemos improvvel conclu-so de que nenhum africano classificado como Calabar na documentaoamericana fosse de fato Ibo. Os Ibibio e Moco, as nicas outras etnias nu-mericamente significativas originrias da Baa de Biafra encontradas na do-cumentao americana, registram uma presena muito maior de homensdo que de mulheres, pelo menos durante o sculo XVIII. Os documentosda Lusinia demonstram que os Ibo apresentavam um nmero um poucomaior de mulheres at 1790; a partir deste ano a situao se inverteu, pas-sando a apresentar um nmero maior de homens.

  • TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    CRUZANDO O ATLNTICO: ETNIAS AFRICANAS NAS AMRICAS 55

    Tabela 5 Lusinia: Africanos exportados da Baa de Biafra nosInventrios de Bens 1770-89

    Ibo Ibibio e Moco Calabar Todos juntos

    Homens 34 42.0% 88 8.9% 118 4.6% 535 1.5%

    Mulheres 47 58.0% 11 1.1% 21 5.4% 504 8.5%

    Total 81 78.6% 99 8.7% 139 2.6% 1039 100%

    Fonte: Hall, G. Louisiana Slave Database.

    Tabela 6: Guadalupe: Africanos da Baa de Biafra nos Inventriosde Bens 1770-89:

    Ibo Moco Todos juntos

    Homem 116 47% 40 60% 156 50%

    Mulher 132 53% 24 60% 156 50%

    Total 248 81.6% 64 14% 312 100%

    Fonte: Nicole Vanony-Frisch, Les esclaves de la Guadeloupe a la fin de lancien rgime(Guadalupe: Bulletin de la Socit dHistoire de la Guadeloupe, Nos. 63-64, 1985).

    Tabela 7 So Domingos: Africanos da Baa de Biafra nosInventrios de Bens 1721-97

    Ibo Ibibio/Bibi Outros Todos juntos(Inclusive Moco)

    Homem 556 49.2% 54 65.1%

    Mulher 573 50.8% 29 34.9%

    Total 1129 90.7% 83 6.6% 33 2.7% 1245 100%

    Fonte: David Geggus, Sex Ratio, Age and Ethnicity in the Atlantic Slave Trade:Data from French Shipping and Plantation Records, Journal of African History,Vol. 30 (1989), pp. 23-44.

  • 56 GWENDOLYN MIDLO HALL

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    Informaes do sculo XIX, oriundas tanto da frica quanto dasAmricas, indicam uma maior presena de grupos de lngua bantu do No-roeste do que durante o sculo anterior, embora os Ibo continuassem a sermajoritrios. Tal fato fica evidente, do lado americano, por meio dos regis-tros ingleses preparados para o processo de emancipao dos escravos. Den-tre as cinco ilhas que possuam registros sobre as etnias africanas, quatroeram antigas colnias francesas, e a quinta, Trinidad, foi ocupada basica-mente a partir da Martinica por senhores e escravos nascidos na regio, efalantes de crioulo francs (creolle). Esses registros britnicos do sculo XIXrefletem uma mudana na porcentagem de Ibo nas ilhas das ndias Ociden-tais, variando desde o mnimo de 52,8% em Trinidad e o mximo de 72,4%em St. Kitts. Os Ibo somavam um total de 57,2% de africanos oriundos dabaa de Biafra em todas estas listagens.

    Tabela 8 Etnias Africanas oriundas da Baa de Biafra nosregistros das ndias Ocidentais britnicas. 1813-1827

    Ibo Bantu do Ibibio Outros Totalnoroeste/Moco

    Trinidad 2863 2240 371 21 54951813 (52.9%) (40.9%) (6.8%) (0.4%)

    Santa Lucia 894 291 59 6 12501815 (71.5%) (23.3%) (4.8%) (.5%)

    St. Kitts 440 164 4 6081817 (72.4%) (27.0%) (0.5%)

    Berbice 111 64 7 1821819 (61.0%) (35.2%) (3.8%)

    Anguilla 4 2 61827 (66.7%) (33.3%)

    Total 4312 2761 430 38 7541(57.2%) (36.6%) (5.7%) (0.5%)

    Fonte: B. W. Higman. Slave Populations of the British Caribbean 1807-1834(Baltimore, 1984), Tabelas S3.1 at S3.5.

  • TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    CRUZANDO O ATLNTICO: ETNIAS AFRICANAS NAS AMRICAS 57

    Os africanos descritos nestas listagens chegaram nas Amricas depoisdaqueles registrados nos inventrios. Quando um senhor morria, a idademdia dos escravos era bem mais alta do que em outros tipos de fontesprimrias. Na Lusinia, os dados presentes em documentos de compra evenda que indicam as ltimas chegadas de africanos para um perodo maislongo (1790-1820) contrastam com as informaes de Trinidad, mas soprximos s informaes de St. Kitts. A porcentagem de Ibo nestas fontesdiminuiu pouco: de 78,6% para 75%. Mas as taxas de masculinidade entreos escravos identificados como Calabar eram prximas proporoverificada entre os Ibo, o que muito provavelmente torna a queda acimamencionada mais aparente do que real. Os Calabar vendidos aps o anode 1789 apresentavam uma menor proporo de homens (48,8%) do queos Ibo (54,6%), enquanto os do grupo lingstico Banto do Noroeste (Ibibioe Moco) apresentavam uma enorme quantidade de escravos homens(81,5%). bastante provvel que alguns dos africanos vendidos comoCalabar na Lusinia fossem de fato Ibo, o que aumenta a porcentagemdesses para mais de 80% entre os africanos oriundos da Baa de Biafra queforam vendidos na Lusinia entre os anos de 1790 e 1820. Estamos lidandocom nmeros baixos se comparados com os dados referentes s ndias Oci-dentais britnicas. Alm disso, os nmeros podem refletir um suprimentoatpico de escravos, pois, na maior parte deste perodo, o abastecimento deescravos para a Lusinia era feito atravs do contrabando.

    Tabela 9. Africanos da Baa de Biafra vendidos por contrabando,Louisiana 1790-1820.38

    Homens Mulheres Total % do Total

    Ibo 112 (54.6%) 93 (45.4%) 205 75.1%

    Ibibio & Moko 22 (81.5%) 5 (18.5%) 27 9.9%

    Calabar 20 (48.8%) 21 (51.2%) 41 15.0%

    Total 154 (56.4%) 119 (43.6%) 273 100%

    Fonte: Hall, G. Louisiana Slave Database.

  • 58 GWENDOLYN MIDLO HALL

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    Do lado africano, o censo de 1848 de Freetown (Serra Leoa) indica asetnias que foram recapturadas e trazidas pelos ingleses que eram contra otrfico. Entre aqueles que chegaram da Baa de Biafra, excluindo os 657Haus do total trabalhado por Philip Curtin, identificamos 60,9% (amos-tragem = 1.231) Ibo, 15,8% (amostragem = 319) Efique e 23% (amostra-gem = 470) Moco.39 Este censo atesta uma imensa maioria de Ibo, emboracom uma queda substancial quando comparado com os nmeros do sculoXVIII. Portanto, os clculos apontados aqui indicam uma queda na pro-poro de Ibo exportados durante o sculo XIX. Ainda assim, estes perma-neceram majoritrios entre os africanos escravizados que embarcaram naBaa de Biafra.

    Deve-se evitar a generalizao de padres relativos a um perodo e lu-gar determinados da frica, tanto para todo o continente como igualmentepara as Amricas. infinitamente mais cmodo montar estruturas lgicas apartir de dados deficientes e projetar concluses globais, do que estudar econtrolar a riqueza dos padres que se desenvolveram atravs dos tempos ede regies nos dois lados do Atlntico. O desafio conhecer de maneiraprofunda as mltiplas realidades ao longo do tempo, evitando estenderdemasiadamente as concluses por meio de generalizaes banais.

    No incio da dcada de 1850, por exemplo, o pastor e lingistaSigismund W. Koelle entrevistou cinco indivduos recapturados pelas pa-trulhas britnicas que reprimiam o trfico entre os anos de 1820 e 1830 eque foram trazidos de volta para Freetown, Serra Leoa. Embora Koelle ostenha classificado como Ibo, anotou o seguinte:

    Certain natives who have come from the Bight are called Ibos. In speakingto some of them respecting this name, I learned that they never hadheard it till they came to Sierra Leone. In their own country they seemto have lost their general national name, like the Akus [Nago/Lukumi/Yoruba], and know only the names of their respective districts orcountries. I have retained this name for the language, of which I producespecimens, as it is spoken in five of the said districts or countries.40

    Estes africanos foram entrevistados por Koelle aps vinte ou trintaanos de permanncia em Serra Leoa. Koelle deixa transparecer certa reservaquanto confiabilidade das informaes, chamando a ateno para o fatode que as entrevistas foram feitas em ingls no incio da dcada de 1850. A

  • TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    CRUZANDO O ATLNTICO: ETNIAS AFRICANAS NAS AMRICAS 59

    maioria dos entrevistados talvez no lembrasse muito bem de suas origens,ou tivesse outra forma de se identificar. Ou, ainda, quem sabe, no se en-tendiam nem entre si e nem a Koelle devido ao uso do ingls. Dos cincoIbo entrevistados, quatro estavam em Serra Leoa havia 30 anos, um havia24 e outro havia onze anos, de sua captura (aos trs anos de idade). Koelleafirmou que os Ibo por ele entrevistados haviam esquecido os nomes dassuas naes, assumindo, portanto, que eles antes pertenciam a alguma. Apalavra nao no representa fielmente a realidade, mas, independente-mente do termo que usavam para se auto-identificar no passado, tal nodeve representar obstculo para que estes homens se identificassem comogrupos entre os vrios existentes em suas regies de origem.41

    A partir desta citao, concluses extraordinariamente transcendentesforam tiradas acerca dos africanos nas Amricas: por exemplo, a de que elesviviam to isolados e imobilizados, que no tinham conscincia de quehavia africanos diferentes deles, e que, por isso, os termos para identificar asetnias que aparecem na documentao americana surgiram no na frica,mas sim na Amrica, quando os recm-chegados entravam em contato comafricanos etnicamente distintos. Porm, raramente os africanos viviam iso-lados na prpria frica, onde havia extensas redes de comrcio anteriores aoincio do trfico Atlntico, redes estas que cresceram significativamente apsa chegada de novos produtos que, de vrias partes do mundo, eram troca-dos principalmente por escravos. As guerras para a obteno de cativos, quecausavam fuga e fome, produziram refugiados por todo o continente. Em-bora os Ibo possam ter vivido mais isolados do que outros africanos, devi-do a um sistema estatal relativamente dbil e presena tardia de europeusvindos da costa, isto no indica que eles no possussem uma identidade degrupo. Concluses generalizantes esto sendo aplicadas para todos os que,na frica, foram drasticamente atingidos pelo trfico Atlntico, at mesmopara os Jalofos do Senegal. A designao Ibo era reconhecida pelos africanosmuito antes de meados do sculo XIX. C.G.A. Oldendorp, missionriomoraviano que serviu Companhia Dinamarquesa das ndias Ocidentaisem 1767 e 1768, entrevistou cinco africanos recm-chegados que se reco-nheceram como membros da nao Calabar. Eles relataram que viviam lon-ge, no alto Rio Calabar, informando ainda que os Ibo eram um povo nu-meroso e tratava-se de gente vizinha e amiga que falava a mesma lngua que

  • 60 GWENDOLYN MIDLO HALL

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    eles. Este mesmo missionrio entrevistou um africano na Pensilvnia quese identificou como Ibo. 42 Ainda assim, h historiadores que, a partir dosrelatrios de Koelle, concluem que os Ibo se identificavam apenas com suasaldeias e no possuam uma identidade mais abrangente de grupo antes deserem trazidos para as Amricas, onde teria surgido a designao Ibo. evidente que os significados das designaes tnicas entre os africanos, dosdois lados do Atlntico, sofreram mudanas. Eles eram registrados, escritose pronunciados de maneiras diferentes ao longo do tempo e de acordo como lugar. Temos de evitar generalizaes e projees de um lugar para outro ede um perodo a outro.

    Outro exemplo deste tipo de generalizao surge por ocasio da dis-cusso acerca do termo Bambara, cuja forma correta de escrever e pronun-ciar Bamana. Os europeus na frica possuam uma noo vaga paraBambara. Por exemplo, eles classificavam todos os soldados que eramescravos como Bambara. 43 necessrio trazer esta discusso sobre o ter-mo Bambara para o contexto das transformaes ocorridas nos dois ladosdo Atlntico. Sabemos que dois teros dos africanos que chegaram atravsdo trfico atlntico realizado pelos franceses na Lusinia eram da Senegmbia.Semelhante trfico ocorreu basicamente entre os anos de 1719 e 1731,perodo correspondente ao incio da formao do estado Bamana de Segu,quando pequenas organizaes Bamana lutavam entre si para adquirir escra-vos que eram vendidos pelos Mandinga para os traficantes do Atlntico.Philip D. Curtin assim escreveu:

    The Bambara slaves shipped west as a result of eighteenth-centurywarfare or political consolidation could be dissident people who wereethnically Bambara, or they could just as well be non-Bambara victimsof Bambara raiders. In any event, the first flow of Bambara appears tohave come from the northern part of the Bambara region, beingtransshipped by way of Jara on the Sahel. Then, from the 1720s, the flowwas more clearly from the Bambara core area, and Jahaanke were the prin-cipal carriers. This new source of Bambara slaves after about 1715 seems tobe associated with the rise of Mamari Kulibali (r. 1712-55) and hisfoundation of the kingdom of Segu. [grifos do autor]44

    Em meados do sculo XVIII, o significado de Bambara para os euro-peus na frica j se alargara profundamente. Durante a dominao espa-

  • TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    CRUZANDO O ATLNTICO: ETNIAS AFRICANAS NAS AMRICAS 61

    nhola da Lusinia (1770-1803), os guerreiros no Bambara estavam inseri-dos, em nveis diversos, na cultura e lngua Bamana, uma vez que eles eramcapturados nas guerras no centro da regio de Bamana. Em relato publicadoem 1789 pode ser lido:

    Of 50 slaves who arrived [from the interior of the continent to St. Louis]there are 20 nations of different customs and language who do notunderstand each other. Their faces and bodies are scarred differently.These blacks are designated in Senegal by the generic name of Bambara.I have questioned many of them about their country, but they are sostupid that it is almost impossible to obtain a clear notion. One can betempted to believe that they are taken there in flocks and that they arebrought without their knowing where they come from or where theyare going. Nothing bothers them, and as long as they are allowed to eattheir full, they will follow their masters to the Antipodes. Their onlyfear when they are embarked is that they will be eaten by the whites.45

    Em Africans in Colonial Louisiana, baseado no nmero de escravosBambara envolvidos na conspirao de Samba Bambara (1731) e no totaldos cativos contados no censo de 1731-32, conclu que 15% dos escravosna Lusinia eram Bamana (Bambara). Embora no fossem a maioria duran-te a dominao francesa, e tampouco ao longo da dominao espanhola, osBambara estavam bem representados entre os acusados de crimes, inclusi-ve de fuga, conspirao e revolta contra a administrao francesa. 46 Nasminhas discusses sobre at que ponto os Bambara da Lusinia eram defato Bambara estabeleci uma distino entre o perodo francs (1719-1769) e o espanhol (1770-1803), que os meus crticos no perceberam.Discutindo o perodo espanhol, conclui que Os Bambara, se de fato ofossem...

    O trfico francs para Lusinia ocorreu entre 1719 e 1731, com exce-o de uma viagem originria da Senegmbia em 1743. Tais viagens sosurpreendentemente bem documentadas. Informaes incorretas sobre taltrfico foram publicadas em diversos artigos baseados em clculos oriundosde uma primeira verso (anterior a sua publicao) do TSTD1, o qualcontabilizou mal as viagens da Senegmbia para a Lusinia francesa, devidoao desconhecimento das localizaes dos portos de chegada, especialmenteo de Balize, na boca do Mississipi. A verso publicada do TSTD1 foi

  • 62 GWENDOLYN MIDLO HALL

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    corrigida de acordo com as informaes sobre o trfico francs contidas emmeus levantamentos.47

    Qualquer que seja o sentido de Bambara utilizado pelos europeus nafrica, a palavra tinha um significado preciso entre os escravos da Lusinia.Os Bamana sabiam quem eram. Em 1764, um grupo de escravos e fugiti-vos foi preso e interrogado em Nova Orleans. O lder era Louis, dito Foy,um dos rebeldes contumazes sempre expulsos das principais colnias ingle-sas do Caribe, de Illinois e do sul da Lusinia. Quando ele prestou juramen-to, informou que recebera dos franceses o nome de Louis, mas seu verda-deiro nome era Foy, na lngua de seu pas, e que era da nao Bambara. Astestemunhas que depuseram sobre Foy, brancas e negras, referiam-se a elecomo Foy. Andiguy, feitor, de Madame de Mandeville, se auto-identifi-cou Bambara e atestou conhecer Foy porque ambos eram do mesmo pas.

    Foy havia organizado uma rede de cooperao entre escravos, fugiti-vos, ladres, costureiras e vendedores de rua que faziam e vendiam roupas ecomida dentre outros produtos. Eles regularmente organizavam eventossociais, inclusive festas em Nova Orleans e no jardim de um de seus senho-res. Depoimentos foram extrados tanto do acusado como de outras pes-soas, livres e escravas. Como registrado pelo advogado, estes escravos africa-nos se expressavam muito bem e de forma eloqente em francs (ou,possivelmente, numa lngua crioula francesa), utilizando poucas grias e nonecessitando de intrprete.

    Os depoimentos desvelam uma rede na qual a maioria dos membrospertencia ao grupo lingstico Mande e eram propriedades de vrios senho-res de Nova Orleans e arredores. Os depoimentos foram recolhidos de es-cravos e de brancos. Quando interrogados sobre como eles conheciam unsaos outros, freqentemente respondiam que eram do mesmo pas, o queera considerado suficiente pelo promotor. Eles roubaram uma quantidadesignificativa de vveres, parte cozida e consumida, parte vendida. Foy, Csar,(um crioulo fugitivo) e um outro cativo mataram um porco que encontra-ram numa propriedade jesuta abandonada. O animal era to gordo queeles tiveram de cort-lo ao meio para levar para dentro dos muros da cidade.Foy vendeu parte de sua poro para os escravos de Brazilier, que moravams margens do rio St. Jean. Ele reclamou que nunca fora pago, e que foi porisso que dera informaes sobre o grupo. Foy e Csar ofereceram os restos

  • TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    CRUZANDO O ATLNTICO: ETNIAS AFRICANAS NAS AMRICAS 63

    do animal aos seus companheiros em Cantrell, garantindo o abastecimentode carne por um bom tempo.

    Comba e Louison, ambas mulheres Mandinga por volta dos seus 50anos, eram comerciantes, vendiam bolos e outros produtos nas ruas de NovaOrleans. Elas tinham uma vida social bastante intensa, organizavam festasdurante as quais se comia e bebia muito bem, cozinhavam crustceos comarroz, assavam perus e galinhas, faziam churrasco de porco e de peixe, fuma-vam e bebiam rum. Comba prestou depoimento na priso e informou queseu nome era Julie, dita Comba, em lngua Mand. Outros escravos quetestemunharam referiam-se a ela como Mame Comba. Louison, escravade Cantrell, se identificou como Mandinga. Ela vivia numa cabana, locali-zada nas terras de seu senhor, onde realizava suas festas, e testemunhou quesua amiga Comba, conhecida por Julie, tambm era Mandinga. Combadescreveu Louison como sa paize (conterrnea). O grupo inclua ainda ou-tros homens Bambara, os quais, de acordo a Comba, se divertiam muito.

    Foy era o lder do grupo. Verdadeiro empreendedor, ele organizava edirigia a economia, o que envolvia a manufatura do vesturio, freqente-mente feito de tecido roubado, bem como a redistribuio e venda de pro-dutos roubados, inclusive roupas, jias, madeira, comida e especialmenteperus e galinhas. Ele empregava escravas costureiras que faziam vestidos ecalas a partir dos tecidos roubados ou comprados. De acordo com a Ma-me Comba, Foy ousava costurar usando pano roubado enquanto sentavaem frente ao casebre onde ela trabalhava. Ele empregava outros escravos,homens e mulheres, inclusive outros Bamana que pertenciam a vrios se-nhores diferentes, para vender suas mercadorias. Foy era um ladro pordemais cuidadoso para roubar gado que pudesse ser facilmente identificadopelas marcas no couro. Ele lidava com objetos pequenos de difcilrastreamento, que podiam ser facilmente escondidos. Foy e seus vendedo-res evitavam a permuta de objetos, operavam com dinheiro, algumas vezesem grandes quantidades, para minimizar o risco de serem pegos com mui-tos objetos roubados.

    Nesta comunidade de lngua Mande, a maioria das mulheres era Man-dinga e os homens Bamana. Embora eles mantivessem suas identidadestnicas, falavam lnguas africanas que podiam ser entendidas entre eles, eum francs com traos do crioulo da Lusinia, que era registrado como

  • 64 GWENDOLYN MIDLO HALL

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    francs pela documentao. Identificavam suas prprias etnias assim comoas de seus companheiros. Compartilhavam uma longa histria e uma cultu-ra prxima na Senegmbia, a regio de origem na frica. Pode-se entendera composio de gnero do grupo. Os Bamana eram prisioneiros de guerratrazidos do interior e havia poucas mulheres entre eles. Os Mandinga eramislamizados enquanto os Bamana mantinham suas religies tradicionais.Os Mandinga compravam cativos Bamana e transportavam-nos para a cos-ta ocidental da frica, onde eram vendidos para o trfico Atlntico de escra-vos, embora eles mesmos acabassem embarcados em grande nmero para asAmricas ao longo do sculo XVIII. Sem dvida, os conflitos tnicos inter-africanos viam-se minorados entre aqueles que eram capturados, escraviza-dos e enviados para uma terra estrangeira, onde, afinal, acabaram felizes porpoderem encontrar e se comunicar nas suas lnguas nativas com outros afri-canos.48

    Em 1799, dois escravos adultos do sexo masculino foram vendidos naparquia de Avoyelles pelo negreiro Peytavin Duriblond. Anotou-se nodocumento de venda: Qui se disent leur nation Bambara [Eles dizem quesua nao Bambara].49

    Naquele instante estes africanos se identificaram como Bamana. Possoapenas aceitar a sua auto-identificao. bem provvel que africanos comoeles tenham desembarcado na segunda metade do sculo XVIII, e nem sem-pre sido Bamana. Alguns podem ter sido cativos incorporados pelo exrcitode Segu e parcialmente socializados na cultura e lngua Bamana. Porm, seno aceitarmos as suas palavras, e teremos de supor que o fator tnico gentico, e, logo, imutvel.

    Os milhes que foram acorrentados e trazidos para as Amricas preci-sam ser estudados de maneira mais apurada, como indivduos e povos con-cretos, resgatados do anonimato que envolve o termo genrico africanos.Uma das virtudes da Histria reside no fato de impedir-nos construesdemasiadamente abstratas que, na verdade, encobrem a riqueza do real. necessrio evitar a projeo de estruturas rgidas, ir alm dos estudos deenfoque limitado na frica, nos Estados Unidos e na Amrica inglesa, eestudar os africanos ao longo do tempo e do espao. As designaes tnicasafricanas registradas na documentao americana representam uma chaveque, por sua vez, demonstra as ligaes entre os africanos da frica e os

  • TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    CRUZANDO O ATLNTICO: ETNIAS AFRICANAS NAS AMRICAS 65

    africanos que viveram nas Amricas. Os especialistas em histria da fricaprecisam entender e respeitar o que os dados americanos podem ensinar. Oshistoriadores norte-americanos que estudam a escravido e a dispora afri-cana deveriam aprender mais sobre a frica e a Amrica Latina, alm demanejar outros idiomas afora o ingls. Deveramos nos esforar para cruzaro Atlntico atravs dos tempos e dos espaos. A tarefa difcil, complexa,mas fascinante e apenas se inicia.

    Traduo: Heloisa Gesteira

    Notas

    1Olabiyi Yai, African Ethnonymy and Typonymy: Reflections on Decolonization, In AfricanEthnonyms and Toponyms. Anais do Encontro de Especialistas organizado pela Unesco. Paris,Julho, 3-7, 1978 (Paris, 1984), 39-40. Vrias instituies contriburam para o presentetrabalho, desde o Bureau Cultural da Frana, o Programa de Cooperao Cultural entre oMinistrio da Cultura Espanhol e Universidades dos Estados Unidos, a Fundao JohnSimon Guggenheim, o Louisiana Endowment for the Humanities, a Historic New OrleansCollection e a Universidade de Nova Orleans, e os apoios das Universidades de Northeasterne Rutgers. Agradeo imensamente o apoio destas instituies.2 8 de junho de 1799, documento nmero 331, Original Acts Avoyelles Parish, Louisiana.3 BALDWIN, James. Nobody Knows My Name; More Notes of a Native Son (New York, 1961);Ralph Ellison, The Invisible Man (New York, 1952); Alex Haley, Roots (New York, 1976).4 Cf. FIRESTONE, David. Anonymous Louisiana Slaves Regain Identity, New York Times,30 de julho 2000 5 ALPERS, Edward A. Ivory and Slaves. Changing Pattern of International Trade in EastCentral Africa to the Later Nineteenth Century (Berkeley, 1975); SUNDIATA, I. K. FromSlaving to Neoslavery: the Bight of Biafra and Fernando Po in the Era of Abolition (Madison,1996); SCHULER, Monica. Alas, Alas Kongo: a Social History of Indentured AfricanImmigrants to Jamaica, 1841-1865 (Baltimore, 1980).6 A metodologia foi utilizada em: CURTIN, Philip D. The Atlantic Slave Trade: a Census(Madison, 1969) and MANNING, Patrick. Slavery, Colonialism and Economic Growth inDahomey (Cambridge, England, 1982).7 Consultar African Ethnonyms and Toponyms. Os professores Jane Landers, da UniversidadeVanderbilt, e Rina Cceres, da Universidade de Costa Rica, esto preparando um atlas sobreos africanos nas Amricas, com o apoio do Harriet Tubman Resource Center on the AfricanDiaspora, da Universidade de York, Toronto, Canad.8 O termo no corretamente utilizado por MULIN, Michael. Africa in America: SlaveAcculuration and Resistance in the American South and the British Caribbean 1736-1831(Urbana, 1992).

  • 66 GWENDOLYN MIDLO HALL

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    9 Sobre conflitos entre os filhos das concubinas ver, especialmente, o trabalho de NIANE, D.T. Sundiata: an Epic of Old Mali, trans G.D. Pickett (London, 1965); sobre o estado SeguBambara, consultar HALL, Gwendolyn Midlo, Africans in Colonial Louisiana: the De-velopment of Afro-Creole Culture in the Eighteenth Century (Baton Rouge, 1992), 42-45; sobrea frica Centro-Ocidental, consultar VANSINA, Jan. Kingdoms of the Savanna. A History ofCentral African States Until European Occupation (Madison, 1966), 139-40, e MILLER,Joseph C. Kings and Kinsmen: Early Mbundu States in Angola (Oxford, 1976), 128-73.10 COSTA e SILVA, Alberto da. A Manilha e o Libambo: a frica e a escravido, de 1500 a1700 (Rio de Janeiro, 2002), 153.11 GEGGUS, David. Sex Ratio, Age and Ethnicity in the Atlantic Slave Trade: Data fromFrench Shipping and Plantation Records, Journal of African History, Vol. 30 (1989), 23-44.Para os ecravos Congo identificados como Angola nos documentos da Carolina do Sul,conferir o trabalho de THORNTON, John K. African Dimensions of the Stono Rebellion,American Historical Review, XCVI (1991), 1101-1113; clculo retirado de HALL, LouisianaSlave Database.12 BUHNEN, Stephan. Ethnic Origins of Peruvian Slaves (1548-1650): Figures for UpperGuinea, Paideuma, 39 (1993), 57-110.13 HOWARD, Philip A. Changing History. Afro-Cuban Cabildos and Societies of Color in theNineteenth Century (Baton Rouge, 1998), 27, 37, 39, 74.14 Cf. o livro de KARASCH, Mary. A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro: 1808/1850. SoPaulo: Companhia das Letras, 2000, onde pode ser apreciada a sua discusso, cuidadosa esofisticada, sobre os significados das designaes tnicas e raciais dos escravos nos documentosbrasileiros. pp. 35-66.15 MEDEIROS, Eduardo Moambicanizao dos escravos sados pelos portos de Moambi-que; ALPERS, Edward A. Moambiques in: Brazil: another Dimension of the AfricanDiaspora, papers apresentados no encontro Enslaving Connections: Africa and Brazil Duringthe Era of the Slave Trade, Universidade de York, 12-15/10/2000. In CURTO, Jos C. eSOULODRE-LAFRANCE, R. (editores) Africa and the Americas: Interconnections during theSlave Trade. (No prelo).16 HALL, Gwendolyn Midlo. African Ethnicities and the Meanings of Mina. In: LOVEJOY,Paul E. e TROTMAN, David (editores). Trans-Atlantic Dimensions of Ethnicity in the AmericanDiaspora. Londres, no prelo.17 Procedure criminelle contra la nomme Celeste de Jacob Beam et de nomm Urbin ngre(Processo Criminal contra Celeste de Jacob Beam e Urbin, negro), Maro Junho, 1802,Original Acts Opelousas Post, Louisiana.18 DIOUF, Sylviane A. Servants of Allah. African Muslims Enslaved in the Americas (New York,1998), pp. 60, 78, 87, 180.19 Le Page du Pratz, Histoire de la Louisiane (Paris, 1758), I, 342, 343n, 344-45.20 Em espanhol no original. Sobre os primeiros lanzados nas ilhas de Cabo Verde e na AltaGuin, ver COSTA E SILVA, Alberto. A Manilha e o Libambo: a frica e a escravido, de

  • TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    CRUZANDO O ATLNTICO: ETNIAS AFRICANAS NAS AMRICAS 67

    1500 a 1700 (Rio de Janeiro, 2002), 229-280. Sobre os afro-portugueses em Angoladurante o sculo passado, ver MILLER, Joseph C. Way of Death. Merchant Capitalism and theAngolan Slave Trade 1730-1830 (Madison, 1988), 245-283. Para o uso da lingual Mandigopor toda a Alta Guin, conferir SANDOVAL, Alonso de. Un tratado sobre la esclavitud,Enriqueta Vila Vilar, ed. (Madrid, 1987), 136-7. Uma sntese recente sobre a escravido nosEstados Unidos, baseada nas mudanas detectadas ao longo do e dos lugares, pode serencontrada em BERLIN, Ira. Many Thousands Gone. The First Two Centuries of Slavery inNorth America (Cambridge: Massachusetts, 1998).21 MINTZ, Sidney e PRICE, Richard. An Anthropological Approach to the Afro-AmericanPast: a Caribbean Perspective (Philadelphia, 1976). A reedio foi intitulada The Birth ofAfrican-American Culture: An Anthropological Perspective (Boston, 1992).22 Recentemente publicado em CD. Ver, ELTIS, David et alli. The Trans-Atlantic Slave Trade:A Dababase on CD-ROM (Cambridge, England, 1999); HALL, Gwendolyn Midlo. Databasesfor the Study of Afro-Louisiana History and Genealogy, 1719-1860. Computerized Informationfrom Original Manuscript Sources. A Compact Disk Publication (Baton Rouge, 2000). HALL,Louisiana Slave Database 1719-1820. A Louisiana Slave Database, com instrumento debusca e download gratuito para a The Louisiana Free Database 1719-1820 esto dispon-veis em http://www.ibiblio.org/laslave/index.html. Estudos sobre o Brasil feitos a partir debancos de dados sobre o trfico de escravos e outros documentos brasileiros ver,FLORENTINO, Manolo. Em costas negras: uma histria do trfico de escravos entre a Africa eo Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1997; estudos feitos a partir de bancode dados formados com outros tipos de documentao brasileira, ver FLORENTINO, Manoloe GES, Jos Roberto. A paz das senzalas: familias escravas e trfico atlntico, Rio de Janeiro, c.1790 c. 1850. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1997. Trabalhos feitos a partir debancos de dados constitudos com a documentao de Guadalupe no final do Antigo Regi-me, ver VANONY-FRISCH, Nicole. Les esclaves de la Guadeloupe a la fin de lancien rgime,Boletim da Sociedade de Histria de Guadalupe, Nos. 63-64, 1985. Para uma sntese acercade alguns trabalhos que se baseiam nos clculos a partir da Trans-Atlantic Slave Trade Database,bem como as interpretaes do autor sobre o trfico de escravos no Atlntico, ver ELTIS,David. The Rise of African Slavery in the Americas: (Cambridge, England, 2000).23 Sobre a construo de etnias africanas pelos colonizadores europeus na frica do Sul,verificar VAIL, Leroy (ed.) The Creation of Tribalism in Southern Africa (Berkeley, 1988). Huma discusso bastante cuidadosa em MILLER, Joseph C. Central Africa During the Era ofthe Slave Trade, c. 1490s-1850s. In: HEYWOOD, Linda M. (ed) Central Africans andCultural Transformations in the American Diaspora (Cambridge, England, 2002), 21-70;THORNTON, John. Africa and Africans in the Atlantic World (Cambridge, England, 1992).24 ALPERS, Edward. Ivory and Slaves. Changing Pattern of International Trade in East Cen-tral Africa to the Later Nineteenth Century (Berkeley, 1975), 223 27, citando Lyons McLeodand Frederic Elton, cnsules britnicos em Moambique durantes as dcadas de 1850 e1870.25 DIOP, Cheikh. A Methology for the Study of Migrations, In: African Ethnonyms andToponyms, 86-109.

  • 68 GWENDOLYN MIDLO HALL

    TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70.

    26 BARRY, Boubacar. La Sngambie du xvime au xixime siecle: trate negrire, Islam et Conqutecoloniale (Paris, 1988), 35.27 African Ethnonyms and Toponyms.28 11 de abril de 1738; 9 de setembro de 1743, Documento #6, Relatrio do FrenchSuperior Council, Louisiana Historical Center, Louisiana State Museum, Nova Orleans;Dezembro de 1802, Pointe Coupe Parish Records, New Roads, Louisiana.29 Desde 1996, membros da comunidade intelectual internacional contribuem generosa-mente com suas experincias na identificao de etnias africanas ainda no conhecidas atravsda H-Africa.net e por meio de e.mail. Agradecemos as participaes de Adam Jones, OwenKalinga, Martin Klein, Robin Law, Michael Levin, Paul Lovejoy, Joseph C. Miller, BruceMouser, Mikael Parkvall e Stephen Rockel. O Dr. Ibrahima Seck, um historiador do Senegal,descendente de Wolof e Fulbe, ajudou a idenfiticar muitos nomes africanos oriundos destasetnias, com as quais tem familiaridade. (Code 4 em Tipos de Nome, campo contendo nomesafricanos aproximadamente 10,366 casos);30 4/5 dos Congos durante o perodo francs eram jovens, apareciam nos documentos datados desde1760 com uma mdia de 8 anos menos do que os escravos de outras etnias identificadas. A maioriadeles provavelmente chegou no Judith, navio ingls vindo de Malembo, na frica Central Atln-tica (chamada de Angola pelos britnicos); o navio foi capturado pelos franceses em 1758. Dos125 escravos Congos vendidos na Luisiana, oriundos deste carregamento, 52 (42%) eram crian-as. Outros escravos da mesma regio africana foram contrabandeados pelos traficantes britnicosem fins de 1750 ou introduzidos pela redistribuio de escravos atravs do Caribe durante adcada de 1760.31 Verificar HALL, Gwendolyn Midlo. Myths About Creole Culture in Louisiana: Slaves,Africans, Blacks, Mixed Bloods, and Caribbeans, In: Cultural Vistas, vol. 12, no. 2, pp. 78-89, vero de 2001; HALL. Africans in Colonial Louisiana, 58, 179, 180, 284; WALSH,Lorena S. The Chesapeake Slave Trade: Regional Patterns, African Origins, and Some Impli-cations, In: William and Mary Quarterly, 3 srie, Vol. LVIII, No. 1, Janeiro, 2001.32 In search of the Invisible Senegambians : the Louisiana Slave Database (1723-1820), In:Saint-Louis et lEsclavage, Actes du symposium international sur la traite ngrire Saint-Louisdu Sngal et dans son arrire-pays, Saint-Louis, 18, 19 e 20 de dezembro de 1998 ; SAMB,Djibril (ed) Institut Fondamental dAfrique Noir [IFAN], Initiations et tudes Africaines, 39(Dakar, February, 2001), 237-64.33 LITTLEFIELD, Daniel C. Rice and Slaves: Ethnicity and the Slave Trade in Colonial SouthCarolina (Baton Rouge, 1981), 115-173. WALSCH, The Chesapeake Slave T