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    O RTICO NO SCULO XXI: O FIM DO ISOLAMENTO RUSSO?

    Lucas Sudbrack1

    RESUMO

    Este artigo tem como objetivo analisar as consequncias do degelo do rtico na geopoltica

    russa. A partir de uma anlise histrica do isolamento geogrfico da Rssia, assim como de

    seu isolamento poltico imposto pelos Estados Unidos e pela OTAN, busca-se entender a

    importncia do derretimento do gelo para o desenvolvimento interno russo e a projeo do

    pas em direo ao mar. Por ltimo, observam-se as relaes bilaterais de Moscou com os

    principais pases do sistema internacional que tm demonstrado interesses na regio.

    Palavras-chave: rtico. Degelo. Rssia. Geopoltica. OTAN.

    1 INTRODUO

    A Rssia sempre foi um pas nico. Se a geografia da sia Central fez o comrcio

    prosperar na regio, ela tambm permitiu inmeras invases. Suas defesas naturais foram o

    frio e as grandes extenses geogrficas, que tiveram papel fundamental na expulso de

    franceses e alemes nos ltimos dois sculos. Cientes dessa vulnerabilidade, os russos se

    colocaram em um constante processo de expanso, no qual tambm sofreram grandes

    derrotas.

    A queda da Unio Sovitica foi, entre outros, mais um perodo de retrao territorial

    sofrida por Moscou. Foi um forte golpe que mergulhou seu povo em crises polticas,

    econmicas e sociais. Por um breve perodo, os russos acreditaram que a nica sada era

    seguir o modelo dos Estados Unidos. No entanto, a prosperidade global atravs do

    capitalismo estadunidense no chegou. O descontentamento de grande parte do mundo fez

    1 Trabalho de concluso do curso de especializao do Programa de Ps-Graduao em Estudos Estratgicos

    Internacionais (PPGEEI) da Universidade Federal do Rio Grande Sul (UFRGS). (Email:

    lucassudbrack@hotmail.com)

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    surgir novos alinhamentos em nome de um futuro menos desigual. E tambm fez a Rssia

    reassumir seu carter expansionista.

    Atualmente a Rssia tem se mostrado insatisfeita com os resultados das frmulas

    internacionais de desenvolvimento, como foi o socialismo anti-ocidental implementado na

    Unio Sovitica e a adeso ingnua da democracia liberal na dcada de 1990. Diferente da

    Alemanha e do Japo ps-Segunda Guerra, que abriram mo de sua soberania em nome da

    integrao ao mundo ocidental, Moscou decidiu seguir seu prprio caminho em busca de seu

    lugar como grande potncia independente (COLIN, 2007).

    Logicamente, os Estados Unidos no gostam dessa ideia. nica superpotncia

    existente, Washington tenta isolar todos aqueles que possam, de um algum modo, ameaar

    sua liderana global no futuro, principalmente ao se tratar de uma potncia militar, como o

    caso da Rssia.

    Para escapar desse isolamento, os russos contam com grandes mudanas climticas. O

    clima severo da regio faz com que a navegao, a construo e outras obras de engenharia

    sejam seriamente limitadas por trs obstculos: mares congelados, solo congelado e neve

    acumulada (COLACRAI, 2004). Por esse motivo, o degelo do rtico tem sido estudado e

    fantasiado h dcadas, principalmente pelos russos, j que a permafrost (o solo congelado)

    cobre grande parte do territrio do pas. Desse modo, ainda em 1957, o cientista, P. M.

    Borisov afirmou que era necessria uma guerra contra o frio e no de uma Guerra Fria,

    propondo a construo de uma grande barragem de 80 km de comprimento que mudasse o

    clima da regio rtica (BORISOV, 1969).

    A boa notcia para os russos que no foi preciso grandes obras para que o

    derretimento se tornasse realidade. O aquecimento global, sejam quais forem suas origens,

    tem aberto um leque de oportunidades e desafios que pode ajudar Moscou a recuperar o posto

    de grande potncia global. Se recentemente j se v a Rssia desempenhar um importante

    papel diplomtico no mundo, se posicionando fortemente contra os interesses de Washington,

    esses confrontos podem aumentar ainda mais nos prximos anos, medida que os ganhos

    possveis no rtico se tornem realidade. Assim, o objetivo desse trabalho analisar o cerco

    sofrido pelos russos, no passado e na atualidade, e como o degelo do extremo norte pode

    modificar essa realidade.

    Para melhor entender esse movimento, na primeira parte desse artigo se faz uma breve

    recapitulao da histria russa e de seu isolamento geogrfico. Na segunda parte, apresenta-se

    as mudanas no rtico, assim como as oportunidades e os desafios que o derretimento do gelo

    traz consigo. E na sequncia, exploram-se as polticas russas para o desenvolvimento da

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    regio. Em seguida observa-se o isolamento poltico imposto pela OTAN Rssia, e a viso

    que uma parte tem da outra. E por ltimo, busca-se analisar a relao de Moscou com demais

    pases que tem demonstrado interesse no rtico.

    2 A BUSCA PELO MAR

    A histria da presena humana na sia Central nos remete h seis mil anos, quando as

    tribos pastoris nmades comearam a migrar para a regio. Se, por um lado, a geografia das

    estepes possibilitava a viagem de comerciantes entre o oriente e a Europa, o que ajudou a

    desenvolver a regio, por outro, as plancies desprotegidas tambm facilitavam a chegada de

    conquistadores como o persa Ciro e o macednio Alexandre, o Grande. Ao longo do tempo, a

    falta de unio entre os povos locais acabou por representar sua maior fraqueza. No sculo

    XIII, isso ficou evidente quando os poucos principados russos, incapazes de oferecerem uma

    defesa conjunta contra as invases mongis, acabaram sendo dominados pelo exrcito de

    Genghis Khan. Por mais de dois sculos, os russos sofreram com a opresso mongol e,

    enfraquecidos, acabaram perdendo territrios do lado ocidental, invadidos por europeus que

    se aproveitavam de sua incapacidade de se defender. Esse perodo foi to desastroso para o

    povo russo que desde ento h uma conscincia de que se necessita um poder forte e

    centralizado que garanta segurana, ordem e, ento, desenvolvimento (SANTOS, 2008).

    Foi no final do sculo XV que Ivan III, o Grande, libertou o povo russo da dominao

    mongol. Porm, o risco de novas invases era iminente. A presena dos mares Negro e

    Cspio, alm das montanhas do Cucaso e dos Crpatos, no sul, e do oceano congelado ao

    norte, formavam uma espcie de conteno de possveis invasores, o que no acontecia no

    leste e no oeste. Assim, entre dominar e ser dominado, a Rssia passou a se expandir a ponto

    no s de dominar regies que serviriam como reas-tampo para o principado de Moscvia,

    mas ia alm, estabelecendo baluartes o mais longe possvel. Essa expanso, no entanto, criou

    problemas internos. Os povos dominados durante a expanso russa no necessariamente

    estavam dispostos a servir como defesa para Moscou, o que exigiu dos russos uma grande

    rede de segurana e de inteligncia interna que sustentasse o poder central. A dominao e a

    capacidade de controle de vastos territrios colocou a Rssia em uma eterna percepo de

    ameaas entre leste e oeste e entre interno e externo. Alm disso, o crescimento da Rssia e o

    consequente desenvolvimento de reas em regies inspitas fez surgir outro grande problema.

    Os russos conseguem produzir o suficiente para saciar toda sua populao, mas no

    conseguem transportar de forma eficiente esses produtos para locais mais afastados do centro,

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    fazendo com que o Estado tenha que assumir altos custos de transporte para que o interior do

    pas se mantenha habitado (FRIEDMAN, 2008).

    Para manter o centro do pas seguro, o cientista poltico George Friedman destaca

    cinco imperativos geopolticos russos: expandir-se para o norte e leste; expandir-se para o sul;

    expandir-se o mximo possvel para o oeste; administrar o imprio com terror; e manter

    portos de guas quentes com acesso ao mar aberto (FRIEDMAN, 2008). De modo parecido, o

    tenente-general portugus Eduardo Santos destaca que com a estabilidade do Imprio Russo e

    o domnio de territrios at o Pacfico, surgiram duas grandes metas de uma estratgia

    geopoltica que perdura at os dias de hoje: o domnio do Mar Negro, conquistando

    Constantinopla para chegar ao Mediterrneo; e alcanar a ndia, para ter acesso ao ndico. Em

    outras palavras, o grande objetivo russo era o domnio de acessos a portos de guas quentes

    (SANTOS, 2008).

    Uma vez definido o objetivo, era necessrio coligir foras para assumir uma poltica

    mais enftica em relao a ele, o que aconteceu somente no sculo XIX. Entretanto, os russos

    se depararam com diversos desafios. No Mar Negro, apesar de conseguir se estabelecer na

    Crimeia, a Rssia no tinha fora suficiente para invadir o Imprio Otomano e teve de lidar

    com diversos choques que sacudiam a Europa: as guerras napolenicas, as revolues

    nacionalistas e a Guerra da Crimeia, na qual foi derrotada pela aliana entre ingleses e

    franceses.

    J o caminho para alcanar a ndia teria que necessariamente passar pelo Afeganisto,

    local de geografia montanhosa e de belicosas tribos, o qual nem Alexandre, o Grande, nem

    Genghis Khan foram capazes de dominar. Alm disso, para avanar em direo ao ndico, os

    russos deveriam vencer os ingleses, que ocupavam a ndia, no chamado Grande Jogo, a

    disputa pelo controle da sia Central que se estendeu pelo sculo XIX.

    Com seus dois principais objetivos frustrados, Moscou virou sua ateno para o

    Pacfico. Com a Segunda Guerra do pio, entre chineses e ingleses, em 1856, os russos

    conseguiram anexar um vasto territrio no leste,