PENSAR O MAL NA ERA DA CRISE AMBIENTAL Crise, ?· Teodiceia em Leibinz a) A razão humana contém em…

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PENSAR O MAL NA ERA DA CRISE

AMBIENTAL

Crise, Metamorfose, Catstrofe.

Escola Secundria Antnio Damsio

Lisboa, 26 de Fevereiro de 2015

Viriato Soromenho-Marques

(Universidade de Lisboa)

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ndice

1. O Mal no quadro da razo

contemplativa.

2.A viragem para o primado da

razo prtica.

3. Recuperar a humildade e o

sentido das propores.

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1

O Mal no quadro da razo contemplativa:

uma responsabilidade de Deus e dos

limites da sua omnipotncia

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O Mal Fsico como

espontaneidade natural

O tsunami do final de Dezembro de 2004 foi um acontecimento notvel:

>Pela terrvel experincia de mais de 300.000 pessoas varridas da existncia por uma vaga gigantesca percorrendo milhares de quilmetros, velocidade de um avio comercial.

>Por ter colocado escala da esfera meditica global, o espectculo avassalador das foras colossais da Natureza, actuando de acordo com a sua necessidade intrnseca, e com uma total indiferena perante a presena humana e o seu destino.

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Regressar a 1755

Habitumo-nos a pensar nos desastres naturais como resultado da aco humana.

O terramoto de 1755 significou uma fractura na agenda filosfica europeia e uma clara mudana de rumo nas prioridades conceptuais do sculo das Luzes. A expresso dessa mudana pode ser definida como consistindo numa intensificao do ritmo de autoreflexo da racionalidade europeia

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Teodiceia em Leibinz

a) A razo humana contm em si prpria,

atravs do princpio da razo suficiente

(PRS), a chave para a compreenso da

conciliao entre o Mundo e Deus.

b) A omnipotncia de Deus est limitada

por princpios e leis aos quais Deus no

pode deixar de obedecer.

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Leibinz: Deus fez o melhor

mundo possvel

c) Em Deus, o PRS designa-se como princpio da escolha do melhor.

d) A existncia do mal no mundo no deve abalar a confiana humana no mundo como derivando de um fundamento divino.

e) H uma dupla confiana a salvaguardar:

carcter divino do criador

legitimidade das pretenses da razo humana, j que esta repousa numa matriz comum razo divina.

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Shaftesbury (1699): o mal uma

iluso de perspectiva

"Se tudo o que existe de acordo com uma boa ordem, e para o melhor; ento necessariamente no existe algo como o mal real no universo, [no existe] nada de mal com respeito ao todo.

O que quer que, ento, seja, de tal modo que realmente no tivesse podido ser melhor, ou de qualquer modo melhor ordenado, perfeitamente bom."

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Shaftesbury: Texto

original

If every thing which exists be according to a good Order, and for the best; then of necessity there is no such thing as real ill in the Universe, nothing ill with respect to the Whole.

Whatsoever, then, is so as that it cou'd not really have been better, or any way better order'd is perfectly good.", SHAFTESBURY, An Inquiry concerning Virtue, or Merit, Characteristiks, vol. II, p. 9.

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Leibniz (1710):Trs

modalidades de mal

"Pode considerar-se o mal metafisicamente, fisicamente e moralmente. O mal metafsico consiste na simples imperfeio, o mal fsico no sofrimento e o mal moral no pecado. Ora, embora o mal fsico e o mal moral no sejam de modo nenhum necessrios, basta que em virtude das verdades eternas eles sejam possveis. E como essa regio imensa das verdades contm todas as possibilidades, necessrio que exista uma infinidade de mundos possveis, que o mal tenha lugar em vrios deles, e mesmo que o melhor de todos o contenha; foi isso que determinou Deus a permitir o mal."

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Leibniz: texto original

"On peut prendre le mal mtaphysiquement, physiquement et moralement. Le mal mtaphysique consiste dans la simple imperfection, le mal physique dans la souffrance et le mal moral dans le pech. Or quoyque le mal physique et le mal moral ne soyent point necessaires, il suffit qu'en vertu des verits eternelles ils soyent possibles. Et comme cette Region immense des verits contient toutes les possibilits, il faut qu'il y ait une infinit de mondes possibles, que le mal entre dans plusieurs d'entr'eux, et que mme le meilleur de tous en renferme; c'est ce qui a determin Dieu permettre le mal.", LEIBNIZ, op. cit.,I, 21, p. 115.

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Na mente divina

"A sabedoria divina, no contente com abraar todos os possveis, penetra-os, compara-os, pesa-os mutuamente, para estimar com isso os graus de perfeio ou imperfeio, o forte e o fraco, o bem e o mal; ela vai mesmo para alm das combinaes finitas, ela realiza uma infinidade de infinitos, quer dizer uma infinidade de sequncias possveis do universo, contendo cada uma, uma infinidade de criaturas; e por esse meio a Sabedoria Divina distribui todos os possveis,

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em trabalho

que ela j havia considerado parte, por outros tantos sistemas universais que ela compara, ainda, entre si: e o resultado de todas estas comparaes e reflexes a escolha do melhor de entre todos os sistemas possveis, que a sabedoria realiza para satisfazer plenamente bondade; o que justamente o plano do universo actual. E todas essas operaes do entendimento divino, embora tenham entre elas uma ordem e uma prioridade de natureza, fazem-se sempre em conjunto, sem que exista entre elas nenhuma prioridade de tempo."

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LEIBNIZ, op. cit., II, 225,

p. 252

"La sagesse de Dieu, non contente d'embrasser tous les possibbles, les penetre, les compare, les pese les uns contre les autres, pour en estimer les degrs de perfection ou d'imperfection, le fort et le faible, le bien et le mal; elle va mme au del des combinaisons finies, elle en fait une infinit d'infinies, c'est dire une infinit de suites possibles de l'univers, dont chacune contient une infinit de cratures; et par ce moyen la Sagesse Divine distribue tous les possibles qu'elle avoit dja envisags part, en autant de systemes universels, qu'elle compare encor entre eux: et le resultat de toutes ces comparaisons et reflexions est le choix du meilleur d'entre tous ces systemes possibles, que la sagesse fait pour satisfaire pleinement la bont; ce qui est justement le plan de l'univers actuel. Et toutes ces operations de l'entendement Divin, quoyqu'elles ayent entre elles un ordre et une priorit de nature, se font toujours ensemble sans qu'il y ait entre elles aucune priorit de temps.", LEIBNIZ, op. cit., II, 225, p. 252.

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Leibniz,: totalidade e

princpio do melhor

"Mas quando se trata de um crime, Deus no pode seno querer permiti-lo: o crime no nem fim nem meio, ele somente uma condio sine qua non (...) ele no o objecto de uma vontade directa (...) Deus no o pode impedir, sem agir contra aquilo a que est obrigado, sem fazer algo que seria pior do que o crime do homem, sem violar a regra do melhor, o que seria destruir a divindade, como j assinalei. Deus ento obrigado por uma necessidade moral, que se encontra nele prprio, a permitir o mal moral das criaturas..."

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Leibniz: texto original

"Mais quand c'est un crime, Dieu ne peut que le vouloir permettre: le crime n'est ny fin, ny moyen, il est seulement une condition sine qua non (...) il n'est pas l'objet d'une volont directe (...) Dieu ne le peut empcher, sans agir contre ce qu'il se doit, sans faire quelque chose qui seroit pis que le crime de l'homme, sans violer la regle du meilleur: ce qui seroit dtruire la divinit, comme j'ai dja remarqu. Dieu est donc oblig para une necessit morale, qui se trouve en luy mme, de permettre le mal moral des Creatures...", LEIBNIZ, op. cit., II, 153, p. 201.

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2

Kant e Voltaire devolvem

humanidade a responsabilidade

sobre o mal inaugurando a

passagem ao primado da razo

prtica e da historicidade

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Kant: teodiceia e razo

em 1791

"Por uma teodiceia entende-se a defesa da

sabedoria suprema do autor do mundo contra

as acusaes que contra ele levanta a razo a

partir do que de contrrio ao fim

(Zweckwidrigen) existe no mundo. Chama-se a

isso lutar pela causa de Deus, embora no

fundo tal no possa ser nada mais do que a

causa da nossa - nisso presunosa e

desconhecedora dos seus limites - razo (...)"

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Kant: texto original

"Unter einer Theodizee versteht man die Verteidigung der hchster Weisheit des Welturhebers gegen die Anklage, welche die Vernunft aus dem Zweckwidrigen in der Welt gegen jene erhebt. - Man nennt dieses, die Sache Gottes verfechten; ob es g