Helena Filipa Lourenço 316 José Augusto Cardoso Bernardes. Coord. Carlos Reis. Gil ... ?· 2015-10-29 ·…

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<ul><li><p>Helena Filipa Loureno </p><p>eHumanista: Volume 12, 2009 </p><p>316</p><p>Jos Augusto Cardoso Bernardes. Coord. Carlos Reis. Gil Vicente. Col. Cnone, 2. Lisboa: Edies 70, 2008. pp. 238. ISBN 978-972-44-1517-8 Reviewed by Helena Filipa Loureno Universidade Nova de Lisboa </p><p> A recente publicao de Jos Augusto Cardoso Bernardes </p><p>apresenta uma leitura actual, sria, bem fundamentada e documentada do grande dramaturgo ibrico, Gil Vicente. </p><p>Para alm da leitura viva deste cnone das literaturas ibricas, a obra inclui testemunhos inditos compilados pelo autor junto de leitores especialmente qualificados dos textos de Gil Vicente: editores, tradutores, encenadores, actores e professores (127), nomeadamente Jos Cames, Sarka Grauov, Anne-Marie Quint, Jos Russo e Maria Ema Tarracha Ferreira. </p><p>Do ponto de vista da organizao textual, a obra oferece uma longa apresentao de Gil Vicente, que inclui consideraes desde a figura humana (a discutvel identidade, a cultura e a construo da figura), passando pelas matrizes literrias e temticas, pela diversidade lingustica, finalizando na actualidade de Gil Vicente. </p><p>D tambm lugar a um captulo (3) dedicado a recolhas textuais efectuadas no conjunto da produo literria de Gil Vicente (lugares selectos), onde podemos encontrar aforismos, textos de doutrina esttica e literria. Posteriormente, encontram-se os j mencionados testemunhos, uma seleco de textos crticos sobre o autor e a obra, um pequeno dicionrio e uma bibliografia recente. </p><p>Jos Augusto Cardoso Bernardes menciona a ambiguidade da identidade de Gil Vicente na poca a que est circunscrito, demonstrando como apenas com o Romantismo, atravs da valorizao da cultura popular e dos valores nacionalistas, surge a necessidade de reinventar a figura do dramaturgo, isto , de se construir a sua compleio. </p><p>Um outro ponto a salientar a discutvel tese do poeta / ourives, posteriormente corroborada no discurso crtico nas palavras de Antnio Jos Saraiva. Segundo Jos Augusto Cardoso Bernardes, </p><p> luz dos pressupostos nacionalistas, faz ainda sentido pensar que atravs dessa tese se tenha pretendido, de alguma maneira, fazer participar Gil Vicente das grandezas do nosso Quinhentismo, dando-o como testemunha especialmente habilitada desse perodo e conferindo-lhe, ao mesmo tempo, a glria simblica de ter manuseado o primeiro ouro proveniente do Imprio. (23) </p></li><li><p>Helena Filipa Loureno </p><p>eHumanista: Volume 12, 2009 </p><p>317</p><p>As inmeras transformaes sociais, o incio da aventura martima e o aparecimento da burguesia do indcios de que uma nova atitude comeava a espreitar a ambio do homem e duas novas formas de encarar o mundo, vindas de Itlia, davam os primeiros passos em territrio peninsular: o Renascimento e o Humanismo. </p><p>Vicente ilustra, pois, nas suas peas a passagem da Idade Mdia literria para a poca renascentista. Se, anterior sua vasta produo teatral, o teatro se resumia a representaes litrgicas e a curtas representaes burlescas, a partir das suas peas escreveu-se uma nova pgina no teatro nacional e ibrico. </p><p>Neste contexto, surge ainda a condio de artista da corte que a crtica literria tem vindo a atribuir ao dramaturgo. Com efeito, Gil Vicente sabia que o seu teatro era bastante apreciado pela nobreza e era, no raras vezes, motivo de festa. Seguindo o pensamento de Bernardes, </p><p> isso significa essencialmente que o escritor desenvolveu a sua arte tendo em vista o pblico corteso, vivendo nos palcios, acompanhando o Rei nas suas deslocaes, procurando corresponder aos seus gostos e expetativas, sinalizando os principais acontecimentos que pautavam a vida cortesanesca, recobrindo as festividades do calendrio ou as celebraes que envolviam a famlia real. (24) </p><p>Acerca das fases e evoluo da obra considera o autor que Mais do que um esquema linearmente evolutivo (que nos habitumos a detetar em outros escritores), o que existe em Gil Vicente uma sobreposio de tendncias que no se anulam (30). </p><p>Destas tendncias devem ser assinaladas as aluses ao teatro espanhol, aos temas religiosos e profanos, riqueza da cultura popular enquanto reflexo de costumes e hbitos da vida rstica, bem como aos diferentes gneros cultivados e bilinguismo do dramaturgo. </p><p>Nos sculos XV e XVI, verificou-se em Portugal um uso quase generalizado da lngua espanhola pelos poetas portugueses, nomeadamente por Lus de Cames, Pro Andrade de Caminha, Andr Falco de Resende, Garcia de Resende, entre outros, o que proporcionava um imenso bilinguismo cultural, que pode ser explicado pelas alianas matrimoniais entre os pases peninsulares. </p><p>Acerca da actualidade, da obra trs so os argumentos que o autor aponta: Os dilemas que se colocam a Gil Vicente e ao artista de qualquer poca no que toca Ordem e sua Transformao; o compromisso do artista com o Poder e a margem de liberdade que lhe sobra; a realidade portuguesa vista por Gil Vicente, em termos de circunstncia e em termos de estrutura. (75) </p><p> Deste modo, inegvel o legado literrio que o dramaturgo deixou, a viso arguta </p><p>da realidade sociocultural portuguesa e da acuidade para com o retrato da sociedade. </p></li><li><p>Helena Filipa Loureno </p><p>eHumanista: Volume 12, 2009 </p><p>318</p><p>Embora tenha vivido na gloriosa sociedade de quinhentos e no esplendor da recepo s novas formas literrias, no esqueceu o popular e o tradicional medievais. Perpassam no seu teatro, por exemplo, o apreo pela natureza, que serve de confidente aos amores, desamores, alegrias e tristezas de variadssimas personagens, a predileco pelo lirismo trovadoresco peninsular. </p><p>Dividida entre duas eras (a medieval e a renascentista), a obra de Gil Vicente permanece viva e actual nos alvores do sculo XXI. Citando Carlos Reis, coordenador da presente edio, o que neste trabalho se reafirma so as razes dessa pervivncia, bem como a necessidade de continuarmos a ler e a representar Gil Vicente, na escola e fora dela. (11) </p></li></ul>

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