d©bora meira dos santos

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  • 1

    Canibalismo Tupinamb: um discurso para escravizao.

    Dbora Meira*

    Resumo:

    Tenho por objetivo fazer uma reflexo sobre os discursos acerca da prtica da

    antropofagia das tribos Tupinambs no sculo XVI na Amrica Portuguesa. Para isto,

    utilizo como documento principal o dirio escrito e publicado em 1557 pelo alemo Hans

    Staden, conhecido com Duas viagens ao Brasil. Considero que a divulgao de tais

    discursos puderam ser utilizados a favor de aes ofensivas contra os indgenas, como a

    Guerra Justa e a escravizao.

    Como propsitos da comunicao: (a) Destacar as referncias ao canibalismo no

    dirio de Hans Staden, (b) analisar a imagem construda dos indgenas como

    devoradores de carne humana e (c) avaliar como tais elementos legitimavam ou

    justificavam aes contra os indgenas, especialmente sua escravizao para a utilizao

    como mo de obra, num momento em que a empresa colonial precisava se estabelecer

    no territrio colonial, no s para defesa, mas tambm para enriquecimento da

    metrpole.

    Palavras chave:

    Hans Staden; ndios Tupinambs; escravido indgena; Guerra Justa; imaginrio colonial

  • 2

    *Aluna cursando o 10 perodo de graduao em bacharelado e licenciatura em Histria na Pontifcia

    Universidade Catlica, bolsista CNPq no Programa de Educao Tutorial (PET) desde agosto de 2011.

    Introduo

    Em um domingo visitando o Museu Nacional localizado na Quinta da Boa Vista, vi e

    fiquei encantada com pinturas em uma das salas. As pinturas estavam associadas ao

    nome de Hans Staden e retratavam indgenas adultos e crianas, alguns pintados com

    peles de animais e penas, outros nus. Alguns danavam e outros sentados no cho

    comiam partes do corpo de um homem que assava em numa espcie de grelha.

    Tais pinturas foram feitas por Theodre de Bry a partir de xilogravuras

    apresentadas no dirio de um viajante e arcabuzeiro alemo: Hans Staden. O intuito de

    Staden em seu dirio era o de ilustrar sua experincia na capitania de So Vicente em

    1554, quando fora preso na sua segunda viagem ao Brasil por uma tribo de ndios

    chamados por Tupinambs.

    A partir do dirio escrito e publicado por Hans Staden em Marburg em 1557, cujo

    titulo : Histria verdica e descrio de uma terra de selvagens, nus e cruis comedores

    de seres humanos, situada no Novo Mundo da Amrica, desconhecida antes e depois de

    Jesus Cristo nas terras de Hessen at os dois ltimos anos, visto que Hans Staden, de

    Homberg, em Hessen, a conheceu por experincia prpria e agora a traz a pblico com

    essa impresso; mais conhecido pelo ttulo de: Duas viagens ao Brasil. Considero este

    relato importante em vista do momento de sua circulao, pois na metade do sculo XVI

    h a formalizao de prticas de escravizao indgena propostas pelos governos

    metropolitanos.

    Em Duas Viagens ao Brasil, Staden apresenta uma viso religiosa da histria, onde

    os acontecimentos narrados se ajustam a um plano divino que se constitui a partir do

    encontro com os homens bestiais, nus e cruis comedores de seres humanos - como j

    aparece no ttulo da obra - numa dicotomia, na qual o autor contrape a imagem do

    europeu civilizado do indgena selvagem.

    Mesmo que a narrativa de Staden tenha a marca de um olhar religioso, este

    caminha em direo oposta de uma proposta poltica missionria, para qual estava sendo

  • 3

    feito investimento por religiosos de diferentes ordens mendicantes catlicas - como

    franciscanos e jesutas - a partir de interesses da Coroa Portuguesa. Hans Staden tornou

    o Novo Mundo uma zona repulsiva onde os europeus hesitariam a pr os ps,

    recomendado por ele apenas se duvidasse da veracidade da sua obra.

    Se houver agora um moo, a quem minha descrio e

    estes testemunhos no bastem, que empreenda ento le

    prprio, com a ajuda de Deus, a viagem, e a dvida se lhe

    dissipar. Dei-lhe, nste livro, informaes suficientes.1

    Considerando, seu Dirio de viagem como primeiro livro publicado sobre o Novo

    Mundo e suas mltiplas reedies, tenho por objetivo mostrar que a leitura de Hans

    Staden pode ter levado a uma afirmao de uma percepo negativizada dos ndios

    tupinambs. Onde a ritualizao realizada pelos ndios de comer a carne humana de

    seus inimigos fortaleceria uma construo simblica e imagtica europia dos indgenas

    como selvagens - que j vinha sendo feito desde Colombo com a criao do prprio

    termo canibal2 -. A caracterizao do indgena como selvagem legitimaria a ocupao e

    proveito das terras americanas, alm de fornecer uma resposta para lidar com as

    populaes selvagens como fora de trabalho ou mesmo seu extermnio. Como

    sabemos a chamada Guerra Justa fora fortemente defendida e realizada na Amrica

    Portuguesa.

    Se a liberdade sempre garantia aos aliados e aldeados, a

    escravizao , por outro lado, o destino dos ndios inimigos3

    A Guerra Justa foi um dos casos em que a escravizao indgena se tornou legal, a

    outra justa razo de direito para escravizao foi o resgate4 -. No sculo XVI e XVII esta

    ao foi motivo de muita discusso em diferentes segmentos da sociedade europia,

    1STADEN, Hans. Duas viagens ao Brasil. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2008. Pp. 198.

    2 LESTRINGANT, Frank. O canibal: grandeza e decadncia. Braslia: Editora Universidade de Braslia, 1997.

    Pp. 285.

    3PERRONE-MOISS. Beatriz. ndios livres e ndios escravos. In: Histria dos ndios nos Brasil. Org. Manuela

    Carneiro da Cunha. 2 edio. So Paulo: FAPESP/Companhia das letras, 1992. Pp. 123. 4Ibdem.

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    como tambm na sociedade portuguesa. Todavia, me interessa salientar que as causas

    em que a Guerra Justa foi legitimada como ao na Amrica Portuguesa seria quando da

    recusa converso ao catolicismo levando ao impedimento da propagao da F crist;

    a quebra de pactos celebrados e a prtica de hostilidade contra vassalos e aliados dos

    portugueses.

    Pensando meu objetivo na leitura do Dirio de Hans Staden, ressalto o ltimo

    motivo destacado: o que legitimaria a ao da Guerra era a existncia de hostilidades

    prvias por parte dos indgenas.5 J em 1548, Tom de Souza, primeiro governador geral

    da Amrica Portuguesa, recomendava que os Tupinambs teriam de ser castigados com

    muito rigor, j que estes haviam atacado os portugueses. Como Hans Staden o faria, a

    descrio dos povos indgenas como brbaros, cruis e inimigos, configuraria a imagem

    desse outro e legitimaria aes justas contra tais hostilidades. Dentre estas hostilidades,

    a antropofagia dos indgenas tambm seria compreendida como uma ameaa aos

    colonizadores.

    A busca pelo canibal: a escrita de Hans Staden.

    O primeiro livro sobre o que hoje chamamos de Brasil foi publicado em 1557 em

    Marburg, em Hesse. A primeira edio deste foi impressa na Folha de Trevo, por Andr

    Kolbe, e rapidamente alcanou sucesso editorial tendo sido publicada mais uma edio

    no mesmo ano na mesma cidade e mais duas em Frankfurt. O livro que ficaria conhecido

    por Duas viagem ao Brasil, teve como ttulo original alemo Wahrhaftige Historia, e fora

    escrito por Hans Staden logo aps sua volta da experincia no pas dos trpicos ptria

    alem, como ele mesmo define, em 1557.

    O primeiro livro sobre a terra de selvagens, nus e cruis comedores de seres

    humanos obteve 39 edies entre 1557 e 1715. Essas edies vo, desde a circulao

    na esfera intelectual europia, com sua traduo em 1592 para o Latim em 1567 a obra

    havia sido inserida na segunda coleo de relatos de Sebastian Frank, intitulada

    5 Principal justificativa segundo Beatriz Perrone-Moiss no subcaptulo: ndios livres e ndios escravos.

  • 5

    Weltbuch, sendo concedido o status de pertinncia ao contexto cientfico da geografia6 -

    esfera da literatura infanto-juvenil europia atravs de Johann Ludwig Gottefried, escritor,

    compilador e tradutor, que fora responsvel por trs edies da obra no sculo XVII.

    Houve, ainda, produes de obras satricas baseadas no livro de Staden, como:

    Encontro curioso e peculiar no reino dos mortos entre Cristvo Colombo, o famoso

    descobridor do novo mundo, e Joo Staden, marinheiro alemo igualmente famoso,

    contendo descries dignas de espanto e admirao de 1729, ou De como Hans

    Stieglitz fez fortuna numa terra alheia de Ewald G. Seeliger publicada em 1920.

    As primeiras edies no Brasil s ocorreriam no final do sculo XIX, e mostraria

    segundo Zinka Ziebell um carter de polarizao. Pois, na primeira edio, lanada em

    1892 na Revista Trimensal do Instituto Histrico Geogrfico Brasileiro sob o ttulo:

    Relao verdica e sucinta dos uzos e costumes dos Tupinambs por Hans Staden,

    teria sido conferido um valor cientfico que procurava ressaltar a descrio etnogrfica.

    Enquanto a segunda, de 1900 sob o ttulo Hans Staden: Suas viagens e captiveiro entre

    os selvagens do Brazil, evidenciaria o protagonista e sua histria e teria, para Ziebell, um

    carter mais popular.7Mais tarde seria adaptado e publicado para o pblico infanto-juvenil

    por Monteiro Lobato.

    Assim, ao longo dos sculos vemos um sucesso editorial conquistado pela obra de

    Hans Staden, seja do lado de um campo erudito ou na literatura europia popular.

    Segundo Francisco de Assis Carvalho e Franco a obra de Hans Staden o tornou

    secularmente clebre e se fixou como uma das mais autorizadas fontes da etnografia sul-

    amer