Cbc Filosofia

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<p>FILOSOFIAProposta Curricular(Ensino Mdio)</p> <p>1</p> <p>AUTORAS Marcelo Marques Prof. Depto. de Filosofia, UFMG. Patrcia Kauark Profa. Depto. de Filosofia, UFMG. Telma Birchal Profa. Depto. de Filosofia, UFMG.</p> <p>2</p> <p>Governador Acio Neves da Cunha Vice- Governador Antnio Augusto Junho Anastasia Secretria de Estado de Educao Vanessa Guimares Pinto Chefe de Gabinete Felipe Estbile Morais Subsecretria de Informaes e Tecnologias Educacionais Snia Andre Cruz Subsecretria de Desenvolvimento da Educao Bsica Raquel Elizabete de Souza Santos Superintendente de Ensino Mdio e Profissional Joaquim Antnio Gonalves</p> <p>3</p> <p>SUMRIO Ensino Mdio 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. Introduo Para que Filosofia? Diretrizes para o Ensino de Filosofia Critrios de Seleo dos Contedos Princpios Norteadores Avaliao Contedo Bsico Comum Filosofia</p> <p>8. Para que Filosofia? Bibliografia</p> <p>4</p> <p>APRESENTAO (Joo Filocre)</p> <p>5</p> <p>ENSINO MDIO1. Introduo Esta Proposta Curricular fruto do trabalho de uma equipe de consultores em debate com professores e outros profissionais envolvidos com o ensino de Filosofia no Ensino Mdio, em Minas Gerais, nos ltimos anos.Trata-se de uma primeira proposta de Contedo Bsico Comum CBC para a rea de Filosofia, motivada pela Resoluo no.4 do CNE / CEB, de 16/08/21006, que determina a obrigatoriedade da disciplina Filosofia no Ensino Mdio. Esperamos que esta proposta seja aperfeioada pela prtica efetiva de sala de aula. Partimos de princpios estabelecidos pelos PCN (2002) e, sobretudo, pelas Orientaes Curriculares para o Ensino Mdio Cincias Humanas e suas Tecnologias: Ensino de Filosofia (2006), aos quais remetemos nossos leitores e leitoras. As indicaes aqui presentes no devem ser compreendidas como planos de aula que substituam as estratgias didticas de cada professor em particular. Pensamos que esses contedos s tero sentido se forem objeto de apropriaes didticas criativas, vivas e adequadas s realidades singulares das salas de aulas.</p> <p>2. Para que Filosofia? Desde os anos 70 do sculo passado que, em Minas Gerais, se discute a volta da disciplina Filosofia ao Ensino Mdio. Durante os anos 60, com o impacto da ideologia da cultura tecnicista, de influncia norte-americana, a educao humanista, dita clssica, sofreu grande abalo. O ensino de Filosofia, assim como o do Latim, por exemplo, acabou cedendo formao cientfica, que passou a significar uma suposta modernizao e adequao s novas demandas da realidade econmica do pas. Pode-se dizer que o modelo de educao at ento vigente entre as elites</p> <p>6</p> <p>brasileiras teve que confrontar-se com uma progressiva massificao da cultura, na qual surge a exigncia legtima de progressiva democratizao. Em Belo Horizonte, no incio dos anos '70, tanto no ensino pblico (federal e estadual), como em algumas escolas particulares, j se experimentava com novos formatos para a Filosofia no curso "cientfico". Nestes ltimos 30 anos, a prtica do ensino de Filosofia e a reflexo sobre suas condies de realizao amadureceram e geraram debates tericos vitais, que ns, educadores, devemos assumir, ao mesmo tempo, como desafios e estmulos. Dentre eles, vale mencionar, a oposio entre o qualitativo e o quantitativo em educao, o conflito entre contedos e competncias, a tenso entre profissionalizao e formao para a vida, entre elitizao e massificao, a necessidade de se optar entre generalidades e a especificidade dos conhecimentos, etc. Certamente so problemas que merecem uma preciso adicional e, como sempre no campo da Filosofia, vale a pena pens-los de frente para termos a experincia concreta de sua relevncia. O ensino de Filosofia, pensado agora no contexto fortemente pragmtico do treinamento profissionalizante, se v paradoxalmente obrigado a renovar-se, o que no necessariamente ruim, uma vez que, como sabemos, o filosofar sempre alimenta-se de sua negao. Ensinar Filosofia, no final do sc. XX e comeos do sculo XXI, passa a significar formao crtica e torna-se um elemento decisivo na redescoberta da educao para a cidadania (recuperando o cerne movimento socrtico-sofstico da Atenas do sc. V a.C.). A Filosofia enquanto paidea se ope ao positivismo to disseminado na cultura brasileira e se renova com a pesquisa em Histria da Filosofia, nos principais curricula de graduao das universidades. A questo da utilidade da Filosofia to antiga quanto estrutural. Pensamos que cada gerao de professores deve estar preparada para responder a esta pergunta de modo srio e vigoroso: para que serve a Filosofia? Seja nos anos 70 do sc. XX, no Ministrio da Educao em Braslia, seja no incio do sc. V a.C., na gora da antiga Atenas, a mesma questo retomada obstinadamente, ou seja, a pretenso filosfica ao saber tem que legitimar sua insero na cidade, perante os saberes tcnicos e utilitrios que predominam na mentalidade operante da construo material da vida comum, assim como da racionalidade eficaz da vida poltica e jurdica. Retomamos o tema pelo vis socrtico: a prtica do filosofar vale no s pelo bem em si que ela significa, mas tambm pelos resultados que proporciona (Repblica II). A Filosofia til</p> <p>7</p> <p>e sua utilidade decorre do seu efeito pedaggico e de sua fora educadora, necessria para a humanizao do ser humano, necessria para que se possa construir uma conscincia autnoma, um estado de direito, em suma, uma cidade justa. No h nenhuma razo para perpetuarmos a imagem derivada de uma leitura rpida da Metafsica de Aristteles, segundo a qual o filsofo seria um indivduo totalmente desinteressado, que estaria acima das solicitaes do interesse e do desejo humanos. No devemos e nem precisamos contrapor Filosofia e vida prtica interessada. Na verdade, os antigos gregos nos ensinaram que a racionalidade simultaneamente prtica e terica; e se a prtica racional o domnio dos fins, da busca e realizao dos valores, no faz sentido idealizarmos de maneira abstrata e irrealista uma atividade to decisivamente humana, como se ela fosse suprflua e intil, ou seja, como se ela no tivesse conseqncias para a vida. Para decidirmos da suposta inutilidade da Filosofia preciso que se estabelea o que entendemos por til. Se pensarmos num plano bastante elementar, do instrumento mecnico, que til exclusivamente pelo resultado imediato que proporciona (como usar um martelo para pregar um prego, por exemplo), podemos e devemos, com certeza, reconhecer a inutilidade da Filosofia. Ela certamente no um instrumento neutro, sem nenhum sentido ou interesse nele mesmo. Mas se elaborarmos um pouco mais e pensarmos numa perspectiva axiolgica, de reflexo sobre os valores (ticos, estticos, culturais, entre outros), devemos reconhecer a profunda utilidade da Filosofia. Nessa perspectiva, a utilidade se transforma em relevncia cultural, papel pedaggico, formao humanstica, fator determinante na instaurao de valores culturais, elemento construtor da cidadania, etc. O pensar filosfico uma modalidade do desejo (que os gregos chamavam de ros) e, enquanto tal, pode e deve ser a expresso de aspiraes humanas legtimas, marcadas por interesses variados, em diversos nveis. Na perspectiva contempornea, no podemos mais simplesmente opor afetividade e pensamento reflexivo, emoo e inteligncia; sabemos que o trabalho do pensamento filosfico se enraza nas estruturas da afetividade humana e se desenvolve junto com elas. Nessa medida, exercer o pensamento filosfico de maneira viva e autntica da maior utilidade para os seres humanos. A Filosofia pode propiciar crescimento pessoal e psquico, em termos de uma maior capacidade de auto-compreenso e expresso e, ainda, levar ao desenvolvimento de uma conscincia crtica e autnoma. Enquanto debate</p> <p>8</p> <p>racional, ela certamente proporciona crescimento cvico, respeito pelo outro e pela diferena que representa. Com relao especificidade do ensino da Filosofia, pensamos, ainda, nas habilidades cognitivas, reflexivas e crticas que ele desenvolve no indivduo. Habilidades que, talvez, pudessem ser adquiridas atravs de outras disciplinas, mas que, na verdade, devem ser concebidas num vis propriamente filosfico. O amadurecimento da formao nas universidades demonstra que h um modo filosfico prprio de conceber essas habilidades. preciso estarmos atentos s interfaces, mas tambm s diferenas que delineiam a especificidade da Filosofia por oposio tanto Psicologia como Histria, por exemplo. Nesse sentido, pensamos que fundamental que se tente construir as habilidades na convivncia com a histria dos problemas consagrados pela tradio como sendo filosficos. Dentro da perspectiva histrico-cultural prpria da Filosofia ocidental, o filosofar um modo de viver e um fazer que, a nosso ver, deve incluir as seguintes atitudes: Perceber - A atitude filosfica implica em saber acolher e detectar questes no plano do vivido, na cultura; preciso ser sensvel aos acontecimentos, saber discernir diferenas. Trata-se de uma sensibilidade inteligente (ou de uma inteligncia sensvel). No basta erudio ou acmulo de conhecimentos, preciso acuidade de percepo, um discernimento que se experimenta e que aprende com a experincia. Filosofar implica sempre numa atitude interpretativa, numa capacidade de leitura, tanto de textos convencionalmente filosficos, como de outros textos (objetos, obras de arte, acontecimentos, imagens, eventos e produtos culturais diversos). O perceber filosfico um modo de estar no mundo, de se ver e ouvir o outro, de captar e decifrar signos, um modo que no parte de uma suposio de saber, mas que uma aspirao (filo-) que se orienta por uma exigncia de significao (-sophia). Problematizar A Filosofia, em geral, caracteriza-se por sua atitude de questionamento do imediatamente dado, de desconfiana das aparncias e de dvida a respeito do bvio. Pensar filosoficamente significa questionar, confrontar problemas. Ningum pensa de graa, ns s pensamos autenticamente se tivermos que enfrentar obstculos: em Filosofia, o impasse condio para a passagem. Refletir Mas, em ltima anlise, no basta pensar; preciso exercer um pensar que envolva o sujeito, que volte-se sobre aquele que pensa. Nesse sentido, o pensar filosfico parte do sujeito, encontra-se com o objeto e volta-se novamente sobre o sujeito; esse percurso</p> <p>9</p> <p>reflexivo, portanto, prprio de uma tomada de conscincia que vem a posteriori, de um saber crepuscular ou que acontece no depois. Nesse sentido, o pensar filosfico especular, implicao do sujeito no problema a ser pensado. Conceituar - J desde os antigos, pensar filosoficamente implica em ser poeta, no sentido grego da palavra, ou seja, implica em fabricar, produzir, criar palavras e conceitos; ser capaz de sintetizar a experincia, uma multiplicidade vivida, na direo de uma unificao conceitual. Essa capacidade sinttica significa pensar de modo criativo, percebendo e produzindo cultura, inteligncia e pensamento. Argumentar A capacidade de argumentar uma habilidade igualmente essencial: o filsofo tem que ser capaz de defender uma posio, atacar ou criticar outras, ou seja, preciso que ele saiba sustentar com razes a posio que adota; trata-se de justificar coerentemente o conhecimento que se pretende ter; filosofar implica, sempre, em dar razes de si mesmo e de suas tomadas de posio, para si e para o outro, isso o que lhe confere sua dignidade.</p> <p>3. Diretrizes para o Ensino de Filosofia As Orientaes Curriculares para o Ensino de Filosofia chamam a ateno para o papel peculiar da filosofia no desenvolvimento da competncia geral da fala, leitura e escrita (p.26), que esto profundamente vinculadas natureza argumentativa da disciplina e contribuem para o desenvolvimento de um pensamento autnomo e crtico. Para desenvolver essas competncias de uma maneira especificamente filosfica, preciso lembrar que o diferencial do ensino da disciplina Filosofia est em sua referncia Histria da Filosofia ou, em outras palavras, tradio filosfica o que obviamente exige um professor formado no contato com esses contedos, notadamente no contato com o texto filosfico. Quando afirmamos que a Histria da Filosofia e o texto filosfico devem ter um papel central no ensino da Filosofia, no queremos dizer que outros tipos de texto ou material no possam ser usados como recursos didticos. Pelo contrrio, textos cientficos e literrios, filmes, obras de arte e mesmo acontecimentos podem e devem estar presentes na sala de aula, no apenas como elementos motivadores, mas tambm como objetos de uma genuna leitura filosfica. Queremos afirmar apenas que a especificidade da Filosofia est no trabalho com</p> <p>10</p> <p>conceitos e que o lugar por excelncia da exposio e explicitao de conceitos o texto filosfico. Este deve, portanto, estar presente no apenas na formao do professor, mas tambm na sala de aula do Ensino Mdio. Neste ponto, preciso desfazer dois preconceitos: - A filosofia abstrata demais, difcil demais. Seu conhecimento no pode ser exigido de um adolescente ao final do Ensino Mdio. - A filosofia no suficientemente rigorosa para ser exigida como um conhecimento especfico. Qualquer pensamento j filosfico; por isso, no h necessidade de se abordar diretamente textos mais complexos. Ora, a presente proposta pretende opor-se a esses dois preconceitos, levando em conta uma situao de fato, que j foi demonstrada na prtica de sala de aula, ou seja, que possvel e necessrio introduzir temas e textos filosficos no Ensino Mdio. Sem a pretenso de esgotar esses temas e textos em toda sua complexidade, a idia apresentar ao aluno um novo campo de conhecimento. Deve-se, evidentemente, selecionar textos e materiais mais adequados ao Ensino Mdio, que suscitem o interesse e provoquem o desejo de aprofundamento cada vez maior. Por outro lado, existe um rigor prprio da Filosofia que se consolidou historicamente atravs do trabalho argumentativo de pensadores consagrados, que desenvolveram um aparato conceitual, ao qual podemos recorrer como instrumento para anlise dos problemas e questes atuais. Isto nos leva a um objetivo importante do ensino da Filosofia: a ampliao do horizonte cultural do estudante, que tomar conhecimento de um aspecto fundamental da tradio ocidental, qual seja, do legado dos grandes pensadores. Aqui, informao e formao se aliam, pois o ensino deve ser feito de modo a que o estudante posicione-se "diante dos conhecimentos que lhe so apresentados, estabelecendo uma ativa relao com eles e no somente apreendendo contedos. [A Filosofia] no pode ser um conjunto sem sentido de opinies, um sem-nmero de sistemas desconexos a serem guardados na cabea do aluno que acabe por desencoraj-lo de ter idias prprias. Os conhecimentos de Filosofia devem ser para ele vivos e adquiridos como apoio para a vida, pois do contrrio dificilmente teriam sentido para um jovem nesta fase de formao". (p.28)</p> <p>11</p> <p>A tradio filosfica tem, portanto, que estar presente no currculo, de modo a garantir a especificidade disciplinar da Filosofia; ela deve, tambm, ser objeto de uma apropriao criativa, de modo a garantir que o ensino da Filosofia seja propriamente filosfico. Estamos convencidos de que um meio de faz-lo abordar a tradio como um...</p>