blanchot, maurice o livro por vir

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  • A Iitera/lIra comea com a escn'ta

    vir

    ~-----=~==~--~~~----------==----~~----------

  • L,', 'b::;:. ,Co\e~s LIDA. N F 2.11 O-::r-Fo~', Jfq!6::=rdr-e. Ccx-C, t 69

    Pl~ E4Ao ~q ,~O.O+-

    ~' 4~

  • Esta obra foi publicada originalmente em francs com o titulo LE LIVRE VENIR por Callimard, Paris.

    Copyright ditions Gallimard. 1959. Copyright 2005, Livraria Martins Fontes Editora Lida.,

    So Pau/o, para a prl'Sl'nte edi~.

    l' edio 2005

    Traduo LEYLA PERRONE,M01SS

    Acompanhamento editorial Maria Fernanda A/vares

    ndice de autores e de obras Andra Slahel M. da Silva Preparao do original Maria Fernanda Alvares

    Revises grficas Maria Regina Ribeiro Machado Ana Maria de O. M. Barbosa Dinarle Zorzanelli da Silva

    Produo grfica Cem Ido Alves

    PaginaolFotolitos Studio 3 Desenvolvimento Editorial

    Dados Internacionais de Catalogao na Publica~o (CIP) (Cmara Brasileira do Livro, Sp, Brasil)

    BIancho!, Maurice O livro por vir I Maurke Blanchot ; traduo Leyla Per-

    rone-Moiss. - So Paulo: Martins Fontes, 2005. - (Tpicos) Ttulo original: Le Livre venir ISBN 85-336-2219-8

    1. Crtica literria 2. Literatura - Filosofia 3. Literatura mo-derna - Sculo 20 - Histria e crtica I. TItulo. 11. Srie.

    05-7678 COO-809.04 ndices para catlogo sistemtico;

    1. Literatura: Sculo 20 : Histria e crtica 809.04

    Todos os direitos desta edio para o Brasil reservados Livraria Martins Fontes Editora Ltda.

    Rua Conselheiro Ramalho, 330 01325-000 So Paulo SP Brasil Tel. (11) 3241.3677 Fax (11) 3101.1042

    e-mail: info@martinsfontes.com.br http://www.martinsfontes.com.br

    NDICE

    I. O CANTO DAS SEREIAS

    I. O encontro do imaginrio ............................... . lI. A experincia de Proust... .............................. ..

    1. O segredo da escrita 2. A espantosa pacincia

    11. A QUESTO LITERRIA I. "No haver chance de acabar bem"

    11. Artaud IJI. Rousseau ........................................................... . N. Joubert e o espao

    1. Autor sem livro, escritor sem escrito .......... . 2. Uma primeira verso de Mallarm ............. .

    V. Claudel e o infinito VI. A palavra proftica

    VII. O segredo do Colem VIII. O infinito literrio: o Aleph ............................ .

    IX. O malogro do demnio: a vocao

    3 14 14 24

    37 47 57 69 69 79 94

    113 125 136 141

    I,

  • !lI. DE UMA ARTE SEM FUTURO

    I. No extremo ................................. :...................... 155 rrBro~ ............................................................. 161

    1. Os sonmbulos: a vertigem lgica................. 161 2. A morte de Virgz1io: a busca da unidade ....... 169

    III. A volta do parafuso ............................................. 184 IV Musil.................................................................. 196

    1. A paixo da indiferena ................................ 196 2. A experincia do "outro estado" ........ ... ...... 206

    V. A dor do dilogo .................. ............................. 221 VI. A claridade romanesca .... ...... ........................... 234

    VII. H.H. ................................................................... 243 1. A busca de si mesmo ....... ...... ............... ... ..... 243 2. O jogo dos jogos ............................... ... ... ... ... 256

    VIII. O dirio ntimo e a narrativa ........................... 270 IX. A narrativa e o escndalo ............... 279

    NOTA PRESENTE EDIO

    No desejando sobrecarregar o belo e denso texto de Maurice Blanchot com notas da tradutora, inclumos por extenso o nome dos escritores e crticos citados pelo en-sasta e apresentamos, no fim do livro, um ndice de Au-tores e um ndice de Obras por ele referidos.

    IV. PARA ONDE VAI A LITERATURA? L.P.-M.

    I. O desaparecimento da literatura ......... ... ... ... ... 285 lI. A busca do ponto zero .................. ... ... ............. 296

    !lI. "Onde agora? Quem agora?" .......................... 308 IV. Morte do ltimo escritor .................................. 319 V. O livro por vir .................................................... 327

    1. Ecce liber ......................................................... 327 2. Um novo entendimento do espao literrio. 343

    VI. O poder e a glria ............................................. 360

    ndice de autores .......................................................... 371 indice de obras ............ ..... 381

  • Maurice Blanchot, romancista e crtico, nasceu em 1907. Sua vida foi inteiramente

    dedicada literatura e ao silncio que lhe prprio.

  • CAPTULO I O ENCONTRO DO IMAGINRIO

    As Sereias: consta que elas cantavam, mas de uma maneira que no satisfazia, que apenas dava a entender em que direo se abriam as verdadeiras fontes e a verda ~ deira felicidade do canto. Entretanto, por seus cantos im~ perfeitos, que no passavam de um canto ainda por vir, conduziam o navegante em direo quele espao onde o cantar comeava de fato. Elas no o enganavam, portan ~ to, levavam~no realmente ao objetivo. Mas, tendo atingi~ do o objetivo, o que acontecia? O que era esse lugar? Era aquele onde s se podia desaparecer, porque a msica, naquela regio de fonte e origem, tinha tambm desapa~ recido, mais completamente do que em qualquer outro lu ~ gar do mundo; mar onde, com orelhas tapadas, soobravam os vivos e onde as Sereias, como prova de sua boa von ~ tade, acabaram desaparecendo elas mesmas.

    De que natureza era o canto das Sereias? Em que con~ sistia seu defeito? Por que esse defeito o tornava to po~ deroso? Alguns responderam: era um canto inumano - um rudo natural, sem dvida (existem outros?), mas mar~ gem da natureza, de qualquer modo estranho ao homem,

  • 4 o LIVRO POR VIR

    muito baixo e despertando, nele, o prazer extremo de cair, que no pode ser satisfeito nas condies normais da vida. Mas, dizem outros, mais estranho era o encantamento: ele apenas reproduzia o canto habitual dos homens, e por-que as Sereias, que eram apenas animais, lindas em razo do reflexo da beleza feminina, podiam cantar como can-tam os homens, tomavam o canto to inslito que faziam nascer, naquele que o ouvia, a suspeita da inumanidade de todo canto humano. Teria sido ento por desespero que morreram os homens apaixonados por seu prprio can-to? Por um desespero muito prximo do deslumbramento. Havia algo de maravilhoso naquele canto real, canto co-mum, secreto, canto simples e cotidiano, que os fazia re-conhecer de repente, cantado irrealmente por potncias estranhas e, por assim dizer, imaginrias, o canto do abis-mo que, uma vez ouvido, abria em cada fala uma voragem e convidava fortemente a nela desaparecer.

    No devemos esquecer que esse canto se destinava a navegadores, homens do risco e do movimento ousado, e era tambm ele uma navegao: era uma distncia, e o que revelava era a possibilidade de percorrer essa distn-cia' de fazer, do canto, o movimento em direo ao can-to, e desse movimento, a expresso do maior desejo. Es-tranha navegao, mas em busca de que objetivo? Sempre foi possvel pensar que todos aqueles que dele se apro-ximaram apenas chegaram perto, e morreram por impa-cincia, por haver prematuramente afirmado: aqui; aqui lanarei ncora. Segundo outros, era, pelo contrrio, tarde demais: o objetivo havia sido sempre ultrapassado; o en-cantamento' por uma promessa enigmtica, expunha os homens a serem infiis a eles mesmos, a seu canto huma-no e at essncia do canto, despertando a esperana e o desejo de um alm maravilhoso, e esse alm s repre-

    o CANTO DAS SEREIAS 5

    sentava um deserto, como se a regio-me da msica fosse o nico lugar totalmente privado de msica, um lu-gar de aridez e secura onde o silncio, como o rudo, bar-rasse, naquele que havia tido aquela disposio, toda via de acesso ao canto. Havia, pois, um princpio malvolo naquele convite s profundezas? Seriam as Sereias, como habitualmente nos fazem crer, apenas vozes falsas que no deviam ser ouvidas, o engano e a seduo aos quais somente resistiam os seres desleais e astutos?

    Houve sempre, entre os homens, um esforo pouco nobre para desacreditar as Sereias, acusando-as simples-mente de mentira: mentirosas quando cantavam, engana-doras quando suspiravam, fictcias quando eram tocadas; em suma, inexistentes, de uma inexistncia pueril que o bom senso de Ulisses suficiente para exterminar.

    verdade, Ulisses as venceu, mas de que maneira? Ulisses, a teimosia e a prudncia de Ulisses, a perfdia que lhe permitiu gozar do espetculo das Sereias sem correr risco e sem aceitar as conseqncias, aquele gozo covar-de, medocre, tranqilo e comedido, como convm a um grego da decadncia, que nunca mereceu ser o heri da Ilada, aquela covardia feliz e segura, alis fundada num privilgio que o coloca fora da condio comum, j que os outros no tiveram direito felicidade da elite, mas so-mente ao prazer de ver seu chefe se contorcer de modo ridculo, com caretas de xtase no vazio, direito tambm de dominar seu patro (nisso consiste, sem dvida, a li-o que ouviam, o verdadeiro canto das Sereias para eles): a atitude de Ulisses, a espantosa surdez de quem sur-do porque ouve, bastou para comunicar s Sereias um de-sespero at ento reservado aos homens, e para fazer delas, por desespero, belas moas reais, uma nica vez reais e dignas de suas promessas, capazes pois de desaparecer na verdade e na profundeza de seu canto.

  • 6 o LIVRO POR VIR

    Vencidas as Sereias, pelo poder da tcnica, que pre-tender sempre jogar sem perigo com as potncias irreais (inspiradas), Ulisses no saiu porm ileso .. Elas o atra-ram para onde ele no queria cair e, escondidas no seio da Odissia, que foi seu tmulo, elas o empenharam, ele e muitos outros, naquela navegao feliz, infeliz, que a da narrat