bergson, henri. a intuição filosófica

Author: rita-iglezias

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  • 7/26/2019 BERGSON, Henri. a Intuio Filosfica

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    Conferncia pr onu nci ada no Co ngresso Filosf ico

    de Bolonha cm 10 d e abr i l de 1911

    CAPTULO IV

    A INTUIO FILOSFICA

    Gostaria de lhes submeter algumas reflexes sobreo esprito filosfico. Parece-m e - e mais de um trabalhoapresentado nesse Con gresso o atesta - que nesse mo mento a metafsica procura simplificar-se, aproximar-semais da vida. Creio que ela est certa e que nesse sentido que devemos trabalhar. Mas considero que, assimprocedendo, nada faremos de revolucionrio; limitar-nos-emos a dar a forma mais apropriada quilo que o fundo de toda filosofia - quero dizer, de toda filosofia quetem plena conscincia de sua funo e dc sua desti nao.Pois a complicao da letra no deve fazer perder de vis

    ta a simplicidade do esprito. Atendo-nos s doutrinasquando j formuladas, sntese na qual parecem entoabarcar as concluses das filosofias anteriores e o conju nto dos conhecimentos conquistados, corremos o risco deno mais perceber aquilo que h de essencialmente espontneo no pensamento filosfico.

    H uma observao que deve ter sido feita por todosaqueles dentre ns que ensinam a histria da filosofia,por todos aqueles que tiveram o casio de voltar freqen-

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    temente ao estudo das mesmas doutrinas e levar assimcada vez mais longe seu aprofundamento. De incio, umsistema filosfico parece erguer-se como um edifcio completo, de uma arquitetura engenhosa, no qual as medidas foram tomadas para que nele possamos alojar de for

    ma cmoda todos os problemas. Experimentamos, ao con templ-lo sob essa forma, uma alegria esttica reforadapor uma satisfao profissional. Com efeito, no apenasencontramos aqui a ordem na complicao (uma ordemque, por vezes, nos divertimos em completar ao descrev-la), mas temos tambm o contentamento dc pensarque sabemos de onde provm os materiais e de que modoa construo foi feita. Nos problemas que o filsofo ps,reconhecemos as questes que se agitavam sua volta.Nas solues que lhes fornece, acreditamos reencontrar,

    arranjados ou desarranjados, mas quase que no modificados, os elementos das filosofias anteriores ou contemporneas. Tal determinada viso deve ter-lhe sido fornecida por este, tal outra lhe foi sugerida por aquele. Comaquilo que ele leu, ouviu, aprendeu, poderamos sem dvida recompor a maior parte daquilo que ele fez. Pomo-nos, portanto, a trabalhar, voltamos s fontes, pesamosas influncias, extramos as similitudes e acabamos porver distintamente na doutrina aquilo que nela procurvamos: uma sntese mais ou menos original das idias cmmeio s quais o filsofo viveu.

    Mas um contato freqentemente renovado com opensamento do mestre pode nos levar, por uma impregnao gradual, a um sentimento inteiramente diferente.No digo que o trabalho de comparao ao qual nos havamos entregue de incio tenha sido perda de tempo: semesse esforo prvio para recompor uma filosofia com aquilo que no ela e para lig-la quilo que havia sua vol

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    ta, talvez nunca atingssemos o que ela e verdadeiramente; pois o esprito humano feito dc tal modo que scomea a compreender o novo quando j tentou tudopara reconduzi-lo ao antigo. Mas, medida que procuramos nos instalar no pensamento do filsofo ao invs

    de dar-lhe a volta, vemos sua doutrina transfigurar-se. Pr imeiro, a complicao diminui. Depois, as partes entramumas nas outras. Por fim, tudo se contrai num nicoponto, do qual sentimos que nos poderamos aproximarcada vez mais, ainda que devamos perder as esperanasde atingi-lo.

    Nesse ponto, encontra-se algo simples, infinitamente simples, to extraordinariamente simples que o filsofo nunca conseguiu diz-lo. E por isso que falou portoda a sua vida. No podia formular o que tinha no es

    prito sem se sentir obrigado a corrigir sua formulao e,depois, a corrigir sua correo: assim, de teoria em teoria, retificando-se quando acreditava completar-se, o queele fez, por meio de uma complicao que convocava acomplicao e por meio de desenvolvimentos justapostos a desenvolvimentos, foi apenas restituir com umaaproximao crescente a simplicidade dc sua intuio original. Toda a complexidade de sua doutrina, que pode irao infinito, no portanto mais que a incomensurabili-dade entre sua intuio simples e os meios de que dispunha para exprimi-la.

    Qual essa intuio? Se o filsofo no pde formul-la, no seremos ns que o conseguiremos. Mas o queconseguiremos recuperar e fixar uma certa imagem intermediria entre a simplicidade da intuio concreta e acomplexidade das abstraes que a traduzem, imagem fugidia e evanescente que assombra, despercebida talvez,o esprito do filsofo, que o segue como se fosse sua som

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    bra atravs de todas as voltas e reviravoltas de seu pens amento e que, se no a prpria intuio, dela se aproximabem mais que a expresso conceituai, necessa riamentesimblica, qual a intuio deve recorrer para fornecer"explicaes". Olhemos bem essa sombra: adivinhare

    mos a atitude do corpo que a projeta. E se nos esforarmosno sentido de imitar essa atitude, ou antes, de nela nosinserirmos, iremos rever, na medida do possvel, aquiloque o filsofo viu.

    O que caracteriza primeiro essa imagem a potncia de negao que traz em si. Vocs se lembram comoprocedia o demnio de Scrates: antes bloqueava a vontade do filsofo em um dado momento e o impedia deagir do que prescrevia o que lhe cabia fazer. Parece-meque a intuio freqentemente se comporta, em matria

    especulativa, como o demnio de Scrates na vida prtica; e pelo menos sob essa forma que principia, sob essaforma tambm que continua a dar suas manifestaes asmais ntidas: ela probe. Diante de idias correntementeaceitas, de teses que parecem evidentes, de afirmaesque haviam passado at ento por cientficas, assopra noouvido do filsofo a palavra: Impossvel. Impossvel, ainda mesmo que os fatos e as razes paream te convidara crer que isso seja possvel e real e certo. Impossvel,

    porque uma certa experincia, confusa, talvez, mas decisiva, fala contigo atravs de minha voz, e diz que ela incompatvel com os fatos que se alegam e as razes queso dadas, e que, desde ento, esses fatos devem ter sidomal observados, esses raciocnios devem ser falsos. Fora singular, essa potncia intuitiva de negao! Como foipossvel que no atrasse mais a ateno dos historiadores da filosofia? Acaso no visvel que a primeira man obra do filsofo, quando seu pensam ento ainda est pou

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    co seguro e nada h de definitivo em sua doutrina, consiste em rejeitar certas coisas definitivamente? Mais tarde, poder variar naquilo que afirmar; no variar muitonaquilo que nega. E se varia naquilo que afirma, serainda em virtude da potncia de negao imanente in

    tuio ou sua imagem. Ter-se- deixado ir preguiosamente na deduo de conseqncias segundo as regrasde uma lgica retilnea; e eis que, de repente, diante desua prpria afirmao, experimenta o m esmo sentimentode impossibilidade que de Incio lhe havia advindo diante da afirmao de outrem. Com efeito, tendo deixado acurva de seu pensamento para seguir reto pela tangente,tornou-se exterior a si mesmo.Volta para dentro de si quando volta intuio. Dessas sadas e desses retornos so feitos os ziguezagues de uma doutrina que "se desenvolve",isto , que se perde, se reencontra e se corrige indefinidamente a si mesma.

    Libertemo-nos dessa complicao, remontemos paraa intuio simples ou pelo menos para a imagem que atraduz: ao faze-lo, vemos a doutrina libertar-se das condies de tempo e de lugar das quais parecia depender.Sem dvida, os problemas dos quais o filsofo se ocupouso os problemas que se punham em seu tempo; a cincia que utilizou ou criticou era a cincia de seu tempo;

    nas teorias que expe, poderemos at mesmo reencontrar, se ali as procurarmos, as idias de seus contemporneos e de seus precursores. Como poderia ser de outraforma? Para fazer compreender o novo, por fora h queexprimi-lo em funo do antigo; e os problemas j postos, as solues que lhes haviam sido fornecidas, a filosofia e a cincia do tempo no qual ele viveu, foram, paracada grande pensador, a matria que ele era obrigado autilizar para dar uma forma concreta a seu pensamento.

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    Sem contar que tradicional, desde a antiguidade, apresentar toda filosofia como um sistema completo, queabarca tudo aquilo que se conhece. Mas seria enganar-seextraordinariamente tomar por um elemento constitutivo da doutrina o que fora apenas seu meio de expresso.

    Tal o primeiro erro ao qual nos expomos, como eu dizia agora h pouco, quando abordamos o estudo de umsistema. Tantas sem elhanas parciais nos impressionam,tantas aproximaes nos parecem impor-se, apelos tonumerosos, to prementes, so lanados de todas as partes nossa engenhosidade e nossa erudio que somostentados a recompor o pensamento do mestre com fragmentos de idias tomadas aqui e ali, custa de louv-lodepois por ter sabido executar - como ns m esmos acabamos de nos mostrar capazes de faz-lo - um belo tra

    balho de mosaico . Mas a iluso no dura muito, pois rapidamente percebemos que o filsofo, ali mesmo ondeparece repetir coisas j ditas, as pensa sua maneira. Renunciamos ento a recompor, mas para cair, o mais dasvezes, numa nova iluso, menos grave, som dvida, doque a primeira, mas mais tenaz do que ela. De bom grado nos figuramos a doutrina - mesmo que seja a de ummestre - como descendente das filosofias anteriores ecomo representando "um momento de uma evoluo".Decerto, no estamos inteiramente enganados, pois umafilosofia se assemelha antes a um organismo do que aum agregado e ainda melhor falar aqui de evoluo doque de composio. Mas essa nova comparao, alm dofato de atribuir histria do pensamento mais continuidade do que nela se encontra de fato, tem o inconveniente de manter nossa ateno voltada para a complicao exterior do sistema e para aquilo que ele pode terde previsvel em sua forma superficial, ao invs de nos

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    convidar a um contato direto com a novidade e a simplicidade de seu fundo. Um filsofo digno desse nomenunca disse mais que uma nica coisa: e, mesmo assim,antes procurou diz-la do que a disse verdadeiramente.E disse apenas uma nica coisa porque soube apenas um

    nico ponto: e mesmo assim foi menos uma viso doque um contato; esse contato forneceu um mpeto, essempeto um movimento, e, embora esse movimento, que como um certo turbilhonamento de uma certa formaparticular, s se torne visvel aos nossos olhos por meiodaquilo que ele apanhou pelo seu caminho, nem por isso menos verdade que outras poeiras bem que poderiamter sido levantadas e teria sido ainda assim o mesmo tur

    bilho. De sse modo, um pen sam ento que traz algo denovo para o mundo por fora h de se manifestar atravs das idias j prontas que encontra sua frente e arrasta em seu movimento; aparece assim como relativo poca em que o filsofo viveu: mas o mais das vezes isso apenas uma aparncia. O filsofo poderia ter vindo vrios sculos antes; teria lidado com uma outra filosofia euma outra cincia; ter-se-ia posto outros problemas; ter-se-ia expresso por outras frmulas; nenhum captulo,talvez, dos livros que escreveu teria sido como ; e no entanto ele teria dito a mesma coisa.

    Permitam-me escolher um exemplo. Vou recorrer ssuas lembranas profissionais: irei evocar, se vocs mepermitirem, algumas das minhas. Professor no Collge deFrance, consagro um de meus dois cursos, todos os anos, histria da filosofia. Foi assim que pude, durante vriosanos consecutivos, praticar longamente em Berkeley, depois em Espinosa, a experincia que acabo de descrever.Deixarei de lado Espinosa: ele nos arrastaria longe demais. E no entanto no conheo nada mais instrutivo do

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    que o contraste entre a forma e o fundo de um livro comoa tica:de um lado essas coisas enormes que se chamama Substncia, o Atributo e o Modo, e o formidvel aparato dos teoremas com o emaranhado das definies, corolrios e esclios, e essa complicao de maquinrio e

    essa potncia de esmagamento que fazem com que oiniciante, na presena da tica, seja tomado de admirao e de terror como diante de um encouraado do tipoDreadnought; - do outro, algo sutil, muito leve e quaseareo, que foge quando nos aproximamos, mas que nopodemos olhar, nem mesmo de longe, sem nos tornarmos incapazes de nos prendermos a qualquer outra parte da obra, mesmo quilo que passa por capital, mesmo distino entre a Substncia e o Atributo, mesmo dualidade do Pensamento e da Extenso. ,, por trs dapesada massa dos conceitos aparentados ao cartesianis-mo e ao aristotelismo, a intuio que foi a de Espinosa,intuio que nenhuma frmula, por simples que seja, sersuficientemente simples para exprimir. Digamos, para noscontentar com uma aproximao, que o sentimento deuma coincidncia entre o ato pelo qual nosso esprito conhece perfeitamente a verdade e a operao pela qualDeus a engendra, a idia de que a "con vers o" dos Alexandrinos, quando se torna completa, passa a ser uma s

    c mesma coisa que sua "processo" e de que o homem,sado da divindade, quando consegue voltar para dentrodela, j no percebe mais seno um nico movimento alionde tinha visto de incio os dois movimentos inversosde ida e de volta - a experincia moral encarr egand o-seaqui de resolver uma contradio lgica e de fazer, poruma brusca supresso do Tempo, com que a volta seja umaida. Quanto mais remontamos para essa intuio original, tanto melhor compreendemos que, caso Espinosa ti

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    vesse vivido antes de Descartes, teria sem dvida escritoalgo diferente do que escreveu, mas que, Espinosa vivendo e escrevendo, teramos certeza de ter apesar de tudoo espinosismo.

    Passo a Berkeley e, j que ele que tomo como exem

    plo, vocs no me levaro a mal se eu o analisar em detalhe: a brevidade s se obteria aqui s expensas do rigor.Basta deitar um lance de olhos na obra de Berkeley parav-la resumir-se, como que por si mesma, em quatro teses fundamentais. A primeira, que define um certo idealismo e qual se vincula a nova teoria da viso (aindaque o filsofo tenha julgado prudente apresentar esta ltima como independente) formular-se-ia assim: "a matria um conjunto de idias". A segunda consiste empretender que as idias abstratas e gerais se reduzem apalavras: trata-se de nominalismo. A terceira afirma a realidade dos espritos e os caracteriza pela vontade: digamos que se trata de espiritualismo e de voluntarismo. Altima, por fim, que poderamos chamar de tesmo, pea existncia de Deus fundando-se principalmente naconsiderao da matria. Ora, nada seria mais fcil doque reencontrar essas quatro teses, formuladas em termos aproximadamente idnticos, nos contemporneosou nos predecessores de Berkeley. A ltima delas encon

    tra-se tambm nos telogos. A terceira estava em DunsScotus; Descartes disse algo do mesmo gnero. A segunda alimentou as controvrsias da idade mdia antes defazer parte integrante da filosofia de Hobbes. Quanto primeira, assemelha-se muito ao "ocasionalismo" de Ma-lebranche, do qual encontraramos a idia, e mesmo afrmula, j em alguns textos de Descartes; no se haviaesperado Descartes, alis, para notar que o sonho temtoda a aparncia da realidade e que no h nada, em ne

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    nhuma de nossas percepes tomadas em separado, quenos garanta a existncia de uma coisa exterior a ns. Assim, com filsofos j antigos ou mesmo, se no se quervoltar muito atrs, com Descartes e com Hobbcs, aosquais podemos acrescentar Locke, teremos os elemen tos

    necessrios para a reconstituio exterior da filosofia deBcrkeley; no mximo lhe ser deixada sua teoria da viso, que seria ento sua obra prpria e cuja originalidade, respingando sobre todo o resto, daria ao conjunto dadoutrina seu aspecto original. Tomemos ento essas fatias de filosofia antiga e moderna, ponhamo-las na mesma vasilha, acrescentemos, guisa de vinagre e de leo,uma certa impacincia agressiva para com o dogmatis-mo matemtico e o desejo, natural num bispo filsofo,de reconciliar a razo com a f, misturemos c mexamos

    conscienciosamente, salpiquemos no todo, como se fossem ervas finas, um certo nmero de aforismos colhidosnos neoplatnic os: teremos - com o perdo da expresso- uma salada que se assemelhar suficientemente, de longe, quilo que Bcrkeley fez.

    Pois bem, aquele que assim procedesse seria incapazdc penetrar no pensamento de Bcrkeley. No falo das dificuldades e das impossibilidades com as quais se defrontaria nas explicaes de detalhe: singular "nominalismo"este que desemboca em erigir um bom nmero de idiasgerais em essncias eternas, imanentes Inteligncia divina! Estranha negao da realidade dos corpos esta quese exprime por uma teoria positiva da natureza da matria, teoria fecunda, to afastada quanto possvel de umidealismo estril que assimilaria a percepo ao sonho!O que quero dizer que nos impossvel examinar comateno a filosofia de Berkeley sem ver, primeiro, se aproximarem, depois, se interpenetrarem as quatro teses que

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    nela distinguimos, de modo que cada uma delas parecetornar-se grvida das trs outras, ganhar relevo e profundidade e distinguir-se radicalmente das teorias anteriores ou contemporneas com as quais se podia fazercom que ela coincidisse na superfcie. Sem dvida, esse

    segundo ponto de vista, a partir do qual a doutrina aparece como um organismo e no mais como um agregado, ainda no o ponto de vista definitivo. Pelo menosest mais prximo da verdade. No posso entrar em todosos detalhes; cabe-me, no entanto, indicar, com relao auma ou duas, pelo menos, das quatro teses, conio se poderia extrair dela qualquer uma das outras.

    Tomemos o idealismo. Este no consiste apenas emdizer que os corpos so idias. Para que serviria isso?Foroso nos seria realmente continuar a afirmar acercade todas essas idias tudo aquilo que a experincia nosfaz afirmar acerca dos corpos, e teramos simplesmentesubstitudo uma palavra por outra; pois Berkeley certamente no pensa que a matria deixar de existir quando ele tiver deixado de viver. O que o idealismo dc Berkeley significa que a matria coextcnsiva nossa representao; que ela no tem interior, no tem avesso;que ela nada esconde, no encerra nada; que ela nopossui nem potncias nem virtualidades de espcie al

    guma; que ela est esparramada na superfcie e que ciaest inteira, em cada instante, naquilo que ela d. A palavra "idia" designa normalmente uma existncia dessegnero, quero dizer, uma existncia completamente realizada, cujo ser uma s e mesma coisa que o parecer, aopasso que a palavra "coisa" nos faz pensar numa realidade que seria ao mesmo tempo um reservatrio de possibilidades; por essa razo que Berkeley prefere chamaros corpos de idias a cham-las de coisas. Mas, se consi-

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    dramos assim o "idealismo", vemo-lo coincidir com o"nom inalismo"; pois essa segunda tese, medida que seafirma mais nitidamente no esprito do filsofo, restringe-se mais evidentemente negao das idias geraisabstratas - abstraias, isto , extradas da matria; claro

    est, com efeito, que no conseguiramos extrair algo daquilo que nada contm, nem, por conseguinte, fazer sairde uma percepo algo diferente dela. A cor sendo apenas cor, a resistncia sendo apenas resistncia, nunca encontraro nada de comum entre a resistncia e a cor,nunca extrairo dos dados da viso um elemento queseja comum a eles e aos do tato.,Mas, se voccs pretenderem abstrair destes e daqueles algo que lhes seja comuma todos, percebero, olhando essa coisa, que lidam comuma palavra: eis o nominalismo de Berkeley; mas eis, ao

    mesmo tempo, a "nova teoria da viso". Se uma extenso que fosse ao mesmo tempo visual e tctil apenasuma palavra, com mais forte razo o mesmo ocorre comuma extenso que envolvesse todos os sentidos ao mesmo tempo: eis novamente o nominalismo, mais eis tambm a refu tao da teoria cartesiana da matria. No falemos mais nem sequer de extenso; constatemos simplesmente que, dada a estrutura da linguagem, as duasexpresses "tenho essa percepo" e "essa percepoexiste" so sinnimas, mas que a segunda, ao introduzir

    a mesma palavra "existncia" na descrio de percepes inteiramente diferentes, convida-nos a crer que tmalgo em comum entre si e a imaginar que sua diversidade recobre uma unidade fundamental, a unidade de uma"substncia" que na realidade no mais que a palavraexistnciahipostasiada: vocs tm a todo o idealismo deBerkeley; e esse idealismo, como eu o dizia, uma s emesma coisa que seu nominalismo. - Passo agora, se vo

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    cs me permitirem, teoria de Deus e dos espritos. Seum corpo feito de "idias" ou, em outros termos, se ele inteiramente passivo e terminado, desprovido de poderes e de virtual idades, ele no poderia agir sobre ou tros corpos; e, desde ento, os movimentos dos corpos

    devem ser os efeitos de uma potncia ativa, que produziu esses corpos eles prprios e que, cm razo da ordemque o universo atesta, s pode ser uma causa inteligente. Se nos enganamos quando erigimos cm realidades,sob o nome de idias gerais, os nomes que demos a grupos de objetos ou de percepes mais ou menos artificialmente constitudos por ns no plano da matria, jno se passa o mesmo quando cremos descobrir, por trsdo plano no qual a matria se esparrama, as intenesdivinas: a idia geral que s existe na superfcie e que liga

    os corpos aos corpos sem dvida no mais que umapalavra; mas a idia geral que existe em profundidade,vinculando os corpos a Deus, ou antes, descendo deDeus para os corpos, uma realidade; e assim o nominalismo de Berkeley chama naturalmente por esse desenvolvimento da doutrina que encontramos no Siris e quese considerou equivocadamente como uma fantasia neo-platnica; em outros termos, o idealismo de Berkeley apenas um aspecto da teoria que pe Deus por trs detodas as manifestaes da matria. Por fim, se Deus im

    prime em cada um de ns percepes ou, como diz Berkeley, "id ias", o ser que recolhe essas percepes, ou an tes, que a elas se antecipa, o exato inverso de uma idia:e uma vontade, alis limitada incessantemente pela vontade divina. O ponto de encontro dessas duas vontades justamente aquilo que chamamos de matria. Se o per- pi passividade pura, opercipe re pura atividade. Esprito humano, matria, esprito divino tomam-se portan

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    to termos que s podem ser expressos um cm funo dooutro. E o espiritualismo de Berkeley v-se ele prprio noser mais que um aspecto de qualquer uma das trs outras teses.

    Assim, as diversas partes do sistema interpenctram-

    se, como num ser vivo. Mas, como eu o dizia de incio, oespetculo dessa penetrao recproca d-nos sem duvida uma idia mais justa do corpo da doutrina; no fazainda com que atinjamos sua alma.

    Dela nos aproximaremos se pudermos atingir a imagem me dia riam de que eu falava agora h pouco - umaimagem que quase matria pelo fato de ainda se deixarver e quase esprito pelo fato de no se deixar mais tocar -. fantasma que nos assombra enquanto giramos emtorno da doutrina e ao qual cabe que nos enderecemos

    para obter o sinal decisivo, a indicao da atitude a tomare do ponto para o qual olhar. A imagem mediadora que sedesenha no esprito do intrprete, medida que este avana no estudo da obra, ter ela existido outrora, tal e qual,no pensamento do mestre? Se no foi esta, foi algumaoutra, que podia pertencer a uma ordem de percepodiferente e no ter nenhuma semelhana material comela, mas que no entanto lhe eqivalia como se eqivalemduas tradues, em lnguas diferentes, do mesmo original.Talvez essas duas imagens, talvez mesmo outras imagens, novamente equivalentes, se tenham apresentadotodas juntas, seguindo o filsofo a passo e passo, em procisso, atravs das evolues de seu pensamento. Ou talvez no tenha ele percebido nenhuma, limitando-se a retomar diretamente contato, de longe em longe, com essacoisa ainda mais sutil que a prpria intuio; mas ento nos foroso, a ns intrpretes, restabelecer a imagem intermediria, sob pena de ter de falar da "intuio

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    original" como de um pensamento vago e do "espritoda doutrina" como de uma abstrao, ao passo que esseesprito aquilo que h de mais concreto e essa intuioaquilo que h de mais preciso no sistema.

    No caso de Berkeley, creio ver duas imagens dife

    rentes, e aquela que me impressiona mais no aquelada qual encontramos uma indicao completa no prprio Berkeley. Parece-me que Berkeley percebe a matriacomo uma delgada pelcula transparente situada entre ohomem e Deus. Permanece transparente enquanto os filsofos no se ocupam dela e, ento, Deus mostra-se atravs dela. Mas que os metafsicos nela toquem ou mesmoo senso comum na medida em que metafsico: imediatamente a pelcula se deslustra c se espessa, torna-se op aca e forma um anteparo, porque palavras tais como Su bs

    tncia, Fora, Extenso abstrata, etc. escorregam para trsdela, nela se depositam como uma camada de poeira enos impedem de perceber Deus por transparncia. A im agem mal indicada pelo prprio Berkeley, ainda que eletenha dito em todas as letras "que levantamos a poeira eque nos queixamos depois de no enxergar". Mas h umaoutra comparao, freqentemente evocada pelo filsofoe que no mais que a transposio auditiva da imagemvisual que acabo de descrever: a matria seria uma lngua em que Deus nos fala. As metafsicas da matria, es

    pessando cada uma das slabas, destacando-as, erigindo-as em entidades independentes, desviariam ento nossaateno do sentido para o som e nos impediriam de acompanhar a palavra divina. Mas, quer nos prendamos a uma,quer outra, nos dois casos lidamos com uma imagemsimples que cabe manter diante dos olhos, porque, se elano a intuio geradora da doutrina, dela deriva imediatamente e dela se aproxima mais do que qualquer uma

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    das teses tomadas separadamente, at mesmo mais doque sua combinao.

    Podemos ns recuperar essa intuio ela prpria? Stemos dois meios de expresso, o conceito e a imagem.H em conceitos que o sistema sc desenvolve; numa

    imagem que ele se contrai quando o rebatemos na direo da intuio da qual ele desce: mas se quisermos ultrapassar a imagem remontando mais alto que ela, necessariamente recairemos em conceitos e cm conceitosmais vagos, mais gerais ainda do que aqueles dos quaishavamos partido procura da imagem c da intuio. Reduzida a assumir essa forma, engarrafada ao sair de suafonte, a intuio original parecer portanto ser o que hde mais insosso e de mais frio no mundo: ser a prpria

    banal idade. Se dis ss sem os, por exem plo, que Berkeley

    considera a alma humana como parcialmente unida aDeus e parcialmente independente, que ele tem conscincia de si mesmo, a cada instante, enquanto uma atividade imperfeita que se juntaria a uma atividade maisalta caso no houvesse, interposto entre as duas, algoque a passividade absoluta, exprimiramos, da intuiooriginal de Berkeley, tudo aquilo que se pode traduzirimediatamente cm conceitos, c no entanto teramos algoto abstrato que seria aproximadamente vazio. Atenha-mo-n os a essas frmulas, uma vez que no podemos e n

    contrar coisa melhor, mas procuremos pr nelas um pouco de vida. Tomemos tudo o que o filsofo escreveu, faamos essas idias espalhadas subir de volta em direo imagem de onde haviam descido, ergamo-las, j encerradas na imagem, at frmula abstrata que ir se inflarcom a imagem e com as idias, aferremo-nos ento aessa frmula e vejamo-la, ela to simples, simplificar-seainda mais, tanto mais simples quanto maior for o n

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    mero dc coisas que tivermos empurrado nela, ergamo-nos por fim com ela, subamos em direo ao ponto noqual se contrairia em tenso tudo o que estava dado emextenso na doutrina: conseguiremos, desta vez, nos representar o modo pelo qual desse centro de fora, alis

    inacessvel, parte a impulso que d o el, isto , a prpria intuio. As quatro teses de Berkeley saram da,porque esse movimento encontrou em seu caminho asidias e os problemas que os contemporneos dc Berkeley levantavam. Noutros tempos, Berkeley teria certamente formulado outras teses; mas, o movimento sendoo mesmo, essas teses estariam situadas da mesma maneira umas com relao s outras; teriam tido a mesmarelao entre si, como as palavras novas de uma nova frase entre as quais continua a correr um sentido antigo; e

    teria sido a mesma filosofia.A relao entre uma filosofia e as filosofias anterio

    res e contemporneas no , portanto, aquilo que umacerta concepo da histria dos sistemas nos levaria a supor. O filsofo no toma as idias preexistentes para fundi-las numa sntese superior ou combin-las com umaiclia nova. Seria o mesmo que acreditar que, para falar,samos em busca de palavras que costuramos depoisumas s outras por meio de um pensamento. A verdade que, acima da palavra e acima da frase, h algo bem

    mais simples que uma frase e mesmo que uma palavra:o sentido, que menos uma coisa pensada do que ummovimento de pensamento, menos um movimento doque uma direo. E, assim como o mpeto conferido vida embrionria determina a diviso de uma clula primitiva em clulas que se dividem por sua vez at que oorganismo completo seja formado, assim tambm o movimento caracterstico de todo ato de pensamento leva

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    esse pensamento, por uma subdiviso crescente de simesmo, a esparramar-se cada vez mais nos planos sucessivos do esprito ate atingir o da palavra. Ali, ele se exprime por meio de uma frase, isto , por um grupo deelementos preexistentes; mas pode escolher quase que

    arbitrariamente os primeiros elementos do grupo, desdeque os outros lhes sejam complcmcntares: o mesmo pensamento traduz se igualmente bem em frases diversas,compostas de palavras inteiramente diferentes, desdeque essas palavras tenham entre si a mesma relao.,Tal o processo da palavra. E tal tambm a operao pelaqual se constitui uma filosofia. O filsofo no parte deidias preexistentes; pode-se no mximo dizer que a elaschega. E, quando o faz, a idia assim arrastada pelo movimento de seu esprito, animando-se de uma vida novacomo a palavra que recebe seu sentido da frase, no mais o que era fora do turbilho.

    Encontrar-se-ia uma relao de mesmo gnero entre um sistema filosfico e o conjunto dos conhecimentos cientficos da poca na qual o filsofo viveu. H umacerta concepo da filosofia que quer que todo o esforodo filsofo tenda a abarcar numa grande sntese os resultados das cincias particulares. Decerto, o filsofo foi

    por muito tempo aquele que possua a cincia universal;e mesmo hoje, quando a multiplicidade das cincias particulares, a diversidade e a complexidade dos mtodos, amassa enorme dos fatos coletados tornam impossvel aacumulao de todos os conhecimentos humanos numnico esprito, o filsofo permanece o homem da cinciauniversal no sentido de que, embora no possa mais saber tudo, no h nada que ele no deva estar em condies de aprender. Mas acaso se segue da que sua tarefa

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    seja apoderar-se da cincia feita, lev-la a graus crescentes de generalidade e encaminhar-se, de condensaoem condensao, para aquilo que se chamou de unificao do saber? Permitam-me achar estranho que seja emnome da cincia, por respeito cincia, que nos propo

    nham essa concepo da filosofia: no conheo nenhuma outra que seja mais ofensiva para a cincia ou maisinjuriosa para o cientista. Mas, qual! Eis um homem quepraticou longamente um certo mtodo cientfico e conquistou laboriosamente seus resultados e que vem nosdizer: "a experincia, auxiliada pelo raciocnio, conduzat esse ponto; o conhecimento cientfico comea aqui,termina ali; tais so minhas concluses"; e o filsofoteria o direito de lhe responder: "Muitssimo bem, entre

    gue-me isso, e voc ver o que eu consigo fazer! O conhecimento que voc me traz incompleto, eu o completarei. O que voc me apresenta desconexo, eu o unificarei.Com os mesmos materiais, uma vez que est subentendido que me a terei aos fatos que voc observou, com omesmo gnero de trabalho, uma vez que, como voc, devo me limitar a induzir e a deduzir, farei mais e melhordo que aquilo que voc fez." Estranha pretenso, na verdade! Como a profisso de filsofo poderia conferirquele que a exerce a capacidade dc avanar mais longe

    do que a cincia na mesma direo que ela? Que certoscientistas estejam mais inclinados que outros a ir emfrente c a generalizar seus resultados, mais inclinadostambm a voltar para trs e a criticar seus mtodos, que,nesse sentido particular da palavra, eles sejam ditos filsofos, que, alis, cada cincia possa e deva ter sua filosofia assim compreendida, sou o primeiro a admiti-lo. Masessa filosofia ainda cincia e aquele que a faz ainda cientista. No se trata mais, como h pouco, de erigir a

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    filosofia em sntese das cincias positivas c pretender,pela simples virtude do esprito filosfico, subir mais altoque a cincia na generalizao dos mesmos fatos.

    Uma tal concepo do papel do filsofo seria injuriosa para a cincia. Mas quo mais injuriosa ainda para

    a filosofia! No evidente que, se o cientista se detmem determinado ponto no caminho da generalizao eda sntese, que ali termina aquilo que a experincia objetiva e o raciocnio seguro nos per mitem avanar? E,desde ento, ao pretendermos ir mais longe na mesmadireo, no nos colocaramos sistematicamente no arbitrrio ou pelo menos no hipottico? Fazer da filosofiaum conjunto de generalidades que ultrapassa a generalizao cientfica querer que o filsofo se contente com

    o plausvel c que a probabilidade lhe baste. Bem sei que,para a maior parte daqueles que acompanham de longenossas discusses, nosso domnio com efeito o do meropossvel, no mximo o do provvel; de bom grado diriamque a filosofia comea ali onde a certeza acaba. Mas quemde ns desejaria uma tal situao para a filosofia? Semdvida, nem tudo igualmente verificado ou verificvelnaquilo que uma filosofia nos traz, e da essncia do mtodo filosfico exigir que em muitos momentos, acercade muitos pontos, o esprito aceite riscos. Mas o filsofo

    s corre esses riscos porque se assegurou uma cauo, eporque h coisas das quais ele se sente inabalavelmentecerto. Haver de nos tornar certos delas, por nossa vez, medida que souber nos comunicar a intuio da qual extrai a sua fora.

    A verdade que a filosofia no uma sntese dascincias particulares e que, se ela freqentemente se coloca no territrio da cincia, se ela por vezes abarca numaviso simples os objetos dos quais a cincia se ocupa, no

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    por intensificar a cincia, no por levar os resultadosda cincia a um mais alto grau de generalidade. No haveria lugar para duas maneiras de conhecer, filosofia ecincia, caso a experincia no se apresentasse a ns sobdois aspectos diferentes, de um lado sob a forma de fa

    tos que se justapem a fatos, que se repetem aproximadamente, que se medem aproximadamente, que se desdobram enfim no sentido da multiplicidade distinta c daespacialidade, do outro sob a forma de uma penetraorecproca que pura durao, refratria lei e medida.Nos dois casos, experincia significa conscincia; mas,no primeiro, a conscincia desabrocha l fora e se exte-rioriza em relao a si mesma na exata medida em quepercebe coisas exteriores umas s outras; no segundo,

    volta para dentro de si, recobra-se e aprofunda-se. Sondando assim sua prpria profundidade, ser que penetramais fundo no interior da matria, da vida, da realidadeem geral? Poder-se-ia contest-lo, caso a conscincia tivesse vindo acrescentar-se matria como um acidente;mas cremos ter mostrado que uma sem elhante hiptese,conforme o lado pelo qual se a tome, absurda ou falsa,contraditria consigo mesma ou contradita pelos fatos.Podcr-se-ia ainda contest-lo, caso a conscincia humana, ainda que aparentada a uma conscincia mais vasta

    e mais alta, tivesse sido posta parte e o homem tivesseque ficar num cantinho da natureza como uma crianade castigo. Mas no! A matria e a vida que preenchemo mundo esto igualmente em ns; as foras que trabalham em todas as coisas, sentimo-las em ns; seja l qualfor a essncia ntima daquilo que e daquilo que se faz,somos parte disso. Desamos ento para o interior dens mesmos: quanto mais profundo for o ponto que tivermos alcanado, mais forte ser o mpeto que nos dc-

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    volver a superfcie. A intuio filosfica esse contato,a filosofia esse cl. Reconduzidos para fora por uma im-pulso vinda do fundo, alcanaremos a cincia medidaque nosso pensamento for desabrochando ao se espalhar. portanto preciso que a filosofia possa moldar-se

    pela cincia, e uma idia, de origem pretensamente intuitiva, que no conseguisse, dividindo-se e subdividindo suas divises, recobrir os fatos observados l fora e asleis pelas quais a cincia os liga entre si, que no fosse capaz, inclusive, de corrigir certas generalizaes e endireitar certas observaes, seria pura fantasia; nada teria emcomum com a intuio. Mas, por outro lado, a idia queconsegue aplicar exatamente sobre os fatos e as leis esseespalhamento de si mesma no foi obtida por uma uni

    ficao da experincia exterior; pois o filsofo no veioate a unidade, partiu dela. Falo, claro, de uma unidadeao mesmo tempo restrita e relativa, como aquela que recorta um ser vivo no conjunto das coisas. O trabalho peloqual a filosofia parece incorporar os resultados da cincia positiva, assim como a operao ao longo da qual umafilosofia parece reunir em si os fragmentos das filosofiasanteriores, no uma sntese, mas uma anlise.

    A cincia a auxiliar da ao. E a ao visa um resultado. A inteligncia cientfica pergunta-se portanto o

    que precisar ser feito para que um certo resultado desejado seja atingido ou, de modo mais geral, que condi es6 preciso obter para que um certo fenmeno se produza.Vai de um arranjo das coisas para um rearranjo, de umasimultaneidade para uma simultaneidade. Necess ariam ente negligencia o que ocorre no intervalo; ou, caso dissose ocupe, para ali considerar outros arranjos, simulta-neidades mais uma vez. Com mtodos destinados aapreender o j feito, ela no poderia, em geral, entrar na

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    quilo que se faz, seguir o movente, adotar o devir que a vida das coisas. Essa ltima tarefa pertence filosofia.Enquanto o cientista, adstrito a tomar vistas imveis domovimento e a colher repeties ao longo daquilo queno se repete, preocupado, tambm, em dividir de modo

    cmodo a realidade nos planos sucessivos pelos quais elaest desdobrada a fim de submet-la ao do homem,est obrigado a valer-se de astcias com a natureza, aadotar em face dela uma atitude de desconfiana e deluta, o filsofo trata-a como camarada. A regra da cincia aquela que foi posta por Bacon: obedecer para comandar. O filsofo no obedece nem comanda: procurasimpatizar.

    Tambm desse ponto de vista, a essncia da filoso

    fia o esprito de simplicidade. Quer consideremos o esprito filosfico em si mesmo, quer em suas obras, quercomparemos a filosofia cincia, quer uma filosofia a outras filosofias, sempre descobrimos que a complicao superficial, a construo um acessrio, a sntese uma aparncia: filosofar um ato simples.

    Quanto mais nos imbuirmos dessa verdade, tantomais nos inclinaremos a fazer a filosofia sair da escola ea reaproxim-la da vida. Sem dvida, a atitude do pen

    samento comum, tal como resulta da estrutura dos sentidos, da inteligncia e da linguagem, avizinha-se maisda atitude da cincia do que daquela da filosofia. Noquero dizer com isso apenas que as categorias gerais denosso pensamento so exatamente as da cincia, que asgrandes estradas traadas por nossos sentidos atravs dacontinuidade do real so aquelas pelas quais a cincia irpassar, que a percepo uma cincia nascente, a cincia uma percepo adulta, e que o conhecim ento usual e

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    o conhecimento cientfico, ambos destinados a prepararnossa ao sobre as coisas, so necessariamente duas vises do mesmo gnero, ainda que de preciso e de alcance desiguais. O que quero dizer, sobretudo, que o

    conhecimento usual est adstrito, como o conhecimentocientfico e pelas mesmas razes que ele, a tomar as coisas em um tempo pulverizado, no qual um instante semdurao sucede a um instante que tampouco dura. Paraele, o movimento uma srie de posies, a mudanauma srie de qualidades, o devir em geral uma serie deestados. Ele parte da imobilidade (como se a imobilidade pudesse ser outra coisa alm de uma aparncia, comparvel ao efeito especial que um mvel produz sobreum outro mvel quando esto ajustados um ao outro) e,

    por um engenhoso arranjo de imobilidades, recompeuma imitao do movimento pela qual substitui o prpriomovimento: operao praticamente cmoda, mas teoricamente absurda, grvida de todas as contradies, detodos os falsos problemas que a Metafsica e a Crticaencontram diante de si.

    Mas, justamente porque a que o senso comumvira as costas para a filosofia, bastar que obtenhamosdele uma meia-volta nesse ponto para que o recoloque

    mos na direo do pensamento filosfico. Sem dvida, aintuio comporta muitos graus de intensidade, e a filosofia muitos graus de profundidade; mas o esprito quetivermos reconduzido para a durao real j viver a vidaintuitiva, e seu conhecimento das coisas j ser filosofia.Ao invs de uma descontinuidade de momentos que sesubstituiriam em um tempo infinitamente dividido, eleperceber a fluidez contnua do tempo real que flui indivisvel. Ao invs de estados superficiais que viriam sucessivamente recobrir uma coisa indiferente e que man

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    teriam com ela a misteriosa relao do fenmeno com asubstncia, ele apreender uma nica e mesma mudana que vai sempre se alongando, como numa melodia,onde tudo devir, mas onde o devir, sendo substancial,

    no precisa de suporte. Nada mais de estados inertes,nada mais de coisas mortas; apenas a mobilidade daqual feita a estabilidade da vida. Uma viso desse gnero, na qual a realidade aparece como contnua e comoindivisvel, est no caminho que leva para a intuio filosfica.

    Pois para ir at a intuio no necessrio transportar-se para fora do domnio dos sentidos e da conscincia. O erro de Kant foi o de acreditar que isso fosse necessrio. Aps ter provado por argum entos decisivos que

    nunca nenhum esforo dialtico ir nos introduzir noalm e que uma metafsica eficaz seria necessariamenteuma metafsica intuitiva, acrescentou que essa intuionos falta e que essa metafsica impossvel. S-lo-ia,com efeito, caso no houvesse outro tempo nem outramudana alm daqueles que Kant percebeu e com osquais, alis, fazemos questo de lidar; pois nossa percepo usual no poderia sair do tempo nem apreender algodiferente da mudana. Mas o tempo no qual permanecemos naturalmente instalados, a mudana que normalmente temos em mira so um tempo e uma mudanaque nossos sentidos e nossa conscincia reduziram a ppara facilitar nossa ao sobre as coisas. Desfaamos oque estes fizeram, reconduzamos nossa percepo s suasorigens e teremos um conhecimento de um novo gnero sem ter precisado recorrer a novas faculdades.

    Caso esse conhecimento se generalize, no apenasa especulao que lucrar. A vida de todos os dias poder ver-se assim reaquecida e iluminada. Pois o mundo no

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    qual nossos sentidos e nossa conscincia nos introdu-zem habitualmente no mais que a sombra de si mesmo; e frio como a morte. Tudo, nele, est arranjado paranossa maior comodidade, mas tudo nele est num presente que parece recomear incessantemente; e ns prprios, artificialmente amoldados imagem de um universo no menos artificial, nos divisamos no instantneo, falamos do passado como daquilo que foi abolido,vemos na lembrana um fato estranho ou, em todo caso,estrangeiro, um socorro trazido ao esprito pela matria.Recuperemo-nos, pelo contrrio, tais como somos, numpresente espesso e, alm disso, elstico, que podemos dilatar indefinidamente para trs, recuando cada vez maislonge o anteparo que nos oculta de ns mesmos;, recuperemos o mundo exterior tal como ele , no apenas emsuperfcie, no momento atual, mas em profundidade, como passado imediato que o preme e que lhe imprime seuel; habituemo-nos, numa palavra, a ver todas as coisassub specie durationis: imediatamente o hirto se distende,o adormecido desperta, o morto ressuscita em nossa percepo galvanizada. As satisfaes que a arte nunca fornecer seno a privilegiados da natureza e da fortuna, eapenas de longe em longe, a filosofia assim entendidaofereceria a todos, a cada instante, reinsuflando a vida

    nos fantasmas que nos cercam e nos revivificando a nsmesmos. Desse modo, tornar-se-ia complementar dacincia na prtica tanto quanto na especulao. Com suasaplicaes que visam apenas a comodidade da existncia, a cincia nos promete o bem-estar, no mximo o prazer. Mas a filosofia j nos poderia dar a alegria.