Arte Revolucao Russa

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Artigo sobre arte e a revolucao russa.

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<ul><li><p> 1</p><p>Arte e Revoluo na Rssia Bolchevique </p><p>por Patrcia Danza Greco1 </p><p>Falar sobre o papel da arte nos perodos revolucionrios exige um esforo que vai </p><p>alm do prprio perodo. Um esforo que necessita olhar para o momento anterior, </p><p>percebendo quais as continuidades e as dissonncias que se colocam entre a antiga ordem </p><p>que se finda e a nova que se pretende construir. E, com certeza, o estudo da Rssia </p><p>revolucionria no foge a essa regra, o que faz com que, necessariamente, essas palavras </p><p>iniciais se voltem para os sculos XVIII e XIX. </p><p>Desde a converso da Rssia ao cristianismo no sculo X, a produo artstica </p><p>esteve sempre muito associada religio, visvel nas igrejas, nos cones e nos utenslios </p><p>eclesisticos. Sem, em absoluto, desmerecer toda a atividade artstica que tambm existia </p><p>ligada vida campestre decoraes de casas, ovos coloridos de Pscoa, tecidos, cestas , </p><p>foi no sculo XVIII que se intensificou o contato com o Ocidente, cujo desdobramento </p><p>para as artes foi a importao de estilos artsticos considerados eruditos. Isso porque </p><p>Pedro, O Grande (1682-1725), amante dos estudos tcnicos e nuticos, foi o principal </p><p>responsvel por considerar que o Ocidente era um paradigma de modernizao que deveria </p><p>ser seguido pela Rssia. Dentre as inmeras reformas empreendidas em vista de </p><p>modernizar esse pas segundo o padro ocidental, um marco importante foi a construo de </p><p>um modelo de cidade, que, custa de milhares de vidas camponesas, se tornou a nova </p><p>capital do Imprio, So Petersburgo. Para essa edificao, artistas os mais diversos foram </p><p>trazidos da Europa, e acabaram conquistando um espao significativo na formao de </p><p>jovens artistas russos, sejam eles arquitetos, pintores e escultores, a partir da fundao da </p><p>Academia de Belas Artes de So Petersburgo. Assim, palcios e manses ao gosto europeu </p><p>foram construdos, e a Rssia comeava, ento, a conhecer uma arte muito diferente da </p><p>sobriedade dos cones e da simplicidade uma palavra utilizada aqui sem nenhuma </p><p>conotao pejorativa dos utenslios domsticos produzidos pelos prprios camponeses. </p><p>Estilos como o Barroco, o Classicismo e o Romantismo invadiram a Rssia com o passar </p><p>dos anos, devendo-se ressaltar que eles foram reverenciados com obras de verdadeira </p><p>maestria pictrica. </p><p> 1 Mestre em Histria pela UFF. </p><p>Created with novaPDF Printer (www.novaPDF.com). Please register to remove this message.</p></li><li><p> 2</p><p>Dessa maneira, as cenas histricas, as paisagens e os retratos tpicos dessa Arte de </p><p>Salo passaram a conviver com a tradicional arte crist, bem como, a partir dos anos 60 </p><p>do sculo XIX, com um novo movimento artstico que se opunha justamente aos </p><p>embelezamentos conferidos pela Academia. Ao contrrio de maquiar o mundo ou de </p><p>traduzir os encantos nele j existentes, o Realismo optava por retratar a vida da maneira </p><p>como ela se mostrava e, por isso, buscava, por vezes, um retrato psicolgico de suas </p><p>personagens. Mais do que isso, o Realismo acreditava na necessidade de uma funo social </p><p>para a arte e, sem sombra de dvida, isso no pode ser compreendido sem relembrar as </p><p>idias que a intelligentsia russa fazia circular na poca. </p><p>Esta, assentada em valores como a igualdade e a solidariedade ainda presentes na </p><p>estrutura social da Comuna Rural, defendia uma modernizao da Rssia que no </p><p>abdicasse dessa tradio, pois s assim essa nao no sofreria o deletrio </p><p>desenvolvimento industrial caracterstico do Ocidente, que trouxera, para seus pases, </p><p>misria e proletarizao. A intelligentsia, no geral, defendia uma autenticidade no processo </p><p>de modernizao russo, dito alternativo, j que a Rssia ainda dispunha de redutos com </p><p>valores sociais e culturais que no haviam sido destrudos. A disseminao deles por entre </p><p>a sociedade garantiria uma passagem direta da etapa atual para a socialista, sem com isso </p><p>abdicar da modernizao do pas. Se esses valores fossem preservados, estaria consolidada </p><p>nessa nao a possibilidade de uma via alternativa de modernidade; se as Comunas fossem </p><p>desacreditadas, boicotadas e corrodas, como vinham sendo ao longo do tempo, era o fim </p><p>da chance de construo do socialismo naquela nao. Em suma, a crena era basicamente </p><p>a mesma no interior dos intelligenti, mas as tticas para alcanar o fim desejado variavam </p><p>muito, e o Realismo na Rssia se apresentou exatamente como uma interpretao pictrica </p><p>dessas idias em circulao, sentindo que a arte tinha um papel social a cumprir, </p><p>denunciando as exploraes, revelando os valores artstico-culturais dos russos e </p><p>auxiliando na educao e reeducao do povo. </p><p> claro que no se pode esquecer que o Realismo tambm grassava na Europa </p><p>desde fins da primeira metade do sculo XIX e, na Rssia, existiam vrios meios que </p><p>promoviam esse intercmbio artstico, como revistas, colecionadores de arte russos e </p><p>artistas que viajavam interessados em descobrir o que o Ocidente desenvolvia de novo. </p><p>preciso observar que, em momento nenhum, a Rssia foi uma extenso artstica do </p><p>Ocidente. Muitas influncias chegaram at ela, mas sempre trabalhadas de acordo com as </p><p>necessidades especficas daquela sociedade, principalmente aps o nacionalismo </p><p>Created with novaPDF Printer (www.novaPDF.com). Please register to remove this message.</p></li><li><p> 3</p><p>apregoado pelos pintores realistas, por meio da valorizao daquilo que eles consideravam </p><p>autntico da cultura russa. </p><p>Nesse vaivm, a msica, o teatro e as artes plsticas abrilhantaram o cenrio </p><p>artstico russo e, em se tratando dessa ltima, nada menos do que o desenvolvimento da </p><p>arte abstrata se deve a um moscovita, Vassli Kandnski, e a um ucraniano, Kazimir </p><p>Malievitch. O primeiro, estudando e trabalhando na Alemanha, seguiu a vertente da </p><p>abstrao lrica, tambm conhecida como informal; o segundo, na Rssia, escolheu as </p><p>formas geomtricas como meio de representao de um mundo novo. </p><p>O Suprematismo, nome dado teoria desenvolvida que justificava a pintura </p><p>geomtrica, era a libertao da pintura para ela ser ela mesma. Aparentemente uma simples </p><p>justificao da pintura enquanto pintura. Contudo, o Suprematismo propunha um novo </p><p>mundo, no qual as relaes com o objeto se dariam intuitivamente. Isto , a sua totalidade, </p><p>as imbricaes pictricas geradas pelos elementos constituintes do objeto s poderiam ser </p><p>inferidas de maneira intuitiva, e a concretizao desse novo mundo se daria no plano </p><p>plstico da tela. a supremacia de um mundo regido pela sensibilidade, pela capacidade </p><p>criativa e cognitiva do homem. Uma verdadeira arte moderna para um mundo moderno. </p><p>Em outras palavras, se o Realismo incorporara a realidade da segunda metade do sculo </p><p>XIX na Rssia, o Suprematismo representava bem o sonho de libertao por que lutaria o </p><p>povo russo mais incisivamente e coletivamente em 1917. O Suprematismo era a arte da </p><p>revoluo porque consistia na prpria revoluo da arte. O sentido de libertao </p><p>condensado pelo quadrado, que dava uma soluo para a busca interminvel da arte </p><p>moderna de conferir autonomia ao espao pictrico, era o mesmo que movera o povo em </p><p>fevereiro e em outubro do ano vermelho. </p><p>No filme, de Dziga Vertov, Rquiem a Lenin, uma camponesa depe afirmando </p><p>saber agora o que os lderes dizem, palavras valiosas que ela ento compreende e </p><p>memoriza, para contar aos outros quando da sua volta para casa. Ela diz ter havido um </p><p>tempo de misria, mas que, agora, este j faz parte do passado. preciso lembrar que, </p><p>quela altura, o povo russo estava faminto e atormentado pelos desastres da Primeira </p><p>Guerra Mundial se no morria no front de batalha, chorava pelos que l perdia. A </p><p>revoluo era um aceno de esperana de fim daqueles horrores. </p><p>Assim, o povo estava realmente comprometido com a revoluo, aspirava novos </p><p>tempos, tempos de igualdade e liberdade, que pareciam se iniciar com os primeiros </p><p>decretos do Governo. Lenin, presidindo o Conselho dos Comissrios do Povo e, portanto, </p><p>Created with novaPDF Printer (www.novaPDF.com). Please register to remove this message.</p></li><li><p> 4</p><p>maior representante daqueles desejos ardentes, bem poderia ter assumido o quadrado </p><p>vermelho de Malievitch como bandeira que anunciava essa nova era. O vermelho, smbolo </p><p>de poder e de revoluo, tendo na sua palavra correlata russa krasni tambm o significado </p><p>de belo, feliz, constitua o sentido que movia aquela sociedade, sentido esse que estava </p><p>expresso na forma quadrangular que libertava a arte. No quadro Quadrado Vermelho. </p><p>Realismo Pictrico de uma Camponesa em Duas Dimenses, estava estampado o </p><p>significado daquele novo tempo, traduzido por aquela forma geomtrica vermelha </p><p>irregular, que rompia com toda a rigidez das imposies do passado e prenunciava a sua </p><p>libertao. Era a irregularidade da forma banhada pelo sangue da revoluo. Revoluo na </p><p>arte e na poltica que alimentavam aquela populao. </p><p>O Suprematismo representa uma concepo para um novo mundo, como aquele que </p><p>se pretendia construir na Rssia a partir de 1917. Um mundo que no limita a relao entre </p><p>homem e objeto sua necessidade material; um mundo que multiplica as relaes e </p><p>identidades com o objeto, que o concebe apenas em estmulos, sensaes e intuies; um </p><p>mundo que se torna realidade no plano pictrico, que atravs da pintura tem essas </p><p>sensaes rtmicas traduzidas; um mundo em que a pintura se justifica enquanto pintura </p><p>porque ela que transmuta a sensibilidade em formas dinmicas, flutuantes e libertas. </p><p>O quadrado era para o artista a forma zero, isto , a forma da qual todas as demais </p><p>derivam. Zero no de fim, mas de recomeo, assim como se concebia a Rssia </p><p>bolchevique. Alm disso, uma forma que no existe na natureza e que, portanto, no </p><p>pode ser associada a ela. Uma forma puramente mental, de criao do homem, um </p><p>verdadeiro cone de uma arte do mundo das idias, das sensaes, das intuies. Com ela, </p><p>dentre tantas transformaes que a acompanham, uma particularmente democrtico-</p><p>social: a arte, agora, era cosa mentale, como disse Leonardo da Vinci, era muito mais a </p><p>elaborao de um conceito do que a habilidade tcnica do artista. Ser artista era ser um </p><p>pensador e no um especialista na capacidade de desenhar, na capacidade de representar a </p><p>realidade precisamente, e isso tinha total conexo com a construo de uma nova sociedade </p><p>que cria no trabalho e na necessidade de educao e de instruo do povo. E talvez resida </p><p>exatamente a o motivo que fez com que tantos artistas apoiassem a Revoluo: a </p><p>esperana de se construir uma sociedade distante dos moldes teocrticos e opressores que </p><p>caracterizavam o Tzarismo. Uma nova realidade mais justa e mais igualitria, distante dos </p><p>academismos e de suas regras e distines artstico-sociais. preciso ter em mente que ser </p><p>um vanguardista significava estar, muitas vezes, margem dos sales expositivos oficiais, </p><p>Created with novaPDF Printer (www.novaPDF.com). Please register to remove this message.</p></li><li><p> 5</p><p>bem como ser foco da crtica artstica mais ferrenha. Na revoluo, eles viram a </p><p>possibilidade de construo de uma nova sociedade, menos autocrtica. A revoluo, por </p><p>sua vez, via nesses artistas sua principal base de apoio, artisticamente falando, como se o </p><p>novo sistema poltico, econmico e social que se almejava construir na Rssia exigisse </p><p>tambm novos alicerces artsticos. </p><p>Assim, desde que tomou o poder em outubro, o novo governo sabia bem que </p><p>precisava de artistas para construir e consolidar o sonho do socialismo. Alm do interesse </p><p>da vinculao da arte propaganda, j que muito da instruo do povo se daria pela </p><p>imagem, existia tambm, no se pode negar, uma idia de que a revoluo cultural era </p><p>condio premente para a sobrevivncia da revoluo poltico-econmica. Assim, logo de </p><p>incio, o governo se preocupou com a questo do analfabetismo. Em 1918, foi assinado o </p><p>decreto Sobre a Mobilizao, que institua que todos os cidados deveriam aprender a ler e </p><p>a escrever. Em 1919, um outro, denominado A Liquidao do Analfabetismo, reforou o </p><p>anterior, obrigando a alfabetizao do povo, com faixa etria entre oito e cinqenta anos, </p><p>em lngua russa ou em lngua materna, sendo que aos empregados seriam cedidas duas </p><p>horas do trabalho sem desconto de salrio. Alm de cuidar da educao num sentido </p><p>restrito da palavra, o Narkompros, Comissariado do Povo para a Instruo Pblica, </p><p>responsabilizava-se tambm pelas artes, pelo seu estmulo e conservao. Como j dito, o </p><p>incentivo produo artstica era crucial, j que, com uma ampla populao analfabeta, a </p><p>imagem constitua ferramenta necessria para a instruo e para aglutinao do povo em </p><p>torno da Revoluo. </p><p>Sobre o sistema propagandista, sua presena sempre lembrava o russo do campo, da </p><p>cidade ou do front que a consolidao do processo revolucionrio era a sada para todos os </p><p>males. Para essa propaganda revolucionria no existia superfcie que no pudesse ser </p><p>trabalhada: barcas, trens, edifcios, utenslios domsticos, todos serviam de instrumento de </p><p>contnua reiterao dos valores da revoluo, sendo o trabalho e o servio militar temas </p><p>bastante difundidos nos cartazes durante os penosos anos de Guerra Civil. Em relao aos </p><p>affiches (cartazes), a arte grfica foi sempre uma tnica na Rssia e, aps a revoluo, </p><p>encontrou ainda mais espao, j que, atravs dela, o novo governo propagava e reavivava a </p><p>ideologia revolucionria em todos os russos. Vale lembrar que a utilizao macia dos </p><p>cartazes como veculos de propaganda durante o governo bolchevique supria a ausncia de </p><p>outros meios de comunicao de massa. </p><p>Created with novaPDF Printer (www.novaPDF.com). Please register to remove this message.</p></li><li><p> 6</p><p>Nesse sentido, os artistas tiveram seu lugar assegurado nessa sociedade, no </p><p>importando, nesse primeiro momento, se eram figurativos ou abstratos, j que o </p><p>fundamental que todos contribussem para sedimentar os alicerces da revoluo, seja </p><p>colaborando nos trens e embarcaes de propaganda, nos cartazes, nas decoraes de rua </p><p>durante os festejos revolucionrios ou nas exposies estatais. </p><p> Com Anatoli Lunatcharski frente do Narkompros, a individualidade, a </p><p>criatividade e a coletividade eram encorajadas. Anatoli trabalhava no sentido de resguardar </p><p>o patrimnio j existente, mas tambm de estimular as novas tendncias artsticas. E, </p><p>assim, esse Comissariado possibilitou a reformulao de todo o sistema oficial de ensino </p><p>das artes, visando atender todos os grupos de artistas, desde o incentivo a correntes mais </p><p>tradicionalistas at o apoio arte vanguardista. Dessa nova concepo de ensino, esperava-</p><p>se criar meios de levar a arte a um maior nmero de pessoas (pela questo, </p><p>fundamentalmente, da necessidade de instruo do povo) e fomentar o trabalho artstico de </p><p>quem tivesse interesse em desenvolv-lo, no havendo mais prova para ingresso nas </p><p>escolas de arte. Em outras palavras, promovia-se, por exemplo, novos tipos de propaganda </p><p>e de decoraes de rua com base nas vanguardas, mas no se deixava de integrar a velha </p><p>intelectualidade russa nova realidade vanguardista. Com isso, o Narkompros no tendia </p><p>nem para o radicalismo dos que almejavam a implantao de uma imediata cultura </p><p>proletria, nem para a simples aceitao de uma cultura burguesa. Seu intuito era o de </p><p>conciliar, ainda que temporariamente, ambas as correntes, sendo o mediador o Partido </p><p>Comunista no poder. </p><p>No interior d...</p></li></ul>