O MÁRTIR DO GÓLGOTA

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<p>O MRTIR DO GLGOTA Introduo</p> <p>Devia anunciar-se a sua vinda com grandes e assombrosos acontecimentos, e assim sucedeu. Os mpios idlatras do Olimpo do Homero, os adoradores sensuais de Venus, a prostituta, e de Mercrio, o deus dos ladres, os corrompidos cortezos do Capitlio, definhavam em languidez nos braos da indolncia e do amor. Aquela paz inaltervel enchia-os de admirao, e um dia foram ao templo consultar o orculo de Apolo para saberem quanto tempo ela duraria. O orculo respondeu-lhes estas palavras: At que se d o caso de uma Virgem dar luz. Julgando, segundo a ordem natural, que seria impossvel que semelhante vaticnio sucedesse, colocaram esta inscrio na elevada porta: Templo da paz eterna. Entretanto, a sibila Cumeia, a poetisa, inspirada, predizia a vida de Cristo na cidade mpia dos sibaritas. Otvio Augusto fez reunir o conselho e a profetisa foi interrogada. O Csar queria saber se nasceria outro homem mais Do Oriente chegavam alguns idlatras, que depositavam aos ps de um bero a primeira pedra do cristianismo. A voz do anjo despertou nas suas cabanas os pastores, e stes achavam-se junto de um leito aos ps do qual ia morrer o mundo pago. O escravo, sacudindo os grilhes, lanou um olhar em trno de si e permaneceu com o ouvido atendo, at que a sua fisionomia se foi animando pouco a pouco, e um sorriso melanclico assomou aos seus lbios. Despontava-lhe no corao a esperana; os grilhes caiam despedaados aos seus ps, porque estas palavras pronunciadas por Deus: Todos somos irmos haviam chegado aos seus ouvidos. Reuniram-se ento os desgraados em volta de Jesus Cristo, que, qual pastor das almas, atravessava a terra para</p> <p>procurar os aflitos, afim de lhes enxugar as lgrimas, e derramar-lhes no corao angustiado a rica semente da f crist. Onde uma creatura gemia, l estava Cristo para a consolar. Onde se lamentava um enfermo, l estava o Messias para lhe devolver a sade. Sua fama, seus feitos, seus milagres, correram de boca em boca por todos os mbitos do mundo, at que um dia as palavras todos somos iguais chegaram aos ouvidos dos pontfices e pretores de Jerusalm.1</p> <p>Sbre o Capitlio em Roma, onde existia em tempo da vinda de Cristo o palcio de Otvio Augusto, existe hoje o convento de Santa Maria d1Arca-Coeli, donde provm a tradio que narramos.</p> <p>2 envergonhados, murmurando estas palavras com enleio: Com ste homem a cincia impotente. Ser o Messias? Desde ento nos seus sonhos, nas suas bacanais, nas suas orgias, viram escritas estas palavras O que fr maior entre vs ser vosso servo. A raivosa impotncia e o cego orgulho dos tiranos fizeram com que se levantasse a Deus um cadafalso! A tragdia divina teve o seu termo. Cristo subiu ao calvrio, exalou o ltimo suspiro nos braos do lenho sagrado; foi dali tirado para o sepulcro, e ao terceiro dia elevou-se ao cu em apoteose. Haviam-se cumprido as profecias. Os apstolos da f, os propagadores da nova lei, espalharam-se pela terra e, mo se importando como o martrio, comearam a semear a palavra humanidade at ento desconhecida no mundo. O Cristianismo cresceu como uma bola de neve. Os circos de Roma, os tormentos da ndia, no puderam esmagar-lhe a radiante e formosa cabea. Os filhos dos pagos recebiam a gua do batismo como man celeste.</p> <p>O Cristianismo, salvando a sociedade de uma ruina certa, abrigou no seu seio carinhoso os restos da civilisao e das artes. Que a julgue todo aquele que a ler, e longe de ter ste livro como uma obra importante, tenha-o s como um gro de areia que colocamos na pirmide imensa do Cristianismo, elevada pelas santas palavras do Mrtir do Glgota. LIVRO PRIMEIROQue outra coisa a Escritura seno uma Carta do Todo Poderoso aos homens? Rogo-te que todos os dias estudes e me-Dites as palavras do teu Creador, aprendendo assim a conhec-lo, - (GREGRIO MAGNO,Livro IV, epist.39)</p> <p>CAPTULO I3 O POVO ERRANTE Formoso cu da Galilia: desgraadamente os meus olhos no admiram ainda as poticas cambiantes dos teus corrente. Cume sagrado do Calvrio:os meus ps nunca pisaram as tuas caleinadas rochas, que um dia se humedeceram com o sangue do Messias e com as lgrimas da Virgem. Jamais tive a dita de te admirar, potica e formosa Palestina. Os meus olhos nunca se extasiaram ante a contemplao dos campos de Zabulon, eternamente cobertos de violetas. A histria do teu povo tem sido o meu livro querido desde que a minha lngua principiou a ligar as letras do alfabeto. Deus nasceu entre les, e o sangue do seu Deus que derramaram pesa-lhes sbre a cabea como uma maldio, impelindo-os pelo mundo quais ligeiras arestas que o possante spro do vendaval arrasta sem rumo certo. A hora anunciada pelos profetas soou no incorruptvel relgio do tempo; as guias e os corvos, que se aninhavam nas escarpadas rochas do Lbano, submissas aos mandados de Deus, cairam ento sbre o solo da cidade maldita.</p> <p>Moiss, o intrprete de Jeov, o teu sbio legislador, o teu dogma, j no tornar a guiar-te pelo deserto. Aquela batalha, que durou trs dias sem se ocultar o sol, s pudeste venc-la pela vontade de Deus, e Deus amaldioou a tua raa. Por isso que a bandeira dos Macabeus nunca mais tornar a tremular triunfante pela inimiga Samaria, nem os valentes filhos de Matias volvero a erguer as suas tendas sbre as altas cumiadas do Garizim. Dbora j no far justia sombra das palmeiras de Efraim, nem o canto de Jael, a forte mulher, reanimar nos combates o valor dos filhos de Jud. Ester, a formosa, nunca mais tornar a salvar o seu povo do furor dos inimigos; nem Elias, o raio de Deus, far chover do cu para acender a lenha verde do sacrifcio. o ungido do senhor;4 o amado do Senhor,Tapaste os ouvidos s suas palavras, e fechaste os olhos aos seus milagres; e aquelas palavras e aqueles fatos ainda retumbam, perturbando at o teu nome. Deus quis acolher-te debaixo das suas asas, como a carinhosa galinha aos pintinhos, e tu sacrificaste-o em recompensa do seu amor inexgotvel. Jerusalm, Jerusalm! Em ti no h de ficar pedra sbre pedra disse le, e a sua promessa cumpriu-se. Jerusalm, Jerusalm! A tua passada glria um monto de escombros, sbre os quais ainda adeja a terrvel maldio de Deus, repetindo sem descanso: Chora, chora, cidade ingrata! CAPTULO II S NO MUNDO O cu estava carregado, a noite escura, e frio o ambiente. O solitrio mocho, qual sentinela noturna, soltava de vez em quando dos altos ramos das rvores um montono e prolongado pio, cujo eco lgubre se ia perder nas profundidades dos barrancos. O monte Hebal, mais escarpado, mais sombrio e imponente que os seus irmos, erguia-se no meio daquela</p> <p>cordilheira como um gigante ameaador, amaldioando a impiedade dos rebeldes samaritanos. O surdo e longquo trovo comeava a ribombar pelo espao anunciando com a sua voz possante aos filhos de Semer a prxima tempestade que ia estalar sbre as tuas cabeas. A atmosfera ia-se condensando, e do seu hmido seio comearam a cair grossas gotas de gua sbre a seca terra dos adoradores do bezerro, e qual os judeus chamaram Terra da iniquidade. Tudo anunciava uma dessas terrveis tempestades, que com tanta frequncia turvam o cu da Palestina. Os relmpagos comearam a suceder-se com rapidez, e o trovo, percorrendo o espao, fazia redobrar a sua voz potente. Um relmpago iluminou momentaneamente o obscuro horizonte, e ao claro azulado da sua luz viram-se uns homens que deslisavam pela escarpada e resvaladia encosta do monte Hebal, em direo aos barrancos de Garizim. Ia entre les um mancebo, imberbe por assim dizer: vestia uma tnica pardacenta como os nazarenos. Na cabea trazia um turbante alto com bandas de linho, e uma camisola de l de camelo servia-lhe de manto. 5 Nem uma s linha se encontrava no seu semblante que inspirasse o sentimento da repugnncia. Podia-se dizer que era quase formoso. Ao v-lo caminhar no meio, daqueles foragidos de olhar torvo e asquerosamente vestidos, dir-se-ia que era antes um prisioneiro que o chefe de semelhantes homens. O jovem capito dos bandidos samaritanos chamavam-se Dimas, nome que trinta e dois anos depois devia ser imortalizado no cume de Glgota pelo Martir da Cruz, o Redentor do homem. Quando algum defunto era levado pela rua em que vivia Dimas, le acompanhava o fnebre prstito at o vale de Josaf, oferecendo-se sempre a ajudar os coveiros a colocar o cadver no sombrio sepucro.</p> <p>- Que fazeis em minha casa? perguntou Dimas com assombro. - Tomo, com autorizao da lei e do poder romano, o que teu pai devia, respondeu o velho. - O spro da morte emudeceu a bca a meu pai, porm nosso jurar elo Deus invisvel de Abrao, de Isaque e Jac, que le nunca me disse nada a respeito da dvida que agora reclamas. Dimas, aturdido, com o corao traspassado pela dr e pela surpresa, no encontrava em si palavras com que responder quele velho, que o lanaria na misria. As testemunhas afirmaram a verdade das palavras do fariseu, e o malsim continuou a confiscar tudo que via, sem se importar com a atitude dolorosa do pobre rfo. - Pois bem; levem o meu errio, todos os meus vestidos, a minha cama, se querem; no me oporei a isso. Sou - Miservel! bradou Dimas, agarrando nervosamente o velho fariseu pelo pescoo, tu e meu pai descero ao mesmo tempo sepultura. As testemunhas arrancavam o fariseu das mos de Dimas, no sem custo, e duas horas depois o jovem rfo era posto em uma escura masmorra da torre Antnia. CAPTULO III AJUSTE AJUSTE 6 Tanto a dr como o prazer tem o seu trmo, e ambos se dissipam quando o corao se enfastia ou endurece. O pobre rfo acabou por no ter mais lgrimas. Trs meses permaneceu, esquecido dos homens em hmida e sombria priso, sonhando com a anelada hora da xingana. Cidade NovaDimas desejou comprar um daqueles punhais e com o olhar no mostrador, comeou a procurar a arma para silcos de prata,Dimas examinou-a por um momento; mas, lembrando-se de que no possuia um miservelb ul o, disse ao vendedor:</p> <p>- Queres fiar-me esta navalha? Dar-te-ei por ela vinte onas romanas, e isto antes que a lua nova alumie com os seus raios o alto minarete da terra de Davi. - E quem me responde pela tua palavra? Bem sabes que nunca te vi. - Se me enganares, peor para ti! disse, entregando-lhe a navalha; se tiveres palavra, ento que Jeov te proteja e te salve dos perigos a que a tua vingana te vai expr. E, sem esperar resposta, caminhou rua adiante, atravessou a porta das Cabras e foi sentar-se sombra de um robusto sicmoro, de cuja fruta comeu com apetite, pois bastantes horas havia que no tomava alimento algm. Em seguida empunhou o cabo da navalha, e vibrou um forte golpe no tronco da nodosa rvore. A folha da arma enterrou-se umas trs polegadas. - Oh! Tem boa tempera! disse consigo, nem sequer dobrou a ponta: bem pde entrar toda a folha de um s golpe na garganta ou no corao daquele que atirou com o cadver de meu pai aos ces da vala dos leprosos. fragoso dos bosques. De noite abandonava as guaridas incultas para assitar os indefesos caminhantes; porm nunca o infeliz rfo, que aborrecia o sangue por instinto, empregou outras armas alm da ameaa para despojar as vtimas. Era impossvel retroceder e via que era indispensvel que as suas aventuras fossem em maior escala. - Salteador por salteador, disse consigo, busquemos ento o ouro. Tanto se arrisca a vida roubando umse st rc i o 1 como um talento2 hebreu. Tanto se perde a honra roubando uma pomba como um boi. 7 Aps esta resoluo, Dimas levantou-se, e agitando os compridos cabelos com um movimento enrgico de cabea, lanou um altivo olhar pela solides que o cercavam e, afagando o cabo tosco da navalha, murmurou:1moeda de cobre de pouco valor.</p> <p>- Quando se estima pouco a vida, o homem pode chegar a ser muito. Sim, preciso que eu seja o rei dos</p> <p>bosques, o terror de Israel. Os mercadores do Egito, de Damasco, de Tiro, e Sidon, viam-se frequentemente assaltados ao meio dia nas estradas mais concorridas. Dimas parecia o anjo do mal, quando depois da sua queda se sentou borda do abismo a contemplar por um instante a horrvel manso, que Deus lhe concedia em castigo da sua louca soberba. CAPTULO IV OS BANDIDOS Esta cinta de flutuante renda, esta manga de p que parecia brotar da terra, eras as nvoas do Jordo que iam subindo para o cu em vaporosas e hmidas emanaes. Dimas, firme no seu propsito, depois de certificar-se de que o punhal permanecia oculto nas dobras da tnica, desprendeu do cinto uma larga funda, formada de folhas de palmeira seca, colocou nela uma pedra de trs polegadas de Dimas passou vrias vzes a mo pela fronte e, tirando a comprida navalha, principiou a afiar a ponta do instrumento com que tinha vingado a morte do pai. - Vamos, valor, Dimas! A morte um instante: a vida longa e pesada quando se tem fome e se dorme ao relento.Dirigiu-se resolutamente para o castelo, a cuja porta bateu trs vzes com uma pedra que apanhara no cho. Ningum respondeu. Ento, seguro de que o castelo estava abandonado, examinou com ateno o muro que o cercava e, 8 achando um pedao derruido pelo qual se podia escalar a fortaleza mais fcilmente, comeou a trepar pela muralha com o punhal entre os dentes. Se lhe tivesse fraqueado uma das mos, se se despegasse uma pedra, com certeza sua morte seria inevitvel, pois o corpo, rolando no abismo, ter-se-ia desfeito em sanguinolentos pedaos de encontro s salientes arestas da rocha.</p> <p>De repente ouviu-se um rumor spero e singular no pavimento como se tivessem corrido um ferrolho ou uma tranca de ferro humedecido. O rfo continuou a comer como se nada tivesse ouvido; s por precauo pegou no punhal. Os bandidos entreolharam-se com assombro. CAPTULO V DIMAS EMPENHA SUA HORA PARA PAGAR O SEU PUNHAL Aquele moo imberbe, criana quase, fitava-os com olhar sereno e sorriso nos lbios. Tinha o corao e o esprito tranquilo ante as afiadas lontas dos punhais que lhe ameaavam a existncia. S um homem ousado podia ter assaltado aquela manso de horror, que les habitavam, aquele teatro das suas cenas vandlicas, o espanto dos camponezes samaritanos. - Ningum lhe toque! Exclamou um bandido cuja barba branca, gesto altivo e luxuoso trajo diziam claramente que devia ser o capito. 9 proezas, deseja que o aperfeioes com o vosso saber nos segredos da arte. Os bandidos soltaram uma ruidosa gargalhada. - Rides? Atalhou Dimas imitando a hilaridade dos fascinoras. Estimo, pois vejo que j principiamos a ser amigos. Vou, portanto, pedir-vos um favor. Quereis emprestar-me vinte onas romanas? - Obrigado, capito. Dimas te mostrar que no semeaste o benfcio em terra infrtil. - O meu nome, repz o velho capito, Abadon3 Sou samaritano; no esqueas, pois, o que vou dizer-te: com a mesma facilidade estenderei a mo para proteger-te como para exterminar-te. - Jamais o olvidarei. Agora d-me licena para partir; antes de quatro dias ser a lua cheia, e daqui a Jerusalm h trs longas jornadas.1 Belsebuth ou deus das moscas, adorado pelos filisteus. Chamav-se assim porque estava sempre coberto de moacas por causa de se achar incessantemente borrifado de sangue. (Lamy,</p> <p>Aparato Bblico, liv. III, Cap. I) 2 dolo da fortuna 3 Anjo exterminador</p> <p>Abadon olhou um instante para Dimas: este manteve aquele olhar com tal nobreza e serenidade, que o capito re...</p>