Identidade Cristã em Justino Mártir

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Identidade Cristianismo Histria Antiga Cristianismo Primitivo

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<p>PROJETO DE PESQUISA DE MESTRADO O DESENVOLVIMENTO IDENTITRIO DAS COMUNIDADES CRISTS UMA ANLISE DOS ESCRITOS CRISTOS: DAS CARTAS PAULINAS S OBRAS DE JUSTINO DE ROMA (I E II SCULOS D.C.)</p> <p>1. APRESENTAO: Este trabalho visa analisar o processo de desenvolvimento da identidade do cristianismo primitivo. Para tanto, deter-nos-emos, espacialmente, dentro das comunidades crists existentes no ento Imprio Romano e temporalmente, entre o sculo I d.C. at meados do II d.C., focando este ltimo perodo. Dentro deste recorte pretendemos trabalhar com a disposio da histria do cristianismo em seis perodos. O primeiro perodo se caracterizaria pelo ministrio de Jesus, uma instncia germinal. O segundo, pela institucionalizao da comunidade judaico-crist em Jerusalm, conforme infere-se do captulo 2 no livro dos Atos dos Apstolos. Um terceiro perodo pode ser identificado na expanso do cristianismo por meio das pregaes dos apstolos (Pedro, Tiago e Joo) e dos diconos (Estevo e Filipe). O quarto perodo seria o momento em que as misses se voltam para os gentios, comeando com o apstolo Pedro, porm, o personagem principal o apstolo Paulo, conhecido, por isso, como o apstolo dos gentios. As vrias comunidades da geradas se intitulariam de comunidades paulinas, no obstante, vrias comunidades terem se formado sem o pioneirismo de Paulo. o caso da comunidade de Roma, por exemplo. Paulo colaborou com o crescimento dessa comunidade por meio de uma carta (conhecida pelo nome de Carta, ou Epstola aos Romanos) e durante a sua priso em Roma (Atos dos Apstolos, Cap. 28), mas o seu fundador ao que indica a tradio foi Pedro1. Outro personagem de fundamental importncia o apstolo Barnab a quem Paulo acompanhou em vrias cidades. Porm, a preeminncia de Paulo justifica o nome de comunidade paulina. O quinto perodo pode ser localizado na comunidade chamada de joanina (reconhecida a partir dos chamados escritos joaninos, isto , das obras atribudas ao apstolo Joo. Estas so formadas pelo Evangelho, trs cartas e o livro do Apocalipse), onde se observa bem os resultados do contato com a cultura helenstica causados principalmente pelas1</p> <p>Apesar da indicao conjunta de Pedro e Paulo por Irineu (IRINEU, Contra as Heresias, III, 1.1 e 3.2) deduzse pelos Atos dos Apstolos e o captulo 1 da Carta aos Romanos (Caps. 1 e 15) que Paulo no foi o fundador, enquadrando-se mais como um contribuidor doutrinrio da comunidade crist em Roma.</p> <p>1</p> <p>misses de Paulo e seus discpulos. O ltimo perodo o dos pais apostlicos at por volta do ano 150 d.C. quando a filosofia grega claramente utilizada nos escritos destes. Veja-se principalmente Justino de Roma. Sua formao inclua as escolas filosficas estica, peripattica, pitagrica e platnica (Dil. 2,1-6) antes de se encontrar com o cristianismo, a nica filosofia certa e digna (Dil. 3-8). o primeiro a estabelecer a relao entre a filosofia e a f (FRANGIOTTI, 1995, p. 10). Desenha-se assim, um quadro com as comunidades: sintica2 (situada na palestina, com sua prpria especificidade); paulina (formada de judeus helenizados e de povos greco-romanos em vrias partes do Imprio Romano); joanina; e, por fim, o resultado dessas vrias comunidades em meados sculo II d.C., onde o centro das ideias vo se concentrar basicamente em Roma e Antioquia, no que denominados o conjunto como comunidades do segundo sculo. Em suma, pretendemos, por intermdio da literatura cannica, pseudo-epgrafa, apcrifa, patrstica e, juntamente com o auxlio da histria cultural e uma bibliografia multidisciplinar, detectar os fenmenos/elementos que possibilitaram a formao da identidade crist e localizar os processos diacrnicos e sincrnicos que desencadearam tal identidade. Enfatizamos: trata-se de pensar os processos e resultados das interaes culturais que possibilitaram a formao da identidade do Cristianismo Primitivo tal qual se encontrava em meados do sculo II d.C. 2. O TEMA NA BIBLIOGRAFIA (ESTADO DA ARTE) O nmero de obras que trabalham com a histria do Cristianismo primitivo incontvel, e com os mais diferentes vieses. Por isso, apresentaremos aqui aquelas que melhor lidaram com o processo de desenvolvimento da comunidade crist primitiva comeando com o seu surgimento dentro do judasmo e culminando com sua mesclagem com a cultura helenstica. A primeira que pode-se verificar boa parte deste desenvolvimento tambm uma de nossas fontes, ela conhecida como Os Atos dos Apstolos. Porm, os debates mais atuais podem ser melhor conhecidos por meio das obras abaixo: 1) Judasmo, cristianismo e helenismo ensaios acerca das interaes culturais no Mediterrneo Antigo que consistem em ensaios (como o prprio subttulo deixa claro)2</p> <p>Ou seja, analisadas a partir dos evangelhos sinticos, so eles: Mateus, Marcos e Lucas. So assim chamados devido s semelhanas (do grego: syn opsis, que significa: olhar de conjunto) entre si na construo do texto de seus evangelhos.</p> <p>2</p> <p>elaborados pelo Dr. Andr Leonardo Chevitarese e o Dr. Gabriele Cornelli, publicados em 2003. O primeiro Professor Associado I da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Professor Visitante do Programa de Ps-Graduao em Histria da Universidade Estadual de Campinas. Tem experincia nas reas de Histria Antiga Grega e Romana, Histria do Cristianismo e Experincias Religiosas no Brasil. O segundo, professor de Filosofia Antiga (Adjunto I) do Departamento de Filosofia da Universidade de Braslia (UnB). Nos ensaios ambos trabalham com vrios intermedirios que formam a base metodolgica para se entender o processo das interaes culturais que ocorreram entre o judasmo, o cristianismo e o helenismo. Entre eles citamos: O fillogo alemo Werner Wilhelm Jaeger e sua obra Cristianismo Primitivo e Paidia Grega; Arnaldo Momigliano e sua obra Os Limites da Helenizao. Interao Cultural das Civilizaes Grega, Cltica, Judaica e Persa; o antroplogo norte-americano Marshall Sahlins e sua obra Ilhas da Histria; Roger Bastide e seu conceito de interpenetrao das civilizaes; e, por ltimo, Carlo Ginzburg com seu mtodo de abordagem e a categoria da circularidade cultural. Destes autores os ensaios parecem centrar-se mais na antropologia de Sahlins. Em sua obra Ilhas da Histria Sahlins trabalha com o encontro da cultura inglesa com a havaiana no final do sculo XVIII. As constataes de Sahlins so utilizadas para analisar o encontro cultural entre gregos, judeus e cristos. Chevitarese e Cornelli utilizam dele duas definies de cultura, so elas: 1. A cultura justamente a organizao da situao atual em termo do passado (SAHLINS, 1990, p. 192 apud: CHEVITARESE &amp; CORNELLI, 2003, p. 14); 2. A cultura funciona como uma sntese de estabilidade e mudana, de passado e presente, de diacronia e sincronia (SAHLINS, 1990, p. 180 apud: CHEVITARESE &amp; CORNELLI, 2003, p. 14). Tais definies tomam por base a declarao de Sahlins de que a cultura historicamente reproduzida na ao, e as crticas feitas, por ele, aos tericos do sistema mundial quanto afirmao de que: como as sociedades tradicionais estudadas pelos antroplogos so submetidas a mudanas radicais, devido imposio da expanso capitalista ocidental, impossvel que tais sociedades possuam um funcionamento baseado em uma lgica cultural autnoma (SAHLINS, 1991, p. 8 apud: CHEVITARESE &amp; CORNELLI, 2003, p. 11-14). As crticas feitas por Sahlins so:</p> <p>3</p> <p>1. H uma certa confuso, entre os tericos do sistema mundial entre sistema aberto e a total ausncia de sistema (SAHLINS, 1990, p. 8 apud: CHEVITARESE &amp; CORNELLI, 2003, p. 12); 2. A prpria teoria do sistema mundial faz concesses preservao das culturas satlites enquanto meios de reproduo de capital na ordem dominante europia (SAHLINS, 1990, p. 9 apud: CHEVITARESE &amp; CORNELLI, 2003, p. 12, 13); 3. O sistema , no tempo, a sntese da reproduo e da variao (SAHLINS, 1990, p. 9 apud: CHEVITARESE &amp; CORNELLI, 2003, p. 13); 4. A transformao de uma (dada) cultura tambm um modo de sua reproduo (SAHLINS, 1990, p. 174 apud: CHEVITARESE &amp; CORNELLI, 2003, p. 13, 14); s crticas acima, Chevitarese e Cornelli comentam, respectivamente, a cada uma: 1. No momento da interao as culturas judaica, crist e grega se caracterizavam como sistemas abertos e estabeleciam negociaes at certo limite. O que implica em dizer que os ensaios so baseados na ideia de negociao cultural e no de influncia de uma cultura sobre as demais (SAHLINS, 1990, p. 8 apud: CHEVITARESE &amp; CORNELLI, 2003, p. 12); 2. Pode-se observar que os povos dominantes fizeram vrias concesses aos povos dominados, seja no campo religioso ou mesmo na forma como eram produzidas as riquezas em seus respectivos territrios (SAHLINS, 1990, p. 9 apud: CHEVITARESE &amp; CORNELLI, 2003, p. 12, 13); 3. As interaes culturais entre dominantes e dominados devem ser vistas como uma via de mo dupla, a partir disso entende-se que a reproduo cultural resultante ser diferente, com uma especificidade gerada tanto no tempo quanto no espao (SAHLINS, 1990, p. 9 apud: CHEVITARESE &amp; CORNELLI, 2003, p. 13). 4. Como houve vrias transformaes dentro das culturas judaicas e crists mais prudente falar em judasmos e cristianismos. Tais transformaes foram produtos de seus contatos mtuos e, tambm, com as culturas politestas (SAHLINS, 1990, p. 174 apud: CHEVITARESE &amp; CORNELLI, 2003, p. 13, 14). Por serem ensaios e os temas muito abrangentes e por vezes complexos, os textos revelam-se insuficientes. Apesar disso, as contribuies trazidas para compreender a identidade do cristianismo e sua identidade so muitas. Eles trazem para o palco das pesquisas 4</p> <p>questes importantes sobre os judeus da Galilia e Jerusalm, como o seu contato com os gregos e a questo da helenizao destes judeus. Falam sobre a magia no mundo antigo e sua conexo com o cristianismo, helenismo e judasmo. Interessante tambm, so os Papiros Mgicos Gregos, que nos do uma viso muito mais clara do sentido religioso, principalmente, na chamada religiosidade popular da poca. De forma geral, os artigos revelam um cristianismo muito vinculado ao helenismo. Suas prticas, mesmo aspectos doutrinais mostram o quanto a religio crist negociou com a religio grega. 2) O reconhecido autor da famosa Paidia: a formao do homem grego, o fillogo Werner W. Jaeger escreveu tambm Cristianismo Primitivo e Paidia Grega. Esta obra foi organizada a partir de conferncias realizadas por ele na Universidade de Harvard em 1960 e publicada no ano seguinte. Ela no pde ser concluda devido morte do autor em outubro de 1961. Apesar da data um pouco recuada, esta uma obra de fundamental importncia para se analisar o desenvolvimento da identidade do cristianismo primitivo. Chevitarese e Cornelli apontam que3 (CHEVITARESE &amp; CORNELLI, 2003, p. 9): a) Jaeger um dos autores, do sculo passado, mais importantes que pesquisam o mundo antigo; b) Esta obra de Jaeger, apesar de ter sido publicada h mais de 40 anos traz questes bastantes atuais e oportunas; c) Verifica-se que muitas das pesquisas atuais so feitas a partir das ideias que ele desenvolveu. O recorte temporal de Jaeger um pouco mais extenso que o nosso. Ele examina o cristianismo do sculo I ao IV d.C., mas, faz algumas incurses nos ltimos trs sculos a.C. para avaliar a fundamental importncia da expanso da cultura grega para o crescimento do cristianismo. Ele reconhece a origem judaica do cristianismo, porm, afirma que (JAEGER, 1998, p. 13-15): a) A parte judaica que aceita o cristianismo uma parte, de certa forma, j helenizada; b) E que estes judeus foram os primeiros missionrios cristos.</p> <p>3</p> <p>As concluses a respeito de Jaeger e sua obra, apontadas por Chevitarese e Cornelli, so feitas tambm a Momigliano e sua obra.</p> <p>5</p> <p>Para confirmar esta duas observaes argumenta que (JAEGER, 1998, p. 15-17): a) O nome de vrios discpulos eram nomes gregos, como por exemplo, Estevo (Stephanos), Felipe (Philippos), etc.; b) O nome cristo (christianoi) teve sua origem numa cidade grega, Antioquia; c) O grego era falado em todas as sinagogas (synagogai) das cidades mediterrneas; d) As discusses de Paulo com os judeus em suas viagens eram feitas em grego e com a perspiccia da lgica grega. e) Toda citao do Antigo Testamento no Novo Testamento feita segunda a traduo grega, isto , a Septuaginta, e no o original hebraico; f) Fora as colees de ditos de Jesus e os evangelhos4, os escritores cristos da era apostlica utilizaram-se de epstolas, que eram formas literrias gregas. Apesar destes fatores ele aponta que nem todos os pensadores cristos eram favorveis a uma helenizao do cristianismo. Entre eles cita Taciano, o assrio e Tertuliano, o africano. 3) Mais recentemente tivemos contato com a obra Christian Identity In The Jewish And Graeco-Roman World (Identidade Crist no Mundo Judaico e Greco-Romano), publicada em 2004, da Professora Dra. Judith M. Lieu, pesquisadora de Cambridge e professora titular na Leverhulme Major Research Fellowship, Londres, Inglaterra. Como o prprio ttulo j diz, o objetivo da autora trabalhar com a identidade do cristianismo primitivo. Como esta identidade surgiu? Por isso, ela pergunta: Como no s estrangeiros, mas tambm aqueles que se proclamavam cristos teriam entendido o ttulo de cristo e como o sentido de ser cristo surgiu? (LIEU, 2004, p. 1). O recorte temporal de Lieu coincide-se com o nosso. Ela investiga o nascimento da identidade crist na literatura at meados do sculo II d.C. Tenta comparar os processos de formao da identidade em relao aos judeus e os outros povos no mundo greco-romano. O ponto central nesta obra que Lieu trabalha com uma identidade multifacetada do cristianismo, com suas razes judaicas e o seu encontro com as culturas greco-romanas.</p> <p>4</p> <p> importante observar que o autor do evangelho de Lucas utiliza-se de vrios recursos da historiografia helenista (SANTOS, 2008, p. 49-68).</p> <p>6</p> <p>A metodologia de Lieu para a construo da identidade crist segue o tema dos captulos5, de forma que cada captulo representa um passo na busca por essa identidade (HARLAND, 2005). Seus passos so: A partir de um momento histrico (Policarpo, bispo da igreja de Esmirna diante do procnsul para explicar a este sobre a natureza do cristianismo) analisa a recepo da confisso de Policarpo pelos romanos e gentios (captulo 1); Volta-se para literatura Judaica e Crist examinando o papel dos textos na construo Examina as maneiras em que as histrias da Escritura Judaica foram relembradas e da identidade Crist (captulo 2); recontadas. Ela afirma que a mesma histria pode ser utilizada de forma diferente por reivindicadores diferentes, enquanto as diferentes histrias puderem ser reconciliadas uma com outra em um nico texto ou autor (LIEU, 2004, p. 97) (captulo 3); Analisa a importncia das fronteiras na construo da identidade crist (captulo 4). Em suas palavras:Ento a delimitao parte fundamental para a ideia de identidade, pois, so os limites que aproximam os que compartilham o que comum e exclui aqueles que nada de comum tm a compartilhar, que asseguram a continuidade e coerncia, e salvaguardam-se contra a contaminao ou invaso ou assim parece (LIEU, 2004, p. 98).</p> <p>Utilizando-se de concepes do socilogo Pierre...</p>