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  • MENTES BRILHANTES

    "A Beautiful Mind"Sylvia NasarFaber and Faber, Londres e Nova Iorque, 1 9 9 9(traduo portuguesa a publicar pela Rel-gio dgua)

    "Copenhagen"Michael FraynMethuen Drama,2000(representao portuguesa a ser preparadapelo Novo Grupo, de Lisboa)

    O filme "Uma Mente Brilhante" passourecentemente nas salas de cinema e ganhouscares, nomeadamente o scar para omelhor filme, recebido pelo realizadornorte-americano Ron Howard (o mesmode "Apollo 13").

    O enredo tem, tal como "Apollo 13",uma base cientfica. Desta vez, no setrata de contar o drama dos astronautasque no sabem se salvaro depois de te-

    rem lanado o desesperado alerta: "Hous-ton, we have a problem!". Trata-se antesde contar a histria de um matemticode gnio, que trabalhou nos melhores s-tios da cincia mundial (Instituto deEstudos Avanados de Princeton, ondeEinstein passou os ltimos tempos dasua vida, e o Massachussetts Institute ofTechnology, MIT), que depois atacadopor esquizofrenia e que consegue no sresistir doena como at, facto extra-ordinrio, ganhar, j com mais de 60anos, o Prmio Nobel da Economia (em1994). John Nash, o cientista em causa,est vivo, como a pelcula faz questo delembrar no final, e esteve at na cerim-nia da entrega dos scares.

    Mas h importantes diferenas entre arealidade e a fico do filme: alguns reali-zadores costumam, de resto, ser atacadospor este tipo de "esquizofrenia artstica". Hollywood soube pintar com tons cor--de-rosa uma biografia que se encontranua e crua no livro que Sylvia Nasar, jor-nalista de economia do "New Yo rkTimes", publicou em 1998 e que d ottulo ao o filme. Trata-se de uma exten-sa biografia, baseada em ampla pesquisa,de John Nash. O livro j era um xitoantes do filme, mas o cinema projectou--o para o famoso t o p - t e n do "New Yo rkTi m e s " , onde ainda est o livro, muitomais do que o filme, retrata bem o que a cincia em geral e a matemtica emparticular. Na vida real, Nash mostratendncias homossexuais na juventude etem um filho de uma enfermeira ao qualno reconhece a paternidade. Nada dissoaparece no filme. Casa-se a seguir comuma estudante de fsica do MIT, AliciaLarde. Contudo, enquanto na vida realAlicia o abandona, incapaz de resistir aostress, no filme ela uma herona que seconserva sempre ao lado do gnio des-graado pela doena mental (os doisvoltaram a juntar-se recentemente, comoque confirmando o final feliz da ficocinematogrfica). Na vida real o Nobelfoi partilhado com dois economistas, aopasso que no filme Nash aparece sozinhoa receber a medalha em Estocolmo.

    A crtica no recebeu bem o filme(Mrio Jorge Torres, no "Pblico" de 22

    LIVROS E MULTIMDIA

    de Fevereiro, dizia que o veculo para oscar um pastelo indigesto, destinado avender gato por lebre a quem quiser con-sumir, ao passo que Manuel Cintra Fer-reira, no "Expresso" do mesmo dia, es-crevia que o exemplo de um vencedoranunciado, no pelas qualidades mas simpelo calculismo e oportunismo). Achou-osentimentalide, piegas, lamechas (pordar a imagem de cientista louco salvo pelamulher a um pblico vido de histriasextravagantes). O filme tem, porm, omrito de mostrar a vida e obra de umcientista ilustre. Est povoado de refe-rncias cientficas que podero passard e s p e rcebidas maioria dos especta-dores. Porm, pior do que a acentuaode uma histria de novela ("corao salvacrebro perdido"), tem o demrito deampliar o esteretipo do cientista malu-co, algum que vive apartado do mundoreal, permanentemente embrenhado emelucubraes e assaltado por fantasmas. certo que alguns cientistas, em particu-lar matemticos, conheceram a demn-cia ou pelo menos andaram l perto (porexemplo, o austraco Kurt Goedel, com-p a n h e i ro de Einstein em Pr i n c e t o n ) .Mas no menos certo que no h qual-quer relao entre esquizofrenia e genia-lidade. A grave doena psiquitrica, nor-malmente incurvel, atinge cerca de umpor cento da populao, apanhandotambm e como bvio os cientistas,que so, a este respeito, pessoas como asoutras.

    A mostrar que est na moda a apropria-o pelos meios artsticos de temas cien-tficos, re p a re-se tambm na pea"Copenhagen", da autoria de MichaelFrayn, que explora o encontro de doisdos maiores fsicos do sculo passado, od i n a m a rqus Niels Bohr e o alemoWerner Heisenberg. Frayn um drama-turgo nascido em Londres, que comeoua sua carreira como jornalista no "TheGuardian" e no "The Observer". A peaestreou primeiro em Londres em 1998 edepois em Nova Iorque em 2000. Ospersonagens so trs: alm de He i-senberg e Bohr, entra Margarethe Bohr,mulher deste ltimo. O tema glosado arelao de incert eza de He i s e n b e r g .Frayn d a entender que a incerteza se

  • aplica acima de tudo s aces humanas:Heisenberg no tem a certeza de quaiseram as suas intenes quando foi a Co-penhaga encontrar-se com Bohr... Osdois homens, duas mentes brilhantes,encontram-se em plena guerra mundial eem causa est nada mais nada menos doque o futuro do mundo: Bohr, o mestre,est do lado dos aliados e Heisenberg, odiscpulo, do lado dos alemes. Ambosesto ou podero vir a estar de posse deimportantes segredos atmicos. Foramh pouco re velados documentos quemostram o profundo desencanto deBohr relativamente conduta de Hei-senberg (ver "Fsica no Mundo").

    Quer "Uma Mente Brilhante" quer"Copenhagen" mostram como a cinciapode chegar ao grande pblico. Estegosta de se alimentar de dramas, querseja o drama individual de um doenteque se cura como que por milagre, querseja o drama de todo o mundo, cujo des-tino depende do encontro de dois sbios.

    CARLOS FIOLHAIStcarlos@teor.fis.uc.pt

    POR QUE ACREDITAM

    AS PESSOAS EM COISAS

    ESTRANHAS

    "Por que Acreditam as Pessoas em CoisasEstranhas.Pseudocincia,Supersties eoutras Confuses do Nosso Tempo"Michael ShermerReplicao, 2001.

    Na "Gazeta de Fsica" recebo muitas ve-zes artigos com contedos que, primeira vista, tm todo o aspecto de se-rem cientficos mas que, segunda vista,se revelam algo estranhos.

    Um dos temas recorrentes consiste emmostrar que a teoria da relatividade esterrada ou incompleta. Outro, por vezesrelacionado com o anterior, a cosmolo-gia e, dentro deste tema, a tese favoritaconsiste em mostrar que o Big Bangnun-ca existiu. Os autores apresentam emgeral frmulas matemticas, o que atfacilita a descoberta de erros. Mas, porvezes, a confuso to grande que dif-cil descobrir o erro (como dizia Wolf-gang Pauli para rebater uma crtica: Oque diz nem sequer chega a estar errado!).

    Em geral, os autores no aceitam bem arejeio do artigo, reclamando que sedeviam expor todas as ideias livre crti-ca de todos. Mas no se pode fazer issopor uma questo de espao e de tempo.De espao, porque uma revista no temtodo o espao, sendo por isso obrigada a

    fazer uma escolha dos materiais que pu-blica de acordo com os objectivos quepersegue e com o pblico-alvo que tem.As contribuies cientficas originaisdevem ser enviadas para revistas interna-cionais especficas e no para a revistanacional de divulgao da Fsica. Mas tambm um problema de tempo, porqueo tempo dos cientistas limitado e elesnaturalmente preferem concentr-lo naresoluo dos seus prprios problemasou no exame de artigos de colegas seusconhecidos do que procurar erros emartigos obscuros, cujos autores no do-minam o mtodo cientfico (no lhes de-vemos chamar cientistas, uma vez queno aceitam o primado do reconheci-mento do erro).

    claro que a teoria da relatividade podeum dia vir a ser ultrapassada. Que existeuma pequena chance de o Big Bangnunca ter existido. Isto : em cincia des-cobrem-se erros. Mas dificilmente essadescoberta ser feita por quem no do-minar o aparato da cincia e, por isso,no conhecer profundamente o quadrocientfico estabelecido. Quem escre veesses artigos estranhos julga que fcilf a zer cincia fundamental. Mas no:trata-se de uma das actividades humanasmais difceis e exigentes, no estando aoalcance de diletantes. H mtodos emcincias para no errar e a aquisio des-ses mtodos exige um treino prolongadoe intenso.

    Em suma, algumas pessoas, at cultas,so capazes de fabricar e acreditar emcoisas estranhas. E, se isto acontece comessas pessoas, por maioria de razo ocor-re com outras. As pessoas, em geral, socapazes de fabricar e de acreditar emcoisas muito, muito estranhas...

    Pode pensar-se que tudo isso no faz mala ningum. Mas pode fazer mal car-teira! Mo amiga fez-me chegar hpouco um prospecto (autntico, poistinha nomes, moradas, telefones e pre-os de consulta) que re c o m e n d a va a"cura taquinica" de vrias doenas. Ostaquies so partculas hipotticas,baseadas em teorias que ultrapassam a darelatividade, que andariam com umavelocidade superior da luz. Ser queum ingnuo que comprar a dita "curataquinica" vai viajar para trs no tem-po, at uma altura em que ainda noestivesse doente?