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    IDEOLOGIA E DIALOGISMO: 1 MIKHAIL BAKHTIN 2

    HISTRIA E CONCEITOS QUE CABEM NA SALA DE AULA 3

    Ricardo Santos David (UNIATLNTICO) 4 ricardosdavid@hotmail.com 5

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    RESUMO 7

    O presente artigo tem como objetivo geral propor uma reflexo sobre o lugar da 8 palavra na interao verbal em sala de aula. Duas importantes concepes so discu-9 tidas aqui, a palavra e a interao verbal, alm da linguagem. Tais discusses tero 10 apoio no pensamento bakhtiniano e seus pares sobre as categorias citadas. Para o au-11 tor russo, a interao a prpria concepo de linguagem, enquanto a palavra a sua 12 principal mediao. Ainda para Mikhail Bakhtin, quando interagimos, sempre faze-13 mos isso de um lugar, que s nosso, e, a partir dele, lanamos nosso olhar sobre o ou-14 tro permeado de valores, axiologias essas que tm como ponte de transmisso a pala-15 vra, que no por acaso considerada o signo ideolgico por excelncia. a partir des-16 sa viso que procuramos mostrar essa relao palavra e interao verbal em sala de 17 aula, tendo como principais interlocutores professores do ensino bsico. A razo des-18 sa escolha justificada por entender que tanto a interao quanto a palavra cruzam o 19 cotidiano escolar, bem como o da nossa vida. Por uma questo tica, os resultados do 20 trabalho trazem uma contribuio social direta, que colaborar na educao pblica. 21

    Palavras-chave: Interao verbal. Palavra. Ensino-aprendizagem. 22

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    1. Introduo 24

    Mikhail Bakhtin dedicou a vida definio de noes, conceitos e 25 categorias de anlise da linguagem com base em discursos cotidianos, ar-26 tsticos, filosficos, cientficos e institucionais. Em sua trajetria, notvel 27 pelo volume de textos, ensaios e livros redigidos, esse filsofo russo no 28 esteve sozinho. Foi um dos mais destacados pensadores de uma rede de 29 profissionais preocupados com as formas de estudar linguagem, literatura 30 e arte, que inclua o linguista Valentn Nikolievich Voloshinov (1895-31 1936) e o terico literrio Pavel Medvedev (1891-1938). 32

    Um dos aspectos mais inovadores da produo do Crculo de 33 Bakhtin, como ficou conhecido o grupo, foi enxergar a linguagem como 34 um constante processo de interao mediado pelo dilogo - e no apenas 35 como um sistema autnomo. "A lngua materna, seu vocabulrio e sua 36 estrutura gramatical, no conhecemos por meio de dicionrios ou manu-37 ais de gramtica, mas graas aos enunciados concretos que ouvimos e re-38

    mailto:ricardosdavid@hotmail.com
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    produzimos na comunicao efetiva com as pessoas que nos rodeiam", 1 escreveu o filsofo. Segundo essa concepo, a lngua s existe em fun-2 o do uso que locutores (quem fala ou escreve) e interlocutores (quem 3 l ou escuta) fazem dela em situaes (prosaicas ou formais) de comuni-4 cao. 5

    O ensinar, o aprender e o empregar a linguagem passam necessa-6 riamente pelo sujeito, o agente das relaes sociais e o responsvel pela 7 composio e pelo estilo dos discursos. Esse sujeito se vale do conheci-8 mento de enunciados anteriores para formular suas falas e redigir seus 9 textos. 10

    Alm disso, um enunciado sempre modulado pelo falante para o 11 contexto social, histrico, cultural e ideolgico. "Caso contrrio, ele no 12 ser compreendido", explica a linguista Beth Brait, estudiosa de Mikhail 13 Bakhtin e professora associada da Universidade de So Paulo (USP) e da 14 Pontifcia Universidade Catlica (PUC), ambas na capital paulista. Nessa 15 relao dialgica entre locutor e interlocutor no meio social, em que o 16 verbal e o no verbal influenciam de maneira determinante a construo 17 dos enunciados, outro dado ganhou contornos de tese: a interao por 18 meio da linguagem se d num contexto em que todos participam em con-19 dio de igualdade. 20

    Aquele que enuncia seleciona palavras apropriadas para formular 21 uma mensagem compreensvel para seus destinatrios. Por outro lado, o 22 interlocutor interpreta e responde com postura ativa quele enunciado, 23 internamente (por meio de seus pensamentos) ou externamente (por meio 24 de um novo enunciado oral ou escrito). 25

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    2. Cada esfera de produo exige uma escolha de palavras 27

    A reflexo bakhtiniana sobre a linguagem e suas infinitas possibi-28 lidades privilegiou o romance como objeto de estudo, especialmente a 29 prosa do autor russo Fiodor Dostoivski (1821-1881). De acordo com 30 Irene Machado, doutora em Letras pela USP e mestre em comunicao e 31 semitica pela PUC, isso no se deve ao fato de esse ser o gnero de 32 maior expresso na cultura letrada. "O romance s interessou a Bakhtin 33 porque este viu nele a representao da voz na figura dos homens que fa-34 lam, discutem ideias e procuram posicionar-se no mundo", explica ela 35 em Bakhtin Conceitos-Chave, livro organizado por Beth Brait. 36

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    O exame dos discursos no romance possibilitou ao pensador per-1 correr tambm os caminhos da anlise das prticas de linguagem no dia a 2 dia. Nesse ir e vir entre discursos artsticos e cotidianos, Mikhail Bakhtin 3 instaurou uma linha de pensamento alternativa retrica e potica deli-4 neadas por Aristteles (384-322 a.C.) e consagradas at ento nas anli-5 ses de gneros literrios. 6

    Uma das distines que ele se permite fazer a classificao dos 7 gneros quanto s esferas de uso da linguagem. Os discursivos primrios 8 so espontneos e se do no mbito da comunicao cotidiana, que pode 9 ocorrer na praa, na feira ou no ambiente de trabalho. J os secundrios 10 so produzidos com base em cdigos culturais elaborados, como a escrita 11 (em romances, reportagens, ensaios etc.). 12

    Para cada esfera de produo, circulao e recepo de discursos, 13 existem gneros apropriados. Todo discurso requer uma escolha diferente 14 de palavras, que determina o estilo da mensagem. "No h receita pronta. 15 Se o aluno no ler muita poesia, dificilmente ser capaz de escrever uma 16 respeitando as marcas do gnero", exemplifica Brait. 17

    Ao considerar a importncia do sujeito, das esferas de comunica-18 o e dos contextos histricos, sociais, culturais e ideolgicos no uso efe-19 tivo da linguagem, Mikhail Bakhtin e o Crculo engendraram uma aber-20 tura conceitual que permite, hoje, analisar as formaes discursivas dos 21 meios de comunicao de massa e das modernas mdias digitais. Suas te-22 orias, fundamentadas no dilogo, a forma mais elementar de comunica-23 o, mantm a atualidade graas incrvel capacidade de se relacionar 24 com o passado, o presente e o futuro. 25

    Mikhail Mikhailvitch Bakhtin nasceu em Orel, ao sul de Mos-26 cou, em 1895. Aos 23 anos, formou-se em Histria e Filologia na Uni-27 versidade de So Petersburgo, mesma poca em que iniciou encontros 28 para discutir linguagem, arte e literatura com intelectuais de formaes 29 variadas, no que se tornaria o Crculo de Bakhtin. 30

    Em vida, publicou poucos livros, com destaque para Problemas 31 da Potica de Dostoivski (1929). At hoje, porm, paira a dvida sobre 32 quem escreveu outras obras assinadas por colegas do Crculo (h tradu-33 es que as atribuem tambm a Mikhail Bakhtin). Durante o regime sta-34 linista, o grupo passou a ser perseguido e Mikhail Bakhtin foi condenado 35 a seis anos de exlio no Cazaquisto (s ao retornar, ele finalizou sua tese 36 de doutorado sobre cultura popular na Idade Mdia e no Renascimento). 37 Suas produes chegaram ao Ocidente nos anos 1970 e, uma dcada 38

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    mais tarde, ao Brasil. Mas Mikhail Bakhtin j havia morrido, em 1975, 1 de inflamao aguda nos ossos. 2

    3

    3. Os caminhos de Bakhtin pensar a linguagem para alm das teo-4 rias da poca 5

    Mikhail Bakhtin e seu Crculo dialogaram com as principais cor-6 rentes de pensamento de seu tempo. Na Rssia da dcada de 1920, ti-7 nham destaque as teorias de Karl Marx (1818-1883), das quais o Crculo 8 aproveitou a noo fundamental da vida vivida como origem da forma-9 o da conscincia. 10

    Na mesma poca, o formalismo imperava como modelo de anlise 11 da literatura. Segundo essa linha, o primeiro passo para a construo de 12 uma cincia literria era considerar nesse campo de estudo apenas o que 13 fosse estritamente "literrio" (com nfase na poesia e num claro desprezo 14 prosa, considerada gnero menor, o que mereceu contestaes severas 15 do Crculo). 16

    No que tange reflexo sobre a linguagem, as teorias bakhtinia-17 nas se distanciaram da abordagem proposta pelo suo Ferdinand Saussu-18 re (1857-1913), que concebia a lngua como social apenas no que con-19 cerne s trocas entre os indivduos. Mikhail Bakhtin e o Crculo, porm, 20 viam a lngua sofrer influncias do contexto social, da ideologia domi-21 nante e da luta de classes. Por isso, era ao mesmo tempo produto e pro-22 dutora de ideologias. "Vale dizer que, antes de refutar qualquer tese, es-23 ses pensadores russos delineavam um panorama das ideias e dos concei-24 tos abordados e, partindo de aspectos pouco explorados, propunham no-25 vas concepes", explica Beth Brait. 26

    De fato, Mikhail Bakhtin no se detm explicitamente sobre ques-27 tes da educao. Mas toda a sua teoria, ao enfatizar a importncia do 28 social, do outro, da cultura, colocando a linguagem como um eixo central 29 e desenvolvendo categorias como interao verbal, dialogia, polifonia, 30 trazem implicaes para o campo pedaggico. 31

    Ele no inaugura uma metodologia, mas conduz a uma nova viso 32 de mundo, que se revela numa forma outra de olhar a educao. A inter-33 locuo com Mikhail Bakhtin produz um efeito transformador: impos-34 svel resistir s suas provocaes. No se penetra no mundo terico de 35 Mikhail Bakhtin sem que se opere mudanas em nossa maneira de ser. 36

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    O que o aluno para mim? Objeto que observo e sobre o qual der-1 rubo o " meu saber" ou um sujeito com o qual compartilho experincias? 2 Algum a quem no concedo o direito de se expressar, o direito de auto-3 ria? Ou quem sabe, apenas reconheo sua voz quando ela u

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