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    ---

  • 1l;\f.://7'IN (lUlroSt'>ilt'ciIO,-cl",ve

    ___ o Ce q/le paria uml dire. Lconomiedeschangeslingistiqucs.P~ris:Faj'ard,1982.

    ___ o Homo academimJ. Paris:Minu;r, 1984.

    ___ o A ecol/omla dtls trocassimlJlc(lS. 3. ed. So Puulo:Perspectiva,1992.

    ___ o A economiadas rfCtille'.le rrincipc dialogique.Suivi de crils dtr (freie de 8akhrlne.I'"ris; Seuil, 1981.

    , ti'

    Interdiscursividadeeintertextualidade

    Jos Luiz Fiorin

    Nnm tlhi eauidenuHqui futuracccincrunt.si nOlldumsumI Nequeenim potestuideri id quoJ non cst.Et qui narranrpraeterita,non

    UdrjllCllL'mnarmrcllt,s; animo iIIa non cemerem:quacsi IlUJJaessem.

    cemiomnino non posscnr,l

    (Sallto Agostinho)

    S Ilrr"~xSl~" qll~"" p"de .,erillmginaJo.

    (MrfflW Mendes)

    ExisteI,cCS!coexisrer.

    (Gabrle! Mllcul}

    Agostinho,emsuabelareflexosobreo tempo,mostra-nos,aodiscutir

    a existnciado passadoe do futuro,quessepodefalardo que e no

    daquiloque no . Concluipelaexistnciado passadoe do futuro porquefalamosdele. Sunt fllJO etjittura etprae.terita:Essas reflexesagostinianas

    vm bem a fnopsito, gU:llldo se trata de explicar problemadainterdiscursividadec da intencxtualidadeem Bakhtin. Se formosarer-nos

  • Il,\KIl TlN oUtrost'tlnccit"s'c1>nvc. .._ .---... -

    ao significante,no temoso quedizer,pois,na obrabakhtiniana,noocor-remostermosinterdiscurso,intercexto,interdiscursivo,interdiscursividade,

    intercextualidade.No conjunto da obra do autor russoapareceuma nica

    vezo termo intertextual:"As relaesdialgicasintercexcuaise intratextuais.

    Seucarterespecfico(extralingstico).Dilogo edialtica"(Bakhtin, 1992,p. 331).No entanto,a primeiracoisaaverificardiantedessaocorrnciaseelase tratade um problema de traduo.Como a traduobrasileirafoi

    feitaa partir do francs,consultou-seprimeiro o textoem francs,em que

    a palavra tambm aparece: "Les rapports dialogiques intertexwels etintratextuels.Leur caractereparticulier (extra-linguistique).Dialogique et

    dialectique"(Bakhtin, 1984,p. 313).Como, no entanto,a traduofran-cesacerramenteestariaimpregnadadas ressonnciasda obra de Kristeva,

    que introduziu Bakhtin na Frana,seriaprecisoconsultaroutrastradues

    feitasa partir do textorusso.Tomando a traduoespanhola.nota-sequenelao termonoocorre:"Las relacionesdialgicasentreIas textosy dentro

    delostextos.Sucarcterespecfico(no lingstica).El dilogoy Iadialctic'

    (Bakhtin, 1985,p. 296). Essa traduo parecemais fiel ao texto russo(Bakhtin, 1986,p. 299).Assim, nohnem mesmoo termointertextuaLnaobra bakhtiniana2e esseverbete,portanto no teria lugar.No entanto,a

    questo mais complexa,pois, como nota Srio Possenti,"sob diversos

    nomes- polifonia, dialogismo,heterogeneidade,intertextualidade- cada

    um implicando algumvisespedfico,como sesabe,o interdiscursoreina

    soberanoh algumtempo" (Possenti,2003, p. 253).Assim, a questo: a)verificarse, sob outro nome, a questodo interdiscursoestpresentena

    obra de Bakhtinj b) examinarse pO,ssveldistinguir, com basenasidiasbakhtinianas,interdiscursividadee intertextualidade.

    oAPARECIMENTO DO TERMO INTERTEXTUALIDADEA palavraintertextuaLidttdefoi uma das primeiras,consideradascomo

    bakhtinianas,a ganharprestgiono Ocidcme. Issosedeugraas obra de

    J Jia Kristeva.Obtevecidada.niaacadmica,antesmesmode termoscomo

    dialogismo alcanaremnotoriedade na pesquisa lingstica e literria.Rastreemosbrevementea histriado aparecimentodessetermo.

    162

    __ '__. .._.. _.~ lmcrdiscursividndcc imertextunlidadcJOS Lurz FIORIN

    Em 1967,Kristevapublica,na Critique,umalongadiscussoacercadasteoriasbakhtinianasexpostasnasobrasProblemasdapoticadeDostoivskie

    A obradeFranaisRabel.ais(Kristeva, 1967,pp. 438-65).3A preocupao

    da semjoticistaeradiscutir o textoliterrio.Segundoela,paraBakhtin, o

    discursoliterrio"no umponto(umsentidofixo), masum cruzamentode

    superficiestextuais,um dilogo de vriasescrituras"(Idem, p. 439). Todo

    textoconstri-se,assim,"comoum mosaicodecitaes,todo textoabsor-

    oe transformaode um outro texto"(Idem, p. 440). Em sualeiturada

    obrade Bakhtin, Kristevaidentificadiscursoe texto:"O discurso(o texto)

    um cruzamentode discursos(de textos)em que se l, pelo menos,um

    outrOdiscurso(rexto)"(Idem, p. 84).Afirma aindaque,no lugarda noo

    de intersubjetividade, instala-sea de intertextualidade(Idem, p. 441).Bakhtin operacom a noo de intertextualidade,porque consideraque o

    "dilogoa nicaesferapossveldavidada linguagem"(Idem,p. 443). Por

    isso,ele v "a escrituracomo leiturado corpusliterrio anteriore o texto

    comoabsoroc rplicaaum outrotexto"(Idem,p. 444).EstaelltfOnizada

    a noo de intertexcualidadecomo procedimentorealde constituiodo

    texto.Mais t,lt't!C,Kristcvavai elaborara propostatericade um:!cincia

    do texto,a que denominouSemanlise(Kristeva,1974).

    No entanto,essaintertexrualidadegeneralizadanopodefuncionarsesevo textodamaneiracomotradicionalmenteelefoidefinido.Porisso,Kristeva

    tratade repensaressanoo.Roland Banhes,em verbeteparaa ediode

    1973da EncyclopediauniversaLis,explica,de maneiradidtica,esseconceito

    redefinidopelasemioticistablgara(Barthes,1994,pp. 1.677-89).Segundoa opinio corrente,o texto "a superfciefenomnicada obraliterria: o

    tecidodaspalavrasutilizadasna obrae organizadasde maneiraa impor um

    sentidoestvele tantoquanto possvelnico" (Idem, p. 1.677).Como dizBanhes,no hll1do,eleno passade "um objetoperceptvelpelosentidoda

    viso"(Idem. ibid.). Cornoo texto "o queestescritO",ele, naobra,

    o (lU~,~\lSdl:l" g;lfallti"dacoi,ae,crita,CtJi"S lillle>desnlvagu:ltda

    dl' l'OIlCl'illr,,,de UI11 lado,n cstabilidndl"n pcrman,\cindn inscri-

    no.deslilllld.,acorrigir fmgilidndcea imprecisod.,memria;de

    Olltro.a It'galidadcda lelra,tr.\OirrcCllsvel,indelvel,00 semitlo

    quc () aulOrda obra nela imencionalmelltedepOSitou,O tex[O

    umaarmacontrao tempo.o esquecimento,econtraasvelhacarias

    163

  • /1t1KII7'lN oUlr"S(;(lIlCCiWs-chayc

    dapalavm,que,muito r.,cilmcme.voltaatrs,airem-se,renega-se.A

    noode rextocsd, portanto,historicamellteligad~a todoumcon-

    jUlltOdeins!ituie,:direito,Igreja,lireraturn,ensino;o texto um

    objetomornl: o queeMaeserim,enquantoparticipado contrnto

    social;eleassujeita,exigeserobservadoe re$pdtado;m:lSem troc.1

    confere linguagemum atributoinestimvel(queemsuaessncia

    eb naotem):a .'egurnn.1.(Idem,ibid.)

    O textoassimconcebido,como "depositrioda prpria materialidade

    do signiflcanre"(Idem, p. 1.678),deveriaser mantido em sua exatido.Para isso,cria-sea filologia, que sevaleda tcnicada crtica textual.Essa

    concepode textoestligadaa umamerafsica,a daverdade.Ora, no final

    do sculoXIX, comea~sea demoliressametaf{sica.Por isso;tambma no-

    odetextoentraemxeque(Idem,pp. 1.677-80).Citando Kristeva,Barrhesredeflneo texto:"aparelhotranslingsticoque redistribuia ordem da ln-

    gua colocandoem relaouma palavracomunicativa,que visa informa-

    o direta, com diferentesenunciadosanterioresou sincrnicos" (Idem,

    p. 1.680).Atribui a Kristevaa elaboraodos principaisconceitostericosimplicados nessanoo de texto: prticassignificantes,produtividade,

    significncia,fenotextoegenotextoe inrertextualidade.Dizer queo texto

    prticasignificanrequer dizer que "a significaose produz, no no nvel

    de uma abstrao(a lngua), tal como postularaSaussure,mascomo uma

    operao,um trabalho,em que se investem,ao mesmotempoe num s

    movimenro,o debatedo sujeito e do Outro e o contextosocial" (1994,p. 1.681).O textoumaprodutividade,porqueo teatrodo trabalhocom:1 lngua, que ele desconstrie reconstri (Idem, ibid.). significncia,porque um espaopolissmico,ondeseenrrecruzamv,riossentidospos-

    sveis,A signiflcncia um processo,em que o sujeito se debatecom o

    sentidoesedesconrri(Idem, p. 1.682).O fenotexto "o fenmenoverbaltal como eleseapresentana estruturado enunciadoconcreto". contin-

    gente.J o genotcxto()campodasignificncia,domnio verbalc pulsional,ondesecstruturao fenotexto,lugardaconstiruiodo sujeitodacnunciao

    (Idem, pp. 1.682~3)."Todo texto um intertexro;outros textosestopre~sentesnele,em nveisvariveis,sob formasmais ou mcn~~~e~o;;fjcdveis"

    (Idem, p. 1.683).A interrextualidade a maneirareal de construodotexto (Idem, ibid.).

    164

    hll('r(list"\lr~ivic.l"dcC ilHertcxltlulit1:lclc )051: 1.U1Z FIOR/N

    Como seobserva,o conceitode textoem Kristevae Banhes,na medida

    emquepdcica significante,em quedesconstrie reconstria lngua,emque o lugarde constituiodo sujeito,em que seu modo de funciona~

    mento real a relaoconstitutivacom OUtrostextos,poderiamuitOfacil-

    menrerecobriraquiloqueentendemospor discurso.Alis, esseconceitode

    textoapresentaum problema,que distinguir,de um lado, manifestao

    acabadado trabalhocom a lnguae,deourro, esseprprio trabalho.No

    semraz.'i.oqueKristevatevedediferenaro fenotextodo genotexto.E Banhes

    faz umadistinoentreo textoe a obra.Esta um objetoacabado,aquele

    um trabalho,umaproduo(Idem, p. 1684).Cabe uma ltima pergun-ta:por que essesautoresno utilizaramo termodiscurso?Porque,segundo

    Barrhes,essctermo estavacomprometidosemanticamente.A linguagem

    estavadivididaemduasregi6esdistintase heterogneasparafins deanlise:

    tudo o que erade nvel inferior ou igual fraseerado domnio da lings-

    tica;tudo o queestavano nvel superiorao da frase,O discurso,eraobjetode uma cincianormativa,a retrica(Idem, ibid.).

    Barthesnodesqualiflcaa lingstica, nema retrica,nema semitica,

    nemasemiologia.Apenaspropugnaaconstituiode umasemanlise,que

    teria um objeto, o texto,diversodaquelesdos camposdo conhecimento

    acimaeitados.A semitica,por exemplo,paraele,estudariao fenotexto.

    Ora, nesse