bakhtin dialogismo e_polifonia_primeiro_capitulo

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  • Para uma filosofia do ato: vlido e inserido

    no contextoMarilia Amorim

    Uma vida fundada na base silenciosa de seu libi no ser cai em um ser indiferente, enraizado em nada. Todo pensamento no correlacionado comigo enquanto imperativamente nico no seno uma possibilidade passiva, que

    poderia no ser, que poderia ser outra.Bakhtin

    Para uma filosofia do ato deve ter sido escrito por Bakhtin entre os anos de 1920 e 1924, logo depois de seu primeiro texto publicado, Arte e responsabilidade (1919), segundo vrios especialistas, como o caso de Katerina Clark e Michael Holquist1 e Caryl Emerson.2 Permaneceu como manuscrito inacabado e sem ttulo at ser publicado postumamente na Rssia em 1986, sob o ttulo K filosofii postupka, com introduo de Sergei Bocharov. provavelmente ao original que faz referncia a revista Art:3 Mikhal Bakhtin continua trabalhando em seu livro dedicado aos proble-mas da filosofia moral, citao feita por S. G. Botcharov, na introduo edio russa. O texto integra um conjunto de manuscritos que Bakhtin

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    havia guardado em um esconderijo em Saransk, cuja existncia somente seria revelada pelo prprio Bakhtin nos anos 1970, quando j se sentia a salvo das perseguies polticas. O esconderijo em questo data do perodo de retorno de seu exlio oficial no Cazaquisto.

    De acordo com Clark e Holquist, esse um perodo de grande efervescncia intelectual e artstica que contrasta com a situao social de caos e penria que atravessa a Rssia aps a revoluo. Do mesmo modo, o entusiasmo e vigor da atividade intelectual do jovem Bakhtin contrastam com uma condio de vida material difcil e uma sade j debilitada pela doena ssea que iria acompanh-lo durante toda a vida. Isso se reflete na prpria escritura do texto, cuja grafia parece expressar pressa, uma intensidade quase febril e, ao mesmo tempo, uma fragilidade fsica. Alguns trechos, justamente os mais legveis, foram escritos por sua esposa, para quem Bakhtin ditava o texto nos momentos de maior sofrimento com a doena.

    Os manuscritos foram encontrados em pssimo estado e algumas palavras no puderam ser decifradas, aparecendo no texto com imediatamente aps a palavra. Outras foram objeto de uma leitura hipottica e por essa razo esto seguidas de .

    At o momento, no existe traduo para o portugus. O leitor poder, entretanto, valer-se de trs verses. Cronologicamente, a primeira a aparecer no Ocidente a verso para o ingls, datada de 1993: M. M. Bakhtin, Toward a Philosophy of the Act, editada por Vadim Liapunov e Michael Holquist. Foi traduzida do russo por Vadim Liapunov, vem acompanhada de sete esclare-cedoras notas sobre a introduo e 175 notas sobre o texto, elaboradas pelo mesmo Liapunov. Conta, ainda, com uma consistente apresentao de Michael Holquist (Foreword), um prefcio traduo (Translators preface), assi-nado por Vadim Liapunov, e a traduo do texto introdutrio edio russa (Introduction to the russian editon), feita por S. G. Botcharov.

    Uma segunda verso aparece em espanhol em 1997: Mijail M. Bajtin, Hacia uma filosofia del acto tico: de los borradores y otros escritos. A traduo foi feita por Tatiana Bubnova e integra um conjunto formado por outros textos assinados Bakhtin e Voloshinov/Bakhtin: Autor y hroe en la atividade esttica, La palabra en la vida y la palavra en la poesia: hacia uma potica sociolgica e De los borradores, conjunto de escritos de Bakhtin, recuperados de arquivo, elaborados por ele entre as dcadas de 1940 e 1960. A edio, muito bem feita, vem acompanhada de um Prlogo, assinado por Iris Zavala, um Prefcio de

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    la tradutora, de Tatiana Bubnova, a Introduccin edio russa, de Serguei Botcharov, e, ainda, um posfcio, Para uma filosofia de la accin responsable, de Augusto Ponzio.

    Para realizao deste texto, baseei-me na verso do texto russo, que aparece em francs em 2003: Mikhal Bakhtine, Pour une philosophie de lacte,4 feita por Ghislaine Capogna Bardet, e traduzi todos os trechos aqui citados. Esta a primeira vez que o original russo foi traduzido em lngua francesa e isso no deixa de constituir um fato novo para os bakhtinianos, uma vez que a mudana de lngua alvo, na leitura de uma traduo, traz sempre reinterpretaes impor-tantes. Alm disso, a prpria tradutora Ghislaine Capogna Bardet5 assinala a presena de elementos novos em relao ao original de 1986. Algumas palavras, fragmentos e passagens puderam ser decifrados aps a edio de 1986 feita por Botcharov, que, enquanto no sai a nova edio russa, cedeu-os gentilmente tradutora francesa. Botcharov cedeu tambm notas de rodap do prprio Bakhtin que no constavam do texto de 1986. No dizer da tradutora, a redao concisa, at mesmo elptica, confere-lhes [s notas] s vezes um carter enigmtico.

    Seja pela diferena da lngua, seja pelo meu novo lugar, a leitura da tradu-o francesa deu-me a impresso de estar lendo um novo texto. Mas, de modo algum, esse texto no contraria o anterior do mesmo modo que o presente artigo no contraria aquele que escrevi poucos anos atrs.6 Naquela ocasio, eu falava da emoo em encontrar no primeiro grande texto de Bakhtin, so-mente posterior a Arte e responsabilidade (1919),7 o projeto de uma obra que se cumpriu quase que por inteiro. E essa emoo permanece intacta. Para uma filosofia do ato a matriz filosfica de tudo o que vem depois; confirma e esclarece os demais textos. Para tratar dessa relao matricial com os textos posteriores, remeto o leitor a meu artigo, anteriormente mencionado.

    Aqui, gostaria ento de trabalhar ao contrrio, isto , tentando identificar a especificidade e a autonomia de pfa (daqui em diante utilizarei essa sigla para me referir a Para uma filosofia do ato) em relao aos demais textos bakhtinia-nos. Antes de mais nada, trata-se de um texto essencialmente filosfico que mereceria uma anlise bakhtiniana profunda para ilumin-lo por meio dos dilogos filosficos que o atravessam e o constituem. A quem responde, com quem concorda, de quem discorda etc.? O esboo dessa anlise j foi muito bem traado por Sobral,8 que percorre de maneira minuciosa a extensa lista de filsofos com quem Bakhtin est dialogando ao longo de sua obra. Destaque-se entre eles, a filosofia alem, em particular a de Kant, com quem Bakhtin

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    tinha profunda intimidade, pois praticava sua leitura desde muito jovem e dava aulas sobre ele. Segundo Todorov,9 a primeira lngua estrangeira de Bakhtin o alemo e ele faz sua primeira leitura da Crtica da razo pura, no original, com a idade de treze anos.

    Seria preciso, agora, que um filsofo, conhecedor dos autores citados ex-plcita e implicitamente no texto de Bakhtin, examinasse em profundidade a leitura e a interpretao que Bakhtin deles faz e que pudesse nos mostrar at onde, do ponto de vista estritamente filosfico, pfa traz uma contribuio original. Todorov, por exemplo, indica que a ideia de que o dilogo condio da linguagem, ideia to cara a Bakhtin, este a encontrou em Heidegger, outro autor chave na intertextualidade bakhtiniana. Alguns autores, antibakhtinianos convictos, chegam at a acusar Bakhtin de plgio em relao a autores que ele no menciona. Essa questo discutida por Tatiana Bubnova no texto tre sans alibi: pour un autre itinraire bakhtinien.10 Aqui fica a sugesto para que filsofos levem adiante a anlise. No essa a tarefa a que me proponho.

    Uma indicao preciosa para o entendimento de pfa nos dada pela tra-dutora francesa. Segundo ela, alm do contexto geral da filosofia ocidental, preciso situar pfa no contexto da tradio filosfica russa que , marcadamente, uma filosofia que se interessa pela questo moral. Tambm em Bibikhine,11 russo, filsofo da linguagem, encontramos a indicao de que Dostoivski, autor que coloca a questo moral no centro de sua obra, para Bakhtin no apenas um corpus, mas um paradigma para seu prprio pensamento. Esse o primeiro susto que pfa pode causar aos leitores contemporneos, impregnados de valores ps-modernos: Bakhtin deixa explcito que quer empreender uma filosofia moral. Na poca em que escreve esse texto, Bakhtin est em Vitebsk. Segundo Todorov,12 seu passatempo preferido era passear por florestas e lagos nas cercanias de Nevel com os amigos e com eles conversar longamente sobre arte, filosofia e teologia. Juntamente com Maria Yudina (1899-1970) e Lev Vasilievich Pumpianskii (1891-1940), Bakhtin acaba batizando seu lago pre-ferido de lago da realidade moral (traduzido por mim).

    E qual o objeto da filosofia moral? Para Bakhtin, o mundo no qual se orienta o ato sobre a base de sua participao singular no ser.13 O mundo moral o mundo dos nomes prprios, destes objetos e datas cronolgicas particulares da vida.14

    O enraizamento russo de pfa est tambm no profundo trabalho que o pensamento de Bakhtin opera com e sobre a lngua russa. Anlises etimolgicas,

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    desmembramentos e reconstrues do a esse texto um vocabulrio prprio que, em grande parte, somente possvel na lngua russa. Diz a tradutora francesa: Bakhtin trabalha na espessura semntica das palavras. Ele torna presentes a etimologia, a composio das palavras, sua conotao. [...] Bakhtin reatribui um sentido literal o mais prximo possvel de sua composio a palavras russas existentes, reutiliza antigos termos [...] etc. Aqui, mais do que em outros textos filosficos, o raciocnio esposa os dados da lngua.15 O exemplo mais importan-te da especificidade e da riqueza da lngua russa para o pensamento bakhtiniano a distino entre duas formas de verdade istina e pravda. Essa uma distin-o crucial, que j tratei em meu artigo anterior16 e que voltarei a tratar aqui.

    Uma ltima considerao prvia deve ser feita. O estilo de pfa apresenta, entre outras, uma caracterstica marcante: ele repetitivo. Parece que Bakhtin est sempre dizendo a mesma coisa com palavras ligeirame

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