Dossie norma culta 1.1

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Textos de Srio Possenti, Marcos Bagno, Sergio Leo, Glauco Cortez, Ao Educativa e Daniela Jakubaszko

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<p>20/05/2011</p> <p>Terra - Sirio Possenti</p> <p>Clique aqui para comear a impresso Retirar foto para impresso Retirar foto para impresso Terra Magazine Colunistas Sirio Possentihttp://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3355716-EI8425,00-Variacao+e+mudanca.html</p> <p>Variao e mudanaQuinta, 27 de novembro de 2008, 20h07 Srio Possenti De Campinas (SP) reduzir tamanho da fonte tamanho de fonte normal aumentar tamanho da fonte</p> <p>A maioria absoluta dos brasileiros - talvez no s os brasileiros - alfabetizados ou letrados tem uma idia completamente equivocada do que seja uma lngua. Para eles, lngua a que a escola ensina, ou o que est nos manuais do tipo "no erre mais". O resto erro. Todos consideram que as variantes so erros. Ocorre que o que a escola ensina tambm mais ou menos variado. E depende muito tambm do desempenho lingstico dos professores. Como eles so membros da sociedade, so afetados pelas mudanas que a lngua sofre com o correr do tempo, de forma que seu "portugus" , de alguma forma, o portugus de seu tempo. O que no necessariamente ruim. Isto quer dizer que o portugus que os professores falam e mesmo o que escrevem no necessariamente o portugus dos livros adotados nas escolas. O que vale para professores de portugus vale tambm para os das outras disciplinas, claro. E vale tambm para os jornalistas e para as personalidades que eles entrevistam, tenham elas a formao que tiverem (em geral, so especialistas em alguma coisa, sempre especialistas). s ouvir os debates ou os programas de entrevistas para verificar isso. Dou dois exemplos banais. Duvido que haja 10% de professores ou falantes letrados que profiram o dito futuro (aplicarei minha poupana em aes da empresa X). Todos dizem "vou aplicar". Outro exemplo? Quase ningum diz "ns". Diz-se "a gente". Como pouco se diz "tu", exceto em algumas regies, aterra.com.br//0,,OI3355716-EI8425, 1/3</p> <p>20/05/2011</p> <p>Terra - Sirio Possenti</p> <p>conjugao verbal do futuro Eu vou aplicar Voc vai aplicar Ele/ela vai aplicar A gente vai aplicar Vocs vo aplicar Eles/elas vo aplicar. Ou no ? Quem no fala assim que atire a primeira pedra. No vou dizer (!!) que todos falam sempre assim porque sei que uma lngua sempre apresenta variao. Alguns entrevistados, ou jornalistas, diro (!!), talvez, de vez em quando, no meio da conversa, "falaremos disso na prxima entrevista", claro, sendo mais formais. Em compensao, alguns tambm diro "vamo fal disso na prxima veiz", sendo bem mais informais. E ningum nota que falou errado durante a entrevista. Por que? Porque ningum fala errado mesmo! Isso no erro. Esse o portugus falado culto do Brasil hoje. um fato. S isso. Numa certa ocasio, fui entrevistado por uma emissora de TV (eu no estdio e um folclorista em outra cidade). Argumentava que a linguagem popular no tinha nada de errado, era s diferente, e era enfrentado pela apresentadora que "defendia nossa lngua". Para dobr-la, s me restou um recurso: ficar atento ao que ela dizia e citar os "erros" que ela ia cometendo, segundo os prprios critrios dela. Ficou meio sem jeito, e eu tive que insistir que ela falava corretamente... o portugus real (e que aquele que ela defendia no existe mais, pelo menos na fala). O que muita gente no entende - ou no quer entender, porque significaria perder uma boa teta! - que a variao tem tudo a ver com a mudana. Todos acham normal que aquila tenha derivado para guia, que asinus tenha derivado para asno (tem muita coisa mudada a, mas o bsico que a palavra latina proparoxtona se torna paroxtona), mas acha ridculas formas como fosfro (para fsforo), corgo (para crrego), xicra e chacra (para xcara e chcara), embora a regra antiga que explica a mudana e a atual que explica a variao sejam a rigor a mesma (os falantes seguem regras, no erram!!!), sem contar que dizem, numa boa, sem se dar conta do que fazem, xicrinha e chacrinha. Qu! Variao tem tudo a ver com mudana. Mas, se entendssemos isso, muitaterra.com.br//0,,OI3355716-EI8425, 2/3</p> <p>20/05/2011</p> <p>Terra - Sirio Possenti</p> <p>gente perderia uma grana preta!! *** Pode at ser que o preconceito racial diminua com o tempo ou que venha a se manifestar de forma diferente, menos agressiva, mais "cordial" (como sugere o caderno especial da Folha de 23/11/2008). Mas o preconceito lingstico est mais firme do que nunca (mais ou menos sutil): Fernando de Barros e Silva escreveu na Folha (24/11/2008) que o "pobrema" mais embaixo. Por que uma forma lingstica popular representa um problema mais embaixo? l embaixo que est o povo? E o colunista diz isso logo em uma poca em que ficou claro que o problema bem mais em cima!! A FSP, alis, useira e vezeira em referir-se a autoridades menos letradas como "otoridade" e a polticos nordestinos como aqueles que exercem o "pud". No se d conta do que h nisso de preconceito? E de burrice? Srio Possenti professor associado do Departamento de Lingstica da Unicamp e autor de Por que (no) ensinar gramtica na escola, Os humores da lngua e de Os limites do discurso. Fale com Srio Possenti: siriopossenti@terra.com.brOpinies expressas aqui so de exclusiva responsabilidade do autor e no necessariamente esto de acordo com os parmetros editoriais de Terra Magazine.</p> <p>Terra Magazine Leia esta notcia no original em: Terra - Brasil http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3355716-EI8425,00.html Clique aqui para comear a impresso Retirar foto para impresso Retirar foto para impresso</p> <p>terra.com.br//0,,OI3355716-EI8425,</p> <p>3/3</p> <p>19/05/2011</p> <p>Terra - Sirio Possenti</p> <p>Clique aqui para comear a impresso Retirar foto para impresso Retirar foto para impresso Terra Magazine Colunistas Sirio Possentihttp://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5137669-EI8425,00-Aceitam+tudo.html</p> <p>Aceitam tudoQuinta, 19 de maio de 2011, 21h22</p> <p>Trecho do livro "Por uma Vida Melhor" apresenta a pergunta "posso falar 'os livro'?" 18 de maio de 2011 Reproduo Srio Possenti De Campinas (SP) reduzir tamanho da fonte tamanho de fonte normal aumentar tamanho da fonte</p> <p>De vez em quando, algum diz que lingistas "aceitam" tudo (isto , que acham certa qualquer construo). Um comentrio semelhante foi postado na semana passada. Achei que seria uma boa oportunidade para tentar esclarecer de novo o que fazem os linguistas.terra.com.br//0,,OI5137669-EI8425, 1/5</p> <p>19/05/2011</p> <p>Terra - Sirio Possenti</p> <p>Mas a razo para tentar ser claro no tem mais a ver apenas com aquele comentrio. Surgiu uma celeuma causada por notas, comentrios, entrevistas etc. a propsito de um livro de portugus que o MEC aprovou e que ensinaria que certo dizer Os livro. Perguntado no espao dos comentrios, quando fiquei sabendo da questo, disse que no acreditava na matria do IG, primeira fonte do debate. Depois tive acesso indigitada pgina, no mesmo IG, e constatei que todos os que a leram a leram errado. Mas aposto que muitos a comentaram sem ler. Vou tratar do tal "aceitam tudo", que vale tambm para o caso do livro. Primeiro: duvido que algum encontre esta afirmao em qualquer texto de lingustica. uma avaliao simplificada, na verdade, um simulacro, da posio dos linguistas em relao a um dos tpicos de seus estudos - a questo da variao ou da diversidade interna de qualquer lngua. Vale a pena insistir: de qualquer lngua. Segundo: "aceitar" um termo completamente sem sentido quando se trata de pesquisa. Imaginem o ridculo que seria perguntar a um qumico se ele aceita que o oxignio queime, a um fsico se aceita a gravitao ou a fisso, a um ornitlogo se ele aceita que um tucano tenha bico to desproporcional, a um botnico se ele aceita o cheiro da jaca, ou mesmo a um linguista se ele aceita que o ingls no tenha gnero nem subjuntivo e que o latim no tivesse artigo definido. No s no se pergunta se eles "aceitam", como tambm no se pergunta se isso tudo est certo. Como se sabe, houve poca em que dizer que a Terra gira ao redor do sol dava fogueira. Semmelveis foi escorraado pelos mdicos que mandavam em Viena porque disse que todos deveriam lavar as mos antes de certos procedimentos (por exemplo, quem viesse de uma autpsia e fosse verificar o grau de dilatao de uma parturiente). No faltou quem dissesse "quem ele para mandar a gente lavar as mos?" Ou seja: no se trata de aceitar ou de no aceitar nem de achar ou de no achar correto que as pessoas digam os livro. Acabo de sair de uma fila de supermercado e ouvi duas lata, dez real, trs quilo a dar com pau. Eu deveria mandar esses consumidores calar a boca? Ora! Estvamos num caixa de supermercado, todos de bermuda e chinelo! No era um congresso cientfico, nem um julgamento do Supremo! Um linguista simplesmente "anota" os dados e tenta encontrar uma regra, isto , uma regularidade, uma lei (no uma ordem, um mandato).terra.com.br//0,,OI5137669-EI8425, 2/5</p> <p>19/05/2011</p> <p>Terra - Sirio Possenti</p> <p>O caso manjado: nesta variedade do portugus, s h marca de plural no elemento que precede o nome - artigo ou numeral (os livro, duas lata, dez real, trs quilo). Se houver maias de dois elementos, a complexidade pode ser maior (meus dez livro, os meus livro verde etc.). O nome permanece invarivel. O linguista v isso, constata isso. No s na fila do supermercado, mas tambm em documentos da Torre do Tombo anteriores a Cames. Portanto, mesmo na lngua escrita dos sbios de antanho. O linguista tambm constata the books no ingls, isto , que no h marca de plural no artigo, s no nome, como se o ingls fosse uma espcie de avesso do portugus informal ou popular. O linguista aceita isso? Ora, ele no tem alternativa! um dado, um fato, como a combusto, a gravitao, o bico do tucano ou as mars. O linguista diz que a escola deve ensinar formas como os livro? Esse outro departamento, ao qual volto logo. Fao uma digresso para dar um exemplo de regra, porque sei que um conceito problemtico. Se dizemos "as cargas", a primeira slaba desta sequncia "as". O "s" final surdo (as cordas vocais no vibram para produzir o "s"). Se dizemos as gatas", a primeira slaba a "mesma", mas ns pronunciamos "az" - com as cordas vocais vibrando para produzir o "z". Por que dizemos um "z" neste caso? Porque a primeira consoante de "gatas" sonora, e, por isso, a consoante que a antecede tambm se sonoriza. No acredita? V a um laboratrio e faa um teste. Ou, o que mais barato, ponha os dedos na sua garganta, diga "as gatas" e perceber a vibrao. Tem mais: se dizemos "as asas", no s dizemos um "z" no final de "as", como tambm reordenamos as slabas: dizemos as.ga.tas e as.ca.sas, mas dizemos a.sa.sas ("as" se dividiu, porque o "a" da palavra seguinte puxou o "s/z" para si). Dividimos "asas" em "a.sas", mas dividimos "as asas" em a.sa.sas. Volto ao tema do linguista que aceitaria tudo! Para quem s teve aula de certo / errado e acha que isso tudo, especialmente se no tiver nenhuma formao histrica que lhe permitiria saber que o certo de agora pode ter sido o errado de antes, pode ser difcil entender que o trabalho do linguista completamente diferente do trabalho do professor de portugus. No "aceitar" construes como as acima mencionadas ou mesmo algumas mais "chocantes" , para um linguista, o que seria para um botnico no "aceitar" uma gramnea. O que no significa que o botnico paste. Proponho o seguinte experimento mental: suponha que um descendente seu nasa no ano 2500. Suponha que o portugus culto de ento inclua formas como "A casa que eu moro nela mais os dois armrio vale 300 cabral" (acho que no ser o caso, mas s um experimento). Seu descendente nuncaterra.com.br//0,,OI5137669-EI8425, 3/5</p> <p>19/05/2011</p> <p>Terra - Sirio Possenti</p> <p>saber que fala uma lngua errada. Saber, talvez (se estudar mais do que voc), que um ancestral dele falava formas arcaicas do portugus, como 300 cabrais. Outro tema: o linguista diz que a escola deve ensinar a dizer Os livro? No. Nenhum linguista prope isso em lugar nenhum (desafio os que tm opinio contrria a fornecer uma referncia). Alis, isso no foi dito no tal livro, embora todos os comentaristas digam que leram isso. O linguista no prope isso por duas razes: a) as pessoas j sabem falar os livro, no precisam ser ensinadas (observe-se que ningum falao livros, o que no banal); b) ele acha - e nisso tem razo - que mais fcil que algum aprenda os livros se lhe dizem que h duas formas de falar do que se lhe dizem que ele burro e no sabe nem falar, que fala tudo errado. H muitos relatos de experincias bem sucedidas porque adotaram uma postura diferente em relao fala dos alunos. Enfim, cada campo tem seus Bolsonaros. Merecidos ou no. PS 1 - todos os comentaristas (colunistas de jornais, de blogs e de TVs) que eu ouvi leram errado uma pgina (sim, era s UMA pgina!) do livro que deu origem celeuma na semana passada. Minha pergunta : se eles defendem a lngua culta como meio de comunicao, como explicam que leram to mal um texto escrito em lngua culta? no teste PISA que o Brasil, sempre tem fracassado, no ? Pois , este foi um teste de leitura. Nosso jornalismo seria reprovado. PS 2 - Alexandre Garcia comeou um comentrio irado sobre o livro em questo assim, no Bom Dia, Brasil de tera-feira: "quando eu TAVA na escola...". Uma carta de leitor que criticava a forma "os livro" dizia "ensinam os alunos DE que se pode falar errado". Uma professora entrevistada que criticou a doutrina do livro disse "a lngua ONDE nos une" e Monforte perguntou "Onde FICA as leis de concordncia?". Ou seja: eles abonaram a tese do livro que estavam criticando. S que, provavelmente, acham que falam certinho! No se do conta do que acontece com a lngua DELES mesmos!!</p> <p>Srio Possenti professor associado do Departamento de Lingustica da Unicamp e autor de Por que (no) ensinar gramtica na escola, Os humores da lngua, Os limites do discurso, Questes para analistas de discurso e Lngua na Mdia.terra.com.br//0,,OI5137669-EI8425, 4/5</p> <p>19/05/2011</p> <p>Terra - Sirio Possenti</p> <p>Fale com Srio Possenti: siriopossenti@terra.com.brOpinies expressas aqui so de exclusiva responsabilidade do autor e no necessariamente esto de acordo com os parmetros editoriais de Terra Magazine.</p> <p>Terra Magazine Leia esta notcia no original em: Terra - Brasil http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5137669-EI8425,00.html Clique aqui para comear a impresso Retirar foto para impresso Retirar foto para impresso</p> <p>terra.com.br//0,,OI5137669-EI8425,</p> <p>5/5</p> <p>18/05/2011</p> <p>Mulheres de Fibra: "Por uma vida melh</p> <p>Compartilhar</p> <p>Denunciar abuso</p> <p>Prximo blog</p> <p>Criar um blog</p> <p>Login</p> <p>Mulheres de Fibra</p> <p>http://somosmulheresdefibra.blogspot.com/2011/05/por-uma-vida-melhor-por-que-abolir-os.html</p> <p>O blog Somos Mulheres de Fibra participa do movimento de blogueiros progressistas que procuram contribuir, de forma responsvel, para a democratizao e a pluralidade da informao e da comunicao na sociedade brasileira. Nosso blog se apresenta como um espao aberto a debates sobre temas diversos como poltica nacional e internacional, questes de gnero, atividades culturais e manifestaes de diferentes categorias sociais.</p> <p>TE R A -FE IR A , 1 7 DE MA IO DE 2 01 1</p> <p>"Por uma vida melhor": por que abolir os conceitos d...</p>