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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS, LITERÁRIOS E TRADUTOLÓGICOS EM FRANCÊS ANDREIA MARIA DE SOUZA As personagens femininas em Le père Goriot, de Honoré de Balzac Versão corrigida São Paulo 2012

Author: tranthu

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  • UNIVERSIDADE DE SO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CINCIAS HUMANAS

    DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM ESTUDOS LINGUSTICOS,

    LITERRIOS E TRADUTOLGICOS EM FRANCS

    ANDREIA MARIA DE SOUZA

    As personagens femininas em Le pre Goriot, de Honor de Balzac

    Verso corrigida

    So Paulo 2012

  • 2

    UNIVERSIDADE DE SO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CINCIAS HUMANAS

    DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM ESTUDOS LINGUSTICOS,

    LITERRIOS E TRADUTOLGICOS EM FRANCS

    As personagens femininas em Le pre Goriot, de Honor de Balzac

    Andreia Maria de Souza

    Dissertao de Mestrado apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Estudos Lingusticos, Literrios e Tradutolgicos em Francs do Departamento de Letras Modernas da Universidade de So Paulo para obteno do ttulo de Mestre em Letras rea de Concentrao: Estudos Lingusticos, Literrios e Tradutolgicos em Francs

    Orientador: Prof. Dr. Gilberto Pinheiro Passos

    Verso corrigida

    De acordo

    So Paulo

    2012

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    Nome: SOUZA, Andreia Maria de

    Ttulo: As personagens femininas em Le pre Goriot, de Honor de Balzac

    Dissertao de Mestrado apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Estudos Lingusticos, Literrios e Tradutolgicos em Francs do Departamento de Letras Modernas da Universidade de So Paulo para obteno do ttulo de Mestre em Letras

    Aprovado em:

    Banca Examinadora

    Prof. Dr. ____________________________ Instituio: _______________

    Julgamento: _________________________ Assinatura: _______________

    Prof. Dr. ____________________________ Instituio: _______________

    Julgamento: _________________________ Assinatura: _______________

    Prof. Dr. ____________________________ Instituio: _______________

    Julgamento: _________________________ Assinatura: _______________

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    AGRADECIMENTOS

    Ao Prof. Dr. Gilberto Pinheiro Passos, meu orientador, pela confiana, apoio,

    contribuio para meu crescimento cientfico e intelectual, auxlio durante o

    processo de definio e por sua orientao responsvel, atenciosa e

    extremamente competente.

    Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas pela oportunidade de

    realizao do curso de Mestrado.

    s professoras doutoras Vernica Galndez-Jorge e Helosa Brito de Albuquerque

    Costa, membros da Banca de Qualificao de Mestrado, pelas valiosas sugestes

    e orientaes.

    Edite dos Santos Nascimento Mendez Pi, do Departamento de Letras Modernas

    da Universidade de So Paulo, por sua competncia e simpatia.

    minha famlia, pelo apoio e generosidade.

    Aos professores da rea de Estudos Lingusticos, Literrios e Tradutolgicos em

    Francs, por sua solidariedade e interesse.

  • 5

    RESUMO

    SOUZA, A. M. As personagens femininas em Le pre Goriot, de Honor de Balzac. 2012. 135 f. Dissertao (Mestrado) - Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas, Universidade de So Paulo, So Paulo, 2012. So poucos os estudos sobre as personagens femininas dentro de La Comdie Humaine, e estes se tornam ainda mais restritos quando tratam daquelas que aparecem no romance Le pre Goriot. Nesse sentido, este trabalho pretende analisar como so construdas e organizadas dentro da narrativa, tendo em vista que sua composio realizada de acordo com uma estratgia, bem como sua organizao no texto. Outrossim, as personagens femininas so de grande importncia na narrativa balzaquiana, apesar de aparentemente ocuparem apenas o segundo plano, pois so elas que, na maioria das vezes, vo auxiliar as personagens masculinas em seus projetos de ascenso social, a ponto de Rastignac, por exemplo, s ter conseguido sucesso por intermdio de sua tia, Mme de Beausant. Isso sem contar a dona da penso, Mme Vauquer, que a primeira a ser descrita durante a narrativa e tem importncia capital no destino de outras figuras hospedadas em seu estabelecimento. Por outro lado, a tcnica mais conhecida utilizada por Balzac e que foi por ele desenvolvida o retorno de personagens. No entanto, h outras de grande importncia, e uma delas o fato de que, para conseguir criar a quantidade de personagens existente dentro de La Comdie Humaine, foi necessrio recorrer a um recurso de economia, ou seja, apresentar vrias delas com caractersticas semelhantes, podendo ser ligadas duas a duas. Procuramos desenvolver esse aspecto ao longo deste trabalho, juntamente com as questes que permeiam o papel das figuras femininas, assim como o arrivismo e a sua importncia para as masculinas. Palavras-chave: Literatura francesa do sculo XIX. Realismo francs. Personagens femininas.

  • 6

    ABSTRACT

    SOUZA, A. M. The female characters in Le Pere Goriot, of Honor de Balzac. 2012. 135 f. Masters Degree Monograph - Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas, Universidade de So Paulo, So Paulo, 2012. There are few studies about the female characters in La Comedie Humaine, and these are even more restricted when they treat about those which appear in the novel Le Pere Goriot. Thus, this paper intends to examine how they are constructed and arranged within the narrative, considering that their composition is performed according a kind of strategy, as well as your organization in the text. Furthermore, the female characters are very important in Balzac's narrative, although apparently only occupying the background, because they are who, in most of the cases, will help the male characters in their projects of social mobility, until the point of Rastignac, for example, has only achieved success with the help of his aunt, Mme de Beauseant. This without counting the owner, Mme Vauquer, who is the first character to be described in the narrative and who has a capital importance in the destiny of other figures that are hosted on her property. Moreover, the technique most known and used by Balzac and which was developed for him is the return of characters. However, there are other techniques also very important, and one of them is the fact that, to achieve to create the amount of characters existing in La Comedie Humaine, it was necessary to apply a resource of economy, or, in other words, to present lots of characters showing similar characteristics and connected two by two. We were seeking to develop this aspect throughout this work, together with the questions that underlie the role of the female characters, as well as the arrivisme, and this importance for the male.

    Keywords: French literature of the nineteenth century. French Realism. Female characters.

  • 7

    RSUM

    SOUZA, A. M. Les personnages fminins dans Le Pre Goriot, de Honor de Balzac. 2012. 135 f. Dissertation (Master II) - Faculdade de Filosofia, Letras e

    Cincias Humanas, Universidade de So Paulo, So Paulo, 2012. Ces sont trs peu d'tudes propos des personnages fminins dans La Comdie humaine, et ceux-ci sont encore plus restreints quand ils traitent de celles qui apparassent dans le roman Le Pre Goriot. Ainsi, ce travail a pour objectif de examiner comment elles sont construites et organises dans le rcit, tant donn que sa composition est ralise selon une stratgie, de la mme faon que son organisation dans le texte. De plus, les personnages fminins sont d'une grande importance dans le rcit balzacien, malgr le fait de apparemment occuper le fond, parce que ce sont elles qui, dans la plupart des cas, aideront les personnages masculins dans leurs projets de mobilit sociale, jusqu'au point de Rastignac, par exemple, seulement obtenir le succs grce sa tante, Mme de Beausant. Tout cela sans oublier la propritaire de la pension, Mme Vauquer, qui est la premire tre dcrite dans le rcit et qui est d'une importance capitale dans la destine des autres figures hberges dans la pension. Par ailleurs, la technique plus connue et utilise par Balzac et qui a t dveloppe par lui c'est le retour de personnages. Cependant, il existe d'autres techniques trs importantes, et une d'elles c'est le fait que, afin de crer le nombre de personnages qui existent dans La Comdie Humaine, il tait ncessaire d'utiliser un moyen d'conomie, c'est--dire, de prsenter beaucoup de personnages avec des caractristiques similaires et qui peuvent tre lies deux deux. Nous avons essay de dvelopper cet aspect pendant ce travail, avec les questions propos du rle des figures fminines, bien comme l'arrivisme, et son importance pour les masculins.

    Mots-cls: Littrature franaise du XIXe sicle. Ralisme franais. Personnages fminins.

  • 8

    SUMRIO

    INTRODUO....................................................................................................... 09

    1 LA FILLE AUX YEUX DOR E LE PRE GORIOT DO MACROCOSMO

    PARIS AO MICROCOSMO PENSO VAUQUER................................................ 19

    2 RELAES ESPECIAIS LIGADAS AO FEMININO: O DINHEIRO,

    O CASAMENTO E O ADULTRIO....................................................................... 28

    2.1 Mme Vauquer................................................................................................... 31

    2.2 Mlle Michonneau.............................................................................................. 40

    2.3 Mlle Taillefer..................................................................................................... 45

    2.4 As filhas Goriot................................................................................................. 51

    2.5 Mme de Beausant.......................................................................................... 58

    3 REPETIES E CONTRASTES NAS RELAES FAMILIARES................. 61

    4 MATERNIDADE REAL, MATERNIDADE FICTA E PERSONAGENS

    MASCULINAS QUE DESEMPENHAM O PAPEL DE ME.............................. 83

    5 ASPECTOS DA FILIAO: DELPHINE, ANASTASIE E VICTORINE .......... 100

    6 A ESCROQUERIA FAMILIAR E O FEMININO: RASTIGNAC, SUA ME

    E SUAS IRMS .................................................................................................. 111

    CONCLUSES.................................................................................................... 119

    REFERNCIAS................................................................................................... 125

  • 9

    INTRODUO

    A finalidade de nosso estudo fazer a anlise das personagens femininas

    que aparecem em Le pre Goriot, devido sua enorme importncia para o

    desenvolvimento da ao romanesca, apesar de as masculinas aparentemente

    dominarem o primeiro plano narrativo. No entanto, quem no se lembra da famosa

    cena da descrio da penso e de Mme Vauquer, em que se confundem o

    ambiente e a personagem, a tal ponto de um se tornar parte do outro? Desse

    modo, por que Balzac daria tanta importncia descrio de uma figura feminina

    antes mesmo de iniciar a ao narrativa? Essas indagaes nos levaram a buscar

    compreender melhor sua funo no romance. Como o prprio autor deixou claro

    no Avant-Propos da Comdie Humaine (1976, t. I, p. 09):

    Ainsi luvre faire devait avoir une triple forme : les hommes, les

    femmes et les choses, cest--dire les personnes et la reprsentation

    matrielle quils donnent de leur pense ; enfin lhomme et la vie.

    Alm disso, essa importncia se torna evidente, quando observamos que

    essas personagens so protagonistas de alguns de seus romances, como La

    duchesse de Langeais, que reaparece em Le pre Goriot, o mesmo ocorrendo

    com Mme de Beausant, em La femme abandone. H, por outro lado, muitas

    outras narrativas sobre a condio da mulher, como La femme de trente ans,

  • 10

    Physiologie du mariage, Mmories de deux jeunes maries, tude de femme e

    Une autre tude de femme.

    Le pre Goriot surge na Comdie Humaine dentro de tudes de

    Moeurs , na parte Scnes de la vie prive . Desse modo, as personagens

    retratadas participam da vida urbana, tanto no submundo, como Mlle Michonneau,

    por exemplo, quanto na nobreza, como Mme de Beausant, ou ainda como figuras

    que ascenderam socialmente, como as filhas de M. Goriot.

    A histria delas no repleta de emoes como a das figuras masculinas,

    com projetos de ascenso, a exemplo de Rastignac, ou planos para cometer

    grandes crimes com o objetivo de um rpido enriquecimento, que o caso de

    Vautrin. Esses fatos se tornam extremamente interessantes para o leitor e

    aumentam o suspense da narrativa. No entanto, a denncia de que Trompe-la-

    Mort era um criminoso foi feita por uma mulher, Mlle Michonneau. Alm disso,

    apesar de Rastignac lutar por sua insero no Faubourg Saint-Germain e ganhar o

    plano principal da narrativa, quando investe em suas roupas ou nos contatos

    estabelecidos em Paris, fatos que prendem sobremaneira nossa ateno, pelo

    apoio de mulheres (Mme de Beausant o ajuda a escolher os melhores

    relacionamentos com a nobreza, sua me e suas irms enviam dinheiro de suas

    parcas economias para que ele possa estudar e comprar tudo aquilo que

    necessita) que toda essa cena principal pode ser desenvolvida, e sem elas esse

    quadro no seria possvel.

  • 11

    Assim, apesar de ficar num segundo plano, e de no serem as

    protagonistas, essas personagens so de extrema importncia para o

    desenvolvimento da narrativa. No caso do romance que estamos analisando,

    como dissemos, so elas que fornecem toda a estrutura para que a trama possa

    se desenvolver.

    Em suas consideraes sobre a sociedade e a mulher, no Avant-

    Propos de La Comdie Humaine (1976, t. I, p. 08-09), Balzac afirma que:

    Quand Buffon peignait le lion, il achevait la lionne en quelques phrases ;

    tandis que dans la Socit la femme ne se trouve pas toujours tre la

    femelle du mle. Il peut y avoir deux tres parfaitement dissemblables

    dans un mnage. La femme dun marchand est quelquefois digne dtre

    celle dun prince, et souvent celle dun prince ne vaut pas celle dun

    artiste. LEtat Social a des hasards que ne se permet pas la Nature, car il

    est la Nature plus la Socit. La description des Espces Sociales tait

    donc au moins double de celle des Espces Animales, ne considrer

    que les deux sexes. Enfin, entre les animaux, il y a peu de drames, la

    confusion ne sy met gure ; ils courent sur les uns aux autres, voil tout.

    Les hommes courent bien aussi les uns sur les autres ; mais leur plus ou

    moins dintelligence rend le combat autrement compliqu. Si quelques

    savants nadmettent pas encore que lAnimalit se transborde dans

    lHumanit par un immense courant de vie, lpicier devient certainement

    pair de France, et le noble descend parfois au dernier rang social. Puis,

    Buffon a trouv la vie excessivement simple chez les animaux. Lanimal a

    peu de mobilier, il na ni arts ni sciences ; tandis que lhomme, par une loi

    qui est rechercher, tend reprsenter ses murs, sa pense et sa vie

    dans tout ce quil approprie ses besoins.

    Assim, no Avant-Propos , que tambm pode ser considerado ficcional,

    Balzac deixa bem claro para o leitor a importncia que a mulher desempenha em

    sua obra. Como ele prprio mencionou, ela no pode ser analisada em sua

  • 12

    narrativa simplesmente como a fmea do macho, mas individualmente, com suas

    caractersticas que a diferem substancialmente dos homens. No entanto, as

    personagens femininas esto sempre ligadas s masculinas, ajudando-as ou se

    opondo a elas.

    Ainda no Avant-Propos (1976, t. I, p. 08), Balzac afirma que existem

    espcies animais e sociais, e segundo o escritor, La Socit ressemblait la

    Nature . Desse modo, nasceu em sua mente a ideia de que existe um sistema da

    sociedade, anlogo ao da natureza. Assim, para tornar factvel sua construo, um

    conjunto ordenado de estruturas recorrentes fundamental, j que este o

    princpio norteador sob o qual a natureza tambm se constitui, ou seja, sob

    repeties e contrastes, em que no a quantidade de elementos que relevante,

    mas so as combinaes entre eles que produzem grande diversidade.

    Continuando em sua exposio, Balzac afirma sua filiao a Walter Scott,

    afirmando que este no teria criado uma histria de costumes, pois para tanto

    seria necessrio que seus romances estivessem atrelados uns aos outros como

    num sistema. Desse modo, ele aplica em sua obra o que diz faltar no escritor,

    constituindo-se basicamente na criao de uma combinao de estruturas.

    Como dissemos, Le pre Goriot est inserido em tudes de Moeurs ,

    em Scnes de la vie prive dentro de La Comdie Humaine. Nessa subdiviso,

    a descrio de costumes pautada pela procura sistemtica do detalhe, fato que

  • 13

    torna a narrativa pitoresca, se assim podemos classific-la. Assim, em Lettres

    Mme Hanska, que tambm podem ser tomadas como ficco, ele afirma que

    Les moeurs sont le spectacle, les causes sont les coulisses et les machines. Les

    principes, cest lauteur. ( 1967, p. 270).

    Desse modo, os elementos da narrativa inerentes a essa parte da obra

    esto organizados, e essa concepo de sistema definida tambm em outra

    carta a Mme Hanska (1967, p. 269), em que o escritor parece estabelecer todo o

    princpio norteador de sua obra:

    Les tudes de Moeurs reprsenteront tous les effets sociaux sans que ni

    une situation de la vie, ni une physionomie, ni un caractre dhomme ou

    de femme, ni une manire de vivre, ni une profession, ni une zone sociale,

    ni un pays franais, ni quoi que se soit de lenfance, de la vieillesse, de

    lge mr, de la politique, de la justice, de la guerre, ait t oubli.

    Cela pos, lhistoire du coeur humain, trace fil fil, lhistoire sociale faite

    dans toutes ses parties, voil la base. Ce ne seront pas des faits

    imaginaires ; ce sera ce qui se passe partout.

    Assim, percebemos a nsia do prprio escritor em sistematizar, e tal fato

    se desdobra em sua prpria obra, que vai se subdividindo at chegarmos s

    pequenas estruturas narrativas que esto colocadas de maneira ordenada, no

    obstante ser composta por uma grande quantidade de romances e aparentemente

    no revelar esta organizao da qual est imbuda.

    Apesar da infinidade de estudos sobre Balzac, os que tratam das

  • 14

    personagens femininas so minoria, conforme afirmamos, e so ainda mais

    restritos quando tratamos do romance Le pre Goriot. Tal fato contrasta

    violentamente com a quantidade de figuras femininas na Comdie Humaine e de

    muitas delas serem at mesmo protagonistas.

    Boa parte dos estudos sobre o autor so crticas de cunho sociolgico e

    marxista, inspiradas nas afirmaes de Engels (1979, p. 20) transcritas a seguir:

    Balzac (...) nos proporciona na sua Comdia Humana, uma histria

    maravilhosamente realista da sociedade francesa, descrevendo no estilo

    de crnica, quase ano por ano, de 1816 a 1848, a presso crescente da

    burguesia sobre a sociedade de nobres que se estabeleceu a partir de

    1815 e que voltou a instalar, na medida do possvel, o padro da vieille

    politesse franaise. Descreve como os derradeiros resduos daquela, para

    ele sociedade modelo, sucumbiram ante a explosiva intruso dos vulgares

    endinheirados ou foi corrompida por eles. Como a grande dame, cujas

    infidelidades conjugais no passavam de uma maneira de firmar a sua

    posio, em perfeito acordo com a forma como lhe tinham destinado o

    casamento, cedeu lugar burguesa, que adquiriu o marido em troca de

    dinheiro. E em torno dessa imagem central, o autor tece uma histria

    completa da sociedade francesa, com a qual, mesmo em pormenores

    econmicos (...) aprendi mais do que com todos os historiadores,

    economistas e estatsticos do perodo.

    Essas declaraes deram incio a uma gama de estudos que analisaram

    Balzac sob o ponto de vista de uma crtica literria de cunho sociolgico e

    marxista, como dissemos, principalmente Georg Lukcs, em seu conhecido Balzac

    et le ralisme franais, entre outros, que investigaram a obra como um retrato da

    sociedade francesa do sculo XIX. No entanto, apesar da importncia dessa

    crtica para os demais estudiosos que se seguiram, no a tomaremos como ponto

  • 15

    de partida para elaborao deste trabalho, e procuraremos analisar os

    procedimentos para a construo da obra, e no caso em que estamos analisando,

    o modo como criou as personagens femininas.

    Apesar de muitos autores pretenderem ler a obra balzaquiana como um

    retrato fiel da sociedade francesa do sculo XIX, essa afirmao deve ser

    nuanada, na medida em que se trata de uma obra de fico, que recorre ao

    recurso da imaginao para transpor determinadas situaes para o campo

    literrio. Alm disso, como afirmou Pierre-Georges Castex em seu texto

    LUnivers de La Comdie Humaine , que se tornou introdutrio edio de

    referncia da Bibliothque de la Pliade (1976, t. I, p. XXI):

    Pour parvenir recrer ainsi toute une poque, le recours limagination

    lui tait dailleurs indispensable, comme lhistorien qui, non content de

    runir des documents en nombre ncessairement limit, se donne pour

    suprme fin, selon la clbre formule de Michelet, une rssurrection

    intgrale du pass.

    Assim sendo, no devemos tomar ao p da letra as declaraes segundo

    as quais Balzac se apresenta como um secretrio da sociedade, tendo em vista

    que sua narrativa est pautada num trabalho de criao que mais ou menos

    sistemtico e consegue criar o efeito de real pretendido pelo escritor, embora

    saibamos que nenhum texto consegue ser absolutamente fiel realidade, mas

    apenas uma leitura, um modo de interpretao, e no caso do escritor, a

  • 16

    representao por uma obra de fico. Devido grande quantidade de tipos

    sociais elaborados e das vrias esferas que o romancista pretende representar,

    sabemos que um trabalho exaustivo apenas de reproduo no tornaria factvel o

    trabalho de criao.

    Tomando os estudos crticos sobre Le pre Goriot concentrados em uma

    anlise sobre os procedimentos de criao, inicialmente temos o de Barbris

    (1972), que procura fazer uma anlise abrangente do romance analisando os

    principais aspectos, como as questes de espao, tempo, personagens e tambm

    as que envolvem a comparao do romance com outras obras, como o intertexto

    entre Le pre Goriot e The king Lear. No entanto, por tratar de tantos temas ao

    mesmo tempo, o texto de Barbris acaba se tornando muito abrangente, sem

    abordar de nenhuma questo de forma especfica.

    Guichardet (1993) tambm tentou estudar o romance de forma mais

    detalhada, mas sem a pretenso de esgotar seus temas, e o trabalho tambm

    reuniu alguns elementos de documentao. Alm disso, ela foi capaz de explorar

    com mais detalhes a questo das personagens, mas sua anlise ficou restrita a

    Vautrin, Rastignac e Goriot, e no abordou de maneira especfica a questo das

    personagens femininas. Desse modo, seu estudo se concentra no espao

    parisiense e nas trs figuras centrais do romance.

    Marceau (2008) faz um vasto estudo sobre vrios temas abordados na

    obra do escritor, tomando a Comdie Humaine em sua totalidade, e dividindo seu

  • 17

    livro em duas grandes subdivises: personagens e temas. Essa primeira

    grande parte contempla aspetos como as mulheres, as jovens e as velhas. No

    entanto, apesar de este livro conter j uma seo especfica que trata das

    personagens femininas, podemos dizer que muito pequena quando

    consideramos a totalidade de figuras existentes na obra balzaquiana, e por esse

    motivo seu estudo, apesar de abrangente e com a possiblidade de comparar

    vrias personagens entre si, acabou por no estudar cada uma delas de maneira

    detalhada.

    Auerbach (2004) fez a anlise da descrio de Mme Vauquer e da penso,

    demonstrando a identidade de uma em relao outra. Suas observaes sobre o

    romance realista levam em considerao o fato de o meio exercer influncia sobre

    as personagens, determinando o seu modo de existncia, tendo em vista a

    aplicao, por parte de Balzac, de conceitos da Biologia para o campo literrio.

    Assim, esses estudiosos de Balzac e aqueles que se concentram

    especificamente no romance objeto de nossa anlise no fizeram nenhum estudo

    exclusivamente sobre o tema desenvolvido neste trabalho. Desse modo,

    procuraremos estudar as personagens femininas do romance organizando-as em

    dois grandes ncleos: as que giram em torno de Mme Vauquer na penso, como

    Mme Couture, Mlle Taillefer e Mlle Michonneau, e as que esto em torno de Mme

    de Beausant, como as filhas de M. Goriot. A partir do aprofundamento das

    conexes dessas personagens entre si e tambm com as masculinas,

  • 18

    procuraremos interpretar qual a sua funo em relao aos outros elementos da

    narrativa.

  • 19

    1 LA FILLE AUX YEUX DOR E LE PRE GORIOT DO MACROCOSMO

    PARIS AO MICROCOSMO PENSO VAUQUER

    Este captulo inicial prope uma anlise comparativa da primeira parte de

    La fille aux yeux dor com a descrio metafrica de Paris em Le pre Goriot,

    tendo em vista que a crtica j apontou o fato de que o incio do primeiro romance

    parece uma introduo ao segundo. Segundo Guichardet (1993, p. 30):

    Pour tre compris, lespace parisien du Pre Goriot doit tre peru dans

    son ensemble et non fragmentairement. Il relve davantage de la sipirale

    infernale de La fille aux yeux dor aspirant invinciblement les tres vers

    lor et le plaisir que de larchologie loeuvre, par exemple, dans La

    maison du chat-qui-pelote ou de la physiologie des rues de Paris qui

    prlude lhistoire de Ferragus. Maurice Bardche remarque juste titre

    que tout le dbut de La fille aux yeux dor pourrait servir de prface au

    Pre Goriot. Goriot meurt en effet de ce rythme effrayant de la machine

    sociale , de Paris et de ses ravages dans tous les cercles de lenfer. Car

    Paris est un enfer, tenez ce mot pour vrai All is true, reprend en cho

    notre texte. Tout est vrai Paris, mme linconcevable, et quand on est en

    enfer, il faut y rester comme le dira douloureusement Rastignac

    Bianchon.

    Analisaremos como Paris aparece em Le pre Goriot antes de abordarmos

    especificamente as figuras femininas, uma vez que, conforme demonstraremos

    adiante, as mulheres esto fortemente ligadas aos espaos nos quais esto

    inseridas e, desse modo, a caracterizao dos ambientes em que vivem se torna

    imprescindvel para a compreenso dessas personagens. Alm disso,

    impossvel falar em Le pre Goriot sem mencionar Paris.

  • 20

    A tragdia de Le pre Goriot, ainda segundo Guichardet (1993), aborda

    uma situao terrvel e monstruosa, mas que tipicamente parisiense. Trata-se de

    uma cidade em que os provincianos, vidos por uma melhor posio social, esto

    dispostos a viver, apesar de todos os seus problemas. No entanto, marcada

    pelos contrastes, retratada como inferno, mas ao mesmo tempo como uma

    maravilha, em que todas as cores, todas as mulheres e tudo o que nela existem

    so cobertos por uma beleza superior quela vista na provncia. No entanto, o que

    Le pre Goriot oferece ao leitor sua corrupo moral. H dois perfis da capital

    traados no romance: o primeiro a sombria Rue Neuve-Sainte-Genevive com

    seus bairros escuros, silenciosos e miserveis; e o segundo de luz, e trata dos

    lugares abastados onde brilha a alta sociedade nos belos quartiers. Assim, toda a

    trama desenvolvida entre esses dois espaos, que so opostos e ao mesmo

    tempo complementares e se explicam mutuamente.

    Alm disso, a cidade construda como um labirinto, assim como a

    penso. Esta ltima, no entanto, o lugar onde o rapaz viver seu processo

    inicitico. o primeiro ambiente, onde o jovem comea a lidar com a sociedade,

    para em seguida lanar-se nela, frequentando os sales de Mme de Beausant.

    Desse modo, esse microcosmo funciona como o primeiro local onde o rapaz

    comea a ganhar experincia. Ao aprender a lidar com todas as situaes que

    vivencia nessa habitao suja e ftida, e ao mesmo tempo absorvendo as lies

    aprendidas por Vautrin, ter todos os elementos de que necessita para lanar-se

  • 21

    no inferno parisiense, j que at mesmo os ensinamentos do criminoso so os

    mesmos da grande dame. O labirinto da penso que Rastignac ter que

    atravessar mais tarde ser substitudo pelo da metrpole, muito maior e com muito

    mais lugares e dificuldades a serem superadas.

    A construo de Paris pautada pela dualidade entre a riqueza dos belos

    quarteires contrastada com a pobreza da penso e dos outros bairros a ela

    circunvizinhos. O fato de esses espaos aparecerem juntos faz com que a

    oposio entre eles se acentue, sendo Rastignac o elo, pois a nica

    personagem que consegue fazer o trnsito de um para o outro de maneira

    tranquila, j que Goriot aos poucos teve fechadas para si as portas desse universo

    rico e abastado. Esses ambientes, por outro lado, tambm vo organizar toda a

    narrativa e a maneira como as personagens esto dispostas, de maneira que

    existem dois grandes ncleos principais, conforme afirmamos: as figuras femininas

    que giram em torno de Mme Vauquer e as que giram em torno de Mme de

    Beausant.

    Em La fille aux yeux dor, Paris descrita metaforicamente como o inferno.

    Assim, como sabemos, o incio desse romance poderia perfeitamente servir de

    prefcio a Le pre Goriot, tendo em vista que h a descrio do lado sombrio da

    cidade. Portanto, antes de comear a intriga de La fille aux yeux dor, que

    consiste basicamente no relacionamento do comte Henri de Marsay com Paquita

    Valdes, h uma completa enumerao de todas as esferas da sociedade

  • 22

    parisiense, nos seguintes termos:

    Quelques observations sur l'me de Paris peuvent expliquer les causes de

    sa physionomie cadavreuse qui n'a que deux ges, ou la jeunesse ou la

    caducit: jeunesse blafarde et sans couleur, caducit farde qui veut

    paratre jeune. En voyant ce peuple exhum, les trangers qui ne sont pas

    tenus de rflchir, prouvent tout d'abord un mouvement de dgot pour

    cette capitale, vaste atelier de jouissances, d'o bientt eux-mmes ils ne

    peuvent sortir, et restent s'y dformer volontiers. Peu de mots suffiront

    pour justifier physiologiquement la teinte presque infernale des figures

    parisiennes, car ce n'est pas seulement par plaisanterie que Paris a t

    nomm un enfer. Tenez ce mot pour vrai. L, tout fume, tout brle, tout

    brille, tout bouillonne, tout flambe, s'vapore, s'teint, se rallume, tincelle,

    ptille et se consume. Jamais vie en aucun pays ne fut plus ardente, ni

    plus cuisante. Cette nature sociale toujours en fusion semble se dire aprs

    chaque oeuvre finie : - A une autre ! comme se le dit la nature elle-mme.

    Comme la nature, cette nature sociale s'occupe d'insectes, de fleurs d'un

    jour, de bagatelles, d'phmres, et jette aussi feu et flamme par son

    ternel cratre. Peut-tre avant d'analyser les causes qui font une

    physionomie spciale chaque tribu de cette nation intelligente et

    mouvante, doit-on signaler la cause gnrale qui en dcolore, blmit,

    bleuit et brunit plus ou moins les individus. 1

    Na descrio, o que nos chama a ateno a fisionomia de Paris

    mostrada pelo escritor: cadavreuse , com une teinte presque infernale .

    Desse modo, apesar de mostrar um movimento frentico da cidade, denotando

    vida, paradoxalmente, esses indivduos esto como mortos e reagem

    mecanicamente, da mesma forma que engrenagens da grande mquina que a

    capital, com todas as suas estruturas. O autor, no decorrer de sua exposio, vai

    enumerar as causas dessa fisionomia cadavrica e quase infernal.

    Quando observamos a descrio dessa fisionomia parisiense, no

    1 BALZAC, H. La fille aux yeux dor, ditions Mille et une nuits, 1998, p. 8. Todas as citaes deste

    romance so retiradas desta edio.

  • 23

    podemos deixar de nos reportar descrio de Mme Vauquer, com seu aspecto

    repugnante. Mesmo que haja beleza nos bairros abastados, essa a face que se

    constitui como a verdadeira, representada por uma mulher. A morte, desse modo,

    o elemento organizador de La fille aux yeux dor, e ela que permanece,

    trazendo para a narrativa o tom sombrio que a atravessa do incio ao fim.

    Em todas as esferas, h a busca incessante pelo ouro e pelo prazer. Esse

    interesse existe tanto no trabalhador braal, que ultrapassa as suas foras para

    ganhar o dinheiro que lhe causa fascinao, quanto no comerciante que tenta uma

    melhor colocao na vida, na pequena burguesia, nos profissionais como os

    banqueiros, advogados, magistrados e mdicos, e at mesmo entre os artistas. A

    nica camada da sociedade que no precisa se submeter ao mundo do trabalho,

    pois j possui a riqueza de nascimento, a aristocracia.

    Apesar da descrio cadavrica da cidade, h uma ressalva quando o

    autor afirma que apenas algumas mulheres so os nicos seres que no tm essa

    fisionomia pavorosa:

    Nanmoins, il est Paris une portion d'tres privilgis auxquels profite ce

    mouvement excessif des fabrications, des intrts, des affaires, des arts

    et de l'or. Ces tres sont les femmes. Quoiqu'elles aient aussi mille causes

    secrtes qui l, plus qu'ailleurs, dtruisent leur physionomie, il se

    rencontre, dans le monde fminin, de petites peuplades heureuses qui

    vivent l'orientale, et peuvent conserver leur beaut ; mais ces femmes

    se montrent rarement pied dans les rues, elles demeurent caches,

    comme des plantes rares qui ne dploient leurs ptales qu' certaines

    heures, et qui constituent de vritables exceptions exotiques. (BALZAC,

    1998, p. 28)

  • 24

    Essas mulheres so tomadas como exceo, no entanto, preciso

    ressaltar que elas compem a aristocracia ou a alta burguesia, e no precisam

    deformar-se no mundo do trabalho, podendo viver da riqueza e do cio e cujo

    nico objetivo cuidar da prpria aparncia e viver grandes romances. Por essa

    razo, so descritas como seres separados do movimento catico da cidade.

    Paralelamente a La fille aux yeux dor, em Le pre Goriot tambm existe

    uma descrio metafrica de Paris, a partir da penso, local onde esto reunidas

    as camadas populares e que se expande a partir do momento em que Rastignac

    comea a frequentar outras esferas sociais, como os sales de Mme de

    Beausant e as casas de Mme de Nucingen e de Mme de Restaud.

    O inferno parisiense da rue Neuve Sainte-Genevive descrito de maneira

    lgubre. No por acaso que o autor escolhe esta rua, com sua localizao

    prxima ao Panthon, e sua descrio, desse modo, j prenuncia o final fnebre,

    com a morte de M. Goriot e o seu enterro no cemitrio Pre Lachaise. Essa

    atmosfera, no entanto, no se restringe somente morte fsica, mas morte moral

    de suas personagens, que so descritas em La fille aux yeux dor como mortos-

    vivos.

    Em Le pre Goriot, a penso Vauquer tambm composta por seus

    tages representando as diversas classes sociais, pois em Paris, no sculo

    XIX, quem possua mais bens morava nos andares inferiores, diferentemente

    daqueles que possuam menos recursos, obrigados a se instalar nos superiores,

  • 25

    onde havia menos espao devido disposio do telhado, fazia um frio

    insuportvel no inverno e havia a necessidade de subir escadas para atingir a

    residncia. Alm disso, do mesmo modo como retratada a aparncia ftida e

    lgubre do inferno, a penso tambm possui essa pestilncia no ar, da qual os

    pensionistas fazem parte tambm por sua expresso cadavrica:

    Cette premire pice exhale une odeur sans nom dans la langue, et qu'il

    faudrait appeler l' odeur de pension. Elle sent le renferm, le moisi, le

    rance ; elle donne froid, elle est humide au nez, elle pntre les

    vtements; elle a le got d'une salle o l'on a dn ; elle pue le service,

    l'office, l'hospice. Peut-tre pourrait-elle se dcrire si l'on inventait un

    procd pour valuer les quantits lmentaires et nausabondes qu'y

    jettent les atmosphres catarrhales et sui generis de chaque pensionnaire,

    jeune ou vieux. 2

    Desse modo, como explicitou Erich Auerbach3, o ambiente possui as

    mesmas caractersticas de Mme Vauquer, a tal ponto que ambos se confundem.

    H um momento na descrio em que eles parecem se complementar, quase com

    uma interdependncia:

    Sa face vieillotte, grassouillette, du milieu de laquelle sort un nez bec de

    perroquet ; ses petites mains poteles, sa personne dodue comme un rat

    d'glise, son corsage trop plein et qui flotte, sont en harmonie avec cette

    salle o suinte le malheur, o s'est blottie la spculation, et dont madame

    Vauquer respire l'air chaudement ftide sans en tre coeure. Sa figure

    frache comme une premire gele d'automne, ses yeux rids, dont

    l'expression passe du sourire prescrit aux danseuses l'amer

    2 BALZAC, H. Le pre Goriot. Paris : Gallimard, 1971, pp. 26-27. Todas as citaes de Le pre

    Goriot sero retiradas desta edio. 3 AUERBACH, E. Na manso de La Molle . In: Mimesis: a representao da realidade na

    literatura ocidental. So Paulo, Perspectiva, 2004, pp. 420-421. Nesse estudo, Auerbach faz uma

    anlise de como em Le pre Goriot a descrio da Penso Vauquer, logo no incio da narrativa,

    est relacionada descrio de Mme Vauquer, a tal ponto de ambas se confundirem. O prprio

    estabelecimento recebe o nome de sua dona, fato que caracteriza a fuso entre os dois.

  • 26

    renfrognement de l'escompteur, enfin toute sa personne explique la

    pension, comme la pension implique sa personne. (BALZAC, 1971, p. 28)

    Por representar um microcosmo das classes populares da sociedade

    parisiense, alm da aparncia feia e ftida, h tambm a sua diviso, segundo a

    condio social de seus membros. Assim, essa separao por andares mostra a

    diferena financeira entre seus integrantes, apesar de todos os pensionistas

    possurem pssimas condies, estando o dinheiro do lado de fora, nos bairros

    abastados do Faubourg Saint-Germain e da Chausse dAntin.

    Balzac, dessa maneira, se utiliza, aqui, dos mesmos procedimentos

    narrativos para descrever a sociedade parisiense em La fille aux yeux dor e em Le

    pre Goriot.

    Saindo da penso, podemos dizer que esta faz parte do macrocosmo que

    Paris. Desse modo, os sales de Mme de Beausant no Faubourg Saint-

    Germain e as casas de Mme de Nucingen e Mme de Restaud na Chausse

    dAntin compem outra parte do romance, que contrasta com a Penso Vauquer

    em virtude de apresentar a beleza, a riqueza e o luxo. Essas duas partes

    totalmente antagnicas e que tm como centros Mme de Beausant e Mme

    Vauquer compem um quadro totalizante da sociedade parisiense, semelhante ao

    apresentado em La fille aux yeux dor. Segundo Guichardet (1993, p. 29):

    Luxueuse antithse du salon Vauquer, ce prestigieux ensemble donne

    Rastignac la mesure du chemin parcourir entre les deux espaces. Nous

  • 27

    nen saurons gure davantage. Ici, pas de description exhaustive. Seuls

    quelques adjectifs expriment dabstraites somptuosits.

    Feitas essas consideraes, agora necessrio situar as mulheres dentro

    de todo esse sistema, na medida em que nos interessam neste estudo. Esto

    inseridas dentro dessa selva descrita em La fille aux yeux dor e so mostradas

    em Le pre Goriot quando aparecem na penso ou fora dela, no mundo abastado

    que ser frequentado por Rastignac.

  • 28

    2 RELAES ESPECIAIS LIGADAS AO FEMININO: O DINHEIRO, O CASAMENTO

    E O ADULTRIO

    Como j mostramos, em La fille aux yeux dor Balzac afirma que a

    sociedade governada por lor et le plaisir . Em virtude de no ser possvel

    combinar a busca do prazer com a do dinheiro por meio de uma unio com

    algum que possa fornec-los de uma s vez, as mulheres casam-se por

    interesse e, muitas vezes, tm amantes para atingir essa necessidade.

    No inferno parisiense, desse modo, a felicidade e a plenitude no so

    possveis a essas mulheres, e tal situao faz com que vivam grande sofrimento.

    Apesar disso, no conseguem desvencilhar-se da vida que levam, sempre

    buscando o luxo e procurando frequentar os melhores lugares da cidade, a fim de

    serem notadas e conseguirem o status que tanto desejam. Essa relao , assim,

    ambgua: dizem sofrer pela dominao exercida por seus maridos, no entanto

    no tm coragem de se separar e tentar viver de acordo com os ideais que

    almejam, pois possuem certa liberdade amorosa com seus amantes. As filhas

    Goriot, por exemplo, afirmam compadecer-se do sofrimento do pai e culpam seus

    cnjuges por no deix-las cuidar dele da maneira como gostariam; entretanto,

    no reagem quando eles lhes impem determinadas condies. O dinheiro e o

    status so, para elas, mais importantes do que a prpria figura paterna, que acaba

    morrendo mngua. O discurso dessas mulheres e sua atitude so

  • 29

    completamente dissonantes, pois elas no vivem de acordo com aquilo em que

    acreditam.

    Mme de Beausant parece ser a nica a ter uma atitude mais coerente

    com a sua situao. Aps se descobrir abandonada pelo marqus dAjuda-Pinto,

    decide se retirar da vida social e exilar-se na provncia. Assim, depois do enorme

    sofrimento causado por esse homem, em virtude de t-la deixado e tendo em vista

    que no mantinha esse relacionamento somente em razo de algum interesse,

    como o fazem as filhas Goriot, todo o mundo dos sales perde o sentido e ela se

    retira, pois no apegada a esse universo como o so Delphine e Anastasie.

    Diametralmente oposta a Mme de Beausant est Mme Vauquer. Para

    esta ltima, pensar em casamento algo praticamente inconcebvel, pois no

    possui um dote, alm de no ter os mesmos atributos femininos que as mulheres

    do Faubourg Saint-Germain e da Chausse dAntin. Por algum tempo, at chegou

    a interessar-se por M. Goriot, mas ao perceber que este no nutria nenhum

    interesse, passou a trat-lo com desprezo e indiferena. Ela faz parte da pequena

    burguesia feminina que estava inserida no universo do trabalho, em virtude das

    transformaes sociais que estavam acontecendo na poca. Assim, a ligao de

    Mme Vauquer com o dinheiro depende dos lucros que ela conseguir extrair da

    penso para sobreviver, e que no passa por nenhum relacionamento com outra

    pessoa, empregando a sua energia para cuidar do estabelecimento. Hbil, julgava

    os moradores da penso segundo a renda que possuam, j que leur mesurait

  • 30

    avec une prcision d'astronome les soins et les gards, d'aprs le chiffre de leurs

    pensions (BALZAC, 1971, p. 32) e tambm descrita como uma

    entremetteuse qui va se gendarmer pour se faire payer plus cher (Idem, p. 29).

    Podemos dizer o mesmo de Mlle Michonneau, que se torna uma espi da

    polcia em troca de dinheiro, atitude condenada por todos os moradores da

    penso, que a expulsam. Ela se relaciona com Poiret, que um homem por quem

    nenhuma mulher se interessaria, mas no se trata de um casamento. Desse

    modo, tambm independente financeiramente, mas necessita recorrer a esse

    tipo de trabalho para garantir sua sobrevivncia.

    A problemtica que envolve Mlle Taillefer tambm est relacionada a essa

    questo, pois contrariamente s filhas de M. Goriot, dotadas pelo pai, no

    reconhecida e desse modo no encontra pretendentes. Excluda da famlia, vive

    sob os cuidados de Mme Couture, de quem recebe orientao e apoio para

    convencer M. Taillefer da necessidade de deixar-lhe uma herana.

    Passemos, agora, anlise mais pormenorizada de cada uma.

  • 31

    2.1 Mme Vauquer

    Madame Vauquer, ne de Conflans, est une vieille femme qui, depuis

    quarante ans, tient Paris une pension bourgeoise tablie rue Neuve-

    Sainte-Genevive, entre le quartier latin et le faubourg Saint-Marceau.

    Cette pension, connue sous le nom de la Maison Vauquer, admet

    galement des hommes et des femmes, des jeunes gens et des vieillards,

    sans que jamais la mdisance ait attaqu les moeurs de ce respectable

    tablissement. Mais aussi depuis trente ans ne s'y tait-il jamais vu de

    jeune personne, et pour qu'un jeune homme y demeure, sa famille doit-

    elle lui faire une bien maigre pension. (BALZAC, 1971, p. 21)

    A passagem anterior d incio ao romance. Ao fazer a descrio, Balzac

    vai, progressivamente, mostrando junto com a penso a personagem, fazendo

    com que ambas em determinado momento quase se confundam. Desse modo, ao

    mostrar o ambiente da habitao, que marcado pela avareza, pela falta de

    cuidado e por uma economia que visa sobretudo o lucro, traado tambm o

    retrato de Mme Vauquer como uma especuladora sem escrpulos, que deixa de

    investir e garantir o conforto dos pensionistas e os explora com a cobrana de

    valores exorbitantes.

    No decorrer da narrativa, Balzac traa um panorama de toda a vida da

    personagem: sua solido, o destino incerto que tomou seu ex-marido, o sustento

    advindo somente da penso, e os malabarismos que tinha que fazer para

    conseguir dinheiro para sua sobrevivncia. Por outro lado, havia a explorao dos

    pensionistas, com a cobrana de valores cada vez mais elevados para manter o

  • 32

    aluguel de um quarto, fato responsvel, em grande medida, pela runa de M.

    Goriot.

    Auerbach, conforme sabemos, (2004, pp. 420-421) faz uma anlise de

    Mme Vauquer, mostrando como a descrio desta personagem est atrelada ao

    espao no qual est inserida:

    O retrato da dona da penso est ligado sua apario matutina na sala

    de jantar; aparece neste ponto central de sua atividade, introduzida um

    pouco maneira das bruxas pelo gato que pula sobre o aparador, e

    imediatamente comea uma descrio pormenorizada de sua pessoa. A

    descrio feita sob um motivo principal, que repetido vrias vezes: o

    motivo da harmonia entre a sua pessoa, por um lado, e o espao em que

    se encontra a penso que dirige, a vida que leva, pelo outro; em poucas

    palavras, a harmonia entre a sua pessoa e aquilo que ns (e s vezes

    tambm j Balzac) chamamos de meio. Esta harmonia sugerida da

    forma mais penetrante: em primeiro lugar, o aspecto gasto, gordo,

    sujamente quente e sexualmente repulsivo do seu corpo e das suas

    roupas, o que concorda com o ar da habitao, que ela respira sem nojo;

    pouco mais tarde, em ligao com o rosto e com os gestos faciais, o

    motivo considerado de forma um pouco mais moralista, a saber,

    acentuando energicamente a relao mtua entre pessoa e meio.

    Aps a detalhada descrio da penso, com todos os seus ambientes

    miserveis e marcados pela falta de investimento, Balzac passa a descrever Mme

    Vauquer que, inserida dentro deste ambiente, completa o espetculo. Essa

    observao diz muito sobre a personagem, na medida em que o prprio narrador

    afirma que apesar de na superfcie ela ter esse carter srdido e mesquinho, em

    contraposio mostrado o pensamento dos pensionistas a seu respeito: elle

    est bonne femme au fond, se disent les pensionnaires (BALZAC, 1971, p. 29).

    Balzac, desse modo, deixa em dvida o carter da proprietria.

  • 33

    Trata-se, dessa maneira, de uma personagem complexa, na medida em

    que, apesar de extremamente atrada pelo lucro e causadora da runa de muitos

    pensionistas, com atitudes que muitas vezes aparentam uma completa indiferena

    em relao aos outros, seu carter colocado em dvida, ou seja, no se pode

    afirmar ao certo se ela tem uma natureza ruim ou se levada pelas

    circunstncias, pois no prefcio da primeira edio de Le pre Goriot publicado na

    Revue de Paris4, Balzac faz um levantamento sobre as mulheres que aparecem

    em alguns de seus romances, dividindo-as em femmes vertueuses e femmes

    criminelles , e classifica Mme Vauquer dentro da categoria femmes

    criminelles . No entanto, apenas para esta personagem faz uma pequena

    observao: elle est douteuse .

    Entretanto, inegvel o fato de sua ao estar voltada sobretudo para o

    lucro. Quando Mlle Michonneau praticamente expulsa pelos outros pensionistas,

    Mme Vauquer calcula que melhor que a delatora v embora do que todos os

    outros moradores da penso, pois estes ameaaram deixar o estabelecimento,

    caso a vieille fille no se retirasse:

    Madame Vauquer calcula d'un seul coup d'oeil le parti le plus avantageux,

    et roula jusqu' mademoiselle Michonneau.

    - Allons, ma chre petite belle, vous ne voulez pas la mort de mon

    tablissement, hein ? Vous voyez quelle extrmit me rduisent ces

    messieurs ; remontez dans votre chambre pour ce soir. (BALZAC, 1971,

    p. 370)

    4 Trata-se do prefcio primeira edio publicado na Revue de Paris em 8 de maro de 1835, e

    que apareceu na primeira e na segunda edies Werdet e depois foi suprimido. Para realizar este

    trabalho, consultamos a edio de Le pre Goriot de 1971, pp. 399-401.

  • 34

    O nico momento em que ela quase chora quando percebe que vrios de

    seus clientes partem e seus lucros vo diminuir consideravelmente:

    - Mais il n'y a plus qu' brler ma maison, le tonnerre y tombe. Le fils

    Taillefer est mort trois heures. Je suis bien punie d'avoir souhait du

    bien ces dames au dtriment de ce pauvre jeune homme. Madame

    Couture et Victorine me redemandent leurs effets, et vont demeurer chez

    son pre. Monsieur Taillefer permet sa fille de garder la veuve Couture

    comme demoiselle de compagnie. Quatre appartements vacants, cinq

    pensionnaires de moins ! Elle s'assit et parut prs de pleurer. Le malheur

    est entr chez moi, s'cria-t-elle. (BALZAC, 1971, p. 273)

    Segundo Auerbach (2004), Mme Vauquer caracterizada maneira de

    uma bruxa, fato que pode ser comprovado com suas atitudes em relao ao

    ganho e, tambm, quando analisamos sua descrio fsica:

    Bientt la veuve se montre, attife de son bonnet de tulle sous lequel

    pend un tour de faux cheveux mal mis, elle marche en tranassant ses

    pantoufles grimaces. Sa face vieillotte, grassouillette, du milieu de

    laquelle sort un nez bec de perroquet ; ses petites mains poteles, sa

    personne dodue comme un rat d'glise, son corsage trop plein et qui

    flotte, (...) ses yeux rids, dont l'expression passe du sourire prescrit aux

    danseuses l'amer renfrognement de l'escompteur. (Idem, pp. 28-29)

    A descrio da aparncia da personagem, com seu bonnet de tulle ,

    sua face vieillotte seu nez a bec de perroquet e yeux rids muito

    semelhante de uma bruxa. Alm disso, suas atitudes a caracterizam como uma

    bruxa do ganho. Assim, seus atos esto em harmonia com sua descrio fsica,

    j que caracterizada como algum que pertence ao Mal, que luta contra o Bem.

  • 35

    Segundo Sallmann (2002), a bruxa foi uma das entidades s quais mais se

    atribuiu maldade e ligao com o demonismo, enchendo o imaginrio coletivo com

    crenas e supersties. Tal fato produziu um conjunto de histrias fantsticas ou

    maravilhosas sobre a mulher, que aparecem em muitos relatos da tradio popular

    que depois se transformaram nos contos de fada, e posteriormente foram

    aproveitados na literatura.

    A bruxa j pode ter sido uma fada, mas que perdeu sua boa natureza, se

    desviou para o Mal e ligou-se ao Diabo. Assim como este ltimo, considerado o

    anjo decado pela tradio crist, esta tambm perdeu sua bondade e enveredou

    pelo outro caminho. Mme Vauquer, como a bruxa do ganho, tambm pode ser

    considerada prejudicial na medida em que apenas est voltada para o lucro, sem

    nenhuma preocupao tica com aqueles que abriga em sua penso.

    Inserida na selva que Paris, ao mesmo tempo descrita em La fille aux

    yeux dor como o Inferno, a rue Neuve-Sainte-Genevive juntamente com a

    penso so o pntano que abrigam essa bruxa. Como mostrou Guichardet (1993),

    a descrio da penso e da rua to lgubre que se torna pior de se ver do que

    crnios vazios. A proximidade com o Panthon, monumento que funciona como

    uma espcie de cemitrio, demonstra a atmosfera de morte em que a penso

    est inserida.

  • 36

    Na cena I de Macbeth vemos a imagem de bruxas em um charco, em meio

    a troves, relmpagos e chuva em um pntano, ou seja, elas tm ligao estreita

    com o meio no qual esto inseridas. Da mesma forma, Balzac faz aparecer Mme

    Vauquer num ambiente sujo e ftido.

    Assim como esses seres exercem poder sobre os elementos naturais e

    sobre as foras da natureza quando fazem suas feitiarias, ou seja, possuem

    poderes sobrenaturais capazes de interferir na vida de outras pessoas sem que

    estas nada possam fazer a no ser encontrar uma maneira de desfazer o feitio

    por meio das foras do Bem, a Mme Vauquer tambm atribudo grande poder

    dentro do espao no qual est inserida, e todos os que esto sua volta so

    controlados e dominados por ela. Quando Balzac afirma que ela conseguia

    analisar seus hspedes e trat-los segundo o preo que pagavam, confere-lhe

    quase o poder adivinhatrio das bruxas que, muitas vezes, tambm eram

    consultadas para fazer previses a respeito da vida das pessoas e eram

    caracterizadas nos contos de fada possuindo vidncia, podendo prever

    acontecimentos e agir diretamente sobre eles com seus poderes sobrenaturais.

    A figurao da bruxa malfica se estabeleceu com todo o vigor nos contos

    de fada. Nesses textos elas aparecem sempre como velhas, gordas, desdentadas,

    com grandes narizes que geralmente tm uma verruga e com um chapu que mal

    cobre seus cabelos desgrenhados. Mme Vauquer, como dissemos anteriormente,

    caracterizada de maneira muito semelhante. O gato que a acompanha um

  • 37

    animal indicativo de mau agouro, pois faz parte de uma fauna ligada ao mistrio.

    Nas crenas sobre o assunto, havia a possibilidade de a bruxa transformar-se em

    um animal, geralmente um felino. Segundo Sallmann (2002, p. 54), Os bruxos

    tambm tinham o poder de se transformar em animais, em gatos, por exemplo,

    para subir nos beros e asfixiar os bebs (...).

    s bruxas eram atribudos os poderes para causar catstrofes naturais, e

    muitas vezes eram punidas quando algo dessa natureza acontecia. Elas eram

    consideradas culpadas por todos os males que existiam no convvio social. Ainda

    segundo Sallmann (2002, p. 54), Sabiam provocar chuvas torrenciais que

    submergiam as culturas, o raio que derrubava asas e rvores, a chuva de granizo

    que destrua o trigo ainda verde e os pomares.

    A runa de M. Goriot, desse modo, atribuda em grande parte a Mme

    Vauquer. Sua ganncia, cobrando preos absurdos e o fato de sentir-se rejeitada

    por ele despertaram nela o desejo de destru-lo. Pouco a pouco, ele foi perdendo

    todo o dinheiro e a sade e ela, sem piedade, cobrava valores ainda mais

    exorbitantes. Seu poder de bruxa do ganho consiste na especulao, e esse poder

    causou grande devastao na vida daquele que habitava em seu espao:

    Vous savez que tout comme moi que le pre Goriot na plus le sou.

    Donner des draps un homme en train de tortiller loeil, cest les perdre,

    dautant quil faudra bien en sacrifier un pour le linceul. Ainsi, vous me

    devez dj cent quarante-quatre francs, mettez quarante francs de draps,

    et quelques autres petites choses, la chandelle que Sylvie vous donnera,

    tout cela fait au moins deux cents francs, quune pauvre veuve comme

  • 38

    moi nest pas en tat de perdre. Dame! soyez juste, monsieur Eugne, jai

    bien assez perdu depuis cinq jours que le guignon sest log chez moi.

    Jaurais donn dix cus pour que ce bonhomme-l ft parti ces jours-ci,

    comme vous le disiez. a frappe mes pensionnaires. Pour un rien, je le

    ferais porter lhpital. Enfin, mettez-vous ma place. Mon tablissement

    avant tout, cest ma vie, moi. (BALZAC, 1971, p. 356)

    A falta de sensibilidade de Mme Vauquer se manifesta at mesmo no

    momento da morte de M. Goriot:

    Au moment o Eugne achevait de lire le griffonnage de Bianchon, il vit

    entre les mains de madame Vauquer le mdaillon cercle dor o taient

    les cheveux des deux filles.

    - Comment avez-vous os prendre a ? lui dit-il.

    - Pardi ! fallait-il lenterrer avec ? rpondit Sylvie, cest en or.

    - Certes ! reprit Eugne avec indignation, quil emporte au moins avec

    lui la seule chose qui puisse reprsenter ses deux filles. (Idem, p. 365)

    No entanto, a bruxa do ganho cujo poder consistia na especulao

    tambm teve sua punio ao final da narrativa, quando a maioria dos hspedes

    deixou a penso: M. Goriot morreu, Vautrin foi preso, Mlle Michonneau tambm foi

    forada a sair junto com Poiret, Victorine finalmente conseguiu a sua herana e

    Rastignac decidiu ir embora. A runa de Mme Vauquer foi o preo pago por suas

    atitudes. Como as bruxas, que durante o perodo inquisitorial eram mortas ou

    perseguidas, Mme Vauquer tambm perdeu fora juntamente com seu

    estabelecimento, j que para ela este representava sua prpria vida.

    Assim, h um esvaziamento progressivo da funo de Mme Vauquer na

    narrativa, na medida em que os hspedes vo deixando a penso. No incio,

  • 39

    quando todos os pensionistas esto l, sua importncia tal que o prprio

    romance se inicia com a descrio do estabelecimento seguida da de sua prpria

    figura, conforme analisamos. No entanto, quando a penso se esvazia, e

    consequentemente ela deixa de congregar todos os hspedes sob seu domnio, a

    cada um que parte corresponde uma diminuio de seu poder. Desse modo,

    notamos que no final ela no mais aparece, e a ao romanesca passa a dar

    preferncia a retratar a morte de Goriot, o abandono das filhas, o exlio de Mme de

    Beausant, e a partir da sada de Mlle Michonneau no temos mais notcia de

    Mme Vauquer e tampouco ela volta a aparecer em outros romances de La

    Comdie Humaine.

    A perda de poder de Mme Vauquer, desse modo, acontece em dois nveis:

    perda de sua fora econmica e consequente capacidade de interveno na vida

    de seus pensionistas, como no caso de Goriot, e o esvaziamento de sua funo

    na narrativa. Toda a ao romanesca deixa de ter lugar no espao da penso para

    se desenrolar em outros, como os sales de Mme de Beausant e at mesmo o

    cemitrio Pre Lachaise. Desse modo, to evidente o enfraquecimento desse

    espao ao ponto de perder lugar para o cemitrio, que na narrativa representa a

    morte tanto de Goriot, de Mme de Beausant e, se assim podemos dizer, da

    Penso Vauquer e da vida que Rastignac estava levando, a qual se abre para

    novas perspectivas, quando o jovem decide procurar Delphine de Nucingen.

    Portanto, a cena final no Pre Lachaise simboliza o fim de tudo o que Rastignac

  • 40

    viveu at aquele momento, incluindo sua estadia na penso e todos os

    acontecimentos presos a ela.

    2.2 Mlle Michonneau

    As indicaes sobre Mlle Michonneau denotam que se trata de algum

    excludo da sociedade, sem nenhuma perspectiva. apresentada em Le pre

    Goriot da seguinte maneira:

    La vieille demoiselle Michonneau gardait sur ses yeux fatigus un

    crasseux abat-jour en taffetas vert, cercl par du fil d'archal qui aurait

    effarouch l'ange de la Piti. Son chle franges maigres et pleurardes

    semblait couvrir un squelette, tant les formes qu'il cachait taient

    anguleuses. Quel acide avait dpouill cette crature de ses fortunes

    fminines ? elle devait avoir t jolie et bien faite : tait-ce le vice, le

    chagrin, la cupidit ? avait-elle trop aim, avait-elle t marchande la

    toilette, ou seulement courtisane ? Expiait-elle les triomphes d'une

    jeunesse insolente au-devant de laquelle s'taient rus les plaisirs par une

    vieillesse que fuyaient les passants ? Son regard blanc donnait froid, sa

    figure rabougrie menaait. Elle avait la voix clairette d'une cigale criant

    dans son buisson aux approches de l'hiver. Elle disait avoir pris soin d'un

    vieux monsieur affect d'un catarrhe la vessie, et abandonn par ses

    enfants, qui l'avaient cru sans ressources. Ce vieillard lui avait lgu mille

    francs de rente viagre, priodiquement disputs par les hritiers, aux

    calomnies desquels elle tait en butte. Quoique le jeu des passions et

    ravag sa figure, il s'y trouvait encore certains vestiges d'une blancheur et

    d'une finesse dans le tissu qui permettaient de supposer que le corps

    conservait quelques restes de beaut. (BALZAC, 1971, pp. 32-33)

  • 41

    A personagem construda artisticamente com um lxico depreciativo,

    alm de carregar a alcunha imputada por Vautrin: Vnus du Pre Lachaise , ou

    seja, a Vnus que est no cemitrio, o que ressalta sua aparncia decadente.

    Suas caractersticas fsicas se assemelham tambm muito s de uma bruxa. Ela

    era vieille , tinha yeux fatigus , usava um crasseux abat-jour en taffetas

    vert , possua formes anguleuses , e tinha a voix clairette . Alm disso,

    tambm habitava a penso que, como dissemos, o ambiente que pode ser

    comparado ao pntano descrito por Shakespeare e que se constitui, no

    imaginrio, no local onde as bruxas habitam, e que representa toda a imundcie e

    feira dessas entidades.

    O epteto Vnus du Pre Lachaise muito significativo. Vnus, a

    deusa do amor e da beleza, deslocada para o ambiente inspito do cemitrio,

    onde s h morte, cadveres e ossos. Assim como as bruxas esto no pntano, a

    Vnus do Pre Lachaise representa aquela que est no seu devido lugar, ou seja,

    na penso. Alm disso, descrita como uma personagem que possui um carter

    srdido, algo representado no episdio da priso de Vautrin.

    Ademais, Vnus pode significar tanto mulher bonita quanto prostituta.

    Nesse sentido, ao nome-la da maneira como o faz, Vautrin produz uma ironia,

    tendo em vista os traos decadentes de Michonneau. Alm disso, indiretamente,

    pode estar classificando-a, de forma sutil, como meretriz, tendo em vista que a

  • 42

    narrativa no deixa muito claro qual seria o seu passado, que se torna obscuro

    aos olhos do leitor.

    Como uma bruxa, ela possui uma espcie de poo mgica, que ser

    dada a Jacques Collin e far com que ele durma. Desse modo, tambm consegue

    alterar toda a ordem existente dentro da penso, ao ajudar a capturar o indivduo

    que era o mais poderoso dentro do sistema. Assim como Mme Vauquer,

    personagem que tem suas aes motivadas por sua ambio, Michonneau

    tambm, a partir de seu interesse financeiro, consegue reunir foras suficientes

    para aquilo que at mesmo para a polcia representava algo de grande dificuldade.

    Dessa forma, ela praticamente altera a ordem natural com poderes quase

    sobrenaturais, tem grande intuio e uma espcie de vidncia, quando percebe

    que Vautrin tinha escondido dinheiro, mas no teve tempo hbil para procur-lo.

    Mme Vauquer quem ajuda a medicar Vautrin, trazendo ter para curar o

    efeito do ataque causado pela substncia dada por Mlle Michonneau. portadora

    do antdoto e, assim, tambm capaz de agir na natureza por meio de poes

    para causar determinados resultados. Desse modo, as bruxas agem de modo

    produtivo no mundo real da penso.

    Mlle Michonneau faz um papel de intermediria entre a ordem burguesa

    (representada pela polcia) e o mundo escuso da criminalidade. Como as bruxas,

    que faziam previses, davam consultas e mesmo preparavam, em troca de

    dinheiro, trabalhos aos quais eram atribudos poderes sobrenaturais para que as

  • 43

    pessoas comuns pudessem ter acesso feitiaria e supostamente tivessem o

    poder de alterar a ordem natural, a vieille fille tambm estabelece esse elo.

    Segundo Sallmann (2002, p. 22):

    O bruxo um indivduo capaz de modificar o destino de um outro

    indivduo (sors em latim significa sorte ou destino, sorcier a palavra

    francesa para bruxo) por meio de procedimentos rituais ou simblicos.

    exatamente isso o que fez Mlle Michonneau, pois conseguiu modificar o

    destino de Vautrin e tambm o da penso, quando o desmascarou. Assim como

    os praticantes de bruxaria, que recebem dinheiro para as encomendas

    admitidas, do mesmo modo agiu Mlle Michonneau para capturar o criminoso, e

    realizou o ritural responsvel por alterar a histria.

    Quando Vautrin preso, Mlle Michonneau tambm descoberta, e por

    ele chamada de traidora. Todos os moradores se revoltam contra o ocorrido, e no

    a aceitam mais na penso. Ela, desse modo, teve de procurar outro lugar para

    ficar:

    - Finissons-en avec mademoiselle Judas, dit le peintre en s'adressant

    madame Vauquer. Madame, si vous ne mettez pas la porte la

    Michonneau, nous quittons tous votre baraque, et nous dirons partout qu'il

    ne s'y trouve que des espions et des forats. Dans le cas contraire, nous

    nous tairons tous sur cet vnement, qui, au bout du compte, pourrait

    arriver dans les meilleures socits, jusqu' ce qu'on marque les galriens

    au front, et qu'on leur dfende de se dguiser en bourgeois de Paris et de

    se faire aussi btement farceurs qu'ils le sont tous. (BALZAC, 1971, p.

    236)

  • 44

    Assim como as bruxas, que eram punidas com a morte, ela tambm

    recebeu seu castigo, sendo obrigada a deixar a penso. Todos os pensionistas

    no a aceitaram mais depois do ocorrido, e se voltaram contra ela de forma

    veemente em virtude de sua ligao com a polcia (ordem) e, ao mesmo tempo,

    com o mundo misterioso a envolver poes, traies, delaes e prises.

    Michonneau, portanto, impregnada de aura malfica, usa de seus poderes para

    neutralizar outro bruxo, o de mil faces e nomes, Vautrin.

    Diferentemente do outro bruxo, Michonneau no possui o mesmo poder

    de seduo e de persuaso, o que fez com que, ao neutraliz-lo, ela mesma

    acabasse perdendo sua fora e sucumbindo. Desse modo, imediatamente aps os

    pensionistas descobrirem que havia sido ela quem o havia denunciado, ocorreu

    uma grande rejeio por parte deles, de maneira que ela perdeu todos os seus

    poderes e tambm se esvaziou dentro da narrativa, ao passo que a priso de

    Jacques Collin no teve outro efeito seno o de fazer com que ele ganhasse ainda

    mais em importncia narrativa. Assim, ao tentar neutralizar um bruxo, que

    tambm consegue alterar o destino de personagens, como o fez com Victorine

    Taillefer e, desse modo, muito mais poderoso que ela, Michonneau foi a grande

    perdedora, recebeu grande punio e perdeu os seus poderes.

  • 45

    2.3 Mlle Taillefer

    O retrato de Victorine Taillefer apresentado juntamente com o de

    Rastignac:

    Deux figures y formaient un contraste frappant avec la masse des

    pensionnaires et des habitus. Quoique mademoiselle Victorine Taillefer

    et une blancheur maladive semblable celle des jeunes filles attaques

    de chlorose, et qu'elle se rattacht la souffrance gnrale qui faisait le

    fond de ce tableau, par une tristesse habituelle, par une contenance

    gne, par un air pauvre et grle, nanmoins son visage n'tait pas vieux,

    ses mouvements et sa voix taient agiles. Ce jeune malheur ressemblait

    un arbuste aux feuilles jaunies, frachement plant dans un terrain

    contraire. Sa physionomie rousstre, ses cheveux d'un blond fauve, sa

    taille trop mince, exprimaient cette grce que les potes modernes

    trouvaient aux statuettes du Moyen-Age. Ses yeux gris mlangs de noir

    exprimaient une douceur, une rsignation chrtiennes. Ses vtements

    simples, peu coteux, trahissaient des formes jeunes. Elle tait jolie par

    juxtaposition. Heureuse, elle et t ravissante : le bonheur est la posie

    des femmes, comme la toilette en est le fard. Si la joie d'un bal et reflt

    ses teintes roses sur ce visage ple ; si les douceurs d'une vie lgante

    eussent rempli, eussent vermillonn ces joues dj lgrement creuses ;

    si l'amour et ranim ces yeux tristes, Victorine aurait pu lutter avec les

    plus belles jeunes filles. Il lui manquait ce qui cre une seconde fois la

    femme, les chiffons et les billets doux. Son histoire et fourni le sujet d'un

    livre. (BALZAC, 1971, p. 35)

    Os elementos que melhor descrevem Mlle Taillefer so sua blancheur

    maladive , com uma physionomie rousstre , cheveux dun blond fauve ,

  • 46

    taille trop mince possuindo grace . Alm disso, ses yeux gris mlangs de

    noir exprimaient une douceur, une rsignation chrtiennes , une contenance

    gne e tinha vtements simples . Desse modo, Victorine descrita como

    uma figura angelical, que tambm lembra a imagem da Virgem Maria. Sua

    brancura, que a torna quase transparente, ao mesmo tempo mostra o carter

    dessa personagem, que descrita como algum que possui muita pureza em

    contraste com as bruxas descritas anteriormente.

    Desse modo, ela vista em oposio a Mlle Michonneau e a Mme

    Vauquer. Relaciona-se ao Bem, em oposio s outras. A descrio de Mlle

    Taillefer mostra sua pureza e aura romntica, na medida em que sua pele quase

    transparente, deixando ver todo o seu interior, que totalmente limpo.

    Victorine, alm disso, representa o quase-destino de Rastignac, pois a

    proposta de Vautrin, que envolvia a recompensa pecuniria, seria a queda do

    jovem no mundo do crime. Assim, seu carter puro representa, indiretamente,

    perigo ao jovem, na medida em que o criminoso est intermediando algo terrvel,

    apesar de ela mesma no saber.

    Assim como as personagens Angla e Clarimonde de Thophile Gautier e

    Vra de Villiers de lIsle Adam5, que so intermedirias entre a vida e a morte e

    5A caracterizao de Victorine em muito se assemelha da personagem Angla no conto

    fantstico La cafetire de Thophile Gautier:

    Jamais, mme en rve, rien, d'aussi parfait ne s'tait prsent mes yeux ; une

  • 47

    podem passar de uma para a outra, Victorine tambm est entre os perigos da

    selva (Paris) e para Rastignac a personagem os pontua, tanto para ela mesma, j

    que rejeitada pelo pai, quanto para o jovem e, de certo modo, tambm est

    indiretamente envolvida entre a vida e a morte de seu irmo.

    Todas essas personagens tm em comum, no entanto, o fato de buscarem

    avidamente o amor e, no caso de Vra e Angla, voltarem da morte para

    reconquist-lo. Victorine tambm deseja avidamente o jovem provinciano, mas, ao

    peau d'une blancheur blouissante, des cheveux d'un blond, cendr, de longs cils

    et des prunelles bleues, si claires et si transparentes, que je voyais son me

    travers aussi distinctement qu'un caillou au fond d'un ruisseau (GAUTIER, 1999, p.

    15)

    A personagem de Gautier est inserida numa atmosfera de mistrio. Alm disso, ela

    aparece para encontrar o seu amado e danar com ele, mas desaparece misteriosamente, e logo

    aps o protagonista fica sabendo que ela j estava morta h muito tempo. Ela tem uma

    representao angelical e tambm lembra a Madona, remetendo, desse modo, a uma mulher com

    uma natureza pura e virginal. Essa mesma imagem aparece em outro conto fantstico de Villiers

    de lIsle Adam, Vra:

    Le plein-nimbe de la Madone en habits de ciel brillait, rosac de la croix byzantine

    dont les fins et rouges linaments, fondus dans le reflet, ombraient d'une teinte de

    sang l'orient ainsi allum des perles. Depuis l'enfance, Vra plaignait, de ses

    grands yeux, le visage maternel et si pur de l'hrditaire madone, et, de sa nature,

    hlas ! ne pouvant lui consacrer qu'un superstitieux amour, le lui offrait parfois,

    nave, pensivement, lorsqu'elle passait devant la veilleuse. (ADAM, 1983, p. 51)

    A caracterizao da personagem como Madona, ou seja, como uma figura virginal,

    tambm se assemelha de Victorine, que descrita como une statuette du Moyen ge .

    Assim como em La Morte Amoureuse, tambm de Thophile Gautier, a personagem

    Clarimonde, que uma vampira, representa grande perigo de queda do jovem padre, pois manter

    o relacionamento com ela seria o mesmo que morrer e ir para o Inferno, Victorine tambm se

    constitui nessa ameaa para Rastignac, ou seja, a sua queda no mundo do crime.

  • 48

    final, este acaba decidindo ficar com Mme de Nucingen.

    Desse modo, Victorine, por sua pureza e inocncia, ope-se a

    praticamente todas as mulheres da obra. At mesmo as filhas Goriot, apesar de

    tambm serem belas, no possuem o interior condizente com o exterior.

    No conto de Villiers de lIsle Adam (1983, p. 51) o sepulcro de Vra contm

    o epitfio PALLIDA VICTRIX , que parece tambm definir a nossa personagem,

    que plida no sentido de pura, e vitoriosa. Desse modo, podemos dizer que

    Victorine representa a victoire , ou o prmio ao mais oportunista, alm de ela

    prpria ter sido vencedora, quando conseguiu a herana, apesar de isso ter

    ocorrido por meios escusos. Alm disso, ela possui uma contradio em si, pois

    apesar de potencialmente ser dona de recursos financeiros, no consegue usufruir

    deles no decorrer da narrativa, tendo que submeter-se penso Vauquer e a todo

    o ambiente sujo e ftido que contrasta com a vida que ela poderia levar. Sua

    vitria s ocorrer ao final da narrativa, quando Vautrin consegue alterar sua

    trajetria.

    O destino de Victorine, desse modo, oposto ao das bruxas que

    sucumbem e se esvaziam ao final da narrativa. A jovem, dotada de caractersticas

    fsicas e morais que se assemelham s de uma princesa nos contos de fada,

    como a pureza, a beleza fsica e a inocncia, ao final consegue a sua vitria, ou

  • 49

    seu final feliz. No entanto, diferentemente das narrativas que pertencem ao

    maravilhoso, seu futuro foi alterado pela ao de um bruxo.

    O retrato de Mlle Taillefer mostra a condio da mulher solteira destituda

    de um dote no sculo XIX. As mulheres, aristocratas ou no, nessa situao eram

    colocadas em conventos e condicionadas a celibatos compulsrios. As que no

    tinham origem aristocrtica tambm eram enviadas a esses lugares a fim de que

    pudessem aprender com as nobres as maneiras, por meio da convivncia. Desse

    modo, os conventos abrigavam, alm de vivas endividadas, mes aristocratas

    empobrecidas, jovens casadas de 12 ou 13 anos que esperavam atingir a

    maioridade, entre outras, jovens sem dotes, com a finalidade de oferecer-lhes uma

    educao religiosa, por serem pobres ou porque as famlias as deserdavam,

    privando-as de seu dinheiro para compor a riqueza de outros, geralmente os

    irmos primognitos.6

    Victorine recusa essa condio que seu pai lhe estabelece e luta para

    modific-la, indo visit-lo, para que ele altere o que decidiu e resolva dar-lhe a

    parte da riqueza a que ela tem direito. As antigas famlias aristocrticas possuam

    mulheres que se sacrificavam por seus irmos, pois acreditavam num bem maior

    6 A respeito desse assunto ver a tese de Doutorado de Terezinha de Camargo Viana,

    Aproximaes ao mundo feminino de Balzac, em que ela analisa, do ponto de vista sociolgico,

    como o feminino aparece em La Comdie Humaine, nos romances que tratam especificamente

    das mulheres, como La femme de trente ans, Physiologie du mariage, Mmoires de deux jeunes

    maries, entre outros. A autora utiliza essas obras para fazer uma reflexo sobre a condio da

    mulher na Frana do sculo XIX.

  • 50

    que era o de preservar o nome e a riqueza de seus ascendentes. Victorine,

    entretanto, faz parte de uma nova gerao, e seu pai pertence alta burguesia,

    mas vale-se desses mesmos valores para garantir a riqueza da famlia. Alm

    disso, ela no est num convento, mas na penso sob os cuidados de uma

    parente distante, com uma pequena renda anual, ou seja, praticamente

    abandonada prpria sorte.

    A relao de Victorine com o dinheiro, desse modo, diferente da de Mme

    Vauquer e Mlle Michonneau, tendo em vista que sua preocupao

    exclusivamente com o dote para realizar o seu casamento. Alm disso, ela espera

    que esses valores venham de seu pai, e no precisa trabalhar ou realizar qualquer

    atividade par obt-los, pois M. Taillefer tambm lhe d uma parca penso.

    Contrariamente s filhas Goriot, cujo interesse principal o dinheiro e a

    ostentao, essa personagem quer o que lhe de direito e o que se ressalta o

    desejo de ser feliz, decorrente de sua ingenuidade e crena na ventura por meio

    do casamento, em consonncia com sua descrio e, ao mesmo tempo, com sua

    situao familiar e social.

    Assim, Victorine se ope a Mlle Michonneau e a Mme Vauquer, que so

    caracterizadas como bruxas, e se insere quase como uma princesa, se assim

    podemos dizer, tendo em vista estar impregnada de uma aura de bondade e

    beleza. Alm disso, sua histria possui um final feliz, conforme mencionamos

    anteriormente, contrariamente ao das duas personagens. Ademais, ela tem uma

  • 51

    quase servial, Mme Couture, cujo nome lembra o de uma profisso, a de

    costureira, que o destino de muita moa pobre, e que pode ter dois significados:

    a ligao com Mme Couture pode indicar sua condio de garota sem recursos

    financeiros, e que teve seu destino alterado por Vautrin, conforme dissemos, ou,

    ainda, o fato de possuir uma espcie de empregada anteciparia seu destino de

    mulher rica, tendo em vista que as nobres de antanho tambm possuam

    serviais.

    2.4 As filhas Goriot

    A relao das filhas Goriot e o dinheiro engloba a questo central de Le

    Pre Goriot. Em suas notas, o projeto inicial do livro continha as seguintes

    indicaes:

    Un brave homme pension bourgeoise 600 fr. de rente stant

    dpouill pour ses filles qui toutes deux ont 50 000 fr. de rente mourant

    comme un chien. 7

    7 Citado por GUICHARDET, Jeannine. Le pre Goriot dHonor de Balzac. Paris: Gallimard, 1993,

    p. 9.

  • 52

    No prefcio de Cabinet des Antiques, h um comentrio sobre a histria do pai :

    Lvnement qui a servi de modle offrait des circonstances affreuses et

    comme il ne sen prsente pas chez les cannibales, le pauvre pre a cri

    pendant vingt heures dagonie pour avoir boire, sans que personne

    arrivt son secours, et ses deux filles taient lune au bal, lautre au

    spectacle, quoiquelles nignorassent pas ltat de leur pre. 8

    As filhas Goriot representam a interseco entre o dinheiro (dote) e a

    considerao social. Desse modo, seus maridos so da elite, e o fato de estarem

    acompanhadas por eles faz com que se infiltrem na alta sociedade e no meam

    esforos para conseguir admirao e prestgio.

    Ao descrever as filhas Goriot, Balzac privilegia seu aspecto fsico e tambm

    a maneira como se vestem, para mostrar sua beleza e o luxo de que esto

    cercadas. Sua representao se faz em ambientes de sonho. Em contrapartida,

    ressalta seu comportamento em relao a M. Goriot, que denota completa

    superficialidade e futilidade. No tm compaixo pelo pai que est morrendo

    mngua e do valor a coisas que, na verdade, causam-lhes grande sofrimento.

    Presas a esse mundo de aparncias, atribuem sua infelicidade falta de dinheiro

    e buscam-no com o pai sem a menor considerao por este.

    8 BALZAC, H. Prface. In: Cabinet des Antiques, apud GUICHARDET, Jeannine. Le pre Goriot

    dHonor de Balzac. Paris: Gallimard, 1993, p. 10.

  • 53

    A seguir, vemos como descrita Mme de Restaud:

    Tout coup la richesse tale chez la comtesse de Restaud brilla devant

    ses yeux. Il avait vu l le luxe dont une demoiselle Goriot devait tre

    amoureuse, des dorures, des objets de prix en vidence, le luxe

    inintelligent du parvenu, le gaspillage de la femme entretenue. Cette

    fascinante image fut soudainement crase par le grandiose htel de

    Beausant. Son imagination, transporte dans les hautes rgions de la

    socit parisienne, lui inspira mille penses mauvaises au coeur, en lui

    largissant la tte et la conscience. Il vit le monde comme il est : les lois et

    la morale impuissantes chez les riches, et vit dans la fortune l' ultima ratio

    mundi. (BALZAC, 1971, p. 171)

    A passagem anterior mostra como Balzac retrata as irms Goriot:

    richesse , luxe , prix , gaspillage , hautes rgions de la

    socit parisienne . Desse modo, as filhas so mostradas de acordo aquilo que

    possuem, diferentemente de Victorine. Mme de Nucingen relata, na passagem

    seguinte, o domnio que seu marido exercia sobre ela em virtude de lanar mo de

    todo o dinheiro do casal, at mesmo aquele que era de seu dote, e no deixar

    nada para ela:

    Eh ! bien, sachez que monsieur de Nucingen ne me laisse pas disposer

    d'un sou : il paye toute la maison, mes voitures, mes loges ; il m'alloue

    pour ma toilette une somme insuffisante, il me rduit une misre secrte

    par calcul. Je suis trop fire pour l'implorer. Ne serais-je pas la dernire

    des cratures si j'achetais son argent au prix o il veut me le vendre !

    Comment, moi riche de sept cent mille francs, me suis-je laiss

    dpouiller? par fiert, par indignation. Nous sommes si jeunes, si naves,

    quand nous commenons la vie conjugale ! La parole par laquelle il fallait

    demander de l'argent mon mari me dchirait la bouche ; je n'osais

    jamais, je mangeais l'argent de mes conomies et celui que me donnait

    mon pauvre pre ; puis je me suis endette. Le mariage est pour moi la

    plus horrible des dceptions, je ne puis vous en parler : qu'il vous suffise

    de savoir que je me jetterais par la fentre s'il fallait vivre avec Nucingen

    autrement qu'en ayant chacun notre appartement spar. (Idem, p. 296)

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    Desse modo, a relao entre as mulheres e o dinheiro muito peculiar,

    tambm no que se refere aos homens, pois elas somente possuem valor aos

    olhos masculinos quando so detentoras de alguma quantia, seja por dote ou

    herana. Victorine, como vimos, passou a ser vista por todos os pensionistas com

    outros olhos depois de ter se tornado herdeira aps a morte de seu irmo.

    Essa relao faz com que busquem riqueza para que possam atrair a

    ateno masculina e no fiquem sozinhas, j que com o dinheiro deixam de ter

    importncia a origem, a aparncia, a idade, a personalidade, etc. Para os homens,

    as mulheres tornam-se a mesma coisa quando so ricas. Elas so usadas para

    ascenso social, como ocorreu com as filhas Goriot e com Victorine quando esta

    passou a despertar o interesse de Rastignac, assim que ele soube que ela poderia

    ser a herdeira de uma grande fortuna. Mas o contrrio tambm acontece, ou seja,

    as mulheres tambm casam-se por interesse com o objetivo de conseguir uma

    melhor posio na sociedade. O matrimnio, como se sabe, configura-se num jogo

    de interesses. o que vemos que ocorreu com as filhas Goriot:

    Courtise pour sa beaut par le comte de Restaud, Anastasie avait des

    penchants aristocratiques qui la portrent quitter la maison paternelle

    pour s'lancer dans les hautes sphres sociales. Delphine aimait l'argent :

    elle pousa Nucingen, banquier d'origine allemande qui devint baron du

    Saint-Empire. Goriot resta vermicellier. Ses filles et ses gendres se

    choqurent bientt de lui voir continuer ce commerce, quoique ce ft toute

    sa vie. Aprs avoir subi pendant cinq ans leurs instances, il consentit se

    retirer avec le produit de son fonds, et les bnfices de ces dernires

    annes ; capital que madame Vauquer, chez laquelle il tait venu s'tablir,

    avait estim rapporter de huit dix mille livres de rente. Il se jeta dans

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    cette pension par suite du dsespoir qui l'avait saisi en voyant ses deux

    filles obliges par leurs maris de refuser non-seulement de le prendre

    chez elles, mais encore de l'y recevoir ostensiblement. (BALZAC, 1971, p.

    121)

    A cena final de Le pre Goriot muito significativa. As carruagens vazias

    revelam a vida que levam Delphine e Anastasie: por fora o luxo, alm de

    representarem as famlias nos eventos sociais, e por dentro o mais completo vazio

    e a infelicidade. Alm disso, essa ostentao pecuniria tambm ilusria, pois as

    filhas recorrem ao usurrio Gobseck para obter dinheiro e entreg-lo aos amantes.

    Outro aspecto que revela tal vida de aparncias o fato de Anastasie, por

    exemplo, utilizar, no baile de Mme Beausant, os diamantes que j estavam

    empenhados para pagar dvidas.

    Contrariamente a Victorine, Anastasie e Delphine no possuem a mesma

    transparncia. Desse modo, embora fisicamente belas, sua aparncia no condiz

    com o seu interior. Apesar de seus belos rostos, possuem um carter srdido e

    mesquinho. Elas so como as carruagens, que carregam consigo luxo e beleza,

    alm de serem cheias de ornamentos, mas por dentro esto completamente

    vazias.

    Aps os seus casamentos, Delphine e Anastasie deixam de ser chamadas

    pelo nome de famlia do pai, Goriot, e passam a adotar o de seus maridos,

    Nucingen e Restaud. Desse modo, como condio para se inserirem na

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    sociedade, era necessrio que perdessem o patronmico e assumissem os nomes

    de casadas, tendo em vista que Goriot no era bem visto pela nobreza pelo fato

    de, no passado, apoiar os revolucionrios e vender farinhas dez vezes mais caro

    do que realmente custavam, fato que o fez enriquecer.

    Assim, elas s passam a fazer realmente parte da sociedade quando

    perdem o sobrenome do pai, e tal fato faz com que h