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Márcio Pinheiro Queiroz ANALISANDO A HIERARQUIA DIKW Dissertação submetida ao Programa de Pós Graduação da Universidade Federal de Santa Catarina para a obtenção do Grau de mestre em Engenharia e Gestão do Conhecimento. Orientador: Prof. Dr. Carlos Augusto M. Remor. Florianópolis, SC 2018

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  • Márcio Pinheiro Queiroz

    ANALISANDO A HIERARQUIA DIKW

    Dissertação submetida ao Programa de

    Pós Graduação da Universidade Federal

    de Santa Catarina para a obtenção do

    Grau de mestre em Engenharia e Gestão

    do Conhecimento.

    Orientador: Prof. Dr. Carlos Augusto

    M. Remor.

    Florianópolis, SC

    2018

  • Ficha de identificação da obra elaborada pelo autor

    através do Programa de Geração Automática da Biblioteca Universitária da UFSC.

    Queiroz, Márcio Pinheiro

    Analisando a Hierarquia DIKW / Márcio Pinheiro

    Queiroz ; orientador, Carlos Augusto Remor, 2018.

    85 p.

    Dissertação (mestrado) - Universidade Federal

    de Santa Catarina, Centro Tecnológico, Programa

    de Pós Graduação em Engenharia e Gestão do

    Conhecimento, Florianópolis, 2018.

    Inclui referências.

    1. Engenharia e Gestão do Conhecimento. 2.

    Hierarquia DIKW. 3. Psicanálise. 4. Conhecimento.

    I. Remor, Carlos Augusto. II. Universidade

    Federal de Santa Catarina. Programa de Pós-

    Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento.

    III. Título.

  • Márcio Pinheiro Queiroz

    ANALISANDO A HIERARQUIA DIKW

    Esta Dissertação foi julgada adequada para obtenção do Título de

    Mestre, e aprovada em sua forma final pelo Programa de Pós Graduação

    em Engenharia e Gestão do Conhecimento.

    Florianópolis, 22 de fevereiro de 2018.

    ________________________

    Prof. Gertrudes Daltone, Dra.

    Coordenadora do Curso

    Banca Examinadora:

    ________________________

    Prof. Carlos Augusto M. Remor, Dr.

    Orientador

    Universidade Federal de Santa Catarina

    ________________________

    Prof. Francisco Antonio P. Fialho, Dr.

    Universidade Federal de Santa Catarina

    ________________________

    Prof. Sílvio Serafim da Luz Filho, Dr.

    Universidade Federal de Santa Catarina

    ________________________

    Prof. Benjamin Franklin, Dr.

    Universidade Estadual de Londrina

  • AGRADECIMENTOS

    Agradeço aos meus pais por todo o apoio e minha namorada pela

    companhia e paciência.

  • To attain knowledge, add things everyday. To

    attain wisdom, remove things every day.

    Lao Tzu

  • RESUMO

    A presente dissertação faz uma análise da hierarquia DIWK – a qual inclui

    os conceitos de dado, informação, conhecimento e sabedoria – usando-se

    de uma interlocução das disciplinas da Gestão do Conhecimento com

    alguns aspectos da Psicanálise. A hierarquia DIKW é um elemento

    norteador de muitos estudos que lidam com informação e conhecimento,

    trata-se de tema referência e fortemente presente em áreas como gestão

    do conhecimento e ciências da informação. As definições dos elementos

    que compõem a hierarquia são das mais variadas e se mostram

    influenciadas tanto pelo campo de atuação, quanto pela abordagem

    teórica do autor que as seleciona. Este trabalho conta com uma revisão

    literária da hierarquia DIKW, explorando as diferentes definições dos

    termos da hierarquia e suas relações inerentes. Após análise extensiva das

    óticas acerca do fenômeno, alguns questionamentos lógicos são feitos,

    permeando pontos fundamentais encontrados na literatura, assim como

    outros que surgem no decorrer da análise. Discutem-se conceitos de

    realidade objetiva e subjetiva; agente do conhecimento; linguagem.

    Termina-se por concluir que, apesar de uma ferramenta útil para auxiliar

    no cotidiano das discussões do conhecimento, por simplificar a complexa

    abstração da temática em três ou quatro níveis bem destacados, a pirâmide

    acaba por não abarcar certos aspectos e elementos fundamentais do

    complexo do conhecimento. Um esquema geral é proposto como produto

    da análise e discussão, onde é esboçada uma narrativa sobre o campo do

    conhecimento e possíveis relações entre seus elementos.

    Palavras-chave: Hierarquia DIKW; Gestão do Conhecimento; Teoria

    Psicanalítica.

  • ABSTRACT

    This dissertation analyses the DIKW hierarchy – that includes data,

    information, knowledge and wisdom concepts – presenting relations

    between the knowledge management discipline with some aspects of

    psychoanalysis. The hierarchy is a central construct for many studies that

    focus on information and knowledge, being a strong reference on the

    information systems and knowledge management fields. The definitions

    of the elements that form the hierarchy vary and are normally influenced

    by the teorical background of the different authors. This dissertation

    present a literary review of the subject, exploring its different definitions,

    and its inherent relations. After the review and an extensive analysis of

    the different aspects of the subject, logical questions are made about the

    hierarchy way of functioning and it´s context. This work also discusses

    objective and subjective reality, knowledge agents, and language. In

    conclusion, it´s shown that, even though the hierarchy is commonly used

    in language and that it helps to approach the subjects with three or four

    stablished levels, it´s elements are not well defined, aswell as the

    hierarchy lefts out a lot of key aspects of the knowledge paradigm,

    therefore is not desirable for scientific purposes. A general scheme is

    proposed as a product of the discussion where the knowledge field

    elements and it´s possible interactions are explored.

    KeyWords: DIKW Hiearchy; Knowledge Management; Psychoanalytic

    Theory.

  • LISTA DE FIGURAS

    Figura 1 - Exemplo da hierarquia DIKW ............................................. 33

    Figura 2 - Outro exemplo da hierarquia DIKW .................................. 33

    Figura 3 - Exemplo diferenciado da hierarquia DIKW ....................... 34

    Figura 4 - Hierarquia exemplificada em grados................................... 34

    Figura 5 - Outro exemplo da hierarquia DIKW .................................. 35

    Figura 6 - Exemplo diferenciado da hierarquia DIKW ....................... 35

    Figura 7 - Hierarquia proposta por Bellinger et al. ............................. 38

    Figura 8 - Diagrama ............................................................................ 67

    Figura 9 - Exemplo demonstrativo ...................................................... 69

    Figura 10 - Diferença de complexidade em diferentes situações ...........72

    Figura 11 - Esquema Geral .....................................................................75

  • LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

    S – Sinal

    D – Dado

    I – Informação

    K – Conhecimento

    DI – Dado, Informação

    IK – Informação, Conhecimento

    DIK – Dado, Informação e Conhecimento

    DIWK – Dado, Informação, Conhecimento e Sabedoria

    EGC – Engenharia e Gestão do Conhecimento

    GC – Gestão do Conhecimento

    RNA – Ácido ribonucleico

    DNA – Ácido desoxirribonucleico

  • LISTA DE TABELAS

    Tabela 1 - Mural com algumas definições ........................................... 68

  • SUMÁRIO

    1 INTRODUÇÃO .................................................................. 21

    1.1 CONTEXTO ........................................................................ 21 1.2 PROBLEMA DE PESQUISA .............................................. 23 1.3 OBJETIVOS......................................................................... 26 1.3.1 Objetivo Geral .................................................................... 26 1.3.2 Objetivos Específicos .......................................................... 26 1.4 JUSTIFICATIVA ................................................................. 27 1.5 ESCOPO DA PESQUISA .................................................... 28 1.6 ADERÊNCIA AO PROGRAMA....................................................28

    2 MÉTODO ............................................................................ 31

    3 REVISÃO DA LITERATURA ......................................... 33 3.1 AS ORIGENS DA HIERARQUIA ...................................... 36

    3.2 OS ESTÁGIOS DIKW ......................................................... 37 3.3 DADO .................................................................................. 42 3.4 INFORMAÇÃO ................................................................... 43 3.5 CONHECIMENTO .............................................................. 46

    3.5.1 Conhecimento Explícito e Tácito ...................................... 48 3.6 CONSIDERAÇÕES SOBRE A HIERARQUIA ................. 49 3.6.1 Planos Objetivo e Subjetivo ............................................... 50

    3.6.2 Significado e Sinal .............................................................. 52 3.6.3 Reversibilidade no sentido da hierarquia ......................... 53 3.6.4 Os opostos ocultos da hierarquia ...................................... 54 3.6.5 O princípio da Incerteza .................................................... 55 3.6.6 Algumas indagações emergem .......................................... 56 4 DISCUSSÃO ....................................................................... 59 4.1 ARGUIÇÃO DE BELLINGER ........................................... 59

    4.2 O ESQUEMA INPUT-ALGORITMO ................................. 63 4.3 EXEMPLO DEMONSTRATIVO ........................................ 68 4.4 ESQUEMA GERAL ............................................................ 72 5 CONCLUSÃO .................................................................... 79

    REFERÊNCIAS...................................................................81

  • 21

    INTRODUÇÃO

    1.1 CONTEXTO

    A inscrição no mestrado trouxe-me a indagação sobre o que

    poderia realizar na dissertação. Iniciei tal jornada filosófica pelo meu

    próprio acervo, revisitando minha mente (lembranças e ideias), tentando

    responder a pergunta: “o que é o conhecimento?”. A escolha de tal

    pergunta aconteceu, obviamente, devido ao campo de estudo do presente

    programa de pós-graduação.

    Assim como no programa, meu campo de estudo no passado foi

    voltado, também, às questões do conhecimento. Meu trabalho na

    formação e clínica psicanalítica está diretamente envolvido com questões

    relativas ao conhecimento. As questões suscitadas pela gestão do

    conhecimento podem ser úteis quando transpostas à psicanálise, e vice-

    versa.

    De certa maneira, poderíamos classificar a psicanálise como uma

    disciplina do conhecimento, pois que trabalha com:

    • o acervo mental dos sujeitos;

    • como é estruturada a mente humana (sua lógica de

    funcionamento e sistematização);

    • o que são ideias de que são formadas e como podem ser

    operadas.

    Pesquisa temas como:

    • o processo de transformação da intenção subjetiva

    (ideia/pulsão) em palavra (representante da intenção);

    • a efetividade da palavra;

    • a palavra como mídia fundamental das trocas de ideias;

    • o não dito (e o indizível) que se transmite como contexto para

    além das palavras;

    • as diferenças e similaridades entre o dizer e a escrita;

    • como definem-se conceitos; • quais os limites entre as ideias e/ou quais os limites entre as

    palavras;

    • a palavra como possibilidade de complexificação de ideias e

    produção de cultura.

  • 22

    • a não exatidão dos sinônimos;

    • as limitações das traduções;

    • o funcionamento da metáfora e da abstração.

    Poderíamos pensar que o estudo do fenômeno conhecimento é

    indissociável do estudo da linguagem. Lacan (1998), reiteradamente,

    enfatizou a indissociabilidade entre linguagem e psiquismo, visto a

    importância da linguagem em nossa constituição e funcionamento

    psíquico.

    Freud, não por menos, possui inúmeros textos nos quais trabalha

    pura e diretamente com a linguagem e seus mecanismos, enquanto

    discorre sobre o funcionamento psíquico.

    Existe uma relação íntima entre percepção e linguagem (i.e.

    FREUD, 1910; LACAN, 2003; SEVERIN, 2001). A palavra torna-se

    indispensável para a humanidade, o psiquismo que existira anterior à

    linguagem, uma vez em contato com a mesma, presencia mudanças

    estruturais que permite uma capacidade cognitiva mais elaborada do que

    de outros animais fora da linguagem.

    O funcionamento da linguagem e temáticas como sintaxe e

    semântica, são assuntos recorrentes em qualquer campo que volte suas

    atenções ao conhecimento.

    Mesmo com o conhecimento sendo muito próximo, senão análogo,

    às questões de minha disciplina de origem, falar sobre ele é algo muito

    difícil, uma temática ampla e altamente complexa.

    Não o bastante, muito material relevante sobre a temática encontra-

    se codificado nos escritos “impossíveis” de Lacan. Se com Freud temos

    tudo que um estudioso pode querer, com uma escrita sistematizada e de

    transmissão mais ou menos palatável, em Lacan existe uma dificuldade

    inerente ao seu estilo de transmissão.

    Através de sua hermética, Lacan busca mostrar em ato o aspecto

    etéreo do conhecimento – sua fugacidade e impossibilidade de apreensão.

    Ao abusar deste estilo, porém, quase que impossibilita a sua transmissão

    de fato. Se Freud sofrera repressão mesmo sendo claro, na medida do

    possível, podemos imaginar à que está sujeita a transmissão Lacaniana,

    em épocas onde vemos claramente a psicanálise ameaçando se tornar um

    clichê literário de Clarice ou uma espécie de drama francês. O primeiro desafio encontrado nesta dissertação foi iniciar a

    estruturação de meu acervo pessoal, o conteúdo registrado em meu

    cérebro, lembranças e ideias. Ao fazê-lo percebi, como consequência, a

    produção de um novo conhecimento.

  • 23

    Ao examinar atentamente os “retalhos” de conteúdo que possuía,

    sobre temáticas diversas, muitos apresentavam incongruências entre si,

    não se encaixavam de maneira satisfatória.

    Ao revisitar estes registros, e ativamente analisá-los, foi possível

    conquistar uma nova e melhor arranjada estruturação, onde também pude

    contar com alguns insights sobre a técnica da psicanálise. Um novo

    conhecimento fora produzido a partir da revisita e recombinação de

    conteúdos já existentes.

    O segundo passo foi tomar conhecimento de como o Programa de

    Pós-Graduação compreendia o tema, mergulhar nesta nova abordagem

    interdisciplinar. Com isso vieram as aulas e meu foco foi,

    fundamentalmente, em epistemologia: antes de aplicar metodologias ou

    técnicas do conhecimento, desejava aprender sobre o que é o

    conhecimento, e como ele funciona.

    Ao presenciar as aulas pude tecer relações e fui construindo

    ligações com assuntos similares à disciplina da Psicanálise. Tais pontes

    me auxiliaram na construção de um modelo mental, sobre como ocorre o

    fenômeno do conhecimento, suas características e limites.

    A temática, contudo, se mostra demasiadamente ampla – com uma

    literatura tão extensa e difusa, que tornaria impossível a revisão

    satisfatória do tema em tempo hábil. Certa delimitação sobre o tema a ser

    dissertado foi necessária, e a partir deste ponto escolhi a Hierarquia

    DIKW como objeto de análise. A escolha do tema não foi por acaso, a Hierarquia DIKW é um

    tema forjado para tentar dar conta das diferentes faces do fenômeno

    conhecimento. Define os termos dado, informação, conhecimento e

    sabedoria, como quatro elementos distintos, porém intimamente

    relacionados, que fazem parte de um mesmo fenômeno.

    Trata-se de um tema referência na Gestão do Conhecimento e,

    portanto, adequado e compatível com as intenções de se pensar “o que é

    conhecimento?” e a forma como se estrutura.

    1.2 PROBLEMA DE PESQUISA

    Ao estudar a hierarquia pode-se perceber sua relevância e

    importância, assim como aspectos nos quais o construto ainda deixa a

    desejar.

  • 24

    Como afirma Rowley, a hierarquia tem um “papel definitório” que

    “a coloca como o modelo central de gestão do conhecimento, e sistemas

    da informação” (ROWLEY, 2007, p. 2, tradução nossa).

    Hey (2004) nos indica que o modelo claramente aparenta ter

    provado ser tanto útil quanto durável, no intuito de melhor compreender

    as sub entidades do conhecimento. Diz que a ideia de uma hierarquia

    contemplando conceitos como dado, informação conhecimento e

    sabedoria “pegou” (foi bem recebida, se mostrou relevante), e foi foco de

    análise de diferentes fóruns. Afirma, porém, que “apesar da riqueza de

    análises, os conceitos em si – para não mencionar a transição entre eles –

    ainda pecam em não possuir uma definição clara” (HEY, 2004, p. 1,

    tradução nossa).

    Floridi (2003) destaca que, de nossos conceitos técnicos e

    mundanos, informação é atualmente um dos mais importantes, mais

    amplamente usados e o menos compreendido.

    A existência em si da hierarquia é raramente questionada no

    pensamento atual sobre o tópico, apesar de a mesma possuir distinções

    “confusas” (não bem demarcadas) entre cada estágio, comenta Hey

    (2004).

    Rowley (2007) introduz a questão afirmando que, ao longo dos

    anos, o conhecimento inclui habilidade perceptual ouve um debate

    significativo sobre problemas como a natureza e definição dos termos

    informação e conhecimento. Diz que ambas, a filosofia da informação e

    gestão do conhecimento, possuem literatura extensa e oferecem múltiplas

    perspectivas na definição de informação e conhecimento. Contudo,

    destaca a autora, muito das discussões são focadas em um ou outro

    elemento específico da hierarquia DIKW, e não em uma visão geral ou

    nas relações entre os elementos.

    Normalmente, prossegue a autora, informação é definida em

    termos de dado, conhecimento em termos de informação e sabedoria em

    termos de conhecimento. “Existe menos consenso, contudo, sobre as

    transições entre um nível da hierarquia e outro, o que demonstra a falta

    de clareza nas definições” (ROWLEY, 2007, p. 1)

    Corroborando com esta visão temos Zins (2007), o autor afirma

    que a literatura acadêmica e profissional das ciências da informação

    contêm diversos significados para cada conceito. Diz que é evidente que os três conceitos (DIK) estão relacionados, mas a natureza destas relações

    é discutível assim como as próprias definições.

    Bellinger et al. (2004) comentam que, conforme adentraram neste

    campo de atividade, rapidamente perceberam que não parecia haver uma

    riqueza de recursos para dar sentido, em termos de definir-se o que o

  • 25

    conhecimento de fato é, e como se diferencia de dado, informação e

    sabedoria.

    Concordando com o exposto até agora, Davenport e Prusak

    indicam que prejuízos podem decorrer destes fatores. Dizem:

    O conhecimento não é nem dado, nem

    informação, apesar de estar relacionado com

    ambos e de que as diferenças entre os termos é

    frequentemente um impasse [...] Confusão sobre o

    que dado, informação e conhecimento são – como

    se diferenciam, o que estes termos significam –

    vem resultando em grandes gastos em iniciativas

    tecnológicas que, raramente entregam o que as

    firmas de fato precisam ou pensavam que

    receberiam (DAVENPORT; PRUSAK, 1998, p.1).

    Ashan e Shah (2006) destacam que “a literatura da gestão do

    conhecimento frequentemente aponta que é importante distinguir entre

    dado informação e conhecimento” (p. 271, tradução nossa).

    Como nos apresenta Liew (2007), apesar de inúmeras tentativas de

    definir dado, informação e conhecimento, ainda parece haver falta de uma

    visão clara e completa sobre o que, de fato, são e quais suas relações.

    Apesar de muitas definições serem relevantes, estão longe de serem

    completas.

    O autor segue dizendo que a maioria, senão todas as definições,

    compartilham uma anomalia em comum: são definidas auto

    referencialmente, ou seja, dado em termos de informação, informação em

    termos de dado e/ou conhecimento, e conhecimento em termos de

    informação. Se estivermos apenas descrevendo as inter-relações entre os

    termos está tudo muito bem. Porém, em se tratando da definição de um

    termo isto se apresenta como uma falácia lógica.

    Liew (2007) sugere que necessitamos de definições que são

    concisas, definitivas e distintas em atributos ou características, que

    exibam propósito e/ou ofereçam inter-relações. Este não é um tema fácil,

    afirma o autor, envolve pensamento conceitual extenso, diversos

    conceitos abstratos e semântica.

    Prossegue, então, pontuando que a gestão do conhecimento não se

    trata de modismo ou de um conceito fugaz, pode parecer elusiva, mas

    apenas por causa de suas características multidisciplinares. Devido à

    crucialidade do tema, uma compreensão profunda no tópico é

    fundamental para a gestão do conhecimento, conclui.

  • 26

    Fica evidente que a hierarquia DIKW é um construto central do

    conhecimento, que tem como finalidade auxiliar a ilustração de como se

    dão as relações entre diferentes partes de um mesmo fenômeno.

    Justamente por se tratar de um construto interdisciplinar é compreensível

    o porquê das diversas definições.

    Zins reconhece que “definições dependem da teoria que as

    utiliza, que são melhor analisadas no contexto da teoria em questão”

    (ZINS, 2007, p. 9).

    Prossegue afirmando, contudo, que “das definições levantadas,

    algumas são incompletas, inconsistentes ou possuem erros lógicos e/ou

    filosóficos. O estudo não pretende possuir definições homogeneizadas,

    mas destacar as dificuldades em formular conceitos coerentes, e as

    diferentes maneiras de abordar o tema” (ZINS, 2007, p. 9, tradução

    nossa).

    Tentarei nesta dissertação ilustrar as faces deste fenômeno de

    maneira mais palatável.

    1.3 OBJETIVOS

    1.3.1 Objetivo Geral

    Analisar a hierarquia DIKW, buscando auxílio na interlocução da

    Gestão do Conhecimento com alguns aspectos pontuais da Psicanálise.

    1.3.2 Objetivos Específicos

    Revisar a literatura sobre o tema hierarquia DIKW e seus conceitos

    (dado, informação, conhecimento e sabedoria) no campo da gestão do

    conhecimento, e também das ciências da informação, com o enfoque

    principal nos três primeiros níveis;

    Explorar extensivamente as inter-relações entre os conceitos;

    Problematizar os conceitos, e ilustrar o contexto inerente ligado à

    hierarquia, esboçado em um esquema geral.

  • 27

    1.4 JUSTIFICATIVA

    Como o provérbio da sabedoria popular ensina, a resposta para um

    problema jaz no problema em si. Da mesma maneira poderíamos apontar

    que a justificativa para esta dissertação se faz evidente na exposição do

    item anterior, problema de pesquisa.

    Sveiby (1997) indica que parte da confusão atual - em se tratando

    de como fazer negócios na era do conhecimento - seria provavelmente

    evitada, se tivéssemos um melhor entendimento das maneiras em que

    informação e conhecimento se assemelham e se diferenciam. Diz que a

    suposição inconsciente, amplamente espalhada, de que informação é

    equivalente ao conhecimento e que a relação entre um computador e a

    informação é equivalente à relação entre o cérebro humano e o

    conhecimento humano pode levar a erros perigosos e custosos.

    Importância da formulação de concepções sistemáticas de dado,

    informação e conhecimento, é crucial para o desenvolvimento de uma

    concepção sistêmica da Ciência da Informação, indica Zins (2007).

    Poderíamos pensar o mesmo para a gestão do conhecimento.

    “Parece-nos que já existe confusão suficiente acerca dos termos

    dado, informação e conhecimento” (HEY, 2004, p. 2) e “nunca é demais

    frisar a importância de definições úteis e bem formuladas, quando nos

    deparamos com execuções de atividades de gestão e negócios que

    envolvem milhões de dólares” (LIEW, 2007, p. 6).

    Liew (2007) ainda afirma que não é a intenção de seu artigo criticar

    aqueles que o antecederam, sedimentaram o caminho para que

    pudéssemos melhor compreender o tópico. O objetivo é prover uma

    perspectiva diferente, ou nova, no contexto da gestão do conhecimento, e

    faço de suas palavras as minhas.

    Zins (2007) ainda destaca que o campo das ciências da informação

    está em constante reformulação, portanto, cientistas da informação são

    requisitados à, regularmente, rever e redefinir seus blocos basilares.

    “Uma verificação mais atenta às relações entre conhecimento e

    sabedoria, assim como os conceitos fundamentais de dado e informação,

    pode providenciar um contexto para alcançar um sucesso mais

    convincente na gestão do conhecimento” (ROWLEY, 2007, p. 2, tradução

    nossa). Com o mesmo intuito de Hey, espero com este trabalho “prover

    uma nova perspectiva sobre estes conceitos ardilosos e, quem sabe,

    clarear um pouco a confusão que rodeia as transições entre os conceitos e

    como utilizá-los” (HEY, 2004, p. 1, tradução nossa).

  • 28

    Segundo Bernstein (2009) seria errado presumir que o modelo

    DIKW reflete precisamente os estágios de desenvolvimento do

    conhecimento, e a hierarquia por si parece fadada a uma reformulação.

    1.5 ESCOPO DA PESQUISA

    Similar ao proposto por Rowley (2007), esta dissertação busca

    examinar as articulações populares, implícitas ou explícitas, acerca da

    hierarquia DIKW, encontradas em livros recentes das disciplinas que são

    o âmago da revolução do conhecimento: sistemas da informação e gestão

    do conhecimento. “Esta pesquisa não busca, desta forma, revisar todos os

    escritos que apresentam debates sobre definições dos elementos DIKW.

    Esta análise pretende verificar como alguns dos autores chave, definem

    os termos, e investigar as semelhanças e discrepâncias” (ROWLEY,

    2007, p. 6, tradução nossa).

    Por mais que o conceito de sabedoria seja

    intrigante, parece-nos que já existe confusão

    suficiente acerca dos termos dado, informação e

    conhecimento, sem precisarmos nos adentrar em

    um terreno consideravelmente menos definido

    (HEY, 2004, p. 2).

    Portanto foco da análise se dará nos primeiros três elementos da

    hierarquia, DIK – dado, informação e conhecimento. A discussão do

    conteúdo não esgota as perspectivas sobre o assunto, tampouco se propõe

    a ser uma narrativa exclusiva de como a hierarquia deva ser analisada.

    1.6 ADERÊNCIA AO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM

    ENGENHARIA E GESTÃO DO CONHECIMENTO

    Por se tratar de um background inerente à gestão do conhecimento,

    a hierarquia DIKW e seus conceitos de dado, informação, conhecimento

    e sabedoria constituem parte do campo de estudo do Programa.

    Na exploração dos conceitos, compactuando com o quesito

    multidisciplinar, prezado pelo Programa, justamente por suas

    características positivas na disseminação e elaboração do conhecimento,

  • 29

    será feita a interlocução com a psicanálise buscando a revisão de um tema

    familiar ao programa a partir da perspectiva de outra área.

    A pesquisa junto ao banco de teses e dissertações do programa não

    acusou nenhum trabalho que tenha sido elaborado com a temática da

    hierarquia DIKW, sendo assim este pode ser considerado um trabalho

    inédito dentro as obras do EGC que, por focar em um tema central da GC

    com termos muito utilizados no dia-dia do programa (como dado,

    informação e conhecimento), poderá agregar e contribuir para o avanço

    dos temas abordados no programa.

  • 30

  • 31

    2 MÉTODO

    A presente dissertação consiste em uma pesquisa do tipo

    qualitativa, sendo “não estruturada e exploratória, baseada em pequenas

    amostras que proporcionam percepções e compreensão do contexto do

    problema” (MALHOTRA, 2010, p. 118).

    Trata-se de uma pesquisa bibliográfica cuja finalidade é, segundo

    Pádua (2004), colocar o pesquisador em contato com o que já se produziu

    a respeito de seu tema de pesquisa. Andujar (2016) indica que este tipo

    de pesquisa busca desvendar, recolher e analisar as principais

    contribuições sobre um determinado fato, assunto ou ideia.

    A presente dissertação também possui objetivo exploratório, o qual

    “visa prover o pesquisador de um maior conhecimento sobre o tema ou

    problema de pesquisa em perspectiva” (MATTAR, 1994, p. 84). Segundo

    Andujar (2016) trata-se de uma primeira aproximação com o tema, visa

    conhecer os fatos e fenômenos relacionados ao tema, recuperar as

    informações disponíveis e conhecer os pesquisadores implicados no

    assunto.

    O procedimento técnico de uma pesquisa bibliográfica, segundo

    Andujar (2016), utiliza material já publicado, constituído basicamente de

    livros, artigos de periódicos e, atualmente, informações disponibilizadas

    na internet.

    Para esta dissertação, foi feito o levantamento dos artigos mais

    citados em relação ao tema, independentemente da data de publicação,

    em diversas plataformas científicas como Scopus, Scielo e Google

    Schollar. A palavra-chave “Hierarquia DIKW” foi a principal norteadora

    no levantamento do material bibliográfico que foca nos trabalhos mais

    relevantes ao tema.

  • 32

  • 33

    3 REVISÃO DA LITERATURA

    Como já exposto, a hierarquia DIKW é um construto central na

    gestão do conhecimento e busca dar suporte a uma melhor elucubração

    de como o fenômeno ocorre, assim como suas diferentes faces.

    Como aponta Frické: “muitos teóricos, nas ciências da

    computação, gestão do conhecimento e biblioteconomia, veem

    informação em termos da hierarquia DIKW” (FRICKÉ; 2009, p.1,

    tradução nossa).

    Trata-se, classicamente, de uma pirâmide onde na base encontra-

    se dado e no topo sabedoria.

    Figura 1 - Exemplo da hierarquia DIKW

    Fonte: Bernstein, 2009.

    Figura 2 - Outro exemplo da hierarquia DIKW

    Fonte: Rowley, 2009.

  • 34

    Figura 3 - Exemplo diferenciado da hierarquia DIKW.

    Fonte: Ashan & Shah, 2006.

    Por vezes a hierarquia é vista, também, como uma corrente, ou uma

    sequencialidade lógica, que implica em um grados. Normalmente, o

    estágio posterior engloba o anterior e comporta novos atributos.

    Figura 4 - Hierarquia exemplificada em grados.

    Fonte: Ashan & Shah, 2006.

  • 35

    Figura 5 - Outro exemplo da hierarquia DIKW.

    Fonte: Hey, 2006.

    Figura 6 - Exemplo diferenciado da hierarquia DIKW

    Fonte: Bernstein, 2009.

  • 36

    3.1 AS ORIGENS DA HIERARQUIA

    Ambos os campos da ciência da informação e da gestão do

    conhecimento se referem à hierarquia DIKW, e para cada campo

    podemos indicar um marco inicial distinto, segundo Sharma (2008).

    Na gestão do conhecimento, Ackoff (1989) é frequentemente

    citado como o iniciador da hierarquia, seu trabalho é considerado por

    muitos a primeira menção sobre a temática.

    Dois anos antes encontramos o trabalho de Milan Zeleny (1987)

    onde propõe a hierarquia equiparando dado, informação, conhecimento e

    sabedoria à distintos níveis no conhecimento: não saber; saber o que;

    saber como; e saber por que, respectivamente.

    No campo do Design, também em 1987, encontra-se o livro

    “arquitetura ou Abelha” de Michael Cooley, o autor elabora a hierarquia

    durante sua discussão entre conhecimento tácito e senso comum.

    Segundo Sharma (2008), não é encontrado em ambos os artigos,

    nem no livro, nenhuma referência anterior à hierarquia, o que cessaria o

    rastro em busca de suas origens.

    Interessantemente, aponta a autora, a origem da hierarquia não

    reside nem no campo da gestão do conhecimento tão pouco nas ciências

    da informação. Harlan Clevland (1982) cita T.S. Eliot (poeta) como a

    primeira pessoa a sugerir a hierarquia. Em 1934, em “A Rocha”, Eliot

    escreveu:

    Where is the Life we have lost in living?

    Where is the wisdom we have lost in knowledge?

    Where is the knowledge we have lost in information?

    Clevland (1982) não adiciona o conceito de dado à hierarquia de

    Eliot, porém menciona outros dois autores contemporâneos a si, os quais

    incluem o conceito. Clevland (1982) afirma também que há várias

    maneiras de se definir os elementos da hierarquia e que concordância

    universal (consenso) não necessita ser um objetivo.

    Podemos enfatizar, contudo, que quanto mais intangível um

    assunto, mais multifacetada e complicada é sua definição. Não por menos,

    para avançar a ciência – o conhecimento acerca de um evento e seu uso

    prático – deve-se buscar consenso e formalização sempre que possível.

  • 37

    3.2 OS ESTÁGIOS DIKW

    Russel Ackoff foi um consultor gerencial e professor de gestão de

    ciência na Wharton School, especializado em pesquisa de operações e

    teoria organizacional. Seu artigo formulando o que é hoje conhecido

    como a hierarquia DIKW foi inicialmente apresentado como discurso

    presidencial para a sociedade internacional de pesquisa em sistemas

    gerais.

    Ackoff (1989) escreveu que “cada um destes estágios inclui a

    categoria anterior” e estimou que “em média, 40% da mente humana

    consiste em dado, 30% informação, 20% conhecimento, 10%

    compreensão, e virtualmente nada de sabedoria” (p. 3).

    O conteúdo da mente humana seria classificado nestas cinco

    categorias para o autor, propõe que as primeiras quatro categorias se

    relacionam com o passado, lidam com o que já ocorreu ou com o que é

    sabido. Apenas a quinta categoria, sabedoria, lidaria com o futuro, por

    incorporar as qualidades de “visão” e “design”.

    Para o autor, dado é “cru”, simplesmente existe e não possui

    significação para além de sua existência. É o produto de observações e

    não possui valor até ser processado em formas úteis, quando se torna

    informação. Informação seria dado que foi significado por suas conexões

    e relações. Este significado pode ter utilidade, mas não necessariamente.

    Conhecimento, para o Ackoff (1989), é o conjunto de informação

    absorvida (memorizada, mas não necessariamente compreendida). É um

    refinamento da informação tornando “possível a transformação de uma

    informação em instruções. Faz possível o controle de um sistema” (p. 4,

    tradução nossa).

    Compreensão seria o processo através do qual se torna possível

    sintetizar um novo conhecimento a partir de conhecimentos prévios. A

    compreensão pode se construir sobre informações, conhecimentos ou

    mesmo compreensões prévias. A diferença entre compreensão e

    conhecimento estaria na diferença entre o aprender e memorizar. Segundo

    o autor, compreensão comporta as habilidades de perceber erros e corrigi-

    los.

    Sabedoria seria a habilidade de projeção das consequências de um

    ato, e avaliação do cenário levando-se em consideração o desejado. Habilidade de indagar sobre aquilo que não se tem compreensão, e através

    disso, vai muito além da própria compreensão, seria a essência da “prova

    filosófica”. É o processo pelo qual podemos discernir ou julgar entre o

    certo e o errado, o bom e o mau, afirma Ackoff (1989). O autor

  • 38

    pessoalmente acredita que computadores nunca irão possuir a capacidade

    de sabedoria.

    Apesar de Ackoff não imaginar seu modelo aplicado a banco de

    dados, a relação entre os fenômenos DIKW – como uma escala que

    remete à filtragem, redução e refinamento – foi uma noção valiosa para o

    campo das ciências da informação. Por fornecer um modelo ontológico

    estrutural do conhecimento, a pirâmide de Ackoff se tornou canônica para

    o campo das organizações do conhecimento, afirma Bernstein (2009).

    Bellinger et al. (2004) são autores que discordam levemente da

    estrutura proposta por Ackoff (1989) e dizem que o estágio da

    compreensão, ao invés de mais um estágio na hierarquia, se trata, na

    verdade, da capacidade pela qual um sujeito é capaz de transitar entre os

    demais estágios DIKW.

    Figura 7 - Hierarquia proposta por Bellinger et al.

    Fonte: Bellinger et al. 2004.

    Rowley (2007) aponta que o rótulo da hierarquia estar

    estabelecido na literatura como “DIKW”, assim como a omissão do termo “compreensão” em inúmeras outras fontes relacionadas ao tema – como

    um estágio específico da hierarquia – sugerem que existe consenso acerca

    disto que Bellinger et al. (2004) articulam.

    Ashan e Shah (2006) apontam que a visão de maior consenso da

    literatura, sobre a estrutura da hierarquia, percebe dado como fatos

  • 39

    simples que se tornam informação conforme dados são combinados em

    estruturas que façam sentido ou tenham propósito, que subsequentemente

    se tornam conhecimento conforme informação é posta em contexto e pode

    ser utilizada para se fazer previsões.

    Os autores falam que, em um primeiro momento, as máquinas

    surgiram para organizar dados de maneira prática onde os gestores

    decidiam suas ações com base em gráficos gerados a partir dos dados

    coletados.

    Em seguida começou a se atribuir atividades automatizadas para a

    produção de gráficos. Um computador com base nos dados e gráficos é

    capaz de realizar tarefas simples, e tirar conclusões (resumir e ordenar

    outputs). A partir deste estágio, os autores apontam que o termo ciência

    da computação derivou para ciência da informação e que acabou por ser

    mais bem descrito como tecnologia da informação.

    Ashan e Shah (2006) afirmam ainda que o conhecimento “na

    cabeça” de uma pessoa é usado para identificar e solucionar problemas e

    questões. Identificar situações que necessitam de tomada de decisão,

    tomar a decisão, estabelecer e completar tarefas, entre outros.

    Os autores apontam que hoje em dia os computadores decidem

    muitas coisas sem intervenção humana. Recebem dados como “entrada”

    (input) e então processam-nos de maneira à produzir como “saída”

    (output) decisões e ações. Quando esta ação é realizada por um agente

    humano, “falamos sobre os níveis de conhecimento, habilidade e

    inteligência que a pessoa possui” (ASHAN; SHAH, 2006 p. 271, tradução

    nossa).

    “Dado é normalmente visto como um fato simples, que pode ser

    estruturado de forma a se tornar informação. Informação, por sua vez, se

    torna conhecimento quando é interpretada, posta em contexto, ou quando

    algum significado é agregado a ela” (ASHAN; SHAH, 2006 p. 272,

    tradução nossa).

    Ashan e Shah (2006) afirmam que existem algumas variações

    deste esquema amplamente adotado, onde dado é algo inferior à

    informação, e informação ao conhecimento. Frequentemente se postula

    que primeiro é necessário possuir dados para que informação seja criada,

    e apenas com informação é possível que o conhecimento emerja.

    A consciência é capaz de processar fatos,

    por exemplo, para prever consequências futuras de

    ações ou para fazer inferências. Conforme a mente

    humana usa este conhecimento para escolher entre

    alternativas, o comportamento se torna inteligente.

  • 40

    Finalmente, quando princípios guiam um

    comportamento inteligente, o comportamento pode

    ser descrito como baseado na sabedoria (ASHAN;

    SHAH, 2006 p. 273, tradução nossa).

    Existem quatro níveis na hierarquia, cada nível produz o seguinte,

    que por sua vez é mais complexo e refinado. Os autores dizem que,

    contudo, dados “falhos” podem provocar decisões “falhas” ao invés de

    sábias.

    Bellinger et al. (2004) concordam com o exposto, destacando que

    informação é feita de dados, mas dados não são, necessariamente, feitos

    de informação. Sabedoria é conhecimento, que por sua vez é informação,

    que por sua vez é dado, mas conhecimento não é, necessariamente,

    sabedoria. Então sabedoria é um subgrupo de conhecimento, o qual é um

    subgrupo de informação, que por sua vez é um subgrupo de dados.

    Ashan e Shah (2006) enfatizam que, por vezes, a hierarquia é

    apresentada em forma de uma escala, porém de maneira alguma os quatro

    termos compõe uma espécie de escala linear equi-intervalar. Os pontos da

    escala não estão relacionados por proximidade apesar de serem

    normalmente referidos ao mesmo tempo.

    Segundo os autores, fica evidente que um dos problemas em se

    definir os termos dado, informação, conhecimento e sabedoria, é definir

    e localizar os papéis da compreensão (understanding) e inferência de

    significado (meaning making), no esquema piramidal.

    É possível memorizar dados e reproduzi-los. Mas é necessário

    processar dados - organizá-los em pedaços que façam sentido – para

    produzir-se informação. A mera reprodução de pedaços de informação

    pode aparentar ser complexa, porém pode ser feita com pouca

    compreensão ou habilidade de fazer uso daquela informação, afirmam

    Ashan e Shah (2006).

    O conhecimento é, para os autores, um passo além na escala.

    Envolve compreensão e habilidade para fazer uso dos dados e das

    informações, a fim de responder questões, resolver problemas, tomar

    decisões, etc.

    Os autores definem sabedoria como quando alguém sabe utilizar o

    conhecimento de uma maneira responsável, em seguida especificam:

    “sabedoria é a aplicação da inteligência e experiência em busca de

    alcançar o bem comum” (ASHAN; SHAH, 2006, p. 276, tradução nossa).

    Dizem que este feito envolve um equilíbrio entre: intrapessoal

    (subjetividade); interpessoal (social); e interesses extra pessoais (mais do

    que a pessoa, por exemplo, institucional); a curto e longo prazo. Portanto

  • 41

    “pessoas sábias não se preocupam somente consigo mesmas, mas com

    todo o entorno ao qual possuam responsabilidades” (ASHAN; SHAH,

    2006, p. 276, tradução nossa).

    Ilkka Tuomi (1999) sugere que a construção do conhecimento

    pode ser percebida como o uso de letras, que seriam os átomos, para

    construção de palavras que são subsequentemente combinadas para

    formarem sentenças que façam sentido. O valor das diferentes formas de

    DIK cresce através do aprendizado, neste processo dados são cada vez

    mais refinados.

    Davenport e Prusak (1998), por exemplo, afirmam que dado é um

    conjunto de fatos discretos e objetivos acerca de eventos, não fornece

    julgamento ou interpretação. Dado se transforma em informação assim

    que sentido é atribuído a ele: informação é dado relevante. Também

    destacam que valores e crenças compõem o conhecimento, determinando

    em grande parte o que o conhecedor observa, absorve e conclui de suas

    observações.

    Davenport and Prusak (1998) afirmam também que dado se

    transforma em informação assim que sentido é dado a ele, informação

    deve informar: é dado relevante. Diferentemente de dado, informação

    possui sentido.

    Segundo Bateson e Gregory (1998) a mente humana pode

    comparar informação sobre uma situação específica com outra situação

    que possui registro, antecipar implicações de decisões e ações, relacionar

    um bit do conhecimento com outros bits de conhecimento, e compartilhar

    interpretações com outros indivíduos.

    Mesmo assim, de acordo com Davenport and Prusak (1998),

    valores e crenças compõem o conhecimento, determinando em grande

    parte o que o conhecedor observa, absorve e conclui de suas observações.

    Rowley (2007), a partir de sua extensa revisão bibliográfica acerca

    da temática afirma que, em geral, a maioria dos livros reconhece a

    importância em definir os três conceitos (DIK), seja o foco primário em

    informação (no campo de sistemas da informação), ou conhecimento (no

    campo da gestão do conhecimento). Contudo, os conceitos acima de

    conhecimento (como sabedoria e, em alguns casos iluminação) recebem

    pouca atenção na literatura, diz a autora.

    A autora ainda afirma que há consenso que DIK estão interligados e que DI são formadores de K, o que reafirma o conceito da hierarquia.

    Não há consenso, contudo, na maneira com que os processos de

    conversão (de um estágio da hierarquia para outro) ocorrem, e não fica

    claro se são de fato três conceitos distintos, segundo Rowley (2007).

  • 42

    Diz ainda que a trama dos conceitos pode ser explorada em dois

    níveis DI e IK, e que é consenso que informação parece ser definida como

    dado organizado ou estruturado. Vemos isto, por exemplo, com Ilkka

    Tuomi (1999) que afirma que dado se torna informação quando posto em

    um contexto ou quando possui propósito. Ao pôr-se dado de acordo com

    um esquema que possua relevância para alguém este se torna informação,

    diz o autor.

    As publicações revisadas trazem, explicita ou implicitamente, o

    modelo tradicional de formulação da hierarquia. Contudo, não há

    consenso sobre as variáveis e transições entre os diferentes níveis da

    hierarquia.

    3.3 DADO

    Com Ashan e Shah (2006) temos que dado é:

    1. Informação factual registrada (como mensurações ou

    estatísticas) usada como base para a racionalização, discussão

    ou cálculo. Dados são abundantes e facilmente disponíveis;

    2. Informação de um aparelho sensor, ou de um órgão sensorial:

    que inclui tanto informações úteis, quanto irrelevantes ou

    redundantes e que devem ser processadas para se tornarem

    significantes.

    Rowley (2007) realizou uma extensa revisão dos conceitos a partir

    de artigos clássicos e de livros atuais sobre o tema, em suma diz que, para

    dado, as diversas definições pesquisadas sugerem que:

    • Dado não possui sentido ou valor, por existir sem contexto e

    interpretação;

    • Dado é específico, observações ou fatos objetivos que são

    desorganizados e não processados, e não confluem em um

    sentido (meaning) específico;

    • Dados são descrições básicas, elementares, de coisas registradas. Eventos, atividades e transações;

    Choo (1996) sugere que dados são, frequentemente, elementos de

    um sistema físico mais abrangente (como livros ou painéis instrumentais)

    que dá pistas sobre qual dado focar e como este deveria ser interpretado.

  • 43

    Choo (1996), assim como Jashapara (2005), também introduz o

    conceito de sinais. Jashapara sugere que adquirimos dado do mundo

    externo através de nossos sentidos, e tentamos dar sentido à estes sinais

    através de nossa experiência. Choo desenvolve isto mais afundo, e

    especificamente identifica sinais como a origem dos dados. Propõe os

    processos de sentir e selecionar como transformadores de sinal em dado.

    Curiosamente, aponta Rowley (2007), as definições são

    amplamente em termos do que dado não possui: dado não possui sentido

    ou valor, não possui ordenação e é não processado.

    Para Liew (2007) temos que dados são símbolos e leituras de

    sinais, gravados e armazenados. Segundo o autor, símbolos incluem:

    palavras (texto ou verbais), números, diagramas e imagens (estáticas ou

    vídeo), que são os blocos fundamentais da comunicação. Sinais são aquilo

    do mundo que atingem os sensores ou os sentidos do corpo.

    Para Liew (2007) dados dizem respeito ao armazenamento. O

    propósito principal dos dados é gravar eventos, tentar representar e

    registrar eventos da maneira mais fidedigna possível para serem

    resgatados e reproduzidos posteriormente.

    Godbout (1999) afirma que dado não carrega significado a não ser

    que alguém compreenda o contexto em que o dado foi coletado. É o

    contexto que dá significado e o significado o torna informativo.

    3.4 INFORMAÇÃO

    Rowley (2007) expõe que livros de sistemas da informação tendem

    a focar na relação entre dado e informação, frequentemente definindo

    informação em termos de dado. Conceitos de formatação, estrutura,

    organização, significado e valor, estão presentes em várias definições:

    • Informação é dado formatado, e pode ser definido como uma

    representação da realidade;

    • Informação é dado que agrega valor à compreensão de um

    assunto;

    • Informação é dado que foi moldado à um formato que é significativo e útil aos seres humanos;

    • Informação é dado que foi organizado de maneira a ter sentido

    (meaning) e valor ao recipiente;

    • Informação é dado processado para um propósito;

  • 44

    Bocij et al. (2003) por sua vez, sugerem as seguintes definições

    para informação:

    • Dado que foi processado de forma à ter sentido;

    • Dado que foi processado para um propósito;

    • Dado que foi interpretado e compreendido pelo recipiente.

    Bocij et al. (2003) assim como Curtis e Cobham (2005) identificam

    os processos associados com a conversão de dado para informação:

    classificação, rearranjo/distribuição, agregação, realização de cálculos, e

    seleção. Estes autores não discutem, contudo, se estes processos são

    realizados por sistemas da informação, pessoas, ou ambos.

    Pearlson e Saunders (2004) sugerem que o processamento de

    dados requer decisão sobre o tipo de análise, e isso, por sua vez, requer

    interpretação do conteúdo dos dados.

    Rowley (2007) afirma que para ser relevante e ter propósito,

    informação deve ser considerada dentro do contexto em que é recebida e

    usada.

    Ao encontro disto Boddy et al. (2008) apontam que a noção de

    significado é subjetiva, e que o que uma pessoa vê como informação

    valiosa, outra pode ver como dado insignificante. Jashapara (2005)

    concorda com o exposto e afirma que é o receptor que determina se a

    mensagem é dado ou informação, também que o sentido do dado

    normalmente ocorre através de alguma forma de associação com a

    “experiência” do receptor.

    Beynon-Davies (2002), reconhecendo que o significado da

    informação é crítico e aberto à múltiplas interpretações, embarca em uma

    explicação baseada na semiótica ou semiologia. Argumenta que

    informação pode ser vista como incorporada em sinais, e discute como os

    elementos da semiótica, pragmática, semântica e sintaxe informam o

    pensamento sobre comunicação e informação.

    Choo (2006) chama este processo – de atribuição de sentido e

    significação ao fato percebido – de “estruturação cognitiva”. Este

    processamento verifica a relevância do dado para um propósito ou

    contexto específico, e portanto, o torna significativo, com valor, útil e

    relevante. Liew (2007) vê informação como algo similar ao exposto por

    Rowley, uma mensagem que contém significado relevante, implica ou

    gera uma decisão ou ação. Em essência o propósito da informação é

    auxiliar a tomada de decisão e resolução de problemas.

  • 45

    Similarmente, para Hey (2004), dado é comumente visto como não

    contendo significado inerente a si mesmo. Informação é, portanto, muitas

    vezes vista como “dado com significado”. O autor afirma que dado puro,

    num banco de dados, não possui estrutura inerente. Então, para dado se

    tornar informação deve ser moldado ou estruturado de sua forma crua

    pelo receptor.

    Poderíamos, contudo questionar esta afirmação do autor, afinal o

    banco de dados é a estrutura, e o dado incluído no banco é inserido em

    um local específico de acordo com o que fora previamente estabelecido.

    O autor ainda diz que a literatura se refere à transformação de dado

    em informação através de processos como o de destilação e de

    reconhecimento de padrões. O reconhecimento de padrões se refere a

    estruturar o que, de outra maneira seria dado sem estrutura, e destilação implica que uma grande quantidade de dados pode se transformada em

    um conjunto conceitual menor de informação. Aponta que isto geralmente

    é reforçado por nossa experiência diária.

    Por exemplo, podem custar centenas de mensurações de dados

    sobre a precipitação diária da cidade de Washington para que, finalmente,

    chegue-se à informação sintetizada de que “Washington é um local

    chuvoso”.

    Ainda segundo Hey (2004), dependendo da situação, informação

    pode ser reversamente processada. Nas palavras de Bill Gates “todo ano,

    métodos melhores são desenvolvidos para quantificar informação em

    quadrilhões de pacotes atômicos de dados” (BROWN; DUGUID, 2000).

    Para Ashan e Shah (2006) temos que informação é:

    1. Conhecimento obtido através de investigação, estudo ou

    instrução;

    2. Inteligência, notícias.

    Ashan e Shah (2006) apontam que informação expande o conceito

    de dado, incluindo-o, mas também inclui o que é percebido e

    experienciado nas relações sociais que ocorrem no plano da realidade,

    pois, para os autores, dado refere-se apenas ao que é fruto de mensuração

    e registro.

    Informação, assim como dado, é transmitida por símbolos. Estes símbolos possuem estruturas e regras complexas. Informação, portanto,

    se apresenta em uma variedade de formas tais quais: escrita, afirmações,

    estatística, gráficos ou diagramas, concluem os autores.

  • 46

    3.5 CONHECIMENTO

    Bernstein (2009) afirma que o conceito de conhecimento é um

    conceito capcioso e “escorregadio”, devido sua relatividade.

    Ackoff (1989) descreve o conhecimento como a forma pela qual

    pode-se controlar uma situação a fim de obter um resultado desejado.

    Liew (2007) indica que conhecimento é: a cognição e o

    reconhecimento (know what); a capacidade de agir (know how); e a

    compreensão (know why); que residem na mente ou no cérebro. O

    propósito do conhecimento é criação de valor, e/ou melhorar a qualidade

    de vida.

    Como analisa Rowley (2007), definições sobre o conhecimento

    são, frequentemente, mais complexas do que as de dado ou informação.

    A autora diz que existe um bom número de publicações na gestão do

    conhecimento que oferecem extensas discussões sobre a definição e

    natureza do conhecimento. Estes debates tornam mais difícil destilar a

    essência das afirmações sobre a definição do conhecimento, se comparada

    às de dado ou informação. Alguns textos revisados pela autora sugerem

    que:

    • Conhecimento é um termo intrinsecamente ambíguo e

    equivocado;

    • Ainda não há consenso sobre a natureza do conhecimento,

    exceto que é baseado na ideia de que pode prover uma

    justificativa racional para si.

    Ainda segundo a revisão desta autora, seis livros de sistemas da

    informação oferecem definições de conhecimento normalmente em

    termos de dado ou informação. Por exemplo:

    • Conhecimento é a combinação de dado e informação, sobre a

    qual é adicionada expertise, habilidades, e experiência, que

    resultam em um valuable asset que pode ser usado para ponderação na tomada de decisão;

    • Conhecimento é dado e/ou informação que foi organizado e

    processado, convergindo compreensão, experiência, aprendizagem acumulada e expertise, conforme estas se

    aplicam a um problema específico ou atividade;

  • 47

    • Conhecimento é construído a partir de informação que é

    extraída de dados, enquanto dado é uma propriedade das coisas,

    conhecimento é uma propriedade das pessoas que predispõe-nas

    à agir de uma determinada maneira;

    Pearlson e Saunders (2004) concordam que conhecimento é

    informação provinda da mente humana e inclui reflexão, síntese e

    contexto: “O conhecimento consiste naquela mistura de informação

    contextual, valores, experiência, e regras [...] envolve síntese de múltiplas

    fontes de informação [...] a quantidade de contribuição humana aumenta

    conforme sobe o contínuo de dado à informação ao conhecimento” (p.13,

    tradução nossa).

    Barnes (2002), por exemplo, sugere que conhecimento é

    informação processada na mente de um indivíduo, e que conhecimento é

    uma crença pessoal justificada, que aumenta a capacidade do indivíduo

    na tomada de ação efetiva.

    Awad e Ghaziri (2004) sugerem que conhecimento é compreensão

    humana sobre um campo especializado que foi adquirido através de

    estudo e experiência, e que o conhecimento pode ser visto como a

    compreensão da informação baseada em sua importância ou relevância

    percebida para uma área de problema.

    Os autores também dizem que, abrangendo uma esfera mais ampla

    que informação, o conhecimento inclui habilidade perceptual,

    treinamento, senso comum, e experiência. É a soma total de nossos

    processos perceptivos que nos ajuda a traçar conclusões significativas

    (meaningful).

    Despres e Chauvel (2000) afirmam que, para se tornar

    conhecimento, novos insights são internalizados através do

    estabelecimento de links com conhecimento já existente. Estes links,

    contudo, podem variar desde relações claras e bem definidas a vagas

    associações. O conhecimento resultante é formado por combinações de

    objetos mentais e links entre eles, e permite-nos experienciar razão,

    planejar, julgar e agir.

    Laudon e Laudon (2006) apresentam o conhecimento como

    informação combinada à compreensão e que reside na mente das pessoas.

    Jashapara (2005) e Newell et al. (2002) mencionam a importância dos aspectos semânticos da informação na criação do conhecimento.

    Rowley (2007) argumenta que conhecimento é um conceito

    elusivo de difícil definição “o conhecimento pode ser visto como uma

    mistura de informação, compreensão, capacidade, experiência,

    habilidades e valores” (ROWLEY, 2007, p. 12, tradução nossa). É

  • 48

    importante notar que nem todos os textos e livros revisados pela autora

    mencionam, necessariamente, todos estes elementos.

    Ashan e Shah (2006) definem conhecimento como “o alcance de

    informação de um indivíduo [...] Informação se torna conhecimento

    individual quando aceita e retida pelo indivíduo” (ASHAN; SHAH, 2006,

    p. 273, tradução nossa).

    3.5.1 Conhecimento Explícito e Tácito

    Segundo Rowley (2007), muitos textos de gestão do conhecimento

    discutem diferenças entre conhecimento explícito e tácito, Em geral, eles

    concordam que conhecimento tácito está intrincado no indivíduo

    enquanto o explícito é codificado, e sendo assim, é propício ao

    compartilhamento.

    Bocij et al. (2003) diferenciam conhecimento explícito e tácito,

    sugerindo que o explícito pode ser gravado em sistemas da informação,

    enquanto o tácito não pode ser gravado já que é parte da mente humana.

    Conhecimento tácito refere-se ao conhecimento pessoal envolvido

    na experiência individual e que envolve fatores intangíveis como crença

    pessoal, perspectiva, e valores. Podemos, contudo, descrever valores

    pessoais, crenças e perspectivas; estes elementos não são, em essência,

    impossíveis de serem explicitados, e esta não parece ser uma definição

    muito útil.

    Conhecimento tácito, como identificado por Polanyi (1962,1967)

    é o conhecimento que é de difícil codificação e comunicação, é efêmero

    e transitório e não pode ser reduzido à informação ou objetivado tal qual

    informação. Conhecimento tácito seria o conhecimento subjetivo e

    inexpressível, domínio dos experts, prossegue o autor, e conhecimento

    explícito seria o conhecimento possível de descrever e gravar que, por

    exemplo, preenche livros e bibliotecas.

    Nonaka e Takeuchi (1995) afirmam que conhecimento tácito é

    pessoal, específico ao contexto e de difícil formalização.

    Frické (2009) aponta que, dentro do campo da ciência cognitiva,

    existem distinções entre conhecimento procedural e declarativo.

    Conhecimento declarativo seria aquilo que é possível descrever, declarar. Enquanto o conhecimento procedural é inexpressável, inerente aos

    procedimentos tomados pelo sujeito.

    Alguém pode aprender a andar de bicicleta através de um livro,

    seguindo as regras do conhecimento declarativo como “se quiser virar à

    esquerda, incline-se à esquerda” onde o autor ironiza dizendo “e os

  • 49

    desejamos a maior sorte nisto”. Quando o ciclista domina a técnica,

    aquele conhecimento declarativo é dissolvido em conhecimento

    procedural inerente e inexpressível, habilidade de saber como se anda de

    bicicleta, completa Frické (2009). Trata-se da famosa distinção entre

    saber na teoria e saber fazer na prática.

    3.6 CONSIDERAÇÕES ADICIONAIS NA LITERATURA

    Após esta breve revisão dos elementos da hierarquia fica evidente

    a circularidade e redundância das definições levantadas extensivamente

    no problema de pesquisa e na justificativa. Questões mais amplas

    parecem faltar para que, de fato, se tenha um quadro inteligível sobre o

    fenômeno em voga.

    Se por um lado a relação entre dado e informação aparenta ser mais

    direta e intuitiva, a relação com o conhecimento se mostra não linear e

    complexa, onde um esquema linear simples parece ser insuficiente para

    dar conta do fenômeno.

    Ao mesmo tempo, se olharmos mais atentamente, as relações entre

    dado e informação também merecem uma análise mais aprofundada,

    exemplos aparentemente claros se mostram não tão embasados se

    verificados atentamente. A dubiedade e difícil diferenciação entre sinal e

    dado e a noção de contexto para diferenciar dado de informação se

    mostram insuficientes e nos provocam a repensar a hierarquia.

    Zins (2007) nos brinda com um belo trabalho, um painel,

    internacional e intercultural, composto por 57 participantes de 16 países.

    Um estudo crítico delphi – metodologia de pesquisa qualitativa, que visa

    facilitar discussões críticas e moderadas entre experts – que contém

    acadêmicos de destaque, representantes de quase todos os principais

    subcampos da área.

    O resultado deste fortuito trabalho não é nada menos do que um

    quadro comparativo que conta com 130 definições dos elementos DIKW,

    de diferentes experts da área de sistemas da informação. O apanhado de

    definições segue nas linhas gerais do exposto até aqui, sem muitas

    discrepâncias, confirmando o que se revela na literatura. A definição do termo “sinal” aparecia por vezes em uma ou outra

    análise, normalmente referindo-se a estímulos físicos objetivos, ou

    símbolos.

    Como visto anteriormente, Choo (1996), assim como Jashapara

    (2005), também introduz o conceito de sinais. Jashapara (2005) sugere

  • 50

    que adquirimos dado do mundo externo através de nossos sentidos, e

    tentamos compreender (make sense) estes sinais através de nossa

    experiência. Choo (1996) desenvolve isso mais afundo, e especificamente

    identifica sinais como a origem dos dados. Propões os processos de sentir

    e selecionar como transformadores de sinal em dado.

    Ou seja, sinais seriam estímulos físicos da realidade e dados seriam

    o resultado do processamento desses sinais, a percepção do estímulo

    físico.

    3.6.1 Planos Objetivo e Subjetivo

    Ao longo da análise dos resultados, Zins (2007) destaca a

    importância de levarem-se em conta dois planos da experiência, são eles:

    plano objetivo e plano subjetivo.

    Conhecimento subjetivo existe no ‘mundo

    interno’ do indivíduo (por exemplo, como um

    pensamento), onde o conhecimento objetivo existe

    no ‘mundo externo’ ao indivíduo (por exemplo,

    conforme é publicado em livros, está presente em

    bibliotecas digitais, e/ou armazenado em aparelhos

    eletrônicos). Neste contexto, não estão ligados à

    arbitrariedade e veracidade que estão,

    normalmente, relacionados com os conceitos de

    subjetivo e objetivo (ZINS, 2007, p. 8, tradução

    nossa).

    O autor segue dizendo que, para evitar confusão, adotará a

    nomenclatura “plano universal”, ao invés do termo “plano objetivo” que

    poderia ser associado erroneamente com a qualidade de veracidade

    empírica.

    Primeiramente descreve dado, informação e conhecimento no

    campo subjetivo: dado seria o estímulo sensorial recebido pelos sentidos

    do indivíduo (por exemplo, os barulhos que ouve), enquanto informação

    seria aquele estímulo atribuído a um significado, como por exemplo,

    identificar o barulho como proveniente da “aceleração de um carro passando em uma rua próxima”.

    Então, sem muita contextualização, o autor passa à outra maneira

    de classificar: ambos descritos acima (dado e informação) seriam, nesta

    nova maneira, puramente dados; conhecimento seria aquilo que em o

    sujeito crê ser verdade; e informação seria um subtipo de conhecimento,

  • 51

    o conhecimento embasado empiricamente, ou seja, fruto da experiência.

    Outros tipos de conhecimento, que não o empírico (informação),

    envolvem questões lógico matemáticas, religiosas, filosóficas etc.

    Zins (2007) prossegue contextualizando DIK no campo universal.

    Diz que neste campo, dado, informação e conhecimento são artefatos

    humanos, representados por sinais empíricos. Sinais, como já vimos,

    sendo aquilo com o qual o sujeito entra em contato através de seus

    sentidos.

    Segundo o autor, o campo universal espelha sua contraparte

    cognitiva (campo subjetivo). Dados seriam conjuntos de sinais que

    representariam um estímulo ou percepção; conhecimento seria um

    conjunto de sinais que representariam o significado (ou conteúdo) daquilo

    o que o sujeito acredita ser verdadeiro; informação seria um conjunto de

    sinais que representariam um conhecimento empírico (informação como

    subcaLtegoria de conhecimento).

    Frente à complexidade inaugurada, Zins (2007) afirma que a

    definição do fenômeno DIK, como um conjunto de sinais, necessita

    refinamento: existe uma distinção fundamental entre declarações

    registradas e seus significados. Qual a diferença entre sinal e significado?

    O autor exemplifica que as fórmulas E=MC², E=MC² e E=MC² não são três tipos diferentes de conhecimento, e sim três conjuntos

    distintos de sinais que representam o mesmo significado. Em outras

    palavras, diz o autor, são três diferentes formas de expressar um mesmo

    conhecimento.

    Conhecimento, no plano universal, é o sentido que está

    representado pelas declarações faladas e/ou escritas (conjunto de sinais),

    diz agora o autor. Prossegue afirmando que como não é possível

    percebermos, através de nossos sentidos, o significado em si – já que se

    trata de uma entidade abstrata - podemos apenas interagir com os

    conjuntos de sinais que representam o significado (declarações escritas,

    faladas, ou fisicamente expressadas).

    Zins (2007) então conclui que, aparentemente é mais útil tratar

    dado, informação e conhecimento, como conjunto de sinais ao invés de

    significado. Certamente um trabalho que levanta bons pontos, porém de

    maneira um pouco confusa e até contraditória. Recapitulemos o raciocínio

    do autor:

    1. Primeiramente afirma que, no plano universal, DIK se trata

    de artefatos humanos representados por conjuntos de sinais;

  • 52

    2. Exemplifica que E=MC², E=MC² e E=MC² não são três

    tipos diferentes de conhecimento, e sim três conjuntos distintos

    de sinais que representam o mesmo significado;

    3. Afirma que, no plano universal, o conhecimento se trata do

    significado e não no conjunto de sinais;

    4. Adverte que não temos acesso direto ao significado, através

    de nossos sentidos, por este se tratar de uma entidade abstrata e

    por isso a interação se dá a partir do conjunto de sinais;

    5. Conclui que é mais útil tratar do plano universal como o

    conjunto de sinais ao invés do significado.

    Frente ao exposto, fica destacada certa confusão entre tratar o

    plano universal no campo dos conjuntos de sinais ou no campo dos

    significados. A distinção feita pelo autor é muito bem vinda, porém, não

    fica claro exatamente onde o plano universal se encaixa frente esta

    distinção entre conjunto de sinais e o significado.

    Ademais, logo no início de sua distinção entre os planos

    “universal” e “subjetivo”, o autor escolhe não utilizar o nome “plano

    objetivo” para não confundi-lo com a qualidade de veracidade,

    normalmente atribuída ao conceito “objetivo”.

    Frente a isso poderíamos inferir que a escolha da nomenclatura

    “plano universal” indica uma inclinação a entender este plano como no

    campo dos significados, e não da veracidade empírica dos conjuntos de

    sinais, o que deixa a conclusão ainda mais confusa.

    Apesar desta falta de delineamento, Zins (2007) nos defronta com

    aspectos de suma importância para começarmos a pensar o contexto

    envolto na temática da hierarquia DIKW: a distinção dos planos objetivo

    e subjetivo, e a distinção entre significado e sinal.

    3.6.2 Significado e Sinal

    Ashan e Shah (2006), por exemplo, utilizam a distinção entre

    significado e estrutura de sinais para classificar a diferença entre dado e

    informação. Para os autores, informação se relaciona com o significado

    abstrato, enquanto dado seria a transposição do significado a um conjunto de sinais. Em suas palavras, “dados podem emergir apenas se uma

    estrutura é fixada e então utilizada para representar o significado”

    (ASHAN; SHAH, 2006, p.277, tradução nossa)

    Isto acontece, por exemplo, quando, segundo os autores,

    informação é registrada em um banco de dados bem estruturado. Neste

  • 53

    caso específico, a informação é descontextualizada de significado, e

    estruturada de acordo com uma semântica pré-definida. Idealmente,

    apontam, dados seriam completamente subtraídos de significado, de

    forma a serem passíveis de processamento automático por programas de

    computador.

    Dado, desta forma, existiria apenas como uma solução a um

    problema prático: dissecar informação em formas que possam ser

    modeladas, representadas, e processadas separadamente. Isto também

    explicaria, para os autores, por que arquitetos da informação acreditam

    que é extremamente importante que a estrutura de uma base de dados

    possua regras bem definidas e estabelecidas.

    Ashan e Shah (2006) ainda destacam que o processamento de

    dados se apoia na pura manipulação de estruturas sintáticas (abstraídas de

    significado) através de máquinas.

    Rowley (2007) destaca que existem outros autores que, assim

    como Ashan e Shah (2006), utilizam as diferenças entre estrutura e

    significado como forma de classificar dado e informação. Afirma,

    contudo, que tal forma de classificação não é consenso.

    3.6.3 Reversibilidade no sentido da hierarquia

    Ashan e Shah (2006), além de corroborarem à sua maneira ao

    debate da diferença entre significado e conjunto de sinais, demonstram

    uma reversibilidade nos processos da hierarquia, onde dado emergiria

    apenas a partir da informação, o que demonstra um movimento complexo

    na transição entre os estágios e classificações da hierarquia.

    Os autores problematizam a questão afirmando que dado não se

    torna informação após significado ter sido atribuído ao mesmo (a visão

    de maior consenso até aqui), invertem o processo afirmando que dado

    emerge após a decodificação de uma informação em estruturas lógicas

    abstraídas de sentido. Dado surgiria apenas após a agregação de valor à

    informação.

    Citam Bill Gates “Todo ano, métodos mais avançados estão

    sendo elaborados para quantificar informação em quadrilhões de pacotes

    de dados atomísticos” (ASHAN; SHAH, 2006, p.276, tradução nossa).

    Prosseguem dizendo que dado emerge por último, apenas a partir

    do conhecimento e informação disponíveis. Afirmam que não existem

    “pedaços isolados”, “fatos simples”, a não ser que alguém os tenha criado

    a partir de seu próprio conhecimento.

  • 54

    Esta nova maneira de pensar as idas e vindas entre os estágios da

    hierarquia - que questiona a estabelecida noção de que informação emerge

    apenas a partir de dados - nos mostra que para haver o registro objetivo

    de um dado, deve-se dissecar a informação, e para isso deve-se possuir

    conhecimento.

    3.6.4 Os opostos ocultos na hierarquia DIWK

    Bernstein (2009) explora as relações entre os conceitos de uma

    maneira mais subversiva. Aborda a pirâmide DIKW para elencar e

    discutir o oposto dos seus termos.

    A inversão da hierarquia DIKW produz uma série de novos termos

    – que incluem “desinformação”, “erro”, “ignorância”, “estupidez”, etc. –

    mas, para o autor, não formam exatamente uma corrente ou pirâmide. São

    relações complexas e examinar as conexões entre estes fenômenos

    contribui para o entendimento dos contornos e limites do conhecimento,

    destaca.

    Bernstein (2009) aponta, também, que ignorância, desinformação,

    estupidez entre outros, são tópicos muito comentados e que seria muito

    útil traçar relações com a hierarquia DIKW, afinal tratam-se de

    fenômenos que ocorrem na cultura.

    O autor realça a importância de estes conceitos serem entendidos

    no contexto das organizações do conhecimento e destaca que entender as

    relações da “face oculta” do conhecimento é de fundamental importância

    para a área.

    Propõe que o oposto de dado seria a falta de dado ou o desejo por

    dados; o oposto de informação possui algumas variantes, dentre elas

    desinformação, má informação e erro; o oposto de conhecimento é posto

    como ignorância; e o oposto da sabedoria como estupidez e tolice.

    Bernstein (2009) rejeita a possibilidade de trabalhar com os

    opostos da hierarquia de uma maneira simplista como a piramidal, onde

    um acúmulo no nível mais baixo da hierarquia leva à transição ao segundo

    nível, assim por diante e vice versa. Demonstra que esta linearidade é

    quebrada quando tentamos pensar os opostos propostos.

    Por exemplo, afirma que erros podem ocorrer mesmo frente a dados verdadeiros, basta má interpretação ou uma lógica falha ao se

    trabalhar os dados. Da mesma maneira, “malinformação” e

    desinformação não surgem da ausência ou do desejo por dados, mas sim

    de uma distorção no conhecimento e/ou informação, ou de comunicá-los

    incorretamente.

  • 55

    Assim como Ashan e Shah (2006) nos introduzem um hiato na

    linearidade da transição entre os estágios da hierarquia; ao explorar seus

    opostos, Bernstein (2009) amplia a indagação sobre o fenômeno, suas

    conexões e suas transições.

    O autor conclui afirmando que o que propõe não se trata de algo

    inversamente proporcional à hierarquia, mas também, que

    Seria errado presumir que o modelo DIKW

    reflete precisamente os estágios de

    desenvolvimento do fenômeno em questão [...] a

    hierarquia por si parece fadada a uma

    reformulação, se não ao seu próprio banimento do

    ramo da ciência da informação, como Martin

    Frické advoga (BERNSTEIN, 2009, p. 7, tradução

    nossa)

    3.6.5 O princípio da incerteza

    Frické (2009) possui um artigo acerca da hierarquia onde aplica

    duras críticas ao construto. A histórica imprecisão nas diferenciações

    entre os estágios nutre as críticas do autor. Suas críticas, contudo, apesar

    de duras, são aplicáveis apenas a uma parcela dos trabalhos existentes. Os

    fundamentos da crítica de Frické (2009) questionam a abordagem

    filosófica empirista clássica, a qual crê na possibilidade de comprovar-se

    alguma verdade. Inspirado pelas ideias de Carl Popper, Frické aponta o

    quão não científico é acreditar na “certeza”, por exemplo; direcionando

    seus argumentos aos autores que afirmam que dado apenas é dado se for

    “verdadeiro”, significando “um fato incontestável e real”, o que,

    certamente, implica em problemas lógico-filosóficos já conhecidos

    atualmente.

    A impossibilidade de alcançarmos a verdade é um princípio

    defendido por Popper (1963), que marcou a ciência moderna e certamente

    muito pertinente à matéria do conhecimento. Esta impossibilidade

    relaciona-se diretamente com o proposto por Bernstein (2009) –

    ignorância, desconhecimento. Frické (2009) reafirma a importância destes aspectos do (des)conhecimento ao se pensar o fenômeno DIKW.

    Bellinger et al. (2004), também tratando de questões do

    desconhecimento, nos brindam com uma bela questão. Introduzem em

    seu artigo a indagação acerca do “ruído”. Perguntam-se sobre quando um

  • 56

    padrão é considerado ruído e quando é considerado conhecimento.

    Exemplificam:

    • Abugt dbesbt regtc uatn s uitrzt.

    • ubtxte pstye ysote anet sser extess

    • ibxtedstes bet3 ibtes otesb tapbesct ehracts

    Então dizem ser provável que a sequência represente 100% de

    ineditismo ao leitor, o que significa ser equivalente a ruído: um padrão só

    pode ser reconhecido, nunca conhecido, no sentido que é apenas possível

    reconhecer padrões através de comparação com experiências anteriores.

    Podemos entender assim quando os autores dizem que algo 100% inédito

    equivale-se a ruído: é algo incomparável, sem referência.

    Bellinger et al. (2004), então, afirmam que para o leitor não

    existem bases para conectar-se com padrão apresentado. Obviamente que

    os autores, contudo, conseguem decifrar o emaranhado de letras -

    reconhecer um padrão, que anunciam se tratar das três leis de Newton, e

    então indagam se algo é efetivamente conhecimento se você não pode

    compreender.

    3.6.6 Algumas indagações emergem

    Rowley (2007) questiona alguns pontos pertinentes acerca da

    hierarquia:

    • Existira de fato uma divisão clara entre os estágios da

    hierarquia, ou trata-se de um continuum com diferentes níveis

    de significação e usabilidade?

    • A hierarquia possui uma base segura, ampla e estável de

    dados, e sabedoria é alcançada apenas após muito

    processamento de dados, informações e conhecimentos, com o

    início do processo em dados. Seria esta linearidade é

    pertinente?

    • A hierarquia sugere que existam mais dados do que informação

    e mais informação do que conhecimento, etc. Seria isto útil ou desejável?

    Rowley (2007) ainda destaca que parece haver um consenso em

    que informação é vista como dado estruturado, organizado

    sistematicamente. Esta estruturação localizaria a relevância do dado para

  • 57

    um propósito específico ou contexto determinado, atribuindo sentido ao

    dado, propósito, valor ou relevância.

    Ao mesmo tempo, prossegue a autora, é importante reconhecer que

    todo dado, seja em sistemas ou na mente, necessita de alguma estrutura

    para ser registrado. Sistemas da informação classificam dados por

    coordenadas em um banco de dados onde estes podem ser localizados e

    utilizados posteriormente.

    Diz ainda que, se voltarmos nossas atenções para o que diferencia

    informação de conhecimento, também encontraríamos complicações

    inerentes: informação, como visto, é frequentemente posta como dado

    processado para um fim, propósito, significado. Ao mesmo tempo,

    conhecimento é descrito como informação acionável, ou informação

    combinada com compreensão de contexto ou usabilidade. Torna-se

    complicado a utilização dos termos compreensão e usabilidade

    (contexto/estrutura) como diferenciadores entre informação e

    conhecimento, afirma Rowley (2007).

    A autora prossegue dizendo que a distinção entre conhecimento

    explícito e informação se mostra ainda menos defensável. Se

    conhecimento é propriedade de humanos e da compreensão, é complicado

    não classificar “conhecimento explícito” como sinônimo de informação,

    conclui.

    Rowley (2007) propõe que:

    • É necessário discutir sentido e estrutura como diferenciadores

    entre dado e informação, e que isto possui consequências para

    se informação está contida em sistemas, em mentes, ou em

    ambas.

    • A distinção entre definições de informação como dado

    processado para ter sentido, valor, e apropriado a um uso

    específico; e definições de conhecimento como “informação

    acionável” se duplicam e confundem-se.

    • Se conhecimento é uma propriedade da mente humana, de

    potencial para ação, conhecimento explícito não pode ser nada

    mais nada menos que informação.

    • Apesar de estar no topo da hierarquia DIKW, sabedoria é um

    conceito negligenciado na literatura da gestão do conhecimento e sistemas de informação. Se o propósito destes campos é

    prover uma base para que ações apropriadas sejam tomadas por

    indivíduos e organizações, os pesquisadores e praticantes

    devem engajar-se com o debate sobre a natureza da sabedoria

    individual e organizacional.

  • 58

  • 59

    4 DISCUSSÃO

    4.1 ARGUIÇÃO DE BELLINGER

    A maioria dos trabalhos adentra o tema sem se preocupar

    demasiadamente com a contextualização do fenômeno, tal qual aponta

    Liew:

    Existe uma boa discussão sobre os termos

    de dado, informação conhecimento, suas

    definições e inter-relações – i.e. Ashan e Shah,

    2006; Bernstein, 2009; Brodie e Brodie, 2009;

    Bierly III, Kessler e Christensen, 2000; Chen et al,

    2009; Fricke, 2009; Hoppe, Seising, Nurnberger,

    and Wenzel, 2011; Klimesova, 2009; Rowley,

    2007; Zins, 2007 – a falácia nas definições,

    contudo, persiste (LIEW, 2013, p. 1, tradução

    nossa).

    Liew (2013) afirma que um conceito não pode ser definido por

    parâmetros internos, frisa o quão necessários para definição são os limites

    e referenciais externos. A esta falácia lógica – de uma auto definição –

    dá-se o nome de circularidade.

    Não parece desejável para uma temática tão complexa que nos

    apressemos a dar exemplos simples que ilustrem um ponto de vista, sem

    antes nos preocuparmos em dissecar adequadamente o contexto e os

    aspectos que possam estar envolvendo o fenômeno em voga.

    Existem inúmeros exemplos na literatura sobre as diferenças entre

    os estágios da hie