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  • Vida de Santo Anto

    Santo Atansio

    Fonte: Mosteiro da Virgem (Petrpolis-RJ)

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    1. Sobre a Obra

    1.1. Introduo

    Santo Atansio de Alexandria, o autor da "Vida de Santo Anto", o insigne patriarca de Alexandria. Santo Atansio nasceu cerca do ano 295. Em 325, sendo dicono, acompanhou o patriarca Alexandre, seu predecessor, ao Conclio de Nicia, onde foi condenada a heresia ariana. Foi consagrado bispo de Alexandria a 08 de junho de 328. Toda sua vida pastoral viu-se envolvida pela controvrsia e lutas desencadeadas pelo arianismo, constituindo-se ele um dos baluartes da verdadeira f proclamada pelo Conclio de Nicia. Por cinco vezes foi desterrado de sua sede, sob os imperadores Constantino, Constncio, Juliano e Valente. Entre 335 e 337 esteve em Trvoris; entre 339 e 346, em Roma; os trs ltimos desterros passou-os no deserto do Egito: 356-362, 362-363, 365-366. Voltando finalmente a Alexandria, morre em 373. Nada sabemos sobre sua formao, seus mestres, seus estudos. Segundo seu prprio testemunho, alguns de seus mestres morreram durante as perseguies; em conseqncia, eram cristos. Em todo caso, seu mbito era a Igreja. Sem vacilar entrega-se a seu servio e sua defesa. parece ser mais copta do que grego. Fala e escreve copta. Conhece seu povo, pois dele provm. Sua comunidade vai apoi-lo sempre, atravs de todas as turbulncias de sua vida agitada. Dos quarenta e cinco anos de sua atividade episcopal, passou quase vinte no desterro. Isto explica que a maior parte de suas obras tenham surgido da contenda anti-ariana. No pretende fazer literatura, mas apenas ensinar e convencer. Fora de uma obra em duas partes (Contra os pagos e Sobre a encarnao do Verbo), escrita em seus tempos de dicono do patriarca Alexandre, a maioria de suas obras teolgicas se dedicam a rebater o arianismo e defender a f nicena, e nelas predomina o tom polmico, chegando ironia e ao sarcasmo. (Trs

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    sermes contra os arianos, Apologia contra os arianos, Apologia ao imperador Constantino, Apologia sobre sua fuga, Histria dos arianos para os monges). Mas Santo Atansio foi tambm pastor de almas. Infelizmente perderam-se muitas de suas obras, especialmente seus comentrios Sagrada Escritura. Entre seus escritos sobressaem suas cartas pastorais pascais e um tratado sobre a virgindade.

    1.2. Santo Atansio e o monaquismo

    Santo Atansio no foi monge, mas acha-se em lugar muito destacado nas origens do movimento monstico.Sua vida, como a de todos os Padres da igreja do sculo IV, foi sumamente asctica. Ainda que seus estudos, segundo o testemunho de So Gregrio Nazianzeno, no tenham sido especialmente amplos, possua ele um grande domnio da Sagrada Escritura. Desde muito cedo parece ter estado em relao com os monges, particularmente com Santo Anto. Dois discpulos deste o acompanharam em seu desterro a Roma em 339, e entre os monges buscou e encontrou colaboradores durante sua luta anti-ariana, confiando a alguns deles sedes episcopais. Todas estas relaes de amizade e mtua compreenso - os monges apoiaram amplamente a causa de Santo Atansio, e este defendeu e propagou o nascente ideal no Oriente e no Ocidente - fizeram-se mais slidas e profundas durante os trs ltimos desterros do bispo, na Tebaida e entre os monges pacomianos. Em face resistncia de muitos bispos, Santo Atansio soube compreender o valor do movimento monstico, estimulou-o, influiu grandemente nele atravs de seu contato pessoal e de seus escritos, propagou seus ideais e o estabeleceu definitivamente como movimento de Igreja. indubitvel que, fora a ajuda de Deus e sua prpria convico e a adeso inquebrantvel de seu povo de Alexandria, Santo Atansio encontrou no apoio entusiasta do monaquismo copta um grande

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    consolo em sua luta e em seus desterros. Aqui se destaca de modo especial a amizade de Santo Anto: segundo o historiador Sozomeno, escreveu ao imperador Constantino em favor de seu amigo, e no vacilou em apresentar-se na prpria cidade de Alexandria. indubitvel tambm que, fora do influxo doutrinal, a presena de Santo Atansio foi decisiva na orientao essencialmente escriturstica e evanglica do movimento monstico. E, entre todas as suas obras, sua "Vida de Santo Anto" a que constitui sua mais significativa contribuio ao desenvolvimento do esprito monstico.

    1.3. A "vida de Santo Anto"

    Santo Atansio escreveu a "Vida", segundo alguns, por ocasio de seu primeiro desterro no deserto, na Tebaida, encontrando-se entre os monges, 356-362; segundo outros, t-la-ia escrito em sua volta definitiva a Alexandria, depois de 366. Atualmente j ningum discute que tenha sido efetivamente Santo Atansio o autor da "Vida". O que se discute entre os entendidos , sim, o carter dessa biografia, isto , qual o seu gnero literrio, a veracidade histrica de seu contedo, o prprio pensamento de Santo Anto. Parece haver acordo em aceitar que o substancial dos dados contidos na "Vida" corresponde ajustadamente verdade histrica, Santo Anto, no , pois, uma figura mtica, pura criao de Santo Atansio, como tampouco o so as diversas circunstncias e etapas de sua vida. No entanto, deve-se conceder que os diversos episdios, separadamente considerados, no tm todos a mesma qualidade. A maior dificuldade se apia na apresentao da doutrina espiritual de Santo Anto e em alguns aspectos de sua luta contra os demnios; evidente que se no essencial Santo Atansio fiel figura de seu heri, no menos certo que expe suas prprias reflexes sobre o tema. No cremos que se possa ir to longe como afirmar que a "Vida" um tratado de espiritualidade;

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    ela , efetivamente, uma biografia, que pretende credibilidade histrica (5:7), mas que tem, alm dessa finalidade expressa, tambm outra, abertamente declarada: dar aos monges um modelo digno de imitao (4; 93,1.9; 94,1). possvel que Santo Atansio tenha tomado em conta o gnero biogrfico da antiguidade e que tenha inclusive conhecido determinadas biografias de autores pagos que puderam ter-lhe servido de modelo. De qualquer modo, deseja demonstrar que o copta iletrado que foi Santo Anto superou amplamente todos aqueles heris ou homens divinos, no por suas prprias foras, mas pela graa de Deus (5,10; 7,1; 38,3; 78,1.2; 84,1; 94,1). Dificuldades aparte apresentam os dois longos discursos dos caps. 16-43 (sobre o combate espiritual) o 72-80 (contra os arianos). Sabe-se que os historiadores antigos costumavam pr na boca de seus heris discursos ou sermes nos quais expunham seus prprios pontos de vista ou sintetizavam livremente as opinies atribudas a seus biografados. provvel que Santo Atansio tenha tambm recorrido a este procedimento. Contudo, principalmente no primeiro dos discursos dever-se- reconhecer que se trata do resultado de um influxo recproco; dadas as ntimas relaes entre Santo Atansio e o mundo monstico do deserto, especialmente Santo Anto, os discursos espirituais refletem a sabedoria experimental dos monges, mas igualmente as reflexes e sabedoria pastoral do patriarca alexandrino. Pois bem, a conferncia espiritual dos caps. 16-43, que constitui um quarta parte de toda a "Vida" a que justamente apresenta o trao que costuma chocar o leitor no iniciado, o mundo horripilante dos demnios. Esse discurso foi caracterizado s vezes como verdadeira smula de demonologia. Talvez no seja possvel dar uma explicao absolutamente satisfatria desse fenmeno. Como todo documento antigo, includo o Novo Testamento, tambm a "Vida" d provavelmente mais lugar ao mundo do maravilhoso, e, portanto, do demonaco. Muitos sero os fatores que influram: incapacidade para discernir causas naturais; a convico de que deuses e dolos pagos eram em realidade demnios, que se enfureciam contra os cristos por sentir

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    ameaado seu domnio sobre o mundo; crenas populares; influxos de movimentos ocultistas. No dando muita ateno, sem elimin-las, no entanto, s representaes demasiado realistas do mundo espiritual, fica o essencial de uma grande sabedoria feita de profunda observao e experincia vivida, unida ao carisma do discernimento e da direo espiritual. Finalmente, Santo Atansio apresenta na "Vida" como tese fundamental, que a santidade ou perfeio crist, animada pelo Esprito e refletida nas figuras bblicas (especialmente So Joo Batista, Nosso Senhor Jesus Cristo, os Apstolos) e nos mrtires da Igreja, continuava ao alcance de todos. Podia mudar, sem dvida, o quadro externo - agora, o monaquismo tal como Santo Anto o viveu -, mas a plenitude de vida do Esprito continuava sendo a mesma. Neste sentido, a "Vida" continua sendo um documento, no s monstico, mas simplesmente cristo, de perene atualidade. Isto explica tambm a imensa popularidade que a "Vida" teve em todos os tempos, a quantidade de tradues, desde as que, muito pouco depois da apario do original grego, foram feitas do latim e do srio, e constitui a razo mais profunda da verso castelhana (de onde vem esta portuguesa).

    1.4. Santo Anto

    Para conhecer a vida de Santo Anto tem-se como texto fundamental a obra de Santo Atansio. Fora dela citam-se por vezes outras fontes, mas que no do as mesmas garantias de autenticidade. Com mais ou menos segurana se lhes atribuem algumas cartas, ditadas por ele em todo caso, pois no sabia grego. Menor segurana reveste a atribuio que de alguns apoftegmas se lhe faz tradicionalmente. Fora de dvida esto, no entanto, as notcias contidas na carta que, por ocasio da morte de Santo Anto, escreveu ao amigo deste, So Serapio, bispo de Thmuis (ob. entre 339 e 353), como igualmente a meno do historiador

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    Sozomeno (+ 439?) e o elogio de So Gregrio Nazianzeno (+ 389/390). Valem tambm as menes na literatura pacomiana, ainda que por vezes adornadas com um trao bem legendrio. As datas da vida de Santo Anto so inseguras. A mais certa a de sua morte, no ano 356. Segundo a "Vida" (89,3), tinha nesta data cento e cinco anos de idade. Ainda que semelhante idade,