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  • 219Trabalho, abuso de drogas e os aparelhos ideolgicos de Estado: um estudo com alunos do ensino mdio e fundamental

    | 1 Martial de Magalhes Cmara, 2 Anamaria Testa Tambellini, 3 Amadeu Roselli-Cruz |

    1 Psicanalista, Mestre em Sade Coletiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Pesquisador do Centro de Estudos de Drogas da Universidade Santa rsula (CEDUSU). Endereo eletrnico: martial.camara@hotmail.com

    2 Professora Adjunta do Instituto de Estudos em Sade Coletiva e Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

    3 Professor Adjunto da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. Diretor Cientfico do Centro de Estudos de Drogas da Universidade Santa rsula.

    Recebido em: 13/05/2009.Aprovado em: 19/10/2009.

    Resumo: A pesquisa se baseia em trabalho de preveno de dependncia entre estudantes de 23 municpios de quatro regies brasileiras. Foram analisados 68.210 questionrios referentes a Regio Norte (29.386 questionrios / 7 cidades), Regio Nordeste (17.971 questionrios / 3 cidades), Regio Sudeste (4.197 questionrios / 4 cidades) e Regio Sul (16.656 questionrios / 9 cidades). Os questionrios continham 25 perguntas, das quais oito foram estudadas. Encontraram-se respostas aproximadas em todas as regies brasileiras. Observou-se ainda que no foi possvel estabelecer uma relao entre o trabalho e a experincia de abuso de drogas. A Igreja e a escola se mostraram extremamente importantes na formao dos jovens. A escola se mostrou herdeira de um trabalho educativo antes restrito s famlias. O abuso de drogas foi encontrado, na Regio Norte, em torno de 2%, sendo na Regio Nordeste em torno de 6%, na Regio Sudeste e Sul em cerca de 5%. A idade predominante para o primeiro uso se situou entre 11 e 15 anos em todas as regies estudadas e o percentual maior foi de alunos do ensino fundamental. Encontrou-se alguma concordncia com o trabalho de Althusser, no que se refere aos aparelhos ideolgicos de Estado. A Igreja e a famlia tiveram uma importncia muito grande para a busca de apoio ou esclarecimentos por parte desses jovens.

    Palavras-chave: drogas; trabalho; adolescentes; escolares; vcio; Epidemiologia; Sade Coletiva.

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    IntroduoA finalidade deste trabalho refletir sobre pesquisa realizada com 68.210 estudantes que responderam a questionrio usado nas primeiras fases de programa de preveno dependncia. Estudamos as variveis: trabalho de jovens, escolaridade, idade do primeiro abuso, famlia, religio e relaes sociais outras.

    Droga, segundo seu termo correlato grego (Phrmakon), uma palavra ambgua que expressa tanto o veneno, quanto o medicamento que cura ou salva. O falar geral, entretanto associou o significado de substncia entorpecente, alucingena ou excitante (ROSELLI-CRUZ, 1992). As drogas acompanham a Humanidade desde seu alvorecer. Seu uso e abuso constituem problemas muito antigos na histria do homem.

    A cincia farmacolgica s comeou a se firmar no sculo XIX, mas o uso lenitivo j vinha ocorrendo h muito tempo, atravs de erros e acertos. Os povos primitivos desenvolveram controles sociais eficientes para tal uso. O primeiro produto encontrado deve ter sido o lcool, provavelmente aps a ao de alguma levedura trazida pelo vento at uma poro de restos de frutas. Os egpcios fabricavam uma bebida fermentada de nome trag (ANDRADE, 1992). Dois dos principais textos da cultura ocidental: a Bblia e a Odisseia,trazem relato de consumo de vinho e p, provavelmente de extrao vegetal misturado a vinho.

    O aparecimento da civilizao e a consequente tomada de conscincia do destino, da finitude humana, fizeram com que uma angstia vital, nem sempre aliviada pelas religies, tomasse conta da mente e coraes dos homens. A descoberta da funo ansioltica do lcool propiciou o nascimento desse elo dependncia-abuso. Com a Revoluo Industrial, o desenvolvimento das tcnicas de produo que causaram a diminuio do preo dos produtos (MARX, 1867/1985), os trabalhadores, recebendo salrios, puderam ter acesso s bebidas. O acrscimo de consumidores, alm do trabalho da mulher e do menor, propiciaram o terreno ideal para que a dependncia qumica passasse a desempenhar papel cada vez mais forte.

    As grandes guerras trouxeram um acrscimo do abuso qumico, aps a disseminao do uso de substncias para aliviar a dor, opiceos, e para dar energia, anfetaminas (ANDRADE, 1992). Houve um incremento do interesse na preveno da dependncia qumica e verificamos que o foco de ateno deve estar dirigido para a pessoa que esteja em situao de fragilidade social, entre as quais, os jovens.

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    221H vrios significados para o termo dependncia, mas este compreende um sujeito frente a algo ou outro sujeito, sem o qual imagina no ter possibilidade de prazer ou at mesmo possibilidade de existir. Mais recentemente, a dependncia pode tambm ser vista como uma prtica psictica e suicida, com fantasias de desprender-se do corpo e iludir o outro, que acaba sendo percebido como perseguidor (KALINA, 1999).

    Quando se pensa em dependncia, pensa-se tambm na falta de liberdade exemplificada pela dificuldade em ocupar os espaos potenciais de desenvolvimento (ROSELLI-CRUZ, 1992). Verifica-se atualmente uma dificuldade na implantao de limites na famlia. A famlia moderna sofre uma mudana com

    a diminuio do poder parental e a incapacidade de esses pais de estabelecerem limites necessrios para o desenvolvimento das novas geraes (TIBA, 1996).

    MtodosRealizou-se estudo descritivo transversal, no qual foram analisadas as propores

    do abuso de drogas lcitas e ilcitas e sua associao com as variveis: aquisio da primeira droga, o trabalho, a importncia da escola, famlia e religio. Foi

    desenvolvido em um programa de preveno do Centro de Estudos de Drogas da Universidade Santa rsula (CEDUSU), que contou com a participao de

    prefeituras, clubes de servios e organizaes no-governamentais. Este suporte teve como objetivo alcanar um nmero expressivo de escolas, jovens, professores,

    famlias, empresas e seus funcionrios, grupos religiosos e policiais. O trabalho de pesquisa resultado de dissertao de mestrado apresentada ao IESC/UFRJ.

    O instrumento utilizado foi um questionrio respondido por alunos das cidades onde o programa foi implantado. Destes, escolhemos 68.210, respondidos

    entre os anos de 2000 a 2003. As principais variveis incluam abuso de drogas, trabalho de menores, escolaridade, religio e famlia, entre outras. O questionrio

    autoaplicado foi respondido anonimamente, com o consentimento por escrito dos responsveis na famlia e na escola.

    A necessidade do questionrio, annimo e autoaplicado, foi conhecer a realidade local. O CEDUSU no utiliza um modelo pronto de trabalho, mas estuda essa realidade para ajudar a equipe local a trabalhar. O objetivo estimular, na comunidade, uma cultura de preveno calcada em valores sociais dos grupos, procurando respostas dentro do repertrio de atitudes de cada grupo. O CEDUSU

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    somente atua numa comunidade se convidado por ela, no se oferecendo atravs de intermedirios ou pela mdia. As atividades foram iniciadas no Paran e a partir da fomos chamados para outros estados.

    Uma vez respondidos, os questionrios foram devolvidos para digitao dos dados, elaborao de tabelas e grficos e anlise estatstica dos mesmos, atravs de testes para comparao de propores (Teste do Qui-Quadrado Yates Corrected). Tal trabalho foi feito em programa desenvolvido na Universidade Santa rsula e baseado no programa EPI INFO 6.0, distribudo gratuitamente pelo Center on Diseases Control, Atlanta, Gergia USA.

    A populao estudada foi de crianas e adolescentes que participaram das fases iniciais dos programas de formao de equipes de multiplicao em quatro regies nacionais durante os anos de 2000 a 2003. A partir da anlise dos questionrios pela equipe central, foram iniciadas as fases de treinamento e aperfeioamento. A finalidade principal com relao aos professores trabalhar a dependncia com os alunos dentro de sua disciplina, sem sair do seu contedo programtico. Entre os resultados obtidos, escolhemos sete municpios na Regio Norte, trs municpios na Regio Nordeste, quatro na Regio Sudeste e nove municpios na Regio Sul.

    A pesquisa obedeceu aos padres ticos estabelecidos pela Resoluo n 196/96 do Conselho Nacional de Sade; o projeto foi aprovado pelo Conselho Cientfico do CEDUSU e realizado com a permisso das Secretarias de Educao estadual e municipal. O inqurito epidemiolgico de uso exclusivo da equipe de pesquisa e os pesquisadores garantem que nenhum estranho equipe ter acesso aos dados, para que se preserve a confidencialidade. No obstante, a divulgao dos resultados da pesquisa deve ser pblica e em primeiro lugar endereada aos sujeitos da pesquisa.

    ResultadosNa tabela 1, encontraram-se 52,05% de alunas para 45,95% de alunos, predominncia do sexo feminino que se observa na populao estudan