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Intercom Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicao XXI Congresso de Cincias da Comunicao na Regio Sudeste Salto - SP 17 a 19/06/2016

Texto em contexto Objetividade, Ideologia e Tcnica na linguagem jornalstica

contempornea1

Adham Fillipe MARIN2

Daniela Pereira BOCHEMBUZO3

Universidade do Sagrado Corao, Bauru, SP

RESUMO

A ascenso do capitalismo, a profissionalizao da prtica jornalstica e a influncia da

filosofia positivista durante o sculo XIX deixaram marcas no discurso jornalstico que

resvalam at hoje sobre as prticas das redaes, como os conceitos de objetividade e a

imparcialidade. Ante a isso, tcnicas foram se criando ao longo do tempo, fundamentando

no pensamento dos pares a necessidade destes conceitos para a existncia do bom

jornalismo. Uma dessas tcnicas a recusa ao uso da primeira pessoa na composio do

texto jornalstico, com o objetivo de distanciar o jornalista-autor do objeto reportado. Este

trabalho visa, a partir de uma perspectiva interdisciplinar, discutir a relao entre este tipo

de orientao tcnica e o conceito objetividade, to buscada no interior das redaes.

PALAVRAS-CHAVE: jornalismo impresso; objetividade; tcnicas; histria; linguagem.

INTRODUO

Comunicar viver. Assim disse Wolton (2011) em Informar no Comunicar, o

mesmo livro no qual o socilogo francs discute a dificuldade em se estabelecer uma nica

teoria da comunicao, dada a grande diversidade existente nos polos de emisso e

recepo das mensagens. O ponto de convergncia no pensamento de autores

contemporneos que debatem as dimenses da comunicao humana, dos quais

consideramos Thompson (1998), Defleur (1993), Briggs (2006) e Wolton (2006 e 2011), se

funde no entendimento do processo comunicacional como um exerccio de alteridade, ou

seja, indissocivel da presena do Outro no processo de troca e intercmbio de informaes

e contedos simblicos, que produz interao social.

Comunicar ser, isto , buscar sua identidade e sua autonomia. tambm

fazer, ou seja, reconhecer a importncia do outro, ir ao encontro dele.

Comunicar tambm agir. Mas igualmente admitir a importncia do

1 Trabalho apresentado no IJ 01 Jornalismo do XXI Congresso de Cincias da Comunicao na Regio Sudeste

realizado de 17 a 19 de junho de 2016. 2 Estudante de graduao do 7 semestre do curso de Jornalismo da Universidade do Sagrado Corao, membro do Grupo

de Pesquisa Comunicao, Mdia e Sociedade (GPECOM/USC). E-mail: afmarin@icloud.com. 3Orientadora do trabalho. Mestre em Comunicao pela Unesp-Bauru, professora do curso de Jornalismo da Universidade

do Sagrado Corao, membro do Grupo de Pesquisa Comunicao, Mdia e Sociedade (GPECOM/USC). E-mail:

daniela.bochembuzo@usc.br.

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outro, portanto aceitar nossa dependncia em relao a ele e a incerteza de

ser compreendido por ele. (WOLTON, 2006, p.15).

Como complemento necessidade do Outro neste processo, Thompson (1998)

tambm entende a comunicao como uma ao pela qual os indivduos estabelecem e

reinventam suas relaes interpessoais. A comunicao parte de um contexto mais amplo

que aqui chamaremos de vida social desta forma, as anlises dos processos de

comunicao devem partir de uma anlise do contexto social no qual o processo encontra-se

circunscrito.

Porm, Marcondes Filho (2008) alerta para a necessidade de se aprofundar as

discusses sobre comunicao calcadas nos paradigmas das Cincias Sociais. Para o autor,

o modelo de comunicao vicejado pelas cincias fsicas e naturais, que reduz o processo ao

ato de transmitir uma mensagem, por meio de um canal e de um cdigo, de um algum para

outro algum, trata a comunicao baseado em modelos explicativos no humanos.

Durante muito tempo pensou-se que a comunicao era [...] Que eu levaria

as mensagens de um lado (emissor) para outro lado (receptor), da mesma

maneira como um nibus leva passageiros de um bairro para outra cidade.

Pensava-se que a comunicao era uma coisa, um objeto [...] Mas ns no

somos pedras, fios eltricos nem lquidos. Somos seres humanos.

(MARCONDES FILHO, 2008, p. 15).

O autor prope um modelo ideal de comunicao fundamentado no dilogo, que

define como espao comum ou palavra que atravessa. E nesse espao comum deve haver,

necessariamente, mudana em relao s percepes que o emissor e o receptor possuam

sobre a coisa tratada. Para Marcondes Filho, s h dilogo e, portanto, comunicao,

quando h novidade e estranheza e transformao. O novo que me muda; o conhecido

apenas me refora. (MARCONDES FILHO, 2008, p.19).

Parte importante no entendimento do processo de comunicao na viso dos autores

citados , sem dvida, o papel ativo do receptor da mensagem. Tanto Marcondes Filho

(2008) quanto Wolton (1996), Thompson (1998) e Defleur (1993) reforam a necessidade

de superao das teorias hipodrmicas do sculo XX, e da compreenso dos receptores

como passivos a todo o tipo de informao que lhe fica disponvel, para o avano na

compreenso dos processos comunicacionais. Marcondes Filho (2008) ainda refora que,

seno pelo processo de ressignificao do receptor, a emisso de mensagens fica fadada a

um emaranhado de dados e informaes unidirecionais e que no produziriam

comunicao. Completa Wolton (1996):

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A comunicao um processo muito complexo de negociao entre as

ideologias e a as representaes do receptor, que lhe permitem filtrar o

que vem do exterior. Sim, o receptor sempre ativo, esteja ele lendo,

escutando, assistindo ou usando seu computador. Sim, o receptor o

grande enigma da comunicao, um enigma cujo interesse crescente com

a globalizao da informao e da comunicao. (WOLTON, 1996, p. 33).

Como defendido por Marcondes Filho (2008), grande parte destas rusgas nos

estudos da comunicao nasceram do fato, j citado, do surgimento dos primeiros estudos

do processo comunicacional em centros de cincias exatas, em que se comparava o

processo comunicacional comunicao fsica que acontecia entre cabos eltricos para

transmitir uma quantidade de energia. Essa condio j era paradigma dos estudos em

lingustica h, pelo menos, 40 anos, quando Jackobson (1969) e Malberg (1969)

propuseram complementaes aos esquemas de comunicao desenvolvidos pela teoria da

informao (modelo de Shannon), baseado em estudos dos desdobramentos fsicos das

tecnologias de telecomunicao, em que se reduziam os seres humanos a caixas e as

mensagens a setas.

Mesmo que ainda sem usar este termo, a alteridade passa a integrar o processo

comunicacional nos modelos lineares de comunicao que emergem nos estudos

americanos da dcada de 50, especialmente nas consideraes de Bateson (1950) e

Goffmann (1950), que cunham uma teoria da nova comunicao j considerando o feedback

e a realimentao do processo. A partir destes estudos, em que a comunicao deixa de ser

entendida como um processo de mo nica unilateral entre emissor e receptor , mas

como um sistema interacional e dialgico, passam a ser considerados no s mais os efeitos

que o processo comunicacional produz no receptor da mensagem, mas tambm os efeitos

que essa comunicao produz no sujeito que emite a mensagem.

Benveniste (1966), em seus estudos sobre a categoria de pessoa, aponta a

reversibilidade quando afirma que O eu, ao dizer eu, instala o tu como destinatrio, mas

esse destinatrio pode, por sua vez, tomar a palavra e dizer eu, colocando agora o outro

como tu (Benveniste apud Fiorin, p. 42). Para estes autores, o dilogo condio sem a

qual a comunicao humana no pode existir.

Desse contexto, surgem os estudos, principalmente nas escolas norte-americanas,

sobre a interao entre sujeitos em situaes de comunicao. Bakhtin (1981), em seus

estudos sobre o dilogo entre interlocutores, procurou mostrar que a interao verbal a

realidade fundamental da comunicao; dos estudos bakhtinianos surgem as perspectivas

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ontolgicas da sociologia da comunicao, que levou em conta os contextos sociais, a partir

da qualificao do poder, para entender as diferenas nos enunciados.

a partir dos pressupostos que os autores elencam como necessrios para que a

comunicao se efetive que nasce o jornalismo tal qual se conhece hoje. Alm de emergir

de uma revoluo, a Revoluo Francesa (1789), o jornalismo vem atrelado simbologia da

liberdade, promovida pela queda dos regimes Absolutistas e pela difuso dos conceitos da

filosofia Iluminista, e por isso alguns autores (MARCONDES FILHO, 2000; EMERY,

1969; TRAQUINA, 2005) atribuem ao nascimento dos jornais grande parte das evolues

sociais que marcaram a transio da Idade Moderna para a Idade Contempornea no

Ocidente.

Para Marcondes Filho (2000), o jornalismo deu luz