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  • SAMBA, SAMBA, SAMBA LEL!

    Marina Basques Masella

    EMEI Nelson Mandela

    O trabalho aqui relatado aconteceu durante o primeiro semestre de 2018 na

    EMEI Nelson Mandela, localizada no bairro do Limo, zona norte de So Paulo, em

    uma turma multietria composta por crianas de 4, 5 e 6 anos e uma vez por semana

    dentro do territrio de aprendizagem nomeado pela escola de cultura corporal. O

    pblico atendido pela instituio formado por sujeitos advindos de diferentes camadas

    sociais, podendo afirmar que uma parcela caracterizada por maiores dificuldade no

    acesso aos servios pblicos, enquanto outra parte apresenta melhores condies de

    acesso at mesmo aos servios vinculados a instituies particulares da regio. A escola

    pertence ao programa do municpio de So Paulo intitulado Escola de tempo Integral,

    atendendo as crianas das 8 s 16 horas, sendo que cada turma possui uma professora

    que atua das 8 s 12 horas e outra das 12 s 16 horas.

    Atenta ao Projeto Poltico Pedaggico (PPP) da unidade escolar, considerando o

    tema do Projeto Especial de Ao (PEA), que no ano vigente est se dedicando ao

    estudo de prticas promotoras para a equidade racial e de gnero e permeada pelos

    princpios e procedimentos didticos do Currculo Cultural da Educao Fsica, elegi

    como tema de estudo o samba. Essa escolha se deu aps identificar que a EMEI est

    localizada entre trs importantes escolas de samba da regio: Mocidade Alegre, Rosas

    de Ouro e Imprio da Casa Verde, espaos muito frequentados pelas famlias e crianas

    aos finais de semana e perodo de frias.

    Com base nesse cenrio, realizei um mapeamento acerca dos conhecimentos

    referentes a essa prtica corporal que circulavam entre as crianas, perguntando a elas o

    que sabiam sobre o samba e em que locais podemos sambar. A primeira criana a falar

    disse: Eu sei sambar, seguida por muitas outras que disseram: Eu tambm. Um

    menino afirmou: As mulheres s vestem pouca roupa, fala que foi complementada

    por uma menina que disse: verdade, tem uma fantasia mais maior pro homem.

    Outra menina disse que para sambar tem que arrumar o cabelo, se maquiar... mas a

    mulher s! No o homem, fala que foi contestada por um menino que rebateu dizendo

    que homem pode maquiar tambm se quiser. Em seguida, as crianas comearam a

  • nomear diversos instrumentos musicais que faziam parte do samba, dentre eles,

    destacaram o pandeiro, o violo, o tambor e o chocalho. Sobre os locais em que

    podemos sambar, apareceram as falas na escola de samba, na rua e eles tocam no

    meu prdio. No final da conversa, uma criana disse: Eu conheo a msica que fala

    samba, samba, samba o lel e as demais disseram que tambm sabiam e todas elas

    comearam a cantar vrios trechos dessa msica fazendo gestos diversos.

    Em seguida, propus uma vivncia a fim de continuar mapeando os significados

    que as crianas atribuam a essa prtica corporal. Para isso, utilizei uma playlist do

    aplicativo Spotify intitulada Samba de raiz, uma caixa de som e as crianas danaram

    durante certo tempo.

  • Deste modo, o trabalho teve com objetivos ampliar e aprofundar os

    conhecimentos que as crianas j possuam sobre o samba, desvelando as gestualidades

    presentes nessa prtica corporal e identificando as narrativas vinculadas a ela que

    perpetuam esteretipos de gnero, raa e etnia.

    Por no possuir muita experincia com a prtica corporal escolhida, procurei

    aprofundar os meus prprios conhecimentos sobre o samba. Para isso, adquiri dois

    livros aps pesquisa realizada na internet, intitulados Uma histria do Samba as

    origens de Lira Neto e Dicionrio da histria social do Samba de Nei Lopes e Luiz

    Antonio Simas. Alm disso, assisti diversos vdeos na internet e conversei com amigos

    e amigas que frequentam escolas e rodas de samba de diferentes configuraes e em

    distintas localidades na cidade de So Paulo.

    Os dois livros adquiridos foram importantes para que pudesse conhecer mais

    sobre a histria do samba, alm de possurem imagens que foram muito teis nos

    momentos com as crianas. Com base em nesses suportes de pesquisa, elaborei uma

    contao de histrias para as crianas procurando construir com elas o percurso e a

    histria do samba no Brasil. Fomos para o gramado da escola, fizemos uma roda e l

    utilizando mapas, tecidos, fantoches e brinquedos como recursos, narrei sobre a

    condio da chegada dos negros africanos no Brasil, a origem do samba na Bahia pela

    mistura dos ritmos musicais, o samba de umbigada, a migrao de parcela dessa

    populao para o Rio de Janeiro se desenvolvendo o samba carioca em um espao

    chamado por eles de Pequena frica, os primeiros instrumentos musicais e a figura de

    Tia Ciata.

    As crianas participaram ativamente dessa contao, com falas e contribuies

    como: Eu j fui na Bahia, minha v mora l, O ano passado a gente apresentou um

    samba da Bahia na festa, lembra?, Minha v mora no Rio de Janeiro, mas ela no

    sabe sambar, Eles sentiam saudades da frica e se juntavam pra fazer festa, cantar,

    danar, comer.... Vale ressaltar que a escola possui um projeto poltico e pedaggico

    voltado para a lei 10.639/03, que torna obrigatrio o trabalho com as relaes tnico-

    raciais e a histria da cultura africana e afro-brasileira na escola desde a Educao

    Infantil e que as crianas, principalmente as mais velhas da turma, j estavam

  • familiarizadas com a discusso de alguns assuntos abordados por essa contao de

    histria.

    Quando comentei sobre alguns instrumentos musicais que compem as msicas

    de samba como o ganz e o reco-reco, muitas crianas disseram no os conhecer. Ento,

    perguntei para a Coordenadora Pedaggica da escola se ela poderia trazer esses

    instrumentos para que eu mostrasse as crianas, uma vez que ela instrumentista em um

    grupo de Maracatu e sabia que poderia me ajudar. Assim ela fez e propus uma vivncia

    em que as crianas puderam toc-los e descobrir o som que produziam.

    Desejosa de que as crianas acessassem outros discursos e fontes diferentes das

    j recorridas at ento, por contatos que fiz nas redes sociais, consegui que o Kleber, um

    sambista que integra o grupo amador Descontrole, fosse at a escola conversar com a

    turma da sua relao com o samba. As crianas ficaram muito empolgadas com a ideia e

    elaboramos algumas perguntas para fazer a ele, dentre elas: Como voc conheceu o

    samba? Quais instrumentos voc sabe tocar? Voc dana tambm? Do que voc

    brincava quando era criana?

    No dia da visita, Kleber retomou com as crianas alguns aspectos da histria do

    samba e contou a elas sua histria de vida. Disse que desde criana tocava samba com

    seus familiares, que j desfilou em diversas escolas de samba da cidade de So Paulo,

  • explicou um pouco como elas funcionam, contou que sabe tocar 10 instrumentos

    musicais e que atualmente faz shows em bares, festas, restaurantes e demais

    estabelecimentos com a sua banda. Ele tambm levou seu cavaquinho, explicou um

    pouco sobre esse instrumento e props que fizssemos uma roda de samba. As crianas

    danaram, cantaram trechos de sambas que ele ensinou, perguntaram sobre as roupas

    que ele fazia os shows, quantas tatuagens ele tinha, pediram para segurar seu

    cavaquinho e para cantar Samba, samba, samba o lel.

    Procurando aprofundar os conhecimentos sobre a prtica corporal estudada e

    problematizar algumas questes levantadas pelas crianas, utilizei a sala multimdia da

    escola para projetar algumas imagens e conversarmos. Levei imagens de passistas de

    escola de samba, de homens e mulheres se arrumando para o desfile, de grupos de

  • samba compostos apenas por mulheres, grupos compostos por homens e mulheres e de

    sambas de roda do recncavo baiano. Em cada uma delas, parvamos para conversar

    sobre nossas impresses. Novamente foi levantada a questo da passista estar com

    pouca roupa e perguntei para as crianas se elas viam algum problema nesse fato. Uma

    menina falou: Quando a gente vai na praia, tambm usa roupas parecidas com elas,

    s que sem o brilho e a maquiagem, fala que foi complementada por outra menina que

    disse: Igual quando t calor e a gente tira a blusa no parque. Conversamos ento

    sobre a importncia de sempre respeitar o corpo da outra pessoa, esteja ela com muita

    ou com pouca roupa. Falamos tambm que os desfiles das escolas de samba ou as

    diversas rodas de samba existentes so momentos de festa, de celebrao e que as

    pessoas se arrumam, se vestem e se maquiam de diferentes formas para esse momento e

    o importante era a pessoa se sentir bem com o jeito que est vestida ou maquiada, seja

    homem ou mulher.

    Algumas semanas depois, a escola recebeu o convite para assistir gratuitamente

    a pea Bento Batuca, em cartaz por apenas dois finais de semana no Teatro Jaragu.

    Fiquei muito empolgada quando tive contato com a sinopse da pea, uma vez que seu

    texto narra a histria de Bento, um menino que batuca em tudo e em qualquer lugar

    desde que nasceu e que ao receber uma notcia que vira a sua vida de ponta-cabea,

    parte em uma viagem a procura da batida do seu corao, passando pela Bahia,

    Pernambuco e Rio de Janeiro e mergulhando na Capoeira, no Frevo, no Maculel e no

    Samba, reencontrando suas origens. A ida at a pea era mais uma oportunidade de

    ampliao dos nossos conhecimentos e foi pauta de uma das reunies do Conselho de

    Escola. Aps a aprovao, l fomos n

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