Paula Akemi - Quem sou eu

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<p>Investigao Filosfica: vol. 1, n. 1, artigo digital 5, 2010.</p> <p>Quem sou eu?</p> <p>Paula Akemy Arajo Universidade Federal de Ouro Preto</p> <p>Resumo: Quem sou eu? O que faz com que eu seja a mesma pessoa ao longo do tempo apesar das vrias mudanas? Alguns acreditam que o que garante a identidade a alma imaterial, outros que a continuidade dos aspectos psicolgicos e outros que a identidade a continuidade fsica. Quem est com a razo? No sei. Entretanto, pretendo mostrar que nem a continuidade psicolgica nem a continuidade fsica, separadamente, so condies necessrias e suficientes para alegarmos identidade. Palavras-Chave: Metafsica. Identidade Pessoal. Continuidade Psicolgica e Fsica.</p> <p>Abstract: Who am I? What makes me to be the same person over time despite the many changes? Some philosophers believe that what guarantees the identity is the immaterial soul, others that it is the continuity of psychological aspects, and others that identity is the physical continuity. Who is right? I do not know. However, I intend to show that neither psychological continuity nor physical continuity, taken separately, are necessary and sufficient conditions for us to claim the identity. Key-Words: Metaphysics. Personal Identity. Psychological and Physical Continuity.</p> <p>1</p> <p>Investigao Filosfica: vol. 1, n. 1, artigo digital 5, 2010.</p> <p>Introduo O principal defensor da continuidade psicolgica foi o filsofo John Locke. Este afirma que a identidade de uma pessoa a continuidade de aspectos psicolgicos ao longo do tempo como, por exemplo, a memria, as crenas e outros. Nas palavras de Locke Em tudo o que se relaciona com o eu a mesma substncia numrica no considerada como constituindo o mesmo eu, mas a mesma conscincia contnua, na qual vrias substncias se podem ter agrupado... (1690, p. 458). Sendo assim, eu sou uma e mesma pessoa porque tenho as memrias de minha infncia, adolescncia, tenho o mesmo carter, crenas, etc. Mas ser que estes aspectos so de fato condies necessrias e suficientes para que minha av afirme que eu sou uma e mesma neta que ela tem? Acredito que no. Em contraposio a esta ideia de Locke encontramos a identidade como continuidade fsica (ou espaotemporal). Esta afirma que o que garante a identidade a continuidade fsica, ao longo do tempo e do espao, a continuidade do corpo (ou do crebro). O que faz, portanto, com que eu seja a mesma Paula a continuidade do meu corpo ou crebro desde que nasci at hoje. Entretanto, ser que a continuidade fsica uma condio necessria e suficiente para a identidade? Caso eu transplantasse meu crebro para outro corpo ou continuasse com meu corpo, porm com outro crebro, ser que ainda haveria identidade numrica? Tambm acredito que no. Meu objetivo neste artigo ser, como j foi dito, defender que nenhuma das duas solues, isoladamente, nos oferece condies necessrias e suficientes para o problema da Identidade pessoal. O artigo ser dividido em quatro partes. Primeiro, apresentarei o problema da Identidade Pessoal. Nesta parte tambm farei a distino entre identidade qualitativa e identidade numrica assim como esclarecerei as noes de condio necessria e condio suficiente. Num segundo momento, pretendo mostrar por que a continuidade fsica no condio necessria e suficiente para o problema apresentado. Num terceiro, por que a continuidade psicolgica tambm no condio necessria e suficiente. No quarto, outras possveis alternativas ao problema. E, por fim, a concluso. 2</p> <p>Investigao Filosfica: vol. 1, n. 1, artigo digital 5, 2010.</p> <p>Exposio do Problema O que garante que eu seja uma e mesma pessoa desde o meu nascimento at hoje? Ser o meu corpo? Ou ser a minha mente? Como posso ser uma e a mesma pessoa sendo que j perdi e ganhei muitos cabelos, clulas, quilos (essa a pior parte); sendo que minha aparncia j no a mesma de quando eu tinha cinco anos? Muita coisa em mim mudou, mas ser que h algo que permanece, que garante a minha identidade? Estas questes exemplificam muito bem o problema que ser trabalhado. Para ficar mais claro imagine o seguinte exemplo trgico. Joo um comerciante de frutas, legumes e verduras de uma pequena cidade do interior. Todo domingo ele vai at a cidade grande comprar mercadoria para revender em sua cidade. Num certo domingo, ele vai capital como de costume, faz suas compras e, quando est voltando para sua cidade, acontece um grave acidente com a sua camionete. O motorista do outro veculo morreu na hora e Joo, quase que por um milagre, sobreviveu. Entretanto, os ferimentos foram gravssimos. Ele foi levado ao hospital e vrios exames foram feitos. Enquanto isso, Linda a esposa de Joo e seus trs filhos aguardam notcias na sala de espera. Aps horas e horas o mdico que atendeu Joo chega at a famlia e avisa que as duas pernas de Joo foram amputadas, pois ficaram presas nas ferragens, e que ele perdeu totalmente a sua memria devido a uma forte pancada na cabea. Aqui ento surge a pergunta: ser que Joo ainda Joo? Seu corpo j no o mesmo, nem sua mente. Como poderemos afirmar que essa pessoa o Joo vendedor de frutas? Ser que o que d identidade a ele ainda existe? Ou foi perdida no acidente? Temos, assim, de achar critrios precisos para que possamos dizer que Joo uma e a mesma pessoa, apesar de todas as mudanas sofridas. Antes de responder a essas perguntas preciso fazer algumas distines. Primeiramente, a distino entre identidade qualitativa e identidade numrica. Duas pessoas so qualitativamente idnticas quando elas possuem as mesmas qualidades ou propriedades como, por exemplo, a aparncia, o peso, etc. Podemos pensar tambm em dois objetos; por exemplo, o meu carro e o seu carro so da mesma marca A. Alm disso, possuem as mesmas propriedades (por exemplo, mesma cor, quatro portas, direo hidrulica, etc.). Neste sentido, 3</p> <p>Investigao Filosfica: vol. 1, n. 1, artigo digital 5, 2010.</p> <p>posso dizer que os dois carros so qualitativamente idnticos, as propriedades so as mesmas. Isto , so idnticos no que diz respeito s suas propriedades. J a identidade no segundo sentido quer dizer que Joo idntico a ele mesmo. Isto , Joo o mesmo desde que nasceu at hoje devido a sua identidade consigo mesmo em pocas diferentes. Sendo assim, enquanto identidade qualitativa pode ser entre dois objetos (ou mais) ocupando diferentes lugares no espao, a identidade numrica a relao de um objeto consigo mesmo. Uma vez que o problema como algum pode ser a mesma pessoa desde o seu nascimento at sua morte, apesar de vrias mudanas, podemos dizer que a identidade que ser importante para o problema filosfico a identidade numrica e no a qualitativa. Assim, quando falar de identidade, estarei a usando neste sentido. Antes de avanar para a discusso das duas solues preciso tambm esclarecer as noes de Condio Necessria e Condio Suficiente. Para ficar mais claro, usarei alguns exemplos. Uma condio necessria para algo ser um humano ter a propriedade da mortalidade. Porm, isto no uma condio suficiente, visto que outros seres vivos alm dos seres humanos tambm so mortais. Outro exemplo, uma condio necessria para eu dirigir bem um carro saber estacionar. Entretanto, no suficiente, pois para dirigir bem um carro preciso outras coisas alm de saber estacionar. J uma condio suficiente para eu ser brasileira, ter nascido no Brasil. Porm, no necessria, visto que algum, como um americano, adquirindo a nacionalidade brasileira. Para que algum seja brasileiro basta que ou tenha nascido no Brasil ou adquira a nacionalidade brasileira. Em outras palavras, P uma condio necessria para Q se, e s se, Q no puder ocorrer sem que P ocorra. Enquanto que, P uma condio suficiente para Q se, e s se, basta que P ocorra para que Q ocorra. Feitas as distines, passarei agora para a exposio e discusso das duas solues do problema. Para lembrar, o que pretendo defender que nem a continuidade fsica nem a continuidade psicolgica, isoladamente, so condies necessrias e suficientes para a identidade pessoal. O que pretendo negar uma conjuno. Negar que a conjuno continuidade psicolgica condio necessria para identidade pessoal e continuidade psicolgica condio suficiente para identidade pessoal seja verdadeira. Para tanto, basta 4</p> <p>Investigao Filosfica: vol. 1, n. 1, artigo digital 5, 2010.</p> <p>mostrar que uma das duas conjuntas falsa. Ora argumentarei que a conjuno falsa porque a continuidade psicolgica no pode ser uma condio necessria para a identidade, e ora argumentarei que ela falsa porque no pode ser uma condio suficiente. Assim, mesmo que eu no mostre que uma delas falsa, se eu mostrar que a outra falsa, j terei mostrado que a conjuno como um todo falsa. Continuidade Fsica Essa soluo identifica a continuidade fsica com a identidade pessoal. Ela afirma que uma pessoa uma e a mesma pessoa se, e s se: (a) h uma continuidade dos aspectos fsicos, por exemplo o corpo ou o crebro, ao longo do tempo. Vale notar que continuidade fsica no significa mesma matria. Por exemplo, algum poderia alegar que a matria o que nos d a identidade. Em outras palavras, o que faz com que eu seja a mesma pessoa desde quando nasci at hoje o fato de ambos serem constitudos da mesma matria. Porm, essa tese demasiado implausvel. A matria instvel, no sentido de que eu no sou feita de uma matria fixa. Todas as clulas, os fios de cabelo, etc. mudam constantemente. A matria da qual sou feita muda constantemente, mas mesmo assim parece que continuo a ser eu mesma. Devido sua instabilidade a matria no pode ser critrio para a Identidade. Ora, possvel que os tomos que formavam meu corpo quando eu tinha zero anos j no sejam os mesmos que formam meu corpo hoje. Entretanto, eu ainda sou, presumo, a mesma pessoa. Precisamos de um modo mais plausvel de interpretar a continuidade dos aspectos fsicos. Uma sada seria defender que, apesar de todas as mudanas sofridas, h algo que permanece. Sendo assim, Meire uma e mesma pessoa, desde que nasceu at hoje, porque h uma continuidade corporal. Mas o que significa dizer que h uma continuidade corporal? 5</p> <p>Investigao Filosfica: vol. 1, n. 1, artigo digital 5, 2010.</p> <p>Pode-se tornar essa ideia intuitiva do seguinte modo: imagine que fossemos contar a histria de meu atual corpo. Aonde essa histria nos remeteria? Ela nos levaria ao corpo do beb Paula, ao meu corpo quando eu nasci, ou quele corpo que estava no tero de minha me. Aquele pequeno corpo foi sofrendo modificao aps modificao, perdendo e ganhando tomos; interagindo com outros corpos, etc. Em suma, se narrarmos a histria dessas modificaes, chegaremos ao corpo da Paula adulta. Essa seria uma histria causal do meu corpo, e ela que garantiria a mina identidade pessoal. O problema com isso que essa histria tambm nos remeter ao meu cadver, ao meu corpo quando for destitudo de vida. Contudo, meu cadver no sou eu. lcito dizer que assim que eu morrer eu deixarei de existir, embora meu corpo no. Alm disso, essa histria nos remeteria a tempos muito anteriores a meu nascimento, antes de eu ter um crebro, ou mesmo antes da matria que formou o meu corpo formar meu corpo. Talvez ela nos remetesse at o Big Bang e, acreditem, eu no sou o Big Bang. Poderamos escapar dessa segunda objeo alegando que a histria de meu corpo comea a partir do momento em que ele est formado, e que nada antes disso importa para a continuidade fsica. Mas ainda restaria escapar da objeo do cadver. Ou seja, explicar como eu posso manter a identidade mesmo depois de morta. Bem, mas se nenhuma das duas interpretaes funciona, como entender a continuidade fsica? Qual seria a interpretao mais plausvel? Algum poderia dizer que o que importa no a matria ou a continuidade causal de meu corpo, mas sim a nossa estrutura, a forma. Pensemos no DNA. Apesar de todas as clulas e tomos serem substitudos, h algo que permanece a estrutura do DNA. E ser isto que garantir minha identidade. Contudo, se a forma que importa, eu posso criar mil pessoas com as mesmas estruturas do meu corpo, inclusive o DNA, ento teramos que afirmar que existem mil Paulas. Ser que o clone X sou eu? Somos uma e a mesma pessoa? No. Pensemos num outro caso onde entro numa mquina de desintegrao molecular. O meu corpo partido em molculas e estas so completamente espalhadas pela Terra. No obstante, a mquina antes da desintegrao copia minhas molculas originais e aps a 6</p> <p>Investigao Filosfica: vol. 1, n. 1, artigo digital 5, 2010.</p> <p>desintegrao monta um corpo a partir das cpias. Ser a mesma pessoa que antes e depois da desintegrao? A estrutura a mesma, mas diramos que este corpo criado a partir das molculas originais continua a me dar identidade? No. O corpo criado a partir da cpia das minhas molculas no ser eu s porque possui a mesma forma que meu corpo. Assim como meu clone no sou eu. Estes dois exemplos mostram claramente que este critrio falha. Consequentemente, no oferece as condies necessrias e suficientes que buscamos para a identidade pessoal. Mas mesmo assim poderamos afirmar que o crebro que importa, e no o corpo. Se for o crebro de Maria, por exemplo, que importa, e se eu mostrasse para essa pessoa um crebro no formol, ela diria que a Maria manicure? Parece que no. Isso s parece funcionar se os aspectos mentais estiverem ligados diretamente ao crebro. Neste caso, o crebro importante para a identidade. Entretanto, isoladamente e, como critrio para a identidade, no. Contra a continuidade corprea, Locke d o exemplo de um prncipe e um sapateiro. Imagine que as caractersticas mentais de um prncipe fossem transplantadas para o corpo de um sapateiro e que as caractersticas mentais do sapateiro fossem transplantadas para o corpo do prncipe. Porm, anos antes, o sapateiro havia cometido um crime horrvel. E agora? Quem devemos prender? Devemos prender o corpo do sapateiro com a mente do prncipe, ou devemos prender o corpo do prncipe, onde agora habita a mente de um sapateiro assassino? Imagine que prenderam o antigo corpo do sapateiro, onde agora habita a mente do prncipe. Isto parece no estar correto, pois o sapateiro que devia ser preso e no o prncipe no corpo do sapateiro. Nesse caso, a mente parece mais importante do que o corpo para determinar quem quem. Assim, algum pode pensar que para resolver o problema da identidade pessoal, temos de apelar continuidade da mente, continuidade psicolgica. Continuidade Psicolgica Visto as dificuldades apresentadas com a continuidade fsica, passarei agora para a 7</p> <p>Investigao Filosfica: vol. 1, n. 1, artigo digital 5, 2010.</p> <p>segunda soluo. Segundo essa viso, o que importa uma continuidade dos aspectos psicolgicos, em especial, a memria. O primeiro a defender essa ideia foi John Locke. Nas suas palavras:... uma vez que a conscincia acompanha sempre o pensamento e o que faz com que cada um seja ele prprio e, desse modo, se distinga de todas as outras coisas pensantes, somente nisto que consiste a identidade pessoal, ou seja, a singularidade de um ser racional; e at onde esta conscincia retroceder, em direo a uma aco ou pensamento passado, a chega a identidade dessa pessoa; o mesmo eu agora e no passado,...</p>