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Revista de Teoria da Histria Ano 2, Nmero 5, junho/ 2011 Universidade Federal de Gois ISSN: 2175-5892

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O MATERIALISMO NO DEBATE FEUERBACH, STIRNER E MARX: RELEVNCIAS PARA A HISTRIA SOCIAL CONTEMPORNEA?

Fabrcio Pinto Monteiro

Doutorando em Histria - UFU E-mail: fabriciomonteiro@bol.com.br

RESUMO A principal problemtica levantada neste texto diz respeito aos debates envolvendo a validade dos conceitos universais face aos fenmenos concretos e particulares para as teorias de anlise social, como na historiografia. A discusso sobre esta problemtica realizada atravs dos embates entre intelectuais da chamada esquerda hegeliana em meados do sculo XIX, especificamente com Ludwig Feuerbach, Max Stirner e Karl Marx junto a Friedrich Engels. Temas como o valor heurstico da metafsica, a construo do sujeito individual frente aos objetos no mundo e a indeterminao como fonte necessria da criao so tratados entre os debatedores, onde o que estava em disputa era busca pela superao do chamado idealismo hegeliano em nome de possibilidades materialistas de teorizao. O objetivo ltimo dessa pesquisa , atravs do mencionado debate, levantar reflexes para as teorias e metodologias da Histria Social contempornea.

Palavras-chave: materialismo, Hegelianismo, Histria Social, Max Stirner, Ludwig Feuerbach.

ABSTRACT

This text aims to discuss the contention about the legitimacy of universal concepts or individual phenomenon in social theories, like historiography, for example. The discussion emphasizes the debate of Ludwig Feuerbach, Max Stirner, Karl Marx and Friedrich Engels. The metaphysics heuristic use, the individual subjects construction and the indetermination as first cause of creation are some topics tackled. Materialistic theories were, in that context, seen as a way of get ahead the so called hegelian idealism. Through this debate, the central goal of this research is reflect about contemporary Social Historys theory and methodology.

Keywords: materialism, Hegelianism, Social History, Max Stirner, Ludwig Feuerbach.

Introduo

Em um dilogo cujo tema era liberdade e cientificismo, travado com a

historiadora Elisabeth Roudinesco e registrado em 2001, Jacques Derrida afirma seu

desconforto ao falar em a liberdade, uma vez que, em seus termos, essa palavra me

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parece freqentemente carregada de pressupostos metafsicos que conferem ao sujeito

ou conscincia isto , um sujeito egolgico uma independncia soberana em relao

s pulses, ao clculo, economia, mquina. (DERRIDA; ROUDINESCO, 2004, p. 65).

Sob outro matiz de pensamento e atravs de suas problemticas especficas,

neste caso o debate sobre a autoria, Michel Foucault havia levantado anteriormente um

questionamento correlato atravs de uma proposta:

No mais colocar a questo: como a liberdade de um sujeito pode se inserir na consistncia das coisas e lhes dar sentido, como ela pode animar do interior as regras de uma linguagem e manifestar assim as pretenses que lhe so prprias? Mas antes colocar essas questes como, segundo que condies e sob que formas alguma coisa como um sujeito pode aparecer na ordem dos discursos? (FOUCAULT, 2006a, p. 287).

Evitando qualquer noo absoluta de sujeito, Foucault afirmou naquele momento

a possibilidade apenas de trat-lo como funes, relativas a cada campo onde o sujeito

estivesse inserido (no discurso, na esfera econmica, social etc.). Quinze anos mais

tarde, o filsofo tornaria ainda mais claro sua posio, demonstrando reticncias na

utilizao, como conceito, de termos como liberdade ou liberao dos sujeitos. Em

uma entrevista concedida em janeiro de 1984, afirma:

Sempre desconfiei um pouco do tema geral da liberao uma vez que, se no o tratarmos com um certo nmero de precaues e dentro de certos limites, corre-se o risco de remeter idia de que existe uma natureza ou uma essncia humana que, aps um certo nmero de processos histricos, econmicos e sociais foi mascarada, alienada ou aprisionada em mecanismos, e por mecanismos de represso. Segundo essa hiptese, basta romper esses ferrolhos repressivos para que o homem se reconcilie consigo mesmo, reencontre sua natureza ou retome contato com sua origem e restaure uma relao plena e positiva consigo mesmo (FOUCAULT, 2006b, p. 265).

Afirmar a liberdade, como para Derrida, implicaria para Foucault a fixao de um

ponto de referncia absoluto e, assim, metafsico para o ser do sujeito; nesse sentido

que o filsofo prefere referir-se a prticas de liberdade, relacionando-as tica e s

relaes de poder sempre mveis na sociedade, no possuindo um lcus fixo ou

natureza essencial.

Com um grande cuidado no uso da noo de liberdade para os sujeitos, Derrida

afirma que se algo realmente poderia ser nomeado com tal ttulo, seria necessrio

inserir-lhe na compreenso o incalculvel. Para o sujeito,

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o outro corresponde sempre, por definio, ao nome e figura do incalculvel. Nenhum crebro, nenhuma anlise neurolgica supostamente exaustiva capaz de propiciar o encontro com o outro. O advento do outro, a chegana daquele que chega, (este) que chega enquanto evento imprevisvel (DERRIDA; ROUDINESCO, 2004, p. 66).

sem dvida de difcil questionamento o estatuto ontolgico de no-

determinao possudo pela liberdade, assim como a participao do outro na

composio do eu na prtica de subjetivao individual. Esta indeterminao,

entretanto, chegaria ao extremo de impossibilitar a edificao de projetos para o futuro?

A imprevisibilidade do outro tornaria passivo o sujeito ante as circunstncias do

momento, vendo, dessa forma, suas aes reduzidas re-aes frente ao que lhe surge

de pronto? Na criao de si em relao ao outro, e do outro em relao a si, nada restaria

na contemporaneidade de possibilidades de autonomia?

A partir dessas problemticas proponho um recuo talvez inusitado face teorias

ps-modernas: os debates entre Ludwig Feuerbach, Max Stirner e Karl Marx em torno

de suas diferentes propostas materialistas. Neste recuo busco levantar elementos para a

reflexo sobre as teorias sociais da atualidade, em especial a historiografia, pois o que

estava em jogo naquele momento era a discusso sobre a construo da subjetividade

em relao a um objeto (seu outro) e, principalmente, o embate a respeito da pertinncia

de anlises sociais que se sustentam na busca de conceitos metafsicos ou essncias

universais nos fenmenos do mundo concreto.

Neste momento torno explcita minha opo de discusso, que se afasta da

metodologia de Foucault do tratamento do autor de uma obra como uma funo

inserida na ordem dos discursos (FOUCAULT, 2006a). Tendo como perspectiva para a

reflexo uma compreenso de Histria Social, eleva-se a importncia de considerar os

escritos dos autores nas relaes sociais vividas por eles. Nessa perspectiva, a

problematizao dos temas da construo da subjetividade e do materialismo no pode

deixar de lado os debates, preocupaes e conflitos sociais em que se construam as

propostas polticas e filosficas de Feuerbach, Stirner e Marx.

Sujeito, objeto e materialismo nas propostas de Feuerbach

Em fevereiro de 1845, Marx e Engels publicam A sagrada famlia, obra dirigida

contra o que chamaram idealismo especulativo, ou, a doutrina que, no lugar do ser

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humano individual e verdadeiro, coloca a autoconscincia ou o esprito e ensina,

conforme o evangelista: O esprito quem vivifica, a carne no presta. (MARX,

ENGELS, 2003, p. 15).

O livro dirigido especialmente como uma crtica a Bruno Bauer e Franz Zychlin

von Zychlinski, tratado por seu pseudnimo Szeliga, como expoentes de tal

idealismo. Ludwig Feuerbach tambm citado, porm a crtica a ele menos incisiva

que aos demais:

Feuerbach, conforme se sabe, concebe as idias crists da encarnao, da santssima trindade, da imortalidade etc. como o mistrio da encarnao, o mistrio da santssima trindade, o mistrio da imortalidade. O senhor Szeliga concebe todos os estados atuais do mundo [crimes, desigualdades] como mistrios. Contudo, se Feuerbach logrou desvendar verdadeiros mistrios, o senhor Szeliga fez apenas transformar trivialidades em mistrios. Sua arte no consiste em desvendar o oculto, mas em ocultar aquilo que j se encontra desvendado (MARX. ENGELS, 2003, p. 70).

Se nA sagrada famlia os autores consideram, dentro de seus prprios critrios,

que Feuerbach avanou positivamente em alguns aspectos ao que j se havia realizado

atravs das propostas de Hegel, em fins do mesmo ano e incio do prximo, 1846, Engels

e Marx preparariam uma segunda obra onde, somando-se a Max Stirner e mais uma vez

a Bruno Bauer, Feuerbach seria mais diretamente contestado (MARX, ENGELS, 2007).1

Na Confederao Germnica daquela primeira metade do sculo XIX, destacando-

se o reino prussiano e sua Universidade de Berlim, as obras de Hegel foram utilizadas na

construo das mais diversas propostas polticas. Velhos hegelianos e hegelianos de

direita, como Karl Gschel, Johan Rosenkranz e Philip Marheineke, eram contestados

em sua ortodoxia por jo