Léa Freitas Perez - Dionísio nos Trópicos

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<p>Dionsio nos trpicos: festa religiosa e barroquizao do mundo Por uma antropologia das efervescncias coletivas</p> <p>La Freitas Perez</p> <p>Para Helena, a prpria festa</p> <p>"O social impulso e compromisso. Muito antes das infra-estruturas e das supraestruturas, na base de toda sociedade encontra-se a potncia, a dynamis, a movimentao, que contendo todas as formas e estruturas, no se confunde com nenhuma". (Roberto Motta)</p> <p>Nota introdutria A festa uma presena constante e marcante em nossas vidas. Afinal, no se diz que a vida uma festa ou que uma festa vale uma vida? No se diz tambm, sobretudo num pas como o Brasil que se tem por festeiro e disso muito se ufana, que existe excesso de festa ou falta de festa? Afinal, no somos o pas do carnaval, do futebol e do samba? Diz-se mesmo que o Brasil no d certo porque, ao viver fazendo festa, trabalha muito pouco. A festa tambm se faz presente na literatura antropolgica. Dificilmente deixamos de encontrar uma referncia a ela, seja de modo direto, seja de modo indireto. Todavia, uma presena paradoxal: uma espcie de hspede no convidado que irrompe porta a dentro, trazendo, alis como prprio da festa, a des-ordem e a con-fuso, de modo a no se saber muito bem o que fazer com ela, como trat-la. Mesmo que constantemente referenciada, geralmente no lhe atribudo o estatuto de objeto analtico, uma vez que ela aparece como uma mera ilustrao de certas excentricidades da vida social, ou como elemento descritivo de rituais, esses, sim, tomados como objetos privilegiados. Aparece tambm e aqui</p> <p>existe uma clara confluncia entre a literatura antropolgica e um certo senso comum como folclore. Ou seja, a festa vista como um mero divertimento das ditas classes populares, ou, confundindo-se com esse ltimo, como sobrevivncia de certos arcasmos tradicionais. Desse modo, congelada no tempo num tempo findo e reduzida a uma espcie em extino, a um objeto eminentemente extico que pode ser objeto de nobre trabalho de salvamento em nome da Histria e da Memria servindo, assim, a exploraes polticas e comercias de toda ordem, bem ao gosto dos sempre vivos colecionadores de borboletas. Felizmente, essa tendncia parece estar-se modificando de uns tempos para c, com a multiplicao de trabalhos que tomam a festa como objeto. Neste texto proponho -me regastar a idia de festa, sobretudo da festa brasileira, tratando-a como forma ldica de sociao e como um fenmeno gerador de imagens multiformes da vida coletiva, buscando mostrar como o vnculo social pode ser gerado a partir da poetizao e da estetizao da experincia humana em sociedade. Para tanto, tomo como objeto emprico de reflexo a festa do Divino Esprito Santo e a procisso de Nossa Senhora dos Navegantes na cidade de Porto Alegre (Rio Grande do Sul) no sculo XIX. Minha inteno no fazer nenhuma espcie de tipologia da festa, muito menos ater-me a seus aspectos empricos, i.e., a seu contedo manifesto, mas, sim, pens-la como uma forma, como uma forma de sociao. Aplicando a noo de forma de Simmel e parafraseando Lvi-Strauss, o que intento mostrar que a festa no somente boa para dela se participar, tambm boa para pensar, pensar os fundamentos do vnculo coletivo, o que faz sociedade. Segunda nota: distines necessrias A festa tem uma realidade e uma dinmica prprias, o que possibilita tom-la como objeto autnomo e heuristicamente produtivo para a compreenso das variadas formas de viver a experincia humana em sociedade. Para que se fale apropriadamente da festa, preciso, ento, delimitar sua esfera e sua abrangncia. Dito de outro modo, preciso defini-la em seus elementos constitutivos. A festa , antes de mais nada e acima de tudo, um ato coletivo extra-ordinrio, extratemporal e extra-lgico. Significa dizer que a condio da festa dada pela confluncia de trs elementos fundamentais, interdependentes um do outro, que se con-fundem uns com os outros, a saber: um grupo em estado de exaltao (leia-se fuso coletiva e efervescncia) que consagra sua reunio a algum ou a uma coisa (toda festa sacrifcio) e, que, assim procedendo, liberta-se das amarras da temporalidade linear e da lgica da utilidade e do clculo, pois a festa uma sucesso de instantes fugidios, presididos pela lgica do excesso, do dispndio, da exacerbao, da dilapidao. Em resumo: a festa instaura e constitui um outro mundo, uma outra forma de experenciar a vida social, marcada pelo ldico, pela exaltao dos sentidos e das emoes com um forte acento hedonista e agonstico e, mesmo, em grande medida, pelo no-social. pela con-juno dessas trs caractersticas constitutivas da festa que podemos defini-la como paroxismo, dado que ela fundamentalmente transgressora e instauradora de uma forma de sociao, na qual o acento dado pelo estar-junto, pelo fato mesmo da relao. Tal como refere Simmel, a forma ldica de sociao no tem contedo, nem propsitos objetivos, nem resultados exteriores, uma estrutura sociolgica que, em "sua relao com a sociao concreta, determinada</p> <p>pelo contedo, semelhante relao do trabalho de arte com a realidade". Nesse sentido, aproxima-se tambm do "jogo no qual se 'faz de conta' que so todo iguais e, ao mesmo tempo, se faz de conta que cada um reverenciado em particular; e 'fazer de conta' no mentira mais do que o jogo ou a arte so mentiras devido ao seu desvio da realidade". Ou seja, na forma ldica de sociao, o nico alvo "o sucesso do momento socivel e, quando muito, da lembrana dele". Esse momento socivel , para Simmel, o da reunio, mais especificamente ainda, o da festa. Diz ele: "num encontro intimamente pessoal e afvel com um ou vrios homens, uma senhora no pode aparecer com uma roupa sumria que usa sem qualquer embarao numa festa mais concorrida. A razo que, na festa, ela no se sente envolvida como um indivduo na mesma extenso em que se sente numa reunio mais ntima e pode, por isso, dar-se ao luxo de se abandonar liberdade impessoal de uma mscara: embora sendo apenas ela mesma, no , entretanto, totalmente ela mesma, mas somente um elemento de um grupo que se conserva formalmente" (SIMMEL, 1983: 169, 170, 171, 173). Estabelecida a definio inicial, possvel, agora, enunciar certas distines e enfatizar certas questes. a densidade da festa seu carter de efervescncia coletiva, de exaltao das paixes comuns e seu carter extra-temporal e extra-lgico que a distinguem tanto do ritual quanto da simples diverso. Obviamente que toda festa tem um certo aspecto ritual. Afinal, ela tambm uma cerimnia, uma solenidade. Toda festa no deixa de ser igualmente divertimento. O divertimento corresponde funo expressiva, recreativa e esttica da festa, fato muito bem acentuado por Durkheim. Ao analisar os ritos representativos, que so aqueles onde o aspecto da partilha de um sentimento comum o mais importante e, mesmo, a nica coisa que importa, Durkheim aproxima-os das representaces dramticas e das recreaes coletivas. Todos empregam os mesmos procedimentos, i. e., o drama a representao teatral. Tais ritos so estranhos a qualquer fim utilitrio, "fazem com que os homens se esqueam do mundo real para transport-los para outro mundo, onde a sua imaginao fica mais vontade". Em sntese: distraem. Chegam mesmo a assumir "o aspecto exterior de recreao: vemos os assistentes rirem e se divertirem abertamente" (DURKHEIM, 1985: 534, 453). Segundo Isambert, as festas oscilam entre dois plos: o da cerimnia (que o rito propriamente dito) e o da festividade (que o da efervescncia propriamente dita), todavia ressaltando que os plos no deixam de ter afinidades entre si. Para esse autor, em algumas festas a amplitude do ritual que as distingue dos ritos quotidianos. Toda festa ritual nos imperativos que permitem identific-la, todavia ultrapassa-a pelas invenes de seus elementos livres. Em outras festas, a densidade da festividade que a distingue de um banal divertimento. Mas tambm existem festas que se situam entre a cerimnia e o simples divertimento, sendo, assim, um gnero misto (ISAMBERT, 1968: 423). Todavia, um divertimento e uma cerimnia de gnero particular, no qual esto excessivamente acentuados et pour cause os aspectos efervescentes, vale dizer, propriamente festivos. ao velho e sempre bom Durkheim a quem devemos a idia de festa como agrupamento massivo, gerador de exaltao, i. e., de efervescncia. A efervescncia que aqui quero ressaltar aquela que diz respeito noo durkheimiana de exaltao geral, aquela dos momentos/situaes nos quais as "energias passionais" da coletividade encontram-se em estado de "exaltao geral", nos quais a "influncia corroborativa da sociedade se faz sentir com maior rapidez e muitas vezes at</p> <p>com maior evidncia", pois "as interaes sociais tornam-se muito mais freqentes e mais ativas". Essas circunstncais, nas quais "a ao reconfortante e vivificante da sociedade particularmente manifesta", correspondem ao momento da assemblia. Diz ele: "no seio de uma assemblia que esquenta uma paixo comum, tornamo-nos suscetveis de sentimentos e de atos de que somos incapazes quando estamos reduzidos s nossas foras". Quando os fiis esto reunidos, observa ele, o estado de efervescncia religiosa se traduz por "movimentos exuberantes que no se deixam facilmente sujeitar a fins muito estritamente definidos"; eles escapam, sem objetivo preciso, pelo "simples prazer de se desdobrar", como um jogo. O que o grande ancestral est enfatizando a produo de vnculos sociais baseados, no em interesses racionais, mas em sentimentos/emoes. Vale dizer que a efervescncia diz respeito a uma forma de estabelecimento de vnculo coletivo, no qual o acento posto na comunho, na reliana (DURKHEIM, 1985: 300, 301, 542, 545). Como apropriadamente menciona Caillois: "No existe festa, mesmo triste por definio, que no comporte pelo menos um princpio de excesso e de pndega". Define -se "sempre pela dana, o canto, a ingesto de comida, a bebedeira. preciso se devertir grande, at se prostrar, at cair doente. a lei mesma da festa" (CAILLOIS, 1989: 130). Festa, cerimnia/ritual e divertimento no so redutveis uns aos outros. Tal como diz Durkheim, "toda festa, mesmo que seja puramente laica por suas origens, tem certos caracteres da cerimnia religiosa, pois, em todos os casos, ela tem como efeito aproximar os indivduos, colocar em movimento as massas e suscitar, assim, um estado de efervescncia, s vezes at de delrio, que no deixa de ter parentesco com o estado religioso". Tanto na festa como na cerimnia religiosa, o homem transportado para fora de si, distrai-se de suas preocupaes quotidianas. Em ambas observam-se as mesmas manifestaes, como, por exemplo, gritos, cantos, msica, movimentos violentos, danas, busca de excitantes que aumentem o nvel vital. Em resumo: em ambas o excesso e as trangresses se fazem presentes. Todavia, existe uma diferena fundamental: embora ambas sejam formas de atividade pblica, combinam em proporo desigual o jbilo e a finalidade grave (DURKHEIM, 1985: 547, 548). A festa tem um potente elemento diferenciador que dado pelo seu carter de ato paradoxal e pela sua dimenso sacrificial. Como bem observa Isambert, parece ser necessrio um pretexto, tornado ocasio, para que a festa emane do divertimento: preciso algo para celebrar; toda festa um tempo consagrado. No limite, diz ele, tudo festa durante o tempo da festa. Mas como a festa paradoxo, embora refira-se a um objeto sagrado ou sacralizado, tem tambm necessidade de comportamentos profanos. assim que a festa comporta uma multiplicidade de atividades de naturezas diversas, o que a distingue de uma simples cerimnia (ISAMBERT, 1968: 423, 424). A festa se ope ao ritmo regular, rotineiro da vida, sujeito aos sistemas de interdies, "em que a mxima quieta non movere mantm a ordem do mundo". Ela implica "ajuntamentos massivos [que] favorecem eminentemente o nascimento e o contgio de uma exaltao que se prodigaliza em gritos e em gestos, que incita ao abandono sem vigilncia aos mais irrefletidos impulsos". Dito de outro modo: "A festa, com efeito, no comporta apenas orgias de consumo, da boca e do sexo, mas tambm orgias de expresso, do verbo e do gesto. Gritos, zombarias, injrias, vaivm de gracejos grosseiros, obcenos ou sacrlegos". Os movimentos tambm so excessivos: "mmicas erticas, gesticulaes violentas, lutas</p> <p>simuladas ou reais". Tudo para despertar da letargia e devolver a fecundidade. "Dana-se at o esgotamento, rodopia-se at a vertigem. Rapidamente atingem-se as brutalidades" (CAILLOIS, 1989: 160). Falar em festa , portanto, falar em excesso: "O esbanjamento, a destruio, as formas de excesso, o frenesi, a orgia fazem parte da essncia da festa". Nesse sentido, a festa um "paroxismo da sociedade", uma vez que, rompendo "de um modo to violento com as pequenas preocupaes da existncia quotidiana", surge para quem dela participa como "um outro mundo", onde o indivduo "se sente amparado e transformado por foras que o ultrapassam". Em resumo: "Em sua forma plena, com efeito, a festa deve ser definida como paroxismo da sociedade, que ela purifica e renova ao mesmo tempo. Ela o seu ponto culminante no s do ponto de vista religioso, mas tambm do ponto de vista econmico. o instante da circulao das riquezas, o dos mercados mais considerveis, o da distribuio prestigiosa das reservas acumuladas. Ela aparece como o fenmeno total que manifesta a glria da coletividade e a retempera em seu ser" (CAILLOIS, 1989: 130, 131, 166). Na festa, por causa dela, o indivduo "vive o tempo das emoes intensas e da metamorfose de seu ser". tal o poder revigorante da festa, que justo dizer que vivemos "na recordao de uma festa e na expectativa de outra". Vale dizer que a festa o "reino do sagrado", pois ope ao mundo individualizado e individualizador da rotina, do trabalho e das preocupaes materiais e utilitrias "uma exploso intermitente", "um frenesi exaltante", evidenciado no "corpo poderoso da efervescncia comum" (CAILLOIS.1989: p.131). Esses instantes culminantes da vida coletiva que a festa representa so carregados de uma "atmosfera sacrificial": o sacrifcio "uma espcie de contedo privilegiado da festa", "como o movimento interior que a resume ou que lhe d seu prprio sentido" (CAILLOIS, 1989: 5). A destruio e o excesso implicados no sacrifcio tm um duplo aspecto: o de "gratuidade pueril" e o de dar as costas para as relaes reais, exatamente o que a festa faz. Sacrificar consumir, despender, abandonar: a oferenda escapa a qualquer utilidade, por isso o sacrifcio a anttese da produo, a "consumao incondicional" (BATAILLE, 1973: 37, 38, 72). Em resumo: sacrificar , ao mesmo tempo, dom e abandono, que se traduzem na festa, em primeiro lugar, pela partilha da paixo comum, criadora de uma comunho que vivida atravs de atos e gestos excessivos: comida, bebida, licenciosidade sexual, frenesi da dana, tudo levando ao aniquilamento, ao esgotamento, ao fundir-se no outro, constituindo um estado de indistino. No toa, por exemplo, que se diz que uma festa bem sucedida aquela que possibilita um perder-se no turbilho da multido exaltada. Discutindo a exaltao das paixes e os decorrente...</p>