a lÍngua portuguesa nas malhas da mÍdia: a busca da perfeiÇÃo ortogrÁfica no programa...

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II Seminário Nacional de Alfabetização e Letramento Oralidade e Escrita na Prática Escolar ISSN: 2177-4072 Grupo de Estudos e Pesquisa Alfabetização, Discurso e Aprendizagens A Língua Portuguesa nas Malhas da Mídia: a busca da perfeição ortográfica no programa soletrando Agnaldo Almeida de Jesus 1 RESUMO O presente trabalho tem como objetivo averiguar a construção de imagens da Língua Portuguesa elaborada na/pela mídia, especificamente no programa Soletrando, transmitido pela Rede Globo de Televisão. Para tanto, a base teórica norteadora de tal investigação está circunscrita à Análise do Discurso de linha francesa - ADF, tendo como principais pressupostos teóricos as contribuições de Maingueneau (2008, 2008a) e Amossy (2008, 2008a), no que diz respeito à construção do ethos discursivo. Ainda segundo Maingueneau (2008, 2010), exploramos o conceito de discurso constituinte. De acordo com Michel Foucault (2009), observamos o jogo de poder instaurado em nossa sociedade e verificamos a vontade de verdade evocada pela mídia para corroborar uma imagem íntegra e confiável. Por fim, verificamos que os recortes feitos pela mídia legitimam o tradicionalismo visto em sala de aula, pois se constitui de forma normativa. Colaboram, desse modo, para a instauração do discurso da Gramática Normativa como um discurso constituinte, isto é, um discurso superior, se comparado aos demais. Vale ressaltar, que o referido trabalho é parte integrante da monografia apresentada ao Departamento de Letras de Itabaiana – DLI, cujo título é: A construção de Imagens da Língua Portuguesa na mídia: uma análise discursiva, sob orientação da Profa. Dra. Maria Emília de Rodat de Aguiar Barreto Barros. Palavras-chave: Língua Portuguesa; mídia; ethos discursivo; discurso constituinte 1 Contato do(a) autor(a): [email protected]. Graduado em Letras Português, UFS. .

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II Seminário Nacional de Alfabetização e Letramento

Oralidade e Escrita na Prática Escolar

ISSN: 2177-4072

Grupo de Estudos e Pesquisa

Alfabetização, Discurso e Aprendizagens

A Língua Portuguesa nas Malhas da Mídia: a busca da perfeição ortográfica no programa soletrando

Agnaldo Almeida de Jesus1

RESUMO

O presente trabalho tem como objetivo averiguar a construção de imagens da Língua

Portuguesa elaborada na/pela mídia, especificamente no programa Soletrando,

transmitido pela Rede Globo de Televisão. Para tanto, a base teórica norteadora de tal

investigação está circunscrita à Análise do Discurso de linha francesa - ADF, tendo

como principais pressupostos teóricos as contribuições de Maingueneau (2008,

2008a) e Amossy (2008, 2008a), no que diz respeito à construção do ethos discursivo.

Ainda segundo Maingueneau (2008, 2010), exploramos o conceito de discurso

constituinte. De acordo com Michel Foucault (2009), observamos o jogo de poder

instaurado em nossa sociedade e verificamos a vontade de verdade evocada pela

mídia para corroborar uma imagem íntegra e confiável. Por fim, verificamos que os

recortes feitos pela mídia legitimam o tradicionalismo visto em sala de aula, pois se

constitui de forma normativa. Colaboram, desse modo, para a instauração do discurso

da Gramática Normativa como um discurso constituinte, isto é, um discurso superior,

se comparado aos demais. Vale ressaltar, que o referido trabalho é parte integrante da

monografia apresentada ao Departamento de Letras de Itabaiana – DLI, cujo título é:

A construção de Imagens da Língua Portuguesa na mídia: uma análise discursiva, sob

orientação da Profa. Dra. Maria Emília de Rodat de Aguiar Barreto Barros.

Palavras-chave: Língua Portuguesa; mídia; ethos discursivo; discurso constituinte

1 Contato do(a) autor(a): [email protected]. Graduado em Letras – Português,

UFS. .

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Alfabetização, Discurso e Aprendizagens

INTRODUÇÃO

Atualmente, a mídia em geral possui grande importância, visto que é

através dela que nos mantemos informados sobre as diversas facetas sociais,

como: política, economia, entretenimento, etc. Em relação ao ensino de

Língua Portuguesa, a mídia instaura e perpetua um único ponto de vista, ou

seja, traz aos seus telespectadores uma análise estritamente gramatical. Deste

modo, buscamos averiguar, no presente trabalho, a construção de imagens da

Língua Portuguesa elaborada pela mídia, verificando as consequências de tal

construção para o ideal (ou não) de língua pura e o poder do discurso da

Gramática Normativa, o qual consideramos um discurso constituinte. Para

tanto, temos como corpus o programa Soletrando (Rede Globo).

A priori, temos como base teórica as inferências de autores como

Possenti (2003, 2009, 2009a), Baronas (2003, 2002), Gregolin (2003), os

quais são unânimes ao afirmarem que a mídia efetua exames puramente

normativos que visam ao uso “correto” da Língua Portuguesa. Para Possenti

(2009b, p. 9), as discussões sobre língua que a mídia apresenta são “[...]

pequenas análises, sem pretensão de exaustividade e mesmo de grande

precisão [...] as colunas sobre língua que circulam em nosso meio nunca

ultrapassam a repetição das mesmas receitas simplificadas e resumidas”.

Logo, deduzimos que a imprensa não discute a língua como fenômeno

social e histórico, só repete o que postulam as Gramáticas Normativas e os

dicionários. A seguir, iniciamos a nossa discussão verificando a importância

dos procedimentos de controle do discurso na mídia e em nossa sociedade em

geral.

1 Mídia e poder: os procedimentos de controle do discurso

Segundo Foucault (2009), há em toda sociedade ocidental

procedimentos de controle do discurso (sistemas de exclusão), tanto externos

quanto internos. Fazem parte do primeiro tipo: a interdição, a separação ou

rejeição e vontade de verdade. O comentário, autoria e a disciplina, por sua

vez, fazem parte do segundo tipo. Além destes delimitadores, temos um

terceiro grupo de princípios de controle, caracterizado pela rarefação dos

sujeitos que falam, fazem parte de tal grupo: as sociedades do discurso, a

doutrina e o sistema de apropriação.

No que diz repeito aos procedimentos externos, de acordo com

Foucault (2009), a interdição é o principio de exclusão mais evidente, uma

vez que sabemos que “não se tem o direito de dizer tudo, que não se pode

falar de tudo em qualquer circunstância, que qualquer um, enfim, não pode

falar de qualquer coisa” (FOUCAULT, 2009, p. 9). Ou seja, o nosso discurso

depende da Formação Discursiva, do local institucional em que nos

encontramos, como, por exemplo: família, escola, religião etc.

A separação ou rejeição, por seu turno, é exemplificada pela oposição

entre razão e loucura. O louco é aquele cujo discurso é impedido de circular

como o dos outros, pois ora é visto sem valor algum de verdade, ora é

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definido como dotado por poderes sobrenaturais. Já o terceiro princípio de

exclusão está centrado na oposição verdadeiro versus falso. Nesse sentido,

Foucault (2009) infere que desde a Idade Média perpetua-se o discurso

verdadeiro, pronunciado por quem tem direito, segundo um ritual requerido.

Quanto aos procedimentos internos, estes funcionam segundo os

critérios de classificação, de ordenação e de distribuição dos discursos, visto

que eles exercem seu próprio controle. Com efeito, o comentário diz respeito

ao conjunto ritualizado de discursos que existe em nossa sociedade, os quais

são retomados e transformados. O princípio de autoria, por sua vez, é

apreendido não como o sujeito que profere ou escreve um texto, mas como

um “princípio de agrupamento do discurso, como unidade e origem de suas

significações, como foco de coerência” (FOUCAULT, 2009, p. 26). Já a

disciplina opõe-se aos dois acima: ao do autor, pois a disciplina requer

métodos, regras e um corpus considerado verdadeiro. Por conseguinte, a

disciplina é um sistema autônomo válido a todos que queiram utilizá-la,

independente do seu inventor. Opõe-se ao comentário, uma vez que a

disciplina sugere a construção de novos enunciados, e não uma identidade a

ser repetida.

O terceiro grupo de princípios de controle dos discursos, como já

mencionado, determina quem pode ou não ter acesso aos discursos. Nessa

perspectiva, este conjunto de princípios é caracterizado pela rarefação dos

sujeitos que falam, já que nem todas as regiões do discurso são abertas e

penetráveis. Uma das formas mais visíveis de restrição é o ritual, o qual

define os sujeitos que possuem autoridade para proferir determinados

discursos, como o judiciário e religioso, ou seja, indivíduos que

desempenham papéis previamente estabelecidos. Por conseguinte, temos as

sociedades de discurso, cuja função é produzir e conservar discursos num

espaço fechado, obedecendo a regras rigorosas.

Partindo dessa premissa, é constatado que a mídia perpetua socialmente

o controle dos discursos e instaura ideologias determinantes para a

construção da imagem que fazemos da nossa língua materna, como também

de seu ensino. Nesse sentido, Charaudeau (2007) observa que acreditamos

que a mídia tem o papel primordial de informar, trazer a público o que ocorre

no espaço social, sendo comprometida com a verdade e a transparência. No

entanto, ela exerce um papel (auto)manipulador e deformador, por operar

através da

[...] ideologia do mostrar a qualquer preço, do tornar visível o

invisível e do selecionar o que é o mais surpreendente (as notícias

ruins) faz com que se construa uma imagem fragmentada do espaço

público, uma visão adequada aos objetivos das mídias, mas bem

afastada de um reflexo fiel (CHARAUDEAU, 2007, p.20).

Nessa perspectiva, é necessário que conheçamos as fontes para verificar

a validade da informação fornecida, já que a mídia faz uma seleção, um

recorte do que lhe interessa, levando em consideração o não saber do

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receptor. No entanto, muitas vezes temos somente a versão midiática, sem

termos um verdadeiro contato com as fontes. Há de se observar ainda o fato

de que o sentido não é dado antecipadamente, mas construído pela interação.

Nesse contexto, observamos a mecânica de construção de sentido, que é a

transformação e a transação: a primeira consiste na descrição, o contar, o

explicar; já a segunda, na significação psicossocial proposta por quem fala e

o efeito que se pretende produzir no outro.

Portanto, a mídia utiliza-se de diversos procedimentos para propagar as

informações que lhes são necessárias para a manutenção da máquina

midiática, assim como para difundir uma ideologia dominante, qual seja: a

existência de uma língua pura, cujo discurso está diretamente relacionado à

Gramática Normativa. Sendo assim, a mídia modela seu discurso a depender

do ethos (imagem) que possui de seus telespectadores, os quais aderem ou

não a tal discurso. Nessa perspectiva, discutimos a seguir as noções de ethos

discursivo e discurso constituinte.

2 A cena enunciativa: discurso constituinte, ethos

discursivo

Dominique Maingueneau (2008, 2008a, 2010), ao estudar a Cena de

enunciação, verifica que esta não é um quadro empírico, e sim um processo

ligado diretamente ao momento em que emerge um enunciado. Assim, ele

postula que tal cena é constituída pela: cena englobante – correspondente ao

tipo de discurso em que o enunciado está inserido (discurso religioso,

publicitário etc); cena genérica – equivalente ao gênero do discurso, o qual

requer um contexto específico (papéis, circunstâncias, finalidade do discurso

religioso, por exemplo); e a cenografia – instituída pelo próprio discurso, e

não pelo seu tipo ou gênero. Ou seja, “O discurso impõe sua cenografia de

algum modo desde o início; mas, de outro lado, é por intermédio de sua

própria enunciação que ele poderá legitimar a cenografia que ele impõe”

(MAINGUENEAU, 2008, p. 117).

A partir daí, o autor nos apresenta diversos conceitos ligados

diretamente à cenografia. Dentre tais noções, destacamos aqui, como

mencionado anteriormente, discurso constituinte e ethos discursivo. Em

relação aos discursos constituintes, Maingueneau (2008, 2010) nos orienta

que estes não reconhecem uma autoridade maior que a deles próprios, isto é,

não há discursos superiores a eles. Nessa conjuntura, temos como exemplos

de discursos constituintes: o discurso religioso, literário, filosófico, científico.

O discurso político, por sua vez, encontra-se em confluência entre os

discursos constituintes, nos quais se apoia, já que há interação entre os

próprios discursos constituintes e os discursos não-constituintes. Porém,

aqueles negam essa interação ou a reduzem aos seus princípios.

Socialmente, os discursos constituintes possuem uma função simbólica

– archeion, pois estão ligados à sede de verdade, como bem define

Maingueneau (2008, p. 38): “O archeion associa assim intimamente o

trabalho de fundação no e pelo discurso, a determinação de um lugar

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associado a um corpo de enunciadores consagrados e uma gestão da

memória.” Nesse caminho, tais discursos dão sentido aos atos da

coletividade, pois são fiadores de diversos gêneros do discurso, delimitando,

assim, lugares-comuns da coletividade.

Para não se autorizarem por si mesmos, os discursos constituintes são

oriundos de uma Fonte Legitimadora, ou seja, são ancorados a um Absoluto.

No entanto, “esse Absoluto que se supõe como exterior ao discurso para lhe

conferir sua autoridade deve, de fato, ser construído por esse mesmo discurso

para poder fundá-lo" (MAINGUENEAU, 2010, p. 159). Logo, eles se

encontram numa localidade paradoxal que é a chamada paratopia. Nesse

contexto, formam-se as comunidades discursivas, as quais compartilham um

conjunto de normas e ritos. Sendo assim,

[...] não é ao conjunto dos membros da sociedade que cabe avaliar,

produzir e gerir os textos constituintes, mas a comunidade restrita. [...]

os produtores desses textos se põem de acordo com as normas internas

de um grupo, não diretamente com uma doxa universamente

partilhada. Os lugares institucionais de onde emergem os textos não se

ocultam por trás de sua produção, eles moldam através de uma

maneira de viver. (MAINGUENEAU, 2008, p. 44)

Podemos relacionar, dessa forma, os discursos constituintes às

sociedades de discursos, visto que Foucault (2009) afirma que cabe aos

partícipes de tais sociedades produzirem e fazerem circular os discursos sob

seus critérios. Temos ainda a distinção entre os discursos paratópicos

(discursos constituintes) e discursos tópicos (o restante da produção

discursiva de uma sociedade). Quanto a este verificamos que o sujeito de um

discurso cotidiano não pode modificar o quadro preestabelecido em que seu

enunciado está inserido. No discurso constituinte, por sua vez, “o locutor

deve dizer construindo o quadro desse dizer, elaborar dispositivos pelos quais

o discurso encena seu próprio processo de comunicação [...]”

(MAINGUENEAU, 2008, p. 51).

O estudo do ethos discursivo, por seu turno, é originado na Antiguidade

Clássica, por Aristóteles em sua obra A Retórica. Para este filósofo, além de

sabermos nos expressar perante o público, temos que mostrar confiabilidade

e honestidade (através de tom de voz, gestos, postura, olhar, escolha lexical

etc.), pois nosso discurso só será aderido enquanto tal e será instaurador de

sentidos se obtivermos a confiança do auditório.

Maingueneau, por sua vez, retoma esta noção na Análise do Discurso de

linha francesa a partir dos anos de 1980. Ao trazer o conceito de ethos para a

ADF, este teórico leva em consideração a construção do ethos em textos

escritos, utilizando, dessa forma, o termo tom, pois verifica que há uma fonte

enunciativa tanto em discursos orais como em discursos escritos. Amossy

(2008, p. 9), por sua vez, afirma que todo ato de tomar a palavra e utilizá-la

em um ato conversacional implica na construção de uma imagem de si, a qual

revela nossas intenções e preceitos acerca do que estamos nos referindo no

discurso.

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Nesse contexto, o ethos não se constitui em um discurso que é dito

claramente, mas no que é mostrado, como bem observa Maingueneau (2008,

p.59), “[...] o ethos se mostra no ato de enunciação, ele não é dito no

enunciado. Ele permanece, por natureza, no segundo plano da enunciação:

ele deve ser percebido, não deve ser objeto do discurso.” Com efeito, vemos

que alguém, diante de um auditório, pode enumerar diversas qualidades,

porém deve transparecer portador de tais virtudes para que seu discurso seja

considerado legítimo.

Por isso, enfatizamos que o ethos está ligado à enunciação, momento

este em que levamos em consideração fatores como: a imagem que se faz do

Outro, a imagem que Outro faz do Eu, a imagem que o Eu e o Outro fazem

do referente etc. Esse Outro, por seu turno, constrói um ethos pré-discursivo,

ou seja, antes mesmo que o orador tome a palavra, o Outro idealiza uma

imagem pré-construída, já que “mesmo que o destinatário não saiba nada

antecipadamente sobre o ethos do locutor, o simples fato de um texto

pertencer a um gênero de discurso ou a certo posicionamento ideológico

induz expectativas em matéria de ethos” (MAINGUENEAU, 2008, p. 60). E

essa imagem tanto pode ser desfeita quanto intensificada ao se tomar a

palavra, pois sabemos que o ethos está fundamentado nas representações

valorizadas e desvalorizadas, ou seja, nos estereótipos, como verificaremos

nas análises a seguir.

3 Análise do Corpus

Desde 2007, a grade televisiva brasileira conta com mais um programa

que trata da Língua Portuguesa: o Soletrando. Centrado especificamente na

ortografia, o referido programa acolhe alunos de instituições públicas entre

11 a 17 anos. Atualmente, o Soletrando encontra-se na quinta edição,

demonstrando, desse modo, que a sua proposta foi bem aceita pela população

em geral. O sucesso obtido fez com que o programa virasse um jogo, em

moldes semelhantes ao que é transmitido na televisão. Como já mencionado,

nossa análise está pautada no último episódio do Soletrando 2010, sendo que

os sujeitos participantes de tal episódio são caracterizados da seguinte

maneira:

L1: Luciano Huck – apresentador titular do programa Caldeirão do

Huck e do Soletrando; responsável por enunciar as palavras a serem

soletradas.

L2: Sérgio Nogueira – professor de Língua Portuguesa; integrante do

júri: responsável para a confirmação das palavras soletradas entre “certas” e

“erradas”.

L3: Participante da cabine 1 – representante do Estado do Piauí.

L4: Participante da cabine 2 – representante do Estado de Minas Gerais.

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L5: participante da cabine 3 – representante do Estado de São Paulo.

L6: Talita Rebouças – personalidade convidada para integrar o júri.

Inicialmente, é importante verificar que cada participante não está

representando somente a si próprio, mas um Estado, ou seja, é transmitida

uma ideia de pertencimento. Dessa maneira, o programa perpassa uma

proposta de integração social: ao representar um determinado Estado, os

participantes estão mostrando que são capazes de dominar as normas que

regem o “bom uso” da Língua Portuguesa. Mais ainda estão representando

uma comunidade discursiva que, às vezes, é discriminada pelo seu modo de

falar.

Vale lembrar que a mídia trabalha, em grande escala, com estereótipos.

Isto é, a construção do ethos discursivo se apoia em representações

partilhadas pelo locutor e seu auditório. Destarte, acredita-se que os Estados

do eixo sul/sudeste possuam mais chances de obter o prêmio, visto que os

sujeitos da comunidade norte/nordeste há um longo tempo sofrem com o

título de analfabetos, caipiras etc. Porém, das cinco edições realizadas, duas

foram vencidas por representantes nordestinos, contrariando, assim, os

estereótipos construídos em torno dessas comunidades linguísticas.

Como já mencionado, o Soletrando é parte integrante de um programa

maior, Caldeirão do Huck, cujo apresentador é Luciano Huck. No entanto, os

responsáveis por afirmar se as palavras foram soletradas corretamente são:

um professor de Língua Portuguesa, representado por Sérgio Nogueira, e uma

personalidade do meio artístico. Notamos, dessa maneira, o poder

argumentativo da formação discursiva de professor. Segue um exemplo:

Exemplo 1: L1: [...] Da obra de Rachel de Queiroz, soletre

corretamente a palavra: HEBDOMADÁRIO.

L4: Significado, por favor.

L6: Semanal, que se faz, sucede ou aparece de semana em semana.

L4: Aplicação numa frase.

L2: Da obra “As três Marias”: “hebdomadário, satírico e

independente.”

L4: hebdomadário: H-E-B-D-O-M-A-D-Á-R-I-O.

L1: Professor Sérgio, a palavra está...

L2: Correta.

Tomando como base o contexto em que estamos inseridos, a palavra

hebdomadário não é utilizada em grande escala pelos falantes. Dessa forma,

há a predominância de palavras dicionarizadas, isto é, o importante na

seleção dos termos a serem soletrados não é o conhecimento e uso destas

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pelos participantes, o que importa é que seja dicionarizada. Vejamos mais um

exemplo:

Exemplo 2: L1: Professor Sérgio, primeiro, onde tava o erro de kirsch,

qual a história dessa palavra?

L2: É, primeiro lembrar que desde as fases anteriores que essas

palavras estrangeiras que estão dicionarizadas estão valendo na edição

deste ano, como aconteceu com byroniano, e tudo mais, shakespeariano, e

outras que já caíram aqui. No caso do kirsch, palavra de origem alemã, que

significa cereja, faltou o C, S-C-H no fim. É uma pena, só o alemão mesmo

para derrubar nossos candidatos.

Neste exemplo, o professor Sérgio Nogueira ressalta que todas as

palavras dicionarizadas, sendo elas de origem portuguesa ou não, são

utilizadas para avaliar os participantes. Tal explicação foi dada logo após um

dos concorrentes soletrar “erroneamente” a palavra kirsch. Voltando ao

exemplo 1, observamos ainda que a exemplificação dada é totalmente

descontextualizada: possui um sentido vazio, corroborando as práticas

pautadas em atividades metalinguísticas, voltadas para a reprodução de

conhecimento, concebendo os alunos e telespectadores como sujeitos dóceis

e moldáveis (FOUCAULT, 2009a) em prol da sociedade moderna.

Com efeito, o programa supõe que todos os brasileiros precisam

dominar as normas inscritas na Gramática Normativa para exercerem sua

cidadania e conseguirem um posto no mercado de trabalho. Isto é, a escola e

mídia não visam à formação de sujeitos críticos que saibam utilizar a língua

em sua diversidade, e sim sujeitos que internalizem o proposto pela ideologia

dominante: saber falar e escrever “corretamente” para ser útil ao sistema,

corroborando os ideais neoliberais.

Remetendo-nos aos postulados de Foucault (2009), entendemos que, na

medida em que a mídia busca uma forma legítima para o uso oral e escrito do

português, ela instaura uma vontade de verdade, pois se torna

ideologicamente comum a suposição da transparência da linguagem: a

Língua Portuguesa é pura – há uma forma verdadeira/legítima e diversas

formas “erradas”. Nesse sentido, o programa Soletrando está encoberto por

uma falsa ideologia: mostra-se como uma forma de amplificador dos

conhecimentos dos participantes e telespectadores porque trabalha com

palavras distintas, evidencia seus significados e ainda demonstra como

utilizá-las. Destarte, retornamos à discussão acima explicitada, pois algumas

das palavras apresentadas não possuem uso corrente. Vejamos abaixo os

termos selecionados para o episódio final do Soletrando 2010:

Exemplo 3: insígnia, hebdomadário, convalescença. ânsia, desígnio,

anti-horário, desidratação, expatriação, indissolúvel, preexistência,

ignifugar, geognosia, xexelento, kirsch, xanteína, iâmbico.

Dentre as palavras consideradas mais difíceis de soletrar podemos

destacar: hebdomadário, ignifugar, geognosia, iâmbico e kirsch, estas são

dicionarizadas, mas não possuem uso corrente. Por isso, Possenti (2009, p.

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29) alega que os “Professores, gramáticos e demais puristas têm diante de si

formas velhas, caídas e podres.” Ademais, podemos inferir que muitas das

palavras selecionadas são do “tipo pegadinha”, pois possibilitam a

emergência de dúvidas pelos participantes e expectadores sobre a forma de

sua escrita, como: a troca de letras, o uso de sinais de pontuação, o uso do

hífen, entre outros. Tais sujeitos podem questionar-se da seguinte forma, por

exemplo: a palavra xanteína é escrita com x ou ch? Na palavra expatriação o

“correto” é usar s ou x? Devo usar hífen nas palavras preexistência e anti-

horário? A palavra iâmbico possui h? Consecutivamente, todos os tipos de

variação linguística existentes são encarados como “locais de erros”.

Ao passo de não considerar a variação linguística, os responsáveis por

tal programa só utilizam como significado as descrições canônicas

encontradas nos dicionários e exemplos descontextualizados, como vimos no

exemplo 2, e podemos visualizar no seguinte exemplo:

Exemplo 4: L1: Certa a palavra para o Piauí [...] Vamos a Minas

Gerais [...] soletre corretamente a palavra: ignifugar.

L4: Significado?

L2: Tornar ininflamável.

L4: Aplicação numa frase.

L6: Podemos ignifugar materiais como papel, tecido, cartões etc.

L4: ignifugar: I-G-N-I-F-U-G-A-R.

L1: Talita Rebouças, a palavra está...

L6: Correta.

No excerto acima, depreendemos, mais uma vez, que a mídia, assim

como a escola, ensina a Língua Portuguesa não a partir dos usos, do contexto

sócio-histórico do alunado, mas pautado em descrições rígidas estabelecidas

pela Gramática Normativa e dicionários. Estes, por sua vez, trazem em seu

bojo algumas palavras que não utilizamos mais, explicações herméticas e

exemplos canônicos. Não asseguram, desse modo, a diversidade de

significados que as palavras adquirem a depender do contexto de uso e as

mudanças sofridas durante a sucessão de gerações. No referido programa, é

difundido que o significado dado para o termo ignifugar é “tornar

ininflamável”, mas será que todos os participantes e expectadores sabem o

que é tornar algo ininflamável? O exemplo dado: Podemos ignifugar

materiais como papel, tecido, cartões etc., pode ser utilizado e fazer sentido

em quais contextos? E qual a importância de saber soletrar uma palavra que

não é usada constantemente?

Em síntese, percebemos que a proposta do Soletrando não leva em

consideração o saber dos alunos/participantes. O programa possui uma

preocupação formal e, pelo seu poder de amplitude, difunde o como escrever

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“corretamente”, define o significado legítimo ou verdadeiro e demonstra

como utilizar as palavras soletradas de forma “correta”. Por conseguinte,

constrói um ethos discursivo pautado no ideal de língua pura, defendendo o

apagamento de qualquer variante que destoe da norma padrão.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir das análises efetuadas acima, verificamos a defesa da existência

de uma única forma de falar/escrever “corretamente”, sendo as demais

variantes consideradas “erros”, as quais empobrecem a Língua Portuguesa.

Constatamos ainda que essa postura não é somente de um só gramático, mas

de um discurso originado e que vem se perpetuando desde a Antiguidade.

Além disso, observamos o caráter superficial pelo qual a língua é discutida na

mídia. As explicações encontradas são simplificadas ao máximo, como temos

nos cursinhos pré-vestibulares e similares.

Por conseguinte, na medida em que os sujeitos responsáveis por tais

discursos propagam um ethos de língua pura e simples, eles colaboram para

os ideais da sociedade capitalista. É perpassada, dessa maneira, a ideologia

do bom sujeito, pois devemos estar aptos a atender as exigências das

sociedades neoliberais para efetivarmos a nossa cidadania e não ficarmos à

margem social. Ressalvamos ainda que o domínio da norma padrão está

diretamente relacionado à possibilidade de ascensão social, pois há uma

perpetuação da ideia de que o uso “correto” do português determina se o

sujeito está apto ou não para assumir um dado cargo na esfera social.

Destarte, acreditamos que o discurso da Gramática Normativa é um

discurso constituinte: ao passo que a mídia constrói uma imagem de língua

pura e transparente, colabora para que o discurso da Gramática Normativa

seja um discurso constituinte, pois é nesta que encontramos o modo legítimo

e “correto” de falar e escrever. Desse modo, os postulados da Gramática são

o referencial mais elevado que temos para as discussões linguísticas, sendo

requisitados em todos os momentos pelos gramáticos e puristas. Além destes,

a população em geral colabora para essa perpetuação, uma vez que é senso

comum a ideia de que temos que dominar as normas gramaticais para

possuirmos um bom status e não sermos colocados à margem da sociedade,

como pessoas incapazes de dominarmos nosso próprio idioma. Portanto,

concordamos com Baronas (2003, p. 88), ao afirmar que é “justamente essa

extrema valorização da língua padrão como algo positivo que possibilita que

os sujeitos se tornem cúmplices de sua própria submissão linguística”.

REFERÊNCIAS

II Seminário Nacional de Alfabetização e Letramento

Oralidade e Escrita na Prática Escolar

ISSN: 2177-4072

Grupo de Estudos e Pesquisa

Alfabetização, Discurso e Aprendizagens

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