Cólera - morbus

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Epidemia de Clera seculo XIX

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  • Clera. Doena negligenciadaPedro Mendengo Filho

    Rio, 29/04/2008

  • 2Clera. Doena negligenciada

    Pedro Mendengo Filho

    A Fundao Conceio do Maracu, atravs de pesquisadores/colaboradoressobre Conhecimento & Cincia, preparou este espao para informaes de utilida-de pblica, em especial edio para falar da Clera. Doena negligenciada. His-trico, sintomas, transmisso, tratamento e preveno. Este trabalho parte inte-grante de uma srie de estudos que estes estudiosos vm realizando sobre vriostemas, com o objetivo de levar a boa parte da populao da Regio do Maracu, in-formaes fidedignas do nosso espao geogrfico -, a Baixada Maranhense enquan-to objeto de estudo.

    Em, 04/2008.

    As imagens apresentadas neste trabalho foram extradas da Revista Geogrfica Universal,agosto de 1985. A Arte para o Povo nos Murais do Mxico, obra que Diego Rivera criou parao Hospital da Cidade do Mxico, que um belo mural sobre Histria da Medicina.

    Oferecimento:

    FUNDAO CONCEIO DO MARACUFundada em 28 de Janeiro de 2006, C.N.P.J. 08.148.243/0001-83Sede Praa Mons. Manoel Arouche, 132 Centro.Tele-fax (0xx98) 33511149. CEP: 65215-000 Viana-MA.

    Entidade em defesa do Patrimnio Histrico, Cultural, Ambiental de Viana e do Rosrio de Lagos do Maracu. Organizao no governamental, sem finalidades polticas ou fins lucrativos.

    Autor: Pedro Mendengo Filho, Psiclogo Clnico, Especialista em Psicologia Mdica Psicossomtica, Anlise Ambiental e Gesto de

    Territrio, membro da Academia Vianense de Letras-AVL e scio fundador da Fundao Conceio do Maracu.

  • 3Introduo

    A vida agitada nos grandes centros urbanos, a falta de exerccios fsicos, oestresse, a poluio, a alimentao rpida e rica em gordura e acar e o consumoexcessivo de bebidas alcolicas e tabaco esto causando diversas doenas nosbrasileiros. Advindos destes problemas, so mais comuns, nos grandes centros ur-banos, doenas como o cncer, o diabetes e doenas do corao. Enquanto isso, nazona rural e nas periferias das grandes cidades, aumentam os casos de doenasinfecciosas e parasitrias, em funo das pssimas condies de higiene. A falta degua tratada e o deficiente sistema de esgoto nas regies norte e nordeste do Brasiltem sido a causa de vrias doenas, como, por exemplo: clera, malria, diarria ehansenase.

    A clera uma doena tpica de regies que sofrem problemas de abasteci-mento de gua tratada. A sujeira e os esgotos a cu aberto ajudam no aumento decasos da doena. A regio nordeste do Brasil a que mais sofre com este problema.gua limpa e tratada, tratamento de esgoto e condies ambientais adequadas difi-cultam a proliferao da doena. A higiene e a medicina tm ampliado a habilidadeda terra nos climas clidos, j pelo tratamento das chamadas molstias tropicais,j pela resistncia do calor, com o ar condicionado. o que diz Raimundo Lopesem Antropogeografia1:

    H, certamente, molstias dos climas quentes; isto depende tanto da tempe-ratura e da depresso orgnica, como da alimentao e da proliferao dos insetosintermedirios; assim, a malria, com o seu terrvel hematozorio a empobrecer osangue, tanto se tem transmitido em regies equatoriais, como nas do Mediterr-neo, nas baixadas da costa italiana (maremmas) e a ela se atribui a morte da belaMonna Lisa, a Gioconda. A transmisso do grmen pode variar com os continen-tes e regies como no caso do tremendo mosquito gambiense, transmissor tambmdo impaludismo, que na frica veio implantar-se no nordeste brasileiro, devido jus-tamente rapidez da moderna navegao e talvez aos avies; a letalidade, devida,sobretudo sua larva adaptada s guas sujas, ao contrrio da do transmissoramericano, torna esse impaludismo rebelde a prescries de higiene e tratamento:a sua disseminao, se chegar s regies midas do Brasil, invadir a Amrica neo-tropical.

    As epidemias aprecem independer mais ou menos dos climas, ligando-se maiss condies de transmisso em reas onde massa carente e a pobreza das po-pulaes, propiciam a sua instalao. Assim que a China Setentrional, tem sidocentro de disperso junto com a ndia de males como: a peste bubnica, e o clera-morbo; a primeira se tem propagado pelos continentes e s tem sido evitada pelasprecaues contra a entrada dos doentes e dos ratos nos pases que tm organiza-do a sua profilaxia. O beribri tem sido atribudo deficincia alimentar, pela in-gesto do arroz descorticado, na sia Oriental e no Brasil em nossas regies; comoprovaram os estudos em 19192, essa polinevrite deve ter uma causa especfica.

    Assim como h molstias tropicais, tambm h endemias de disperso maisampla ou mais prpria dos climas frios. A lepra tanto se tem propagado nos climasclidos, como na Europa medieval, atingindo, mesmo, em tempos modernos, a friaNoruega com o grande Hansen; verdade que se tem atribudo a predisposio aesse mal alimentao, sobretudo de peixes; a presena, porm, do bacilo e o es-tudo nosolgico parecem evidenciar a sua dependncia da intensidade do contgiosocial e domstico.

    O que se propes neste trabalho, uma reflexo sobre as condies de higienepblica a que estar sujeita a Baixada Maranhense. Os riscos de um ataque da C-lera muito grande, embora a doena no seja endmica na regio, mais pode sertransplantada via malhas rodovirias, principalmente pela rodovia MA.013.

  • 4Histrico:

    A denominao Clera remonta aos primeiros sculos da humanidade e sem-pre esteve relacionada ndia. Na histria das grandes navegaes associava-se alugares considerados exticos, sendo, na poca, chamada de doena que "provocavavmitos, sede de gua, estmago ressecado, cibras, olhos turvos..." A partir do s-culo XIX, comeou a se disseminar para reas at ento no atingidas, chegando,em especial, Europa. Sua forma de transmisso to importante e se dissipa comtanta facilidade que j existiram sete pandemias (pandemia a epidemia simultneada doena em muitos pases e continentes).

    A propagao da Clera em nvel mundial deve-se principalmente ao fato deque seu agente desenvolve na maioria das vezes casos leves ou assintomticos, nopermitindo assim a identificao dos verdadeiros portadores, que continuam trans-mitindo a doena. Alm disso, o grande deslocamento das pessoas por turismo oucomrcio em transportes cada vez mais rpidos aumenta a veiculao da Clera. Obaixo nvel scio-econmico e condies precrias de saneamento bsico em reasextensas e, em particular a falta de gua potvel, podem tambm explicar a suaalta propagao.

    Historicamente, a clera provavelmente originou-se no vale do rio Ganges,ndia. As epidemias surgiam invariavelmente durante os festivais hindus realizadosno rio, em que grande nmero de pessoas banhavam-se em ms condies de hi-giene. O vibrio vive naturalmente na gua e infectava os banhistas que depois otransmitiam por toda a ndia nas suas comunidades de origem. Algumas epidemiastambm surgiram devido a peregrinos nos pases vizinhos com aderentes da reli-gio hindu, como Indonsia, Birmnia e China.

    Esta enfermidade, foi descrita pela primeira vez no sculo XVI pelo portu-gus Garcia da Orta, trabalhando na sua propriedade, Bombaim, no Estado da n-dia Portugus.

    Entretanto, em 1817, com o estabelecimento do Raj britnico na ndia, eparticularmente na regio de Calcut, espalhou-se a clera pela primeira vez parafora da regio da ndia e paises vizinhos. Ela foi transportada por militares inglesesnos seus navios para uma srie de portos e a sua disseminao chegou Europa eMdio Oriente, onde at ento era desconhecida. Em 1833 chegou aos EUA e M-xico, tornando-se uma doena global.

    Numa das primeiras epidemias no Cairo, a clera matou 13% da populao.Estabelecendo-se em Meca e Medina, locais onde as peregrinaes religiosas mu-ulmanas do Hajj, permitiam concentraes suficientes de seres humanos para sedar a cadeia de transmisso da epidemia, assim como nas cidades grandes da Eu-ropa. Na Arbia foi endmica at ao sculo XX, matando inmeros peregrinos, tem-do sido a que surgiu o agora disseminado serovar eltor. A disseminao pelos pere-grinos, vindos de todo o mundo muulmano de Marrocos at s Indonsia, foi im-portante na sua globalizao assim como os navios comerciais europeus.

    Durante o sculo XIX, surgiram abruptamente vrias epidemias nas cidadeseuropeias, matando milhares de seres humanos em Londres, Paris, Lisboa e outrasgrandes cidades. Uma dessas epidemias em Londres, como a de 1854, levou aoestabelecimento das primeiras medidas de sade pblica, aps constatao que empoos contaminados estavam na origem da doena, pelo mdico ingls John Snow,pois foi o mesmo John Snow, quem descobriu a relao entre gua suja e clera em1854. Mais tarde a bactria Vibrio cholerae foi identificada pelo clebre microbio-logista Robert Koch em 1883.

    A trajetria histrica da Clera no Brasil, se inicia-se pelo Norte, precisa-mente em Belm do Par, onde recentemente este tema ganhou destaques na mdiae uma edio memorvel de grande repercusso no mundo acadmico, realizada

  • 5pela pesquisadora Jane Felipe Beltro3. Nesta edio a autora emerge com a hist-ria de uma tragdia, a que estavam submetidos os pobres nos sculos XIX e XX.

    A clera, at o incio do sculo XIX, circunscrevia-se sia, considerada olar da enfermidade e, como tal, vista com curiosidade pelos europeus. Ao ser regis-trada a primeira pandemia4 de clera (1817-1823), a Europa tomou conhecimentoda doena graas ao quadro desolador da Rssia: a chegada da clera quele pasfez os europeus suspeitarem da queda das suas cidadelas5. A confirmao se deucom a chegada da segunda pandemia (1829-1851): na Rssia, de 1829 a 1832, aclera ceifou a vida de 290 mil pessoas (McGrew, 1965)6, alastrando-se pela Polniaem razo da guerra entre os dois pases. A movimentao das tropas produziu v-timas da clera na Frana, que perdeu 13 mil pessoas nessa epidemia (Delaporte,1986)7. No se deve esquecer que as revolues liberais varriam a Europa (1830 e1848), e onde a revolta se fazia presente a clera grassava, exacerbando tenses ecomprometendo das condies de vida (Evans, 1988)8. Na