a pesquisa sociológica em contextos de pobreza · resumo: neste artigo elaboro algumas reflexões...

of 19/19
69 SOCIOLOGIA ON LINE, Nº12, DEZEMBRO 2016, Pág. 69 a 86 | DOI: 10.30553/sociologiaonline.2016.12.4 A pesquisa sociológica em contextos de pobreza João Matheus Acosta Dallmann 1 Resumo: Neste artigo elaboro algumas reflexões acerca do trabalho de investigação sociológica em contextos de pobreza. A partir do estado da arte da temática no Brasil e França, busco esboçar possibilidades críticas para o avanço da pesquisa sociológica sobre pobreza e exclusão social no século XXI. Com base nos referenciais teóricos actuais, problematizo e reflicto acerca da importancia da sociologia da pobreza para as sociedades contemporâneas, em especial para o Brasil. Palavras-chave: investigação sociológica, técnicas de pesquisa, pobreza, sociologia da pobreza. The sociological research on poverty context Abstract: In this article I make some reflections about the sociological research work on poverty contexts. From the state of the theme in Brazil and France, I seek to outline critical possibilities to the advance of sociological research on poverty and social exclusion in the 21st century. Having current theoretical references as a basis, I problematize and reflect about the importance of sociology of poverty to the contemporary societies, mainly in Brazil. Keywords: sociological research, research techniques, poverty, sociology of poverty. Este artigo pretende esboçar algumas técnicas de pesquisa no campo da chamada sociologia da pobreza. A partir da obra do sociólogo Serge Paugam (2005, 2015) pretende-se analisar a experiência da pobreza em seu caráter multidimensional. Assim, compreende-se que a vivência na pobreza não pode ser descrita de forma homogênea, tal como acontece em muitos trabalhos de viés quantitativo, pelo contrário, a estatística deve ser um preâmbulo ao trabalho científico, contribuindo na formulação de problemas e hipóteses. Para refletir sobre a especificidade da pesquisa 1 Universidade Federal de Santa Catarina/Brasil, departamento de Sociologia Política e Departamento de Medicina da Universidade Federal de Santa Catarina/Brasil. João Dallmann é bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina. Mestre em Sociologia Política pela UFSC. Doutorando do Programa de Pós-graduação em Sociologia Política pela mesma Universidade. Pesquisas nas áreas de Sociologia da Pobreza com enfase nos Programas de Transferência Condicionada de Renda (PTCR), principalmente o Programa Bolsa Família (PBF) no Brasil, e, nos estudos sobre medicalização da pobreza e da infância em políticas sociais. É membro do Núcleo de Estudos em Sociologia, Filosofia e História das Ciências (NESFHIS), [email protected]

Post on 13-Dec-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

69

SOCIOLOGIA ON LINE, N12, DEZEMBRO 2016, Pg. 69 a 86 | DOI: 10.30553/sociologiaonline.2016.12.4

A pesquisa sociolgica em contextos de pobreza

Joo Matheus Acosta Dallmann 1

Resumo: Neste artigo elaboro algumas reflexes acerca do trabalho de investigao sociolgica em

contextos de pobreza. A partir do estado da arte da temtica no Brasil e Frana, busco esboar

possibilidades crticas para o avano da pesquisa sociolgica sobre pobreza e excluso social no

sculo XXI. Com base nos referenciais tericos actuais, problematizo e reflicto acerca da importancia

da sociologia da pobreza para as sociedades contemporneas, em especial para o Brasil.

Palavras-chave: investigao sociolgica, tcnicas de pesquisa, pobreza, sociologia da pobreza.

The sociological research on poverty context

Abstract: In this article I make some reflections about the sociological research work on poverty

contexts. From the state of the theme in Brazil and France, I seek to outline critical possibilities to the

advance of sociological research on poverty and social exclusion in the 21st century. Having current

theoretical references as a basis, I problematize and reflect about the importance of sociology of

poverty to the contemporary societies, mainly in Brazil.

Keywords: sociological research, research techniques, poverty, sociology of poverty.

Este artigo pretende esboar algumas tcnicas de pesquisa no campo da chamada

sociologia da pobreza. A partir da obra do socilogo Serge Paugam (2005, 2015)

pretende-se analisar a experincia da pobreza em seu carter multidimensional.

Assim, compreende-se que a vivncia na pobreza no pode ser descrita de forma

homognea, tal como acontece em muitos trabalhos de vis quantitativo, pelo

contrrio, a estatstica deve ser um prembulo ao trabalho cientfico, contribuindo na

formulao de problemas e hipteses. Para refletir sobre a especificidade da pesquisa

1 Universidade Federal de Santa Catarina/Brasil, departamento de Sociologia Poltica e Departamento de Medicina da Universidade Federal de Santa Catarina/Brasil. Joo Dallmann bacharel em Cincias Sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina. Mestre em Sociologia Poltica pela UFSC. Doutorando do Programa de Ps-graduao em Sociologia Poltica pela mesma Universidade. Pesquisas nas reas de Sociologia da Pobreza com enfase nos Programas de Transferncia Condicionada de Renda (PTCR), principalmente o Programa Bolsa Famlia (PBF) no Brasil, e, nos estudos sobre medicalizao da pobreza e da infncia em polticas sociais. membro do Ncleo de Estudos em Sociologia, Filosofia e Histria das Cincias (NESFHIS), [email protected]

mailto:[email protected]

Joo Matheus Acosta Dallmann

70

SOCIOLOGIA ON LINE, N12, DEZEMBRO 2016, Pg. 69 a 86 | DOI: 10.30553/sociologiaonline.2016.12.4

com populaes pobres pretende-se estabelecer uma argumentao que apresenta as

formulaes de Paugam como eixo articulador de trs trabalhos de cientistas sociais

brasileiros.

Abrimos este artigo com uma pequena exposio da histria da sociologia da pobreza,

a partir dela, principalmente atravs da influncia de Georg Simmel, se desenvolveram

trabalhos importantes para a pesquisa com populaes pobres. Neste sentido, expomos o

caminho terico para a definio daquilo que constituiu, do ponto de vista sociolgico, as

categorias pobre e pobreza. Partindo da suposio de que a experincia na pobreza

singular, isto , que os indivduos pobres a vivenciam de maneiras muito distintas em

contextos prprios. Percorreremos, ento, por uma breve definio de tipos ideais no

interior da pobreza. O estabelecimento desses tipos ideais sugere que as discusses sobre

o fenmeno da pobreza precisam incorporar as variadas dimenses e articulaes que os

agentes fazem na/da vida cotidiana. Assumindo esse ponto de partida, percorremos pela

ideia de que a pesquisa, que na sua concretude a interao entre pesquisador e

pesquisado, uma prtica social, uma prtica de intensa negociao entre os sujeitos, um

jogo de sentidos discursivos. Desse modo, a partir da anlise de trabalhos realizados no

Brasil entre os anos 1990 e 2013 que descrevemos e problematizamos a importncia das

configuraes singulares no seio das camadas mais empobrecidas. Essas configuraes

singulares so apreendidas a partir do subsdio terico de Paugam, que mesmo num

contexto cultural e geogrfico diferente, estabelece um caminho metodolgico

interessante para nossas pesquisas.

Em suma, este artigo, explorando a ideia de que a pobreza possui diversas facetas que

so diferentemente vivenciadas em nosso pas, prope uma abordagem de investigao

multifacetada do fenmeno. Parte-se da ideia que a pobreza no mera falta de recursos

monetrios, mas antes uma posio social relacional, isto , relativa em cada contexto,

difusa e complexa no seu prprio interior.

Surgimento da sociologia da pobreza

Pode-se dizer que a sociologia da pobreza inicia em 1907 com o famoso texto do

socilogo alemo Georg Simmel Der Arme (1907) ou O pobre (1998), como ficou

A pesquisa sociolgica em contextos de pobreza

71

SOCIOLOGIA ON LINE, N12, DEZEMBRO 2016, Pg. 69 a 86 | DOI: 10.30553/sociologiaonline.2016.12.4

conhecido na Europa e nos Estados Unidos - um ensaio metodolgico cujo objetivo era

refletir a capacidade articuladora de um determinado fenmeno. Para o autor o pobre

enquanto uma categoria social, no pode ser, de um ponto de vista sociolgico, aqueles

que sofrem carncias ou privaes de vrias ordens, antes, a figura que toda a

sociabilidade de um contexto especfico constri e oferece assistncia. Em suma, se

considerar o pobre enquanto a personificao de um sujeito diogenesiano2, o pesquisador

no conseguir apreender as redes de significaes que se articulam na construo deste

grupo social. A pobreza, ento, no pode ser somente constatada atravs da quantificao

da renda monetria, nem somente da percepo do prprio pesquisador que imbudo de

boa vontade elabora uma personagem extica e heroica. Tal abordagem construtivista da

pobreza romperia com as concepes naturalistas e substancialistas de finais do sculo

XIX, incrustadas nos debates polticos e cientficos3 dando um carter sociolgico para

tal questo social.

Robert Castel outro autor incontornvel nesta rea problemtica, pelo trabalho que

empreendeu para compreender as formas de excluso e pobreza do sculo XX. As suas

contribuies a partir da Frana reverberaram por toda a sociologia das desigualdades

sociais nas Amricas. No seu clssico Les mtamorfoses de la question sociale (1995)

Castel assume uma postura crtica e afirma que a nova questo social paradoxalmente

oposta ao sujeito considerado pobre para a sociologia de Simmel. Nesta os sujeitos

considerados pobres so aqueles que recebem assistncia social, seja aquela vinda do

Estado (via polticas sociais) seja a provinda da caridade particular. No entanto, para

Castel o neoliberalismo construiu o que o autor descreve como individualismo negativo,

isto , o isolamento social de indivduos extremamente desconectados do mundo do

trabalho, aqueles cuja vida nas franjas mais (des)socializadas da sociedade um den.

Desse modo, as camadas pobres ou extremamente pobres desprovidas de qualquer tipo de

tutela ou contrato, integraro a anlise sociolgica da excluso e das desigualdades. Tal

sociologia da pobreza deve, de certo modo, compreender o seu carter formulador de

problemas e por consequncia, formulador de hipteses e respostas.

2 Relativo a Digenes que na Antiguidade Clssica fora um homem extremamente pobre vivendo nas ruas cercado somente por cachorros. 3 Sobre esse assunto ver: PAUGAM, S; SHULTEIS, F (1998). Naissance dune sociologie de la pauvret.

In:Simmel, Georg (1998), Les Pauvres, Paris, Presses Universitaires de France..

Joo Matheus Acosta Dallmann

72

SOCIOLOGIA ON LINE, N12, DEZEMBRO 2016, Pg. 69 a 86 | DOI: 10.30553/sociologiaonline.2016.12.4

No Brasil Anete Ivo, sociloga e autora de Viver por um fio: pobreza e polticas

sociais (2008), analisa a construo do Estado social na Amrica Latina. Aqui, seguindo

a mesma linha de Castel, o pobre enquanto categoria sociolgica aquele cuja vida por

um fio est a merc de um Estado social, que nunca se emancipa e mesmo durante a

gestao se desmantela com polticas neoliberais. Nessa linha, o risco e as incertezas

sobre a vida material culminam no fim da coeso social da era salarial (Castel, 1995,

2004), cujo maior impacto se d na organizao scio-poltica dos trabalhadores e

trabalhadoras. Agora, cada vez mais submetido flexibilizao das relaes laborais, o

pobre aquele cuja biografia circula entre o abismo e o perau4, nem reconhecido pelo

Estado nem totalmente liberto. Judicializado, medicalizado, criminalizado, o pobre se

torna o foco de uma sociedade de incertezas (la monte dincertitudes), no entanto, no se

trata de focalizar para (re)socializar, seno que, para controlar atravs de inmeros

dispositivos sem os quais a governamentalidade, esse neologismo foucaultiano, seria

impossvel5.

Em suma, nosso caminho argumentativo constituir em articular as trs percepes,

evidenciando, tal como demonstra Serge Paugam (2005, 2015), as possibilidades de

compreendermos a figura do pobre enquanto uma categoria social distribuda em formas

elementares6. Essa parfrase ao livro de Emile Durkheim que mais nos remete a ideia de

continuidade temporal na evoluo das categorias explicativas , pelo contrrio, a

elaborao de tipos ideais que nos auxiliam a construir uma realidade explicativa do

mundo social, seja atravs das falas dos pesquisados (o evidente, o aparente, a

linguagem), seja por meio da escrita do etngrafo (sua percepo, o no dito, o olhar).

Talvez por isso a transcrio da entrevista, prova de fidelidade do pesquisador com o

pesquisado, tenha assumido um lugar de destaque no campo da sociologia da pobreza

com os trabalhos de Pierre Bourdieu (2003, 2007) e Loc Wacquant (2003, 2011).

Considerados construtivistas crticos, embora tenham ido alm das fronteiras

disciplinares, para os autores a fala dos sujeitos assume a responsabilidade de

4 Perau: subida ngreme tipicamente encontrada em bairros populares e favelas brasileiras. 5 Michel Foucault trata desse tema na aula de 14 de maro de 1979 In: Foucault, Michel (2008), O Nascimento da

biopoltica, So Paulo, Martins Fontes..

6 Adiante nas pginas posteriores irei discutir e reelaborar, a ideia em contextos de pesquisa emprica.

A pesquisa sociolgica em contextos de pobreza

73

SOCIOLOGIA ON LINE, N12, DEZEMBRO 2016, Pg. 69 a 86 | DOI: 10.30553/sociologiaonline.2016.12.4

reconstruir no texto o mundo social dos pesquisados.

Assim, este trabalho pretende discutir e refletir brevemente sobre as prticas da

etnografia, da entrevista e da abordagem quantitativa nas pesquisas sociolgicas (ou

prximas a tal abordagem) sobre a pobreza. Sem o intuito de valorar quais destas

perspectivas metodolgicas esto corretas ou erradas, pretendemos ao dar prioridade ao

objeto, colocar em perspectiva as contribuies e as limitaes de cada tcnica, de modo

que, possa-se desenhar uma constelao acerca da prpria categoria, em outras palavras,

compreender que a cognio no pode apreender a realidade em sua total imediaticidade,

e o que descrevemos como contedo objetivo de nossa percepo cientfica sobre as

prticas sociais, , antes de qualquer coisa, um movimento abstrato de construo

literria.

A construo de tipos ideais para compreender a pobreza no Brasil contemporneo

Os estudos sobre pobreza e transferncia de renda no Brasil contemporneo tm

galgado cada dia mais espao nas publicaes acadmicas. Fruto, primordialmente, da

experincia do Programa Bolsa Famlia, as pesquisas desenvolvidas nos ltimos 15 anos

tem problematizado a pobreza desde diferentes perspectivas. Nesta reflexo iremos aderir

a perspectiva de Serge Paugam (2005) porque consideramos que suas formulaes nos

auxiliam a compreender a multidimensionalidade da pobreza, bem como nos incitam a

novas problemticas de pesquisa sobre o tema no Brasil. A partir das reflexes

sociolgicas de Tocqueville, Marx, Simmel e sua prpria pesquisa na Frana, Canad,

Estados Unidos e pases da Amrica Latina, o autor quer compreender e problematizar as

representaes sociais, experincias e laos sociais dos pobres. No entanto, o autor no

centra sua anlise somente na figura dos pobres e dos imigrantes, para fazer uma

sociologia da pobreza necessrio interrogar o sistema social em sua amplitude, levar em

conta as formas de proteo contra a proximidade dos pobres criadas pelas elites, por

exemplo. Para isso desenvolve a ideia de formas elementares da pobreza. Essa ideia

singular busca compreender os mecanismos de gerao/manuteno da pobreza e as

respostas polticas ao fenmeno, por isso, divide em trs principais tipos ideais a pobreza

contempornea, a saber: a pobreza integrada, a pobreza marginalizada e a pobreza

Joo Matheus Acosta Dallmann

74

SOCIOLOGIA ON LINE, N12, DEZEMBRO 2016, Pg. 69 a 86 | DOI: 10.30553/sociologiaonline.2016.12.4

desqualificada.

A pobreza integrada resultado da expanso e da reorganizao da proteo social no

incio do sculo XXI. Diz-se integrada porque a estes pobres, tal como na concepo

simmeliana, a assistncia do Estado aparece na forma de transferncia condicionada de

renda, isto , so pobres porque so assistidos e reconhecidos enquanto tal. A este tipo

ideal agregam-se os trabalhadores pobres, aqueles cuja integrao ao mercado de trabalho

se d por meio de empregos precrios, baixos salrios, jornadas duplas e triplas, etc. O

segundo tipo de pobreza que, a modo de anlise, planteia Paugam o da pobreza

marginalizada. Ela caracterizada pela ruptura dos laos sociais, o no acesso aos bens e

servios pblicos de todas as ordens, ela dependente da caridade privada e precisa

reforar sempre a necessidade de auxlio, isto , depende da performance para ser vista

como tal. Em suma, os pobres marginalizados no esto integrados nas relaes sociais

de trabalho, famlia, amigos, etc., so e se consideram indignos, inteis para a sociedade

(Souza, 2009)7. A pobreza considerada desqualificada est marcada pela ideia de estigma,

igual ao primeiro tipo, onde os indivduos recebem assistncia social via transferncia

monetria direta. Nessa categoria os pobres so fruto da frgil coeso social e da viso

preconceituosa com relao s polticas pblicas. Estigmatizados, alvo de preconceito e

discriminao, estes pobres incorporam a culpa por estarem pobres, sentem vergonha

pelo fato de serem assistidos. Como se isso no bastasse, tambm se tornam alvo de um

legislativo que a todo o momento tenta criar um princpio de less iligibility (menos

elegibilidade) no interior da transferncia monetria. Um exemplo problemtico deste

princpio a proposta que tramitou no parlamento brasileiro em 2014, em que os direitos

polticos dos beneficirios do programa Bolsa Famlia seriam suspensos at que no

precisassem mais do benefcio.

O estabelecimento destas categorias no se d no intuito de rotular os trabalhos que

aqui sero analisados, eles servem para problematizarmos a suposta homogeneidade com

que se tratam os dados quantitativos e qualitativos quando o tema a pobreza. Ainda

7 Os trabalhos de Jess Souza inovam na construo de categorias explicativas. Em 2009 criou o termo batalhadores ou classe batalhadora, para designar a distribuio desigual de renda no interior das chamadas camadas mdias ou populares.

A pesquisa sociolgica em contextos de pobreza

75

SOCIOLOGIA ON LINE, N12, DEZEMBRO 2016, Pg. 69 a 86 | DOI: 10.30553/sociologiaonline.2016.12.4

assim, cada caso um caso8, ou seja, imprescindvel que pensemos a articulao dessas

experincias por parte das populaes estudadas. Por conseguinte, cada articulao leva-

nos a uma nova problemtica, cada categoria isolada ou no, traz-nos um conjunto de

prticas sociais interligadas que formam/conformam nosso objeto. Por isso, por exemplo,

no h somente pobreza desqualificada se no houver nesse recorte populacional pobreza

integrada. Desse modo, se dois tipos ideais se articulam e coexistem como no exemplo,

significa que, neste caso, existe integrao desigual ou, que em outros casos existe uma

paulatina marginalizao. Por fim, no se tratar de universalizar as categorias com as

quais iremos analisar os textos, mas, de alguma forma, criar uma dimenso sociolgica

explicativa aos problemas estudados.

A pesquisa como prtica social

A visibilidade ou invisibilidade da pobreza um constructo social e poltico que, via

de regra, depende da organizao scio espacial da cidade, isto , do espao urbano. Nele

habitam as condies que possibilitam a sociabilidade das mais diversificadas

formas/performances de pobreza, por isso, d um panorama da desigualdade num sentido

relacional. Da advm uma gama de problemas sociolgicos, a incluir-se um primeiro que

diz respeito problematizao da cidade. A cidade, esse aglomerado urbano, denso

demograficamente, desigual na circulao de bens e servios, no homogeneza, e, isso

deve ficar claro ao pesquisador. Ao passo que ela um espao social diversificado ,

tambm, para uns com mais fora para outros com menos, significado de represso,

intolerncia, formas de controlo, mas ainda assim de negociao, agencia, etc. Em virtude

disso, existe no interior das cidades um aglomerado de interiores, perifricos,

marginalizados, esquecidos, que no habitam/disfrutam a mesma distribuio de capitais.

O espao urbano , portanto, e sobretudo, uma inveno social, como nos indica

Roberto da Matta (1991). Isso parece bvio a princpio, mas no desdobramento de muitas

pesquisas tendemos ao final objetivar as privaes de certas populaes por meio de

8 Ver Fonseca, Cladia (1999) Quando cada caso no um caso: a etnografia nas pesquisas em educao,

Revista brasileira de educao, 10: 58-78.

.

Joo Matheus Acosta Dallmann

76

SOCIOLOGIA ON LINE, N12, DEZEMBRO 2016, Pg. 69 a 86 | DOI: 10.30553/sociologiaonline.2016.12.4

nossos prprios padres de consumo. Por isso, afirmamos que a pesquisa, aqui

corporificada na entrevista, uma prtica social que a todo instante precisa ser

problematizada pelo pesquisador.

Nesta linha de raciocnio escolhemos por discutir e, logo, problematizar alguns

trabalhos. Daremos nfase construo de seus objetos, as tcnicas empregadas e aos

resultados obtidos. Desse modo, teremos um pequeno grupo de abordagens sobre o tema

pobreza a partir das cincias sociais. Logo, o recorte de textos foi sem a preocupao de

buscar certas regularidades, mas com o intuito de colocar em perspectiva trabalhos

diferentes entre si, trabalhos estes que so extremamente relevantes para compreender o

Brasil contemporneo. Sendo assim, escolhemos A ral brasileira Quem e como vive

de Jess Souza (2009), Virao Experincias de meninos na rua de Maria Filomena

Gregori (2000) e Vozes do Bolsa Famlia Autonomia, dinheiro e cidadania de Rego e

Pinzani (2013). Temporalmente distantes, geograficamente desiguais, cremos que estes

trabalhos possam dar um panorama das pesquisas sobre pobreza no Brasil.

Ral

Quem se autodenominaria ral? Por trs da vergonha de assumir-se pobre no estaria

escondido um conjunto de prticas discriminatrias? Em outras palavras, se existe pobreza

no Brasil contemporneo ela certamente to heterognea como a populao em nosso

territrio nacional. Jess Souza em seu livro prope uma anlise no clssica da

sociabilidade do brasileiro precarizado. Souza no partir de um mal de origem, nem far

uma radiografia estatstica para provar sua hiptese de pesquisa, ir propor, a partir da

crtica ferrenha ao quantitativismo, uma anlise sociolgica do presente cuja perspectiva

metodolgica interdisciplinar. Souza elaborar seu trabalho com um conjunto de

autores passando pela filosofia, histria, etnografia, estatstica, cincia poltica, etc.

Logo de partida preciso definir qual o objeto terico elaborado pelo autor, a que se

deve a suspenso da ideia de classe no interior do debate de classes, bem como nas

discusses sobre estratificao social no Brasil. Esse questionamento de Jess Souza se

fundamenta na persistncia da pobreza como um fenmeno naturalizado na histria

brasileira. Nas suas palavras:

A pesquisa sociolgica em contextos de pobreza

77

SOCIOLOGIA ON LINE, N12, DEZEMBRO 2016, Pg. 69 a 86 | DOI: 10.30553/sociologiaonline.2016.12.4

O processo de modernizao brasileiro constitui no apenas as novas classes sociais

modernas que se apropriam diferencialmente dos capitais cultural e econmico. Ele

constitui tambm uma classe inteira de indivduos, no s sem capital cultural nem

econmico em qualquer medida significativa, mas desprovida, esse o aspecto

fundamental, das precondies sociais, morais e culturais que permitem essa

apropriao. essa classe social que designamos neste livro de ral estrutural, no

para ofender essas pessoas j to sofridas e humilhadas, mas para chamar a

ateno, provocativamente, para nosso maior conflito social e poltico: o abandono

social e poltico, consentido por toda a sociedade, de toda uma classe de indivduos

precarizados que se reproduz h geraes enquanto tal. Essa classe social, que

sempre esquecida enquanto uma classe com uma gnese e um destino comum, s

percebida no debate pblico como um conjunto de indivduos carentes ou perigosos,

tratados fragmentariamente por temas de discusso superficiais, dado que nunca

chegam sequer a nomear o problema real, tais como violncia, segurana pblica,

problema da escola pblica, carncia da sade pblica, combate fome etc.

(Souza, 2009, pp. 21)

Neste sentido, Souza e sua equipe de pesquisa querem desvelar o Brasil para alm do

mito, isto , sem deixar de lado a produo do pensamento social brasileiro, mas,

fundamentando-se no aspecto multiparadigmtico da pesquisa com populaes e

fenmenos to diversos. Este aspecto multiparadigmtico est ressaltado na linguagem do

texto, nas abordagens, nos termos, nas escolhas metodolgicas. Desse modo, sua pesquisa

pode problematizar as mulheres da ral, os homens da ral, a m-f institucional e

o racismo no Brasil, porque, segundo o autor qualquer mtodo ou tcnica de pesquisa

tem de se adequar ao objeto ou interesse particular de pesquisa ao qual ele serve

(Souza, 2009, pp. 80).

Bom, vimos que a construo do objeto de pesquisa neste trabalho seguiu uma lgica

que busca nas prticas sociais de um dado contexto as linhas de fissura, como nos

ensinou Deleuze, os aspectos que so obscurecidos ou relegados pesquisa de caso. Essa

classe de indivduos quantitativamente expressiva e qualitativamente alcanvel ao

pesquisador. Como ressalta Souza, uma pesquisa crtica deve primar por seu objeto

Joo Matheus Acosta Dallmann

78

SOCIOLOGIA ON LINE, N12, DEZEMBRO 2016, Pg. 69 a 86 | DOI: 10.30553/sociologiaonline.2016.12.4

mesmo que isso se d em detrimento da tcnica de interesse do pesquisador. Por

exemplo, o fetiche do nmero mesmo nas pesquisas qualitativas deve ser desfeito em

prol da profundidade com que so realizadas as entrevistas, provm da as sutilezas que

podem subsidiar novos objetos de investigao. Sendo assim, no h no livro de Souza

predileo por um determinado mtodo, e isso para nossa reflexo de extrema

importncia, o autor interpreta a realidade brasileira a partir da crtica s interpretaes

clssicas ou neoclssicas, por meio de entrevistas em profundidade e entrevistas dirigidas

(survey), inclusive sugere criticar, e o faz, as suas prprias pesquisas. Nesse

empreendimento cientfico, Souza quer fazer emergir a ao dos agentes na constituio

de suas vises de mundo (por isso dedica um captulo crtica de um autor

quantitativista), sem a conscincia de que os indivduos constroem discursos singulares, o

pesquisador, inexoravelmente enviesa a resposta do campo antagonizando o dissonante

que se sobressai, as contradies, as lacunas, o prprio comportamento do pesquisado

(Souza, 2009, pp. 435).

Virao

Quantas vezes j ouvimos no ambiente acadmico algum consternado com a situao

de alguma populao considerada pobre, sem meios para sobreviver, desprovida de

qualquer capacidade cognitiva ou poltica de fazer escolhas ou se expressar? Ao

questionarmos o interesse por essas populaes ou grupo de indivduos a resposta quase

sempre a mesma, - Quero dar voz a esses sujeitos! Imbudos destes sentimentos alguns

colegas se lanam a uma cruzada contra a pobreza e, ao final, acabam por culpabilizar os

sujeitos pobres por sua situao.

Essa pequena digresso serve para ilustrar a sobredeterminao encontrada por Maria

Filomena Gregori em sua pesquisa com meninos nas ruas de So Paulo. De acordo com

Gregori, h um senso comum de que a criana na rua est fora do lugar. Esse fora do

lugar significa que est fora de casa, da companhia de seus pais e, por isso, critica dessa

concluso Gregori quer demonstrar que os meninos de rua podem ilustrar a forma

vigorosa e trgica [dos] dilemas sociais, polticos e morais da sociedade brasileira

(Gregori, 2000, pp. 15). Para a autora inegvel a persistncia da pobreza como um fator

A pesquisa sociolgica em contextos de pobreza

79

SOCIOLOGIA ON LINE, N12, DEZEMBRO 2016, Pg. 69 a 86 | DOI: 10.30553/sociologiaonline.2016.12.4

fundamental na proliferao de crianas em situao de rua. No entanto, preciso evitar

as explicaes causais que, no intuito de dar um carter cientfico explicao dos

problemas, no permitem evidenciar as experincias e o universo material e simblico em

que se constitui a vida na rua.

Neste caso, a escolha de Gregori foi pela etnografia. Realizada entre os anos de 1991 e

2000, a pesquisa empreendeu esforos em compreender as prticas de diferentes grupos

de crianas na rua, bem como, as prticas dos agentes institucionais a eles destinadas. A

autora considera a importncia da estatstica, mas, ressalta que neste contexto de rua a

impreciso estatstica muito acentuada. Como exemplo dessa afirmao, ela escreve que

at 1980 o nmero de crianas na rua variava de 10 mil a 7 milhes. Com a etnografia, a

autora pode colocar em dialogo as prticas dos diferentes agentes institucionais e suas

vises sobre a vida nas ruas, nesta interao textual evidencia-se um tipo social de criana

de rua. Tal tipo social ainda no suficientemente explicativo para a autora.

Diante disso, no aceitando nenhuma explicao casustica, a autora deixa emergir

um termo que se transformar num mote explicativo. O termo virao empregado para

descrever e problematizar a prtica de se virar, uma noo exemplar para descrever o

processo singular das experincias travadas pelos meninos de rua (Gregori, 2000, pp.

18). Decorre da um panorama sobre as diferentes imagens produzidas por eles, por suas

leituras do mundo, pela efetividade de sua performance no mundo social e nas prticas

concretas. Suas experincias so importantes porque permitem o estudo de processos

extremamente dinmicos de constituio de identidade (Gregori, 2000, pp. 19).

Esta etnografia serve-nos como exemplo profcuo para a ideia de pobreza

marginalizada. Desprovida de qualquer meio pelo qual possa aceder aos bens pblicos

(emprego, salrio, transporte, etc.), eles precisam se virar como podem para obter o

mnimo necessrio, vejam que no o mnimo estipulado por grupo A ou B e, sim, aquilo

que eles acreditam ser o bsico para sua sobrevivncia. Desse modo, o singular que se

evidencia com as entrevistas em profundidade realizadas por Gregori, complexifica nossa

noo de fala, de discurso, isto , coloca-nos a possibilidade de problematizar os

enunciados coletivos e individuais atravs da compreenso de como se constroem tais

identidades. Ao narrar experincias individuais, tomando-as como biografias exemplares,

Joo Matheus Acosta Dallmann

80

SOCIOLOGIA ON LINE, N12, DEZEMBRO 2016, Pg. 69 a 86 | DOI: 10.30553/sociologiaonline.2016.12.4

a autora toca numa questo crucial ao dilema brasileiro.

No exagerado afirmar que essa trama institucional mais do que uma malha ou

uma rede passa a alimentar os aspectos singulares das experincias dos meninos de

rua: a virao e a circulao. De modo paradoxal, em vez de romper com este

circuito e ajud-los a construir um projeto de futuro, o mau relacionamento entre os

agentes de interveno resulta em uma situao em que o menino transformado em

objeto de disputa, alvo de conflitos. Circulando entre os vrios organismos, se

virando, ele sobrevive e se protege. Mas est longe de conseguir projetar um caminho

de sada da menoridade. Seu destino permanece na circularidade das aes. Parece

condenado a ser, para sempre, um menino de rua. (Gregori, 2000, pp. 53)

Jequitinhonha

Inmeras investigaes sociais so produzidas sobre a pobreza tornando-se um tema

bastante amplo do ponto de vista metodolgico. No entanto, existem poucos trabalhos em

que a voz dos pobres transcrita e tomada com seriedade, essa a perspectiva de

Walquiria Leo Rego e Alessandro Pinzani no seu livro Vozes do Bolsa Famlia: Autonomia,

dinheiro e cidadania. A partir do universo material e simblico dos pobres no Vale do

Jequitinhonha, os autores tratam da transferncia de renda pelo vis da experincia de

receber. Atravs da articulao entre autonomia, dinheiro e cidadania, eles contestam e

problematizam a luta contra a pobreza, o fim do coronelismo, o efeito do dinheiro sobre o

cotidiano das mulheres beneficirias, entre muitos outros temas que se desdobram nas mais

de 50 entrevistas realizadas.

Para resgatar uma tradio de pesquisa social pela chamada Teoria Crtica da Sociedade,

Pinzani elabora reflexes metodolgicas acerca da relao sujeito/objeto, um tema bastante

importante para a sociologia alem. Nessa linha, Pinzani discute pressupostos

epistemolgicos que levam os pesquisadores a no refletir seu papel na pesquisa qualitativa.

Para o autor, existe na esfera acadmica certa postura inconsciente de eliminao do pobre,

tal como nas palavras de Simmel, isto , quanto maior o abismo social que separa o

pesquisador do pesquisado, menor o tempo que se dedica escuta e fala destes sujeitos.

A pesquisa sociolgica em contextos de pobreza

81

SOCIOLOGIA ON LINE, N12, DEZEMBRO 2016, Pg. 69 a 86 | DOI: 10.30553/sociologiaonline.2016.12.4

Consequentemente, maior a possibilidade de estigmatizar, romantizar, enviesar o

resultado do trabalho.

No que se refere forma pela qual se desenvolveram os trabalhos de Rego e Pinzani, a

escolha dos autores foi por fazer uma etnografia longa (cinco anos), com entrevistas em

profundidade e anlise documental (textos, jornais, legislao, propostas de lei, discursos

oficiais do Governo Federal). A partir da filosofia do dinheiro de Georg Simmel, levantam

hipteses sobre o significado simblico e material dos bens de consumo para os pobres

daquele contexto especfico. Desse modo, percorrendo a fala dos sujeitos, os autores,

intercalam reflexo terica com discursos que emergem no campo. Para corroborar algumas

das teses da obra ainda lanam mo de dados quantitativos, que so interpretados luz da

experincia de campo.

O objeto terico, essa construo que habita entre o cotidiano que se busca compreender e

as ferramentas tericas que se tem para explicar, delimita-se atravs da interao dos pobres

com o Programa Bolsa Famlia, em outras palavras, Rego e Pinzani tomam por objeto a

construo de uma nova sociabilidade nos contextos de pobreza extrema, lugares onde

nunca antes na histria deste pas havia chegado nenhum tipo de proteo social. Embora,

cheguem concluso de que paulatinamente a luta contra a pobreza tem vencido os ciclos

intergeracionais de excluso social, os autores ressaltam que ainda milhes de brasileiros

vivem sob a misria, completamente fora das heranas bsicas da civilizao (Rego &

Pinzani, 2013, pp. 220).

Diferente dos trabalhos anteriormente expostos neste artigo, em Vozes do Bolsa Famlia

encontramos uma articulao entre trs categorias/conceitos que segundo os autores so

chaves para a superao da pobreza. A autonomia ao receber uma transferncia direta de

renda vai desenvolvendo no interior dessas camadas um sentimento de pertencimento ao

mundo, o conceito que utilizam o de empowerment ou empoderamento. Este notrio

principalmente para as mulheres: muitas delas nunca haviam estado com dinheiro em suas

mos, quem diria um carto magntico. A titularidade restrita s mulheres, no caso do

Bolsa Famlia, para Rego um passo para a luta contra a violncia de gnero e o

machismo. Na voz das mulheres, so elas quem melhor gerem a renda familiar e, por isso,

atravs delas que a mudana de vida deve iniciar. Como vemos, a autonomia deriva da

Joo Matheus Acosta Dallmann

82

SOCIOLOGIA ON LINE, N12, DEZEMBRO 2016, Pg. 69 a 86 | DOI: 10.30553/sociologiaonline.2016.12.4

renda (dinheiro), ao ter acesso ao dinheiro os beneficirios podem decidir sobre a

utilizao, sobre como, onde e quando empreg-lo. Nos tempos da cesta bsica2 no se

podia escolher os itens, era muito restrito a um mito alimentcio, nele protena + protena

era sinnimo de boa sade. Em suma, o dinheiro na mo dessas mulheres transforma o

cotidiano e coloca no jogo social novas possibilidades de ao individual e conjunta. Bom,

mas somente a transferncia de renda possibilita a cidadania? Certamente, no. O maior

entrave, e, talvez, um dos resultados mais originais desta pesquisa, a falta de autorrespeito

dessas populaes pobres, que advm da interiorizao de uma imagem criada pelo outro.

Retroalimentada nos meios de comunicao, nas aes do Estado, nos servios pblicos

atravs de alguns agentes preconceituosos, a pobreza desqualificada, ou a desqualificao

social dos pobres, se d pela ideia de que todo o indivduo deve responsabilizar-se por sua

situao econmica sem que ningum, nem mesmo o Estado, tenha de interferir para ajuda-

lo. A imagem de que pobre pobre porque quer, porque no busca trabalho, se constri e

alimenta o dio pobreza que vivemos na atualidade. Os autores descobriram em seu

campo um sentimento de vergonha e de reproche ao benefcio, um entrave para uma

cidadania ativa.

Conscincia comum, conscincia erudita

No parlamento brasileiro quando vemos o embate discursivo que se estabelece no que se

refere a temas como a pobreza, a violncia de gnero, a menoridade penal, o aborto, podemos

concluir, basicamente que o contedo das elaboraes polticas que se efetivam em propostas

de lei resultante de um senso de responsabilidade com o mundo baseado em pr-noes de

sentido comum, salvo algumas excees. Decorre da, que os termos da vida cotidiana

impem-se como evidncias que o socilogo precisa e deve questionar. Portanto, comum

que todo estudo sobre a pobreza parta de uma posio de incmodo sobre o mundo social,

mas, como bem escreveu Bourdieu (1992), esse incmodo (problema social) deve

transformar-se em um problema sociolgico, caso contrrio ser somente sociologia

espontnea.

Nos trs trabalhos acima resenhados podemos observar de maneira consistente a

construo da pobreza enquanto um problema sociolgico. Viu-se a necessidade de

A pesquisa sociolgica em contextos de pobreza

83

SOCIOLOGIA ON LINE, N12, DEZEMBRO 2016, Pg. 69 a 86 | DOI: 10.30553/sociologiaonline.2016.12.4

questionar a prpria noo de pobreza, o raciocnio binrio que ope as caractersticas dos

pobres s dos ricos, bem como a arbitrariedade em quantificar os pobres a partir de uma linha

monetria. Sendo assim, em todos os textos o objeto de estudo por excelncia no , portanto,

a pobreza, nem os pobres quantificados, como um fenmeno social substancializado, mas, a

relao de interdependncia entre eles e a sociedade como um todo. Nesta passagem, de um

problema social (a existncia de pobres) para um problema sociolgico (as relaes sociais

entre os diferentes estratos da populao), que hora parece um fato simplrio, temos o

surgimento de um arcabouo de possibilidades para pesquisar o tema. Assim, no mais nos

interessa a falta de meios para sobreviver, mas, por exemplo, os mecanismos de designao

dos pobres nas diferentes sociedades, as experincias concretas em relao aos diferentes

programas sociais, a evoluo das taxas de pobreza e a delimitao dos ndices (sempre

problematizados) e por ai vai. Em suma, ao tratarmos a pobreza, enquanto um problema

sociolgico, devemos estar alertas s tentaes da sociologia espontnea.

Mesmo munidos de um vocabulrio explicativo, precisamos problematizar o prprio uso

dos termos que empregamos como nos alerta Lahire (1999), ao lanarmos de alguns

conceitos como os de mundo social, grupo social, origem social, necessrio que no

os utilizemos como fontes explicativas, casusticas. Esse descolamento da teoria realidade,

mecanismo que implica uma boa retrica, esconde as possibilidades, tanto nas pesquisas

quantitativas, quanto nas qualitativas, de evidenciarmos aquilo que est subtrado das

generalizaes, dos grandes surveys. Deslocando o olhar [...] para a singularidade evidente

de qualquer caso a partir do momento em que se consideram as coisas no detalhe, o socilogo

mostra aquilo que os modelos tericos fundados no conhecimento estatstico e na linguagem

das variveis ignoravam (Lahire, 1999, pp. 32), em outras palavras, imprescindvel

heterogeneizar o homogeneizado nas explicaes sociolgicas no contextualizadas.

Sendo assim, nenhum socilogo deve ignorar a complexidade das categorias pobre e

pobreza. Em qualquer circunstncia inexoravelmente necessrio contextualizar a construo

do seu objeto cujo tema a pobreza. Isso no significa dedicar linhas e linhas num ritual

quase religioso para descrever a histria da pobreza no mundo, , antes de qualquer coisa,

explicitar onde a construo do objeto se coloca na configurao social na qual vivem os

pesquisados e o pesquisador. Cada configurao social obedece a especificidades

Joo Matheus Acosta Dallmann

84

SOCIOLOGIA ON LINE, N12, DEZEMBRO 2016, Pg. 69 a 86 | DOI: 10.30553/sociologiaonline.2016.12.4

interacionais e do vazo a uma gama de particularidades. Essas particularidades no podem

ser vistas somente como adornos tpicos de sociabilidades menos complexas, mesmo

descritas densamente elas podem/devem ter um carter explicativo. Por querer dizer tudo e

considerar tudo como significante, os socilogos s vezes perdem a noo de estruturao

dos seus objetos de pesquisa (Lahire, 1999, pp. 41). Baseado nesta noo estrutural Paugam

(2005, 2015), como j vimos anteriormente, estabelece que no interior daquilo que

consideramos pobre ou pobreza, devemos possibilitar o surgimento de especificidades que

tornam a categoria subdividida em razo das experincias que se vivenciam. simples, nem

todos os pobres vivenciam/experienciam a pobreza da mesma forma, nem numa mesma

sociedade, muito menos em contextos culturais e polticos diferentes.

No trabalho de Pinzani e Rego (2013) a noo de desqualificao social aparece junto

ideia de pobreza integrada. Isto porque, a desqualificao social um processo de mudana

no perfil da assistncia ao longo das dcadas, essa mudana empurra as camadas populares

mais vulnerveis s franjas sociais que, paulatinamente, perdem o acesso ao emprego e,

consequentemente, a seguridade social. Desse modo, a experincia da pobreza, que pode ser

apreendida nos trs textos, conjuga fragilidade internalizada (vergonha, falta de

autorrespeito), fragilidade negociada (os testes de meios, o cumprimento de obrigatoriedades

para receber um beneficio, o atestado de pobreza), a espera pela assistncia (no Brasil temos

o Cadastro nico de programas sociais, cadastrado neste sistema o candidato ao beneficio,

enquanto espera, deve manter-se dentro dos limites monetrios de pobreza) e dispositivos de

represso organizao para reivindicar (a criminalizao da luta por moradia um dos

exemplos possveis). Assim, a experincia da pobreza moldada a partir do jogo entre a

estratificao social e a construo socio-poltica das instituies cuja funo a assistncia

social. Destarte, o estatuto social de pobre se constituiu num campo de embate poltico que

est sempre atrelado economia e a governamentalidade.

Nesse mesmo caminho, a pobreza, numa perspectiva metodolgica, assume ainda mais

trs formas: a fragilidade (diferente da anterior), a dependncia e a ruptura dos laos sociais.

Os meninos na rua, que vivem a experincia da virao e da circulao entre instituies,

esto certamente vivendo sob frgeis laos sociais, onde sobretudo estar vivo conta. Eles

perderam os laos familiares, o vinculo com a escola e, por inmeras razes, tm receio

A pesquisa sociolgica em contextos de pobreza

85

SOCIOLOGIA ON LINE, N12, DEZEMBRO 2016, Pg. 69 a 86 | DOI: 10.30553/sociologiaonline.2016.12.4

assistncia. A assistncia, essa instituio do Estado social, personificada pelos agentes

responsveis por suas aes prticas, sendo essas aes em muitos casos repressiva,

moralista, como descrito por Gregori (2000), Rego e Pinzani (2013), ao contrrio de

reintegrar elas caminham entre a dependncia e a ruptura dos laos.

Um aspecto muito importante na configurao de uma poltica social, que mais bem um

programa como no caso do Bolsa Famlia, a experincia da dependncia. Em razo de

circular na opinio publica a ideia de acomodao dos pobres, muitos trabalhos no mbito

das humanidades tm ressaltado a agencia dos beneficirios e suas lutas pela superao dos

ciclos intergeracionais de pobreza. Rego e Pinzani (2013) assim tambm procedem em sua

etnografia. No entanto, se ousassem criticar o partido buscariam a compreenso da

dependncia, esse aspecto fundador da assistncia, nos dispositivos que constituem a

participao em um programa social. Em outras palavras, esses dispositivos (um deles o

impedimento de obter remunerao fixa com carteira assinada) empurram os trabalhadores

pobres aos empregos mais precrios. Submetidos a essas configuraes, a dependncia uma

prtica do Estado e no uma ao do indivduo.

Consideraes finais

Em que medida, o depoimento dos pobres transcrito pelo pesquisador no , tambm, a

construo de uma memria coletiva? Aquilo que neste artigo chamamos de narrativas

particulares, de singularidades do homogeneizado, ao transformar-se em texto atravs do

filtro do autor , de certa maneira, uma ao poltica necessria, mas antes, uma indagao

sociedade: Se vivemos sob a gide da civilizao, por que ainda necessrio evidenciar

injustias sociais? Nosso intuito com esse texto o de refletir sobre abordagens

metodolgicas, mas tambm, mostrar como elas remontam problemas significativos e

urgentes. A escolha da tcnica ou do mtodo em todos os casos descritos obedeceu a um

mesmo critrio, melhor compreender as formas elementares e particularizadas da experincia

na pobreza, indispensvel num pas continental.

Em sntese, esse o ponto que devemos priorizar, isto , todas as tcnicas de pesquisa

precisam ser empregadas para melhor conhecer os objetos, as prticas sociais, a limitao a

uma determinada abordagem causa-nos cegueira intelectual, uma cegueira que nos

Joo Matheus Acosta Dallmann

86

SOCIOLOGIA ON LINE, N12, DEZEMBRO 2016, Pg. 69 a 86 | DOI: 10.30553/sociologiaonline.2016.12.4

proporciona um conhecimento medocre, pr-estabelecido, indubitavelmente desimportante

para o desenvolvimento de uma sociedade. A proposta de reflexo elaborada aqui a de que

nenhum estudo sobre um tema to imprevisvel e cclico (uma contradio de termos) como a

pobreza pode ser conclusivo, fechado. O que proponho que descubramos em nosso objeto o

aberto, o inconstante, o contraditrio. Se descobrindo isso, evidenciarmos o caminho por ns

percorrido, certamente alguns problemas sociolgicos desaparecero, com felicidade.

Consequentemente ento, nenhuma tcnica isolada /deve ser suficientemente conclusiva,

complementares, elas, produzem um efeito social sobre a opinio pblica, devendo o

pesquisador estar atento ao que publica e assina em tempos de publicar ou perecer.

Referncias

Bourdieu, Pierre (2007), A Distino: crtica social do julgamento, Porto Alegre, Editora

Zouk.

________________(2003), A misria do mundo, Petrpolis, Vozes.

________________(1992), O Poder simblico, So Paulo, Bertrand.

Castel, Robert (2004), La inseguridad social: Que es estar protegido?, Buenos Aires,

Manancial.

______________(1995), La metamorfoses de la question sociale: Une chronique du salariat,

Paris, Fayard.

Da Matta, Roberto (1991), A Casa & a rua: espao, cidadania, mulher e morte no Brasil,

Rio de Janeiro, Guanabara Koogan.

Fonseca, Cladia (1999) Quando cada caso no um caso: a etnografia nas pesquisas em

educao, Revista brasileira de educao, 10: 58-78.

Foucault, Michel (2008), O Nascimento da biopoltica, So Paulo, Martins Fontes.

Gregori, Maria Filomena (2000), Virao: experincias de meninos nas ruas, So Paulo,

Companhia das Letras.

Ivo, Anete Brito Leal (2008), Viver por um fio: pobreza e poltica social, So Paulo,

Anablme.

Lahire, Bernard (1999), Sucesso escolar nos meios populares. As razes do improvvel, So

Paulo, tica.

A pesquisa sociolgica em contextos de pobreza

87

SOCIOLOGIA ON LINE, N12, DEZEMBRO 2016, Pg. 69 a 86 | DOI: 10.30553/sociologiaonline.2016.12.4

Paugam, Serge (2015), A Pesquisa Sociolgica, Petrpolis, Vozes.

______________(2005), Desqualificao social: ensaio sobre a nova pobreza, So Paulo,

EDUC.

Paugam, S; Shulteis, F. (1998), Naissance dune sociologie de la pauvret, In: G. Simmel

(1998), Les pauvres, Paris, Presses Universitaire de France.

Rego, Walquiria Leo; Pinzani, Alessandro (2013), Vozes do Bolsa Famlia: Autonomia,

dinheiro e cidadania, So Paulo, Ed. Unesp.

Simmel, Georg (1998), Les Pauvres, Paris, Presses Universitaires de France.

Souza, Jess (2009), A Ral Brasileira Quem e como vive, Belo Horizonte, Ed. UFMG.

Wacquant, Loc (2011), As Prises da Misria, Rio de Janeiro, Zahar.

________________(2003), Punir os Pobres: a nova gesto da misria nos Estados Unidos,

Rio de Janeiro, Revan.

Data de submisso: 26/02/2016 | Data de aceitao: 28/12/2016