a geografia dos conflitos sociais da américa latina e caribe

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  • Tramontani Ramos, Tatiana. A geografia dos conflictos sociais da Amrica Latina e Caribe. Informe final del concurso: Movimientos sociales y nuevos conflictos en Amrica Latina y el Caribe. Programa Regional de Becas CLACSO. 2003

    Disponible en la World Wide Web:http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/becas/2002/mov/tramon.pdf

    www.clacso.org RED DE BIBLIOTECAS VIRTUALES DE CIENCIAS SOCIALES DE AMERICA LATINA Y EL CARIBE, DE LA

    RED DE CENTROS MIEMBROS DE CLACSOhttp://www.clacso.org.ar/biblioteca - biblioteca@clacso.edu.ar

    A Geografia dos Conflitos Sociais da Amrica Latina e Caribe

    Tatiana Tramontani Ramos

    Introduo

    Tanto o noticirio jornalstico como o mundo acadmico (Tadei e Seoane, 2000; Cecea e Sader; 2002 Porto-Gonalves, 2001a) vm acusando a intensificao dos conflitos sociais na Amrica Latina e Caribe, sobretudo na segunda metade dos anos 1990. Trata-se, na verdade, de um novo padro de conflitividade que vem se configurando na regio e que est colocando alm de novas questes polticas, tambm questes para a investigao cientfica. nesse marco que se inscreve nossa investigao acerca da geografia dos conflitos sociais na Amrica Latina e Caribe.

    So grandes os desafios que se apresentam para nossa investigao a comear pela prpria diviso do trabalho cientfico que separa disciplinas como a Geografia e as Cincias Sociais cujo dilogo, acreditamos, fundamental para elucidar as questes que esto se colocando. Porto-Gonalves (no prelo) e Coronil (2000), para no insistirmos nos pioneiros Henry Lefbvre (1981) e Michel Foucault (1998a e 1998b), vm chamando a ateno para a importncia de recuperar o espao enquanto dimenso fundamental da matria nas anlises scio-histricas, o que pode ser atestado at mesmo pela constituio de um novo lxico poltico com expresses como globalizao, regionalizao, blocos regionais, territrios e territorialidades para ficarmos com algumas das mais freqentes.

    Um dos primeiros desafios que nossa pesquisa teve resolver foi o de constituir um quadro terico-conceitual adequado que pudesse dar conta dessa problemtica. E, mais ainda, estabelecer um conjunto de procedimentos tcnicos e operacionais coerente com a opo terico-metodolgica para o tratamento do material emprico. O que oferecemos nesse texto um avano terico-metodolgico a partir de um rico material emprico fornecido pela Revista do Observatrio Social da Amrica Latina no ano de 2001.

    Fundamentos terico-conceituais: em busca da compreenso da geograficidade dos conflitos e movimentos sociais na Amrica Latina

  • Toda a nossa investigao parte da considerao histrica e geograficamente observvel de que o conflito social parte das relaes sociais e de poder. Nesse sentido, o conflito social considerado no s como um fato social em sua positividade como, tambm, um fato-sendo-feito e, por isso, aberto s circunstncias do lugar e do tempo em que ocorre. As relaes sociais e de poder no se constituem como uma ordem cuja normalidade, vez por outra, seria acometida por disfuncionalidades, anormalidades, desordens e conflitos. Ao contrrio, os conflitos sociais so parte da ordem social que constituem e que por meio deles se transforma/se afirma. Assim, o conflito social ganha uma enorme relevncia terico-poltica e, como tal, se coloca como um conceito fundamental para a constituio das cincias sociais na perspectiva de um campo do conhecimento preocupado com as mudanas e com as transformaes da sociedade. A compreenso da geograficidade dos conflitos sociais se faz de grande importncia na afirmao do territrio como um complexo; complexo de foras, complexo de interesses, de necessidades, desejos e compreenso da conflitividade como uma forma de resistncia ao alisamento do territrio e abstrao das diferenas..

    Recusamos, assim, a tradio sociolgica que v o conflito como anomia (Durkheim) como se fora uma disfuno social. Com isso nos afastamos das tradies funcionalistas com fortssimas razes nas cincias sociais (Talcott Parsons) e na Geografia (Michel Rochefort, Bernard Kayser entre outros). Admitir o conflito social como algo aberto, contraditrio e historicamente indeterminado se aproximar de uma perspectiva terica preocupada com as transformaes e mudanas sociais e no com uma cincia social da ordem. Afastamo-nos, assim, do positivismo na prpria medida que aceitamos o conflito social como conceito em torno do qual constitumos nossa investigao. Para ns o conflito social expresso das mudanas em ato e, portanto, a expresso das tenses e contradies da prpria ordem social que constitui na prpria medida que transforma. Assim, nos aproximamos de uma perspectiva dialtica no no sentido hegeliano que pressupe um ser em vias de realizar uma essncia que j estaria desde o incio, como se fora um ser biolgico cujo embrio j conteria as determinaes do seu desenvolvimento, como querem certas teorias que acreditam no determinismo gentico. Ao contrrio, o conflito social est inscrito numa dialtica aberta que se faz por meio dos prprios conflitos onde os diferentes sujeitos implicados constrem, nas prprias circunstncias, seus possveis histricos. Da a expresso, s aparentemente ambgua, de que o conflito social historicamente indeterminado, na medida que a indeterminao no abstrata mas, ao contrrio, a abertura se faz em condies socio-histricas concretas. Assim, a expresso que a princpio pareceria negar a afirmao central do materialismo histrico de que o ser social historicamente determinado, na verdade lhe empresta um sentido mais denso por meio de uma dialtica aberta, evitando a idia de uma essncia j dada que se realiza na histria evolucionismo, historicismo.

    Dessa forma, o conflito social nos oferece a possibilidade emprica de abordar as contradies sociais. Ele a manifestao concreta dos antagonismos de grupos e classes e por meio dele se evidencia a experincia concreta de construo de sujeitos sociais, onde se configuram a construo de identidades

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  • coletivas, de motivaes e interesses compartilhados, estratgias de luta, assim como formas de organizao e manifestao. Assim, o conflito no um outro das relaes sociais e, sim, parte constitutiva delas.

    O conflito evidencia, assim, a formao das classes e grupos sociais e coloca em relevo o protagonismo social e dessa forma permite a identificao emprica da classe concreta e no da classe terica ou classe no papel, como to bem criticara Pierre Bourdieu. A classe social deixa de ser vista, aqui, como uma substncia uma coisa que teria uma essncia e passa a ser vista como formao.

    A categoria conflito social nos abre, assim, novas perspectivas dentro das cincias sociais, pois possibilita a construo de um referencial terico a partir do prprio lugar em que ele se d e por aqui, j comeamos a tentar estabelecer a relao entre sociedade e espao. Embora possamos identificar post festum padres e at mesmo encontrar condicionalidades socio-historicamente constitudas E. P. Thompson (1981) fala de presses -, o conflito social como contradio em ato pode trazer novas questes a serem pensadas e teorizadas que se colocam a partir de lugares e situaes que escapam aos padres tanto tericos como polticos estabelecidos. Assim, nossas investigaes tanto apontam para a possibilidade de identificarmos padres, processos e leis gerais, como para as singularidades a partir dos conflitos sociais e dos lugares onde ocorrem e que produzem com sua ocorrncia. Para isso a considerao da geograficidade do social fundamental, conforme veremos a seguir (Porto-Gonalves e Bruce, 2003. No prelo).

    Destaquemos, aqui, que o lugar no sentido geogrfico do termo na sua materialidade uma construo social e, sendo assim, o lugar de ocorrncia do conflito no indiferente ao devir social, ao contrrio, fundamental para compreend-lo. A sociedade no se constri primeiro a si prpria para, depois, construir seu espao geogrfico. No, a geograficidade se constituiu no mesmo movimento com que se constitui a sociedade e, assim, no cabe estabelecer uma relao de causalidade seja do espao para a sociedade, seja da sociedade para o espao. Enfim, o lugar no externo ao social sua espessura. O homem um animal territorial (Zaoual, Hassan El Mosaico de Culturas Encara a Un Mundo Uniforme , in Polis Revista de la Universidad Bolivariana, volumen 1, no. 02, Santiago de Chile, 2001, p. 487).

    Considerar a geograficidade do social nos permite, assim, captar sua dinmica poltica concretamente como to bem destacaram H. Lefebvre e Michel Foucalult o que podemos observar quando assimilamos acriticamente o pensamento colonial, a colonialidad del saber (conforme Lander et al, 2000), como na idia de modernidade se olvida sua dimenso conflitiva que lhe constitutiva que a colonialidade. O mais interessante nesse caso que se opta por viso do mundo provinciana, a europia, e se perde a perspectiva mundial que exigiria considerar a modernidade conjuntamente com-seu-outro que a colonialidade e, assim, o espao mundial, nos seus diferentes lados, aparece ativamente na constituio do sistema-mundo. Afinal, a Europa no assumiria o lugar que ocupou aps 1492 no fora o ouro, a prata, as matas, os rios, os solos, o trabalho escravo, a explorao indgena na Amrica e na frica. No fora esses lugares significativos para a conquista e dominao europias e no teriam sido objeto de

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  • todo o esforo moderno-colonial que os europeus lhe emprestaram. Mas, exatamente a, reside a contradio de s se considerar o tempo posto que todo esse esforo indica o papel ativo que esses lugares, esses povos tiveram no pr